2016-03-09


CÉU ETERNO…

Para mim, não é mister haver um qualquer acontecimento ou uma simples notícia dele, para me trazer África - particularmente S. Tomé e Príncipe - ao pensamento e ao coração. Neste dia, e antes que se volte a falar das efemérides do 11 de Março, de novo o meu horizonte se alargou para o Equador Atlântico. É fatal como o destino. E agora, que já passámos a celebração dos 40 anos da independência do país, volto a recordar o meu "Céu Eterno": 

Foto de A. Bondoso


CÉU ETERNO…

De São Tomé tenho o céu
E as nuvens carregadas de mensagens.

Chovem letras e palavras
De saudade
Que o calor liberta
Evaporando
E depois se concentram bem fechadas
No andar superior da nossa idade.

Não cuido de saber o que me dizem
Nem preciso confirmar quem as escreve
São palavras de ternura e de amizade
São ideias que germinam
Cristalinas
Derrubam mitos e lendas que não sabem
Andalas despidas de palmeiras
Ressequidas.

De São Tomé tenho o sol
E toda a sede fresca de um desejo
De São Tomé tenho o Príncipe
E o azul claro das águas que revejo

De São Tomé tenho o tempo
Em horas e dias pendulares

De São Tomé tenho a alma
Dissimétrica e pura nos olhares

De São Tomé tenho a gente
E o sorriso generoso das crianças

De São Tomé tenho o aroma das flores
E a força épica das raízes do ocá

De São Tomé tenho a música
A mais bela melodia já tocada
Por um eterno ossobó e por uma camussela delicada.

======== António Bondoso
Julho de 2015.
40 anos independência STP


9 de Março de 2016
António Bondoso
Jornalista - CP 359


2016-03-08

A PROPÓSITO DE CONSENSOS E DE DISCURSOS. 

Marcelo Rebelo de Sousa vai tomar posse amanhã como Presidente da República. Jornalista, Comentador, Político e Professor Universitário - Marcelo é reconhecidamente mediático e um especialista em fabricar cenários sociais e políticos. Há uns anos, era ele comentador na TSF, fez publicar as suas crónicas em livro, chamando-lhe UM ANO EM EXAME. Uma dessas crónicas, de 8 de Maio de 1994, foi dedicada ao então Presidente Mário Soares e à sua participação no Congresso "Portugal:que futuro?"- com o título UM DISCURSO ERRADO NO LOCAL ERRADO. 
Lembrando-me do discurso. no mínimo INFLAMADO, que o cessante PR Cavaco Silva fez - quer na noite eleitoral de 2010, quer na sequente tomada de posse - confesso estar curioso para escutar o discurso de posse de Marcelo Rebelo de Sousa, sabendo que a época é de crise, tal como era já em 1994 com Cavaco no cargo de 1ºM. Cavaco Silva que, na altura, Marcelo classificava como o anti-herói. 
As páginas da crónica de Marcelo estão aí para ser lidas. Mas não me dispenso de colocar em destaque um excerto que pode vir a servir de reflexão futura. Recordo que à época, Marcelo criticou o discurso de Mário Soares, salientando bem mais aspetos negativos do que positivos - como se depreende, aliás, do título da crónica:   
(...) "Mas não é líquido que o consensualismo seja necessariamente a melhor forma para resolver todos os problemas. É certamente para os problemas de regime. Mas não é útil haver alternativas opostas, diferentes, que permitam, no seu cotejo, precisamente a alternância de que também fala? Há uma confusão básica entre o desejar a alternância e, por outro lado, obter um consenso num diálogo inorgânico com a sociedade civil" (...) 
Esperemos, para ouvir o discurso de amanhã.










2016-03-04

ENTRE-OS-RIOS…ou uma tragédia portuguesa há 15 anos.
2001-2016


Paulo Teixeira chama-lhe  “A Ponte de Portugal”. E de facto…a 4 de Março de 2001 todo o país começou a tomar conhecimento de que havia caído uma ponte em Entre-os-Rios. A Ponte de Hintze Ribeiro, que ligava as margens do Douro em terras dos concelhos de Penafiel e de Castelo de Paiva, mais precisamente as localidades de Entre-os-Rios e de Sardoura. A ponte caiu e arrastou consigo para as águas revoltas e alimentadas com chuva de muitos dias 59 vidas do concelho da margem esquerda.
Eu soube da notícia em forma muito vaga estava nas Antas a assistir a um jogo de futebol. Há quem diga que lá tenha chegado duas horas depois do acidente, mas o que eu recordo é que de imediato contactei o camarada António Jorge que, em espírito de missão, anuiu à tarefa de ir reportar o acontecimento para a Antena 1. E foi, sem saber exatamente as dimensões da tragédia, ainda. Só quando lá chegou tomou, de facto, consciência do que se havia passado…juntando-se aos radialistas de Castelo de Paiva e com eles cooperando na busca de informação. Recordo ainda que mais tarde, após vários dias de emissões em direto – que envolveram exemplarmente toda a Redação da RDP no Porto, o mesmo António Jorge sugeriu e desenvolveu com Ricardo Alexandre, também da Antena 1, na Invicta, e com um outro camarada – creio que da Revista Visão – um trabalho especial sobre o “negócio” dos inertes do rio.
Paulo Teixeira, que estava na presidência da Câmara de Castelo de Paiva desde 1997 – e nesse cargo se manteve até 2009 – assumiu as dores da tragédia que envolveu os seus munícipes. E fê-lo de uma forma dinâmica e competente, abrangendo sobretudo estes adjetivos um elevadíssimo grau de humanismo. Simples, como o conheci, Paulo Teixeira não se esquivou a estar comigo em Moimenta da Beira em 2014, num encontro/debate sobre o Poder Local, no âmbito das comemorações dos 40 anos do 25 de Abril. Um dos objetivos era salientar as assimetrias no desenvolvimento do país, comparando o litoral e o interior. E nesse encontro, Paulo Teixeira não deixou de recordar os acontecimentos  dolorosos de 4 de Março de 2001, para destacar as dificuldades com que se viu confrontado à época, no sentido de conseguir ir dando solução aos mais variados aspetos que a tragédia colocou a Castelo de Paiva. E disse por exemplo: “O acidente dá-se numa ponte que pertencia ao distrito do Porto, o auto de notícia da GNR foi apresentado em Castelo de Paiva, no distrito de Aveiro, e assim sendo, o Tribunal competente era o de Castelo de Paiva e não o de Penafiel. Hoje tudo seria diferente porque íamos para Aveiro”. Esta questão das dependências viria a colocar-se igualmente no que diz respeito à atuação da GNR, tutelada por Penafiel e por Oliveira de Azeméis, tal como nas áreas da saúde, dos bombeiros e da segurança social. E na busca dos corpos desaparecidos, acrescenta, “Os mergulhadores eram da Armada, obedeciam ao comando de Leixões…a interacção entre a Armada e os Bombeiros foi feita numas situações pelo Ministro da Administração Interna e noutras pelo Secretário de Estado. Nos primeiros dias ninguém se entendia por causa das hierarquias e da distribuição geográfica”.
Muito se alterou já, é um facto, mas ainda persistem muitas dependências sem sentido e muitas desigualdades, particularmente devido ao adiamento dessa medida tão simples expressa na CRP e que dá pelo nome de Regionalização. Regionalizar não é dividir, diz-me Paulo Teixeira, acrescentando que, em 2014, ainda continuava por resolver a questão dos transportes escolares. Obrigado Paulo Teixeira, por haver lembrado tudo isto em Moimenta da Beira – um concelho igualmente do interior e da mesma forma confrontado com muitas dependências complexas da CCDRN, no Porto, sendo um concelho do distrito de Viseu. Muito próximo do Douro, é verdade, mas de Viseu.
Foi a 4 de Março de 2001. Poderia referir muitos outros pormenores sobre a tragédia na Ponte de Hintze Ribeiro e sobre as ações desenvolvidas nos dias subsequentes. Mas o texto já vai longo e fica dito o essencial. Por agora.
António Bondoso
Jornalista. CP- 359.


António Bondoso
4 de Março de 2016.

2016-02-28

A MEMÓRIA NÃO É DIVINA...MAS TEM GRANDEZA.


AO MEU PAI LUÍS…

Escreveu Almada que “o homem é o contraste do divino” e que “tentar divinizar o homem é o primeiro sintoma da Amnésia”.
Felizmente é maleita de que não tenho padecido – o que vale por dizer que a minha perspetiva do divino se tem pautado pelo equilíbrio. O que não me impede de ter memória e de atribuir um sentido positivo à lembrança dos progenitores. Hoje é a figura do Pai…de quem me chega esse gesto de me dar a mão a caminho dos ensaios para um dos espetáculos de variedades, ali junto do jardim da Curadoria e da Câmara Municipal de S. Tomé. Ou ainda esses “safaris” às praias da Boa Entrada e das Conchas, tal como as idas inesquecíveis à Roça Molembú.
De Moimenta da Beira sobram já as memórias de adulto, sentados à braseira na sala da Casa do Terreiro ou dois dedos de conversa à porta do Café Jardim, mas só em fotos me chega o passado da viola no Dramático do Arcozelo ou do avançado na equipa de futebol.
Em qualquer caso, não esqueço a saudade da alegria da sua presença, a saudade do sentido de humor e do riso maroto…a saudade de quem, por obra do destino, se viu desenraizado nas “raízes” e encostado a uma solidão – embora não permanente – mais espiritual do que física.
         E partiu…mesmo antes de eu partir de novo em busca do meu Oriente imaginário centrado em Macau, em Março de 1994. Ao Pai que foi, recordo de novo alguns versos de há dois anos:
Ser pai
Ser filho
Ser filho do pai e pai do filho
É ter um sorriso de vida
A emoção de um olhar
A certeza de que estamos e que somos.(…)
António Bondoso
28 Fev. 2016

António Bondoso
Jornalista

2016-02-23

MAIS DO QUE O NÚMERO…O SIGNIFICADO!

O “Notícias à Terça” – uma página que nos apresenta semanalmente informação sobre S. Tomé e Príncipe e dedicadamente trabalhada pelo nosso amigo Carlos Dias – chegou ao número mítico 300. 


Por ocasião da edição nº 250, tive a oportunidade de – celebrando o acontecimento – enaltecer a persistência, o gosto, o serviço do Carlos Dias para com o país e para com as comunidades diversas de são-tomenses em Portugal.
         Não querendo agora repetir-me, sou obrigado a aprofundar as razões que levarão este homem – para muitos de nós um camarada, para outros o mais velho, e para todos um amigo – a coligir e a trabalhar a informação mais diversa e apetecível sobre o país que é o seu [embora viva na diáspora] em cada semana dos muitos meses e anos que já leva na função.
         A proximidade, a Amizade, a emoção, o carinho – numa análise a um patamar mais elevado posso mesmo dizer o AMOR à Terra e às suas Gentes – estão na origem do facto. E depois a PAIXÃO pela escrita. Carlos Dias não recebe honorários pelo trabalho que apresenta. Pelo contrário, investe tempo e dinheiro nesta função cultural. Muito para além da informação, muito mais do que o ato de comunicar – o editor do Notícias à Terça assume a prática de, embora não opinando declaradamente, dizer o que sabe, escrever o que sente e quantas vezes explicar o que relata.
         É sem dúvida um trabalho que bebe muito no que resulta da “Galáxia de Bill Gates” – aproveitando a Internet e a subsequente Globalização – mas é igualmente um valioso ato cultural. Informa, divulga e permite questionar.
         Que o possamos fazer, em conjunto, por muito mais tempo. Um grande e muito grato abraço ao Carlos Dias. Parabéns pelos 300 números do Notícias à Terça.
António Bondoso
23 de Fevereiro de 2016. 

2016-02-09

HÁ SEMPRE UMA ROTINA DE VIDA...PARA ALÉM DOS ESPELHOS E DOS PALCOS. TALVEZ POR ISSO CHEGUEMOS SEMPRE AO CARNAVAL...



ROTINA DE VIDA…

Um café
E a vida numa rotina
De perguntar e de pedir
De buscar identidade.

Um café
E a conversa tão amena
Sobre tudo e sobre nada
Certamente sobre a angústia
Que nos assalta a penumbra
Da consciência pesada.

Um café
E a revolta figadal
De ter um estômago vazio
De saber tanta miséria
Mesmo ao lado de quem passa
Indiferente ao Carnaval.  

Um café
E esta rotina de vida
Que sufoca, esmaga e tritura
As almas desiludidas
Com esta passagem terrena
Que em tempos valeu a pena.

Um café
E o mundo gira!
==== António Bondoso
Fevereiro de 2016. 




2016-01-29

ACORDEMOS PORTUGUESES. 

Nesta hora em que os poderosos do dinheiro internacional e os chamados donos disto tudo de novo afiam as garras para se apropriarem da nossa dignidade como país livre e como povo soberano, nada melhor do que refletir sobre a "letra" de Henrique Lopes de Mendonça: 

Foto de António Bondoso


HERÓIS DO MAR

Heróis do mar que já fomos
Nesta nação secular
Erguei de novo o orgulho
E a valentia sem par.

Às armas.

Às armas cidadãos desta República
Que o sangue derramado construiu
É a hora de repor bem soberana
A luz de uma Pátria que se ama.

Às armas.

Às armas e marchemos vencedores
Sobre novos e falsos protetores
Que da Europa anunciaram a união
Mas só morte trouxeram à nação.

Acordai portugueses.
Levantai o peso da memória
E sabei que a Pátria não morreu.
Dizei antes que o valor da nossa História
Nos obriga a lutar
Sem fraquejar!
====== António Bondoso
Jornalista.

Janeiro de 2016. 

2016-01-12


O 66º NÃO É UM ANIVERSÁRIO QUALQUER!


VIVER É CANSATIVO!

         Assumindo a ideia de Armand Robin, segundo a qual não temos a certeza de pertencer à nossa própria vida, devo dizer que completar 66 anos de existência – para além de toda a simpatia que o número possa gerar – não deixa de ser um marco significativo de uma certa ideia de equilíbrio, físico e mental, perante as contradições e os perigos de dois tempos distintos: a juventude e a idade adulta. Viver sem rede, trabalhar no arame, assumir riscos e desafios sem pesar consequências – posso dizer terem sido circunstâncias que desenharam muitos passos do meu circuito. Quer no tempo ativo, quer no designado período de aposentação.
         E agora, completados os 66, tudo isso me subiu ao quinto andar com uma nitidez invejável – não tivesse eu clarificado recentemente no escrito EM AGOSTO…A LUZ DO TEU ROSTO [e um escritor, como diz Olivier Rolin em O MEU CHAPÉU CINZENTO, é quase inevitavelmente alguém desequilibrado], os momentos mais significativos de um percurso que me levou de Moimenta da Beira a Macau, pousando longamente a “juventude” em S. Tomé e Príncipe [onde foi marcante o ano de 1966] e a “idade adulta” no Porto [onde se desenrolou a maior parte da carreira profissional]. Expressão desse trajeto sentimental foram sem dúvida as incontáveis mensagens de felicitações que me chegaram de viva voz, por sms e por meio das redes sociais da Web, não só do Minho aos Algarves, e se estenderam igualmente a Goa, Londres, ao Canadá, Brasil e à Colômbia, morando aqui um sinal destes tempos de inquietação e de emigração quase forçada. Talvez não tenha dado resposta atempada e merecida a todos esses gestos de atenção e de carinho, pelo que o faço agora e aqui com a devida vénia. Lembrando até a graça que foi ter ouvido ao telemóvel os parabéns “cantados” – quase ao estilo dos antigos “telegramas”.
         E depois o amparo do núcleo familiar, a mulher e os filhos, o bolo especial com mensagem dedicada e a presença de um casal amigo que fez questão de estar e de partilhar esse momento particular de soprar as velas e de formular desejos. São simples os meus: saúde, paz interior, a devolução da quietude e da esperança sorridente de outros anos. O futuro é sempre incerto…e o do país não se apresenta brilhante, apesar de alguns sinais positivos. O caso é que já não é fácil acreditar em políticos e em banqueiros que nos tolheram os passos. E a campanha eleitoral que agora decorre, apesar do tino que possa aparentar, também não nos oferece tranquilidade quanto à capacidade e aos valores de todos os candidatos em presença.  
         Resta-me voltar a Olivier Rolin e aos “escritores”: o primeiro dever do escritor, antes de «contar estórias» ou de «fazer sonhar», como está de novo na moda, continua a ser o de dar um sentido mais puro às palavras da tribo. Por isso me agarro à esperança de poder contribuir…escrevendo! E vivendo…para além do cansaço!
António Bondoso
Jornalista 


António Bondoso

2016-01-01

UM ANO DE PAZ, PROGRESSO E DE ATENÇÃO ÀS PESSOAS...


Foto de Ant. Bondoso


…DAS RETICÊNCIAS... AO DIA DA PAZ!

         Deixei ontem muitas reticências na derradeira crónica do ano de 2015 e relativamente ao tempo que acaba de chegar.
         Não é que elas se extingam neste início de 2016, pelo contrário. Acontece, contudo, que o dia 1 de Janeiro há já alguns anos merece a distinção de Dia Mundial da Paz. E o Papa Francisco não deixa de repetir que, de certo modo, a Paz se alcança também estando nós todos atentos e solidários para com os outros. E tem repetido igualmente que ninguém deve ser descartável e indiferente.  
         Hoje, mais uma vez, o Santo Padre pediu o fim da indiferença à miséria, à injustiça e à violência no mundo. A alternativa, tem insistido Francisco, é o diálogo.
         Aguardemos, portanto, pelo diálogo. E façamo-lo com a ideia de que – à semelhança da “boda” – um ano molhado poderá ser um ano abençoado. Um desejo que não destoa olhado da minha perspetiva, já que – dentro de dias – poderei completar 66 anos de vida. Um número redondo e bonito e que também não destoa dos números do ano de 2016. Por outro lado, completarei 42 anos de casado – exatamente numa altura em que em Portugal se assinalam os 40 anos do Poder Local Democrático, os 30 anos da adesão do país à CEE/EU e os 20 anos da existência da CPLP. Datas de relevo e a merecer celebração, sem dúvida.
         Sobre cada um destes temas irei projetando as minhas ideias ao longo do ano, referindo hoje apenas o facto de a CPLP não ter merecido mais envolvimento por parte desta nova e inédita plataforma de governo, atribuindo por exemplo uma pasta às questões lusófonas – à semelhança do verificado com os assuntos europeus.
António Bondoso
Jornalista

Foto de Ant. Bondoso

2015-12-31


UMA CRÓNICA INCOMPLETA…

O início deste texto é certo, sem dúvida, mas o final não terei tempo de o escrever. Deixo o final à imaginação de cada um de vós – leitores dos meus textos, com agrado, enfado ou indiferença.
         O ano que está prestes a terminar pode sempre ser analisado sob as mais diversas perspetivas. E cada um de nós – humanos eternamente insatisfeitos – dirá que terá sido bom em determinados aspetos, menos mau em diversas circunstâncias ou mesmo mau/muito mau para muitas pessoas. Particularmente para os doentes, para os desempregados e para quem – contra a sua vontade – foi obrigado a partir em busca de uma existência digna.
         O meu teve de tudo isso um pouco. Apenas não consegui emigrar, o que teria sido do meu agrado e da minha conveniência.
         Talvez no próximo…apesar da esperança que nos foi inculcada após as eleições de 2015 e mesmo tendo em conta todas as contrariedades que se nos apresentaram.
         Sejamos honestos: nem tudo vai ser bom em 2016. Daí, as minhas naturais reticências…
António Bondoso

Jornalista




2015-12-30

HAVERÁ UM TEMPO JUSTO?...



TEMPO JUSTO.
Não sei se o tempo existe nem sei se terá tempo para isso. Uma dúvida existencial como tantas outras, uma questão filosófica talvez – ontológica certamente e quase a confundir-se com a metafísica. O tempo não é velho nem é novo – recordando o que há dias escrevi a propósito de uma ideia “abadesca” situando o paradoxo do Natal (como tempo de nascer) e da morte (igualmente tempo de nascer numa ou para outra dimensão). Neste ponto…é a Fé a sobrepor-se. Como que uma retórica de conforto em tempo de dor. Mas nestes tempos de crise – o que é realmente importante é o conforto de viver em dignidade! E essa...só será conseguida com um tempo novo.
Voltamos, portanto, à existência do tempo. E quem não se lembra daquela “ladainha” em que o tempo pergunta ao tempo quanto tempo o tempo tem…e o tempo responde ao tempo que o tempo que o tempo tem é tanto tempo…quanto tempo o tempo tem! A ser assim, penso não deixar de ser fundamental que esta asserção englobe toda e qualquer circunstância, toda e qualquer medida.  
Por isso, seja-me permitido esperar legitimamente que venha aí um tempo novo, um tempo de justiça e de felicidade. E desejar a todos que assim seja, com muita saúde para viver esse tempo – um intervalo entre a vida preenchida de altos e baixos…e essa ideia real que podemos situar entre o negro tétrico e o cinzento mais ou menos enigmático.
Pensando positivo, lá vamos a caminho do Novo Ano/Ano Novo...levados pelos ventos de uma liberdade conquistada e defendida com sacrifícios de vária ordem. E que agora clamam por mais felicidade e mais justiça.
Bom, feliz e digno 2016.
António Bondoso


António Bondoso
Jornalista 

2015-12-24


NÃO ME VENHAM FALAR DE NATAL!
FALEM-ME DE JUSTIÇA!

Foto de Ant. Bondoso

Não me venham falar de Natal, quando a miséria, a pobreza, a desigualdade entre os homens de todas as raças se acentua; não me falem de Natal quando os “donos disto tudo”, banqueiros e mercados sem rosto, somam cada vez mais às suas fortunas roubando o produto de quem trabalha e de quem já trabalhou; não me falem de Natal quando os jovens não têm futuro na terra onde nasceram; não me venham falar de Natal quando as migrações são cada vez mais forçadas por situações de guerra e perseguições políticas – da Síria ao Sudão, da Líbia ao Iraque, da Sérvia ao Kosovo, da Albânia à Turquia, do Líbano a Israel, da Rússia à Palestina, do Paquistão à Índia, da Indonésia às Filipinas, da China ao Tibete, do México aos Estados Unidos, da Alemanha à Hungria, do Congo ao Chade, da Tunísia ao Burquina Faso, de Angola ao Zimbabwe, do Brasil à Venezuela. Não me falem de Natal quando as crianças em todo o mundo são violentadas pela fome e pela escravidão.
Não me venham falar de Natal.
Falem-me de Justiça, de Cristo e do Papa Francisco.
Não me falem de Natal, quando ver morrer jovens à porta dos hospitais começa a tornar-se moda, tendo por base cortes orçamentais absurdos. E dos mais velhos nem vale a pena falar, aumentando as situações críticas já mesmo à porta das farmácias – quando não, até da porta de suas casas. Não me venham falar de Natal quando os avós e os pais já não conseguem – em cada dia – fazer face ao desespero dos filhos. Não me falem de Natal, quando há situações diárias de pais e filhos desavindos. Não me venham falar de Natal, quando há escolas que não funcionam por falta de verbas. Não me falem de Natal quando a violência doméstica é cada vez mais comum; não me falem de Natal quando os vizinhos se agridem por uma flor de jardim ou por um arbusto saído; não me venham falar de Natal quando as alterações climáticas – resultado sobretudo das ambições desmedidas do “homem” – conduzem à morte do nosso planeta a um ritmo assustador.
         Não me venham falar de Natal apenas em Dezembro.  
         Falem-me de Justiça, de Cristo e de Consciências Iluminadas.
Enviei, aceitei e retribuí mensagens de Boas Festas. Sobretudo para os amigos que muito considero. Mas não me falem de Natal, quando percebo nesses gestos apenas uma circunstância de moda. Não me venham falar de Natal quando se consomem fortunas em decorações de rua e nas casas de cada um, apenas para umas horas de mesa e de companhia desfeita; não me falem de Natal quando o consumismo se concentra em figuras como a Popota ou como a Leopoldina. Não me venham falar de Natal, quando as compras e as trocas de presentes são a razão única de estabelecer um convívio de amigos e de famílias.
         Não me venham falar de Natal…por tudo isto!
         Falem-me de Amizade presente e desinteressada, falem-me de Justiça, dos verdadeiros valores do humanismo. O Natal é isto. Mais o simbolismo do Presépio que deveria ser um palco diário. 
António Bondoso
Jornalista    



2015-12-22

S. TOMÉ - UMA CAPICUA DO MEU CONTENTAMENTO IMAGINÁRIO...



Independentemente das dúvidas históricas sobre a data exata da descoberta da Ilha – das ilhas de S. Tomé e do Príncipe – aceito a tese de muitos investigadores sobre o dia 21 de Dezembro de 1470, no caso da Ilha grande. É uma terra entranhada em mim, que eu recordo a cada minuto, seja a propósito de um grande acontecimento, quer tenha relação com a mais comezinha notícia. No caso deste 21 de Dezembro, está em causa uma capicua – pois 545 anos se passaram sobre a chegada de João de Santarém e Pêro Escobar àquelas ilhas do meio do mundo, hoje em evidência mediática pelo petróleo e pelo chocolate.
Só para lembrar, aqui vos deixo algumas das 280 páginas do livro que fiz publicar em 2005 – ESCRAVOS DO PARAÍSO – exatamente para assinalar os 30 anos da independência daquele jovem país africano de língua portuguesa.

Parte inferior do formulário









Grato pela paciência de lerem…
António Bondoso
Jornalista



2015-12-15

PARA QUE HAJA ESPERANÇA...



PRESÉPIO DESPIDO ( A Publicar).

Numa imagem despida de acessórios dispensáveis
Nem a vaca nem o burro
Nem qualquer fardo de palha, 
Maria, José e o Menino
Enfrentavam chuva e frio
Debaixo de um velho pinheiro
Pois já não havia estábulo em tão distante caminho.

E a aragem fresca da noite
Quase gelava o cenário de natureza bem simples.

Uma Família comum
De alegria enriquecida
Procurava proteger de um mundo tão egoísta
O sentimento mais nobre
Que o Natal empresta à Vida:
a condição de nascer
sem marca de igual destino
não determina o carácter
nem separa por princípio.

Só um mundo sem razão
A fugir para o abismo
Alimenta a ideia morta de uma árvore despida
Poder servir de refúgio
Ou sequer de proteção
A tantos homens perdidos na busca da salvação.

Mas o milagre persiste
E renova em cada ano
Uma heroica tarefa de fazer acreditar
Ser possível encontrar nos ramos nus de folhagem
A Luz que sempre guiou
Esse Menino nascido com o poder do perdão.
====A.Bondoso (A Publicar)


António Bondoso
Jornalista

2015-12-11

SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE - UM PAÍS BASEADO NUMA ILHA CORAÇÃO (III)


SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE
Projeto de bioenergia em território são-tomense apresentado na Cimeira do Clima
10:16 - 11-12-2015

O projeto-piloto «Bioenergia em São Tomé e Príncipe – Aproveitamento Energético de Biogás», iniciado em dezembro de 2014, foi apresentado na quinta-feira em Paris, na Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas.

Este projeto será desenvolvido já a partir do próximo mês de janeiro, através da instalação de cinco digestores anaeróbicos em comunidades rurais junto da zona tampão do Parque Natural do Obô, para tratar os resíduos orgânicos dos agregados familiares.

O programa, que tem como objetivo a replicação futura da tecnologia por outras comunidades em São Tomé e Príncipe e mais tarde em Angola, Moçambique e em algumas ilhas de Cabo Verde, está a ser desenvolvido com o apoio da Cooperação Portuguesa, através do Camões - Instituto da Cooperação e da Língua e da Agência Portuguesa de Ambiente, e é financiado pelo Fundo Português de Carbono ao abrigo do programa ‘Fast Start’. O orçamento do projeto está avaliado em 660 mil euros.
==============================

Feliz por saber desta nova, publicada hoje no jornal A BOLA, entendi que seria interessante finalizar a publicação do meu texto sobre UMA “ILHA CORAÇÃO”…EM FORMA DE PAÍS. Simbólica é a imagem que vos deixo deste safu pendurado - sinal de que mantenho a esperança de um dia voltar às Ilhas do Meio do Mundo:




(...) E zarpámos, deixando para trás a Ponta Mandioca e a Ponta Bote, antes de atingirmos a Praia do Ió ou do Ilhéu Grande, em Dona Augusta e bem à vista do Pico Macuru. Ali descansa o Rio Ió Grande – o maior da ilha – depois de uma longa caminhada desde a zona do Pico de Ana Chaves e após receber sucessivamente as águas do Rio Ana Chaves, Rio Campos, Rio João, Rio Miranda Guedes e Rio Umbugú. Contornámos a Ponta Juntabudo e depois a Ponta do Ocá, até que se nos depara a Angra de S. João dos Angolares. E já sem o recorte agressivo da paisagem costeira mais a sul, atrevemo-nos a espreitar muito próximo ou um pouco acima da linha de água, com Santana a revelar algumas cautelas, sendo possível observar a faina dos pescadores, ali na região de Santa Cruz. Canoas à vela, umas quantas a motor, a comunidade piscatória da ilha – direta ou indiretamente – representa quase 30% da população. E um estudo não muito antigo refere por exemplo que 50% dos pescadores terão entre 18 e 40 anos de idade e que 95% dos pescadores são angolares. Um sistema artesanal que, infelizmente, não permite uma utilização plena dos recursos, abrindo caminho a concessões a frotas pesqueiras estrangeiras – nem sempre com as melhores contrapartidas.

         Ali bem perto, soubemos, o João Carlos transformou a sua roça São João num polo de cultura turística, um dos primeiros no período pós-independência longe do bulício da capital. E abrigados na Praia Pequena, ali pernoitamos para recuperar a energia necessária para completar a ação exploratória. Com os primeiros raios de sol a colorir a escuridão daquelas águas, depressa agitamos as barbatanas e tomámos o rumo da Ponta dos Morcegos, em Angobó, deixando para trás a ideia de “turismo rural”. E depois Angra Toldo, Micondó, o Ilhéu Catarino e a Colónia Açoreana, antes de chegar à Ribeira Afonso – outro interessante e importante polo piscatório. Mais um esforço, agora numa costa menos difícil, para alcançar a Baía Luísa, contornar a Península e deparar com a Praia Rei – em Água Izé – junto à foz do Rio Abade na sua margem direita. Nas imediações – lembrei a Pantufo e a Santana – é preciso muito cuidado para não ser arrastado para a conhecida “Boca do Inferno”, um típico local da costa batido pelas fortes marés e cuja erosão deu origem a um curioso canal/túnel, merecedor de uma lenda: de tão perigoso foi associado ao demónio, partindo a lenda de uma figura maldosa representada pelo administrador/proprietário da roça que, quando se ausentava em férias ou em trabalho, não o fazia de barco. Preferia montar a cavalo e com ele desaparecer no canal/túnel onde a rebentação era muito forte.
Mais para norte é já a Praia Amador, antes do Ilhéu Santana – cujas águas são excelentes para a prática da pesca submarina. A barracuda é típica, algo preocupante quando em cardumes de certa dimensão – o que não deixou de agitar os sentidos de Santana. Se a presença de um tubarão, apesar da manifesta elegante imponência, mete respeito…a visão de algumas barracudas, com aspeto robusto e uma cabeça pouco simpática, implica um redobrar de atenção.  
         Ali ao lado, depois da Ponta Agulha, a Praia Méssia Alves [hoje chamam-lhe Messias Alves] acolhe um complexo turístico de excelência – o Club Santana Beach Resort – que oferece 20 bungalows e 11 suites com todo o conforto, para além de uma panorâmica única e inseridos num jardim tropical. Mais um exemplo do turismo de referência que o “país novo” tem vindo a valorizar, à semelhança dos projetos já mencionados. Um turismo alimentado como estratégia fundamental do desenvolvimento – tanto económico, social, cultural, ambiental – e como um vetor de paz e de segurança.
         De Santana à protegida Praia das Pombas foi apenas o tempo de um impulso de barbatanas do Santana e a que o Pantufo respondeu com alegria, deixando que eu “cavalgasse” o seu dorso por alguns momentos. Contornámos a Ponta Praião e depois a Praia Melão, na foz do Rio Manuel Jorge, antes de atingir a Ponta de S. Marçal já no polo piscatório de Pantufo. Esta zona representou para mim, em tempos recuados, um trajeto domingueiro de peregrinação e de enamoramento. E ainda a Ponta de S. Jerónimo, onde hoje está implantado o afamado complexo turístico do grupo Pestana. E é um desfiar de memórias vividas em toda aquela marginal, a Praia Perigosa, os edifícios onde em tempos funcionou o Rádio Clube de S. Tomé – primeiro no que viria a ser o Clube Militar e hoje Embaixada de Portugal, depois na atual instalação da Rádio Nacional e onde eu dei os primeiros passos na profissão, quer no Rádio Clube, quer mais tarde no Emissor Regional da EN. Ainda o Clube Náutico, a Piscina Velha e a Fortaleza de S. Sebastião – atual Museu Nacional – a Praia da PM e o Cais acostável apenas para navios de baixo calado. Um tema até hoje não resolvido e fundamental para o desenvolvimento – o chamado Porto de Águas Profundas.
         E, assim, de novo aportámos à Baía de Ana Chaves, confirmando o trajeto de uma “Ilha-Coração” que me deu forma de adulto e da qual ainda hoje guardo todo o sangue da juventude – feliz pelo caminho natural de um país independente. Caminho de muitos obstáculos e de muitas dificuldades que é preciso ultrapassar com seriedade, competência e total disponibilidade para trabalhar. Um país não nasce por osmose – é preciso muita energia positiva, muita imaginação, muito trabalho e gerar um clima de confiança. Definindo prioridades e explicando, explicando sempre as decisões que é necessário tomar em prol das pessoas que são a razão do país!
         Um país que se alarga à Ilha do Príncipe – paraíso que é hoje administrado como Região Autónoma e que vai dando passos seguros, embora lentos, nos caminhos do desenvolvimento. O turismo e os transportes como prioridade, mas também a preocupação de um serviço de saúde capaz de responder aos desafios do turismo, agora que a UNESCO classificou a ilha como Reserva da Biosfera.
         E a distância de 140 quilómetros que separa S. Tomé do Príncipe foi um desafio que Pantufo e Santana rapidamente aceitaram. Navegar em mar alto não é fácil, mesmo para golfinhos e tubarões, mas uma milagrosa “quietude” das águas do Golfo permitiu que eu trouxesse à memória uma viagem num navio patrulha da Marinha de Guerra portuguesa. Seis horas demorou, então, a viagem…e não foi nada fácil. Só melhorou quando avistámos o Ilhéu Boné de Jóquei – também ele merecedor de uma lenda, mas esta amorosa e envolvendo dois jovens apaixonados. Um amor impossível, contudo, para a época muito distante e dada a diferença da cor da pele. Um pormenor que não deixou de causar alguma perplexidade a Pantufo, mamífero de rara sensibilidade. Já Santana pouco ou nada se sentiu afetado com a história.
E os dois lá me guiaram pelo canal até à Ponta Café, sendo visível que esta região do sul da ilha é bastante acidentada, com destaque para o Pico de Mencorne e Morro de Este. O Pico do Príncipe e o Morro de Carreote ficam mais para o interior desta região montanhosa. Com exceção desta cadeia, as formas de relevo do Príncipe são menos abruptas, o que origina uma topografia mais favorável à agricultura. A boa onda das marés do Golfo rapidamente nos colocou na Praia do Abade, e depois de contornar a Ponta da Praia Salgada foi preciso apenas um ligeiro impulso até chegar à Ponta da Mina, onde – séculos atrás – o regime colonial erigiu uma fortaleza e ali instalou uma forte “bateria” de costa. Apreciámos a quietude da protetora Baía de Santo António e de seguida rumámos ao norte da ilha – onde se fala da lenda de Maria Correia, a grande Senhora da Ilha que dormia com os escravos mais fortes e depois os empurrava no Precipício de Belo Monte, ali bem perto da já muito famosa Praia Banana. E aparece a Praia das Burras mais a Praia de Santa Rita, já bem perto do Ilhéu Bombom – entretanto e em boa hora aproveitado para um excelente Resort turístico. Excelentes praias tem o norte do Príncipe, ainda longe de uma eventual exploração petrolífera – provavelmente nada conciliável com os cuidados exigentes da classificação da UNESCO.
         Foi ali na Praia Banana que eu me despedi de Pantufo e de Santana, proferindo um amigável “paçô”… de até sempre. E ali fiquei, como há 50 anos, sentado na praia e olhando o horizonte, gozando o paraíso e esperando pelo desenvolvimento sustentado e amigo do ambiente. E o mar – sempre o mar! – a proteção das tartarugas e o pensamento na criação de uma “Reserva Marinha”, à semelhança daquela que há poucos anos foi criada no Gabão, com 46 Klms quadrados e correspondendo a 23% das águas territoriais do país. É esse o caminho." 
=== António Bondoso 
Jornalista