2016-05-25



LIVRO GOLUNGO ALTO. De JERÓNIMO PAMPLONA.
MEU TEXTO DE APRESENTAÇÃO – DIA 23 MAIO 2016 – PORTO, na UNICEPE.


Bom final de tarde...Uma boa noite a todos.
Estamos a 2 dias do Dia de África...o que – de certa forma – confere a esta sessão uma oportunidade particular. Para falar de África, claro!
***** Há um ano...perguntava eu no meu bogue ONDE FICA A ÁFRICA?

E dizia que, numa altura em que há como que um “toque a finados” nesta União Europeia cada vez mais em deriva, também não é sem apreensão que vemos ouvimos e lemos sobre ÁFRICA. As televisões encarregam-se de nos mostrar diariamente. E um dia destes, a 25, celebra-se aquele que pretende chamar a atenção para os inúmeros problemas – claro – mas igualmente colocar em destaque as potencialidades desse terceiro mais extenso continente e segundo mais populoso do mundo…e do qual fazem parte cinco países que têm como oficial a língua portuguesa:- Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique e S. Tomé e Príncipe.(...)

Há poucos meses, voltava a lembrar que, sobre ÁFRICA, não há contradição entre ESQUECER E LEMBRAR!
A verdade é que, pela história, seremos eternamente confrontados – quer dicotomicamente, quer pela dialética – com esta questão!
Esquecer…não é matar a memória. Pelo contrário…é preciso dar vida à memória, para que não sejamos assaltados pela melancolia pesarosa ou por uma nostalgia perniciosa. É preciso perceber e aceitar os outros, aceitar a verdade dos outros e os avatares da história.
De África, como vamos ver, não chegam apenas REFUGIADOS ou NOTÍCIAS MÁS, tal como não chegam apenas matérias-primas.
De África também vem parte da História – muito da nossa história – vem conhecimento e encantamento, encantamento que mata saudade... como acontece com
o livro que aqui nos traz hoje... ANGOLA NOUTROS TEMPOS – POR TERRAS DO GOLUNGO ALTO E DE AMBAQUISTAS.



Rapidamente...poderia remeter-vos para o PREFÁCIO (do antropólogo Paulo Fernandes) no qual se pode ler “estarmos perante um livro de reflexão histórica e cariz sócio antropológico. Sobre o relevo, as dimensões e a substância do devir da África nas suas particularidades e particularismos”.
OU ENTÃO PARA um texto do meu camarada Manuel Rodrigues Vaz – editor jornalista, escritor: Idealizado para ser uma simples evocação da vila angolana Golungo Alto e das suas gentes doutros tempos, este livro aparece enquadrado num projeto mais lato, que passou por uma retrospetiva da História Geral de Angola, numa síntese tão bem organizada como articulada”.
Ou poderia remeter-vos igualmente para o posfácio...no qual o próprio autor destaca e resume as seis partes da obra:
“Na primeira parte abordo a “chegada” dos portugueses a Angola.
Na segunda parte descrevo as personagens e o estatuto dos Ambaquistas e dos Assimilados.
Na terceira parte centro-me na vida económica e social do Golungo Alto em meados do século XX.
Na quarta parte, num estilo em que a paródia prevalece sobre a sátira, revisitando mais de 25 anos, conto 42 “estórias/piadas”, que ocorreram em diferentes lugares de convívio e que são aqui compiladas.
Na quinta parte narro seis contos, no estilo que poderá chamar-se
de “short stories”.
Na última parte percorro, num “rally paper imaginário”, as ruas do Golungo Alto visitando lugares que nos fazem recordar afetos e emoções vivenciadas”.
Perante isto, praticamente pouco me sobraria para dizer.
Contudo, e porque é de bom tom, tendo aceitado esta tarefa (PARA ALÉM DO PRESTÍGIO, DEVO JUSTIFICAR OS HONORÁRIOS) DEVO DIZER QUE é de toda a justiça... ACENTUAR que o livro está muito bem escrito, literariamente rico mas acessível... E ACADEMICAMENTE muito bem estruturado. UM ESTUDO muito completo, sem ter o caráter obrigatório de uma Tese. SIMULTANEAMENTE é um livro de memórias, de saudade – sem, contudo, transmitir nostalgia.
            Numa linguagem reveladora de uma SERENA FRONTALIDADE, estas páginas encaram a História como ela foi – sabendo nós como é fácil julgar a história aos olhos da realidade de hoje.
É, PORTANTO, uma obra em que os factos históricos enquadram e conferem substância a uma série de CRÓNICAS, de contos breves e de historietas – como diz o autor – escritos com alegria, HUMOR, paixão, romance com erotismo QB...: Como por exemplo no Conto 5 “AROMAS TROPICAIS”:
“Um pouco afastados de terra, nadaram lado a lado, mergulharam e boiaram. Quando voltaram à posição vertical a Lú postou-se frente ao Dani, muito próxima, fitou-o nos olhos, duma forma dengosa, e o desejado aconteceu: beijaram-se sofregamente - um beijo ardente e prolongado.”
Há também política, claro, a controvérsia da Guerra... e não falta o Futebol, numa série de historietas contadas ao jornalista Bergeron*, do jornal A Província de Angola:
*) Desde o início que o nome me faz lembrar o meu camarada Joaquim Berenguel, Radialista em Angola (Rádio Clube de Malanje) e que depois trabalhou aqui na RDP, em Lx, no Pto e finalmente em Bragança.
            Era através desse Rádio Clube de Malanje que o Grupo FINA FLOR DE GOLUNGO ALTO (gente solteira ou com a mulher aqui no “Puto”) se deliciava aos domingos a ouvir a rubrica dos DISCOS PEDIDOS ao longo da semana, enquanto degustavam uma valente churrascada e saboreavam umas CUCAS bem geladas.
Estamos a falar desta região do Golungo Alto e de Ambaca, Malanje, Samba Caju, Camabatela, Rio Lucala, Rio Cuanza...mas devo dizer que, histórias como estas, há-as mais ou menos parecidas em muitas outras regiões de Angola.
            A personagem do Freitas de Cacanga (Adulcínio Freitas)...pode ser recontada em dezenas/centenas de lugares – confirmando a imagem “empreendedora” daqueles que desbravaram o sertão angolano. É bom reter a agilidade com que o Freitas conseguiu motivar cidadãos e autoridades para a instalação de água canalizada, energia elétrica e de uma escola em CACANGA – ali a meia dúzia de Klms de Golungo Alto. (PGS 142-144).
            Para ali – para aquela região - foram no início da década de 1950 uns tios meus América e Acácio Bondoso (ele motorista de pesados) acompanhados dos filhos João e Fernando; também Palmira Bondoso e Honorato Cardoso (no início capataz numa plantação de cana de açúcar) mais 2 dos filhos mais velhos, o Toli e o João Luís – tendo ali nascido outros 3 - e estiveram em Camabatela, Samba Caju, Samba Lucala, Cacuso, sempre à espera que o café amadurecesse na Fazenda Ginga, acabando por ser Luanda o destino final da aventura angolana na passagem do ano de 1959 para 60.
E o João Luís (que hoje está na Austrália) ainda se recorda do nome da Professora Maria Paula, em Samba Caju, e da Igreja dos Capuchinhos, em Samba Lucala, onde havia sessões de cinema. E de uma viagem com o pai, atribulada, na picada até Makela do Zombo...sofrendo furos em excesso.A solução foi usar – depois de substituído um dos pneus – muito capim, muito capim, muito capim nos outros pneus para substituir as câmaras de ar furadas.

            É que a penetração no interior não foi nada fácil. A dificuldade da língua – OU DAS LÍNGUAS – e a escassez de colonos. Poucos, sem mulheres e sem escolas. E em LUANDA, por ex, em 1846 – já muito próximo da Célebre e Trágica Conferência de Berlim – em Luanda havia 5 mil habitantes e 100 tabernas, para 144 casas de 1º andar, 275 casas térreas e 1058 cubatas.
            Lê-se por aqui que nos séc. 17 e 18, sobretudo depois da expulsão dos Jesuítas, chegou mesmo a acontecer a KIMBUNDIZAÇÃO dos portugueses. E que já em 1620 tinha sido publicado um CATECISMO em Kimbundu.
            A INVERSÃO SÓ ACONTECE, e numa dimensão reduzida, já na segunda década do séc. 19, com a chegada de uma nova vaga de emigrantes da metrópole e também muito pelo esforço dos chamados AMBAQUISTAS.
É um dos capítulos mais interessantes desta obra:
Quem são/Quem foram os AMBAQUISTAS? COMO FORAM INFLUENCIADOS...E COMO EXERCERAM A SUA INFLUÊNCIA...?
Resumindo a investigação do autor...pode dizer-se que os AMBAQUISTAS constituíram uma elite luso-africana, independente dos SOBADOS e consolidada no séc.19, que teve uma origem muito heterogénea – com negros (mesmo antigos escravos), mestiços e alguns brancos. Nos seus antepassados europeus houve conquistadores, soldados, comerciantes e degredados. A sua ambição de saber ler e escrever levou-os a partilhar a influência dos dominadores coloniais – com o objetivo de a poderem depois exercer junto das sociedades tradicionais africanas, tanto a nível económico como político. Foram considerados os mais importantes intermediários na correspondência entre os chefes angolanos e as autoridades coloniais. Falavam, escreviam e ENSINAVAM o português, para além do seu próprio dialeto ou de uma língua franca africana – no seu caso, o KIMBUNDU.
No final desse séc.19, o número de “Ambaquistas” era calculado em 10 mil, muitos deles dispersos um pouco por todo o território, assumindo inter-relações culturais e sociais com todas as etnias do território.
O exemplo mais conhecido é o da colónia ambaquista na Mussumba, residência dos reis lunda (atualmente República Democrática do Congo). Foi aqui que o seu fundador e dirigente, Lourenço Bezerra Correia Pinto, um ambaquista oriundo do Golungo Alto, conhecido por Lufuma, deu aulas de língua portuguesa, leitura, escrita e aritmética básica, no período de 1865 a 1885. A colónia terá sido fundada em 1859, tendo desenvolvido uma intensa atividade artesanal e agrícola.
OS AMBAQUISTAS tiveram igualmente peso nas caravanas das rotas comerciais e até em expedições de investigação e conhecimento. Como por ex: essa ligação “costa a costa”, entre 1804 – 1814, com Pedro João Baptista e Anastácio José – 2 nativos luso-africanos, que foram ao serviço dos portugueses e foram identificados como tal. Ficará bem, por esta altura, relembrar um poema de Arnaldo Santos em “A Casa Velha das Margens”
O DESTERRO DO AMBAQUISTA
Escrevo de nenhures
De meu coração
Oiço as batidas.
É esse
O meu único chão
O pó
Em que existo
E onde preces e sonhos
Tenho erguidas.
É esta
A Ambaca antiga
Que carrego em mim
Em palavras
E vidas
Com que os espíritos Lhe reclamam.
É este
O meu solo Materno pátrio
No qual busco a cidade
E me consolo.
Os Ambaquistas faziam questão de assumir e de realçar o seu “estatuto especial”... trazendo-me à memória o caso de Macau. A importância decisiva que tiveram os MACAENSES na relação entre a Administração portuguesa e a comunidade chinesa. Exatamente porque falavam as duas línguas – no caso, o português e o Cantonense.
E não querendo abusar da vossa atenção e da vossa paciência, para além das notas históricas sobre a Colonização, o Choque de Culturas, e a Escravatura... PARA ALÉM DOS ASPETOS MUITO PARTICULARES DA CONSCIÊNCIA CÍVICA E POLÍTICA DOS PORTUGUESES DE ANGOLA – sobretudo no Sul, com a FUA, em Benguela, em 1961, fortemente reprimida – mas já antes em Luanda, em 1948, com o aparecimento do MOVIMENTO DOS NOVOS INTELECTUAIS DE ANGOLA, com jovens negros, mestiços e brancos... há esse relato delicioso sobre a rainha Njinga também conhecida como DONA ANA DE SOUSA ( depois de batizada em Luanda já com 40 anos de idade, ela que terá nascido em 1582...), tendo sido nomeada ainda como MUENE NZINGA MBANDI.
Considerada como pioneira do sentimento nacionalista angolano... OS PRIMEIROS REGISTOS sobre NZINGA/NJINGA datam de 1621 – altura em que terá sido enviada a Luanda pelo seu Chefe e Irmão para negociar a Paz com os portugueses.
            Terá conseguido renegociar o número de escravos a transacionar, mas não foi bem sucedida no seu objetivo de obrigar ao desmantelamento do Presídio de Ambaca – uma fortificação fundamental para o avanço colonial no território. Entre 1641 e 48 foi aliada dos holandeses para guerrear os portugueses, mas só viria a capitular em 1656, tendo falecido em 1663, já com 81 anos de idade.
            Há traços reveladores da personalidade da rainha Njinga, neste relato do livro de Jerónimo Pamplona, relacionado com aquela missão diplomática de 1621: (PAG.44)
O episódio teve lugar na visita que fez ao Palácio do Governador vestida, como era seu hábito, com uma bela capa escarlate sobre os ombros e um finíssimo pano de musselina elegantemente preso à cintura por uma cinta de camurça, cravejada de diamantes e outras pedras raras. O governador recebeu-a sentado num cadeirão alto, quase um trono, tendo reservado para a Njinga uma almofada, debruada a ouro, sobre um sedoso tapete.
A Rainha  Njinga deu ordens a uma das suas escravas para que se ajoelhasse e sentou-se sobre o dorso da servidora. Aquele gesto marcou o tom do encontro. No final da visita o governador estranhou que a embaixadora não chamasse a escrava que se mantinha imóvel sobre a almofada. A Rainha riu-se. Deixaria a escrava, retorquiu. Não tinha por hábito usar o mesmo assento mais do que uma vez.
Quanto à origem do nome de Golungo Alto, a história é mais ou menos idêntica tanto neste Livro de Jerónimo Pamplona como no Dicionário Antonito: COROGRÁFICO-COMERCIAL DE ANGOLA de 1959 – 4ª edição: há na região um antílope (muito semelhante à Seixa e ao veado) de seu nome africano : - NGULUNGO (porco raro, especial).  O termos ALTO – vem das montanhas da zona.
Terá passado a prato típico da região, depois de se ter verificado uma peste suína muito gravosa.
O GOLUNGO ALTO é terra de gente ilustre na história de Angola, onde nasceram gradas personalidades angolanas como o famoso Cónego Manuel das Neves, que foi um dos principais impulsionadores da luta de libertação nacional, os dirigentes políticos Mário Pinto de Andrade e o seu irmão Joaquim Pinto de Andrade e à qual estiveram sempre ligados figuras como o poeta António Jacinto, o dirigente político Lopo do Nascimento, o escultor José Rodrigues bem como os seus irmãos António Jacinto Rodrigues, notável arquiteto paisagista, e Irene Guerra Marques, grande figura da cultura angolana.
E na hora de fechar, lugar ao poema RECORDANDO, de António Jacinto, precisamente dedicado ao GOLUNGO ALTO:
RECORDANDO
Oh! Meu Golungo em que a floresta assume
Graças infinitas; doce perfume
Que o Zenza lendário vem beijando
Recordando fatal amor tão nefando!
Zenza caprichoso, me vens contando,
Quando sereno te estava fitando,
Uma história de louco ciúme,
Numa noite de vibrante ciúme.
Em que Ela, embalada, terna e amante
Em meus braços, chorosa e anelante
Me jurava amor eterno. Tão querida!
Este poema está acompanhado de umas breves notas explicativas da Poetisa angolana Ana Paula Tavares: No verso 1: Floresta, alusão à Reserva Florestal de Golungo Alto. Versos 3 e 5: Zenza, alusão ao rio que banha a região de Golungo Alto. Verso 9: Ela, alusão à terra Golungo Alto.
António Bondoso
Porto, 23 de Maio de 2016.


António Bondoso
Jornalista

2016-05-01

NESTE DIA:
QUE BOM QUE É FALAR DA MÃE.


Falar da mãe é perceber uma recordação doce de um sorriso contagiante. É a memória que guardo antes de qualquer dor, é a lembrança que retenho antes do sofrimento da partida. Falar da mãe é um sussurrar baixinho antes do rompante do pai – quando os deveres se afastavam de mim e eu deles, provocando o caos no que se dizia correto. A mãe sempre se interpôs entre um direito de circunstância e um dever natural. A mãe que protegia, a mãe que aconselhava, a mãe preocupada...sempre! Muito para além dos sentidos, desejos e previsões. A mãe do carinho, a mãe da advertência, a mãe do chinelo em riste para corrigir o mal feito, a mãe que assumia as dores de um filho a crescer, a mãe do amor, a mãe da amizade, a mãe mulher completa no calendário dos dias, dos meses e dos anos que foram passando a correr...e se finaram tão cedo. Falar da mãe é ter presente a falta. Falar da mãe é entender um tempo outro, em que a ordem pouco sentido fazia. A mãe e a horta, a mãe e a cozinha traduzida num arroz-doce único, a mãe e a camisa branca de domingo, a mãe e os sapatos a brilhar antes de um mergulho na piscina velha, a mãe que percebia a fuga ao cantarolar da tabuada, a mãe que tolerava a ausência de uma missa no calor asfixiante do domingo. Falar da mãe é saber que uma carta de palavras poucas valia a fortuna de uma nota de cem escudos a caminho do sul de Angola, onde o crescimento natural se completava no serviço militar obrigatório preparado a preceito e sem preconceitos. Foi uma mãe à qual devo palavras de louvor, que não soube e não pude transmitir no tempo certo. É uma mãe especial pela bondade da criação nessa ilha longe no meio do oceano do mundo. Não digo que tivesse sido a melhor mãe do mundo. Foi apenas mãe – a minha. E que eu amei e respeito em memória! E que hoje se completa com a mãe do meu filho – igualmente amada e respeitada em vida! Tal como recordo saudoso a sua mãe - uma outra que tive a sorte de ter, embora também por tempo curto. 


E NESTE DIA, AINDA...
SER MÃE…É IR ALÉM:
Às vezes é tudo tão óbvio, quantas delas as ideias parecem repetir-se, em muitas ocasiões pensamos que já não temos palavras, em circunstâncias diversas o discurso apresenta-se fosco, por muito que o sentimento nos comprima o peito – nem sempre conseguimos ter voz para exteriorizar o bater do coração.
Pode acontecer até que o cruzar do imperfeito leve amiúde a situações de conflito. Sentimentos de posse e de libertação, de proteção por excesso e de afirmação da independência – quantas vezes não colidem. Mas é apenas um momento mais ou menos prolongado. Tarde ou cedo há um gesto de carinho a selar o «normal funcionamento» da relação.
Por isso é que eu digo que – ser mãe…é ir além! De tanta coisa! De tanto como ser filho! Aceitando, percebendo, compreendendo, perdoando, amando com humildade. É único! E por isso é um desafio…

Grato à Carminda Carmim por ter selecionado este poema sobre o Dia da Mãe, para mostrar na Santa Casa da Misericórdia da Trofa. 

António Bondoso
Jornalista


2016-04-26

O IMPORTANTE É CONTINUAR A REVOLUÇÃO HOJE:
Um abril todos os dias...
...Um 25 sempre! Também em Moimenta da Beira. 

Foto de Ant. Bondoso

         Quarenta e dois anos depois de 1974, é gratificante perceber que ainda há imaginação para não repetir ideias. Sendo certo que em 2016 há dois aspetos motivadores – os 40 anos da Constituição da República Portuguesa e os 40 anos do Poder Local Democrático – em Moimenta da Beira não faltaram vozes para chamar a atenção para graves problemas que o país e o mundo vão enfrentando nos dias que correm.
         A liberdade foi um tema recorrente, claro – não sendo embora um dado adquirido – destacando-se a liberdade de expressão, assunto apropriado para o tributo que o município decidiu prestar aos escritores do concelho, na casa que leva o nome do grande Afonso Ribeiro na sua terra natal, a Vila da Rua.

Foto de Ant. Bondoso

Tudo começou no salão nobre da Câmara Municipal onde Alcides Sarmento, presidente da Assembleia Municipal, deu o mote, seguindo-se representantes da CDU e do PSD a destacar a CRP, o 1º de Maio que aí vem, a coragem, a esperança e o interior assimétrico. Celebrar Abril, foi dito, é fazer o que ainda não foi feito. E a sessão terminou com o Presidente da autarquia, José Eduardo Ferreira, a salientar o significado de poder contar com todos os “escritores” – mesmo com os que não podem deslocar-se com frequência. Tivemos ontem e continuamos a ter hoje escritores notáveis – disse. E depois de passar pelos princípios e pelos valores democráticos que enformam a CRP, José Eduardo pormenorizou três grandes problemas que afetam o nosso presente – introduzindo a ideia de que ninguém vive só e que o isolacionismo não dá frutos, apenas conduz a maus resultados. Em primeiro lugar a questão da “crise das migrações”, não sendo possível que a “Europa” continue calada. É preciso voltar aos velhos valores da Europa – destacou – para ultrapassar o “radicalismo” que se instalou, baseado na falta de respostas das Sociedades organizadas. Por último, um grito de alerta para os constrangimentos que afetam os regimes democráticos, como é o caso do problema da natalidade que é fundamental solucionar a curto prazo, a fim de que não atinja o sinal de tragédia em 2050. 

Foto de Ant. Bondoso


Depois do almoço, simpática e profissionalmente servido na sala maior da Associação Cultural e Recreativa da Vila da Rua, o espaço-museu de Afonso Ribeiro recebeu populares, políticos, jornalistas e escritores para cumprir a programada e anunciada tertúlia. Dos atuais aos muito justamente apelidados de “nossos maiores”, falou-se naturalmente de Afonso Ribeiro, na presença de sua filha Lígia. Rodrigues Vaz recordou um percurso notável do neo realista que em 1938 publicou Ilusão na Morte – uma “obra de arte” na opinião de João Pedro de Andrade, na revista Sol Nascente, uma das muitas em que Afonso Ribeiro colaborou. Igualmente um percurso de combate em África – Moçambique – para onde o autor emigrou nos anos de 1950 e onde viria a conviver de perto com António de Almeida Santos, tendo ali editado a revista Itinerário.
Afonso Ribeiro dizia que a Literatura era um instrumento de atuação social, lembrando por exemplo que
Falar do homem do campo, do trabalhador da terra e 
esquecer as suas angústias inconfessadas, seus músculos doridos, seu olhar triste da tristeza horrível que nada aguarda, nada! - parece-me feio embuste.

Foto de Ant. Bondoso
António Bondoso
Jornalista
Abril de 2016



2016-04-19

Oi.
Já se vota o Impedimento no Senado?
Ou de como se manipula o "impedimento" de um Presidente e se golpeia a democracia.

Foto de Ant. Bondoso

IMPEDIMENTO (de um Presidente)!

Por Deus e pela Família bem mais próxima
É assim que começa a votação:

São filhos e netos
E mais bisnetos tão saudáveis
Que chegaram de pais cobertos de valores
Impolutos princípios de uma ética intocável
E de uma sólida
Inatacável moral.

Também pela Pátria imortal
Se fazem juramentos
Julgamentos
De tantos vizinhos que não sabem
Cuidar de uma nação em desespero
Ou tratar de ulcerados sem cabelo.

Vós...impuros cidadãos
Que vermelho pensais em amarelo testamento
Que fostes torturados
Em busca da liberdade
Nada podeis fazer para alterar
Cruel caminho de verde amortalhado.

Só nós...
Do Senhor poderosos instrumentos
Iluminados sacerdotes da política
Poderemos renovar os mandamentos
De tanta riqueza que perdemos
E agora a tanto ódio agradecemos.

Venha a nós toda a riqueza da nação
Que o reino dos pobres não passa de utopia.

Com cunhas dos donos disto tudo
E com toda a influência que já temos
Certamente não será pura ilusão
Reverter democracia golpeada
E com sangue até impor a ditadura
Por nós desde sempre tão sonhada!
==== António Bondoso
Abril de 2016.




2016-04-17



DO TEMPO E DO MODO...

Foto de Ant. Bondoso


O CINZENTO QUE ABORRECE…

O cinzento que aborrece
Cria angústia e não motiva
Faz pensar um tempo bárbaro
Que tortura
E permanece
Afastando o sol do mar
E a noite do seu luar.

É um tempo sem alegria
Arrasa minutos e gente
Dúvidas de um tempo cinza
Que nos rouba a felicidade
De sermos por um instante
Livres
Utopia duradoura e permanente.

Acontece
Ou pelo menos parece
Que nem sempre se merece.

===== António Bondoso (A PUBLICAR)

2016-04-14

EPISÓDIOS DA VIDA...E DA MORTE!

José Bondoso e a mulher Isabel

JOSÉ BONDOSO
Assim, tal e qual, só um nome e o apelido – era preciso poupar no registo – tal como os irmãos, todos filhos de Maria José Andrade e de António de Almeida Bondoso, à exceção do mais novo que viria a ter direito ao sobrenome da mãe.
José Bondoso, que ia a caminho do 95º aniversário e foi um aficionado da caça e do “tiro aos pratos”, cedo rumou ao calor africano chegando a S. Tomé em 1949. De noite, como me recordou há uns anos, e com carta de chamada de sua irmã Palmira e cunhado Honorato Cardoso, que viviam e trabalhavam na Trindade. Ali perto ficava a Roça Monte Café, seu destino inicial. Contudo, acabaria por ficar na cidade capital da Ilha a exercer o seu ofício de barbeiro numa casa que mais tarde arrendaria por mil escudos mensais ao proprietário Mota.
Na sua qualidade de barbeiro, dizia-me, ia ao palácio para cortar o cabelo ao governador Gorgulho*. E só o cabelo, pois a barba fazia-a o próprio. José Bondoso tratou da imagem igualmente ao governador Abrantes do Amaral e algumas vezes conversou com o Dr. Palma Carlos, quando este lá esteve a investigar os acontecimentos relacionados com o “massacre do Batepá” em 1953.
José Bondoso exerceu a sua profissão em S. Tomé até regressar a Portugal em 1974 na sequência do processo de descolonização. A caça nunca deixou de ser uma paixão, chegando ao ponto de – na conversa – se esquecer de mexer o açúcar na chávena do café. E havia também o charuto, indispensável.
Sportinguista fiel, José Bondoso ainda praticou futebol nas Ilhas do Meio do Mundo, uma tendência que já levava de Moimenta da Beira. Aqui, a sua fidelidade ao clube de Lisboa era tal...que se recusava a vestir a camisola azul de riscas brancas do CDR. Jogava sempre com uma camisola diferente.
No seu regresso a Portugal, o meu tio envolveu-se com idêntica paixão nos meandros políticos, chegando a desempenhar alguns cargos no âmbito municipal.
Aos filhos e netos que deixa, tal como genro e noras, o meu particular abraço.
* (Do livro ESCRAVOS DO PARAÍSO, 2005. António Bondoso e MinervaCoimbra). 

Foto do CDR
José Bondoso - o 2º, de pé, a contar da esquerda 
António Bondoso
14 de Abril de 2016

2016-04-09

UM SIGNIFICADO DAS BODAS DE OURO...

Foto de A. Bondoso


50 ANOS DE UM TEMPO COMUM – UM MARCO DE MUITO MÉRITO DE UMA MULHER E DE UM MARIDO A MANTER COM MESTRIA UM MATRIMÓNIO MELÓDICO.

Eu acompanhei os seus 50 anos de casada. A minha irmã Luísa conhece-me há 66 anos – tantos quantos eu tenho de vida. Toda esta caminhada de uma relação feliz com o meu cunhado Fernando também a procurei olhar de perto, tanto quanto nos foi permitido pelas estradas que cada um de nós foi escolhendo neste meio século.
Neste dia, escrevo para dizer que lamento não ter conseguido estar mais presente nas suas vidas – reconhecendo embora que procurei apreciar os momentos mais importantes. Pedindo desculpa pelas falhas eventuais, destaco um gesto de muito carinho para a Luísa e expresso um abraço de corpo inteiro para o Fernando – um exemplo de cunhado.
Que os dias prossigam sendo felizes.
9 de Abril de 2016

António Bondoso 

2016-04-05


SERÁ QUE HÁ UM "DIA DO FILHO"...OU É TODOS OS DIAS?

Foto de António Bondoso


A PROPÓSITO DO QUE DIZEM SER O DIA DO FILHO:
Tenho para mim, partindo de uma análise muito simplista, que a relação entre pais e filhos é sempre muito complexa.
E procurando evitar grandes tiradas filosóficas...direi simplesmente que os filhos não devem servir como montra dos pais, mais ou menos perfeita ou de alguma forma defeituosa, um espelho de elogios permanentes ou de críticas mais intensas. Os filhos não devem ser um prolongamento obrigatório dos pais. Os filhos, para os progenitores, devem ser sobretudo um foco de amor, de carinho e de amizade, sem obrigação de retorno. Afetos e emoções elevadas a um nível precioso, mesmo em tempo de crise e de conflito – seja a situação do tipo geracional, seja a oportunidade um produto de filosofia ou de ideologia.
Diálogo e compreensão devem marcar a relação, sempre aberta e leal, sobretudo partindo do princípio de que a preocupação ou o interesse pela situação de uns e dos outros não deve rondar eventuais exageros. Cada uma das vidas deve seguir o seu curso natural – o que não significa abandono, esquecimento ou intromissão. Cada um dos dias de cada ano de vida. 
António Bondoso
Abril de 2016

2016-03-21


A PROPÓSITO DO DIA DA POESIA: 

***** É um ofício difícil - dizia Manuel António Pina sobre a Poesia.
Por sua vez a Cristina Carvalho diz que "É uma arte. E como toda a arte tem uma linguagem que permite tudo, sempre."
Já Sophia escreve que ""A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser." E a catedrática Silvina Rodrigues Lopes afirma que "Falar de poesia é afirmar, postulando-o imanente ao viver humano, um exercício da linguagem que excede o seu uso instrumental."
=== É portanto, fácil, perceber que o assunto é mesmo muito difícil. Apesar disso, nada me inibe de vos deixar aqui um eventual PENSAMENTO POÉTICO:
"Mergulhei na escuridão!
Mas tenho todas as luzes de todos os faróis do mundo
Para me guiarem
Pela tua costa rochosa.
=== A. Bondoso (A Publicar).
Tudo isto, antes de partir para as ilhas do meio do mundo, onde vou ver nascer o sol:
NASCER DO SOL EM S. TOMÉ (A Publicar)
Ali vi um dia o sol nascer
Manhã desperta
Fixando o horizonte a transformar-se.
Ansiosa contagem a passar cada segundo
Eram cinco e trinta e dois
De um agosto já perdido
O astro poderoso a crescer no Equador
E o olhar a acompanhar
A luz mais forte deste mundo
A aquecer e a queimar
O tempo de um novo dia
Que o coração…sem querer
Já esquecer não podia.
E em frente estava o mar
Que refletia o poder
Desse sol que depois
Alimentava a flora
Aspirava as gotas húmidas
E sem molhar a história
Trovejava mil pecados
Em tantos verdes pintados
Que a alma…sem eu querer
Perdão pedia por ser.

O mar e o sol a acompanhar
O transpirar das ideias
Tórrido calor de vida
De gente de muitas cores
Que partiu e que chegou
E quase sempre voltou
Mas valendo o pensamento
Quase nunca me acompanhou.

Porque são coisas diferentes
Estar e ser…mais ainda pertencer!

=== António Bondoso (A Publicar)
Maio de 2015. 

Foto de A. Bondoso. 

2016-03-20


ATÉ OS MORTOS FALAM NA RÁDIO

É assim. Fatal como o destino. De vez em quando aqui tenho que voltar para atualizar as notícias de amigos e camaradas que partem.
Hoje, para comunicar que faleceu em Guimarães o camarada Armando Leston Martins – homem da Cultura e da Informação, tendo trabalhado em jornais em Angola no tempo colonial, em Luanda e creio que também em Benguela, para além de fundador da Revista Mensagem e de colaborador na 2ª série da Revista Cultura. Amigo de Agostinho Neto, de Mário de Andrade e de Viriato da Cruz, engajados na luta anti-colonial, Leston Martins viu o regime fixar-lhe residência em Lisboa [tal como aconteceria com outro seu amigo, D. Alexandre Nascimento, hoje Cardeal e Arcebispo emérito de Luanda], onde acabaria mais tarde por integrar os quadros do Rádio Clube Português, depois na RDP – ainda em Lisboa – e mais tarde no Porto, na área dos Programas, onde eu o conheci. Tudo isto pode ser confirmado nas imagens que acompanham este texto.
Leston Martins deixa este mundo aos 86 anos, depois de ter visto partir dois dos três filhos do seu primeiro casamento e vencido por uma lenta doença degenerativa cerebral que não o impediu de – até há uns meses – teimar em fazer palavras cruzadas.
O corpo poderá ser velado a partir de amanhã na capela mortuária da Igreja do Campo da Feira, em Guimarães, realizando-se o funeral na terça-feira. À atual mulher e mãe do seu filho mais novo, tal como ao Pedro Leston e a todos os familiares e amigos, deixo o meu abraço solidário.
Até sempre Leston Martins.  

Do Livro ESCRAVOS DO PARAÍSO, 2005.

Entretanto, do Leonel Cosme aqui referido, acabei de receber umas notas do  que ainda se recorda de Leston Martins, como segue: 
"- Foi. nos anos 1951-52 um dos promotores do Movimento dos Novos
Intelectuais de Angola e colaborador activo da histórica revista
MENSAGEM, tendo publicado logo no primeiro número (só houve mais um segundo) o poema "Canto de amor e esperança." Num concurso literário da mesma data promovido pela ANANGOLA, obteve o 2º prémio de Conto.
- Naquela mesma época colaborou em programas culturais de Luanda, Benguela e Moçâmedes(donde era natural), aqui ao lado de Sebastião Coelho, director de produção.
Pode ser considerado um activista cultural pró-angolanidade, enquanto integrado num grupo que, alguns anos depois,(com ele já em Portugal) passaria pelo Tarrafal.
Não me lembro se ainda passou pelo Apostolado e R.C.Português. Quando contactei com ele já estava na RDP". 


António Bondoso
Jornalista


UM BRASIL...BRASILEIRO.
Agora, sobretudo, que todo o mundo bota faladura sobre um país em crise.

Foto de António Bondoso

UM BRASIL…BRASILEIRO!

Do outro lado de Angola
O que vemos é Brasil.

Uma imensidão de tamanho
De gente…que multidão!
Nem todos filhos da terra
Onde reina Iemanjá
Um leito de grandes rios
Que alimentam o Amazonas.

É terra de acolhimento
Desejada, conquistada
Violentada de séculos.
E isso mereceu de Vieira duras críticas
Sermões inéditos
Antes da liberdade de Pedro
E da força das palavras
Que nos deixaram Bandeira
Drummond, Machado de Assis
Jorge Amado ou Sarney.

Do outro lado de Angola
O que vemos é Brasil.


De um destino de escravatura
A potência dita emergente
Quem lá vive é o que sente
A crise do crescimento
De um complexo mosaico.

Virando da história outra página
De Tiradentes a Lula
Passando por Xico Mendes
Repousam nos meus sentidos
As mais belas notas de Vinícius
E a suprema voz de Bethânia.
Em AROMAS DE LIBERDADE(S), 2015, Pgs 85-86
====== António Bondoso
Jornalista


2016-03-19

SIMBOLISMO QUASE PERFEITO

Foto de António Bondoso



SIMBOLISMO QUASE PERFEITO…
(A PUBLICAR)

É um simbolismo que marca
Se os afetos são seguros.

Nada se exige
Mas tudo se dá
Numa relação tecida
Em cumplicidade assumida.

Um dia de tantos dias
Anúncio de calendário
Vale a imagem de sempre
Aquela que nos alcança
A mesma que nos atinge
No peito de um amor feito.

Meu pai, meu filho,
Sem ser dia da razão
De um absoluto viver,
Quase dizem que é banal
A alegria de um sinal
E o calor de uma paixão.

Mas será sempre um simbolismo
De presença e de querer.
=== António Bondoso (A PUBLICAR)

Março de 2016.

2016-03-17

 E SE O PODER CAIR NA RUA? 
Não tenhamos medo de colocar a questão.

Foto de António Bondoso

Anda muita poeira no ar, sobretudo para os lados do Brasil.
Ficámos a saber já que a "Justiça" caiu na rua, quando o próprio investigador de Lula - o Procurador Moro - divulgou gravações que ele mesmo considera não serem conclusivas. E não se sabe até se serão lícitas! A "justiça", portanto, caiu na rua divulgada em altifalantes de viaturas próprias de campanha. 
E SE O PODER igualmente vier a cair na rua...não tenhamos ilusões - a solução é uma nova ditadura militar!
Não tenhamos medo de refletir sobre isto. A oposição quer conquistar nas ruas o que perdeu nas urnas...mas pode sair-lhe o tiro pela culatra. Lá teremos a Democracia aprisionada. De novo.
E lembremo-nos de que, quando uma borboleta bate as asas na Amazónia, a terra treme no outro lado do mundo.
António Bondoso
Jornalista