2015-09-13

CONFESSO...QUE HÁ NECESSIDADE DE ACORDAR!

Foto de António Bondoso

Confesso que me assusta um resultado eleitoral diferente daquele que eu perspetivo. Mas não tenho medo disso. Há outros “medos” de maior dimensão e com origem em causas propiciadoras de maiores perigos. Poderemos sempre perguntar se – nesta categoria – não estarão os perigos de um resultado eleitoral favorável aos neoliberais ou se – em qualquer caso – deveremos ter medo, mesmo daqueles que defendem a plena integração numa UE cada vez mais frágil: seja nos ideais, seja nas políticas traçadas, seja nos caminhos escolhidos para enfrentar o que se chama de “novos desafios”. Este mais recente é paradigmático. Quando a Hungria ergue muros e a Alemanha rasga Schengen, nada de bom é previsível. Por isso – e embora sem “medos” – confesso estar assustado. Daí…lembrar-me de que Ramalho Eanes diz, por exemplo, que a democracia, hoje, pressupõe e exige – entre outros valores – “ a justa consideração de que a humanidade é una”. E a propósito dos fundamentos morais da ação política, o antigo Presidente da República recorda que “Ao governante falta, na maior parte das vezes, o exame cuidado, exigentemente racionalizado da sua actuação. Talvez aqui resida a razão maléfica da falta de preparação técnico-académica, de rigor e eficácia na acção, de muitos dirigentes políticos. Razão, só a eleitoral existe. E essa, muitas vezes, é iludida com o verbo demagógico, com as bandeiras partidárias, com os preconceitos ideológicos, sobretudo se a sociedade civil, como muitas vezes ainda acontece, não tem um elevado e generalizado nível de instrução, não dispõe nem procura obter informação suficiente, se não conta com organizações suas autónomas e independentes (financeiramente até) do Estado e dos grupos económicos”. Daí, por fim, a necessidade de passar ao papel este meu grito: ACORDAI!
ACORDAI…(A Publicar)

Acordai fantasmas da ópera!
É tempo de cantar a outro amo
E senhor de uma luz nova
E transparente.
É tempo de estabelecer
Outra corrente
Que nos faça iniciar nova viagem
Para um mundo de justiça
E de coragem.

Acordai fantasmas…
A ópera que cantamos não é bufa
- Antes trágica -
Verdadeiramente sinistra
Germinando em campo fértil
Da finança liberal,
Florindo em torrão desajustado
E com fruto mal nascido
De amor nunca tocado!

Acordai…e caminhai!
=== António Bondoso (A Publicar)


Foto de António Bondoso

António Bondoso
Setembro de 2015. 

2015-09-07


UMA CAMPANHA SEM ELEVAÇÃO...NEM ALEGRE NEM TRISTE.

Foto de António Bondoso

TRISTES SINAIS…

         Diz-se, de forma séria, que a “Política” é a atividade humana, de tipo competitivo, que tem por objeto a conquista e o exercício do poder. Ainda de forma séria, posso acrescentar igualmente a manutenção do poder. E há mesmo citações famosas marcantes de tempos idos e de circunstâncias diversas, como as de Churchill e de Mao-Tse-Tung (Mao Zédong): uma atividade “quase tão excitante como a guerra, e igualmente perigosa: na guerra, só se pode ser morto uma vez; na política, pode ser-se assassinado muitas vezes”//«a política é guerra sem derramamento de sangue, enquanto a guerra é política com derramamento de sangue».
         De outro modo, com menos “seriedade”, talvez nos recordemos de ler Ambrose Bierce: a política é «uma guerra de interesses mascarada de luta de princípios»; ou ainda John M. Brown: «um reino, povoado apenas por vilões e heróis, no qual tudo é preto ou branco, e o cinzento é uma cor proibida».
         Eu não sou adepto do “cinzentismo”…e acredito que é possível e desejável ter convicções e, sobretudo, ter princípios. É possível fazer as coisas deste modo e definir um caminho com ética e com coragem. E de forma clara.
         Mas, tristemente, o que vemos e ouvimos?
         Senhor Paulo Portas: em que é que o CDS se diferencia do PSD? – o PS radicalizou-se e vai por maus caminhos.
         Senhor Passos Coelho: vai cortar nas pensões dos reformados? – o PS anda à deriva e não se conseguiu afastar de Sócrates.
         Senhor Jerónimo de Sousa: como é que pensa derrotar a coligação de direita? – o PS tem andado ausente e distraído.
         Senhora Catarina Martins: o que distingue o BE do PCP? – o PS ainda tem um programa de privatizações e anda aliado com a direita.
         Senhor António Costa: José Sócrates fora da prisão incomóda-o? – o PS tem um programa de compromissos definido, com as contas todas bem feitas.
         Curiosamente, ou talvez não – naquela chamada guerra de interesses mascarados – o que nos aparece de comum no que podemos designar como falta de ideias generalizada? – o PS! O PS é tido e achado para justificar tudo e por todos os meios.
         Triste campanha, tristes sinais. É necessário – é fundamental – fazer política de outro modo, como dizia em tempos Daniel Cohn-Bendit. E como? Responsabilizando politicamente os cidadãos. Desde logo pela educação e pela cultura. E sabendo que “o papel do político é fazer escolhas, mas sendo claro quanto aos riscos”, pois os riscos não se podem esconder o tempo todo. Os políticos, tal como os cidadãos, devem assumi-los. E no conjunto dos cidadãos, há um grupo muito particular que deve ser responsabilizado ao mais alto nível: os jornalistas!
António Bondoso


Foto de António Bondoso

António Bondoso
Jornalista
Setembro de 2015. 

2015-09-02

VENHAM TODOS!

Está aí à porta a EXPODEMO 2015, com o símbolo da maçã. E depois são as vindimas. A China e o Brasil darão o toque no prosseguimento da internacionalização e haverá muita música - de Angola, do Brasil e de Portugal(Paulo de Carvalho, por exemplo) - para além de inúmeros espetáculos e exposições. Como sempre. 

Foto de António Bondoso

Na varanda da fachada do edifício da Câmara Municipal de Moimenta da Beira há uma tarja com uma frase que importa reter e sobre ela refletir, apesar da sua simplicidade ou talvez por isso mesmo: Moimenta da Beira saúda-vos.
O que vos pretendo dizer…é apenas isto: um cartaz pode ser um poema na sua complexa e prazenteira atitude.
VENHAM TODOS

E esta estranha forma complexa de ser
E de receber
Aqueles que um dia foi preciso ver partir.

É um misto de contagiante alegria
E de simpatia quase angustiante
Sentindo que a história é uma vítima
De uma assassina memória
Sempre a crescer
Sempre a pedir
Quase mesmo a exigir.

Uma estranha e complexa atitude d’estar
E de pensar
Aqueles que sendo nossos
Já não são
E os outros que não sendo
Desejamos conquistar pelo coração.

Mas que venham todos
Uns e outros disponíveis
Para lembrar a história
Saber e perceber a memória
Dar corpo e dar vida
A tantos lugares sensíveis!

Que venham todos
De sorriso aberto
Antes de os voltar a ver partir!
=== António Bondoso
Setembro de 2015.


Foto de António Bondoso

Por outro lado[e no livro EM AGOSTO...A LUZ DO TEU ROSTO, de 2014], recordo que a "emigração, tal como hoje e talvez desde sempre, era muitas vezes a saída de sentido único. Manuela Aguiar chamou a Portugal, em 1999, O País das Migrações Sem Fim. Uma recolha de textos seus, enquanto governante e deputada. Num deles, datado de 1997, diz que “É cedo ainda para anunciar o fim dos tempos da nossa emigração”. E naquele início da segunda metade do século XX, para o Brasil e apenas em quatro anos [1950-53], tinham já partido mais de 180 mil adultos e quase 34 mil crianças. África ainda não era, como nunca viria a ser, o destino prioritário de milhões de portugueses que fugiam à pobreza. O fluxo aumentaria, apesar de tudo, mas por motivos de ordem diversa. E hoje, 40 anos depois da descolonização, África volta a ser destino. Por necessidade, claro, mas agora por opção, embora ainda não prioritário. Angola e Moçambique estarão certamente nas estatísticas recentes que nos dizem que, entre 2010 e 2011 a emigração portuguesa cresceu 85%, com destaque para a faixa etária entre os 20 e os 30 anos." 
Que venham todos, de sorriso aberto, antes de os voltar a ver partir. Ou partir eu, claro. 
António Bondoso
Jornalista

2015-08-31


ISTO ANDA EM MARÉ DE LUAS...

Fotos de António Bondoso


E SE A LUA NÃO EXISTISSE?

Se a Lua não existisse…
Qual seria da humanidade
Desafio maior em saber
O porquê além de nós?
Qual seria dos eternos namorados
O livro ou talvez a luz
De uma tão terna paixão?

Se a Lua não existisse…
Qual satélite siamês desta Terra em convulsão,
Teria morrido a aventura
De outras vidas a procura
Já não haveria a esperança
De estar ali e subir mais
Viajar além do tempo
E da nossa própria essência.


Se a Lua não existisse…
Toda em física qual satélite,
Seria a Ciência mais pobre
E menos nobre o romantismo.
As palavras menos doces
Dos amantes, dos poetas
Uma vida toda inteira
Pra inventar um aforismo
De tanta imaginação:
Se a Lua não existisse…quem lá poria a cabeça?

===(EM AGOSTO...A LUZ DO TEU ROSTO - 2014)


António Bondoso
Jornalista

2015-08-29

HOMENAGEM AOS SENTIDOS...

Foto de António Bondoso

MIRADOURO…

Por estradas e caminhos que são únicos
Cada curva que nos transporta até ao cume
Tem um ângulo diferente de sentidos.

Não há pedras mesmo iguais
Não há socalcos mesmo iguais
O ar que se respira é apenas semelhante
E tudo o que se vê
- o que a alma alcança
e o coração não cansa -   
Renova o espírito mais amante
Quando se percebe que todos os verdes são os tais.

E de Galafura
Eternamente lá no topo
Tudo nos parece ficção
Um poema sem palavras em que o tempo
Paira ou flutua
Como se a vida fosse ali
O alfa e o omega de uma paixão
Absoluta!

Cada árvore tem a sua identidade
Cada arbusto não revela a sua idade
Cada montanha é diferente
Da outra que se ergue mesmo ao lado
E o rio lá no fundo a cada curva
Nos ensina
Que tudo à nossa volta é relativo
E a cada passo é preciso ser prudente.

Paisagem imortal desde sempre
Cantada em Sol maior e sustenido
É corpo de jardim em céu azul
Humilde criação em ato único
Émulo de coisa alguma mundo fora!
=====
António Bondoso  

Foto de António Bondoso
António Bondoso
Jornalista
Agosto de 2015. 

2015-08-24

RIO DOURO...

Foto de António Bondoso

RIO DOURO

Nas margens alcantiladas
do rio
nasce gente
cresce vida
e a fama que vem do Vinho
do Douro, bem merecida.
Mágoas do rio
choradas
sofridas gotas de sol
fecundam rudes montanhas. 
===António Bondoso===
"Tons Dispersos" Pg.73

Capa sobre pintura do Mestre Zé Rodrigues
2003


2015-08-16

OLÁ...


Olá.

Neste anunciado dia
Sempre repito e redigo:
Que a vida te sorria para além do sofrimento
Contado por um momento
No meio de muita alegria.

E se o teu retrato falasse
Por certo diria ao meu
Que o tempo que o teu viveu
Foi tão feliz quanto o meu.
E mesmo que se enganasse
E se tudo, enfim, negasse
Nada seria mais certo
Que da verdade tão perto
Estaria o teu retrato.

Olá em dia de agosto
Neste ano que é de luz
Reafirmo que sou tão grato
Àquele que nos conduz.

Olá eu digo de novo
Minha querida companheira
Louvemos o que é eterno
Nem sempre da mesma maneira.

Olá.
Neste anunciado dia
Mesmo que só por instantes
Celebremos com vigor
Mais um passo do caminho
Palmilhado com muito amor!
====António Bondoso
16 de Agosto de 2015. 


António Bondoso


2015-08-10

CRÓNICAS COM DOIS PONTOS:

Foto de Romana Borja-Santos (Público)


DOIS PONTOS:

1 – Tempo de campanha triste: discutem-se cartazes (no auge da histeria) em vez de se debaterem ideias (serenamente).
Se os debates, sobretudo nas televisões, servem para confronto de ideias entre as diversas candidaturas…elas devem ser representadas pelos seus líderes. No caso de uma coligação, é natural que não faça muito sentido uma dupla representação. Compete à coligação decidir qual o melhor líder para determinado debate.

2 – Independentemente dos números e da sua contradição, quer seja em incêndios, em área ardida ou em número de bombeiros feridos…alguém viu a senhora ministra Anabela Rodrigues na chamada “frente de combate”? Não havia combustível para o carro oficial…ou a governante teve receio de que o fogo se propagasse ao seu vestido?
António Bondoso
Agosto de 2015


2015-08-04

80 ANOS DE RÁDIO EM PORTUGAL.

QUANDO SE ASSINALA A EFEMÉRIDE...AQUI VOS DEIXO UM EXCERTO DE UM DOS CAPÍTULOS DO MEU LIVRO (A PUBLICAR EM BREVE) HOMENAGEANDO A "ONDA CURTA" HUMILHADA E DESPREZADA POR ALGUNS DOS DONOS DISTO TUDO:

Foto de António Bondoso
“O aspecto que primeiro chama a atenção na especificidade da situação comunicativa criada pela rádio é a portatibilidade da sua recepção.”
                                      Michael Schiffer - 1991
                                                                                                    

 O TRANSISTOR DE ONDAS CURTAS


        Entrou no quarto, passo lento e seguro, a enfermeira ao lado como se fora o anjo da guarda. Augusto, com os olhos doridos de solidão, acompanhou o cortejo, ansioso, do seu reclinado ângulo de visão – a cama articulada do Instituto Português de Oncologia. De barbas, rosto tisnado e cansado pela longa madrugada de vigília, o médico fora chamado para “curar” a ansiedade de Augusto – desperto, preocupado e lamurioso como qualquer paciente em período pós-operatório. Mas a situação comportava um simples pormenor não despiciendo: Augusto, na véspera da alta médica, havia sido sujeito a uma evisceração – o que lhe prolongou doentiamente a sua passagem pelo hospital. Sobretudo ao nível do “quarto andar”, se considerarmos os pés como o rés-do-chão, os joelhos o primeiro andar, depois a anca e, a cabeça, o último piso. É aí, onde os sentidos se controlam, que – muitas vezes – tudo se complica. O desconforto, o incómodo e o isolamento da noite nem sempre sobreviviam à agitação verificada durante o dia, com visitas permanentes da família e de bons amigos que sempre lhe dispensaram muito carinho. O que lhe valia, aliviava as dores dos pensamentos repetidos, era uma espécie de santos – os médicos que seguiam os hóspedes forçados com atenção e competência – e os anjos permanentes de bata branca e sorriso fresco, as enfermeiras e os enfermeiros que aplicavam as receitas prescritas para ajudar a equilibrar o funcionamento do corpo e da alma. Os nomes pouco importam, Paulo, Veloso, Licínio, Luísa, Maria ou a angelical Elisabete – cuja visão bastava para curar o mais frágil acamado e a voz doce e suave fazia subir às nuvens, acompanhado de uma melodia harmoniosa executada ao piano, harpa, flauta ou violino. E na falta da Elisabete, o melómano Augusto socorria-se do seu pequeno aparelho de rádio – um sony com Onda Média, FM e sete bandas de Onda Curta que havia comprado no início da década de 1990 nos Estados Unidos da América, por ocasião de um trabalho de reportagem sobre as comemorações do Dia 10 de Junho, na comunidade portuguesa de Newark. Para além de melómano, era jornalista. De rádio precisamente! Na altura em que o médico entrou no quarto, o 21 do Edifício C, o pequeno aparelho de rádio estava pousado na mesinha de cabeceira, em off, depois de Augusto ter escutado o curto noticiário das 02h00 – um intercalar onde sobressaiu o resultado do jogo inaugural do Estádio do Dragão, no qual o F.C. do Porto bateu o Barcelona por 2-0. Portista de corpo inteiro, Augusto – internado – não pode participar na festa, apesar de ter adquirido o respectivo bilhete que lhe permitiu o estatuto de “sócio fundador” do novo estádio da Invicta, com direito a nome inscrito na parede de azulejos para o efeito idealizada pelo mestre Júlio Resende. Seria sempre um bom motivo de conversa mas, pelas circunstâncias, não foi o tema eleito.
        O médico aproximou-se da cama e indagou das razões que preocupavam Augusto: - então, o que se passa? Que forte razão para me chamar? A resposta surgiu numa voz fraca, parecendo ecoar na cabeça de Augusto, como se estivesse a sonhar ou a pairar no espaço sidério: - ansiedade, dificuldade em dormir …
--- isso não chega, dê-me uma razão mais forte.
--- a verdade é que estou ansiosamente bloqueado, não me deixam tomar o ansiolítico que há já muitos anos me acompanha, estou triste, longe da mulher e do filho, estou cansado – quero ir para casa…
--- e há-de ir, sr Augusto, mas não agora, a estas horas da noite. O dr Paulo, logo de manhã, virá vê-lo e… decidirá. Por agora, vai tomar o ansiolítico e dormirá certamente descansado.
        Enquanto falava, o olhar do médico pousou interessadamente no pequeno aparelho de rádio e atirou: - qual é a sua profissão? É militar?
--- Não, não sou militar, mas cumpri a minha quota-parte do Serviço. Há trinta anos que sou jornalista, desde sempre um homem da rádio.
--- Só podia ser, constatou o médico – Silva Louro, como estava escrito na placa pendurada na bata. Jornalista ou militar… E se fosse em África ou na América Latina, talvez guerrilheiro. Só eles usam rádios com bandas de onda curta.
--- Este é o rádio que me tem acompanhado sempre nas deslocações pelo país ou ao estrangeiro… e agora aqui no hospital! É uma companhia excelente. E é um bom hábito para um repórter, manter-se informado, ouvir, perceber o mundo e enquadrar o objecto da reportagem.  
         Silva Louro aprovou com um ligeiro aceno de cabeça e, depois, como que rebobinou o filme da sua vida em dois ou três curtíssimos segundos, para voltar à questão militar: - em que ano e onde esteve?
--- Assentei praça em Nova Lisboa, na Escola de Aplicação Militar, em Fevereiro de 1971. Sete meses na EAMA, no curso de sargentos milicianos.
--- Nova Lisboa? Também eu, mais tarde… mas passei para o outro lado, para o MPLA. Fui colega de escola de Agualusa, no Huambo e também daquele que viria a ser o médico pessoal de Savimbi. Depois da independência deu-se a guerra civil e seguimos caminhos diferentes.
--- Foi uma guerra muito dura!... E longa…
--- Sim, até demais. Um longo cansaço, que me fez desistir. Ainda se tentou fazer qualquer coisa e recordo-me até de construirmos um hospital de campanha nas traseiras da EAMA. O Quartel tinha sido arrasado. Mas depois foi terrível a indiferença dos dirigentes angolanos – nomeadamente do Presidente Eduardo dos Santos – para com a reivindicação de melhores condições de trabalho para os médicos. E isso fez-me perder a fé na luta, pelo que resolvi vir para Portugal.  
         Despediu-se, Augusto tomou o comprimido e em breve adormeceu. Não só pelo efeito do ansiolítico, mas por que a conversa com o médico o havia transportado a uma juventude longínqua, à África da sua criação, à África de longos horizontes, à África das matérias-primas cobiçadas, à África de todos os sonhos.      

Foto da Web
António Bondoso
Jornalista
Agosto 2015.

2015-08-03

O MAR QUE TEMOS VIAJADO JUNTOS…

Foto de Miguel Bondoso

O MAR QUE VIAJAMOS JUNTOS…(A Publicar)
                                        
E de repente aconteceu
Um clarão
Como se os dedos da tua mão
Fossem capazes
De incendiar
Todos os pensamentos
Feitos à dimensão de todo o mar!
====
António Bondoso ( A Publicar)
1974-2015
3 de Agosto.

António Bondoso
Jornalista


2015-08-02

À NAVE...O MEU SENTIR!


                        NAVE (A Publicar)
Há pedras...
Por cima de grutas cavernosas
Albergues frios e duros de quem chamou sua
A Liberdade.
Uma Nave de pedras
O mais alto relevo de uma serra com três nomes
Antigos e eternos a perder da idade.
======= Ant.Bondoso (A Publicar).

FOTOS DE ANTÓNIO BONDOSO



2015-08-01


SOBRE O DIA DA MULHER...AFRICANA.

MULHER AFRICANA…APENAS MULHER! (A Publicar)
Percebendo todos os condicionalismos, quantos constrangimentos e um sem número de particularidades, uma Mulher é sempre Mulher!

Africana por direito e condição
Mulher d’África
A preceito e de conceito
Ela transporta no peito um coração
Que bate sincopado
Normalizado
Como o de todas as mulheres
Neste mundo perturbado.
Mulher africana, do mundo mulher
Um colo perfeito
E um ventre do mundo
Mulher africana
Um ser de querer
Mulher africana
Apenas mulher!
==== António Bondoso (A Publicar)
António Bondoso
Jornalista
Julho de 2015


2015-07-28

A PROPÓSITO DOS 8O ANOS DA RÁDIO...(e do hino comemorativo)

Foto de António Bondoso
(Texto de 2010)
A RÁDIO EM PORTUGAL ESTÁ QUASE A COMPLETAR 80 ANOS...
...MAS AINDA NÃO TEM  MARCADA  A DATA DA SUA MORTE !

=================
Anunciada ciclicamente – a televisão, a internet, a era digital – a morte da “rádio” tem vindo a ser adiada, não por milagre, antes pelo combate e pelo empenho na capacidade de adaptação aos novos tempos. Mas não bastam as novas tecnologias, não é suficiente “arrumar” tudo ou quase tudo no disco rígido de um moderno computador. É preciso que a rádio volte a estar com as pessoas e que tenha gente dentro! Que seja capaz de pensar e de reflectir e que saiba provocar no auditório a capacidade de dialogar, discutir serenamente e reagir aos desafios.  
Cinco anos e alguns meses depois de ter sido praticamente “empurrado” para uma aposentação precoce (hobby desde 1967- profissional desde 1973) com 55 anos de idade, continuo a pensar que o “segredo” da rádio está nas pessoas. Em profissionais competentes, imaginativos e criativos – para além de cultos, naturalmente – e em ouvintes interessados, pensantes e motivados. E nos sons! Na música que acalma e apaixona, no discurso simples e claro das vozes que animam, mas sobretudo no plano superior das entrevistas e das reportagens que falam de coisas sérias, no plano superior da imaginação e da criatividade com ética.
Algumas vezes a rádio é um silêncio feliz, mas muitas outras pode ser um ruído profundo, provocador, inquieto e perturbador.
Tudo isto é real nos capítulos do meu livro que vai estando cada vez mais perto, apesar da lentidão com que vou passando para o tal disco rígido as ideias – minhas e dos meus amigos – sobre como foi a rádio e como deveria ser hoje.
A Rádio, para mim, prossegue sendo uma guitarra freneticamente manipulada por Jimmy Hendrix ou docemente acariciada por BB King, das quais podem sair notas de um afro-americano rock de Harlem ou de um afro-americano blues a caminho de Memphis – onde já destruíram a magia da Rua Beale. A rádio e a música de sentimento, a rádio e a voz de protesto, a rádio da memória escrava, a rádio da sensação libertadora.
A Rádio, para mim, vai sendo a memória da magia do microfone, a magia dos sons, a magia do que fica para além do alcance da imaginação, a magia que permanece no estúdio, no “pick-up” que roda em 45 rotações a voz de Franck Sinatra ou um LP/33 de Maria Bethânia, a magia da “fita” onde se gravaram as impressões de uma conversa amena entre Igrejas Caeiro e Aquilino Ribeiro ou entre Fernando Pessa e Almada Negreiros, a magia do “cartucho” onde se alinhavam spots publicitários anunciando as virtudes da brancura do skip ou apelando à presença na Grande Noite do Fado no Coliseu dos Recreios.
E a magia da distância que a onda curta e o transistor resolvem, como estar às portas do deserto entre a Tunísia e a Argélia e poder ouvir as notícias de “casa” ou o relato de um Sporting-Porto em Alvalade...praticamente em cima de um camelo. Ou estar na Ilha de Moçambique, de noite e sem energia eléctrica – à luz de uma vela apenas – e receber as sensações de um outro jogo de futebol no desaparecido Estádio das Antas.

Como dizia o publicitário Bob Schulberg em 1989 – o ano da queda de mitos e muros – “ a televisão não é ruim, mas a Rádio é mágica. Se a televisão tivesse sido inventada antes, a chegada da radiodifusão teria feito as pessoas pensarem:- que maravilhoso que é a Rádio! É como a televisão, só que nem é preciso olhar!”. 
=== António Bondoso
Jornalista
PS: O hino agora gravado, para corresponder à grandeza da data, deveria ser mais VIBRANTE!

2015-07-27

A PROPÓSITO DO DIA DOS AVÓS...eu que já não tenho qualquer deles perto de mim.

Luiza Veiga e Zeferino Bondoso

PRIMEIROS BISAVÓS


Aparece

Por cima dos meus olhos

De repente

Visão escrita… ou o refrão da minha prece

E diz simplesmente

Que os primeiros bisavós dos avós dos meus avós

Eles que depois voltaram a ser avós

Nasceram lá onde tudo acontece.



Provavelmente no sul

Numa África de rios e de mares

Grandes lagos onde o Nilo se alimenta

Níger… Congo… Zaire… Zambeze…

O Atlântico e o Índico em tormenta

Para lá do Cabo onde as fontes são palmares

Agora já secos de uma vida tão azul.


Séculos e milénios de passos e caminhos

O tempo viajou depressa e deixou

Gerações atrás de gerações que se perderam

E hoje não me lembro já de quem amou

Os primeiros bisavós dos avós dos meus avós

Que depois deles voltaram a ser avós

Se espalharam possuíram e viveram.




Caminharam…lutaram  

Pisaram e passaram as curvas dos escolhos

E seguiram a estrela dos pais que viram luz

Errando para além da morte

Nos seus olhos

Até chegar à terra que é do norte

Repousando os pés … nas pedras que calaram  

A voz da música e o silêncio que produz

O pensamento quente dos tambores

Anúncio encomendado dos amores

Dos bisavós dos avós dos meus avós

Que depois deles voltaram a ser avós !

  


E assim se cumpriu o meu destino

E de outros que paridos tão a norte

Navegaram conheceram amaram sem favores

Outros mundos novas terras tanto hino

À liberdade, e descobriram antes da morte

Que os primeiros bisavós dos avós dos meus avós

Mereceram, gente comum, elogios e louvores

De sábios senhores mais velhos e de gente como nós !    
=====================================      
António Bondoso ( Em "...DA BEIRA! Alguns Poemas e Uma Carta para Aquilino, 2008)

2015-07-23

30 ANOS...OU UM QUARTO DE UMA VIDA!


UM CAMINHO COM NORTE!

         Poderia resumir o texto a uma simples frase, como é habitual na forma de assinalar os aniversários de quem gostamos. Mas avanço, mais uma vez por ele.
         Poderia ter sido a 25, mas foi decidido para 23. De Julho, do ano da Graça de 1985.
         E nasceu, para gáudio dos pais naturalmente e também dos avós que ainda eram. E dos tios, perfilados, como se da espera de um messias se tratasse.
         E num rasgo puro de visão, num ato de raro alcance psico-sociológico, entendeu-se que o recém-nascido deveria chamar-se António, como o pai, e Miguel porque estava na moda, sem esquecer os apelidos.
         Não por acaso foi nascer à Sé, afirmando-se como tripeiro – de jure no início – igualmente “de gema” com o andar da carruagem.
         Foi há 30 anos – praticamente um quarto de vida preenchida com avanços e recuos, venturas e desventuras de quem é, por inteiro e com “coluna”.
         Que permaneça inteligente para manter o caráter, é o que desejo e espero. Que permaneça sensível e meigo e busque sempre a humanidade! Forte abraço do pai.


António Bondoso
Julho de 2015