


As palavras em movimento... por António Bondoso



Vem a propósito dos dias que vão correndo....
A CHUVA E A MÚSICA...
As árvores ainda despidas
Impedem o jogo de sombras
Na relva molhada.
Porque chove
E não há sol.
E as almas circulam
Gémeas de tristeza
Excepto um jovem casal
Ainda no sonho de um mundo só seu.
E chove.
E não se vê o rio dos meus encantos
Para além da cinzenta placa de betão.
Mas ouve-se música...
E deixo-me levar a outros tempos
Diferentes imagens outros afectos
Pingos de sempre mas de novas roupagens.
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Porto-Março 2010.
SÃO QUATRO !
São quatro
E partiram bem antes do fim da história.
Deixaram uma saudade perdida
Um vazio imenso
Neste mundo onde se move a minha vida.
Se eu pudesse reverter o tempo
E a alma contada por minutos
O ontem seria tempo ainda hoje
Teimosamente a rodar no tic-tac.
Poderia assim continuar a lembrar de minha mãe
O seu sorriso sofrido
E de meu pai ser saudoso
Do seu sorriso matreiro!
Mas outra mãe se revela
E outro pai se adivinha
Laços novos e antigos
Apertam todo o espaço
Cortam-me a respiração
Estas memórias cansadas
Que o tempo revolto vira
E se apressa a descobrir
Que nunca faz mal sorrir.
São quatro.
Sinto a falta que me fazem
E de todos eles a fé
Num dia seguinte novo !
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Maio, 2010
A PROPÓSITO DO 5 DE OUTUBRO DE 1910.
QUE O MESMO É DIZER... A IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICA !
O país não está preparado !
Faz cem anos. E não parece. Dizem que a História não se repete... mas, não sem alguma preocupação, começo a pensar que tudo é possível. A Primeira República foi um desastre, a Segunda foi o que ditatorialmente sabemos e agora a Terceira não leva um bom caminho. É verdade que têm soprado uns maus ventos de fora...mas o que realmente me preocupa é a eterna falta de capacidade e de honestidade para fazer as coisas bem feitas.
O país – até parece que o António tinha razão! – dá a triste ideia de que nunca está preparado para assumir as mudanças. Os avatares deste novo mundo! E não se coloca em questão a problemática das novas tecnologias. É tudo mais profundo... mais arrevesadamente profundo!
Acabadinha de chegar... aparece Fernando Pessoa e diz : - “o observador imparcial chega a uma conclusão inevitável: o país estaria preparado para a anarquia; para a república é que não estava”.
O país nunca esteve – nem está – preparado para coisa alguma !
Não estava preparado para ser independente; os descobrimentos terão sido uma circunstância feliz, mas o país não estava preparado para assumir um encargo de tal envergadura; o peso de meio mundo era demasiado. Tal como depois – mais tarde – não estava preparado para a colonização e, finalmente, impreparado para a descolonização. Pelo meio, nunca esteve preparado para a democracia e – quando ela foi oferecida pelos militares, outros que não aqueles que a derrubaram em 1926 – ninguém estava verdadeiramente preparado para os seus efeitos, chegando mesmo a colocar em perigo as liberdades !
O país não estava preparado para a CEE; o país não estava preparado para o EURO; o país não está preparado para a CPLP; o país não está preparado para enfrentar a crise internacional; o país não sabe lidar com o défice; ele próprio é um défice permanente; o país nunca esteve – nem está – preparado para coisa alguma!
Não deixa de ser curioso recordar um texto ( e uma voz ) de Agostinho da Silva. Ele próprio, numa gravação de António Escudeiro. O título :- Tudo mudou e o Diabo deste País não muda. Um pouco a propósito de uma sua reflexão sobre o chauvinismo. Diz e escreve o Professor:- “Não há nenhum país como Portugal. É chauvinista um sujeito dizer que todos os países têm mudado de fronteiras e que o nosso amigo continua com um pequeno arranjo que houve por causa do vizinho, quanto a este pontinho ou àquele pontinho, mas que continua com as fronteiras, país único no mundo. Tudo mudou e o diabo deste país não muda, não é assim ? E que depois houve todas aquelas ideias de como era o oceano, de como era a geografia ou o o oceano, e tal, e o que é que aconteceu ? Aconteceu que foram os portugueses que derfam ao mundo o mar de que o mundo não tem jeito de se desfazer”. E prossegue a deliciosa prosa ( e filosofia!) do mestre Professor Agostinho da Silva:- “Então, os cavalheiros fabricaram o país – que não podia ser, mas fizeram -, único, depois fabricaram o barco que não havia – e os tipos fizeram – e não havia outro jeito senão aceitá-lo, não é? E, por outro lado, ainda há o projecto do futuro. Alguém está pensando no mundo como pensaram os portugueses, com essa amplitude ? Coisa nenhuma! [...] e agora o que os portugueses têm que dizer o mais pacificamente que puderem e o mais teimosamente que puderem é que o mundo tem que ser aquilo que eles querem que seja. Quando agora começa a aparecer a ideia de que, como a nova Europa que vai fazer, com a Alemanha, com o Leste e com isso e com esses interesses todos, que vai começar a ir para a Bulgária, e para as Hungrias, e para as Polónias, e essa coisa, o dinheiro que vinha para Portugal. E que Portugal vai ser um pobrezinho, uma ilhota aqui nesta Europa, pobrezinho e tal, sem o tal dinheiro...felizmente! Porque o dinheiro que vinha da Europa era só para fazer os portugueses europeus. Não queremos para nada essa porcaria de ser europeu. Queremos é repetir aos europeus que não vão ter outro remédio senão submeter-se ao que é cultura portuguesa e fabricar um mundo que não tenha pressões económicas, e que as crianças estejam livres, e que não haja para ninguém prisões”.
Palavras gravadas nos anos de 1990...mas só publicadas em 2006, no centenário do seu nascimento.
Naquela altura, como hoje, não há que ter medo! É preciso seriedade e honestidade na governação, mas é também necessário derrotar os profetas da desgraça. E colocar travões às pressões da alta finança – seja ela europeia ou americana. O que eu duvido que possa vir a acontecer! Os interesses eleitorais falam mais alto! Tal como a demagogia dos políticos que vamos tendo – quer nos governos, quer nas oposições!
É que, afinal, o país continua a não estar preparado para coisa alguma!
Mas isso não me inibe de gritar aqui, bem alto, um Viva a República!
ÁRVORES DA MINHA INFÂNCIA
Grandes de porte
Frondosas de sombra
Raízes rompendo esventrando o chão
Húmidas hastes rastejando em bruto.
As árvores da minha infância
(na sua maioria)
Parece terem hibernado
E depois acordado
De um sonho mal contado.
Robustas e morenas
Centenárias e serenas
Aspirando o Sol ,
Projectam a sombra nos passeios da Ilha
Protegem quem passa
E nunca repara
Nos gestos de carinho
Das folhas e flores,
Ramos enlaçados em velhos amores
Memórias salientes de veias curtidas
Tropeçando em mim
No peito dormidas
Sonhadas jardim
Infância suspensa!
AB. Em "Seios Ilhéus" - 2010.
Serve esta nota introdutória de mote a uma simples reflexão sobre o actual "clima" dos incêndios em Portugal. Incêndios ?
Mais calor? Alterações Climáticas?
É sempre bom lembrar os “desafios” de Aquilino.
Como os de “Quando os Lobos Uivam”, que eu recordo em “Da Beira !”, de 2008 : - “Querem retemperar a nação e a raça? Arborizem, arborizem a serra...”.
Pois, dizia eu na carta ao Mestre ... “mas muito poucos ou quase ninguém lhe deu ouvidos. E tudo se foi queimando na voragem das chamas dos incêndios cada vez mais violentos. As tentativas de reflorestação só vingam e duram o tempo que os “interesses instalados” vão permitindo. Os ciclos de vida e de morte são cada vez mais curtos. De outra sorte, este tipo de fenómenos (que é preocupante na Amazónia) apenas representa um dos vértices do chamado “aquecimento global”, o qual tem provocado a redução drástica das calotes polares, seguindo-se o degelo e a subida das águas dos oceanos. Consequência inevitável (por falta de vontade política dos líderes mundiais) vai ser o desaparecimento de algumas ilhas e a tranformação da fisionomia costeira de alguns países e continentes, dentro de alguns anos, incluindo o rectângulo português europeu – que já hoje não parece o mesmo. E os rios de água límpida (apanhada com a concha da mão) que admirava (Paiva, Távora, Douro, Minho, Coura ou Âncora), já não matam a sede de caminheiros ou peregrinos”.
Será já um tempo sem retorno ?
ESPINHOS...
O castanheiro, frondoso
Marca a diferença na mata ao fundo do vale.
Mais ao lado fica o Tedo
Um fio de água corrente que chega cansado ao Douro.
Entre a sombra do castanheiro
E essa ribeira seca
Vivem seres dos mais estranhos
Rasteiros e deslizantes que se escondem entre as folhas
Fossudos e cabeçudos barulhentos quanto baste
Ou então de som matreiro
Como o lobo e a raposa.
Astúcia acima de tudo para além do natural
Na mata vive um país roído por muitos males
Seu remédio duvidoso não só tarda
É ilusão
Dos que choram e se lamentam à sombra do castanheiro
Sem ouriços sem espinhos
Um sonho eterno guardado.
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Agosto 2009
AB.
NELSON MANDELA – O HOMEM !
Entre os inúmeros adjectivos elogiosos que têm surgido a propósito de Nelson Mandela – o homem que hoje se homenageia por iniciativa das Nações Unidas – há, infelizmente, muitos lugares-comuns. Como aquele de Durão Barroso:- Nelson Mandela é um líder muito carismático.
Uma pequena evidência. Carismático? Mandela não apenas mudou um país. Conseguiu (re) construí-lo sobre os escombros de um regime controverso, polémico, desumano. E fê-lo com um grande coração e com uma mente aberta e visionária. Mandela soube perdoar sem perder a firmeza dos grandes líderes. E não conseguiu apenas um Estado – democrático e de direito – está também a ganhar uma Nação.
Que os seus “ensinamentos” perdurem. Para bem da estabilidade africana e mundial.











