2011-07-18

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !


ESTÃO A "MATAR" A CPLP...

Quinze anos de vida definitivamente "apagados". Não é que tenha sido uma vida fácil e completamente feliz. Mas 15 anos são uma marca mítica.

15 velas no "bolo de aniversário" não chegaram a ser acesas. Seria sempre simbólico, mas significariam manter a chama acesa, numa época de dificuldades a nível mundial.

A "presidência" angolana da organização, o secretariado executivo de Simões Pereira, e os governos dos "oito" faltaram à cerimónia. Mais uma vez, poderia repetir-se a retórica... mas haveria um sinal de que a Comunidade estava viva !

Confesso não ter visto a RTP-África. E nos jornais de referência, em Portugal, apenas duas crónicas no "i" e no DN. E não fossem umas breve declarações, há dias, de um Sec. Estado do MNE português... e eu teria a certeza de que a CPLP havia morrido. Não de morte natural, mas assassinada com requintes de tortura.

Felizmente existem as chamadas "redes sociais". E foi no FB que eu comentei o facto com o amigo Célsio Junqueira, no grupo "S.Tomé e Príncipe - Téla Nón".

Embora já com uns bons meses de distância, deixo-vos aqui um trabalho "académico", simples mas sério e sentido. Despretencioso: Desafios da Lusofonia na era da Globalização - Afirmação ou Fragmentação da CPLP ? - 2010 -.

INTRODUÇÃO

“A lusofonia é vivência, a CPLP é vontade política”.

José Carlos Venâncio (2006).

“A CPLP é uma comunidade fundada sobre a unidade da língua e um projecto de geopolítica e de geoeconomia”.

José Aparecido de Oliveira (1996).

O tema da Globalização, sendo polémico, não deixa de afectar – positiva ou negativamente – a vida dos cidadãos em qualquer ponto do Planeta, por mais remoto que seja. Por outro lado, o espaço da Lusofonia – em descontinuidade geográfica e multicultural – atrai o investigador pelo fascínio de um mundo em construção, com afinidades e oposições resultantes de um longo processo de colonização.

Será o factor da língua comum suficientemente forte para conferir consistência e durabilidade a este particular processo de “integração” que é a CPLP? Qual o papel a desempenhar pelo novo Acordo Ortográfico? Quer-se uma Comunidade de Estados ou de Povos? E a economia do espaço lusófono já terá atingido um nível que lhe permita pressionar as decisões políticas? Não tem sido fácil o caminho da CPLP e do espaço lusófono que, ao longo de uma década, viveram mais de retórica e de sonolência do que propriamente de acções. Mas a cooperação efectiva tem aumentado nos últimos anos e a ideia de José Aparecido de Oliveira vai ganhando cada vez mais adeptos. Apesar disso, permanece a questão de partida: neste mundo globalizado, a CPLP vai afirmar-se ou fragmentar-se? Será a unidade da língua o elo mais forte?

Seguindo a estrutura clássica dos trabalhos científicos, dividimos o trabalho em três partes: na primeira escrevemos sobre os conceitos e teorias que ajudam a perceber o fenómeno da Globalização e, em particular, quais deles se podem aplicar ao caso da CPLP; na segunda parte elaborámos um enquadramento da CPLP, um espaço assimétrico em termos geográficos e ao nível do desenvolvimento económico, mas ligando oito países através de três Oceanos e, por fim, equacionámos a importância da Língua portuguesa na sustentabilidade do espaço lusófono e as vantagens ou desvantagens do Acordo Ortográfico de 1990 e que agora está em vigor.

I

GLOBALIZAÇÃO: CONCEITOS E TEORIAS.

“O erro do nosso mundo não é a existência de demasiada globalização, mas sim de pouca globalização”.

Martin Wolf (2006)

Esta visão de Martin Wolf, aparentemente coincidente com a do capitalismo ocidental, baseia-se no pressuposto de que o futuro pode ser melhor. O autor de Por Que Funciona A Globalização, entende que é preferível globalizar do que atomizar. E explica: “a perspectiva de que a actual divisão política da humanidade é natural e inevitável é absurda. A ideia paralela de que cada unidade deve ser economicamente auto-suficiente é igualmente absurda. Os actuais Estados são produtos arbitrários de uma história recente. O destino lógico de um movimento dedicado à auto-suficiência seria provavelmente a atomização da humanidade, talvez em bandos familiares. Isto significaria regressar ao futuro de uma forma vingativa – voltando ao período mesolítico”.

Mas há, naturalmente, o reverso da medalha. Consultando o Dicionário de Relações Internacionais (2008), pode ler-se que, “entendida nos países em vias de desenvolvimento, e nos muçulmanos em particular, como uma espécie de colonialismo – “globalização é o que nós no Terceiro Mundo, durante séculos, chamámos colonização” (Martin Khor) – e como o domínio do Ocidente sobre o resto do mundo (Anthony Giddens), a globalização não é sinónimo de americanização, nem de homogeneização, quer sob o ponto de vista social, quer sob a perspectiva económica ou cultural”.

E de acordo com a OCDE, continuando a citar o Dicionário, “a mundialização desenvolveu-se em várias fases, a última das quais, a da globalização (anos 1980), corresponde à instalação de verdadeiras redes planetárias, graças aos progressos da tecnologia e dos serviços”.

Embora importe distinguir Globalização de Internacionalização, o certo é que – por vezes – os termos são tangíveis. Como por exemplo na definição de Robert Cox (1994), ao afirmar que “As características da Globalização incluem a internacionalização da produção, novos movimentos migratórios do sul para o norte, um novo ambiente competitivo que acelera estes processos e a internacionalização do Estado, tornando os Estados em agências do mundo globalizado”.

E ainda esta simples e curiosa ideia de Rosabeth Moss Kanter (1995), destacando que “O mundo está a transformar-se num centro comercial global, onde as ideias e os produtos estão disponíveis em todo o lado ao mesmo tempo”.

Nesta perspectiva, convém também reter o enquadramento teórico do processo de globalização, sabendo que há visões diferentes. Não apenas do mesmo mundo, mas de “mundos diferentes”. Ou explicações muito particulares de alguns aspectos da política mundial – neste caso de um fenómeno abrangente e globalizante – sem que se possa classificar cada uma das teorias melhor do que as outras.

O “Realismo”, por exemplo, considera que a Globalização não alterou significativamente o quadro da política mundial, nomeadamente a divisão territorial do mundo em Estados-nação. O fenómeno produziu maior interdependência ao nível da economia e das sociedades, mas o sistema estatal manteve intactas as suas características de luta pelo poder, recorrendo mesmo ao uso da força.

Já os “Liberais” veem a Globalização como o produto de uma longa transformação da política mundial, na qual o Estado já não é o actor central e exclusivo. O mundo é visto como uma teia de relações que gera interdependência entre as sociedades, sobressaindo o impacto da revolução tecnológica e nas comunicações.

Por sua vez, os Teóricos do “Sistema-Mundo” dizem que a Globalização não trouxe nada de novo, representando apenas a última fase do desenvolvimento do capitalismo internacional que, em vez de tornar o mundo mais simétrico, perpetua – pelo contrário – a divisão entre centro, semi-periferia e periferia.

Tendo em conta a situação periférica e de fronteira de Portugal, no dizer de Adriano Moreira, e percebendo a realidade dos nossos parceiros na CPLP, com desenvolvimento assimétrico na maioria deles, aceita-se que o espaço lusófono possa ser visto à luz desta teoria do Sistema-Mundo, podendo ainda enquadrar o Brasil na Teoria Liberal.

É a esta problemática que vamos dedicar o ponto seguinte, considerando o espaço da CPLP disseminado por cinco continentes – com aspectos geopolíticos e geoeconómicos muito diversos.

II

ENQUADRAMENTO DA CPLP: UM ESPAÇO DE CINCO CONTINENTES “DIVIDIDO” ENTRE A ECONOMIA, A POLÍTICA E A LÍNGUA!

“No campo do processo de regionalização e globalização, é possível pensar num enlace triangular envolvendo os espaços regionais do Mercosul, da União Europeia e da Comunidade para o Desenvolvimento dos Países da África Austral, centrado em interesses reais e complementares dos três potenciais parceiros regionais”.

José Aparecido de Oliveira (1999).

Na época dos primeiros passos, parecia possível e real o sonho do antigo Embaixador do Brasil em Lisboa – Aparecido de seu nome e o pai da ideia da CPLP, “uma ideia tão velha quanto a nossa Língua” como salienta agora o actual Representante permanente do Brasil junto da CPLP, Lauro Moreira[1], para quem a Comunidade se institucionalizou em 1996...mas não tem data para acabar. No fundo, como afirmou o político brasileiro Celso Amorim – a criação da CPLP “deu forma institucional a uma realidade que faz parte do nosso quotidiano” e que tem por base três pilares fundamentais: a concertação político-diplomática; a cooperação para o desenvolvimento e a defesa e a promoção da Língua Portuguesa.

O sonho, criticado por uns, elogiado por outros, levou à criação de uma quase OI – partindo de um encontro de vontades de oito Estados que partilham o Português como Língua oficial. E, havendo oito países a querer formá-la, é porque lhe reconhecem importância.

São oito países, dispersos por quatro Continentes – com uma área terrestre de quase 11 milhões de Klm2, ligados por dois Oceanos e com uma área marítima de ZEE de quase 8 milhões de Klm2, habitados por cerca de 250 milhões de pessoas.

O retrato geral de uma entidade que não é homogénea, pois é detentora de uma grande diversidade de matrizes culturais. Há uma Língua comum – a portuguesa – mas não é exclusiva. E, por outro lado, pode dizer-se que o desenvolvimento dos oito é caracterizado por uma grande assimetria. De um rendimento per capita de $18.000 USD em Portugal, chega-se a menos de $230 USD na Guiné-Bissau.

(Ilustração com Mapa da Língua)....

É neste espaço descontínuo e assimétrico que se projecta a ideia da CPLP, ambiciosa mas ainda de tempo curto – como diz Lauro Moreira – mas que “tem manifestado maturidade, nomeadamente na mediação de crises políticas nos países membros”. Na sua opinião, são exactamente as assimetrias que condicionam o desenvolvimento de projectos de cooperação e de capacitação.

De acordo com um estudo de José Estêvão, do ISEG – Universidade Técnica de Lisboa, apresentado em 2008 num colóquio sobre a CPLP e a Lusofonia – De conceito multicultural a vector portador de futuro, e tendo por base dados do Banco Mundial e do relatório do PNUD, ambos de 2007, as assimetrias nos países africanos não se ficam apenas pelo rendimento. Também nas elevadas taxas de analfabetismo – só Cabo Verde e S.Tomé e Príncipe estão abaixo dos 20%; e no crescimento económico: Angola, só no período pós guerra civil despertou para o crescimento com uma média de 10,5% entre 2000 e 2005, sendo que – só em 2005 – cresceu 20,6%. O mesmo aconteceu em Moçambique, onde se passou de 4,8%, no período entre 1988 e 2000, para quase 9% entre 2001 e 2005. Cabo Verde estabilizou numa média de 5%, mas S.Tomé e Príncipe – nos mesmos períodos – passou de 1,9 para 3,8% e a Guiné Bissau, vivendo uma grande instabilidade política, fixou-se entre 2,2 e 2,6%.

Luís Fonseca, Secretário Executivo da CPLP em 2006, ao falar de Alianças Multinacionais – Múltiplas pertenças, criou a expressão “Diáspora Lusófona – que há vários anos vem fomentando redes de cooperação de carácter empresarial, académico ou mesmo cultural” – sendo, por isso, um importante factor de integração da CPLP. E acrescentava uma das preocupações centrais da Comunidade – um estatuto jurídico para a cidadania e circulação de cidadãos, tal como defende Lauro Moreira, ao dizer que a CPLP tem agido mais cmo uma comunidade de Estados do que de cidadãos, sendo este mais um passo que a Organização deve dar, sobretudo proporcionando à sociedade civil uma participação mais activa e encontrando formas de contornar alguns limites impostos pela pertença de países membros a diversas Organizações Regionais, como a UE, Mercosul e CEDEAO.

Há, portanto, vantagens em pertencer à CPLP – as quais decorrem mais de factores socio-culturais e linguísticos do que do económico. Adelino Torres e Manuel Ennes Ferreira dizem, por exemplo, que “a língua oficial é uma força agregadora num espaço geograficamente fragmentado”.

Quase 14 anos decorridos, há quem aponte um balanço negativo, em face das expectativas criadas, e quem – cautelosamente – como Corsino Tolentino (2004), de Cabo Verde, afirme que a “irreversibilidade da CPLP não é um dado adquirido”. O antigo Ministro da Educação de Cabo Verde faz a situação depender de três condições: - um projecto comum, assumido por todos e mobilizador da juventude; a responsabilidade partilhada e o impulso político – quer na organização, na gestão ou na imagem.

E voltamos ao estudo de José Estêvão, do ISEG, para nos focarmos no que ele chama de Desafios Fundamentais do Desenvolvimento na África lusófona: - redução da pobreza, melhorar os cuidados de saúde e fazer progressos na educação.

Apesar das altas taxas de crescimento nos últimos anos e referidas há pouco, sobretudo em Angola, Moçambique e Cabo Verde – o autor do estudo salienta a faixa elevada de população que vive com menos do que $2USD por dia. Pode parecer um paradoxo mas não é. O crescimento económico aumentou desigualdades sociais, particularmente entre as populações urbanas e rurais e entre os sexos, com especial incidência nas mulheres. Esta questão, recorda-se, integra os chamados ODM – Objectivos de Desenvolvimento do Milénio – das Nações Unidas, e também faz parte das preocupações da UE e da OCDE, relativamente à ajuda aos países fragilizados.

Assim, e em face dos mercados internos limitados – conclui José Estêvão – a integração económica internacional e a orientação para o exterior potenciam a criação de efeitos de escala e melhorias na produção. Por outro lado, será necessário criar Parcerias para o Desenvolvimento, quer nacionais – com as diásporas; quer no quadro da CPLP, quer Regionais e também Internacionais – focando a Globalização e o Desenvolvimento na perspectiva da Integração Internacional.

O impulso político de que falava Corsino Tolentino parece ter agora mais vigor, apesar da crise e sobretudo devido à crise. Mas as trocas comerciais estão em alta, particularmente no triângulo Portugal, Brasil, Angola – o que poderá transmitir uma base mais sólida ao projecto que, não esquecendo, nasceu como organização linguística e cultural, o tema que vamos tratar de seguida.

III

A CONSISTÊNCIA DA LÍNGUA COMUM RESPONDE A TODOS OS DESAFIOS?

“Só para nós portugueses, a lusofonia e a mitologia da Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa é imaginada como uma totalidade ideal compatível com as diferenças culturais que caracterizam cada uma das suas componentes”.

Eduardo Lourenço (1999).

Ao pessimismo de Eduardo Lourenço junta-se a crítica mordaz de António Tabucchi (2000) que se manifesta contra a “política da Lusofonia que utiliza a frase de Pessoa a minha pátria é a língua portuguesa como uma marca de dentífrico, tornando-a ignóbil”.

Por sua vez, o sociólogo e escritor angolano Carlos Pacheco (2000) – não perdendo de vista o estigma do colonialismo – diz que “a Lusofonia não passa de um conceito vago e que não corresponde à alma e ao sentir dos povos africanos. É um projecto historicamente adulterado, sem nenhuma simbiose com o imaginário dos angolanos e moçambicanos”.

Não deixa de ser um discurso com seguidores, recordando que ainda há dias – no Fórum Social Mundial Temático da Baía, em Salvador, no Brasil – o Professor Universitário senegalês Samba Muri Mboup, a leccionar na África do Sul, afirmou ser necessário começar a descolonizar a compreensão do próprio conceito de globalização. Descolonizar o pensamento, diz Samba Muri, “é enfrentar os dasafios colocados pelo eurocentrismo e pelo etnocentrismo como modos de pensar dominantes”.

Mas existe uma realidade incontornável que é a língua comum aos oito Estados da CPLP, independentemente do número exacto de falantes. E no estudo das relações internacionais, é aceite que – para os Estados africanos – a língua é um dos factores de unidade e de garantia do Estado! Acaba por ser o único elemento comum a todos os nacionais. A fronteira do Estado é a fronteira da língua, com excepção de Cabo Verde e talvez de S.Tomé e Príncipe.

À semelhança do Brasil, Cabo Verde tem na língua um factor de promoção do seu prestígio internacional. E S.Tomé e Príncipe, através da língua, tenta tirar dividendos económicos da aproximação ao Brasil e, sobretudo, a Portugal – que passou em 1986 a ser membro da CEE, uma porta de entrada para o grande mercado europeu. E essa associação a Portugal, enquanto Estado Comunitário – permite a criação do tão ambicionado estatuto de cidadão lusófono, uma ideia de Cabo Verde que poderá vir a possibilitar, através de Portugal, a emigração para qualquer dos Estados-membros da hoje União Europeia.

A Língua portuguesa, dizia Mário Alkatiri em 2005, é uma questão vital para o futuro de Timor Leste. E o comandante Taur Matan Ruak recordou mesmo a importância da língua na unidade da guerrilha timorense. Também Amílcar Cabral havia dito que o Português é uma das melhores coisas que os portugueses nos deixaram!

Por outro lado, a nível internacional, nas questões da linguística – o português modelo é o do Brasil. Uma questão de prestígio internacional, portanto, acrescida do facto de a CPLP representar para o Brasil, um certo distanciamento das relações inter-americanas (problemáticas e dominadas pelos EUA), para criar uma zona de influência própria, onde lidere.

O comandante Virgílio de Carvalho (2003), cita aquele que considera o pai da geopolítica Brasileira – Golbery do Couto e Silva – que afirmou “dever ser obrigação do Brasil procurar preservar o importante legado histórico lusófono, no caso de Portugal se mostrar incapaz de o fazer sozinho.

O Professor Malaca Casteleiro diz que Portugal não tem uma política para a Língua, pois falta dinheiro para coisas essenciais, apesar de Adriano Moreira salientar que “Em toda a parte, aquilo que avulta como menos vulnerável e como cimento mais forte, é realmente a língua. E se houver capacidade e não faltar vontade – a língua é o veículo da cultura capaz de disputar o seu espaço e de o fazer crescer”!

Daí a importância do Acordo Ortográfico, que simplifica a língua e adequa a língua à expressão oral. Lauro Moreira diz mesmo que o Acordo significa estar mais próximo da oralidade, significa a reunificação da Língua.

Não são opiniões consensuais, como é sabido, e que ainda hoje motivam grande polémica, apesar de o Acordo já ter entrado em vigor. Alguns órgãos de comunicação social estão já a fazer uso do Acordo, como a Agência Lusa, mas ficaram registadas muitas opiniões contra o Acordo. Para além da visibilidade de Vasco Graça Moura, também o linguísta e filólogo da Universidade Nova de Lisboa, António Emiliano, escreveu na Revista Autor (2008) que “o AO de 1990 é um desastre, um monumento de inépcia científica e indigência intelectual e cultural”.

É sem dúvida um tema que ainda vai agitar os meios académicos, mas regista-se aqui uma das últimas intervenções de José Carlos Venâncio, da UBI e também Professor visitante da Universidade de Macau. Especialista em Sociologia da Literatura e da Cultura de expressão portuguesa africana, Venâncio afirma que “é fundamental que Angola, Moçambique e o Brasil sejam entendidos como centros de irradiação da lusofonia” e que isso faz parte de um esforço colectivo maior para fazer do português “uma língua de cultura em termos internacionais”.

Os desafios são enormes mas a Língua, se houver a vontade afirmada por Adriano Moreira – não só de Portugal, mas sobretudo do Brasil, Angola e Moçambique – poderá dar resposta a muitos dos problemas do espaço lusófono. A actual crise económica e financeira reflecte-se nas actividades de promoção e ensino da língua em países estrangeiros, mas não deve ser esquecida a declaração da antiga Presidente do Instituto Camões, Simonetta Luz Afonso, para quem “O actual estatuto da Língua Portuguesa deve-se ao facto de ela ser pertença da CPLP”.


[1] - Palestra na Universidade Lusíada do Porto, em Junho de 2009.


******* Olhando para o "Símbolo" que é Nelson Mandela... a memória faz-me recuar para uma ideia de um grande investigador africano, ELIAS M'BOKOLO, quando dizia "Não devemos desesperar de África". Pois, apesar de tudo, "Não desesperemos da CPLP" !

Amén.

2011-04-10

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !


por António Bondoso a Domingo, 10 de Abril de 2011 às 4:06





Hoje fui ao Mar...

e repousei os sentidos na calmaria da maré

acariciando as pedras já modeladas

pela constante erosão do tempo.

Encostado ao peso da memória

na frescura das areias de uma vida salgada,

foi o pino do Sol da uma da tarde

a colocar-me de frente

para um passado vinte anos mais antigo,

com o primeiro plano da infância filial

a mover um pequeno barco a motor

alimentado por um volte e meio

de uma mágica bateria em forma de cilindro,

energia de sonhos e testes à descoberta.

Hoje fui ao Mar...

E aproveitando a quietude desta praia onde vivo

deslizei pelo Oceano em busca

de meio século de outros sonhos

e de verdades

uma caldeação temperada pela inocência do destino

e pelos crimes dos avatares da História,

humana aventura contraditória

de erros nossos má fortuna amor ardente

mais a eterna inveja intriga e ódio

que os homens espalharam em conquistas.

Hoje fui ao Mar...

E nos meridianos da viagem globalizada

percorri tropicais e ilhéus sorrisos de uma vida.

A.B.

Abril,2011 - V.N.Gaia.


2011-04-06

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !


Políticos e Virtuosos...

por António Bondoso a Terça-feira, 5 de Abril de 2011 às 21:23

"Crise política não tornou as coisas mais fáceis"

O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, admitiu hoje que a crise política dificultou a situação de Portugal, quando confrontado durante um debate no Parlamento Europeu, em Estrasburgo...

***** É preciso explicar de novo... ou será preciso fazer um desenho ?

Alô PP, PCP, PPD, PEV, BE... e outros que utilizam a táctica da guerrilha – bate e foge.


***** Parafraseando MRS :- A situação estava má antes do PEC IV ? – Estava; Ficou melhor depois do chumbo na AR ? – Não !


***** Comprende-se o desabafo de Bagão Félix, depois do Benfica ter perdido o campeonato.Tal como se compreende o aproveitar da maré por parte de PP, Louçã e Coelho. O que ainda não foi explicado suficientemente foi o verdadeiro objectivo do discurso de posse do PR.

***** Mas agora, altura em que fervem os jogos pré-eleitorais, ninguém quer assumir a sua quota parte de responsabilidade no odioso da questão. TODOS SE QUEREM APRESENTAR COMO “IMPOLUTOS E VIRTUOSOS”.

Por isso, quero partilhar convosco uma reflexão do antigo Primeiro Ministro de França, Edouard Balladur, no seu livro “Maquiavel em Democracia”, transcrevendo com a devida vénia parte do capítulo sobre a política e a virtude :

***** "... Por vezes, a opinião pública deixa-se enganar voluntariamente e não acredita naquilo que é voz corrente; está a ver o filme que passa atrás da cortina e a ver onde os actores querem chegar, mas pouco lhe importa : a opinião pública não está à espera de que o jogo mereça respeito mas apenas que seja eficaz. Não alimenta ilusões. [...] O político tende a pensar que as virtudes morais não constituem senão obstáculos para o sucesso : se confia na palavra dada, é enganado; se é sincero, é escarnecido; se é firme nas suas convicções, todos os oportunistas o abandonarão à primeira dificuldade; se detesta a mentira, é caluniado; se tem respeito por si próprio e não se submete, é aviltado; se deseja perdoar, não está livre de novas traições da parte daqueles a quem perdoou; se se entrega nas mãos de uma pessoa com quem se abre, informando-o sobre as suas intenções e sobre os meios de as pôr em prática, corre o risco de ser utilizado; pensa que está rodeado de pessoas fiéis e, a maior parte das vezes, está rodeado de pessoas que procuram aproveitar-se, o mais possível, dos serviços que lhe prestaram; a mentira, o jogo duplo, a intriga são celebradas pelos seus pares que, em conjunto, fazem chacota dessas coisas como se se tratasse de grandes feitos. Para o político, a prática das virtudes representa, a maioria das vezes, um constrangimento. [...] Há virtudes que são necessárias : a coragem, para afrontar os riscos, para se impor aos outros, por vezes até aos acontecimentos; a inteligência, para apreciar as situações e prever o partido que delas se pode tirar; a obstinação, para perseverar, apesar das dificuldades; a força, para dar pouca importância ao isolamento, melhor, para daí retirar coragem para agir; a perspicácia, para saber ler o jogo dos adversários. Trata-se de virtudes ou de talentos ? Poderá discutir-se se uma ou outra, mas, de qualquer forma, porque não poderá a virtude também ser útil ?".............


E a virtude - toda a virtude - não está certamente na ideologia ultra-liberal da alta finança.
O que eu quero significar é que é preciso dizer basta a este rumo. É tempo de a "política" voltar a ditar as regras da Sociedade, de um digno Estado Social que não convém confundir com o Estado Providência.

2011-03-10

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !



O Discurso é uma Arma...

por António Bondoso a quinta-feira, 10 de Março de 2011 às 2:10

As palavras matam. E podem assassinar um regime. Um discurso pode ser uma arma que, mal analisada, mal interpretada, mal utilizada - pode dar um rumo às situações, muito diferente daquele imaginado. E o discurso de posse do PR , se não for rápida e eficazmente explicado, pode permitir "colagens" e aproveitamentos nada agradáveis para o presente e futuro próximo deste país agonizante. Omissões no diagnóstico, propositadas ou não; pouca clareza na prescrição dos remédios , não demonstra coragem. É ficar a meio do medo ! Quando fala em consenso alargado, por que razão não diz claramente que - na sua perspectiva - a melhor e imediata solução é o que se pode chamar de "governo de salvação nacional" !?

Apenas pelo simples facto de pensar que o Governo vai morrer de morte natural. Ou então... agonizar por influência da alta finança. E aí, os responsáveis serão outros. Desde logo o Governo e quem o apoia e, depois, o Fundo Europeu de Estabilidade ... antes do FMI. É isto que está a marcar a agenda política portuguesa, sabendo-se que as sondagens não permitem - ainda - uma solução de partido único do PSD.

Nem este partido nem o PR estão interessados em arcar com o ónus da queda deste governo Sócrates. Tem sido mau em muitos aspectos, mas tem resistido - à sua medida e à custa dos que menos podem - à maior crise internacional desde a II Guerra Mundial.

Evitar imediatos efeitos secundários que darão à nossa crise uma dimensão fora do comum - seria, por exemplo, o BE desisitir da sua Moção de Censura. Ou então, o PS e o Governo apresentarem rapidamente uma moção de confiança. Ou ainda... o Governo demitir-se !

E as consequências do que eventualmente poderá acontecer no dia 12, seriam muito menores. Cá estaremos para ver.

Não sei se os "brandos costumes" poderão ser suficientes para impedir uma explosão maior do que a da Grécia.

E que não se caia na tentação de enviar para as ruas o Corpo de Intervenção - da PSP ou da GNR. Apesar das achas para a fogueira já lançadas, não se junte maior irresponsabilidade àquela já colocada na panela de pressão.

E que haja alguém que consiga "enquadrar" os jovens e não permita que eles possam ser instrumentalizados - uma tentação a que muitos não vão conseguir resistir. A manifestação é um direito e pacífica deve ser !

2011-03-05

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !


A quem não leu ( ou adquiriu) ainda o recente livro de Conceição Lima - O PAÍS DE AKENDENGUÊ - quero significar a oportunidade de ficarem a conhecer um pouco mais de África e do pensamento desta jovem e brilhante escritora/jornalista Sãotomense. Ainda o livro estava em "projecto" e fui eu um dos "escolhidos" para expressar opinião. Independentemente do resultado final, gostei de lhe transmitir estas ideias:
====================================

Caríssima São

Camarada de palavras “em navio” e conterrânea por amizade.

Sem sair do “coração da ilha”, fui capaz – penso – de percorrer os trilhos deste teu tão sentido quanto belo “País de Akendenguê”.

De Kwame a Malabo, de Batepá a Fernão Dias, da cidade de nome santo ao Congo – percebi a tua angústia e os tempos dos teus fantasmas, mas também os sonhos, não utópicos, do “renascer” da tua Ilha-África.

Como tu, também eu não estou farto de palavras – da nossa palavra jurada – que se entranha nas unhas como as cordas do tempo.

Talvez não tenha interpretado ou decifrado correctamente os teus sinais – ousadia minha consegui-lo – mas, sem sair do “coração da ilha”, esse teu Jardim em ruínas que pintas com os olhos da imensidão do mar e amando as palmeiras que sempre quiseste verdes e rectas, “percebi” que hás-de voltar sempre à Ilha na crista das palavras, pois é lá que moram o teu coração e a tua humilde e solidária “avó” a quem pertences.

E voltarás sempre, apesar dos vampiros e dos indecifráveis desígnios dos Deuses! Sem enigmas. O teu verbo de poeta tem palavras cristalinas, embora sofridas e – por vezes – verdadeiras farpas. Por isso, as canções do teu imaginário serão mais fortes que um qualquer cataclismo, que uma eventual hecatombe.

Se te conheço, do que me recordo e da imagem que formei, a tua estrutura é a do tronco forte do “baobá”, seguro – quase eterno – capaz de enfrentar as tormentas do Grande Rio que te convoca por amor. E será lá, na tua velha casa, na tua casa de sempre, que irás conseguir separar o trigo do joio – pois ao longo da vida tropeçamos em muitos equívocos. O importante é continuar a ser livre como são todos os poetas, porque amar a imensidão do mar será sempre um acto de liberdade pelas palavras. Em busca de muitas verdades, não apenas da nossa !

É bom ouvir os Pastores e as suas lendas, pois Cristo e Maomé foram Pastores e neles se escreveu a verdade !

Sabemos, por outro lado, que as “promessas” são as dos homens comuns, tal como as dos políticos que nos governam – quer seja na nossa “ilha”...quer seja nas que nos são próximas – com falta de ética e moral duvidosa sufocando-nos com mentiras.

Foi assim que fizeram muitos orixás da terra criada por Obatalá, invejando Ogun que sabia o segredo do ferro. Os abutres, ontem como hoje, podem enganar e colher em vida – mas não fugirão para sempre nos “seus tapetes de sonhos”. Haverá certamente uma “madrugada” libertadora, em Abril ou Julho, deixando entrar uma luz pura e justiceira para julgar os abutres. Alguns já foram julgados pela História! Mas percebo que a consciência dos mortos e dos seus irmãos ainda reclamem por justiça. O problema é saber de onde ela poderá vir.

De quem, de onde ? Não seguramente dos tiranos que nos amordaçam, contra os quais esgrimiremos a liberdade das palavras. Estarei contigo nessa caminhada, sem temor dos fantasmas, sem vergar a cabeça!

Mas deves estar avisada para o facto de viagem alguma responder a todas as nossas inquietações. Mesmo que a “mafumeira” que escolhermos para nos levar pelo Grande Rio seja a mais forte e a mais veloz. É que a memória – é preciso tê-la – tem o grande inconveniente de somar feridas e sonhos. Conciliar tudo isto, sem rupturas, recomenda uma “estrutura” forte mas serena. Que não frágil !

Se te conheço, se a imagem que formei estiver certa – serás capaz! Tal como foi Kwame, o “tenaz caminhante e artesão da demanda independentista”, tal como foram Kenyata, Kaunda, Boigny, Senghor, Lumumba e – antes deles – Padmore e Du Bois.

Mas em 1953, em Kumasi, já os cifrões dividiam a ideologia em busca do poder. E a Guerra Fria também. A Gold Coast engroçava o rol das resistências ao colonialismo, mas os ventos das ilhas perderam-se no Golfo. Por isso, Kwame – preocupado certamente com a liderança e com a sua “Positive Action” – não teria “ouvido” os gritos dos humilhados e torturados no mar da morte em Fernão Dias, ou o “arquejar” dos brutalizados das “brigadas da escravidão”, que do seu corpo e alma fabricaram os tijolos dos “chalés da marginal”.

Tudo isto não foi suficiente para um “novo mapa” da tua Ilha-África. Mas talvez o teu imaginário “Mwalium” preferisse dizer-te que, as “novas fronteiras”, seriam eventualmente um processo bem mais doloroso e violento.

Por isso, que a tua inquietação se esvaia e o pó se torne pó, que é o destino do Homem. E que dos seios do teu lugar, da tua Ilha-África, se esvaia também o “leite envenenado” da Vila lá em cima, agora cidade.

===============================

Que esta leitura vos incentive a absorver cada palavra do imaginário de São Lima.

2010-12-04

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !


UM AMIGO...

As amizades, as grandes e verdadeiras, podem começar por um simples acto de desconfiança. Mas não morrem nunca !
Foi mais ou menos assim que conheci o Gonçalo Nuno de Faria Taveira Peixoto - simplesmente Nuno Faria na camaradagem da Redacção da Rádio. Tinha acontecido o 25 de Novembro de 75, dava-se início à nacionalização da Rádio, começava um dos maiores desafios que o meio já havia conhecido em Portugal.
E o Nuno, que deixava de pertencer ao Rádio Clube Português - no Porto - passava a integrar os quadros da RDP, tal como eu - oriundo da Emissora Nacional que tinha os estúdios na Rua Cândido dos Reis.
E foi ali que o Nuno chegou, rotulado como um "perigoso comunista", para trabalhar comigo - de quem lhe haviam transmitido a ideia de um "perigoso fascista". No meio e naquela época do PREC assim se classificavam as pessoas.
Mas nós ultrapassámos isso. Discutindo, gritando, falando... e trabalhando. Com seriedade. Pode dizer-se que, do meio de turbulentas RGT's ( Reuniões Gerais de Trabalhadores) nasceu uma tranquila e sólida amizade. Como defini num poema sobre o tema, ser amigo é também quase nunca estar de acordo.
E os rótulos - não se confirmando - desapareceram naturalmente...
A situação de aposentados - forçadamente antecipada - conduziu a uma cumplicidade menos presente do que ambos desejávamos. Mas ficou o respeito pelo carácter. E agora, que ele partiu, apenas muda a circunstância. Continuaremos a ver-nos sempre que possível nos gestos e nas vozes da Graça - sua companheira - e dos filhos Rita e Duarte. E continuaremos a tomar um café ou um copo ali no Ceuta ou no Aviz. A meio ou ao final da tarde, que a manhã é para descansar !
Descansar desta dor de ver partir mais um camarada, sobretudo um amigo, "o nosso galego" como me dizia o Maciel - ao ligar-me dos Açores para me dar a triste notícia. O seu "cordão umbilical" à Galiza, à Nação Galega como lhe chamava, era muito forte. E contagiou-me, naturalmente.
Um "aperto" Nuno.

2010-11-25

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !


RIO DE JANEIRO - CIDADE MARAVILHOSA , CIDADE INQUIETA !

Os recentes acontecimentos violentos na periferia da cidade do Rio de Janeiro - já mais de 20 mortos - envolvendo as forças policiais e a marinha contra os traficantes, fizeram-me lembrar duas canções de Martinho da Vila, certamente numa tentativa de denunciar o medo e devolver aos habitantes da cidade um clima de confiança e de força para ultrapassar as situações. Como é bom de ver, os actos violentos não são inéditos, já duram a uma escala elevada desde a década de 1980.
Numa das canções, o popular intérprete brasileiro diz "eu tenho um amigo que é do Rio de Janeiro, é muito forte sempre foi bom companheiro, surpreendentemente me disse em segredo: tenho medo, tenho medo, tenho medo [...] tou com medo de ir à praia nadar, tenho medo de ser sequestrado e tenho medo até de ler o jornal". O texto termina com um apelo às pessoas para irem para a rua passear e frequentar os bares.
Como temos lido nos jornais e visto nas reportagens televisivas, começa a ser difícil responder ao apelo de Martinho da Vila. Talvez essas mesmas televisões e os programas de rádio, no meio de tanta notícia sobre a violência, pudessem passar canções de mensagem idêntica a esta... Uma simples nota de propaganda para os muitos teóricos brasileiros da comunicação.

É que o mesmo Martinho da Vila, numa outra canção, procura transmitir a ideia de que "a maior tradição turística do Rio de Janeiro, no futuro, será o passeio pelos morros :- quando essa onda passar, me leva nas favelas, para que vejas do alto, como a cidade é bela"!

A par da música, veio-me também à ideia um antigo livro de Plínio Salgado, de 1937, sobre a história política do Brasil e outras "estórias" da grande Nação Brasileira.
Como esta sobre a cidade maravilhosa, fundada oficialmente em 1 de Março de 1565 por Estácio de Sá - já lá vão portanto 445 anos! A "crónica" refere-se ao mandato de Rodrigues Alves como Presidente da República (entre 1902 e 1906), sendo Prefeito o engº Pereira Passos e ministro da saúde o médico Oswaldo Cruz.
O Rio de Janeiro dessa época é assim descrito por Plínio Salgado no seu livro Nosso Brasil, ainda com a língua portuguesa unificada - uns anos antes da unilateral atitude de Portugal avançar para uma nova ortografia:
O autor destaca a meritória acção dos três homens na elevação da cidade maravilhosa - concretamente na vitória sobre a chamada revolta da vacina (da varíola). A cidade foi saneada e o seu rosto transformado, dando sentido à expressão do jornalista e escritor Coelho Neto "Cidade Maravilhosa", em 1908. Mais tarde, em 1934, o compositor baiano André Filho lança no Carnaval a lendária canção com o mesmo nome.
Que a violência termine e que os encantos mil regressem a uma cidade inquieta, a poucos anos do Mundial de futebol de 2014 e das Olimpíadas de 2016.




2010-11-13

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !


CADA VEZ MAIS ...

... MENOS RAZÕES PARA VOTAR.

= não sei se será boa opção votar num candidato que acusa um governo de praticar “espionagem” e depois ficar tudo na mesma; não sei se será boa opção votar num candidato que, por cálculo eleitoralista, tardou em afirmar a sua influência “activa”...

= frequentemente me interrogo se será boa opção votar num candidato que apoia a greve geral como forma de protesto anti-governo, sabendo-se que o governo é duplamente responsável perante o PR e perante a AR; cada vez mais me interrogo se poderei confiar num candidato que não é “político”...

= depois de ler o Expresso, desiludiu-me a forma “politicamente incorrecta” como um candidato deita praticamente a “toalha ao chão” ao dizer que – mesmo ainda antes de terminar o actual combate – já não estará disponível para um eventual segundo mandato; não sei se será boa opção acreditar num candidato que – tendo sempre defendido a força das ideias – esteja agora hesitante na duração desse combate...

= se em política o que parece é – independentemente de que à “mulher de César não basta parecer – acresce a entrevista do MNE ao mesmo jornal, a qual provocou já um violento tremor de terra no tecido partidário, embora os efeitos só venham a ser visíveis depois de uma digestão mais controlada. Mesmo tendo em conta os “apetites” já difundidos pelo CDS/PP.

Como toda a especulação é permitida, pode dizer-se que – se o efeito pretendido fosse o de uma “visão” comum entre o MNE e o PM, mais valia terem acertado agulhas antes da constituição do governo, com o objectivo claro de se conseguir então o que agora se propõe. Se o PM não sabia, a demissão do MNE seria perfeitamente plausível. Ademais, ele próprio mostrou disponibilidade para abandonar o governo. Caia, Sócrates, mas ao menos caia de pé !

Contudo, quero deixar claro que não deixarei de votar. Vamos ver como.

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !

A SOMBRA DO QUE FOMOS !
... OU A TRISTEZA DO QUE SOMOS !

O Professor Adriano Moreira, que há já uns anos vem chamando a atenção para o facto de o Estado Português estar a evoluir para um Estado exíguo, esteve ontem na RTPn para lembrar o tema e dizer que não temos um conceito estratégico desde 1974.

E na sequência da actual crise europeia e mundial, sobre a qual se tem vindo a colocar o acento tónico na eventual perda de soberania com a hipotética vinda do FMI, o insígne Presidente da Academia de Ciências frisou que não é a soberania que pode vir a ser afectada mas sim a capacidade (ou falta dela) do Estado.

E eu, que havia respirado um pouco melhor com as notícias de um crescimento da nossa economia acima - apenas um pouco mas acima - das expectativas, rapidamente voltei a um natural estado depressivo com a notícia (ingénua e simples) de que um normalíssimo jogo de futebol (o Benfica-Braga) teria que ser adiado devido à realização da cimeira da NATO em Lisboa.

Que país é este ? Já não bastava um outro indicador - a tolerância de ponto na área de Lisboa? O nosso complexo de inferioridade não merece o nível de reflexão que nos é oferecido por Adriano Moreira.

Os líderes mundiais não se vão "aperceber" desse pormenor. Mas perdem a oportunidade de assistir a um provável bom jogo de futebol.

E depois, esse título do Expresso a propósito de uma entrevista com Manuel Alegre – um dos candidatos à Presidência da República, um candidato que - mesmo ainda antes da eleição a que se candidata - vem dizer que não o será para um novo mandato. No caso de sair vencedor deste, naturalmente. Independentemente das razões que o motivam, foi seguramente mais um tiro nos próprios pés. Se já era frágil a sua contabilidade, pior ficou depois deste "disparate". A "idade" não pode bloquear a força das ideias! E é de ideias que ele tem feito ou anunciado o seu combate.

2010-10-22

A BOLA...UM OBJECTO ESTRANHO !


OS ESPANHÓIS, QUE AINDA NÃO DEVOLVERAM OLIVENÇA, tentaram - na Turquia - subtrair três pontos ao F.C. do Porto. Falamos dos árbitros do jogo com o Besiktas, em Istambul, certamente muito íntimos de Platini e provavelmente amigos e admiradores de LFV e Rui Costa.

Depois de terem anulado (mal ) um golo claro como água límpida a Falcao e de terem seguido um critério (?) diferente para não expulsarem um defesa da equipa turca - para além da expulsão também seria penalty ! - tal como haviam feito com Maicon... ainda se deram ao luxo (leia-se arrogância) de expulsarem nos últimos minutos o grande Fernando, vulgarmente conhecido como "o polvo"! Por último... ainda que nenhum "analista" ou "comentadeiro" fale nisso, devo dizer que tenho dúvidas quanto à colocação (i)legal do avançado turco que marcou o único golo da equipa da casa.

Para lá do jogo... há outros pormenores a merecer algumas (poucas) linhas mais. Diziam os tais comentadeiros recear que talvez os dirigentes do F.C. do Porto viessem a sofrer retaliação da UEFA , pelo facto de terem abordado - eventualmente questionado - a equipa de arbitragem ao intervalo, mas esqueceram-se de salientar o receio de que o clube turco viesse a sofrer sanções da mesma UEFA, pelo mau comportamento dos adeptos por ocasião da saída de Fernando a caminho dos balneários. A ver vamos. Nem que tenhamos que enviar uma "embaixada" ao ministro dos assuntos internos da Turquia !

A tudo isto...estamos habituados. Não é nada de novo, desde que o F.C. do Porto tem passeado classe pela Europa do futebol.

Tal como estamos habituados à desvalorização ou secundarização das vitórias portistas além fronteiras. Sem contar com o "vómito" de um tal Luís Sobral, reparei nos títulos de A Bola (na versão digital) por exemplo, logo a seguir à jornada europeia. "Um Leão de Gala na Europa" - perante um adversário portentoso como é o clube belga que jogou (?) em Alvalade - enquanto a façanha heróica da equipa azul e branca no terrível estádio turco apenas mereceu um simples "Dragão passa no Inferno Turco". "Passa"... como se não o tivesse feito contra uma equipa de arbitragem do pior que se tem visto; como se não o tivesse feito com muita classe, jogando 50 minutos com dez e ainda mais alguns com apenas 9 jogadores !

Parafraseando os dirigentes de um tal clube da Luz, aqui temos o Benquerença espanhol. E outros que tais, como Xistras ou Proenças. E devemos ficar atentos à "jogada" (mais uma) do sr Vitor Pereira, ao nomear um árbitro da Associação do Porto para o F.C. doPorto-Leiria, jogo do campeonato português da Primeira Liga.

2010-10-19

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !


CINCO ANOS DEPOIS...



ANTES DO TEMPO !

Foram dias foram anos

Em cada minuto de trinta

Uma vida sempre cheia

A começar do vazio

Uma casa muita gente

Pessoas de muitos tempos.

Chegaram e não ficaram

Partiram de modos diferentes

Fui chegando e aqui voltando

Não sei se quatro se três

As vezes que me chamaram

P’ra começar outras frentes

Batalhas que fui travando

Cada vida em sua vez.

Não foi uma guerra perdida

Nem a morte anunciada

Silêncios de fracos espíritos

Que se escondem na penumbra

Não derrubam coisa alguma.

São fantasmas, camaleões

De um novo tempo sem ética

Maquiavel alma ferida

Contradiz, pena gelada

O que pensam serem méritos

De razão que não deslumbra.

Conhecidas uma a uma

Todas elas ilusões,

Nenhuma resiste sem métrica

Esfumam-se num lago seco

De lágrimas de crocodilo,

Arestas pontiagudas

Secas, finas e brilhantes

Ponteiros de um tempo novo

Mágico, sem viajantes.

E perdidas no labirinto

Dos poderes que estão em jogo

São almas não são amantes

Já não lhes sobram paixões

De escrever ou de rezar.

Já não sabem se o que sinto

É um dom que ateia o fogo

Ou então como era dantes

Correr atrás dos balões

Subiam subiam sempre

Vazios mesmo com ar.

Quem me dera ser Aleixo, Régio, o grande Bocage

Ser vate de muitos génios

Para dizer o que sinto neste adeus antes do tempo.

Mas nem sequer sou rimador

De tanta expressão com dor

Que é partir mais uma vez

E o regressar nem talvez

Agora que se fabricam jornalistas numa linha.

Coisa de muitos mistérios

Prece de computador

Sinais precoces da lage

Onde restará o tempo

Coração de pouca mágoa que sempre me acarinha !

Uma casa muita gente

Pessoas de muitos tempos

De todos guardo lembrança

De menos ou mais talento

E no altar da amizade

Há santos e pecadores.

A uns venero de agrado e aos outros estendo a mão

Mas não pretendo ser santo ou perder o coração

Traído pela memória de alguns que bem lamento.

São riscos de um mundo quente

Em permanente mudança

Ora pouco solidário ora perdendo valores,

Mas não sei mais que dizer-vos

Neste círculo de amizade

Quem me dera ser Aleixo, Régio, o grande Bocage

Ser vate de muitos génios

Para dizer o que sinto neste adeus antes do tempo !

Porto, Abril de 2005

António Bondoso



À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !


A RÁDIO EM PORTUGAL ESTÁ QUASE A COMPLETAR 80 ANOS...

...MAS AINDA NÃO TEM MARCADA A DATA DA SUA MORTE !

Anunciada ciclicamente – a televisão, a internet, a era digital – a morte da “rádio” tem vindo a ser adiada, não por milagre, antes pelo combate e pelo empenho na capacidade de adaptação aos novos tempos. Mas não bastam as novas tecnologias, não é suficiente “arrumar” tudo ou quase tudo no disco rígido de um moderno computador. É preciso que a rádio volte a estar com as pessoas e que tenha gente dentro! Que seja capaz de pensar e de reflectir e que saiba provocar no auditório a capacidade de dialogar, discutir serenamente e reagir aos desafios.

CINCO ANOS DEPOIS...

Cinco anos e alguns meses depois de ter sido praticamente “empurrado” para uma aposentação precoce (hobby desde 1967- profissional desde 1973) com 55 anos de idade, continuo a pensar que o “segredo” da rádio está nas pessoas. Em profissionais competentes, imaginativos e criativos – para além de cultos, naturalmente – e em ouvintes interessados, pensantes e motivados. E nos sons! Na música que acalma e apaixona, no discurso simples e claro das vozes que animam, mas sobretudo no plano superior das entrevistas e das reportagens que falam de coisas sérias, no plano superior da imaginação e da criatividade com ética.

Algumas vezes a rádio é um silêncio feliz, mas muitas outras pode ser um ruído profundo, provocador, inquieto e perturbador.

Tudo isto é real nos capítulos do meu livro que vai estando cada vez mais perto, apesar da lentidão com que vou passando para o tal disco rígido as ideias – minhas e dos meus amigos – sobre como foi a rádio e como deveria ser hoje.

A Rádio, para mim, prossegue sendo uma guitarra freneticamente manipulada por Jimmy Hendrix ou docemente acariciada por BB King, das quais podem sair notas de um afro-americano rock de Harlem ou de um afro-americano blues a caminho de Memphis – onde já destruíram a magia da Rua Beale. A rádio e a música de sentimento, a rádio e a voz de protesto, a rádio da memória escrava, a rádio da sensação libertadora.

A Rádio, para mim, vai sendo a memória da magia do microfone, a magia dos sons, a magia do que fica para além do alcance da imaginação, a magia que permanece no estúdio, no “pick-up” que roda em 45 rotações a voz de Franck Sinatra ou um LP/33 de Maria Bethânia, a magia da “fita” onde se gravaram as impressões de uma conversa amena entre Igrejas Caeiro e Aquilino Ribeiro ou entre Fernando Pessa e Almada Negreiros, a magia do “cartucho” onde se alinhavam spots publicitários anunciando as virtudes da brancura do skip ou apelando à presença na Grande Noite do Fado no Coliseu dos Recreios.

E a magia da distância que a onda curta e o transistor resolvem, como estar às portas do deserto entre a Tunísia e a Argélia e poder ouvir as notícias de “casa” ou o relato de um Sporting-Porto em Alvalade...praticamente em cima de um camelo. Ou estar na Ilha de Moçambique, de noite e sem energia eléctrica – à luz de uma vela apenas – e receber as sensações de um outro jogo de futebol no desaparecido Estádio das Antas.

Como dizia o publicitário Bob Schulberg em 1989 – o ano da queda de mitos e muros – “ a televisão não é ruim, mas a Rádio é mágica. Se a televisão tivesse sido inventada antes, a chegada da radiodifusão teria feito as pessoas pensarem:- que maravilhoso que é a Rádio! É como a televisão, só que nem é preciso olhar!”.

CINCO ANOS DEPOIS...

Cinco anos e alguns meses depois de ter sido praticamente empurrado para uma aposentação precoce – voltei a viver todo este espírito da rádio em Moimenta da Beira. Nos estúdios da Rádio Riba Távora, que o Veríssimo Santos decidiu partilhar comigo e com a Casa do F.C. do Porto local, para pormos em prática a minha ideia de se construir um “puzzle” à volta de Aquilino e de Moimenta. Foi muito bom voltar a sentir todas as emoções de uma emissão em directo, pelo que expresso aqui a minha gratidão. A Moimenta e às pessoas de Moimenta! Mesmo àquelas que não quiseram ou não puderam aderir à ideia.



2010-10-15

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !


MINEIROS..... NUM CHILE NOVO !

Tal como milhões de pessoas em todo o mundo, interessei-me e assisti emocionado ao desenrolar da brilhante e eficaz operação de resgate dos mineiros chilenos, presos durante 69 dias a mais de 700 metros de profundidade.

A história foi sendo conhecida e relatada ao longo deste tempo e, por isso, não será ela o objecto deste meu apontamento.

Confesso que, apesar de inusitadamente emocionado, não era minha intenção escrever o que quer que fosse – correndo o risco de acrescentar outras banalidades à globalizante, massificante e perigosamente uniformizante catadupa de notícias. Embora em menor escala – eventualmente uma circunstância feliz – os media nacionais não deixaram de copiar praticamente todos os grandes colossos da comunicação social internacional. Mas igualmente não será este o motivo das minhas palavras aqui, talvez com uma excepção. Não resisto a salientar o que considero ser um infeliz pormenor num comentário que ouvi numa estação de referência da TV portuguesa. No meio de tanta emoção, de tanta informação técnica sobre a operação de salvamento dos mineiros, no meio de uma espiral de solidariedade internacional que o drama havia produzido – eis que um jornalista saca da sua “caxa” : - os mineiros vão defrontar-se com uma série de problemas, sendo preocupante a forma como terão que lidar com as suas amantes ! Ponto final parágrafo !

Mas o que me empurrou para a crónica, foi ter recebido pela manhã uma pequena mas profunda mensagem do meu caro amigo Jorge Bento. Transbordando felicidade e humanidade, dizia ele que a operação se tratou de uma extraordinária performance humana, sublimadora e transcendente de tanta coisa baixa e mesquinha que ainda tolhe os passos da tentativa de elevação da Humanidade. Elevemos os olhos ao céu e sonhemos outra realidade !

E então lembrei-me do Chile ! Do actual país numa via de consolidação democrática e que foi capaz de gerar toda esta onda de solidariedade internacional... mas sobretudo do seu ainda recente contraponto – o Chile da ditadura que Pinochet instaurou a 11 de Setembro de 1973 com o apoio da política externa dos EUA.

E rapidamente alcancei as histórias que o resistente dissidente Luís Sepúlveda brilhantemente nos conta na sua obra de grande alcance, tendo igualmente como pano de fundo de alguns dos seus textos os mineiros chilenos alvo da repressão. Como por exemplo neste “O General e o Juíz”, no qual aprendi o massacre do exército em 1907 em Iquique. E recordei também dois episódios da ditadura recente – o que Sepúlveda descreve como fazendo parte da ininterrupta história infame da infâmia.


1967 – Ao tempo do Presidente Eduardo Frei (pai), também no deserto de Atacama, sufocada greve dos mineiros de El Salvador em luta por melhores salários. Ataque do exército provocou oito mortos, que os jornais da época consideraram agitadores.

1968 – Cidade austral de Puerto Montt, um grupo de famílias sem casa ocupou a fazenda abandonada de Pampa Irigoin, construindo aí barracas de madeira e cartão. Ataque do exército provocou onze mortos. Justificação :- os militares haviam reposto a ordem e o respeito pela propriedade.

Para além de nunca se ter efectuado uma investigação, nunca se mencionou que o responsável pela execução dos dois massacres foi Augusto Pinochet.

Felizmente há um Chile novo que nos permite sonhar outra realidade, como sublinhou Jorge Bento. E que permite novas reflexões à leve - mas profunda - escrita de Luís Sepúlveda neste "A Sombra do que Fomos".






2010-10-13

DE NOVO E SEMPRE O MESTRE AQUILINO !


O MESTRE, UM ADVOGADO, UM BISPO E UM LIVRO.

Não conheço pessoalmente o Dr. Manuel de Lima Bastos, de quem o Senhor D. Manuel da Silva Martins, Bispo emérito de Setúbal e um destacado combatente pelas coisas certas da vida, diz ser "um especialista na arte de escrever e um homem que sabe e que sente" e que "...eu até caí na heresia de chegar a compará-lo com o seu ídolo Aquilino Ribeiro. Quem não gosta de Aquilino?".
Gosto eu, naturalmente, a par de mais algumas centenas de portugueses que se interessam pela obra ímpar do Homem da Nave, exímio mestre na arte de conjugar elegantemente o verbo e o sujeito da simplicidade humana. E por gostar, aqui o trago de novo ao convívio dos meus pensamentos com, sabe-se lá, uma forte meia dezena de leitores deste espaço tão real quanto virtual - obra e graça das chamadas novas tecnologias que marcam o ritmo deste nosso tempo.

Voltando ao início da função, apraz-me registar que Manuel de Lima Bastos nasceu num frio mês de Janeiro, tal como eu, apenas dois dias depois e alguns anos antes do meu aparecimento terreno. E depois, a feliz coincidência de um "espírito santo de orelha" que me foi transmitido por D. Manuel Martins, provavelmente durante uma das mais "recentes" entrevistas que teve a amabilidade de me conceder ou no acto de uma oferta do meu livro "Da Beira !...Alguns Poemas e uma Carta para Aquilino". Lima Bastos seria um excelente conhecedor da obra do Mestre ! E é.

Comprova-se, lendo este "roteiro" aquiliniano pelas chamadas Terras do Demo a que o autor deu o título de "De Novo à Sombra de Mestre Aquilino" - uma sequência de um primeiro "À Sombra de Mestre Aquilino" saído em 2009. Este, de que agora faço uma primeira leitura, vai ser apresentado em breve, esperando que o seja também em Moimenta da Beira e, naturalmente, na Biblioteca que leva o nome do Mestre.
Evitados os escolhos da primeira publicação, que o autor relata neste "segundo" volume, fica a boa nova de um próximo já praticamente pronto "...sobre a polémica célebre que Aquilino travou com o meu conterrâneo D. Sebastião Soares de Resende, primeiro bispo da Beira, nas páginas do suplemento literário do jornal Novidades[...]".

O "roteiro" desta obra começa em Vila Nova de Paiva, seguindo no rasto do Mestre Aquilino por Terras de Sernancelhe, Terras de Moimenta da Beira, Terras de Aguiar da Beira, Terras de Sátão... e termina com uma carta ao Mestre como se fora um posfácio, no qual se pode ler : "Não nos conhecemos fisicamente mas há mais de sessenta anos, sentindo a sua presença benigna à minha volta, o tenho na conta de pessoa de família a quem posso contar tudo e de quem posso esperar que tudo compreenda".

Uma excelente obra de leitura e de consulta, de um autor em que D. Manuel Martins vê como que o reflexo de Aquilino Ribeiro. Boa leitura.

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !



Terrível...esta angústia de tentar manter uma certa cadência de escrita e verificar, na realidade, que nem sempre é possível - apesar do desejo e de quase sentir a obrigação de vir aqui. E de repente há uma notícia fulminante que não se pode evitar.

Partiu mais um companheiro de infância nas Ilhas do Equador Africano. O Pacífico Brandão - um bom gigante! Na amizade e no companheirismo. Que depois foi camarada de trabalho na RDP. Tinha apenas 56 anos de idade e um coração "doador" que viria a transformar-se em causa. Deixa duas filhas e a Amélia - uma companheira de sempre na vida e no trabalho. Para elas um abraço especial, que envio também à irmã Lurdes, igualmente presença antiga nas relações de trabalho, primeiro nas Ilhas do Meio do Mundo e depois aqui em Portugal.

E registo também a memória dos pais que dos meus foram próximos.

Até um dia destes Pacífico. Descansa bem.