2012-09-12


À VOLTA DE MIM E DO MUNDO...e DE VEZ EM QUANDO!

Como escrevi há tempos, Celebrar Aquilino...é tão simples como saciar a sede!

Vai daí, a notícia que se segue é "ouro sobre azul"!



A Fundação Aquilino Ribeiro (FAR), em Soutosa, Moimenta da Beira, comemora, esta quinta-feira à noite, 13 de Setembro, os 127 anos do nascimento do escritor. A sessão de abertura, pelo Conselho de Administração da FAR, está marcada para as 21h30, e o programa inclui o lançamento do livro “Aquilino Ribeiro: Evolução do Homem Republicano”, de Celina Arroz (22h00); um momento musical (23h00) e um Demo de Honra a fechar.
A obra de Celina Arroz revisita o percurso de Aquilino, desde a sua adolescência e juventude, até se tornar um republicano convicto, e a partida para Paris após o regicídio em Lisboa, no dia 1 de Fevereiro de 1908.

Para quem admira e segue - ou procura seguir - o Mestre Aquilino, a obra é esperada com expectativa. Particularmente na esperança de ter acesso a novas informações.
Numa tentativa de aumentar essa focagem, recomendo uma breve leitura de "PÁGINAS DO EXÍLIO", de Jorge Reis e com ilustrações de Leal da Câmara - publicadas em 2 volumes pela VEGA, em 1988.


O percurso que interessa sobretudo reter, começa mais ou menos com a sua chegada a Lisboa, com 21 anos de idade, para ganhar a vida na escrita. Ao mesmo tempo que entra no corpo redactorial de A Vanguarda, adere a um "canteiro" da Carbonária. Depois de uma explosão no quarto onde se hospedava, é preso, em 1907, mas consegue evadir-se em Janeiro do ano seguinte. Acontece o Regicídio em 1 de Fevereiro de 1908 e, finalmente, vai para Paris a 31 de Maio, nas condições assim descritas por Jorge Reis, no 1º volume das Páginas do exílio:








Parece que só a guerra o obriga a regressar a um país onde sabe não haver arte, nem literatura, nem moral científica. E Aquilino diz mesmo "Nós temos muitos doutores, muitos literatos, nuitos conferentes, mas ai!" (...) de nenhum deles pinga "verdadeira luz".
E, de acordo com Jorge Reis, esses primeiros seis anos de exílio vão ser cruciais para a sua carreira de escritor - o que sempre desejou ser !




E há um novo trajecto que se inicia com as funções de professor no Liceu Camões, em Lisboa, no ano de 1915 - funções que viria a cessar em 1918, quando publica a Via Sinuosa. Era o tempo conturbado de Sidónio Pais, da Monarquia do Norte, da criação do Partido Comunista Português e da chamada "Noite Sangrenta", em 1921. Já havia publicado Terras do Demo, em 1919, e depois Estrada de Santiago, o Romance da Raposa (1924), Andam Faunos pelos Bosques - 1926 - o ano do golpe militar de Gomes da Costa, em 28 de Maio. A nova ditadura depois da de João Franco, origina um movimento militar republicano no Porto e em Lisboa, acontecendo que Aquilino toma parte no golpe militar de 7 de Fevereiro de 1927 contra a ditadura. Perseguido, refugia-se na Beira, volta a Paris e acompanha os últimos momentos da primeira mulher em Soutosa. Participa na tentativa de levantamento do Regimento de Pinhel. De novo é preso, novamente se evade.Segundo casamento em Paris. Seguem-se Baionne, Vigo e Tui. E em 1932 regressa semi-clandestino a Portugal. É só conferir nos dados nestas páginas do 2º Vol de Jorge Reis:





Depois vem a II Guerra Mundial, que o Mestre já "percebe" em 1934, quando publica o Diário "É a Guerra" e o caderno dum viajante "Alemanha Ensanguentada".
É um percurso bem mais conhecido e definido e sobre o qual não posso deixar de salientar alguns quadros plasmados no 2º volume  das Páginas do exílio , escritos datados de Março de 1988:




António Bondoso, 12 de Setembro de 2012.








2012-09-10

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO...e DE VEZ EM QUANDO !

Foi a 16 de Setembro de 1989. A notícia, acima, é do Correio Beirão de 23 de Setembro desse ano.

Já lá vão 23 anos.
Uma efeméride a celebrar, sem dúvida, pese embora não ser um número redondo - 25 sempre seria um quarto de século. Com mais significado. 

O importante é não deixar morrer o "movimento" que levou às Rádios Locais, mesmo sabendo as contrariedades, os defeitos, as habilidades, os erros que foram sendo cometidos. 

Sobretudo, não deixar de lutar. No sentido de preservar e, principalmente, de melhorar os projectos. E isso... só se consegue estando próximo das pessoas. Não apenas "dizendo" ! Fazendo, praticando. A música é importante, mas a palavra é essencial. Na medida certa... às horas ou aos minutos. Em notícia, em comentário, em reportagem, em prosa, em poesia !





A Rádio, para mim, prossegue sendo uma guitarra freneticamente manipulada por Jimmy Hendrix ou docemente acariciada por BB King, das quais podem sair notas de um afro-americano rock de Harlem ou de um afro-americano blues a caminho de Memphis – onde já destruíram a magia da Rua Beale. A rádio e a música de sentimento, a rádio e a voz de protesto, a rádio da memória escrava, a rádio da sensação libertadora.
A Rádio, para mim, vai sendo a memória da magia do microfone, a magia dos sons, a magia do que fica para além do alcance da imaginação, a magia que permanece no estúdio, no “pick-up” que roda em 45 rotações a voz de Franck Sinatra ou um LP/33 de Maria Bethânia, a magia da “fita” onde se gravaram as impressões de uma conversa amena entre Igrejas Caeiro e Aquilino Ribeiro ou entre Fernando Pessa e Almada Negreiros, a magia do “cartucho” onde se alinhavam spots publicitários anunciando as virtudes da brancura do skip ou apelando à presença na Grande Noite do Fado no Coliseu dos Recreios.
E a magia da distância...que a onda curta (agora tão maltratada pelo governo português) e o transistor resolvem. 
Como dizia o publicitário Bob Schulberg em 1989 – o ano da queda de mitos e muros – “ a televisão não é ruim, mas a Rádio é mágica. Se a televisão tivesse sido inventada antes, a chegada da radiodifusão teria feito as pessoas pensarem:- que maravilhoso que é a Rádio! É como a televisão, só que nem é preciso olhar!”. 
====== António Bondoso.

2012-09-08


À VOLTA DE MIM E DO MUNDO.... e .... DE VEZ EM QUANDO !





UMA CRÓNICA DE FIM DE VERÃO... A FAZER LEMBRAR OUTRAS PRIMAVERAS !
A propósito do VIII Encontro dos Antigos Alunos do Externato Infante D.Henrique – Moimenta da Beira – que vai ter lugar a 15 de Setembro. 




1962 – 2012.
Foi há cinquenta anos!
Maio de 68 ainda vinha longe, mas estávamos em plena “crise académica” em Portugal, em finais de Março de 1962, tendo como cenário a situação já de guerra em Angola.
O Dia do Estudante, que era uso comemorar-se a 25 de Novembro (entre 1921 e 1961 – tendo como origem a “Tomada da Bastilha”, nome que em Coimbra se deu à tomada do Clube das Lentes, que eram as instalações dos professores), quis ser antecipado pelos estudantes da Academia de Lisboa para o dia 24 de Março de 1962, mesmo até à margem das “conversações” com as academias de Coimbra e Porto. E esse ficaria, definitivamente, o Dia do Estudante.
Aqui, socorro-me de um texto sintético publicado no blogue de “manuelgrilo” para se perceber a sucessão de acontecimentos: “E, mesmo sem autorização do Ministério da Educação Nacional, as comemorações iniciaram-se a 24 de Março de 1962. O regime respondeu com a sua brutalidade habitual. A cantina foi encerrada e a Cidade Universitária invadida pela polícia de choque, ignorando a autonomia universitária. Estudantes foram espancados e presos, desencadeando uma reacção de repúdio que levou a que fosse decretado o luto académico e a greve às aulas.
Marcelo Caetano era Reitor da Universidade de Lisboa e mediou uma solução negociada para o problema. Os estudantes voltavam às aulas, mas realizar-se-ia um segundo Dia do Estudante nos dias 7 e 8 de Abril. Assim fizeram os estudantes mas, chegada essa data, o Ministério voltou a proibir as comemorações. O Reitor sentiu-se desautorizado e demitiu-se. O luto académico foi reposto e os estudantes desceram do Campo Grande ao Ministério (então no Campo Mártires da Pátria) ao som do grito "Autonomia!".
A agitação continuou até ao fim desse ano lectivo, continuando a greve às aulas e repetindo-se confrontos entre estudantes e polícia em Lisboa, Porto e Coimbra. Em resposta, o Governo, demonstrando a sua habitual inflexibilidade, aprovou um decreto-lei que permitia ao Ministro da Educação proceder disciplinarmente contra os estudantes. Aplicando esses novos poderes, os dirigentes associativos foram suspensos e inúmeros estudantes presos. http://www.manuelgrilo.com/rui/artigos/crise.html “.                                   
***** MOIMENTA DA BEIRA – SINOS A REBATE !
É nesse clima de agitação, não apenas dos estudantes,  que a população de Moimenta da Beira responde ao apelo do toque dos sinos a rebate, logo pela manhã de 2 de Abril de 1962. E todos correm para o Externato – estava ali o motivo da agitação. 





Não os estudantes contra os professores; certamente não contra o Ministério, nem  eventualmente contra a sua “política”; não é certo que houvesse alguma ligação à contestação universitária; e também não é certo que o protesto tivesse motivações políticas. É essa, pelo menos, a ideia de Rui Eduardo Alves – na época com 14 anos de idade. Se as houve, como admite Helena Dias  (http://inverno-em-lisboa.blogspot.pt/2008_05_01_archive.html  )   citando inclusive José Lucas – “Não podíamos andar nas ruas em grupos de mais de duas pessoas” – essas ter-se-ão verificado na sequência dos acontecimentos: “A PIDE andou em Moimenta da Beira a interrogar os contestatários que defendiam os arcos do edifício”.
Foi esse exactamente o nó da questão. Um edifício de arquitectura moderna e com uma fachada em arcos, à semelhança do Palácio da Alvorada, em Brasília, ideia que o Pe Bento da Guia havia trazido de uma recente viagem ao Brasil. Ai Jesus, um projecto “brasileiro” que não agradou ao regime português. Por isso, os arcos da fachada deveriam ser destruídos. Os estudantes souberam das intenções pelo empreiteiro contratado para o serviço – diz Rui Eduardo. E revoltaram-se, naturalmente, “pois eram os arcos que conferiam maior beleza ao edifício do Externato”. E desde o início tiveram o apoio dos populares. Tal como de Óscar Niemayer – o arquitecto de Brasília – que mais tarde escreveu a Bento da Guia a elogiar o edifício. 






A atitude “expectante” da GNR evitou confrontos e os arcos permaneceram até os ânimos serenarem. Mas a exigência da modificação manteve-se e Bento da Guia  esteve mesmo na iminência de ser preso, pois em Setembro desse ano as obras ainda não tinham sido feitas. E a solução foi desfigurar a fachada com a construção de um muro de metro e meio de altura junto aos arcos. À distância e perante a renovação que hoje se nota, talvez tenha sido a solução mais acertada e de maior visão. O dia 2 de Abril de 1962 foi perpetuado em 15 de Setembro de 2007: 







Que os antigos alunos, neste seu VIII encontro, possam reflectir sobre tudo isto – não sem se interrogarem a propósito dos actuais caminhos do ensino e da educação. Como fizeram os universitários em 1962, sem medo de enfrentar o regime vigente. 




NOTA: - Fotos do autor (Externato Infante D. Henrique ) e de

2012-09-07


À VOLTA DE MIM E DO MUNDO...e DE VEZ EM QUANDO !



Ainda a propósito do 90º aniversário do “Professor”.

Adriano Moreira – muito à frente do seu tempo!

Por isso..deixou de ser ministro de Salazar.

Não foi meu professor, no sentido mais vulgar do termo. Mas sempre o ouvi com muito interesse, li deliciado os seus escritos/reflexões – que me proporcionaram muita e boa informação – o que me permitiu, não há muito tempo, poder ter o prazer de com ele conversar sobre o tema da minha dissertação de mestrado: a Lusofonia e a CPLP no contexto da globalização. 








Nele e dele ouvi falar pela primeira vez, altura em que o vi – à distância de uma “formatura” da Mocidade Portuguesa e do paralelo ajuntamento dos alunos das escolas e do liceu – no longínquo ano de 1961, em S.Tomé e Príncipe. Das minhas memórias de infância e de juventude, foi o ministro cujo nome ficou latente, certamente por influência de conversas de meu pai.
Adriano Moreira, um homem de “direita”? Que o seja, não é crime. O jogo da democracia assim o permite e considera. Não deixa de ser curioso, contudo, que este homem – de direita – defenda os princípios da “doutrina social da Igreja” e do Estado Social, os mesmos que preenchem o chamado “socialismo democrático”!
É certo que, nos intervalos dos interesses, há outras (muitas) matérias que separam as convicções. Mas é curioso notar que, em ambos os campos, nem todos se consideram abrangidos pela totalidade das “intenções”. Para não ir muito atrás e recordar a célebre “Teoria da Libertação”, de inspiração sul-americana, chamo a atenção para o sentido das ideias e das palavras recentes do Bispo das FA, D. Manuel Clemente.
Tarrafal? Quem julga Adriano Moreira e o condena com atitudes de “carrasco”, não estará certamente a interpretar/perceber o papel de uma “assinatura” num tempo complexo de guerra dura e fria a nível internacional. Qualquer outro ministro o teria feito, em 1963 como em 1961, tendo em vista o que se vinha passando em Angola. Que motivos levaram à guerra da Coreia? Quais as razões da guerra da Indochina e, depois, do Vietnam? Mais tarde ainda, o Afeganistão? Leste, Ocidente, Não Alinhados? Quem estará isento de responsabilidades em “assinaturas” desse tipo? Hiroshima e Nagasaki não tiveram assinatura? Justificadas em nome de quê? Bósnia, Ruanda, Kosovo, Zimbabwe, Palestina, Líbano, Sudão, Somália, Torres Gémeas de NY, de novo Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria...e o campo de Guantánamo.
É certo que não se apaga a “História”. Mas não deve ser reconhecido aos seus “manipuladores” o poder da “sua verdade absoluta”, que não há.
Por outro lado, e esse deveria ser o primeiro passo, ao Grande Professor de hoje pede-se apenas que reconheça a sua assinatura de 1961, enquanto ministro. Até porque deixou de o ser pouco tempo depois. E o Tarrafal, se não fosse questão de “política do Estado”, poderia muito bem ter sido “desassinado” por um dos ministros seguintes.
A Adriano Moreira não lhe foi dada, então, a oportunidade de ser “político”. Não foi antifascista mas esteve preso. Demitiu-se por questão de princípios e de visão. Foi saneado com a revolução de Abril mas regressou ao país. Foi, então, político, mas a sua razão académica foi mais forte. É enquanto tal que eu lhe rendo homenagem e reconhecimento. Como iniciador do “estudo” das Relações Internacionais em Portugal, continuando a “teorizar” com lucidez aos 90 anos.
 Foi nesta perspectiva que com ele dialoguei sobre o papel da CPLP e da Lusofonia neste mundo globalizado, sabendo da sua acção concreta no desenvolvimento dos I e II Congressos das Comunidades da Cultura Portuguesa [1964 em Lisboa e 1966 em Lourenço Marques], que estiveram na origem da criação da Academia Internacional da Cultura Portuguesa e da União das Comunidades da Cultura Portuguesa.
Apesar de todas as dúvidas e fantasmas, frequentemente badalados, e de uma particular e dispersa existência, caracterizada pela múltipla pertença de cada um dos Estados-membros – o que condiciona e dificulta qualquer prospectiva – Adriano Moreira diz que a CPLP é uma organização muito original. Porquê? Porque – afirma – “a França, que tem instrumentos de projecção da sua cultura como a Alliance Française, não tem uma CPLP; a Espanha, que tem uma série de países, sobretudo na América Latina, que falam espanhol e tem o Instituto Cervantes – não tem CPLP; a China, actualmente, já tem espalhados por todo o mundo cerca de 300 Institutos Confúcio, mas não tem nenhuma CPLP. Portanto, a CPLP é, de facto, uma originalidade. A reunião de tantos países unidos pela mesma língua como primeiro elemento”(gravação,2011).
Uma língua que “não é só nossa”...também é nossa – vai repetindo!
Uma língua “que transporta valores e que também é mestiça”. Tão mestiça e tão rica como a que José Craveirinha utilizou poeticamente na sua “Fraternidade das Palavras” (1974): 
“O céu
É uma m’benga[1]
Onde todos os braços das mamanas
Repisam os bagos de estrelas.
Amigos:
As palavras mesmo estranhas
Se têm música verdadeira
só precisam de quem as toque
ao mesmo ritmo para serem
todas irmãs.
E eis que num espasmo
De harmonia como todas as coisas
Palavras rongas e algarvias ganguissam
Neste satanhoco papel
E recombinam o poema.” 
Lembrando Políbio Valente de Almeida (1994: 42,43), Portugal tem afinidades e interesses permanentes em áreas que transcendem o seu posicionamento geográfico e que nasceram de um convívio multisecular com outros povos. Inevitavelmente foram trocados valores, Portugal transmitiu [impôs] e absorveu cultura, construindo um passado comum “plenamente partilhado” com índios, africanos, asiáticos e oceânicos. Possuímos portanto um património que, citando Adriano Moreira (1988), “faz parte do património comum da humanidade”.
O que somos capazes de fazer com isto ? – pergunta o Professor. “ Se não somos capazes de fazer nada, paciência...” (2011, entrevista ao autor).
=====================
Lembrando Adriano Moreira, por agora deixo estas páginas. Um simples acrescento ao que já foi dito e escrito.
António Bondoso, Setembro de 2012.




[1] m´benga – pote de barro; mamanas – mulheres; ronga – dialecto mais meridional do grupo linguístico banto tsonga. É falado numa pequena área que inclui a cidade do Maputo; ganguissam – namoram; satanhoco – uma coisa que não presta.   

2012-09-05


À VOLTA DE MIM E DO MUNDO... E... DE VEZ EM QUANDO!!!

PENEDO DA FONTE SANTA. PÊRA VELHA - MOIMENTA DA BEIRA.




PENEDO  DA  FONTE  SANTA
(Onde a paisagem se perde no horizonte ...e onde a tranquilidade
da contemplação nos eleva a uma dimensão mística).

Há uma pedra que chora
Lágrimas de pouca água
Mas dizem que basta uma gota
Para mudar quem lá for.
Santa... já reza a lenda
Sobre quantos lá passaram
Mesmo não tendo molhado
Do rosto todos os olhos.
É do musgo ou é da chuva
Será da pedra granito?
Parece que vem de longe
Embalada pelo vento
Bate sempre no desgaste
E fica uma concha pequena
Onde um dedo se mergulha
Esperando que valha a pena !
============
AB.2011.



2012-08-22


À VOLTA DE MIM E DO MUNDO....


Moimenta da Beira, hoje, não se define apenas pela cultura da maçã e pela arte do espumante "malvasia". Nas "Terras do Demo" há também um céu de mil metáforas que, por vezes, se confunde com a imensidão do mar!







CÉU DE METÁFORAS !

Se as serras não têm nomes
Tomam o traço das terras:
Rua, Faia, Paradinha
Riodades, Macieira e mais Penela da Beira.
De Moimenta a Penedono
Tabuaço a Sernancelhe
Há todo um céu de fenómenos.
Num azul quente de sol
Ou numa noite de estrelas
Há astros e constelações
Há partículas de neutrões
Que se deixam envolver
P’la suave espuma do tempo!
Tomam formas sem saber
Imagens que imaginamos.
São sentidos do poeta
Metáforas a olho nú
Ou na lente de uma câmara
Baladas em diafrágma.

São átomos a abrir sensores da alma humana
Moléculas de um pensamento cativo
Da arte de partilhar
Solidária e definida
Bem resoluta e concreta!
===================== AB. 

2012-08-14




À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !

Dois álbuns de fotografias do Amigo João Melo Sereno, sob o título genérico de  "MARÉ BAIXA"

ajudaram-me a concluir esta ideia: - se não mudarmos o rumo do mundo, teremos uma vida seca. Mesmo

que morramos afogados com a "subida" dos oceanos !



MUNDO AO CONTRÁRIO.

Maré baixa maré baixa.
De tanto baixar a maré
Deixa o peixe de ter pé
Os barcos ficam parados
Pescadores alvoroçados.
O mundo todo ao contrário
Que a fartura dá em fome
Todos pensam que é possível
Sem alterar o seu nome
Chegar de pé à montanha
Mesmo morrendo afogados!
====================AB. Agosto 2012. 

2012-08-08




***** Tenho estado a acompanhar, na TVI24, uma grande reportagem sobre os "efeitos" do petróleo no Delta do Níger. Nigéria tal e qual. 
De todos os inesgotáveis milhões...só 1 a 5% da população beneficia. Adivinhem quem ?????? 

           Por isso é que escrevi este poema, a pensar em S.Tomé e Príncipe: 




FORTUNA OU TEMPESTADE ?

Celêlê … celêlê…
Não ouves o ossóbô ?

É tempo de te abrigares
Da tempestade que chega.
Negros sinais se distinguem no horizonte
Rasgados pelo relâmpago
Com aviso dos trovões.
Não é magia, é certeza
De um novo modo de vida.

Celêlê… celêlê…
Não ouves o ossóbô ?

Não fiques preso no crude
Da maré negra que vem.
Levanta voo e repassa
Mensagem a todo o mundo:
Avisa garças e césias
Periquitos papagaios
Os pardais de bico lacre
Beija-flôr e andorinhas.
Canta o canto da conóbia
Sem temer o mau-agoiro
Ajuda Tomé-gágá disfarçado de guembú
Voa por cima do mar
Para avisar o gandú.

Celêlê … celêlê …
Não ouves o ossóbô ?

A chuva que traz o vento
Mais escura do que a noite
Decerto carrega ouro
Que não brilha nem reluz,
Vem ofuscar a lembrança
De uma vida mui feliz.
_______AB. EM Seios Ilhéus. 2010. Autor e Euedito.

2012-08-04







                  GAIVOTAS...

Voam gaivotas de noite.
Cortam o silêncio do escuro
Já muito àquem do mar,
Desafiam em terra a madrugada da revolta
A grasnar contra a fome
Que o mar hoje lhes dá.
Gaivotas...
Quais urubús peçonhentos e adivinhadores
De um tempo como este
Vil e decrépito – pobreza e miséria
Enfeitando a mesa vazia de tudo.
Voam gaivotas de noite
Cagando o solo pátrio adormecido !
=================AB. Agosto 2012.

2012-07-31





A MUSA


Apareceu a musa flutuante e disse: olá!
Se me acompanhares
Alimentarás eternamente a fonte dos mistérios.
E eu fui...
...Mas tenho regressado
Qual serezino cantador
Sempre sereno e servidor
Nunca servil.
===========AB. Julho 2012.





2012-07-12


                                                 Apesar de tudo... um Sorriso estampado !


INDEPENDÊNCIAS EM ÁFRICA...  
O caso particular de S.Tomé e Príncipe – o país mais pequeno do continente mas que pode ser visto como um dos últimos paraísos do Planeta. Mas nem tudo são “ROSAS DE PORCELANA” – uma flor tropical que é vista como um verdadeiro ex-líbris do país.
===========================
35 anos é um marco aceitável  para perspectivar  os caminhos traçados e percorridos pelos novos países africanos (neste caso de língua portuguesa).
Frederico Gustavo dos Anjos é um Amigo, antes de o rotular como Poeta ou homem de e da Cultura. Que também passou pela política e dela bebeu ensinamentos – rejeitando os males próprios da função. Depois, um certo distanciamento permitiu-lhe um olhar mais “independente” e/ou “objectivo”. Por todos estes motivos entendi propor-lhe responder a algumas questões. Poucas mas as essenciais para tentar perceber a realidade de STP. Não há perguntas polémicas ou difíceis...as respostas é que o poderão ser. Mas o objectivo desta “conversa” (via e-mail) passa apenas pela intenção de celebrar os 37 anos da independência do país.

*** 37 já passados (21 dos quais numa fase de multipartidarismo e de aprendizagem democrática), como é que se pode descrever a situação em S.Tomé e Príncipe?
…passo a passo a democracia vai-se consolidando. A sua implantação gerou, é certo, muita espectativa. A insatisfação, o descontentamento crescente da última fase dos primeiros quinze anos da nossa independência permitiram o reconhecimento da necessidade de mudança. E mudança foi feita para grande alegria da esmagadora maioria da nossa população. Os espíritos contrafeitos renderam-se depois à evidência dos acontecimentos ao ponto de, em discursos, se disputarem o mérito da iniciativa da mudança.
Entrou-se numa nova fase do período pós-independência. Acho é que não se soube capitalizar o entusiasmo, a energia brotadas desse processo em projectos de visibilidade com impacto nas condições de vida das pessoas. Cedo surgiu o desencantamento. Transportaram-se as frustrações e ambições pessoais, presumpções de superioridade conferidas por experiências políticas anteriores, megalomanias camufladas para o interior das instituições e escudando-se em leituras (mal) feitas e interpretações aleatórias das relações institucionais originaram conflitos e crises, com desmantelamento das instituições, encenações de golpe de estado que só contribuíram para causar ou reproduzir prejuízos ao processo de recuperação económica do país.
Agora fala-se é da garantia de estabilidade. Virou tema de todas as intervenções. Sem dúvida que após as danças de instabilidade sobre instabilidade tem de se reconhecer que o país precisa de paz (aqui nunca houve guerra!) e de estabilidade política para que governos possam de facto prosseguir com a acção governativa. Mas o receio paradoxo reside no facto de se instalar uma espécie de clima de intimidação que faz com que ninguém queira carregar o ónus de responsabilidade de provocação de novas crises. Por conseguinte, essa situação gera impasses que podem retardar ou inviabilizar a expressão de críticas ou denúncias de actos que exigem responsabilização. No fundo é como se tudo estivesse bem.
A democracia trouxe consigo as eleições (livre e justas, como se o poder do banho pudesse ser menosprezado em contextos de desemprego e pobreza, e toda as relações de subserviência que os acompanham), a liberdade de informação e de expressão, mas arrastou também consigo a desordem, a indisciplina, a violência doméstica.
 A justiça, parte integrante de todo esse processo, continua uma pedra no sapato dos sucessivos governos (e houve muitos, vários).
Enfim, consola pensar, como se dizia em 90, “quinze ano já chegou!...” E se alguma coisa aprendemos do passado, resta é trabalhar no sentido de se prosseguir com a consolidação da democracia, que na minha perspectiva deve ter como fundamento melhor (re)distribuição de recursos (acesso à informação, aos serviços sociais de base, às oportunidades de formação, de emprego, de rendimento,…).
***  Um exemplo gerador de conflitos tem sido a aplicação prática da actual Constituição do país...
O problema deve estar na interpretação que uns e outros fazem sempre em função dos seus interesses. A questão já se levantou há muito e foi como consequência do debate inacabado que uma revisão pontual serviu para reduzir os poderes do presidente…
*** Vale a pena insistir no modelo... ou será conveniente enveredar pelo tradicional modelo Presidencialista ?
A pergunta deve ser: Que Constituição para S. Tomé e Príncipe? E outras questões se devem colocar, como a da divisão político-administrativa, por exemplo. O fundamental é que não haja revisão ou revisões em função de interesses pessoais ou de grupos. Já ouvimos, presidencialismo sim, mas com este não. Aquele vai se tornar ditador. O outro vai gerir o país como a sua roça…
Penso é que, se nos ativermos no fundamental, qualquer revisão deve ir no sentido de adequação das instituições à realidade do país, que, ainda que venha a poder contar com recursos adicionais, deve evitar a proliferação de instituições, a criação de figuras de ostentação e esbanjamento de recursos.
***  O “regresso” de Pinto da Costa.
        Se percebi a questão: Não houve “regresso”. Pinto da Costa candidatou-se mais uma vez convencido de que pode dar alguma contribuição nesse processo de consolidação da democracia. De acordo com os resultados das eleições presidenciais ganhou e é o actual presidente. Só nos resta esperar que as suas prestações como presidente não venham a defraudar as expectativas dos cidadãos.
*** Um sinal de necessidade de recorrer à credibilidade e experiência... ou falta de soluções e de empenho político das novas gerações ?
É verdade que a sua vitória possa ser susceptível de leituras. As perturbações do período pós-mudança deixaram muito ténues as recordações e as feridas do passado dos quinze anos, por um lado. Por outro lado, uma franja considerável dos eleitores é constituída por gente jovem que não viveu os “quinze anos” e os sentimentos nefastos daquele período neles não foram incutidos. Ficou para a história!
E como também não surgiram candidatos de consenso, pode ser que a estratégia de candidatura de Pinto da Costa tenha beneficiado dessa evolução. Portanto, não houve “regresso”. Falemos antes de uma nova oportunidade de participação que, esperemos, ele saiba aproveitar em benefício dos seus concidadãos?!
***  Há sinais evidentes de recuperação económica ?
A situação de pobreza é incontestável, mesmo que paralelamente se encontrem manifestações de ostentação de riqueza de origem desconhecida ou duvidosa. Constata-se carências, observa-se insuficiências. A forte dependência do exterior é expressão desse quadro interno.
Apesar dos esforços de aumento da produção e de diversificação da economia, os resultados continuam modestos. Os níveis de produtividade e de produção estão longe de poder corresponder às necessidades.
O processo de privatização e distribuição de terras não deu lugar a uma agricultura mais dinâmica. A pesca continua essencialmente artesanal. O turismo como aposta tem dado o seu contributo, mas ressente-se da insuficiência de condições para o seu desenvolvimento. Grassa o pequeno comércio e negócios informais que francamente reproduzem o ciclo de circulação de capital, mas não dão lugar à acumulação.
O paludismo anda num vai e vem que embaraça o quadro do seu combate, para além dos esforços financeiros que exige.
Mas há pequenos agricultores bastante dinâmicos, a produção do cacau biológico está ganhando pé; tem havido uma actividade turística que promete se forem criadas melhores condições de atracção; as infra-estruturas de apoio à produção também têm sido alvo de atenção e um rol de promessas por concretizar no sentido de trazer investidores para o país, de transformar o país numa plataforma de prestação de serviços… tudo razões bastantes para que se mantenha a expectativa, já sem falar de oportunidades que uma possível exploração petrolífera irá determinar.
***  E a CPLP...
Penso que a CPLP é uma comunidade de múltiplas diferenças que, se respeitadas e convenientemente geridas, permitirão o reforço do entendimento nos espaços (político, diplomático, económico, …) em que actua…é, não basta ter em conta apenas o que nos une (história, língua…)…
...Merece apreciação positiva, particularmente no acompanhamento da situação na Guiné-Bissau ?
Precisa-se ter informações bastantes sobre a situação para uma tal apreciação e não creio que as que circulam na comunicação social sejam suficientes. O importante é reconhecer que o que se passa na Guiné-Bissau é motivo de preocupação de toda a comunidade. Há de haver um momento em que o país deve reconhecer que não pode ficar permanentemente em situações de conflito, pondo em causa a credibilidade das partes envolvidas…
*** Tal como aconteceu no Mercosul ( com a suspensão do Paraguai )...também a Guiné-Bissau deveria ter sido suspensa da Organização CPLP ?
O problema é o significado dessa suspensão para a grande maioria dos guineenses que sofrem na carne e na alma as consequências das desavenças entre as hostes que se rivalizam. Politicamente ingénuo, ainda continuo a acreditar piamente nas possibilidades inesgotáveis do diálogo sereno, pacífico, que aprendi no cochichar nocturno dos meus avós.  
================== Obrigado Frederico. Felicidades e...até sempre!
António Bondoso, Julho 2012. 


2012-07-02


AMIZADE, INSPIRAÇÃO E ... ESTIMA.

Partiu antes do tempo, tirou-nos uma palavra amiga e o sorriso da Lua. 
No 78º aniversário do seu nascimento, a 1 de Julho, fica a promessa de nos cruzarmos de novo na  Mesopotâmia - um espaço que ele criou em 2003. 

Nesta madrugada, aqui lhe reservo - de direito - toda a saudade que me ensinou a partilhar, com memórias e vivências (mesmo quando amnésicas...) de um tempo tranquilo no nosso Oriente da História.





2012-06-19


***** O S.João é político...pela simples razão de que é "democrático". É do Povo, é de Todos.




S.JOÃO POLÍTICO.

Se o primeiro ministro quiser
Dar desgosto ao S. João
Nem Santo António lhe vale
E o S. Pedro a dizer não.

Mas se à noite cá vier
Não venha pela Scut
Que o S. João já não pode
Aturar quem o escute (a si, claro!).
========= AB. 2012.