2012-04-06

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !


MEMÓRIA E HISTÓRIA !

Membro fundador da Sociedade Portuguesa de Oncologia e seu primeiro Secretário Geral – acaba de estabelecer a passagem para outra dimensão o Dr. Cardoso da Silva.

Desde sempre ligado à causa do combate à terrível doença, Cardoso da Silva foi médico no IPO do Porto, Presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro, nacional e no norte do país.

Fez parte de um vasto lote de médicos igualmente empenhados, nomeadamente Guimarães dos Santos, Gonçalves Dias, Francisco e António Gentil da Silva Martins.

Foram (também) estes homens que divulgaram publicamente as actividades da Liga e do IPO, ajudando a combater o medo. Eu, enquanto jornalista, tive o privilégio de os acompanhar nessa missão desde o início da década de 1980. Uma especial reverência à Família enlutada, à LPCC e ao IPO e um saudoso e grato abraço ao Dr. Cardoso da Silva. Memória e História.

2012-03-21

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !


O rei vai despido...mas a fanfarra continua a tocar!

Triste país no qual os aposentados quase pagam por inteiro as suas próprias reformas. Acabei de ver:- menos €60 euros, por mês, na pensão a partir de agora. Num sitema de concorrência, a energia elétrica aumentou; o gás subiu a perder de vista – de tão leve que é; os combustíveis atingem um patamar cada vez mais alto (quase é necessário um bom escadote para, em simultâneo, conseguir olhar para os números e segurar na mangueira); quem já tudo hipotecou na vida só lhe resta esperar pela morte; torna-se cada vez mais proibitivo chegar às prateleiras do supermercado; passar a porta da farmácia é uma decisão de vida ou de morte; mas – desgraça da ironia – temos governantes a dizer-nos para poupar pois, se pouparmos, certamente teremos fundos para ir de férias. A economia, dizem, está a crescer (paradoxo dos paradoxos, ou o milagre dos doutores da economia...cresce negativamente!) e nós não somos como a Grécia, pois temos a confiança dos mercados; e, depois, o nosso mercado interno definha a olhos vistos, ficando este (des)governo com o rótulo de ter sido aquele que bateu o record do número de desempregados em toda a história deste nobre ou pobre povo.

Os governantes continuam a ter carros topo de gama, mas as polícias já sem carros e quase sem armas e munições nem de bicicleta conseguem patrulhar as ruas e proteger os cidadãos da violência – muita dela gerada pelas péssimas condições sociais. As escolas que foi preciso melhorar, também para evitar o abandono escolar precoce – ai Jesus que foi um desperdício: as nossas crianças, os nossos jovens só merecem aquele tipo de escolas do velhinho “plano centenário”. Sem aquecimento, sem cantina, sem pátio, sem biblioteca, sem equipamentos básicos de aprendizagem. Voltemos ao tempo da “lousa” para escrever e, cuspindo nela para apagar, a fim de poder fazer contas de seguida.

De governantes sem carácter, que agora pretendem acabar com a figura jurídica da presunção de inocência e, colocando-se acima da lei, pretendem igualmente que sejam os cidadãos moribundos a fazer o seu trabalho – podemos esperar tudo. Não podemos é admitir que o PR se demita das suas funções de garante da CRP, assistindo diariamente a um corropio de violações, sem nada dizer e pouco – muito pouco – fazer!

Por isso é que eu digo que o rei vai despido...mas a fanfarra continua a tocar. E neste “Dia Mundial da Árvore, mas também da Poesia – essa sublime forma de protesto e de chamar os bois pelos nomes” posso dizer:

“Temos um rei despido...temos um rei despido

- grita o rapaz dos jornais!

Uma tragédia! – se vai despido, está nú!

Será talvez um nú artístico – pensa o libertino com pose de poeta.

Mas vem o sem-abrigo e contrapõe: obsessão pelo sexo!

Se o rei vai nú

Por certo se lhe vê o sexo

Ou até os refolhos do cú!

Às tantas, o poeta sério de intelecto quase balbucia uma réplica:

- nada de mal na Arte da nudez.

Mente aberta e coração ao largo

O espírito criativo faz do país uma potência

Sem a censura opressora e um corta-relvas no cargo.

Mas o rei continua despido...e a fanfarra continua a tocar”.

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António Bondoso

21Março2012.

2012-02-24

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !



Depois do muito que se escreveu e disse...Preferi registar a ideia, simples, de que "O Zeca Faz Falta".

Como alguém disse:- "todos os grandes talentos são humildes e discretos".


O ZECA FAZ FALTA...

O José Afonso que me chegou de Coimbra

Em tom de fado

Ou o Zeca Afonso que recebi de Paris

Como protesto

Foi Abril foi Maio, toda a vida

Em luta por ideias e princípios

Sem trocar a liberdade de pensar

Sem vender a razão de a cantar.

De Afonso e de Zeca imperfeito

Somou aos amigos com defeito

Tantos outros que, sabendo, conquistaram

Seu coração partilhado e já magoado

Por traição de uma vida tão madrasta.

E de um Zeca lutador

E de um Afonso sonhador

Ficou Portugal tão órfão

Que hoje ainda se clama seu canto de madrugada,

Símbolo libertador de um país amordaçado

Seu nome fruto maior há tanto tempo sem tempo

Revolta, luta, verdade

Memória, grito, saudade.

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A.B. 23 Fev.2012

Por ocasião dos 25 anos da morte de Zeca Afonso.

2012-01-31

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !



PORTO, 31 DE JANEIRO DE 1891

Agora, que os momentos significativos da Nação se negoceiam na praça pública - um para mim, outro para ti - não me levarão a mal que eu recorde o importante significado da Revolta de 31 de Janeiro de 1891, no Porto. O regime em vigor já tinha entrado em delírio, praticamente em decomposição, quando alguns homens de ideais de justiça e de desenvolvimento - na sequência dos grandes "liberais" de 1820 - decidiram que era chegada a hora de implantar a República.



Uma Bandeira Vermelha e Verde chegou a ser hasteada na varanda da (então)Câmara Municipal.


A história, indiferentemente das fontes, refere como grandes figuras do Movimento o capitão António Amaral Leitão, o alferes Rodolfo Malheiro, o tenente Coelho, além dos civis Alves da Veiga, o actor Miguel Verdial e Santos Cardoso, além de figuras destacadas da cultura como João Chagas, Aurélio da Paz dos Reis, Sampaio Bruno e Basílio Teles.
De acordo com a Infopédia, que cita o Dicionário de História de Portugal - de Joel Serrão - o acontecimento teve início na madrugada do dia 31 de Janeiro, quando o Batalhão de Caçadores nº9, liderado por sargentos, se dirigiu para o Campo de Santo Ovídio, hoje Praça da República, onde se encontrava o Regimento de Infantaria 18 (R.I.18). Ainda antes de chegarem, junta-se ao grupo, o alferes Malheiro, perto da Cadeia da Relação; o Regimento de Infantaria 10, liderado pelo tenente Coelho; e uma companhia da Guarda Fiscal. Embora revoltado, o R.I.18, fica retido pelo coronel Meneses de Lencastre que, assim, quis demonstrar a sua neutralidade perante o movimento revolucionário. Depois juntou-se ali o regimento de infantaria n.º 10, comandado pelo capitão Leitão que assume o combate das tropas sublevadas, convencido de que o movimento não seria hostilizado por outras forças militares.
Os revoltosos desceram a Rua do Almada, até à Praça de D. Pedro (hoje Praça da Liberdade) onde, em frente ao antigo edifício da Câmara Municipal do Porto, ouviram Alves da Veiga proclamar, da varanda, a implantação da República.
Foi hasteada uma bandeira vermelha e verde e foi também anunciada a constituição de um governo provisório. A multidão decidiu subir a Rua de Santo António, em direcção à Praça da Batalha, com o objectivo de tomar a estação de Correios e Telégrafos.
Este cortejo foi no entanto barrado por um destacamento da Guarda Municipal posicionado no alto da Rua de Santo António. Principiou o tiroteio entrando a multidão em debandada.
A derrota consumou-se em poucas horas e a prisão ou o exílio esperavam os implicados. Alguns deles conseguiram fugir para o estrangeiro: Alves da Veiga iludiu a vigilância e foi viver para Paris: o jornalista Sampaio Bruno e o Advogado António Claro partiram para Espanha, assim como o Alferes Augusto Malheiro que, daí, emigrou para o Brasil.
Em memória desta revolta, logo que a República foi implantada em Portugal, a então designada Rua de Santo António foi rebaptizada como Rua de 31 de Janeiro.
Do ponto de vista político, a revolta assumiu, fundamentalmente, o carácter de afrontamento às instituições monárquicas: pretendia-se sobretudo, destronar a dinastia reinante dos Braganças e, desse modo, resgatar a afronta nacional que a sua política tinha infligido à Nação- ao aceitar o Ultimato inglês em 1890.

2012-01-25

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !

Tempos difíceis, conturbados, mas não podemos perder a Razão. As emoções à flor da pele conduzem a muitos perigos. E por muito que seja o sofrimento, a amargura e a desilusão... não podemos dar-nos ao luxo de colocar a Democracia em maior perigo !



ODE À REVOLTA

Tristes versos de um poema na cidade
Tristemente adormecida
Prendem a atenção do poeta angustiado
Enleado em rumores, ditos e não ditos
Talvez simplesmente imaginados.
Escreve de ouvido
Já cego pela revolta da amargura
Desenha pelo tato outros sentidos
Que as cores do arco-íris não contemplam.
Poderia ser um poema duro e belo
Exaltada ode a uma raiva acumulada
Ou apenas soneto da vergonha e da verdade.
Mas as letras que nasceram mal paridas
São antes aqui a leitura perseguida
Do poema da mentira do que somos
Uma sátira do mundo em que vivemos.
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AB. Jan2012

2012-01-16

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !

A CHUVA E A MÚSICA...

As árvores ainda despidas
Impedem o jogo de sombras
Na relva molhada.
Porque chove
E não há sol.
E as almas circulam
Gémeas de tristeza
Excepto um jovem casal
Ainda no sonho de um mundo só seu.
E chove.
E não se vê o rio dos meus encantos
Para além da cinzenta placa de betão.
Mas ouve-se música...
E deixo-me levar a outros tempos
Diferentes imagens outros afectos
Pingos de sempre mas de novas roupagens.
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Porto-Março 2010.

2012-01-02

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !

Com exceções do tempo do Nazismo e do tempo da Guerra Fria, o "Desporto" sempre demonstrou estar à altura da união/convívio dos povos civilizados !



2011-12-29

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !

Agora... que se aproxima 2012, deixo uma pequena - mas avisada - reflexão!

Aqui, em Moimenta da Beira, terra de meus pais e meus avós e de outros antes deles mais avós.

Palavras frias e secas...apenas de leve esperança bordejadas.


O ANO DOZE...NO DEMO.

Quando aqui se queima o Velho
É a esperança que nasce
Repetidamente renovada em noite de quente folia.
Renasce no novo ano toda inteira
Mesmo que os sinais se mostrem
Embuçados, turvos ou difusos
Nos dias frios que precedem a noite louca.
O vento gelado que nos chega
Do Marão a curtir a pele seca,
Prenúncio telúrico de Torga
Ou de Aquilino seu carácter revelado
Teimosamente beirão,
Traz na brisa cortante um certo fado
De perigos em Dezembro esconjurado.
É então que o alto fogo alcança
Do céu os seus limites em Janeiro
Devora decrépita figura engalanada
E apresenta a quem repara
A dúzia deste século embaraçado
Em mortes, fomes e misérias
E em tragédias de comédia anunciado.
========== A.B. 2011 – Moimenta da Beira.

2011-12-17

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !

Cesária Évora – aos 70 – permanece como Património Imaterial da Humanidade !

Não quero, de todo, escrever aqui um vulgar “elogio fúnebre” a uma grande mulher africana. De uma infância difícil até à fama mundial, Cesie – assim chamada pelos amigos – viveu à volta da música. De grandes músicos que o seu país continua a legar a este mundo. Só em Portugal ninguém percebeu o seu valor em 1985. Foi pena ! Ou não... para bem dela e de Cabo Verde.
E numa altura em que o “Fado” foi elevado à categoria de património imaterial da UNESCO, também foi pena que o seu país não houvesse tido a oportunidade e a vontade de atingir esse objectivo com a “morna”. Também foi pena que o “caso” não tivesse sido abordado e assumido – como projecto comum – pela CPLP.
Pode ser que, após cada “derrota”, alguém se lembre de pensar sempre mais à frente !
Cesária partiu para parte incerta... curiosamente uma semana depois de o Prof. Adriano Moreira ter sido distinguido na Universidade do Mindelo como Dr Honoris Causa.

Uma sugestão de missão para a CPLP: --- concertadamente, um doutoramento honoris causa em cada um dos “Oito” para esta “Dama de Pés Descalços”.

2011-12-09

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !


Dobra a finados na Europa. O “eixo” renasce !

Acordo intergovernamental à custa das pessoas sem que elas sejam ouvidas ? Como diria Almada Negreiros “modernista” – Portugal não está no passado nem no presente! Os portugueses não fazem ideia do que seja uma Nação – um conjunto nacional, um pensamento comum, uma vontade unânime e colectiva. A Nação está incompetente para utilizar os valores dos seus cidadãos, não sabe utilizar as suas capacidades.

Aceitamos tudo o que os poderosos nos querem impor.

Sabe-se que a intervenção do BCE seria decisiva para evitar mais recessão na Europa, mas o eixo (onde é que eu já ouvi esta palavra?) impôs as suas teorias e os seus interesses. Por uma vez sou levado a estar com a posição inglesa.

Aquele que tem sido nomeado frequentemente como a “voz da consciência” da economia – Amartya Sen – bem lembrou que a Europa devia esperar pelo momento certo para reduzir a dívida pública.

Por outro lado, é neste cenário complexo e difícil que os 27 decidem passar a 28 – com a adesão da Croácia – um exemplo de virtudes democráticas.

Recordo o “dilema” de Augusto Rogério Leitão, Prof de RI na Universidade de Coimbra : = Ou a União opta por ser fundamentalmente uma Zona de Livre Comércio (…) e as suas fronteiras poderão alargar-se; ou opta por uma união política com maior partilha das soberanias, e as suas fronteiras terão de ser menos extensas.

Tudo ao contrário. Rogério Leitão teme (continua a temer) o divórcio entre os povos europeus e o passo de corrida das elites na construção europeia.

Reparemos na expressão conclusiva que o 1ºM PPC revelou aos jornalistas portugueses:--- O tempo dirá se... o tempo dirá se...

O tempo – esse eterno rival da convicção e da competência !

2011-12-04

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !


O Natal é um reflexo.

De um espelho muito baço ou de um mágico momento?

Nem sempre se descortinam as razões da dúvida, mas é certo que o período natalício tanto projecta alegria, consumismo, felicidade...como realça tristeza, pessimismo, desespero. Paradoxo? Nem por isso. E as culpas da contradição nem sequer podem ser exclusivamente atribuídas ao Pai Natal da Coca-Cola. Já muito antes de terem descoberto a morada mais recente da elegante e veneranda figura de barbas brancas, na Lapónia, se reconheciam sinais de dupla face no que toca a uma época desde sempre desejada como devendo ser de comunhão, de concórdia, de solidariedade. Os cristãos, provavelmente, não terão entendido de imediato o significado da estrela brilhante que havia guiado os Reis Magos ao berço térreo de Belém. A luz destacada no nocturno firmamento da terra prometida poderia ser, afinal, o reflexo de uma Luz solar que marcava o solstício do Inverno – data entendida como oficial pelo imperador Aureliano – a qual passou, assim, a ser festejada pelos cristãos, já não apenas como acontecimento pagão mas também com um sentido moral, de respeito pelo nascimento de Jesus, pelo Sol da Justiça, pela Luz do Mundo. Decorria o ano de 274, mas igualmente se sugere a possibilidade do ano 336. A luz brilhava, mas – não podendo haver certezas num tempo sem computadores, sem internet, sem fibra ótica – houve quem explicasse a data do nascimento de Cristo à luz de uma teoria simbolico-astronómica, na qual se equacionam o dia da Sua conceção e o dia presumido da Sua morte mais os nove meses da gravidez de Nossa Senhora. Refletem-se nesta equação o equinócio da Primavera, a Páscoa judaica a 25 de Março, o dia da criação do mundo e ainda o dia da Encarnação. Esta “incerteza” sobre o dia 25 de Dezembro vem contada num livro de Silva Araújo[1] que lembra ainda a data de 6 de Janeiro na qual, no século IV, o Natal evocava simultaneamente o nascimento de Cristo, a adoração dos Magos e o baptismo de Jesus. Nesse dia, agora já no século XXI, trocam-se prendas em Espanha e cantam-se as Janeiras em Portugal. O que deveria ser importante, sobretudo numa época de crise mundial como a nossa – financeira, económica, ética e de valores morais – seria retermos o simbolismo da mensagem de Cristo, atentos à verdade, à paz, ao diálogo, à amizade, à solidariedade, mas também seriamente preocupados e decididos em enfrentar as causas da pobreza, da desigualdade e da ganância. Poderíamos ter, assim, um espelho menos baço e muitos mais momentos de magia. A luz das estrelas ainda nos pode motivar!

A.B. – Dez 2011.



[1] - Viver o Natal, Livraria Apostolado da Imprensa – Porto, 1987 (2ªedição).

2011-11-27

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !


Morreu Ojukwu, o homem que sonhou a liberdade e um país para o povo Igbo, no sudeste da Nigéria.

Mais de um milhão de mortos, numa guerra religiosa, nacionalista e regada com os interesses do petróleo. De 1967 a Janeiro de 1970.

Fica a minha memória, num poema do livro Seios Ilhéus :


BIAFRA – O SOL PERDIDO

Era um tempo sem futuro

Parecia ser naqueles dias.

A África centro do mundo

Berço da humanidade,

Dividida por milénios

De inveja negócio e morte

Abria as entranhas à sorte

Do genocídio de um povo

Inocente de promessas carente de tudo novo.

Era um tempo sem futuro

Parecia ser naqueles dias.

De uma Nigéria feita à força

Das armas e da mentira

Separou-se um povo Ibo

Da barbárie destemido.

Da Europa e Ocidente só lhe chegavam compressas

A fome foi mais que a guerra

Violenta de sangue a terra.

Era um tempo sem futuro

Parecia ser naqueles dias.

Os homens na selva densa

Separados das mulheres

Dos filhos e dos haveres,

Combatiam com esperança

De ver um Sol de justiça

Queimar a dor submissa

De um Biafra espezinhado.

Era um tempo sem futuro

Parecia ser naqueles dias.

Da Ilha de santo nome fez-se a corrente da paz .

Pelo ar ia a coragem remédio de S.Tomé

Pelo ar vinha a vergonha de quem não era capaz

De travar o holocausto e já se perdera a fé.

Mas levou-se até ao fim essa missão de bandeira

Potências de olhos vendados

Deixaram para as Igrejas tantos trabalhos forçados.

Era um tempo sem futuro

Parecia ser naqueles dias.

Crianças de corpo nada

Pele e alma acorrentados

Traziam a morte nos olhos

Queriam ser acarinhados,

Não percebiam razões

sofrimentos incuráveis

Vegetavam não viviam ao bater dos corações.

Era um tempo sem futuro

Parecia ser naqueles dias.

Mães e filhos pais e netos

Avós da mesma nação

Vítimas de seres inquietos

Mortos por querer um país

Sempre o seu por tradição.

Ou por ser antes do tempo ou antes tarde demais

Um milhão de seres humanos não pode rezar jamais.

Era um tempo sem futuro

Parecia ser naqueles dias.

De tantos anos passados

Memória que já não lembra

Só aviões que não voam cansados de morte lenta

Metralhados ao segundo de vida que se lamenta

Esquecidos esventrados e com mato amortalhados

História feita aos pedaços

À espera de novos passos.

É ainda um tempo sem futuro de crude motivo e ódio

Delta do Níger sangrento

Espero que seja breve…

Talvez nos próximos dias! [1]




[1] - Por ocasião do 40º aniversário do início da “Guerra do Biafra” – 1967.

2011-11-21

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !


Com a devida vénia, publico um texto que me chegou através do Gabinete de Comunicação da C.M. de Moimenta da Beira.

Mãos ágeis, mãos hábeis, mãos mágicas. São as mãos dos artesãos do concelho de Moimenta da Beira que trabalharão ao vivo de 3 a 17 de Dezembro, na I Feira de Artesanato e de Arte Popular que decorrerá no Salão de Exposições do Mercado Municipal de Moimenta da Beira. Se estiver por perto, não perca, de todo! Feira de Artesanato antes do Natal. É a primeira Feira de Artesanato e de Arte Popular que a autarquia organiza. Arranca a 3 de Dezembro e encerra a 17, no Salão de Exposições do Mercado Municipal de Moimenta da Beira. São 15 dias com artesãos do concelho a trabalhar ao vivo. Mais de 30 já se inscreveram. O trabalho artesanal estará sempre à venda. A feira pretende ser uma via de promoção ao artesanato local e, à porta da quadra natalícia, promete dar boas sugestões para as prendas deste Natal.
Aos fins-de-semana a feira funcionará todo o dia. Nos dias úteis estará aberta só à tarde.
No espaço haverá ainda animação musical, realização de workshops, exposição dos trabalhos manufacturados à mão pelos artesãos (cestaria, estanho, madeira, bordados, capuchas, meias e outras artes criativas), pinturas faciais e um Pai Natal que se deixará fotografar com as crianças.
O início e encerramento da feira de artesanato coincidem com as duas próximas edições da Feirinha da Terra. Mais uma oportunidade para apreciar o que de melhor se produz nas hortas e nos campos agrícolas do concelho de Moimenta da Beira.
“É um evento que promete animar este mês de Dezembro”, garante Alexandra Marques, a vereadora do Turismo.

2011-11-17

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !


O "poema" - ou uma historieta poética - que vai o título ao meu próximo livro. Imagens e "sons" imaginados num mundo louco e cavalgante em direcção ao abismo.

UM CAVALO MONTADO NUMA NÚVEM BRANCA...

Vi-o claramente... passe a velocidade do vento

Que empurrava as núvens

Para lá do alcance da minha visão

Balizada por um tríptico de vidro à frente de uma cadeira

De articulado macaense

Onde me reclino para reflectir sobre alguns dos males

Do mundo que vivemos.

Era mesmo um cavalo montado numa núvem branca.

E voava veloz na dianteira do forte vento

Que soprava, para evitar desfazer-se no meio

Do real dilúvio intenso e permanente nessa hora.

Não relinchava...

E provavelmente não se queixava do esforço

E do chuvoso temporal

Pois ia montado numa núvem branca.

Sem cela e sem estribos não dava pinotes

Nem cavalgava...

Deixava-se simplesmente

Arrastar pelo vento que empurrava a núvem branca.

Não sei...talvez ninguém saiba ainda

O que terá acontecido ao cavalo que passou

Montado numa núvem branca

Empurrada pelo vento forte

Do temporal.

Fugiria de alguém?

Tentaria alcançar pelo contrário

Esguia figura e nebulosa?

Não por certo um qualquer D.Sebastião.

Mas no dia seguinte

Com idêntico ângulo de visão

Quase jurava de novo tê-lo visto.

Só que então – qual imagem invertida –

A núvem branca galopava na equídia garupa.

Uma núvem sorridente

Do esforço da véspera bem refeita e sabedora

Do bom que é cavalgar

Alegremente

O indomável espírito da aventura.

O sorriso

Porém

Talvez fosse efeito de razão mais séria

Que uma modesta e irónica encenação.

Um rasto de política conjuntura

Empresta um certo ar de conspiração à novela

Deste veloz cavalo montado numa núvem branca,

A qual por sua vez é agora o cavaleiro

De uma manobra arriscada

Mas com um final sugerido de promessa.

Só cooperando lá chegarão

Avisos que foram tendo em sua devida conta

Na travessia de tão violenta tempestade.

Sem a núvem branca

O cavalo sem crina não teria passado quase incólome

A aventura de tentar conquistar bispos e peões neste xadrêz

De torres fortes já tomadas,

E de uma raínha sem rei

Que a proteja

Num jogo de mistério e bem difícil.

Vencer a batalha final é maior prémio

Por demais custoso e valioso

Deixando ao acaso e pelo caso pormenores

De uma singela táctica da tradicional conquista do poder.

Da alta finança à pobreza é um salto de cavalo

Que os pobres são pessoas de encarneirado estatuto

Sempre atrás de quem preside sempre atrás de quem governa.

A certeza permanente

De um des-controlo doente

Ou qual troça sorridente

De um des-governo saloio.

Sem a ética aparente de uma honra virtual

Vai o cavalo montado numa núvem espessa e branca

Saltando de casa em casa tabuleiro viciado

À procura do sucesso de uma saída imortal.

Enfraquecer o adversário

Objectivo directo que preside e não contempla

Evidentes imprudentes dificuldades acrescidas.

Por isso tal táctica envolve e desenvolve

Inesperadas aparentes e tão ingénuas estratégias

Englobando corridas de económica loucura

E financeiras políticas no combate partidário a destempo.

Qual cavalo qual núvem

De branco já se confundem

Se um não foge nem se esconde

A outra vai-se esfumando.

E nesta síntese de vida

É o pensamento a fluir

Germinando

Dominando

Conquistando além dos sonhos

tão real aparição.

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A.B. 2011

2011-10-26

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !


***** Para quem viaja na leveza do sono e dos sonhos dos justos...

DIMENSÃO DO SOM DA CHUVA…

O som da chuva quando cai

Abafa o silêncio dos que vivem.

O bater incerto das gotas

Violentadas pelo vento

Intimida a borboleta de bater as asas simétricas

Privando os olhos despertos dessa magia das cores

Impede a abelha rainha de voar para as flores

Paralisa na raiz o mais simples pensamento

Corta ao poeta o condão de seguir as suas métricas.

A chuva não rima com nada

Coisa alguma isolada .

Mas quando traz tempestade

Grávida de furacões de tornados e tufões

Fruto de violentos amores

Misto de loucas paixões

Consumidas pelos homens,

Não fica pela metade

Põe a razão inundada.

E apesar da inundação

Cheia de sofrimento

A chuva continua a cair

Inventando esse momento

De um pingo grosso medir

O som épico dessa enorme dimensão

Que todo o silêncio tem

Quando a chuva cai raivosa vazia de tudo

Cheia de nada corpo desnudo.

O som da chuva quando cai

Exalta a revolta húmida dos mortos !

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António Bondoso

2007