2015-11-09

S. TOMÉ E PRÍNCIPE
ENTRE O CHOCOLATE E O PETRÓLEO – AFIRMAR A PAISAGEM E O MAR!



“UMA “ILHA CORAÇÃO”…EM FORMA DE PAÍS”.
         “No dia em que eu cheguei à Ilha, levava comigo um golfinho – o «Pantufo» – escoltado pelo gandu «Santana» e por milhares de «vadô-panhá», aproveitando uma água temperada azul cor de turquesa, apesar da calema da «gravana».
         Avançámos avistando terra e encontrando refúgio numa bela e protegida baía a que deram o nome de «Ana Chaves». E ali fizemos amizade com uma encorpada tartaruga, que – desde logo – nos foi chamando a atenção para os perigos que a sua espécie ia correndo, pois era evidente o aumento da sua importância comercial, com o aproveitamento da sua carapaça para a elaboração do tradicional artesanato.




Assim começa um texto/espécie de conto que eu escrevi para assinalar o 40º aniversário da independência daquele país africano e que entendi por bem aproveitar para a introdução de uma conversa na Universidade Sénior de Portimão – um dos polos do dinâmico Instituto da Cultura daquela cidade algarvia, a funcionar desde 1992, muito graças ao trabalho solidário e voluntariamente empenhado dos elementos da Direção [particularmente Carlos Martins e Fátima Negrão, mas também Luísa Branco] e do corpo docente. Ao todo, são cerca de 200 pessoas que ali ensinam e aprendem História – de Portugal e da Arte; Geografia, Sociologia, questões ligadas à área Sócio Criminal, Psicologia, Saúde, Artes Plásticas, Literatura Portuguesa e outras línguas.    
         Sala repleta e um interesse visível marcaram a “conversa” sobre STP – para a qual fui convidado por impulso de uma companheira de infância e de juventude naquelas ilhas do meio do mundo, a Nanda Teixeira, ali docente muito estimada há já alguns anos.
         E depois, o reencontro com o meu/nosso professor de literatura no ciclo final do antigo ensino liceal – José Casinha Nova – portimonense de gema e ali docente estimado de igual modo, tal como havia sido em S. Tomé e Príncipe onde, de resto, lhe nasceu uma filha. 

         A conversa passou por alguns tópicos incontornáveis como a História da Colonização e os Ciclos do Açúcar, do Café e do Cacau; a mestiçagem como forma determinante da cultura das ilhas; e naturalmente o turismo e o mar – como bases da economia que também vive [para já apenas como ilusão] a expectativa do petróleo. E citei mesmo uma frase da jornalista e escritora são-tomense Conceição Lima: “Com ou sem petróleo, é minha opinião que se deve apostar em sectores como o turismo e o mar, cujas potencialidades são consensualmente reconhecidas hoje”.
         Acresce que, tanto o Banco Mundial como o Fundo Monetário Internacional, dizem que – num cenário de ausência de petróleo e de ajuste orçamental – o país ficará num alto risco de sobre endividamento.  


E entre a dissertação e as perguntas da assistência, houve tempo para projetar um vídeo/slide show sobre a história das Ilhas – a que dei o nome de «Escravos do Paraíso» – tal como foi oportuno ouvir dizer poesia de Alda do Espírito Santo [Cela Non Vugu, por João Faria], de Almada Negreiros [Rosa dos Ventos, por Maria do Amparo Bondoso], de Conceição Lima [A Casa, por António Bondoso] e de Francisco José Tenreiro [Canção do Mestiço, por Manuela Barra]. Maria Fernanda Teixeira fechou a sessão dizendo um recente poema meu Filho da Terra, publicado em AROMAS DE LIBERDADE(S), de 2015.




Portanto, para além do turismo – no qual é fundamental aproveitar a classificação da UNESCO para a ilha do Príncipe como «reserva mundial da biosfera» – há também que dar corpo a um outro projeto que o regime colonial não conseguiu resolver, o Porto de Águas Profundas, que o Estado são-tomense recentemente acordou com a empresa da RPC, a China Harbour.
António Bondoso
Jornalista
Portimão, 29 de Outubro de 2015


2015-11-06


UMA PERGUNTA SIMPLES...PARA ALGUNS ARAUTOS DA "VERDADE"!

Foto de A. Bondoso.


ONDE ESTAVAM NAS HORAS DIFÍCEIS?

         Sobretudo tendo em conta que a “verdade” nunca deixa de ser relativa, o meu compromisso será sempre com a Justiça! E esta conduz inevitavelmente ao que é verdadeiro e verdadeiramente livre. E ser livre é incontestavelmente poder optar, sem hipotecar a opção a qualquer instrumento limitador da liberdade de pensar e de agir…com justiça!
         E nessa medida, direi que ser justo é ser solidário no caminho da procura do bem comum. Sabendo que, ser justo, é estar ao lado de quem sofre, é então aí que deve afirmar-se o compromisso.
         Assim, pode sempre perguntar-se onde estavam os mentores de um tão recentemente propalado compromisso, quando a pobreza se foi multiplicando nos últimos quatro anos? Onde estavam esses seguidores do compromisso agora badalado, quando milhares e milhares de pessoas deixaram de poder pagar a renda ao senhorio ou a prestação da casa ao banco? Onde estavam “esses”, quando as filas para a “sopa dos pobres” iam dobrando cada vez mais esquinas de tantos quarteirões das cidades deste país? Onde estavam “esses”, quando tantos milhares de pessoas ficavam à porta das farmácias a decidir (?) qual dos medicamentos da receita médica poderiam aviar nesse dia? Onde estavam os “novos comprometidos”, quando milhões de reformados e de pensionistas viram cortada a sua condição presente, anulando qualquer sonho de futuro? Onde estavam esses novos comprometidos, quando milhares de pais e de avós viram filhos e netos partir para longe em busca do conforto que os “donos disto tudo” lhes foram negando dia após dia? Onde estavam esses, quando o suicídio passou a fazer parte comum do quotidiano deste país sem um Estado de bem? Onde estavam, quando outros milhares de cidadãos deixaram de poder usufruir do sono dos justos, sendo obrigados a recorrer a medicamentos psicotrópicos?
         Onde estavam as vozes – agora muito ouvidas – quando a arrogância, a prepotência, a indiferença, a incompetência do governo ultraliberal, a caminho de uma nova ideologia nazi-fascista (muito em voga na atual União Europeia), nos dizia diariamente que o sacrifício tinha em conta os superiores interesses do país? O interesse da alta finança pode confundir-se alguma vez com o interesse da maioria das pessoas? É que, no final, o que aqui importa é o superior interesse das pessoas carentes de Justiça!
António Bondoso
Jornalista 


António Bondoso
Novembro de 2015

2015-11-04


QUANDO A MEMÓRIA DOS AMIGOS NOS AJUDA A (RE)CONSTRUIR PARTE DA HISTÓRIA


Aprígio António Malveiro chegou a S. Tomé em Abril de 1948. E lembra-se de que, ainda a bordo do navio, fundeado ao largo, “…só via cubatas e casas de madeira no Bairro de S. João”. Uma vez até se perdeu, com a mulher, no meio do canavial dos pântanos da Ponta Mina.  
Aprígio António Malveiro foi Secretário da Câmara Municipal de S. Tomé no período colonial, tendo vivido episódios de registo. Para além daquele que citámos atrás, há outros que estão referidos igualmente no meu livro ESCRAVOS DO PARAÍSO (2005, com MinervaCoimbra) – tal como os que merecem destaque nas páginas em anexo e a propósito da sua relação de amizade com o Dr Mário Soares…que um dia foi exilado para STP por ordem do ditador Oliveira Salazar. Para mal do regime…viviam-se tempos conturbados com a célebre “Guerra do Biafra”.
O Sr Malveiro acaba de nos deixar, após 93 anos de vida, não sem uma crítica às contingências da austeridade nos serviços de saúde, recordando que ele foi hospitalizado, recuperou das causas diagnosticadas…mas viria a falecer de uma pneumonia “imprevista”.
Ao Aprígio e ao Olavo, camaradas de longa data e também eles vítimas da relação de amizade do pai com o ex-PR, deixo mais uma vez o gesto de um forte e sentido abraço. Voltaremos seguramente a encontrar-nos um dia destes.
António Bondoso



António Bondoso
Jornalista
Novembro de 2015.



2015-10-16

O FIM DA QUARTA LIBERTAÇÃO...OU UMA CERTA FORMA DE FALAR DE SAUDADE...



Numa altura em que os medos e os fantasmas regressam ao nosso cotidiano, 41 anos depois da “quarta libertação” (1640, 1820,1910 e 1974), dei por mim a pensar na saudade – suas causas e efeitos. E partilho agora parte dessa reflexão:
SAUDADE
Teremos talvez que buscar o início dos tempos…para tentar encontrar uma definição para este termo comum, popular, altamente difundido em português.
Certamente ao latim…talvez mesmo aos gregos e aos árabes… e porque não aos fenícios! Mas não podemos esquecer o galaico-português e depois os arcaísmos…
Soidade, suidade – como diziam as Cantigas de Amigo, por exemplo as de D. Dinis no século XIII, e depois Suydades, no século XVI com Gil Vicente.
Seja como for…a tradução para outras línguas não é nada fácil – senão mesmo quase impossível.
Há quem diga que HIRAETH – do gaélico irlandês se aproxima… havendo até um “quase”, quer em romeno ou alemão, quer em polaco ou inglês.
Mas é em português que se vive a saudade: em Portugal, Brasil e todos os outros países lusófonos… havendo mesmo dois crioulos ou duas línguas locais (no crioulo de Cabo Verde = Sodade/Sodadi – quem não recorda Cesária Évora! – e Saudadji em língua Forra de S. Tomé e Príncipe. Mas apesar de tudo, mesmo em português…o significado não é único, exclusivo!
E pode considerar-se até uma linha muito ténue entre «saudade» e saudosismo – movimento simbolista, nacionalista, poético e filosófico no início do século XX…a que chamaram Renascença, mas ao qual, hoje, praticamente se decidiu atribuir um sentido negativo.
O que é afinal a Saudade? Será apenas Ausência? Tristeza? Dor? Angústia? É solidão? Não haverá um sentimento positivo nessa expressão “saudade”?
Sem forçar muito a nota, podemos até descortinar uma ideia «sedutora» em saudade se nos lembrarmos do Fado – não todo, claro está e estou em crer que não se pode ficar indiferente à voz sensual de Ana Moura, por exemplo, que faz a gentileza de nos brindar igualmente com um brilhante e rasgado sorriso no qual mora o fado inteiro.
Seguramente…a saudade é um “estado d’alma”. Podemos ter saudades de alguém que amamos e está longe ou ausente; de um amigo querido, de alguém conhecido ou de um colega; de alguém ou algo que não vemos ou com quem não conversamos há imenso tempo. Já não falando, claro, de alguém falecido muito próximo. Ou mesmo de lugares, se nos recordarmos da “geografia sentimental” de Aquilino Ribeiro, ou de boa comida, de boa música, de se fazer algo que há muito não se faz (as saudades que eu tenho da Rádio…por exemplo!), do tempo e das circunstâncias que passaram/vivemos e que nos marcaram: e vem à memória, de imediato, o 25 de Abril de 1974. E depois…todo o processo de crescimento e de amadurecimento da cultura e da vivência democráticas, como se da educação de um filho se tratasse. Que saudade de o ter nos braços, que saudade de o erguer em direção ao céu, que saudade de saber os erros cometidos e de o ver cometer os seus na caminhada inexorável da sua afirmação. Que saudade de abraçar a mãe e da nossa felicidade estampada, nesta já longa estrada que temos vindo a percorrer.
Que saudade de S. Tomé – onde bebi a luz quente do saber ser gente, onde provei o valor da amizade e da camaradagem e onde decidi o meu futuro; que saudade do 74 da Cândido dos Reis, no Porto – onde pude acrescentar outros valores como os da ética, do respeito e da responsabilidade; que saudade de Macau – onde reencontrei o prazer da Rádio, onde cultivei novas amizades, algumas das quais determinaram o presente que vivo hoje, por exemplo no campo da escrita.
E para quem escreve…tudo isto faz sentido! Quer seja em Poesia, quer seja em Prosa! Eu comecei com a poesia…exatamente em Macau, onde publiquei em 1999 EM MACAU POR ACASO , um livro de poemas já carregado de “saudades”, sobretudo a angústia de quem lá nasceu e que, quase de repente, viu a sua terra natal assumir outra nacionalidade. Tal como já havia acontecido em África…mas talvez não com tanto traumatismo! Houve como que uma “almofada emocional” – um certo período de «adaptação»…Uma transição de 12 anos!
Agora, quarenta e um anos depois da quarta libertação, vivemos um tempo de subversão de valores, de submissão da liderança política aos donos de tudo isto – a alta finança – de uma austeridade que atinge a dignidade individual e que suga a alegria do convívio fraterno das pessoas. A liberdade já passou e tenho saudade do seu encantamento. Não espero qualquer D. Sebastião, mas tenho saudade de alguém que nos devolva o espírito saudável de viver!
António Bondoso
Outubro de 2015. 


Foto de A. Bondoso

António Bondoso
Jornalista

2015-10-06

HÁ UM PAÍS PRISIONEIRO!............


                                                               Foto de António Bondoso


NEVOEIRO!(A Publicar)

Vem aí mais nevoeiro
E temos o país à espera
De um ansiado mensageiro.

Como sempre, como em tudo
Desde que deixámos de ser nós
Não sendo já país inteiro.

Arrogância de quem não é
Perdição de quem não está
De quem não quer partilhar
De quem não sabe pedir
Humildemente dizer
Há um país a morrer
Sem gente para o salvar!

Vem aí mais nevoeiro
E o povo está prisioneiro!

==== António Bondoso (A Publicar)



Foto de António Bondoso
António Bondoso
Jornalista

2015-09-13

CONFESSO...QUE HÁ NECESSIDADE DE ACORDAR!

Foto de António Bondoso

Confesso que me assusta um resultado eleitoral diferente daquele que eu perspetivo. Mas não tenho medo disso. Há outros “medos” de maior dimensão e com origem em causas propiciadoras de maiores perigos. Poderemos sempre perguntar se – nesta categoria – não estarão os perigos de um resultado eleitoral favorável aos neoliberais ou se – em qualquer caso – deveremos ter medo, mesmo daqueles que defendem a plena integração numa UE cada vez mais frágil: seja nos ideais, seja nas políticas traçadas, seja nos caminhos escolhidos para enfrentar o que se chama de “novos desafios”. Este mais recente é paradigmático. Quando a Hungria ergue muros e a Alemanha rasga Schengen, nada de bom é previsível. Por isso – e embora sem “medos” – confesso estar assustado. Daí…lembrar-me de que Ramalho Eanes diz, por exemplo, que a democracia, hoje, pressupõe e exige – entre outros valores – “ a justa consideração de que a humanidade é una”. E a propósito dos fundamentos morais da ação política, o antigo Presidente da República recorda que “Ao governante falta, na maior parte das vezes, o exame cuidado, exigentemente racionalizado da sua actuação. Talvez aqui resida a razão maléfica da falta de preparação técnico-académica, de rigor e eficácia na acção, de muitos dirigentes políticos. Razão, só a eleitoral existe. E essa, muitas vezes, é iludida com o verbo demagógico, com as bandeiras partidárias, com os preconceitos ideológicos, sobretudo se a sociedade civil, como muitas vezes ainda acontece, não tem um elevado e generalizado nível de instrução, não dispõe nem procura obter informação suficiente, se não conta com organizações suas autónomas e independentes (financeiramente até) do Estado e dos grupos económicos”. Daí, por fim, a necessidade de passar ao papel este meu grito: ACORDAI!
ACORDAI…(A Publicar)

Acordai fantasmas da ópera!
É tempo de cantar a outro amo
E senhor de uma luz nova
E transparente.
É tempo de estabelecer
Outra corrente
Que nos faça iniciar nova viagem
Para um mundo de justiça
E de coragem.

Acordai fantasmas…
A ópera que cantamos não é bufa
- Antes trágica -
Verdadeiramente sinistra
Germinando em campo fértil
Da finança liberal,
Florindo em torrão desajustado
E com fruto mal nascido
De amor nunca tocado!

Acordai…e caminhai!
=== António Bondoso (A Publicar)


Foto de António Bondoso

António Bondoso
Setembro de 2015. 

2015-09-07


UMA CAMPANHA SEM ELEVAÇÃO...NEM ALEGRE NEM TRISTE.

Foto de António Bondoso

TRISTES SINAIS…

         Diz-se, de forma séria, que a “Política” é a atividade humana, de tipo competitivo, que tem por objeto a conquista e o exercício do poder. Ainda de forma séria, posso acrescentar igualmente a manutenção do poder. E há mesmo citações famosas marcantes de tempos idos e de circunstâncias diversas, como as de Churchill e de Mao-Tse-Tung (Mao Zédong): uma atividade “quase tão excitante como a guerra, e igualmente perigosa: na guerra, só se pode ser morto uma vez; na política, pode ser-se assassinado muitas vezes”//«a política é guerra sem derramamento de sangue, enquanto a guerra é política com derramamento de sangue».
         De outro modo, com menos “seriedade”, talvez nos recordemos de ler Ambrose Bierce: a política é «uma guerra de interesses mascarada de luta de princípios»; ou ainda John M. Brown: «um reino, povoado apenas por vilões e heróis, no qual tudo é preto ou branco, e o cinzento é uma cor proibida».
         Eu não sou adepto do “cinzentismo”…e acredito que é possível e desejável ter convicções e, sobretudo, ter princípios. É possível fazer as coisas deste modo e definir um caminho com ética e com coragem. E de forma clara.
         Mas, tristemente, o que vemos e ouvimos?
         Senhor Paulo Portas: em que é que o CDS se diferencia do PSD? – o PS radicalizou-se e vai por maus caminhos.
         Senhor Passos Coelho: vai cortar nas pensões dos reformados? – o PS anda à deriva e não se conseguiu afastar de Sócrates.
         Senhor Jerónimo de Sousa: como é que pensa derrotar a coligação de direita? – o PS tem andado ausente e distraído.
         Senhora Catarina Martins: o que distingue o BE do PCP? – o PS ainda tem um programa de privatizações e anda aliado com a direita.
         Senhor António Costa: José Sócrates fora da prisão incomóda-o? – o PS tem um programa de compromissos definido, com as contas todas bem feitas.
         Curiosamente, ou talvez não – naquela chamada guerra de interesses mascarados – o que nos aparece de comum no que podemos designar como falta de ideias generalizada? – o PS! O PS é tido e achado para justificar tudo e por todos os meios.
         Triste campanha, tristes sinais. É necessário – é fundamental – fazer política de outro modo, como dizia em tempos Daniel Cohn-Bendit. E como? Responsabilizando politicamente os cidadãos. Desde logo pela educação e pela cultura. E sabendo que “o papel do político é fazer escolhas, mas sendo claro quanto aos riscos”, pois os riscos não se podem esconder o tempo todo. Os políticos, tal como os cidadãos, devem assumi-los. E no conjunto dos cidadãos, há um grupo muito particular que deve ser responsabilizado ao mais alto nível: os jornalistas!
António Bondoso


Foto de António Bondoso

António Bondoso
Jornalista
Setembro de 2015. 

2015-09-02

VENHAM TODOS!

Está aí à porta a EXPODEMO 2015, com o símbolo da maçã. E depois são as vindimas. A China e o Brasil darão o toque no prosseguimento da internacionalização e haverá muita música - de Angola, do Brasil e de Portugal(Paulo de Carvalho, por exemplo) - para além de inúmeros espetáculos e exposições. Como sempre. 

Foto de António Bondoso

Na varanda da fachada do edifício da Câmara Municipal de Moimenta da Beira há uma tarja com uma frase que importa reter e sobre ela refletir, apesar da sua simplicidade ou talvez por isso mesmo: Moimenta da Beira saúda-vos.
O que vos pretendo dizer…é apenas isto: um cartaz pode ser um poema na sua complexa e prazenteira atitude.
VENHAM TODOS

E esta estranha forma complexa de ser
E de receber
Aqueles que um dia foi preciso ver partir.

É um misto de contagiante alegria
E de simpatia quase angustiante
Sentindo que a história é uma vítima
De uma assassina memória
Sempre a crescer
Sempre a pedir
Quase mesmo a exigir.

Uma estranha e complexa atitude d’estar
E de pensar
Aqueles que sendo nossos
Já não são
E os outros que não sendo
Desejamos conquistar pelo coração.

Mas que venham todos
Uns e outros disponíveis
Para lembrar a história
Saber e perceber a memória
Dar corpo e dar vida
A tantos lugares sensíveis!

Que venham todos
De sorriso aberto
Antes de os voltar a ver partir!
=== António Bondoso
Setembro de 2015.


Foto de António Bondoso

Por outro lado[e no livro EM AGOSTO...A LUZ DO TEU ROSTO, de 2014], recordo que a "emigração, tal como hoje e talvez desde sempre, era muitas vezes a saída de sentido único. Manuela Aguiar chamou a Portugal, em 1999, O País das Migrações Sem Fim. Uma recolha de textos seus, enquanto governante e deputada. Num deles, datado de 1997, diz que “É cedo ainda para anunciar o fim dos tempos da nossa emigração”. E naquele início da segunda metade do século XX, para o Brasil e apenas em quatro anos [1950-53], tinham já partido mais de 180 mil adultos e quase 34 mil crianças. África ainda não era, como nunca viria a ser, o destino prioritário de milhões de portugueses que fugiam à pobreza. O fluxo aumentaria, apesar de tudo, mas por motivos de ordem diversa. E hoje, 40 anos depois da descolonização, África volta a ser destino. Por necessidade, claro, mas agora por opção, embora ainda não prioritário. Angola e Moçambique estarão certamente nas estatísticas recentes que nos dizem que, entre 2010 e 2011 a emigração portuguesa cresceu 85%, com destaque para a faixa etária entre os 20 e os 30 anos." 
Que venham todos, de sorriso aberto, antes de os voltar a ver partir. Ou partir eu, claro. 
António Bondoso
Jornalista

2015-08-31


ISTO ANDA EM MARÉ DE LUAS...

Fotos de António Bondoso


E SE A LUA NÃO EXISTISSE?

Se a Lua não existisse…
Qual seria da humanidade
Desafio maior em saber
O porquê além de nós?
Qual seria dos eternos namorados
O livro ou talvez a luz
De uma tão terna paixão?

Se a Lua não existisse…
Qual satélite siamês desta Terra em convulsão,
Teria morrido a aventura
De outras vidas a procura
Já não haveria a esperança
De estar ali e subir mais
Viajar além do tempo
E da nossa própria essência.


Se a Lua não existisse…
Toda em física qual satélite,
Seria a Ciência mais pobre
E menos nobre o romantismo.
As palavras menos doces
Dos amantes, dos poetas
Uma vida toda inteira
Pra inventar um aforismo
De tanta imaginação:
Se a Lua não existisse…quem lá poria a cabeça?

===(EM AGOSTO...A LUZ DO TEU ROSTO - 2014)


António Bondoso
Jornalista

2015-08-29

HOMENAGEM AOS SENTIDOS...

Foto de António Bondoso

MIRADOURO…

Por estradas e caminhos que são únicos
Cada curva que nos transporta até ao cume
Tem um ângulo diferente de sentidos.

Não há pedras mesmo iguais
Não há socalcos mesmo iguais
O ar que se respira é apenas semelhante
E tudo o que se vê
- o que a alma alcança
e o coração não cansa -   
Renova o espírito mais amante
Quando se percebe que todos os verdes são os tais.

E de Galafura
Eternamente lá no topo
Tudo nos parece ficção
Um poema sem palavras em que o tempo
Paira ou flutua
Como se a vida fosse ali
O alfa e o omega de uma paixão
Absoluta!

Cada árvore tem a sua identidade
Cada arbusto não revela a sua idade
Cada montanha é diferente
Da outra que se ergue mesmo ao lado
E o rio lá no fundo a cada curva
Nos ensina
Que tudo à nossa volta é relativo
E a cada passo é preciso ser prudente.

Paisagem imortal desde sempre
Cantada em Sol maior e sustenido
É corpo de jardim em céu azul
Humilde criação em ato único
Émulo de coisa alguma mundo fora!
=====
António Bondoso  

Foto de António Bondoso
António Bondoso
Jornalista
Agosto de 2015. 

2015-08-24

RIO DOURO...

Foto de António Bondoso

RIO DOURO

Nas margens alcantiladas
do rio
nasce gente
cresce vida
e a fama que vem do Vinho
do Douro, bem merecida.
Mágoas do rio
choradas
sofridas gotas de sol
fecundam rudes montanhas. 
===António Bondoso===
"Tons Dispersos" Pg.73

Capa sobre pintura do Mestre Zé Rodrigues
2003


2015-08-16

OLÁ...


Olá.

Neste anunciado dia
Sempre repito e redigo:
Que a vida te sorria para além do sofrimento
Contado por um momento
No meio de muita alegria.

E se o teu retrato falasse
Por certo diria ao meu
Que o tempo que o teu viveu
Foi tão feliz quanto o meu.
E mesmo que se enganasse
E se tudo, enfim, negasse
Nada seria mais certo
Que da verdade tão perto
Estaria o teu retrato.

Olá em dia de agosto
Neste ano que é de luz
Reafirmo que sou tão grato
Àquele que nos conduz.

Olá eu digo de novo
Minha querida companheira
Louvemos o que é eterno
Nem sempre da mesma maneira.

Olá.
Neste anunciado dia
Mesmo que só por instantes
Celebremos com vigor
Mais um passo do caminho
Palmilhado com muito amor!
====António Bondoso
16 de Agosto de 2015. 


António Bondoso


2015-08-10

CRÓNICAS COM DOIS PONTOS:

Foto de Romana Borja-Santos (Público)


DOIS PONTOS:

1 – Tempo de campanha triste: discutem-se cartazes (no auge da histeria) em vez de se debaterem ideias (serenamente).
Se os debates, sobretudo nas televisões, servem para confronto de ideias entre as diversas candidaturas…elas devem ser representadas pelos seus líderes. No caso de uma coligação, é natural que não faça muito sentido uma dupla representação. Compete à coligação decidir qual o melhor líder para determinado debate.

2 – Independentemente dos números e da sua contradição, quer seja em incêndios, em área ardida ou em número de bombeiros feridos…alguém viu a senhora ministra Anabela Rodrigues na chamada “frente de combate”? Não havia combustível para o carro oficial…ou a governante teve receio de que o fogo se propagasse ao seu vestido?
António Bondoso
Agosto de 2015


2015-08-04

80 ANOS DE RÁDIO EM PORTUGAL.

QUANDO SE ASSINALA A EFEMÉRIDE...AQUI VOS DEIXO UM EXCERTO DE UM DOS CAPÍTULOS DO MEU LIVRO (A PUBLICAR EM BREVE) HOMENAGEANDO A "ONDA CURTA" HUMILHADA E DESPREZADA POR ALGUNS DOS DONOS DISTO TUDO:

Foto de António Bondoso
“O aspecto que primeiro chama a atenção na especificidade da situação comunicativa criada pela rádio é a portatibilidade da sua recepção.”
                                      Michael Schiffer - 1991
                                                                                                    

 O TRANSISTOR DE ONDAS CURTAS


        Entrou no quarto, passo lento e seguro, a enfermeira ao lado como se fora o anjo da guarda. Augusto, com os olhos doridos de solidão, acompanhou o cortejo, ansioso, do seu reclinado ângulo de visão – a cama articulada do Instituto Português de Oncologia. De barbas, rosto tisnado e cansado pela longa madrugada de vigília, o médico fora chamado para “curar” a ansiedade de Augusto – desperto, preocupado e lamurioso como qualquer paciente em período pós-operatório. Mas a situação comportava um simples pormenor não despiciendo: Augusto, na véspera da alta médica, havia sido sujeito a uma evisceração – o que lhe prolongou doentiamente a sua passagem pelo hospital. Sobretudo ao nível do “quarto andar”, se considerarmos os pés como o rés-do-chão, os joelhos o primeiro andar, depois a anca e, a cabeça, o último piso. É aí, onde os sentidos se controlam, que – muitas vezes – tudo se complica. O desconforto, o incómodo e o isolamento da noite nem sempre sobreviviam à agitação verificada durante o dia, com visitas permanentes da família e de bons amigos que sempre lhe dispensaram muito carinho. O que lhe valia, aliviava as dores dos pensamentos repetidos, era uma espécie de santos – os médicos que seguiam os hóspedes forçados com atenção e competência – e os anjos permanentes de bata branca e sorriso fresco, as enfermeiras e os enfermeiros que aplicavam as receitas prescritas para ajudar a equilibrar o funcionamento do corpo e da alma. Os nomes pouco importam, Paulo, Veloso, Licínio, Luísa, Maria ou a angelical Elisabete – cuja visão bastava para curar o mais frágil acamado e a voz doce e suave fazia subir às nuvens, acompanhado de uma melodia harmoniosa executada ao piano, harpa, flauta ou violino. E na falta da Elisabete, o melómano Augusto socorria-se do seu pequeno aparelho de rádio – um sony com Onda Média, FM e sete bandas de Onda Curta que havia comprado no início da década de 1990 nos Estados Unidos da América, por ocasião de um trabalho de reportagem sobre as comemorações do Dia 10 de Junho, na comunidade portuguesa de Newark. Para além de melómano, era jornalista. De rádio precisamente! Na altura em que o médico entrou no quarto, o 21 do Edifício C, o pequeno aparelho de rádio estava pousado na mesinha de cabeceira, em off, depois de Augusto ter escutado o curto noticiário das 02h00 – um intercalar onde sobressaiu o resultado do jogo inaugural do Estádio do Dragão, no qual o F.C. do Porto bateu o Barcelona por 2-0. Portista de corpo inteiro, Augusto – internado – não pode participar na festa, apesar de ter adquirido o respectivo bilhete que lhe permitiu o estatuto de “sócio fundador” do novo estádio da Invicta, com direito a nome inscrito na parede de azulejos para o efeito idealizada pelo mestre Júlio Resende. Seria sempre um bom motivo de conversa mas, pelas circunstâncias, não foi o tema eleito.
        O médico aproximou-se da cama e indagou das razões que preocupavam Augusto: - então, o que se passa? Que forte razão para me chamar? A resposta surgiu numa voz fraca, parecendo ecoar na cabeça de Augusto, como se estivesse a sonhar ou a pairar no espaço sidério: - ansiedade, dificuldade em dormir …
--- isso não chega, dê-me uma razão mais forte.
--- a verdade é que estou ansiosamente bloqueado, não me deixam tomar o ansiolítico que há já muitos anos me acompanha, estou triste, longe da mulher e do filho, estou cansado – quero ir para casa…
--- e há-de ir, sr Augusto, mas não agora, a estas horas da noite. O dr Paulo, logo de manhã, virá vê-lo e… decidirá. Por agora, vai tomar o ansiolítico e dormirá certamente descansado.
        Enquanto falava, o olhar do médico pousou interessadamente no pequeno aparelho de rádio e atirou: - qual é a sua profissão? É militar?
--- Não, não sou militar, mas cumpri a minha quota-parte do Serviço. Há trinta anos que sou jornalista, desde sempre um homem da rádio.
--- Só podia ser, constatou o médico – Silva Louro, como estava escrito na placa pendurada na bata. Jornalista ou militar… E se fosse em África ou na América Latina, talvez guerrilheiro. Só eles usam rádios com bandas de onda curta.
--- Este é o rádio que me tem acompanhado sempre nas deslocações pelo país ou ao estrangeiro… e agora aqui no hospital! É uma companhia excelente. E é um bom hábito para um repórter, manter-se informado, ouvir, perceber o mundo e enquadrar o objecto da reportagem.  
         Silva Louro aprovou com um ligeiro aceno de cabeça e, depois, como que rebobinou o filme da sua vida em dois ou três curtíssimos segundos, para voltar à questão militar: - em que ano e onde esteve?
--- Assentei praça em Nova Lisboa, na Escola de Aplicação Militar, em Fevereiro de 1971. Sete meses na EAMA, no curso de sargentos milicianos.
--- Nova Lisboa? Também eu, mais tarde… mas passei para o outro lado, para o MPLA. Fui colega de escola de Agualusa, no Huambo e também daquele que viria a ser o médico pessoal de Savimbi. Depois da independência deu-se a guerra civil e seguimos caminhos diferentes.
--- Foi uma guerra muito dura!... E longa…
--- Sim, até demais. Um longo cansaço, que me fez desistir. Ainda se tentou fazer qualquer coisa e recordo-me até de construirmos um hospital de campanha nas traseiras da EAMA. O Quartel tinha sido arrasado. Mas depois foi terrível a indiferença dos dirigentes angolanos – nomeadamente do Presidente Eduardo dos Santos – para com a reivindicação de melhores condições de trabalho para os médicos. E isso fez-me perder a fé na luta, pelo que resolvi vir para Portugal.  
         Despediu-se, Augusto tomou o comprimido e em breve adormeceu. Não só pelo efeito do ansiolítico, mas por que a conversa com o médico o havia transportado a uma juventude longínqua, à África da sua criação, à África de longos horizontes, à África das matérias-primas cobiçadas, à África de todos os sonhos.      

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António Bondoso
Jornalista
Agosto 2015.