2016-03-15


LUSOFONIA E LÍNGUA PORTUGUESA A ORIENTE.


A propósito desta Conferência, recordo hoje um trabalho que elaborei em 2008 e subordinado ao título: 
“PORTUGAL E A LUSOFONIA A ORIENTE:
ESPLENDOR, ESQUECIMENTO E UMA NOVA EXPANSÃO”



António Augusto Bondoso



PORTO
2008

INTRODUÇÃO

            Terminado o Império físico português, e não se tendo cumprido em qualquer altura e circunstância um tal “Quinto Império” de Vieira ou de Pessoa – ou mesmo de Camões, que o tinha pensado sem qualquer limite à liberdade na ilha dos Amores, como refere Agostinho da Silva[1]- a presença da Cultura e da Língua Lusas no mundo volta a merecer atenções na cena internacional.
            Em Portugal, naturalmente; no Grande Brasil; também nos países africanos falantes do português mas não só. A Oriente da História (sobretudo), onde o português desempenhou o papel de língua franca – a par do glorioso passado de Goa, Damão e Diu temos ainda hoje o caso singular e não menos preocupante do território de Macau, desde Dezembro de 1999 parte integrante da República Popular da China.
            Foi exactamente em Macau que o Professor Malaca Casteleiro, no Verão passado, se lamentou do facto de Portugal não ter uma política para a língua – dizendo haver falta de dinheiro para coisas essenciais.
            Então, como conciliar não só a preservação mas já uma nova expansão, se não houver meios para o conseguir?
            Temendo não encontrar uma resposta inequívoca – ou até mesmo minimamente apropriada – vamos procurar recolher algumas opiniões que possam sustentar um caminho a seguir em direcção ao objectivo.

CAPÍTULO I

O ESPLENDOR DO PASSADO NÃO MERECE O ESQUECIMENTO.


“Considero que o monumento mais importante do passado histórico dos portugueses por terras do Oriente não é nenhuma fortaleza ou catedral mas sim o ‘portuguese settlement’ de Malaca, na Malásia. As casas de pescadores são de madeira, mas a sua língua, a sua religião e os seus costumes – o seu substrato cultural – permaneceram ao longo de 500 anos sem outros contactos com Portugal”.
                                                                                                                                  Armando Teixeira Carneiro, 2004[2]


Este testemunho, que podemos de certa forma subscrever – não se desse o caso de desconhecermos muitos outros monumentos e lugares – merece apenas uma ligeira “correcção”: durante os últimos anos da Administração Portuguesa de Macau, a comunidade de luso-descendentes de Malaca foi alvo das atenções que foi possível desenvolver em termos oficiais, mesmo sem o apoio ou iniciativa do Governo da República. De Macau partiram para o Bairro Português de Malaca alguns conjuntos de trajes folclóricos para “alimentar” uma das grandes atracções turísticas da cidade[3].
Nós próprios pudemos colaborar com gravações de música portuguesa, incluindo o Hino Nacional (a música que se toca e canta com a Bandeira!) – quer instrumental, quer cantado – a pedido do proprietário do restaurante Lisboa, Sr. Silva (já por diversas vezes aliciado para trabalhar num restaurante português da ilha de Coloane em Macau) e do amigo Sr. Alcântara, cujos netos nos “brindaram” com a simplicidade e à vontade de uma longa convivência, dizendo em perfeito e perceptível Kristang que “na escola fala malaio, em casa fala português”! Querendo manter vivas as suas raízes, George Alcântara (Alcantra) publicou mesmo nos anos de 1990 um pequeno livro onde conta toda a história dos luso-descendentes de Malaca e da sua fixação no Portuguese Settlement nos anos de 1930. Escrito embora em língua inglesa e com o título “The Malacca Malaysian Portuguese Heritage”, o livro inclui até um modesto e pequeno “dicionário” de vocábulos portugueses traduzidos para Inglês e para Malay (Kristang)
Num artigo para a Revista Macau, o bolseiro da Fundação Oriente Brian Juan O’Neill[4] – que trabalhou em Malaca cerca de ano e meio – descreve também em pormenor toda essa história e, a propósito do livro “Undi nos by di aki?”[5], destaca as dificuldades que a comunidade enfrenta no presente, nomeadamente a questão jurídica da posse da terra e a construção de um aterro para instalar um complexo hoteleiro – aterro que poderá significar a “morte” do Bairro Português. Ficará em perigo a actividade piscatória a que se dedica ainda uma boa parte dos luso-descendentes. A questão do hotel não é pacífica e tem dividido a comunidade, que receia poderem vir os especuladores imobiliários a colocar em risco a coesão dos cerca de dois mil habitantes do Bairro.
Sem pretender mediatizar excessivamente a questão de Malaca – talvez a menos conhecida e menos estudada das possessões do antigo Império Português – destaque ainda para outro livro, da autoria da Historiadora Beatriz Basto da Silva, publicado em Macau em 1989 pelos Serviços da Educação e distribuído e dedicado às crianças de Malaca. Trabalho pedagógico, simples mas atractivo e bilingue (português e inglês), “Malaca – o Futuro no Passado” põe na palavra de Luís de Camões a história da aventura lusíada que uniu povos e países bem distintos, apesar da distância acentuada. De 1511 a 1641 – foram apenas 130 anos de convívio, contudo suficientes para o que a autora classifica de milagre: “o sentimento de portugalidade preservado pela religião e pela língua lusíada, apesar de tudo em volta ser tão diferente”. Beatriz B. da Silva termina perguntando “será que a herança recebida irá permanecer por muito tempo”?
Uma pergunta ainda sem resposta, tal como muitas outras referentes a outros tantos pontos de contacto luso a Oriente e nos quais a presença portuguesa sempre assentou em dois pilares – a religião católica e a língua crioula.

CAPÍTULO II

INCAPACIDADE = FALTA DE VONTADE POLÍTICA

 “Em toda a parte, aquilo que avulta como menos vulnerável e como cimento mais forte, é realmente a língua e, com ela, se a capacidade existir e a vontade não faltar, o veículo da cultura capaz de disputar o seu espaço e de o fazer crescer”.
                                                                                                                                                                Adriano Moreira                                                                                                                                                                                                               

Aquando da sua eleição presidencial, Cavaco Silva dirigiu aos portugueses na diáspora uma carta[6] em que prometeu criar, na Presidência da República, uma assessoria política para as Comunidades Portuguesas.
Aproveitando a circunstância, as “Comunidades ou Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente” dirigiram a Cavaco Silva uma carta aberta[7], na qual solicitaram atenção para as suas dificuldades de sobrevivência cultural por parte daquela “assessoria”, que funciona – de facto – no âmbito da tradicional assessoria política da Presidência da República. Não se sabe a resposta mas, tratando-se de uma questão de política externa, é natural que o assunto tenha sido encaminhado para a Secretaria de Estado das Comunidades e Cooperação.
Contudo, como é lembrado naquela carta aberta, “a incapacidade de Portugal nesta matéria tem sido uma evidência secular, filha da ignorância e do preconceito”. O documento refere também uma Conferência realizada em Malaca, em 1996, sobre “O renascimento do Papiá-Cristão e o Desenvolvimento do Património Malaco-Português”, na qual as diversas comunicações questionaram temas de grande importância – nomeadamente sobre o crescente interesse dos estudantes e professores malaios pelo estudo do crioulo Kristang; sobre a eventualidade de o crioulo e o Português padrão poderem vir a incluir o sistema de ensino da Malásia e sobre a necessidade de uma sumariação dos crioulos existentes no mundo e de uma troca de experiências dos seus falantes. Apelou-se então ao apoio de Portugal e das Fundações Portuguesas, falando-se inclusive da possibilidade de ligação das Comunidades Crioulas Lusófonas do Oriente à CPLP. Por outro lado – e a atestar a dita incapacidade de Portugal – foi pedido ao Governo Português que viabilizasse a organização de um pavilhão das Comunidades Crioulas na EXPO 98. Primeira resposta – o envio do preçário para arrendamento dos pavilhões! Nova diligência, nova resposta – cada Comunidade deveria diligenciar no sentido de ser incluída nos pavilhões dos respectivos países!
Assunto arrumado e que mereceu do Arcebispo Emérito de Mandalay (Birmânia-Myanmar) – D. U Thang Aung, descendente de portugueses e onde a maioria do clero católico é de origem portuguesa com raízes na cidade de Pegú, desde 1600 – o comentário de que “quem nunca recebeu a mais ténue manifestação de solidariedade de Portugal nada tem a esperar daí”!
Confirmando este lamento e dando corpo ao título deste Capítulo II e ainda ao “se” de Adriano Moreira, não é de estranhar que o crioulo de Myanmar – já não seja falado, tendo a comunidade perdido, com o tempo, os nomes e apelidos cristãos, apesar de permanecer fiel à religião católica.
Em Goa – considerada em tempos a Roma do Oriente – ainda hoje se fala e escreve em português padrão, não tendo as características dialectais chegado a dar origem a um verdadeiro crioulo[8]. A presença da Fundação Oriente tem, certamente, muita influência, mas o mesmo parece já não acontecer em outras regiões da Índia, como Diu, Damão, Mangalor, Cananor, Mahé e Cochim – e também no Sri Lanka, Xangai, Java, Flores, Bali, Sumatra e Singapura.
Entretanto em Korlai, junto a Chaúl, na Índia – é provável que ainda resista o crioulo Kristi, revelado ao mundo somente em 1982 pelo etnólogo romeno Laurentiu Theban, e na Tailândia (Bangkok e Ayutia) ainda permanecem vocábulos de uso corrente no relacionamento familiar e na religião.
Aliada a outros sinais da presença lusa a Oriente, a preservação e a expansão do ensino da língua devem ser encaradas – não como despesa mas sim como investimento para o futuro de Portugal – opção estratégica que implica equacionar meios e objectivos diferentes, consoante os territórios e os públicos alvo.
Esta evidência, a par de um real desinvestimento por parte do Estado Português ao longo dos últimos anos, estava contida num Projecto de Resolução apresentado por deputados do PCP na A.R., já em 2005, e no qual se propunha – por ex – a criação de um sítio na Internet; a divulgação de programas de qualidade na RTP Int., na RTP/África e em idênticos canais da Rádio Pública, de modo a estimular a aprendizagem da língua portuguesa no mundo; e o apoio aos Órgãos de Comunicação Social de língua portuguesa publicados ou transmitidos no estrangeiro.
Não se conhecem efeitos práticos desta iniciativa do PCP mas, a julgar pelas críticas que continuam a surgir de diversos quadrantes, não terá sido um projecto bem sucedido. Curiosamente, no mesmo ano, o sítio do Ministério da Educação na Internet, sobre a promoção e ensino da língua – antecipava que “O século XXI assistirá, pois, a um assinalável processo de expansão da Língua Portuguesa nos diversos continentes”.
É verdade que o século actual vai ainda consumir muitas e longas décadas, mas também é um facto que os primeiros anos não têm sido muito animadores para tal desiderato. Guerras e crises financeiras e económicas complicam o presente e ensombram o futuro.          
Numa análise breve e simplista, poder-se-á ficar com a ideia de que o assunto é ‘um caso perdido’.
Contudo e certamente não de forma espontânea e casuística, eis que a Indonésia – através do seu Embaixador em Lisboa, o timorense por nascimento Francisco Lopes da Cruz[9]afirma ter dado início aos contactos para obter o estatuto de observador associado da CPLP. A Indonésia tem Timor-Leste como vizinho e o relacionamento entre os dois países é excelente – disse Lopes da Cruz – acrescentando haver muitas razões de ordem histórica que ligam a Indonésia a Portugal, sobrando ainda o facto de a língua indonésia contar com cerca de duas mil palavras de origem portuguesa.
Uma aposta estratégica e geopolítica da Indonésia – sem dúvida – mas também um verdadeiro ‘balão de oxigénio’ para os objectivos de Portugal nesta matéria.
As palavras de Lopes da Cruz mereceram já assentimento e elogios por parte do Presidente Timorense, Ramos Horta[10]: “é uma excelente ideia” e a Indonésia “é um país com longas tradições portuguesas. Só por aí, a Indonésia merece o estatuto”.
Ramos Horta levantou ainda a hipótese de ser concedido o mesmo estatuto à Malásia por causa de Malaca, se esse país se mostrar interessado.


CAPÍTULO III

TIMOR-LESTE E MACAU – CASOS ESPECIAIS.

“Seria lógico pensar-se que o fim da administração portuguesa de Macau significaria a morte da língua portuguesa na China. Mas ao fazer de Macau uma plataforma para os países lusófonos, a política de Pequim mudou tudo. Afinal, há um número crescente de chineses que querem aprender a falar português”.
                                                                                                                                                                     Luís Pereira[11]

            Não há muito tempo, este lead de um artigo na Revista Macau com o título “queremos falar português” talvez merecesse dos eternos cépticos um sorriso irónico e amarelo. Mas hoje, mau grado a “falta de (vontade) política”, a falta de estratégia ou a falta de meios financeiros, há que encontrar um caminho para dar resposta – não só à procura (essencial no imediato) mas sobretudo ao “esquecimento” de longo prazo, onde estão os afectos e onde o futuro da língua pode ser mais sólido e mais duradouro.
            Já vimos o caso de Goa onde, apesar de ainda se falar e escrever em português corrente, a língua está em regressão. Segundo Vasco Graça Moura[12], a situação só poderá ser ultrapassada “se houver políticas de cooperação bilateral suficientemente fortes e sugestivas”. Em Timor, acrescenta Vasco Graça Moura, “a tradição cultural e religiosa, aliada à cooperação bilateral e inscrita em todo o complexo processo que levou à independência em relação à Indonésia, levam a que o português possa aspirar a um papel importante na construção desse novo país”.

            Não custa imaginar, por isso, que – se “a capacidade existir e a vontade não faltar”, na palavra de Adriano Moreira – as recentes declarações de Lopes da Cruz e de Ramos Horta possam ultrapassar a simples retórica.
            Timor, ex-colónia portuguesa, independente em 1975, invadida e ocupada pela Indonésia que a fez sua 27ª província, libertada pela ONU em finais do século XX e de novo independente em 2002 – tem dezasseis línguas autóctones[13]que, ao longo do último século, foram “ligadas” pelo tétum-Praça (ou tétum-Díli), uma forma específica do tétum, crioulizado pelo português. De considerar também a importância recente do inglês e, particularmente, o português e o bahasa[14] indonésio.
            Ao inverso do português durante o período colonial – praticamente só as elites escolarizadas e os funcionários da administração pública nos grandes centros utilizavam a língua de forma corrente – o idioma indonésio foi imposto (com a proibição total da utilização da língua portuguesa) numa tentativa  de promover a assimilação completa do povo timorense. Uma intenção acompanhada, e salientada por Rui Feijó, de “uma invasão administrativa e da religião muçulmana, na sequência de uma invasão militar que, nos primeiros quatro anos, terá sido responsável pelo desaparecimento de cerca de duzentos mil cidadãos”.
            Mas foi exactamente neste período de ocupação indonésia que os timorenses decidiram afirmar a sua identidade, resistindo por todas as formas – até mesmo pela simples “nomeação” e, talvez particularmente, pela religião. O estudo de Rui Feijó destaca o baptismo de amplos sectores da população de qualquer escalão etário no tempo indonésio e cita Frédéric Durand (2004)[15] para referir que “a população baptizada terá passado de cerca de um quarto a mais de três quartos” adoptando geralmente nomes em língua portuguesa.
            E há ainda a “guerrilha” – diz Rui Feijó. Taur Matan Ruak (o seu último comandante), em 2001, sustentou ter havido três factores de peso na decisão de a guerrilha manter o uso da língua portuguesa: “a) a presença de intelectuais falantes dessa língua, cujo contributo para a formação da estrutura militar da guerrilha terá sido considerável; b) a existência entre os timorenses conhecedores da língua escrita de um elevado número de indivíduos que se exprimiam em português; e ainda c) o facto de ser uma língua ortograficamente estabilizada e desenvolvida”. Essa – acrescenta Taur – seria “uma arma para contrapor à língua malaia no âmbito da luta cultural”.
            Contudo, é um problema passado. Hoje, interessa criar ali condições para um correcto e atractivo ensino da língua a estrangeiros.
            Como se clama hoje em Macau (tanto pelo IPOR como pelo IPM e pela Universidade), onde a grande maioria da população chinesa nunca se interessou pela aprendizagem do português – exceptuando talvez o esforço desenvolvido nos últimos anos da Administração Portuguesa. A falta de capacidade e de uma política das entidades de Portugal para o ensino e expansão da língua foi uma constante e Rui Rocha[16] – empresário macaense de origem portuguesa – diz mesmo que “Portugal sempre desprezou Macau”.
            Vasco Graça Moura salienta o exemplo de Goa, em contraponto com o caso de Macau, onde – “sem uma política concertada com as autoridades daquela autonomia especial da República Popular da China, o português estaria condenado a desaparecer de todo a breve trecho”.
            Voltando a Luís Pereira e ao seu trabalho na Revista Macau, o Director dos Serviços de Educação – Sou Chiu Fai – afirma que o interesse pelo português se faz sentir desde a escolaridade infantil ao secundário complementar, incluindo o nocturno e programas de formação contínua. Mas… só há um professor de português por cada 2,3 escolas, exceptuando as do ensino luso-chinês e, naturalmente, a Escola Portuguesa.
            De que se queixam as instituições para o ensino do português em Macau? Sobretudo da falta de materiais adequados, pelo menos numa versão bilingue, com explicações gramaticais e vocabulário para facilitar o processo de estudo – afirma o director da Escola Superior de Línguas e Tradução do IPM, Choi Wai Hão[17]. O Prof. Malaca Casteleiro está de acordo, confessando que os materiais bilingues produzidos em Portugal apenas se adequam ao contexto europeu.
            Para além do Tribuna de Macau, há outros jornais em língua portuguesa como o Clarim, o Hoje Macau e o Ponto Final.
            José Sales Marques, macaense e antigo Presidente do Leal Senado – hoje Presidente do Instituto de Estudos Europeus – aproveitando mais um aniversário do Hoje Macau[18] e referindo-se à questão do que deve ser um jornal em língua portuguesa naquele território, hoje, afirmou que “deve contribuir para a divulgação da língua portuguesa e da nossa cultura numa perspectiva de diálogo humanista e sem preconceitos sobre o passado, como processo legítimo de vincar e aprofundar uma mais-valia da RAEM: a sua diversidade cultural”.
            Recorda-se ainda que a Administração de Macau mantém em funcionamento um canal de rádio e outro de televisão em língua portuguesa, apesar da diminuta percentagem de falantes – mas como resultado dos acordos que levaram à transferência de poderes para a RPC. E é exactamente no vasto território chinês que a língua portuguesa é cada vez mais procurada. Só em Pequim, já existem quatro universidades que leccionam a língua portuguesa.

CONCLUSÃO

Tendo em atenção que a língua portuguesa é a sexta a nível mundial, a terceira língua europeia mais falada no mundo com cerca de 250 milhões de falantes – para o ano de 2050 as estatísticas apontam para 357 milhões, embora com menos portugueses mas mais falantes nos países lusófonos[19] – é fundamental considerar a língua e a sua expansão como um investimento decisivo para o futuro; produção de materiais adequados, pelo menos em duas línguas; formação específica de professores; acordos bi-laterais com os países dos vários continentes onde se notou e nota a presença portuguesa; uma parceria especial com o Brasil – o país da CPLP com maior número de falantes – e apoiar os Órgãos de Comunicação Social com vocação para serem veículos de promoção e divulgação, sem esquecer a Internet. Foi exactamente “na rede” que pudemos consultar o sítio geoscópio[20], no qual se propõe o ano de 2015 como “O Ano da Expansão” e ponto culminante dos 600 anos do processo, considerando a decisão estratégica da expedição a Ceuta. Até lá, são propostas quatro datas para assinalar a efeméride:
- 2009 – 500 anos sobre a batalha de Diu.
- 2010 – 500 anos sobre a criação de Goa.
- 2011 – 500 anos sobre a presença dos portugueses em Malaca.
- 2014 – 500 anos sobre a primeira grande operação de marketing internacional de uma grande potência, uma inovação dos portugueses com a embaixada a Roma.
            Entre outras sugestões, o autor da “iniciativa” propõe ainda avançar com um projecto de filme internacional e um jogo online sobre a batalha de Diu (1509), a concluir em 2009 – não no sentido de exaltação imperial, mas como crónica romanceada das lições de estratégia e de inovação militar e tecnológica.
Novembro de 2008
António Augusto Bondoso    



[1] - O Império acabou. E agora? – Antónia de Sousa, Editorial Notícias, Lisboa, 2000.
[2] - Doutorado em Ciências da Educação pela Univ de Salamanca e fundador do Instituto Superior de Ciências da Informação e Administração de Aveiro. Em Revista de Cultura Pensar Iberoamérica, nº5- Janeiro/Abril de 2005.
[3] - Brian Juan O’Neill, em Revisra Macau, II Série nº64, Agosto de 1997.
[4] - idem
[5] - Joseph Sta Maria, luso-descendente de Malaca. A capa do livro mostra duas dançarinas “portuguesas” vestidas com típicos trajes folclóricos, provavelmente de origem minhota. 
[6] - 16 de Janeiro de 2006.
[7]- 23 de Janeiro de 2006. Consultada em Elos Clube de Uberaba, a 20/11/08, em www.uaisites.adm.br/iclas/solidariedade e em http://passaleao.blogspot.com/
[8] - Maria Isabel Tomás, em Os Crioulos Portugueses do Oriente – uma Bibliografia, Instituto Cultural de Macau, 1992 e Teotónio R. de Souza, em Lusofonia sem Lusofilia? O caso do Antigo Estado da Índia – consultado em 12/11/08 em www.geocities.com/Athens/Forum/1503/lusof_goa.html
[9] - Agência Lusa, em 21/11/08 – Lisboa e Dili.
[10] - Agência Lusa em 21/11/08 – Lisboa e Dili.
[11] - Revista Macau. IV série, nº1, consultada em 13/11/08 em www.revistamacau.com/
[12] - Atlas de Portugal, consultado em 21/10/08 em www.igeo.pt/atlas
[13] - Rui Graça Feijó, 2008, em Etnográfica. (Língua, nome e identidade numa situação de plurilinguismo concorrencial: o caso de Timor-Leste).
[14] - Termo que no Sudeste Asiático significa “língua”.
[15] Catholicisme et Protestantisme dans l’Ile de Timor: 1556-2003.
[16] - Sítio da BBC Brasil na Internet, artigo de Sílvia Salek, publicado a 4 de Novembro de 2002
[17] - Jornal Tribuna de Macau em língua portuguesa, Junho de 2008. www.jtm.com.mo/
[18] - www.hojemacau.com/news, consultado em 21/10/08.
[19] - Diário de Notícias, 16 de Novembro de 2008, com base num relatório da ONU sobre a situação da população mundial, que não inclui S.Tomé e Príncipe.
[20] - http://geoscopio.tv/2007/06/a-diferenca-portuguesa/2015.  Por JNR.


António Bondoso
Jornalista e Mestre em RI.

2016-03-09


CÉU ETERNO…

Para mim, não é mister haver um qualquer acontecimento ou uma simples notícia dele, para me trazer África - particularmente S. Tomé e Príncipe - ao pensamento e ao coração. Neste dia, e antes que se volte a falar das efemérides do 11 de Março, de novo o meu horizonte se alargou para o Equador Atlântico. É fatal como o destino. E agora, que já passámos a celebração dos 40 anos da independência do país, volto a recordar o meu "Céu Eterno": 

Foto de A. Bondoso


CÉU ETERNO…

De São Tomé tenho o céu
E as nuvens carregadas de mensagens.

Chovem letras e palavras
De saudade
Que o calor liberta
Evaporando
E depois se concentram bem fechadas
No andar superior da nossa idade.

Não cuido de saber o que me dizem
Nem preciso confirmar quem as escreve
São palavras de ternura e de amizade
São ideias que germinam
Cristalinas
Derrubam mitos e lendas que não sabem
Andalas despidas de palmeiras
Ressequidas.

De São Tomé tenho o sol
E toda a sede fresca de um desejo
De São Tomé tenho o Príncipe
E o azul claro das águas que revejo

De São Tomé tenho o tempo
Em horas e dias pendulares

De São Tomé tenho a alma
Dissimétrica e pura nos olhares

De São Tomé tenho a gente
E o sorriso generoso das crianças

De São Tomé tenho o aroma das flores
E a força épica das raízes do ocá

De São Tomé tenho a música
A mais bela melodia já tocada
Por um eterno ossobó e por uma camussela delicada.

======== António Bondoso
Julho de 2015.
40 anos independência STP


9 de Março de 2016
António Bondoso
Jornalista - CP 359


2016-03-08

A PROPÓSITO DE CONSENSOS E DE DISCURSOS. 

Marcelo Rebelo de Sousa vai tomar posse amanhã como Presidente da República. Jornalista, Comentador, Político e Professor Universitário - Marcelo é reconhecidamente mediático e um especialista em fabricar cenários sociais e políticos. Há uns anos, era ele comentador na TSF, fez publicar as suas crónicas em livro, chamando-lhe UM ANO EM EXAME. Uma dessas crónicas, de 8 de Maio de 1994, foi dedicada ao então Presidente Mário Soares e à sua participação no Congresso "Portugal:que futuro?"- com o título UM DISCURSO ERRADO NO LOCAL ERRADO. 
Lembrando-me do discurso. no mínimo INFLAMADO, que o cessante PR Cavaco Silva fez - quer na noite eleitoral de 2010, quer na sequente tomada de posse - confesso estar curioso para escutar o discurso de posse de Marcelo Rebelo de Sousa, sabendo que a época é de crise, tal como era já em 1994 com Cavaco no cargo de 1ºM. Cavaco Silva que, na altura, Marcelo classificava como o anti-herói. 
As páginas da crónica de Marcelo estão aí para ser lidas. Mas não me dispenso de colocar em destaque um excerto que pode vir a servir de reflexão futura. Recordo que à época, Marcelo criticou o discurso de Mário Soares, salientando bem mais aspetos negativos do que positivos - como se depreende, aliás, do título da crónica:   
(...) "Mas não é líquido que o consensualismo seja necessariamente a melhor forma para resolver todos os problemas. É certamente para os problemas de regime. Mas não é útil haver alternativas opostas, diferentes, que permitam, no seu cotejo, precisamente a alternância de que também fala? Há uma confusão básica entre o desejar a alternância e, por outro lado, obter um consenso num diálogo inorgânico com a sociedade civil" (...) 
Esperemos, para ouvir o discurso de amanhã.










2016-03-04

ENTRE-OS-RIOS…ou uma tragédia portuguesa há 15 anos.
2001-2016


Paulo Teixeira chama-lhe  “A Ponte de Portugal”. E de facto…a 4 de Março de 2001 todo o país começou a tomar conhecimento de que havia caído uma ponte em Entre-os-Rios. A Ponte de Hintze Ribeiro, que ligava as margens do Douro em terras dos concelhos de Penafiel e de Castelo de Paiva, mais precisamente as localidades de Entre-os-Rios e de Sardoura. A ponte caiu e arrastou consigo para as águas revoltas e alimentadas com chuva de muitos dias 59 vidas do concelho da margem esquerda.
Eu soube da notícia em forma muito vaga estava nas Antas a assistir a um jogo de futebol. Há quem diga que lá tenha chegado duas horas depois do acidente, mas o que eu recordo é que de imediato contactei o camarada António Jorge que, em espírito de missão, anuiu à tarefa de ir reportar o acontecimento para a Antena 1. E foi, sem saber exatamente as dimensões da tragédia, ainda. Só quando lá chegou tomou, de facto, consciência do que se havia passado…juntando-se aos radialistas de Castelo de Paiva e com eles cooperando na busca de informação. Recordo ainda que mais tarde, após vários dias de emissões em direto – que envolveram exemplarmente toda a Redação da RDP no Porto, o mesmo António Jorge sugeriu e desenvolveu com Ricardo Alexandre, também da Antena 1, na Invicta, e com um outro camarada – creio que da Revista Visão – um trabalho especial sobre o “negócio” dos inertes do rio.
Paulo Teixeira, que estava na presidência da Câmara de Castelo de Paiva desde 1997 – e nesse cargo se manteve até 2009 – assumiu as dores da tragédia que envolveu os seus munícipes. E fê-lo de uma forma dinâmica e competente, abrangendo sobretudo estes adjetivos um elevadíssimo grau de humanismo. Simples, como o conheci, Paulo Teixeira não se esquivou a estar comigo em Moimenta da Beira em 2014, num encontro/debate sobre o Poder Local, no âmbito das comemorações dos 40 anos do 25 de Abril. Um dos objetivos era salientar as assimetrias no desenvolvimento do país, comparando o litoral e o interior. E nesse encontro, Paulo Teixeira não deixou de recordar os acontecimentos  dolorosos de 4 de Março de 2001, para destacar as dificuldades com que se viu confrontado à época, no sentido de conseguir ir dando solução aos mais variados aspetos que a tragédia colocou a Castelo de Paiva. E disse por exemplo: “O acidente dá-se numa ponte que pertencia ao distrito do Porto, o auto de notícia da GNR foi apresentado em Castelo de Paiva, no distrito de Aveiro, e assim sendo, o Tribunal competente era o de Castelo de Paiva e não o de Penafiel. Hoje tudo seria diferente porque íamos para Aveiro”. Esta questão das dependências viria a colocar-se igualmente no que diz respeito à atuação da GNR, tutelada por Penafiel e por Oliveira de Azeméis, tal como nas áreas da saúde, dos bombeiros e da segurança social. E na busca dos corpos desaparecidos, acrescenta, “Os mergulhadores eram da Armada, obedeciam ao comando de Leixões…a interacção entre a Armada e os Bombeiros foi feita numas situações pelo Ministro da Administração Interna e noutras pelo Secretário de Estado. Nos primeiros dias ninguém se entendia por causa das hierarquias e da distribuição geográfica”.
Muito se alterou já, é um facto, mas ainda persistem muitas dependências sem sentido e muitas desigualdades, particularmente devido ao adiamento dessa medida tão simples expressa na CRP e que dá pelo nome de Regionalização. Regionalizar não é dividir, diz-me Paulo Teixeira, acrescentando que, em 2014, ainda continuava por resolver a questão dos transportes escolares. Obrigado Paulo Teixeira, por haver lembrado tudo isto em Moimenta da Beira – um concelho igualmente do interior e da mesma forma confrontado com muitas dependências complexas da CCDRN, no Porto, sendo um concelho do distrito de Viseu. Muito próximo do Douro, é verdade, mas de Viseu.
Foi a 4 de Março de 2001. Poderia referir muitos outros pormenores sobre a tragédia na Ponte de Hintze Ribeiro e sobre as ações desenvolvidas nos dias subsequentes. Mas o texto já vai longo e fica dito o essencial. Por agora.
António Bondoso
Jornalista. CP- 359.


António Bondoso
4 de Março de 2016.

2016-02-28

A MEMÓRIA NÃO É DIVINA...MAS TEM GRANDEZA.


AO MEU PAI LUÍS…

Escreveu Almada que “o homem é o contraste do divino” e que “tentar divinizar o homem é o primeiro sintoma da Amnésia”.
Felizmente é maleita de que não tenho padecido – o que vale por dizer que a minha perspetiva do divino se tem pautado pelo equilíbrio. O que não me impede de ter memória e de atribuir um sentido positivo à lembrança dos progenitores. Hoje é a figura do Pai…de quem me chega esse gesto de me dar a mão a caminho dos ensaios para um dos espetáculos de variedades, ali junto do jardim da Curadoria e da Câmara Municipal de S. Tomé. Ou ainda esses “safaris” às praias da Boa Entrada e das Conchas, tal como as idas inesquecíveis à Roça Molembú.
De Moimenta da Beira sobram já as memórias de adulto, sentados à braseira na sala da Casa do Terreiro ou dois dedos de conversa à porta do Café Jardim, mas só em fotos me chega o passado da viola no Dramático do Arcozelo ou do avançado na equipa de futebol.
Em qualquer caso, não esqueço a saudade da alegria da sua presença, a saudade do sentido de humor e do riso maroto…a saudade de quem, por obra do destino, se viu desenraizado nas “raízes” e encostado a uma solidão – embora não permanente – mais espiritual do que física.
         E partiu…mesmo antes de eu partir de novo em busca do meu Oriente imaginário centrado em Macau, em Março de 1994. Ao Pai que foi, recordo de novo alguns versos de há dois anos:
Ser pai
Ser filho
Ser filho do pai e pai do filho
É ter um sorriso de vida
A emoção de um olhar
A certeza de que estamos e que somos.(…)
António Bondoso
28 Fev. 2016

António Bondoso
Jornalista

2016-02-23

MAIS DO QUE O NÚMERO…O SIGNIFICADO!

O “Notícias à Terça” – uma página que nos apresenta semanalmente informação sobre S. Tomé e Príncipe e dedicadamente trabalhada pelo nosso amigo Carlos Dias – chegou ao número mítico 300. 


Por ocasião da edição nº 250, tive a oportunidade de – celebrando o acontecimento – enaltecer a persistência, o gosto, o serviço do Carlos Dias para com o país e para com as comunidades diversas de são-tomenses em Portugal.
         Não querendo agora repetir-me, sou obrigado a aprofundar as razões que levarão este homem – para muitos de nós um camarada, para outros o mais velho, e para todos um amigo – a coligir e a trabalhar a informação mais diversa e apetecível sobre o país que é o seu [embora viva na diáspora] em cada semana dos muitos meses e anos que já leva na função.
         A proximidade, a Amizade, a emoção, o carinho – numa análise a um patamar mais elevado posso mesmo dizer o AMOR à Terra e às suas Gentes – estão na origem do facto. E depois a PAIXÃO pela escrita. Carlos Dias não recebe honorários pelo trabalho que apresenta. Pelo contrário, investe tempo e dinheiro nesta função cultural. Muito para além da informação, muito mais do que o ato de comunicar – o editor do Notícias à Terça assume a prática de, embora não opinando declaradamente, dizer o que sabe, escrever o que sente e quantas vezes explicar o que relata.
         É sem dúvida um trabalho que bebe muito no que resulta da “Galáxia de Bill Gates” – aproveitando a Internet e a subsequente Globalização – mas é igualmente um valioso ato cultural. Informa, divulga e permite questionar.
         Que o possamos fazer, em conjunto, por muito mais tempo. Um grande e muito grato abraço ao Carlos Dias. Parabéns pelos 300 números do Notícias à Terça.
António Bondoso
23 de Fevereiro de 2016. 

2016-02-09

HÁ SEMPRE UMA ROTINA DE VIDA...PARA ALÉM DOS ESPELHOS E DOS PALCOS. TALVEZ POR ISSO CHEGUEMOS SEMPRE AO CARNAVAL...



ROTINA DE VIDA…

Um café
E a vida numa rotina
De perguntar e de pedir
De buscar identidade.

Um café
E a conversa tão amena
Sobre tudo e sobre nada
Certamente sobre a angústia
Que nos assalta a penumbra
Da consciência pesada.

Um café
E a revolta figadal
De ter um estômago vazio
De saber tanta miséria
Mesmo ao lado de quem passa
Indiferente ao Carnaval.  

Um café
E esta rotina de vida
Que sufoca, esmaga e tritura
As almas desiludidas
Com esta passagem terrena
Que em tempos valeu a pena.

Um café
E o mundo gira!
==== António Bondoso
Fevereiro de 2016. 




2016-01-29

ACORDEMOS PORTUGUESES. 

Nesta hora em que os poderosos do dinheiro internacional e os chamados donos disto tudo de novo afiam as garras para se apropriarem da nossa dignidade como país livre e como povo soberano, nada melhor do que refletir sobre a "letra" de Henrique Lopes de Mendonça: 

Foto de António Bondoso


HERÓIS DO MAR

Heróis do mar que já fomos
Nesta nação secular
Erguei de novo o orgulho
E a valentia sem par.

Às armas.

Às armas cidadãos desta República
Que o sangue derramado construiu
É a hora de repor bem soberana
A luz de uma Pátria que se ama.

Às armas.

Às armas e marchemos vencedores
Sobre novos e falsos protetores
Que da Europa anunciaram a união
Mas só morte trouxeram à nação.

Acordai portugueses.
Levantai o peso da memória
E sabei que a Pátria não morreu.
Dizei antes que o valor da nossa História
Nos obriga a lutar
Sem fraquejar!
====== António Bondoso
Jornalista.

Janeiro de 2016. 

2016-01-12


O 66º NÃO É UM ANIVERSÁRIO QUALQUER!


VIVER É CANSATIVO!

         Assumindo a ideia de Armand Robin, segundo a qual não temos a certeza de pertencer à nossa própria vida, devo dizer que completar 66 anos de existência – para além de toda a simpatia que o número possa gerar – não deixa de ser um marco significativo de uma certa ideia de equilíbrio, físico e mental, perante as contradições e os perigos de dois tempos distintos: a juventude e a idade adulta. Viver sem rede, trabalhar no arame, assumir riscos e desafios sem pesar consequências – posso dizer terem sido circunstâncias que desenharam muitos passos do meu circuito. Quer no tempo ativo, quer no designado período de aposentação.
         E agora, completados os 66, tudo isso me subiu ao quinto andar com uma nitidez invejável – não tivesse eu clarificado recentemente no escrito EM AGOSTO…A LUZ DO TEU ROSTO [e um escritor, como diz Olivier Rolin em O MEU CHAPÉU CINZENTO, é quase inevitavelmente alguém desequilibrado], os momentos mais significativos de um percurso que me levou de Moimenta da Beira a Macau, pousando longamente a “juventude” em S. Tomé e Príncipe [onde foi marcante o ano de 1966] e a “idade adulta” no Porto [onde se desenrolou a maior parte da carreira profissional]. Expressão desse trajeto sentimental foram sem dúvida as incontáveis mensagens de felicitações que me chegaram de viva voz, por sms e por meio das redes sociais da Web, não só do Minho aos Algarves, e se estenderam igualmente a Goa, Londres, ao Canadá, Brasil e à Colômbia, morando aqui um sinal destes tempos de inquietação e de emigração quase forçada. Talvez não tenha dado resposta atempada e merecida a todos esses gestos de atenção e de carinho, pelo que o faço agora e aqui com a devida vénia. Lembrando até a graça que foi ter ouvido ao telemóvel os parabéns “cantados” – quase ao estilo dos antigos “telegramas”.
         E depois o amparo do núcleo familiar, a mulher e os filhos, o bolo especial com mensagem dedicada e a presença de um casal amigo que fez questão de estar e de partilhar esse momento particular de soprar as velas e de formular desejos. São simples os meus: saúde, paz interior, a devolução da quietude e da esperança sorridente de outros anos. O futuro é sempre incerto…e o do país não se apresenta brilhante, apesar de alguns sinais positivos. O caso é que já não é fácil acreditar em políticos e em banqueiros que nos tolheram os passos. E a campanha eleitoral que agora decorre, apesar do tino que possa aparentar, também não nos oferece tranquilidade quanto à capacidade e aos valores de todos os candidatos em presença.  
         Resta-me voltar a Olivier Rolin e aos “escritores”: o primeiro dever do escritor, antes de «contar estórias» ou de «fazer sonhar», como está de novo na moda, continua a ser o de dar um sentido mais puro às palavras da tribo. Por isso me agarro à esperança de poder contribuir…escrevendo! E vivendo…para além do cansaço!
António Bondoso
Jornalista 


António Bondoso

2016-01-01

UM ANO DE PAZ, PROGRESSO E DE ATENÇÃO ÀS PESSOAS...


Foto de Ant. Bondoso


…DAS RETICÊNCIAS... AO DIA DA PAZ!

         Deixei ontem muitas reticências na derradeira crónica do ano de 2015 e relativamente ao tempo que acaba de chegar.
         Não é que elas se extingam neste início de 2016, pelo contrário. Acontece, contudo, que o dia 1 de Janeiro há já alguns anos merece a distinção de Dia Mundial da Paz. E o Papa Francisco não deixa de repetir que, de certo modo, a Paz se alcança também estando nós todos atentos e solidários para com os outros. E tem repetido igualmente que ninguém deve ser descartável e indiferente.  
         Hoje, mais uma vez, o Santo Padre pediu o fim da indiferença à miséria, à injustiça e à violência no mundo. A alternativa, tem insistido Francisco, é o diálogo.
         Aguardemos, portanto, pelo diálogo. E façamo-lo com a ideia de que – à semelhança da “boda” – um ano molhado poderá ser um ano abençoado. Um desejo que não destoa olhado da minha perspetiva, já que – dentro de dias – poderei completar 66 anos de vida. Um número redondo e bonito e que também não destoa dos números do ano de 2016. Por outro lado, completarei 42 anos de casado – exatamente numa altura em que em Portugal se assinalam os 40 anos do Poder Local Democrático, os 30 anos da adesão do país à CEE/EU e os 20 anos da existência da CPLP. Datas de relevo e a merecer celebração, sem dúvida.
         Sobre cada um destes temas irei projetando as minhas ideias ao longo do ano, referindo hoje apenas o facto de a CPLP não ter merecido mais envolvimento por parte desta nova e inédita plataforma de governo, atribuindo por exemplo uma pasta às questões lusófonas – à semelhança do verificado com os assuntos europeus.
António Bondoso
Jornalista

Foto de Ant. Bondoso

2015-12-31


UMA CRÓNICA INCOMPLETA…

O início deste texto é certo, sem dúvida, mas o final não terei tempo de o escrever. Deixo o final à imaginação de cada um de vós – leitores dos meus textos, com agrado, enfado ou indiferença.
         O ano que está prestes a terminar pode sempre ser analisado sob as mais diversas perspetivas. E cada um de nós – humanos eternamente insatisfeitos – dirá que terá sido bom em determinados aspetos, menos mau em diversas circunstâncias ou mesmo mau/muito mau para muitas pessoas. Particularmente para os doentes, para os desempregados e para quem – contra a sua vontade – foi obrigado a partir em busca de uma existência digna.
         O meu teve de tudo isso um pouco. Apenas não consegui emigrar, o que teria sido do meu agrado e da minha conveniência.
         Talvez no próximo…apesar da esperança que nos foi inculcada após as eleições de 2015 e mesmo tendo em conta todas as contrariedades que se nos apresentaram.
         Sejamos honestos: nem tudo vai ser bom em 2016. Daí, as minhas naturais reticências…
António Bondoso

Jornalista




2015-12-30

HAVERÁ UM TEMPO JUSTO?...



TEMPO JUSTO.
Não sei se o tempo existe nem sei se terá tempo para isso. Uma dúvida existencial como tantas outras, uma questão filosófica talvez – ontológica certamente e quase a confundir-se com a metafísica. O tempo não é velho nem é novo – recordando o que há dias escrevi a propósito de uma ideia “abadesca” situando o paradoxo do Natal (como tempo de nascer) e da morte (igualmente tempo de nascer numa ou para outra dimensão). Neste ponto…é a Fé a sobrepor-se. Como que uma retórica de conforto em tempo de dor. Mas nestes tempos de crise – o que é realmente importante é o conforto de viver em dignidade! E essa...só será conseguida com um tempo novo.
Voltamos, portanto, à existência do tempo. E quem não se lembra daquela “ladainha” em que o tempo pergunta ao tempo quanto tempo o tempo tem…e o tempo responde ao tempo que o tempo que o tempo tem é tanto tempo…quanto tempo o tempo tem! A ser assim, penso não deixar de ser fundamental que esta asserção englobe toda e qualquer circunstância, toda e qualquer medida.  
Por isso, seja-me permitido esperar legitimamente que venha aí um tempo novo, um tempo de justiça e de felicidade. E desejar a todos que assim seja, com muita saúde para viver esse tempo – um intervalo entre a vida preenchida de altos e baixos…e essa ideia real que podemos situar entre o negro tétrico e o cinzento mais ou menos enigmático.
Pensando positivo, lá vamos a caminho do Novo Ano/Ano Novo...levados pelos ventos de uma liberdade conquistada e defendida com sacrifícios de vária ordem. E que agora clamam por mais felicidade e mais justiça.
Bom, feliz e digno 2016.
António Bondoso


António Bondoso
Jornalista