2015-06-10

ATUALIZAR UMA EFEMÉRIDE.
PARA QUE A MUDANÇA...VOLTE A MUDAR.
PARA UM RUMO QUE TENHA NORTE:

Deixo para reflexão um trabalho de 2009. É só atualizar. O que já não é pouco. Isso deixo para mais tarde.


                                                    Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
                                                    Muda-se o ser, muda-se a confiança;
                                                    Todo o mundo é composto de mudança,
                                                    Tomando sempre novas qualidades.
                                                                               Luís de Camões - Sonetos[1]

            É este o mote para nos abalançarmos a uma breve reflexão sobre a “ideia de Portugal no mundo” ao longo de séculos. Partindo de Camões e da epopeia gloriosa dos Descobrimentos até aos nossos dias, passando pelas tragédias do império na África, na América e na Ásia – até à sua perda definitiva em 1974.
            A aventura gloriosa dos descobrimentos colocou Portugal em lugar cimeiro no concerto das Nações. Pelo Tratado de Tordesilhas, celebrado com Castela, os portugueses permitiram-se dividir o mundo – já descoberto e a descobrir – em duas metades. Uma visão política de largo alcance que, no entanto, viria a perder-se ao longo dos tempos. Não só devido à circunstância de sucessivas alterações políticas, sociais e económicas mas, sobretudo, por falta de recursos humanos para efectivar uma ocupação consistente. Não será de estranhar, portanto, uma opção mais virada para a actividade comercial – particularmente com o Oriente.
            Assim, nos idos de quinhentos e de seiscentos, Portugal [a par da Espanha] assume e difunde a ideia de uma “potência” marítima – uma talassocracia com um projecto e um objectivo definidos: mostrar a Europa ao Mundo e trazer o Mundo à Europa. África, Índia, Brasil, Malaca, China e Japão – uma volta ao mundo em 500 anos !
            Mas o “projecto” viria a ter custos elevados. Em recursos humanos e materiais e ainda na reacção de outros Estados Europeus bem mais poderosos, como a Inglaterra, a França e a Holanda.  
            É nesta perspectiva que se pode enquadrar hoje uma leitura política da obra de Camões, particularmente n’Os Lusíadas. O Velho do Restelo, no Canto IV, as estrofes e as mensagens dos perigos que a Nação corria:- a denúncia dos perigos de quem ia, as dificuldades de quem ficava, as promessas por cumprir, o despovoamento do reino e o sorvedouro das guerras. Feliz ou infelizmente, ninguém com responsabilidade política no reino se apercebeu dessa “leitura” camoniana e, assim, o curso da História tomou os rumos que hoje se conhecem.
            Quando se perdeu D.Sebastião, perdeu-se mais do que o reino e do que o império. Perdeu-se a identidade política de Portugal que, apesar de recuperada em 1640, não voltaria a restaurar o prestígio do país no Hemisfério Sul – onde a Inglaterra, a França e a Holanda passaram a ser os senhores do mapa.
            Um novo golpe, profundo, viria acoplado à revolução liberal de 1820 – no rasto das revoluções americana e francesa – e que, triunfante, levaria à perda da maior parcela do império, o Brasil. Jamais Portugal voltou a ser considerado como fazendo parte da família das grandes potências europeias e mundiais.
 Contudo, durante esse longo período de quase quatrocentos anos, Portugal teve um papel importante na projecção da Europa sobre o resto do mundo. E contribuiu decisivamente para o alargamento da comunidade internacional e para o desenvolvimento das relações internacionais, pondo em contacto povos de diversas raças, etnias, credos, religiões e culturas.
Não suscitavam admiração, por isso, os relatos de figuras ilustres que nos visitavam, sobre o desenvolvimento do país. Hans Christian Anderson, em 1865, após prolongada estadia, escrevia por exemplo :- Mas que transição veio de Espanha para Portugal. Era como se tivéssemos voado da Idade Média para a idade moderna [2]. Portugal tornara-se a sociedade mais avançada do Sul da Europa, nela despontando por ex Alexandre Herculano, Almeida Garrett e depois Antero, Camilo e Eça. Como escreve ainda Martin Page – sobretudo no domínio dos direitos civis, Portugal tinha-se tornado um exemplo para o resto do mundo.
A indústria, finalmente, acertava o passo; o país era o maior produtor mundial de cortiça e Eiffel projectava e construía em Portugal.
Mas esse “contributo” não mereceu o reconhecimento dos seus pares europeus, particularmente pela manipulação conduzida por Cecil Rhodes a propósito das possessões portuguesas em África. E foi o tempo da humilhação do Ultimato que, depois, conduziu ao Regicídio, ao fim da Monarquia e à implantação da República. Curiosa e tragicamente, foi a I Guerra Mundial que “salvou” o resto do Império, depois de – pouco tempo antes do conflito – a Alemanha e a Inglaterra terem “negociado” a partilha de quase todas as colónias portuguesas.
O novo regime, no entanto,  não se mostrou capaz de devolver a estabilidade ao país. Nos primeiros quinze anos, a República ofereceu-nos sete eleições gerais, oito presidentes e 45 governos – um dos quais durou menos de um dia. Os cofres do Estado não resistiram e foram mesmo “arrombados” com o golpe de Alves dos Reis. A dívida pública, de uns modestos 400 milhões de escudos, multiplicou-se como por milagre e chegou aos 8 mil milhões.
Internamente, foi com naturalidade que o povo aceitou o golpe militar de 1926, numa altura em que a credibilidade externa do país, da segunda metade do séc. XIX, se havia esgotado. A Sociedade das Nações perdera a confiança e Churchill perdoou quase três quartos da dívida de guerra que ainda estava por saldar. Também naturalmente, o povo aceitou Salazar e a sua ditadura do Estado Novo – ancorada na família como pedra basilar de uma sociedade organizada.
A ditadura trouxe a repressão policial, nasceu a PIDE e instituiu-se a censura. As liberdades foram acorrentadas em África, no Campo do Tarrafal, em Cabo Verde.
Veio a II Guerra Mundial e o regime preferiu uma “neutralidade colaborante” ao envolvimento directo no conflito, como havia acontecido na Grande Guerra. Mantendo a aliança com a Inglaterra, o objectivo prioritário era a salvaguarda da integridade territorial no Atlântico Norte e das colónias de Angola e de Moçambique. E em 1949, mais por pressão dos aliados [reconhecimento da importância estratégica dos Açores] do que por vontade da liderança portuguesa, o país é membro fundador da NATO/OTAN. No entanto, o grande objectivo de Salazar era o Forum das Nações Unidas – para o qual Portugal não foi convidado pelas grandes potências, quer pelo clima de “guerra fria” já instalado entre os EUA e a URSS, quer pelo facto de o regime não ser democrático. O veto da URSS prolongou a marginalização de Portugal até 1955, embora o país fizesse parte do chamado “bloco ocidental”.
Em 1960, quando Portugal adere à Associação Europeia de Comércio Livre – EFTA – já a imagem do país se havia deteriorado na cena internacional, particularmente na ONU onde predominava uma corrente anti-colonialista, a qual – no ano anterior – havia aprovado uma resolução condenando o colonialismo português.
1961 foi o “annus horribilis” para a imagem externa de Portugal, com a perda de Goa, Damão e Diu – pela força – para a União Indiana, e particularmente com o início da chamada Guerra Colonial em Angola, em Fevereiro. Mais tarde, com a abertura das frentes na Guiné e em Moçambique, a imagem negativa do país agravou-se e nem mesmo as “boas” relações com a Santa Sé conseguiram evitar o “golpe de misericórdia” em 1970 :- o Papa Paulo VI recebe em audiência privada os dirigentes dos Movimentos de Libertação das colónias portuguesas.
O “isolamento” internacional de Portugal só viria a ser quebrado com o golpe militar de 25 de Abril de 1974, que conduziria o país à democratização, à descolonização e ao desenvolvimento. Foi a queda do império, o corte com o passado – a queima das caravelas na metáfora de Adriano Moreira. Mas nem tudo foi perfeito. 1974 e 1975 foram anos difíceis, de forte luta interna pela escolha de um modelo para o novo regime, ainda com a guerra fria em pano de fundo. E o “perigo” da instauração de um modelo comunista no extremo ocidental da Europa e numa pequena ilha do extremo oriente, levou mesmo os EUA a “caucionarem” a invasão de Timor-Leste pelo exército indonésio – uma questão só resolvida internacionalmente em finais do séc.XX.
Contudo, a “normalização” da imagem de Portugal no concerto das Nações foi um facto logo em 1976, com a admissão no Conselho da Europa. Dez anos depois, foi marcante a adesão à CEE – a decisão estratégica mais importante na vigência do regime democrático e constitucional português, no dizer de Medeiros Ferreira. A Europa comunitária, de acordo com António Barreto, foi o amortecedor de perdas e lutos que, noutras condições, poderiam ter criado traumas insanáveis. Mas hoje, diz agora e ainda António Barreto[3], a pertença à União Europeia nem sequer por todos é um facto consumado. [...] Essa pertença, prossegue, não é claramente discutida e não provoca um pensamento sério sobre o nosso futuro como nacionalidade independente.
Hoje, com 35 anos de regime democrático, continuamos a evocar Camões e a celebrar o  “seu” dia – 10 de Junho – para lembrar a apropriação do nome e da obra do Poeta ao sabor da conjuntura. Festejar Camões, reforça António Barreto, não é partilhar o sentido épico que ele soube dar à sua obra maior, mas é perceber o homem, a sua liberdade e a sua criatividade. Como também é perceber o que fizemos de bem e o que fizemos de mal. Descobrimos mundos, mas fizemos a guerra, por vezes injusta. Civilizámos, mas também colonizámos sem humanidade. Soubemos encontrar a liberdade, mas perdemos anos com guerras e ditaduras.[...]Não usemos os nossos heróis para nos desculpar. Usemo-los como exemplos.
=== António Bondoso ===



[1] - Selecção sobre “A experiência humana e a reacção perante a vida”. Em Textos Literários do Séc.XVI, de M.Ema Tarracha Ferreira e Beatriz M. Paula. Aster, Lisboa, 1960. 3ª edição, corrigida e aumentada.
[2] - Citado por Martin Page em A Primeira Aldeia Global. Casa das Letras, Lisboa, 2008 – 3ª edição.
[3] - Discurso oficial do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, em 10 de Junho de 2009. 

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António Bondoso
Jornalista

2015-05-26

UM ABRAÇO PARA UM AMIGO...

Lucas em 1º plano...e com António Bondoso
Há ocasiões em que não podemos fugir a uma tarefa delicada. Mas dizem que os amigos se mostram exatamente nas ocasiões difíceis. E estas breves palavras, aumentadas pela saudade das fotos, servem de facto para dar um grande abraço ao grande camarada e amigo que foi e é o João Nazário Lucas. Em S. Tomé nos conhecemos, em S. Tomé nos tornámos amigos e convivemos desportivamente, em S. Tomé fomos camaradas de armas na CCAÇ7. O Lucas perdeu hoje o seu filho "Lucas" - gerado na relação são-tomense com a Luisa - e que, tal como o pai, se revelou um grande profissional de futebol. Não privei com ele. Mas sabia quem era. Via-o como grande jogador. Tal como o pai havia sido um grande jogador...antes do tempo e noutras latitudes. Com este filho apenas me cruzei duas ou 3 vezes, por via da camaradagem do pai e da mãe. E só lhe pude dizer o grande jogador que era...e manifestar-lhe a pena que sentia pelo destino não o ter colocado no FC do Porto. Desentendimentos ocasionais entre os clubes não o permitiram. Esteve quase. Espero que a infelicidade que cedo o retirou do futebol tenha desaparecido...e que, agora, no Olimpo, possa continuar a chutar à baliza. Um grande e eterno abraço.Igualmente ao pai e à mãe Luisa.

Um Dia de Serviço à Unidade e à Companhia CCAÇ7

Lucas "Filho", que enlutece o futebol português. Nunca "deixou" o futebol, mesmo em funções sindicais.

Lucas "Pai", à esquerda, com outro particular Amigo, o Elvido (à direita), no Andorinha Sport Clube. 

António Bondoso
Jornalista


2015-05-25

FOI DE ÁFRICA QUE CHEGARAM...FOI DE ÁFRICA QUE PARTIRAM...FOI DE ÁFRICA QUE VIERAM E EU COM ELES VIAJEI.

Golfo da Guiné

                       PRIMEIROS BISAVÓS

Aparece

Por cima dos meus olhos

De repente

Visão escrita… ou o refrão da minha prece

E diz simplesmente

Que os primeiros bisavós dos avós dos meus avós

Eles que depois voltaram a ser avós

Nasceram lá onde tudo acontece.



Provavelmente no sul

Numa África de rios e de mares

Grandes lagos onde o Nilo se alimenta

Níger… Congo… Zaire… Zambeze…

O Atlântico e o Índico em tormenta

Para lá do Cabo onde as fontes são palmares

Agora já secos de uma vida tão azul.


Séculos e milénios de passos e caminhos

O tempo viajou depressa e deixou

Gerações atrás de gerações que se perderam

E hoje não me lembro já de quem amou

Os primeiros bisavós dos avós dos meus avós

Que depois deles voltaram a ser avós

Se espalharam possuíram e viveram.


Caminharam…lutaram  

Pisaram e passaram as curvas dos escolhos

E seguiram a estrela dos pais que viram luz

Errando para além da morte

Nos seus olhos

Até chegar à terra que é do norte

Repousando os pés … nas pedras que calaram  

A voz da música e o silêncio que produz

O pensamento quente dos tambores

Anúncio encomendado dos amores

Dos bisavós dos avós dos meus avós

Que depois deles voltaram a ser avós !


E assim se cumpriu o meu destino

E de outros que paridos tão a norte

Navegaram conheceram amaram sem favores

Outros mundos novas terras tanto hino

À liberdade, e descobriram antes da morte

Que os primeiros bisavós dos avós dos meus avós

Mereceram, gente comum, elogios e louvores

De sábios senhores mais velhos e de gente como nós !        

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Original de António Bondoso, publicado em 2008 = DA BEIRA!Alguns Poemas e Uma Carta para Aquilino.                       


Cais Velho - Cidade de S.Tomé

António Bondoso
Jornalista

2015-05-21

ONDE FICA A ÁFRICA?



Numa altura em que há como que um “toque a finados” nesta União Europeia cada vez mais em deriva, também não é sem apreensão que vemos ouvimos e lemos sobre ÁFRICA. As televisões encarregam-se de nos mostrar diariamente. E um dia destes, a 25, celebra-se aquele que pretende chamar a atenção para os inúmeros problemas – claro – mas igualmente colocar em destaque as potencialidades desse terceiro mais extenso continente e segundo mais populoso do mundo…e do qual fazem parte cinco países que têm como oficial a língua portuguesa:- Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique e S. Tomé e Príncipe.
Há, como dizia um antigo diplomata brasileiro, muitas Áfricas. Qualquer enciclopédia nos aponta as diferenças. Não pretendendo cavalgar essa verdade absoluta e deixando ao critério de cada um a “busca do tesouro”, sempre chamo a atenção para o que escreve o jornalista Leonel Cosme no seu livro MUITAS SÃO AS ÁFRICAS (Novo Imbondeiro,2006): «não são apenas muitas as Áfricas-nações que procuram a sua unidade, em cada território e no continente, mediante um esforço de “reafricanização”, para retomar o fio da história cortado pelo colonialismo; são também as muitas áfricas-sociológicas que existem em cada uma delas, como boas ou más heranças, conforme o olhar de quem faz a leitura dos resultados. E porque muitas são essas “áfricas”, muitos foram e ainda são os olhares, uns que vêm do passado, outros, do tempo que ainda decorre».
Como escreve o Professor e historiador Elikia M’Bokolo, não temos razão para desesperar de África, apesar de todas as notícias que nos chegam: o continente é uma máquina pesada que precisa muito tempo para caminhar. (...) É preciso uma integração por fases progressivas, à imagem da construção duma casa. E não retomar a ideia de N’Krumah, no seu tempo, que a unidade imediata do continente é possível.
Já será suficiente para debate, sobretudo se lhe juntarmos as ideias de Aimé Cesaire e de Leopold Sedar Senghor.
Contudo, e embora retendo esta ideia, o que pretendo aqui escrever é o meu olhar. E apenas isso. Sobretudo um olhar para alguns pormenores das minhas áfricas. E sem precisar de recorrer ao prefácio de Hemingway em AS VERDES COLINAS DE ÁFRICA, basta-me apreciar, particularmente, O LIVRO DE COSTA ALEGRE, de Lopes Rodrigues (1969), para quem o primeiro grande Poeta São-tomense «foi bom, foi estudioso, foi inteligente, foi poeta». E o amor pela sua terra, o amor aos pais…até à sua morte. E quero deixar essa nota de não menos importância, pois a ideia que tem passado em muitos círculos é a de que Caetano da Costa Alegre não tinha “amigos” e foi um dos “esquecidos”. Eu lembro sempre que posso. Tal como recordo Almada, Tenreiro, Alda Espírito Santo, Olinda Beja e Conceição Lima.
E porque não eu?…que hoje vos deixo este FILHO DA TERRA, publicado na página 81 de AROMAS DE LIBERDADES (2015):
FILHO DA TERRA

De S. Tomé sinto cheiros
Da terra
Depois da chuva,
O aroma de um café
E o riso das crianças
A dimensão do seu povo
A brotar do vulcão da ilha grande…
Ideia de um paraíso
A navegar pelo Golfo.

É do cacau que se fala
Ainda e sempre
É do chocolate um desejo
Pois do petróleo se espera
Ainda e só.

Mas o turismo é uma certeza
Do Príncipe que se transforma
Uma viagem de sonho
Salgada de azul-turquesa
Condimentada ao minuto
Quase perfeita aos olhos de quem sente.

S.Tomé e Príncipe dêdê[1]
Pintenxa de alma minha seduzida
Coração de mina-tela amargurado
Paixão mu nantan pagadu.




[1] - Dêdê = Querido; Pintenxa = Penitência; Mina-tela = Filho da Terra; Mu = Minha; Nantan = Jamais; Pagadu = Paga.



ANTÓNIO BONDOSO
JORNALISTA

2015-05-17

Também é nossa. Já não é só nossa!


Era uma vez – mas como não foi a primeira, não terá sido certamente na “Três” – um solitário pensionista, reformado, abandonado pelo Estado, moeda de troca de um jogo de poder em que os governantes são instruídos pela alta finança, e no qual os políticos da oposição [das oposições, melhor dizendo], lançados os dados no tabuleiro do “monopólio”, são incapazes de apostar com discernimento e decisão. E são estes, pela sua hesitação, os mais penalizados. Não aqueles que, usando de perfídia e de abuso da governança, utilizando o facilitismo para atingir as metas capitalistas, extorquem aos ditos “indefesos/abandonados” o sinal [pelo menos grande parte] do seu trabalho de muitos anos, independentemente de continuarem a contribuir – quase como se estivessem no ativo.
É o meu retrato? Claro que é! Idêntico ao de milhares de camaradas registados nos processos da imensidão dos ministérios deste país. E mesmo sendo eu jornalista – apesar de aposentado, como disse – não é fácil aguentar a pressão e denunciar a injustiça, a trafulhice, o concubinato, o casamento “ideológico” entre a tacanhez, a demagogia e a ilusão salazarenta da ordem e da mansidão.
Há, de facto, um manto protetor que “paralisa” as fracas mentalidades que habitam este território. Como por exemplo o que se tem passado à volta do AO. Em respeito pelos muitos milhares de crianças e adolescentes que já praticam a nova ortografia nas escolas e tomando boa nota da adaptação de muitos profissionais do jornalismo…eu sou a favor do acordo. As mudanças afetaram-me mas nunca me derrubaram psicologicamente.
Como diz o Prof. Carlos Reis, as reações negativas passaram a ser como que uma questão passional. E aproveita para recordar:- “Há 40 anos, Portugal mandava na língua. Mas, nestas quatro décadas, dois acontecimentos foram decisivos: a língua passou a ter valor económico e Portugal perdeu a propriedade. Já não somos proprietários, passámos a condóminos, somos nós e mais sete países. Muitas pessoas ainda resistem a esta ideia.”


António Bondoso
Jornalista

2015-05-15


O VIRTUOSO...
Foto no DN

Partiu fisicamente...mas deixa-nos uma "audio e vídeoteca" para consultar em momentos de paixão. Partiu sereno - uma imagem que sempre pretendeu passar ao público, apesar de ter sofrido na pele. Pela cor, que não pelo génio! E pela diferença. Ele próprio disse - toco, interpreto aquilo que sinto e de que gosto. 
E no livro que vou preparando sobre e a propósito da RÁDIO, este grande virtuoso da guitarra não é esquecido: "A Rádio, para mim, prossegue sendo uma guitarra freneticamente manipulada por Jimmy Hendrix ou docemente acariciada por BB King, das quais podem sair notas de um afro-americano rock de Harlem ou de um afro-americano blues a caminho de Memphis – onde já destruíram a magia da Rua Beale. A rádio e a música de sentimento, a rádio e a voz de protesto, a rádio da memória escrava, a rádio da sensação libertadora."

Paz à sua alma...e que a sua serenidade nos acompanhe. 
António Bondoso
Jornalista

2015-05-06


SER LÍDER NÃO É PARA TODOS…
…ou de como não temos liderança!



SER LÍDER NÃO É PARA TODOS…
…ou de como não temos liderança!

Quando se fala em questões de liderança, há ideias que nos assaltam o pensamento quase de imediato. Virtudes e princípios à cabeça, sendo fundamental reconhecermos sobretudo justiça, coragem e honestidade.
         Vem isto a propósito de mais um episódio rocambolesco entre Passos Coelho e Paulo Portas, no qual se está a faltar à verdade e no qual falta lealdade. Mais uma vez ficamos com a certeza de que ambos não são confiáveis.
         A liderança virtuosa/transcendental assenta exatamente nesses valores e princípios da honestidade, autenticidade, lealdade, justiça e verdade. E não sendo assim…não pode ser confiável. E em vez de um líder que vê as pessoas como um fim em si mesmo, percebendo o poder para benefício de todos, líderes deste tipo são ambiciosos, astutos, falsos profetas, impostores, egoístas, demagogos. Servem-se do poder para autoengrandecimento. Jamais poderão ser portadores de virtudes fundamentais como a prudência, justiça, coragem e temperança.
         Não conseguirão nunca saber discernir o que é realmente importante!
António Bondoso
Jornalista. 



2015-05-05

***** Entendeu-se ser hoje o "Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)".
Foto de António Bondoso


Entendeu-se ser hoje o "Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)".
=== Por isso, recordo apenas esta ideia do Prof. Adriano Moreira:
"...Em toda a parte, aquilo que avulta como menos vulnerável e como cimento mais forte, é realmente a língua". (...) E se houver capacidade e não faltar vontade, a língua é o veículo da cultura capaz de disputar o seu espaço e de o fazer crescer"!
António Bondoso
Jornalista

2015-05-03

NESTE DIA:
SER MÃE…É IR ALÉM…

Fotos de Família

SER MÃE…É IR ALÉM…
Às vezes é tudo tão óbvio, quantas delas as ideias parecem repetir-se, em muitas ocasiões pensamos que já não temos palavras, em circunstâncias diversas o discurso apresenta-se fosco, por muito que o sentimento nos comprima o peito – nem sempre conseguimos ter voz para exteriorizar o bater do coração.
Pode acontecer até que o cruzar do imperfeito leve amiúde a situações de conflito. Sentimentos de posse e de libertação, de proteção por excesso e de afirmação da independência – quantas vezes não colidem. Mas é apenas um momento mais ou menos prolongado. Tarde ou cedo há um gesto de carinho a selar o «normal funcionamento» da relação.
Por isso é que eu digo que – ser mãe…é ir além! De tanta coisa! De tanto como ser filho! Aceitando, percebendo, compreendendo, perdoando, amando com humildade. É único! E por isso é um desafio…


SER MÃE É DESAFIO.

Gerar e parir não faz a Mãe
Pois há muito que se perde a todo o tempo:
Educar, o Ser, estar presente... e tanto Amor.

Pelo caminho vai ficando mais carinho
Esgota-se a Amizade e a paciência
Neste tempo de dor e d’incerteza
Não bastando por si só toda a ciência.

Renovar para ser Mãe é desafio
É sentir e não partir.

Urge ficar, perceber, permanecer
Assumir que tudo é belo
Quando ser mãe é sofrer e é sorrir
Antecipar o poder de imaginar
Que ser Filho é alegria e é trabalho
Sistema complexo de crescer
Entre angústia, ilusão... até desgosto
E do sonho retirar maior prazer.


Ser Mãe é intenso desafio
Saber partilhar cada momento
Respeitar o silêncio amargurado
Num breve olhar cúmplice...
Mas atento!
===== António Bondoso. AROMAS DE LIBERDADE(S). 2015. Pg59. 

António Bondoso
Jornalista



2015-04-30

***** A PROPÓSITO DE UMA EFEMÉRIDE. 
               30 de Abril 1926/ 9 de Março 2010
Passaram cinco anos sobre o desaparecimento físico da Poetisa, Educadora e Combatente pela Liberdade em S. Tomé e Príncipe - ALDA DO ESPÍRITO SANTO.
Faria hoje 89 anos.  


Quando a entrevistei em 2004, para o meu livro ESCRAVOS DO PARAÍSO (MinervaCoimbra-2005), Alda do Espírito Santo disse-me que a independência é a maior conquista de um Povo...mas nunca corresponde ao nosso sonho. É dessa conversa que vos deixo aqui um excerto: 




E também linhas de um Poema seu:
(...) A nossa terra é linda, amigas
E nós queremos que ela seja grande...
Ao longo dos tempos!...
 Mas é preciso, irmãs
Conquistar as ilhas inteiras de lés a lés
(...) Mas é preciso conversar ao longo dos caminhos
Tu e eu, minha irmã.
 É preciso entender o nosso falar
 Juntas de mãos dadas
 Vamos fazer a nossa festa!
Em «É Nosso o Solo Sagrado da Terra»
Alda Espírito Santo
==== António Bondoso
Jornalista




2015-04-25

AROMAS DE LIBERDADE(s)

Foto de Miguel Bondoso


Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto
(23 de Abril de 2015 – 21:30h)

 Livro de poesia “Aromas de Liberdade(s)”, de António Bondoso

RECENSÃO, Regina Correia


No Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor é uma honra para mim, simples cidadã anónima, poder partilhar convosco este espaço nobre e centenário no coração da “muy leal cidade invicta”, espaço recheado de memórias dos mais ilustres homens e mulheres de informação e de letras do país e comprometidos com a Liberdade.
Muito grata a António Bondoso por me ter convidado a apresentar seu último livro de poesia “Aromas de Liberdade(s)” e assim me ter proporcionado este momento inesquecível.

Partindo do princípio que “a arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos” (p.269) e “… consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação…” (p.261), como escrevia Fernando Pessoa no “Livro do Desassossego”, apelo à vossa paciência para algumas notas de minha leitura informal de um livro dividido, por assim dizer, em duas partes – a primeira parte, dos “sete cravos” e a segunda, de “outros aromas poéticos”, em que “ser” pode causticar tanto que se desdobra necessariamente em arte.

O poeta transporta para as páginas em branco suas inquietações, seus sonhos, seus delírios que, nas entrelinhas dos versos, levam o leitor a viajar com ele através do universo de Língua Portuguesa espalhado pelos diferentes continentes… num exercício de rememoração crítica e de apelo à consciência interventiva de cada um de nós na realização efectiva da cidadania, a par de sentimento de amor, de melancolia e de saudade…

No título duas palavras apontam para a pulsação do livro – aromas e liberdade(s) – liberdade, no singular, como conceito, princípio de Humanismo mas sinónimo de garantias, direitos e deveres individuais, se considerada no plural.
O leitor absorve então um aroma floral na dita primeira parte, aroma de cravos, símbolo primeiro e definitivo da Liberdade e das liberdades, desde a revolução de 25 de Abril de 1974. O número de cravos em poema é de sete –número dos mistérios, perfeito, sagrado, mágico, no sentido em que a combinação de três com quatro representa o Espírito encarnado, a Santa Trindade sustentada pela Matéria – terra, ar, fogo, água.
O número sete é preferencialmente transversal a toda a filosofia e literatura, sobretudo à literatura sagrada, desde os tempos imemoriais até à actualidade, pela sua forte simbologia mística, de passagem do conhecido para o desconhecido, associado à sorte ou ao azar, como se contivesse em si a junção do bem e do mal… Mas é também símbolo da transformação, da procura do indivíduo para conhecer o infinito, as coisas espirituais…
Sete são os dias da semana e foram os dias da criação do mundo, seis mais um (simbolizado pelo candelabro de sete braços – menorá – no judaísmo).
Neste caso, o poeta António Bondoso retoma os sete dias da criação bíblica e recria, do cravo primeiro ao cravo sétimo, seu mundo poético e vital, plantando sete cravos contra o esquecimento.

Do primeiro ao sexto cravo, através da rememoração do poeta, assiste-
-se ao desfile dos acontecimentos e das decisões fulcrais que foram moldando o tecido político, social e cultural do país nestes quarenta e um anos, a partir do dia 25 de Abril de 1974, e no cravo sétimo, “abençoado”, citando o poeta, “não podemos descansar, a fim de assumir um lugar na História”.
O coração do leitor acompanha o encantamento do sujeito poético perante o alvorecer puro e tão esperado daquele dia 25, antecâmara de um mundo maravilhoso sem mais grades, sem guerra, sem miséria, escancarando as portas à construção do Homem Novo em Portugal e aos outros povos por nós colonizados.

Madrugada
Pura
Em noite desenhada
Alegria em Abril
Renascida
E p’lo Povo partilhada!
Também…
Por outros povos desejada.

(“Primeiro Cravo”, p.11)

O país acordava embalado pela esperança de um tempo renovado, em humores de Primavera com promessa de transformação, em que a vida se anuncia florida, livre, iluminada, após 48 anos de treva profunda. Logo surgem as primeiras dores na nova realidade provocadas por intentonas várias, pela chegada de milhares de portugueses sobretudo de África. As estações do ano sucedem-se, a ilusão permanece no povo anestesiado pela ânsia de liberdade e é assim que entra no mundo da família europeia, cuidando que se sentaria à mesa dos poderosos, mimado com o desvelo… de irmão… mas não será bem assim e começará a sentir a mesma inquietação, a mesma agonia do poeta ao escrever no Cravo Quinto (p.15), que se fez do país:

[…]
Um deserto em morte lenta
Sem cravos, sem Abril
Sem gente sequer cá dentro!

No texto explicativo inicial, o autor refere-se à importância das viagens e dos sentidos na apreensão do mundo que diferentemente e de forma sempre enriquecedora da identidade viu, ouviu, saboreou, cheirou, tacteou ao longo da sua vida, especialmente ao correr dos últimos quarenta e um anos. De Moimenta da Beira a S. Tomé e Príncipe, passando por Angola, Macau, por tantas outras paragens do nosso vasto planeta e naturalmente por esta sua tão amada cidade do Porto, amor aliás eternizado na palavra poética que inspira e em fotos expressivas que regularmente publica nas redes sociais, p. ex. (p.9). No referido texto inicial dois vocábulos ressaltam como tradutores dos sentimentos do poeta durante seu périplo existencial – “felicidade” e “liberdade”, esta pedra de toque daquela, ainda que os sobressaltos de percurso pudessem ter ferido o sonho primordial, quanta vez!

Citando Ricardo Reis (heterónimo de Fernando Pessoa, em "Odes"):

  […]
Em tudo quanto olhei fiquei em parte.
Com tudo quanto vi, se passa, passo,
Nem distingue a memória
Do que vi do que fui.

“Aromas de Liberdade(s)” é, pois, um acto poético de registo da memória do que se sonhou, se viveu, do que se viu e do que espicaça o espírito de cada cidadão que, como o poeta, acorda diariamente perturbado com aquilo que vê e ouve à sua volta, com aquilo que é e com aquilo que pensa e sente que poderia e deveria ter sido Portugal, a seguir ao Dia da Liberdade.

O país é a primeira grande preocupação do poeta (ver capa!).
A capa sugere uma janela em forma de território continental português recortada sobre uma nesga “rural” desse território, que poderá apontar para significação ambígua – uma casa no campo, rodeada de verde e de céu azul, sinónimo de evasão do bulício estéril das cidades poluídas pelo desconcerto dos valores de uma humanidade sã – por onde se esgueiram a solidariedade, a saúde, a educação e a cultura, a liberdade, a verdade? Enfim, talvez represente aquele abrigo onde o guerreiro encontra algum sentido para a vida na comunhão com a natureza serena, quase intocada.
Mas, por outro lado, poderá esta “janela” fazer-nos reflectir sobre a deserção das regiões campestres, o abandono a que a agricultura tem sido votada pelo poder político, sobre o “Portugal dos pequeninos-armados-em-grandes” que vão sufocando o sonho inicial, sobre um povo “que deu mundos ao mundo”, que verteu seu sangue por uma pátria agora divorciada da realidade, injusta e cruel…

Neste livro pulsa a intranquilidade dos sentidos, o cruzamento de cheiros em português na lembrança de quem pugna pela liberdade num tempo de desnorte e de amarras engravatadas… um passado recente de desenganos… (Lê-se na p.41):

“Em catorze além dois mil…
Tudo se foi e restou nada.
Como se fora colorida a ilusão
Ou pura hipótese
De uma dose de vazio abandonada.”

“Aromas de Liberdade(s)” alerta-nos para a necessidade de manter os sentidos despertos num tempo sem palavra, num tempo de traição aos valores do humanismo, aos ideais de Abril, num tempo de traição à vida, de “serpentes espreitando os incautos”… É um grito contra o esquecimento, contra os silêncios ruidosos e insuportáveis, contra os atropelos à liberdade. Mas um alerta comprometido, que não se põe de fora, com sentido elevado e sério de autocrítica, quando aponta o dedo aos erros alheios… “Todos fomos culpados. Não se condenem os cravos” (p.16 – Sexto Cravo). Trata-se aqui de um alerta para a injustiça, para a vilania, para “tanta ignorância//de todas as desgraças mãe” (p.33). De um condoimento pelo estado deplorável, infra-humano, a que a vida da maioria dos portugueses chegou… Uma nota de revolta contra e de acusação aos poderes instituídos… à ganância, à corrupção, à incompetência… Tal comprometimento conduz a um apelo a que a poesia sai à rua, a que o país se “faça de novo ao mar” em metáfora de renascimento, de descoberta de novos rumos dentro de si mesmo e no mundo, em prol do futuro, das novas gerações…
E apesar de sonhos tragicamente esfumados, o sujeito poético segue, determinado, resistente, com os olhos do coração, a linha quebradiça da utopia naquela nuvem branca montada por um cavalo voando veloz na dianteira do vento (p.37), qual D. Sebastião da nossa eterna e eleita espera…
Mas só cooperando verdadeiramente na diferença, na partilha, como o cavalo e a nuvem, se poderá atravessar tempestades…como nos jogos de poder comparados a um jogo de xadrez em tabuleiro viciado…
(Lê-se na p.43):
[…]
“O meu sonho vai nu
Sem véu e sem manto
Mas talvez possa ainda
Salvá-lo do pranto.”

Nestes sessenta e cinco poemas acompanhamos a vida como uma viagem de sentidos na ilusão de que a paisagem se move, sendo nós próprios a atravessar o “tempo e o modo”, tudo o que é efémero e, que por nossa voz, por nossas mãos, despirá a máscara e olhará de frente seu rosto no espelho dos dias (Lê-se na p.35):

[…]
“Cerrando as pálpebras
Deixamos que o cavalo de ferro
Nos conduza
Levando de nós mil sentidos
A cavalgar o desejo imensurável
De um destino
Por natureza imponderável.”
[…]

Mas são-nos também oferecidos aromas de lirismo em que o sujeito poético se derrama, como se descansasse da luta permanente com sua culpa, com seu remorso, da reflexão angustiada sobre os males do mundo e, entregando-se aos devaneios do coração que conserva a pureza, a ingenuidade cristalina da infância não corrompida pelo desencanto, pelas armadilhas venenosas a cada esquina do caminho percorrido, descobre tempo para o “tempo de encantamento”.
(Lê-se na p.54):

“E assim...
Bem defronte dos teus olhos
Poderás ler nos meus lábios
Que a vida tem sempre um tempo
Precioso e de mistério.

Um tempo de encantamento
Que alimenta e ressuscita
A alma junto do corpo”
[…]

Depois do perfume dos sete cravos da primeira parte, o leitor encontra na segunda parte do livro “outros aromas das palavras” em homenagem à mulher, à família, ao amor, aos amigos, às terras onde se fala português e às suas gentes, à cidade do Porto, ao seu rio.

(Da p.45 à p.52) deliciam-nos poemas dedicados à mulher que o poeta elege como ser de eleição, citando-o – “lutadora, amante, mãe, dócil, corajosa, sofrida, exemplar”. Lê-se na p.47):

“Ela passa e aparece
Como quem sempre merece
Atenção e projeção.
É filha de um Deus Maior
E sabe até guardar segredo
Que retalhe o coração.” (p.47)

Também poemas dedicados ao amor (da p.53 à p.56) sentimento que em si encerra doçura, encantamento, mistério, sensualidade, casamento entre corpo e alma, luz, entrega, partilha, eternidade… um amor que faz transbordar as margens do humano e constrói pontes de entendimento, de identidade na diferença, quando da mistura dos sabores distintos (da canela, do chocolate, da framboesa, da pitanga, da baunilha) resulta uma só cor, um só sabor, uma textura homogénea e reconhecida, íntima. (p.57) de paladares, de cheiros, de toques (sentidos)…

Ou poemas de homenagem a quem ficou gravado para sempre na memória dos afectos (p.58) – professora de matemática, o amor-perfeito dos alunos…

Poemas ao pai (p.60)… aos filhos e netos (p.61) até p.63….

Em Bondoso sempre poemas de homenagem à cidade do Porto – p.64 à p.74 a paisagem envolvente, o rio sempre presente como se do mar se tratasse/boca de mar aberta para o mundo em movimento de sonho, de reflexão, de acção, de mudança, a arquitetura, a geografia humana, o tempo psicológico e o tempo atmosférico, a chuva, o sol, a lua, o nevoeiro/cinzento, a ambiência dos afectos, a música no ar, no olhar, a religiosidade, a arte sacra/os monumentos do espírito, os santos (S. João), os santos populares, as festividades… a poesia das ruas/o coração latejante das ruas – “A Viela do Anjo” – LER (p.67) e “A cidade e o sol” (p.68), também a paisagem do Douro (socalcos), o comboio sempre nomeado…
E do rio ao mar, às viagens, às navegações que formaram a identidade e a saudade, as memórias, e a S. Tomé – foto p. 75…

Viajamos nos poemas dedicados às “terras achadas e/ou descobertas” – da p.76 à p.85:
P. 76 – Açores, P.77 – Madeira e Porto Santo, P.78 - Cabo Verde, P.79 Guiné, P.81 – S. Tomé, LER (P.83) – Angola, P.85 – Brasil

“Aromas de Liberdade” é um conjunto de poemas na sua maioria curtos que se intercalam com outros mais longos onde a palavra corre em suas próprias veias de emoções e anseios…num estilo informal, desobediente a métricas e a rimas… transmitindo ao leitor cor, ritmo sonoridades, musicalidade, enfim energia criativa poética. O poeta António Bondoso oferece-nos um hino, um cântico à saudade, ao amor, à mulher, à sensualidade, à família, à amizade, à interculturalidade, à pátria livre desenhada a ouro na Língua, nas sílabas com perfume de vida rememorada nos tantos caminhos em que se aninha e enraíza…

“A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita”
[…]
Poema”, Sophia de Mello Breyner

António Bondoso é um homem de corpo inteiro. É poeta com coração de menino, que se comove com as “agruras” do mundo mas também com as pequenas grandes chispas de ventura. É cidadão atento, por isso tão preocupado com a política, com os problemas sociais, com a cultura deste seu país, homem-poeta inspirado e inspirador, sempre desperto para a realidade circundante, que se inquieta com os desvios ao caminho do futuro…, é leal às promessas que a amizade exige, ao percurso de mão dada com os afectos… António Bondoso é espírito aberto ao cruzamento de todas as culturas, especialmente as que habitam o universo de Língua Portuguesa. É um ser bem formado, inteligente, sensível, culto, com quem se aprende e se enriquece na partilha das coisas do pensamento… António Bondoso é um homem de família, porque não há árvore que se torne frondosa, sem que suas raízes sejam saudáveis e bem “presas” ao chão que as alimenta. António entrou de mansinho há sete meses, quem diria! Será coincidência o número sete? Entrou de mansinho e ficou morando para sempre em meu coração…  

Parabéns, António Bondoso, meu amigo, meu irmão poeta! Que estes teus “Aromas de Liberdade” se multipliquem e perfumem abundantemente a atmosfera onde a palavra poética é já grito e flor numa Primavera prenhe de angústia mas também de esperança renovada.

Regina Correia


Fotos de Miguel Bondoso


António Bondoso
JORNALISTA