2017-03-23


ÁGUA – UM DIREITO FUNDAMENTAL
                   A propósito do dia de hoje – Dia Mundial da Água – é bom entender que o importante não é apenas celebrar mais um dia. Inquestionável como direito humano fundamental – o acesso a água potável é, contudo, muitíssimo limitado em muitas regiões do planeta. Há muito mais água do que terra firme, mas apenas 3% dessa água é, em princípio, doce e potável.



                   A desertificação de muitas regiões – também ou sobretudo por via do aquecimento global – tem vindo a gerar inúmeros problemas sociais e pode inclusive gerar conflitos insanáveis se a questão não for encarada com seriedade prioritária a nível mundial.
                   Só para uma ideia muito genérica, sabemos que há pelo menos 10 países em risco extremo, mais de metade dos quais no Médio Oriente: Bahrein, Qatar, Kuwait, Emirados Árabes, Arábia Saudita e Omã. Depois aparecem em vários índices a Líbia, o Egito, Iémen e Djibouti. Este país não tem rios perenes e só lá chove 150mm/ano. No Kuwait não existe água doce. A salvação do Egito é o Nilo, mas o rio é cada vez mais disputado por países como o Ruanda, Uganda, Etiópia e Tanzânia. O Iémen, que é um dos países com maior taxa de crescimento populacional, poderá ver secar os seus poços num prazo de 10 anos. Dessalinizar ou importar é a solução, mas os países mais pobres não o poderão fazer. E os mais ricos em petróleo é certo que gastam mais em armamento. O que não iliba a Arábia Saudita de responsabilidades acrescidas, sabendo que as guerras no Golfo têm originado graves problemas, para além da poluição química na agricultura.
                   Em Portugal, mais de 44 mil cidadãos levaram os problemas da água à Assembleia da República, em 2014, mas o Projeto de Lei 368/XII foi rejeitado pela então maioria PSD/CDS. Havia sobretudo a intenção de não ver a água transformar-se num negócio privado, designando-se o diploma como “Proteção dos direitos individuais e comuns à água”. Em 2015 houve novas iniciativas de sensibilização, mas até agora o problema não voltou a ser discutido no Plenário, pelo menos de uma forma concreta e com consequências práticas.
                   Voltando ao início, apenas 3% da água do planeta é doce. A restante habita nos oceanos e é salgada. Como vimos igualmente, a escassez tem gerado problemas complexos e poderá vir a potenciar conflitos insanáveis. Depois dos combustíveis fósseis, a falta de água doce poderá vir a tornar-se o foco de novas guerras.
                   Em 2008, elaborei e apresentei um trabalho académico sobre a questão da água, conduzindo o estudo para uma região do globo tão mágica quanto vital para a sobrevivência humana. Talvez não seja por acaso que os cientistas buscam incansavelmente água em outros planetas. Tive em conta que o chamado continente gelado é conhecido como a “última fronteira” na exploração de recursos, mas titulei, então, o meu trabalho como ANTÁRTIDA – O ÚLTIMO REFÚGIO. Numa situação de tragédia global, não poderá ser mesmo o último recurso da humanidade?
                   Fica o convite à leitura…


ANTÁRTIDA – O ÚLTIMO REFÚGIO

António Augusto Bondoso

PORTO
2008

NOTA: quando este trabalho foi elaborado e apresentado, Portugal ainda não havia ratificado o Tratado da Antártida – o que só viria a acontecer em 9 de Novembro de 2009. O instrumento de ratificação foi depositado em 29 de Janeiro de 2010.
Como se verá, o Tratado foi assinado em 1 de Dezembro de 1959 e entrou em vigor em 23 de Junho de 1961. 
                                                                          ÍNDICE
INTRODUÇÃO ………………………………………………………………..  

CAPÍTULO I – Breve História e Reconhecida Importância Política e Científica.

CAPÍTULO II – Breve Enquadramento Geopolítico ………………………….. 

CAPÍTULO III – Portugal, a Antártida e a Ecopolítica ………………………  

CONCLUSÃO  ………………………………………………………………... 

BIBLIOGRAFIA ……………………………………………………………… 
INTRODUÇÃO

                   Tendo em conta que o “aquecimento global” é um tema que vem ganhando enorme relevância de há uns anos a esta parte – sobretudo pelas ligações colaterais que influenciam a política e a economia mundiais (não será um acaso da História a recente atribuição do Nobel da Paz a Instituições e a Figuras das áreas da Ecopolítica e da Investigação ambiental) – o Continente Gelado tem sido apresentado como a “última fronteira” da exploração de recursos decisivos para a sobrevivência do nosso planeta, mesmo sabendo que as “reservas” são diminutas.
                   Quer seja pelas difíceis condições de vida, quer seja pelo ótimo campo de investigação científica – a Antártida tem conseguido ser protegida das ambições e agressões humanas, graças a um entendimento internacional consubstanciado num Tratado (datado de 1959) que define o Continente como uma zona a ser utilizada unicamente para fins pacíficos. No Atlas de Relações Internacionais, dirigido por Pascal Boniface, diz-se que a Antártida “fornece, portanto, o modelo perfeito das relações internacionais pacíficas”. Contudo, recentemente, a Grã-Bretanha reclamou, na ONU, direitos de soberania para extração de reservas de gás, minerais e petróleo – atitude de imediato contestada pelo Chile e Argentina.
                   Independentemente do desenvolvimento deste problema, o trabalho vai tentar responder a uma simples questão de partida: - será a Antártida, para além da já referenciada “última fronteira”, também o “último refúgio” da humanidade?
                   Com esse objetivo, estabelecemos três capítulos, para analisar a história do continente e a sua importância política e científica- consubstanciada no Tratado de Washington de 1959; fazer o enquadramento geopolítico da região numa perspetiva da Ecopolítica – uma das fases da arquitetura da nova geopolítica que salienta a globalidade dos direitos humanos e, por último, uma breve referência ao pensamento português sobre a Antártida – destacando as ideias de Soromenho Marques, para quem a ecopolítica ultrapassa uma simples política de ambiente.
                   Um tema complexo que obrigou a um aturado trabalho de pesquisa e que exigiu muita disponibilidade.
CAPÍTULO I

BREVE HISTÓRIA E RECONHECIDA IMPORTÂNCIA
POLÍTICA E CIENTÍFICA

A poluição do ar e da água tende a espalhar-se indiferente a fronteiras políticas. Por exemplo, o ar contaminado pela explosão nuclear de Chernobyl deslocou-se para ocidente na direção da Suécia, França, Itália e Suíça. Uma camada de ozono cada vez mais esgotada sobre o Antártico, torna todas as pessoas vulneráveis à radiação ultravioleta que provoca o cancro.   
                              Louis Pojman – Filósofo político.

A Antártida – o último continente a ser descoberto – tem uma área de 14 milhões de Km2 e representa 10% da superfície dos continentes emersos. Outrora submetido a um clima tropical, o continente está hoje praticamente coberto por uma enorme calote glaciária, cuja espessura pode atingir 4700m, e possui 90% das reservas de água doce do nosso planeta. E tendo em consideração os jazigos de ferro, cobre, carvão, níquel, crómio, cobalto, titânio, urânio, zinco, ouro, prata, platina e petróleo – é apontado como muito promissor o potencial mineiro da Antártida.
                    Um ambiente de temperaturas negativas que podem atingir os 90º não é propício a formas de vida superior, mas existem grandes quantidades de baleias, cachalotes, orcas, focas, pinguins e aves marinhas – graças a uma rica ictiofauna e grande abundância de plâncton. Contudo, a “presença” humana na Antártida fez-se notar a partir de meados do séc. XVIII, com as expedições de Lozier Bouvet e de James Cook, sendo que, hoje, as mais de 40 bases “científicas” empregam cerca de quatro mil pessoas no Verão e apenas mil no longo e escuro Inverno. Além disso, considera-se haver também já um turismo polar – representado por cerca de 40 mil visitantes – o que não deixa de ser uma preocupação ambiental, a par da “Rodovia do Gelo” (1632 Km para ligar duas estações americanas), o aeroporto de gelo australiano com 4 Km e uma base inglesa com habitações permanentes. A Inglaterra foi, de facto, o primeiro país a reivindicar o “gelo” antártico (após a IIª GM), seguindo-se a Nova Zelândia, França, Austrália e Noruega. Chile e Argentina, pela proximidade, dão como adquiridos e indiscutíveis os seus direitos, enquanto os EUA nunca reclamaram – nem reconheceram – qualquer parcela do continente, eventualmente querendo sugerir que não existe propriedade nacional na Antártida. Curiosamente, o nome da ex-URSS só aparece por ocasião do Tratado de 1959 (Washington), sendo um dos 12 primeiros assinantes. A partir da entrada em vigor do Tratado – 1961 – foi proibida toda a atividade militar e ficaram congeladas todas as reivindicações territoriais por 30 anos. Reconhecida a importância da situação, o Tratado foi renovado em 1991, pelo Protocolo de Madrid, por mais 50 anos. Considerado como exemplo de uma vontade de cooperação pacífica entre as nações do mundo, ao designar o continente como reserva natural consagrada à paz e à ciência – o Tratado desde cedo começou a ser violado: em 1962 registou-se um acidente com um reator nuclear dos EUA; em 1983, a construção de uma pista de aterragem francesa destruiu uma grande colónia de pinguins e, em 1989, aconteceu um grande derramamento de crude, provocado pelo choque de um petroleiro argentino e outro peruano. E agora, a GB reclama a possibilidade de extração de reservas de gás, minerais e petróleo, num raio de 350 milhas náuticas em frente ao território antártico chileno. Uma clara violação do Tratado, que o deputado chileno Jorge Tarud classificou de grave, apelando à sua Presidente no sentido de convocar os membros do Tratado Antártico.
                    Pelo Tratado, o interesse científico da região sobrepõe-se aos económicos, territoriais ou militares. O Antártico é um observatório privilegiado para o estudo do ambiente, medicina, biologia, zoologia e sismologia. E, apesar dos elevados custos com a investigação científica, a Rússia dispõe de 7 bases (750 pessoas), os EUA três (embora a figura do “Atlas” refira 6 para cada) - qual competição da “velha” guerra fria! – a Argentina seis, mas em ligação com a GB, Austrália e Chile; o Japão duas e, depois, vários países com uma: França, África do Sul, Índia, Alemanha, Polónia, Nova Zelândia e Ucrânia. Brasil, Peru, Uruguai e China organizam regularmente campanhas oceanográficas, tal como outros países europeus.
                    Compreender o sistema atmosférico e climático mundial tem sido uma das tarefas mais ativas, mas – desde o Ano Geofísico Internacional em 1957 – já se elaborou uma nova teoria sobre os fenómenos magnéticos e foram identificados mais de 200 minerais. Já no início deste ano, o navio oceanográfico Polarstern identificou mil espécies nas águas da Antártida. Os 52 cientistas (de 14 países) a bordo, pretendem ainda conhecer os efeitos das alterações climáticas na biodiversidade. São as “viagens do censo” no terceiro Ano Polar Internacional.
CAPÍTULO II

BREVE ENQUADRAMENTO GEOPOLÍTICO

                    Considerando uma situação limite de esgotamento de recursos naturais nas zonas já exploradas; tendo em conta o aumento das áreas desérticas na África, Médio Oriente, Ásia, Oceânia e América do Sul; sendo previsível o agravamento dos atentados ecológicos na Amazónia – poder-se-ia situar a questão da Antártida no âmbito da teoria “determinista” do espaço vital de Ratzel e da Escola de Munique. Porém, na perspetiva das novas abordagens que a disciplina determina – a Nova Geopolítica – a preservação e a salvaguarda do continente “gelado”, como vimos, constitui hoje uma das grandes preocupações da humanidade: a poluição, a par da fome e do crescimento demográfico, todas elas interligadas e relacionadas com os Direitos Humanos, a Democracia e o Estado de Direito. É a ECOPOLÍTICA, com raízes em Lacoste, Vilmar Faria e na “corrente biocêntrica” do movimento de “preservação” de François Duban – oposto ao de “conservação”.
                    As teses de Duban, que conduziram à “corrente biocêntrica”, estão impregnadas de um radicalismo profundo que elimina as reformas pontuais. Pelo contrário, se se pretende salvar o planeta, impõe-se uma verdadeira revolução ecológica, baseada em princípios como “o bem-estar e o desenvolvimento da vida na Terra; riqueza e diversidade das formas de vida; diminuição da população humana; diminuição das intervenções do homem na natureza e – ideologicamente – saber apreciar a qualidade de vida”.
                    Mas a virtualidade global destes princípios tem vindo a ser posta em causa desde os atentados de 11 de Setembro de 2001 em NY, particularmente devido a um antagonismo conjuntural entre o Ocidente cristão e alguns sectores fundamentalistas do Islão, que tomaram como inimigo a única superpotência económica e militar (EUA), após a falência do Comunismo Soviético. Por outro lado, a “Globalização” não tem conseguido diminuir o fosso entre países ricos e países pobres, não tem ajudado a construir a democracia e a evitar a corrupção, não tem evitado a conflitualidade e não tem assegurado a sustentabilidade ambiental a médio e longo prazos. Neste século, diz o Professor universitário Filipe Duarte Santos, é preciso encontrar respostas prioritárias para aquelas questões. E o que interessa – acrescenta – é saber qual vai ser a intervenção da ciência e da tecnologia nas decisões a nível individual e colectivo que irá determinar o cenário futuro para a humanidade. Neste cenário, enquadra-se por exemplo a procura de novos paradigmas para a integração global da economia com as práticas agrícolas dos países em desenvolvimento e também o combate ao aquecimento global antropogénico – cuja dimensão é incomparável com os curtos ciclos políticos dos países democráticos. Apesar da incerteza, a ciência pode ajudar neste combate, mas a questão – para Filipe Duarte Santos – está em saber se cada um de nós, em especial os decisores políticos e os governos, aproveitará as oportunidades para escolher as melhores opções, indo de encontro às teses “possibilistas” de La Blache.
                     Neste ponto, será também interessante reter a ideia de Fábio Feldmann, do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas Globais e de Biodiversidade, segundo a qual é necessário alertar para o que considera “a ignorância da ciência acerca do clima no planeta”. E sobre as “consequências dramáticas” do aquecimento global, Feldmann diz que “o mais importante é que as medidas a serem tomadas, devem ser resultado de um pacto da Humanidade”, sendo necessário encontrar uma “nova arquitetura geopolítica” que vença a resistência dos Republicanos nos EUA, dos lobbies da indústria do petróleo e dos países produtores.
                  
CAPÍTULO III

PORTUGAL, A ANTÁRCTIDA E A ECOPOLÍTICA

                  Apesar de Portugal não ter ainda aprovado o Tratado da Antártida, o nosso país – através do Comité Português para o Ano Polar Internacional – é, desde 2006, membro associado do Comité Científico para a Pesquisa na Antártida. A participação nesse organismo, facilitou a Portugal o desenvolvimento de programas de investigação e a cooperação internacional. Gonçalo Vieira, Professor universitário e investigador do Centro de Estudos Geográficos, é membro do comité e coordenou uma expedição internacional recente sobre as alterações climáticas na Antártida marítima, denominada “Permamodel” – um programa financiado quase exclusivamente por Espanha.
                  Para além do envolvimento de instituições portuguesas nesta questão da Antártida, interessa identificar o pensamento dos nossos investigadores sobre a Ecopolítica. Por intermédio da documentação que nos chegou, facultada pela Professora Drª Teresa Cierco, ressalta o nome de Soromenho Marques – para quem a ecopolítica integra uma política de ambiente, mas não se confunde com ela, porque a ultrapassa. É assim que, no conceito de ecopolítica, Soromenho Marques destaca no seu livro “Regressar à Terra” quatro pontos síntese: - o sujeito político é marcadamente plural (todos os indivíduos e todas as forças sociais); as tarefas políticas devem conter objetivos mensuráveis e métodos identificáveis que permitam conduzir à sua realização; ponderar a noção de limite na decisão política, pois o mundo é finito e o tempo é escasso; radicalizar o conceito de solidariedade, na perspetiva de que a política deve ser dirigida para todos os homens, os atuais e os vindouros. O autor, considerando a política do ambiente como “um elemento-chave de uma Nova Ordem Mundial”, inclui no seu livro “O futuro frágil” um verdadeiro paradigma da ecopolítica, encarada como dimensão da nova geopolítica: - enquanto a humanidade continuar a crescer contra a Terra, enquanto a atual prosperidade for conseguida à custa da degradação ecológica, enquanto o fosso entre ricos e pobres continuar a aumentar, não haverá uma paz duradoura e sustentável sobre o planeta.                                

CONCLUSÃO

                  Considerando que o Antártico fornece, portanto, o modelo perfeito das relações internacionais pacíficas – tendo por base o Tratado da Antártida de 1959 – está longe de ser atingida a perfeição no relacionamento entre as potências com bases territoriais naquele continente. Basta lembrar as violações (conhecidas) ao Tratado e, agora, a polémica que se instalou com as reivindicações da GB para a extração de gás e petróleo. Reagiram diplomaticamente a Argentina e o Chile; a RPChina enviou para a região o seu quebra-gelo Dragão da Neve; a Rússia enviou também o seu navio de pesquisa e quebra-gelo Akademic Fjodorow – enquanto os australianos terminaram a sua pista de aviação. Nesta questão, também não se pode esquecer a já antiga postura alemã durante a IIª GM. São as novas fronteiras da geopolítica – a ecopolítica – é a Antártida de novo cobiçada. E talvez mais do que o petróleo, do gás e dos minérios, o ouro tem o nome de “água”. Um outro e recente ponto de discórdia está relacionado com a caça às baleias de bossa (com o seu santuário nos mares da região), reivindicado pelo Japão. Para já este país, por força da comunidade internacional, decidiu suspender o projeto, mas não desiste de capturar quase mil baleias-anãs e 50 baleias comuns. Por outro lado, a Antártida tem servido de base de estudo para ajudar à conquista do espaço por parte da NASA. E essa região polar oferece condições únicas para o estudo dos mecanismos fisiológicos e comportamentais de adaptação a ambientes extremos. O aumento do efeito de estufa no continente pode provocar danos irreparáveis a longo prazo, mesmo tendo em conta a divisão da comunidade científica a esse respeito: - apesar de não estarem ainda confirmadas as suas conclusões, um recente estudo da Universidade da Califórnia diz que a Antártida parou de encolher, mas a NASA afirma ter encontrado provas claras do degelo do continente – consequência do aumento das temperaturas.
                  Mesmo não sendo previsível, a curto/médio prazos, o impacto de “último refúgio” para a Humanidade que possamos atribuir à Antártida – não deixa de ser evidente o seu papel importante na chamada “nova geopolítica”. E também é importante o seu papel estratégico, pois permite controlar os estreitos. No Atlas de Relações Internacionais, pode ler-se que uma das apostas da guerra das Malvinas, em 1982, foi a de manter o controlo do estreito de Drake, que permite o trânsito das esquadras do Pacífico para o Atlântico.       
                                   
BIBLIOGRAFIA

MONOGRAFIAS:
---BONIFACE, Pascal (Dir.) – Atlas das Relações Internacionais. Plátano Editora, 3ªedição, 2005.
---DUARTE SANTOS, Filipe – Que Futuro? Gradiva, Lisboa, 2007 .
---PEZARAT CORREIA, Pedro de. Manual de Geopolítica e Geoestratégia, Vol.1. Quarteto Editora, Coimbra, 2004 (1ªreimpressão).
---POJMAN, Louis – Terrorismo, Direitos Humanos e a Apologia do Governo Mundial. Bizâncio, Lisboa, 2007.
---Descubra o Mundo, Volume sobre Oceânia e Antártida. Direção Geral de Lourenzo Sisniega. S.A.P.E. – Clube Internacional del Libro, Madrid, 1997. Exclusivo Ediclube para Portugal.    

PUBLICAÇÕES PERIÓDICAS E EM SÉRIE:
Considerações Gerais sobre Geopolítica e Geoestratégia. Apontamentos fornecidos pela Profª Doutora Teresa Cierco, 2007.
---FELDMANN, Fábio. Rumo à Nova Arquitetura Geopolítica. Artigo de Opinião sobre Aquecimento Global, publicado em Maio de 2007 no Portal Terra, Brasil.
---Censo da Vida Marinha identifica mil espécies na Antártida. Notícia do Jornal Público, 27/02/07.
---Governo Japonês anuncia recuo na campanha de caça à baleia. Notícia do DN, de 22/12/07.
---Portugal no Comité Científico para a Investigação na Antártida. Publicado em 18/07/06, em http://caminhosdoconhecimento.wordpress.com/ e consultado em 06/12/2007.
---Português lidera estudo sobre variações climáticas na Antártida. Publicado em Fev. de 2007, em http://ciberia.aeiou.pt  e consultado em 6/12/07.
---SAMSAM BAKHTIARI, A.M. – A Última Fronteira. Artigo de opinião publicado em Junho de 2006, em http://resistir.info/  e consultado em 6/12/07.     
ANEXO:
Resumo do Tratado da Antártida. Publicado em http://fimdomundo.com/ e consultado em 6/12/07.  
António Bondoso   
PORTO
2008



2017-02-25



CARNAVAL – QUATRO DIAS DE FOLIA E UMA HISTÓRIA SECULAR QUE VAI DA EUROPA AO BRASIL…com Lamego no centro das atenções. André Freire, médico brasileiro em Lamego, recorda a expressão "Atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu".

         Hoje, é comum falarmos da alegria e da sátira que se vivem em muitas localidades portuguesas – de Loulé a Podence – e sobretudo no Brasil, para onde os festejos teriam sido levados no início do século 18 por emigrantes da Madeira.
         Mas já no século XI as raízes se situam na Quaresma e na Semana Santa dos católicos, com o afastamento dos prazeres da carne vertidos na expressão “carne vale”, a qual rapidamente teria dado origem à palavra Carnaval.
         Das famosas máscaras de Veneza ao calor do Rio de Janeiro o percurso do nosso imaginário passa por exemplo pelos cinco dias de Alcobaça, pela portugalidade de Torres Vedras, pelos desfiles das escolas de samba de Loulé, Ovar e Estarreja, pela memória do Clube Carnavalesco dos Fenianos Portuenses logo em 1905 e pela ilha da Madeira, como se disse, sem esquecer os caretos de Podence, no Nordeste Transmontano e as máscaras de Lazarim, em Lamego.
         Exatamente em Lamego, reside há uns anos o médico brasileiro André Castilho Freire que, por estes dias, tem vivido saudades e até uma certa angústia pela distância da sua “Mangueira” – mais propriamente da Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira, fundada em Abril de 1928, de acordo com o relato que lhe pedimos: como é que um empenhadíssimo participante nos carnavais cariocas vive a imensa alegria e toda a movimentação das escolas de samba aqui, neste Portugal distante?
Esta pergunta e esta curiosidade também  é frequente nos meus amigos que ficaram no Brasil. Vamos esclarecer alguns detalhes, desde já antecipando que o meu Carnaval será dedicado ao trabalho no Serviço de Urgência no Hospital de Lamego.
Vivi grande parte da minha no estado do Rio de Janeiro.
Desde sempre sou um adepto (e componente) da Escola de Samba estação Primeira de Mangueira, fundada em 28 de Abril de 1928. A mais antiga, a despeito de falsos profetas. A única com as cores verde e rosa.
A mais querida e mais popular, sem demagogia e/ou populismo.

Portanto desfilei muitos anos na Mangueira, sempre pela Ala dos Boêmios, uma ala técnica da Escola e, em alguns anos, na qualidade de Diretor do Departamento Médico e Social e membro do Conselho Fiscal. Também fiz parte da Ala dos Compositores.

Nunca desfilei de fantasia pois sempre desfilava na área de trabalho, ou seja, responsável por alguma ala ou segmento da escola. Por exemplo, Ala das Baianas, Bateria, conduzir o Casal de Mestre e Sala e Porta-Bandeira, etc...
Nossos meses decorriam entre as minhas actividades profissionais e os preparativos que envolvem um desfile no Rio. Ensaios, reuniões, etc.
E em  alguns anos, ajudava a levar os carros alegóricos do local onde eram confeccionados ("barracão") até o Sambódromo, Isso feito 24 horas antes do desfile.
Também participava de concursos para escolha de sambas de enredo em outras agremiações, normalmente no interior do Estado do Rio e uma vez na Mangueira.

Em 1993 idealizei o enredo "Atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu", que a Mangueira desfilou no Carnaval de 1994 e que prestava homenagem ao luxuoso quarteto baiano da MPB: Gilberto Gil, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gal Costa. Nunca cobrei um centavo da Mangueira.

Para ajudar na alma sambista, os meus pais André e Ruth integravam a Galeria da Velha Guarda da Mangueira.
Na manhã do Sábado de Carnaval seguia com o meu saudoso pai para a Avenida Rio Branco e desfilar junto com o Cordão da Bola Preta, hoje com cerca de 1 milhão de componentes.

Portanto, o amigo Bondoso poderá, desde já, imaginar o meu estado no Carnaval...

Nos meus primeiros anos em Portugal eu evitava assistir os desfies pela TV. Sentia medo de passar mal.
Em 2016 ficamos todos acordados (a minha Teresa é mangueirense e já desfilou na Escola) para assistir o desfile da verde e rosa". A última a desfilar e foi campeã! Quanta emoção!
Fico nervoso, emocionado, Semanas antes do desfile eu sonho bastante sobre o Carnaval.

No Concelho de Lamego as escolas organizam um desfile na sexta-feira e e Lazarim é mantida a tradição do Entrudo e as famosas máscaras, ex-libris do Concelho.

No mais, estando por aqui é sempre tempo de trabalhar e quase nunca consigo folgas nesta época do ano.
E o coração e o pensamento de vez em quando seguem vôo para o Sambódromo, onde a Mangueira é sempre recebida com amor e lágrimas pelo povo brasileiro.

Um forte abraço Mangueirense do André Freire.


Palácio do Samba (Mangueira), André Freire, Maria Bethânia e a saudosa Porta bandeira Mocinha da Mangueira.

16 OUT 1993

António Bondoso
Jornalista
Fevereiro de 2017

2017-02-13





A MINHA RÁDIO HÁ 50 ANOS.
Alguns dos que passaram…ainda me falam de Rádio.
“A Rádio é um instrumento de Liberdade porquanto é um apelo permanente à Criatividade”. - Isto digo eu. 

Houve um tempo em que, também em Portugal, se podia citar com orgulho o pensamento do publicitário Bob Schulberg: “Se a televisão tivesse sido inventada antes, a chegada da radiodifusão teria feito as pessoas pensarem: - Que maravilhoso que é a Rádio! É como a televisão, só que nem é preciso olhar!”
Encarar o futuro não pode deixar no esquecimento a importância do passado e, porque as incertezas são imensas, é preciso encarar o presente com muito realismo. Anunciada ciclicamente – televisão, internet, era digital – a morte da “rádio” tem vindo a ser adiada, não por milagre, antes pelo combate e pelo empenho na capacidade de adaptação aos novos tempos. E de muitos que ainda lá trabalham com empenho e com profissionalismo. Mas não bastam as novas tecnologias, não é suficiente “arrumar” tudo ou quase tudo no disco rígido de um moderno computador. É preciso que a rádio volte a estar com as pessoas e que tenha gente dentro! Que seja capaz de pensar e de refletir e que saiba provocar no auditório a capacidade de dialogar, discutir serenamente e reagir aos desafios.
Não basta que a evolução tecnológica aconteça e seja bem aproveitada. É fundamental dar-lhe conteúdo. E sonho!
Quando sinto e penso em todas as montanhas que ainda não subi; em todos os rios que ainda não naveguei; nas matas densas onde ainda não me aventurei; nos desertos secos de vida qua ainda não dessedentei; em todas as viagens que ainda preenchem os meus sonhos... e quando sei todos os sonos que ainda não dormi e em todas as madrugadas a que cheguei atrasado e não vi nascer o Sol para além do infinito que imagino – mesmo sem ouvir a Onda Curta a que me habituei no transístor Sony de nove bandas, companheiro de viagem sempre que saía do país em reportagem ou em férias.
         E neste ano…como recordo com emoção o início da minha atividade no Rádio Clube de S.Tomé e Príncipe em finais de 1967. À experiência, primeiro…com retribuição de 250 escudos depois, sempre subindo etapas, aprendendo diariamente com os mais velhos: Carlos Dias, José Maria Rocha, Victor Dias, Carlos Cardoso, Victor Nobre, Raúl Cardoso, Daniel Pinho, Manuel Sá, Firmino Bernardo, Mina Malé. Dois anos depois – e após algumas peripécias – chegava a Emissora Nacional. E novos camaradas que me foram passando conhecimentos, como Fernando Conde, Sebastião Fernandes, Guilherme Santos, Manuela Borralho e Maria Emília Michel. Alguns destes já passaram…mas, para mim, ainda continuam a falar-me de Rádio. Com serenidade, sem pressas – quantas vezes a pressa é má conselheira – com entusiasmo, com responsabilidade. E ouço, continuo a escutar. E muitas vezes não aprecio o que me transmitem. Melhor dizendo – a forma como me transmitem. Mas há momentos de consolo e de prazer. Felizmente ainda há alguns, que me chegam sobretudo pelo meu transístor. Ou no automóvel quando viajo.
Sem memória não há História! E depois, como dizia o jornalista “Sam Ridley” – investigador criminal na londrina City Radio[1] - “A rádio não depende de imagens, e essa é uma das razões porque gosto dela. O olho pode ser um órgão muito enganador”.
13 de Fev. de 2017
António Bondoso




[1] - NILES, Chris. OS MORTOS NÃO FALAM NA RÁDIO. Bertrand, 2003.

2017-01-22

DA ROÇA…
…de uma péssima ideia colonial a uma desleixada atitude de um país independente.
Percebe-se o sistema e a época…condena-se a violência e os efeitos.
Percebe-se a revolta e a libertação…condena-se a destruição do património e da história.



         Cidade-Estado ou um Estado dentro do Estado, a Roça desempenhou um papel crucial e secular na economia das Ilhas do meio do mundo, mesmo sendo evidente o mau espírito reinante: a ideia, o sistema, a propriedade, os objetivos, a prática, a brutalidade do trabalho serviçal, eram amenizados a espaços por força de circunstâncias incontornáveis. Como dizia Luís Cajão a Michel Laban, por exemplo:- E qual o meu espanto quando chego ao Rio do Ouro e vejo uma enfiada de palmeiras imperiais, uma casa digna de um príncipe, um comboio de bitola normal, música nas sanzalas, jardim zoológico para as crianças, um hospital – tomáramos nós na Metrópole, sei lá, nas Caldas da Rainha, na Figueira da Foz ou em Aveiro…ter hospitais assim, daquela categoria!”.
         Mas os ecos da Roça foram de tal ordem…que ainda hoje o tema reclama emoções diversas, contraditórias. Basta lembrar a poesia de Conceição Lima: Perguntam os mortos:/Porque brotam raízes dos nossos pés?/Porque teimam em sangrar/Em nossas unhas/As pétalas dos cacaueiros?/Que reino foi esse que plantámos?
         Ou a roça…«espaço físico e psíquico de homens-máquina, ao serviço da ganância de alguns que, longe, ostentavam a riqueza suja de um degradante sistema humano». Alda do Espírito Santo recorda Henry Nevinson que, em 1906, denunciava “o ignóbil trabalho escravo nas roças de S. Tomé e Príncipe, onde o cacau e o café atingem cifras consideráveis. Os nossos irmãos de Angola e Moçambique e mais tarde de Cabo Verde sofreram anos de aviltamento no inferno das roças das grandes Companhias Coloniais, com sede nas suas metrópoles”.
         Voltando ao relato de Luís Cajão a Michel Laban… “De Moçambique apareceram-me alguns em cumprimento de pena: iam cumprir pena nas roças! Tratei-os sempre a todos da mesma forma. Todos. Com o mesmo amor, a mesma ternura. Meu Deus, eu tive quando me vim embora, no aeroporto da ilha do Príncipe, trezentos trabalhadores e as suas famílias a dizerem-me adeus (…). Foram bem tratados: nunca ninguém os terá tratado melhor”.
         Os moçambicanos, recordou-me em tempos Victor Cruz, «eram trabalhadores extraordinários. Havia um que fazia a tarefa dele e a da mulher, por exemplo trinta buracos vezes dois para plantar cacau. Esse tinha ido condenado para S. Tomé (Colónia Açoriana) com uma pena de 12 anos. Na sua terra era guia de caçadores! O que o terá levado ao degredo foi eventualmente uma simples escaramuça, mas conseguiu regressar a Moçambique!».
         Mas os ecos da Roça não se esgotaram. Depois do mais completo estudo de Francisco José Tenreiro (1961) – para quem a roça «era a base de povoamento de toda a ilha», outros se seguiram mais recentemente. Por exemplo As Roças de São Tomé e Príncipe, de Duarte Pape e Rodrigo Rebelo de Andrade, com fotografias de Francisco Nogueira. E depois de alguns romances – como os coloniais de Fernando Reis [Roça], Sum Marky [A Ilha do Santo], de Rafael Branco já no pós independência [Makuta – Antigamente Lá na Roça] e em 2008 O Feitiço das Ilhas do Cacau, de Hermínio Ferraz… eis que agora se apresenta No Tempo Das Roças, de Francisco Assis Brito – um clérigo natural de Rio do Ouro, Guadalupe, onde nasceu em 1966. Segundo a sinopse a temática é idêntica, vista por outros olhos, mas “Deplora, igualmente, a desvalorização, destruição e abandono das ricas infraestruturas das antigas roças, que podiam ter continuado a contribuir para a beleza e o desenvolvimento dessas ilhas maravilhosas do Equador”.
António Bondoso
Jornalista
Janeiro de 2017




2017-01-11





MEMÓRIAS DE MIM – 1.

2017 não é um ano qualquer. Significa muito para mim.
E começa praticamente com mais um aniversário meu. O 67º! Que, não sendo embora um número redondamente perfeito, reporta a factos de boa memória.  
Há 50 anos…fazia eu mais um cruzeiro de sonho em oito dias no Atlântico…para tomar conhecimento mais profundo sobre este promontório onde habito hoje…
Há 50 anos…os meus pais ainda eram vivos. E depois dessa viagem de barco, com eles me encontrei em Moimenta da Beira, recebendo de presente da mãe um fio de ouro que ainda uso.
Por essa altura foi-me dada autorização paterna para fumar…
E o meu pai, se fosse vivo, completaria em Junho 100 anos! No dia seguinte ao “milagre de Fátima”.
Quando me lembro dele o que me vem à ideia?
No imediato a viola…e quando me levava pela mão ao Dramático para os ensaios de algum espetáculo (acompanhava no fado o guitarrista Pinto Falcão), e o futebol inevitavelmente (não só o FCPorto mas também o CDR de Moimenta da Beira, o Sindicato e o Andorinha em S. Tomé), o sentido de humor, o sorriso maroto…algum “temperamento” à mistura, claro. O árbitro era o principal adversário. Não deixa de ser uma herança que eu prezo.
Lembro-me de ter vivido ao seu lado, na praia de Diogo Nunes, a alegria – igualmente o sofrimento do que viria a ser conhecido como o caso Calabote – da vitória portista no campeonato de 58/59. E depois…toda a travessia do deserto que durou 19 anos. Mas felizmente ainda viveu para celebrar novos títulos e – o mais importante – ver o clube como Campeão Europeu.
E vem-me igualmente à memória a sua habilidade intacta de alfaiate, atividade que havia exercido na adolescência e em jovem adulto em Moimenta da Beira, antes de iniciar funções na Conservatória do Registo local – as quais viria a desempenhar na Conservatória do Registo Predial em S. Tomé, de 1952 até à data do seu regresso a Portugal em finais de 1974. Pois exatamente no arquipélago do Golfo da Guiné, quer na minha infância, quer nos primeiros anos da adolescência, o meu pai ainda era exímio naquela arte, nomeadamente na confeção de calças ou calções para mim. Por essa época usava-se muito o caqui.
Mas a “indumentária” não era, nesse tempo de adolescência, uma questão essencial. Uma simples t-shirt bastava, facilitando um reparador banho de mar em qualquer altura ou a permanente disponibilidade para um jogo de bola.
Há 50 anos…iniciava igualmente a minha atividade radiofónica em S. Tomé. E como ainda tenho presente os meus sprints na bicicleta do meu pai, quando saía das aulas no Liceu de D. João II para chegar à tabela ao Rádio Clube a fim de encerrar a emissão do espaço do almoço, exatamente às 14 horas. Gratificante essa experiência – sendo certo que acabaria por abraçar a carreira na então Emissora Nacional, em 1969, depois da transformação do Rádio Clube em Emissor Regional. Nem sempre com um sorriso feliz, pois logo no início houve uma crise de relacionamento com um elemento da “equipa de transição”, resolvida algum tempo depois. Tudo havia começado, contudo, ainda no tempo da Voz da Mocidade – através de um programa semanal. Uma equipa que recordo com saudade igualmente.
E agora – 50 anos depois – empurrado para uma aposentação antes do tempo, aqui estou neste Porto de abrigo, felizmente acompanhado pelo amor e pelo carinho indefetíveis da minha mulher, do meu filho e mais recentemente também da nora, escrevendo, escrevendo sempre, registando memórias que possam servir no futuro. E algumas amizades, claro, que fui cultivando ao longo dos anos. E que espero manter, na certeza de que o caminho se faz caminhando, nunca isoladamente. Há igualmente outros familiares a quem dedico amizade, uns mais perto alguns mais longe pelas circunstâncias da vida de cada um.
Tenho memórias, tenho esperança. Que o significado de 2017 se estenda e se aprofunde, permitindo atapetar uma estrada de vida ainda incompleta!
António Bondoso

Janeiro de 2017

2017-01-09


SEJA-ME PERMITIDO CHORAR…
…ou a dignidade de ser livre! 

A sensibilidade pode ser inata mas o carácter definidor de um ser digno e livre é percebido e alimentado, formado e enformado, baseado na instrução, na educação, na cultura e na tolerância, numa ideia consistente de justiça moral e social – valores conquistados ao longo da vivência de cada um. E tudo vale bem melhor quando se nos apresentam exemplos vivos que marcam profundamente.
         Mário Soares foi um dessas imagens inspiradoras. Que aprendi a perceber e a respeitar, sobretudo depois de compreender os diversos tempos da sua luta, numa análise desapaixonada da conjuntura – interna e externa –de cada época.
         Não tenho chorado muitas vezes ao longo da minha vida. Para além dos momentos particulares de tristeza quando perdemos a mãe ou o pai, ou até de alegria quando nasce um filho – comuns a qualquer ser humano – tenho vivido algumas situações propiciadoras de uma lágrima. Porém, chorar de indignação, de raiva ou de impotência não tem sido frequente. Aconteceu nos últimos cinco anos com a política dos cortes cegos nas pensões, que motivaram manifestações gigantescas de protesto no país – como eu supunha já não ser necessário – e verifica-se agora com o desaparecimento físico de Mário Soares. É sobretudo um choro de preocupação. Vai-se esgotando o reservatório de referências, não só em Portugal e no resto da Europa mas também no mundo.
         Mário Soares esteve sempre um ou dois passos à frente da realidade, antecipava o futuro. Como foi o caso destes mais recentes tempos de crise internacional que, inevitavelmente, se atravessaram no caminho do país. E depois, essa UE sem rasgo, sem liderança sem visão, amarrada a clichés de uma ortodoxia neoliberal altamente nociva. Mário Soares avisou, teceu críticas, sempre dois passos à frente. Foi um combatente excepcional pelas liberdades, correndo riscos por ideais em que acreditava. E um lutador até ao fim pelos valores fundamentais da humanidade. Ao contrário do que outros disseram, sou de opinião que não há momentos “infelizes” ou “absurdos” num combatente político. As convicções de cada momento podem causar dissabores, mas tudo se ergue no minuto seguinte…Foi assim com Mário Soares. Por isso é que eu digo e repito – preocupa-me o futuro. Obrigado Mário Soares pela liberdade de poder escrever este texto.
António Bondoso
Jornalista
Janeiro de 2017
        

         


2017-01-07

SOBRE MÁRIO SOARES…
…haverá sempre uma efeméride para celebrar, lembrando as lutas pela LIBERDADE!



         Sabe-se que Mário Soares não foi uma figura de relacionamento fácil e que preferiu sempre a frontalidade. Não deixou de alinhar em consensos – quando o país lhe pediu – mas foi sempre um homem de ruturas. Inclusive no interior do seu próprio partido e certamente na sequência das muitas dificuldades que atapetaram o seu percurso de vida, uma luta permanente pela liberdade – contra a ditadura! Por isso esteve preso, foi torturado, deportado e exilado. O que venho aqui dizer não é novo, talvez mesmo insignificante, mas fica registado mais uma vez.
         Dele ouvi falar em 1968, em S. Tomé, para onde foi deportado em Março desse ano sem culpa formada, depois de ter sido preso várias vezes. Ali, foi até impedido de dar explicações aos filhos do Secretário da Câmara, Aprígio António Malveiro, acontecendo que Maria Barroso foi igualmente impedida de exercer a atividade docente – como eu recordo no meu livro ESCRAVOS DO PARAÍSO (2005)


“Ninguém podia falar com ele porque a polícia não deixava, eu até tinha medo mesmo de ver a varanda de casa dele”, disse à LUSA (2014) Ângelo Carneiro, 76 anos, um dos poucos são-tomenses que conheceram de facto o então advogado oposicionista de Salazar. (…) Eu passava lá, era ainda no tempo da PIDE. Eu era jardineiro na casa de um branco que morava na marginal, perto do museu”, recordou Ângelo Carneiro. Com o passar dos anos ninguém ou muito pouca gente ainda se recorda de que Mário Soares viveu neste apartamento”, acrescentou.
O degredo, recordo ainda em Escravos do Paraíso, não mereceu a total concordância do então governador Silva Sebastião [que se avistava quase todos os sábados com Mário Soares], o qual achou a situação muito pouco própria – tendo em conta o elevado número de jornalistas estrangeiros presentes na Ilha, em consequência da trágica Guerra do Biafra.
         Um dos poucos brancos que mantiveram contacto com o ex-presidente foi Fernando Santos Mendes – mais conhecido por Fernandinho dos Angolares – um português de Viseu que foi para S. Tomé em 1952 e lá faleceu em 2013. A sua bisavó era natural de S. Tomé – Josefa Quaresma de Ceita – e os pais chegaram à Ilha nos primeiros anos do século XX. Fernando Mendes convidou Mário Soares para almoçar uma ou duas vezes e confessou-me não ter sido incomodado pela Pide.


Apesar de tudo, Soares teve a oportunidade de defender (pro bono) um funcionário da Alfândega acusado de desvio de bens. Um caso vulgar mas que, por toda a envolvência, acabou por ter grande repercussão na ilha. Julgamento de sala cheia, dizia-me o meu pai, que assistiu. E quando Mário Soares e toda a gente pensava na absolvição do réu, eis que a sentença produzida foi a condenação a 13 anos de prisão. Mário Soares, como eu escrevo em Escravos do Paraíso, nunca se havia sentido tão vexado na sua vida profissional, servindo-lhe apenas de consolação o facto de a sentença ter sido depois anulada pelo Tribunal da Relação de Luanda. Ficou, assim, patente aos olhos de todos, que a sentença tinha sido “dirigida politicamente” a Mário Soares.    


Foi com ele que a política se afirmou nos meus ouvidos e na minha consciência, sobretudo pela sua atitude e foi particularmente a sua combatividade que me motivou (ainda antes da Ala Liberal de Sá Carneiro e de Pinto Balsemão). Muitos anos depois tive o privilégio de o acompanhar na Presidência Aberta em Viana do Castelo (vindo-me à ideia o seu contacto com os pescadores e a simplicidade de um almoço informal de arroz de cabidela do qual não esqueço alguns pormenores curiosos); com ele me cruzei de novo em Macau, na inauguração do Aeroporto, e acompanhei a sua viagem a Tóquio, já no âmbito da sua presidência da Comissão Mundial Independente Sobre os Oceanos (1995-1998) que Mário Ruivo dinamizou por indicação da ONU. Mais recentemente, tive a oportunidade de lhe oferecer em Moimenta da Beira dois dos meus livros: "DA BEIRA! Alguns Poemas e Uma Carta Para Aquilino", o Mestre que ele admirou, como se sabe, e SEIOS ILHÉUS - como que uma recordação simbólica do tempo que passou em S. Tomé.



Mário Soares – um combatente pelas liberdades. E por isso foi escolhido para presidir à Comissão de Liberdade Religiosa no tempo de José Sócrates no cargo de 1º Ministro: "A vida pessoal e política de Mário Soares habilita-o a qualquer tarefa que tenha a ver com a liberdade e muito mais com a liberdade religiosa, que é um dos pilares das sociedades democráticas modernas”. MÁRIO SOARES respondeu: " Sou neutro em matéria de religião, mas reconheço a importância da religião e das Instituições Religiosas, particularmente no mundo conturbado de hoje, com o exacerbamento dos fanatismos religiosos. SOU AMIGO DE TODAS AS LIBERDADES"!
Um Homem a quem a Democracia Portuguesa e os portugueses ficam a "dever" uma importante quota-parte. Manuel Alegre, com quem se incompatibilizou nas presidenciais de 2006, acaba de classificar Mário Soares como “o construtor principal da democracia”.Como disse, nem sempre foi de relacionamento fácil. Apesar disso, outras figuras como o ex-presidente Ramalho Eanes dizem ter “uma grande consideração por Mário Soares enquanto batalhador pela democracia”, embora não tenha estima pessoal. Simultaneamente, embora possa parecer um paradoxo, foi um homem de afetos e cultor de amizades. E um homem de Cultura, muito à semelhança dos oito presidentes da Iª República. Que pensou o mundo e sobre ele escreveu muito, como se pode verificar pela extensa bibliografia. E que amou a Poesia e grandes Poetas – como é exemplo a seleção que José da Cruz Santos editou para o jornal Público. E esse poema para a mulher, Maria Barroso – trave mestra da sua estrutura familiar e cuja perda lhe terá acelerado o caminho para o final desta sua passagem. Poema escrito na prisão do Aljube em 22 de Fevereiro de 1962:
PARA TI, MEU AMOR
Para ti,
Meu amor,
Levanto a voz,
No silêncio
Desta solidão em que me encontro.
Sei que gostas de ouvir,
A minha voz,
Feita de palavras ternas e doces
Que invento para ti
Nos momentos calmos
Em que estamos sós.
Sei que me ouves
Agora
- Uma vez mais –
Apesar da distância
E do silêncio.
O amor,
Querida,
Opera esse milagre,
Simples,
Como tudo o que é natural:
Ouvir,
Bem no fundo do coração
As palavras não ditas
Mas sentidas;
Adivinhar,
Bem ao nosso lado,
A presença,
Insubstituível e certa
Do ausente
- Presença inconvertível
Em ausência,
Por maiores que sejam a distância
E o silêncio!
  
E depois há todo esse caminho que levou ao 25 de Abril de 1974 e à consequente descolonização – tardia e, sobretudo por isso, atabalhoada e traumática para os atingidos. É um tema complexo ao qual voltarei a dar especial atenção, tendo em conta particularmente o que vem sido dito e escrito – quantas vezes de forma mais emotiva do que racional, quantas vezes disparando em várias direções – com desconhecimento e com disparates, sem preparação de análise das conjunturas nacionais e internacionais nas várias épocas em perspetiva. Acusações infundadas e demagógicas a Mário Soares há de sobra. Só valem as que se reportarem à sua luta pela liberdade no seu país, contra a ditadura. Há muitas outras figuras de maior responsabilidade – como são Salazar e Caetano, que não perceberam o espírito do tempo; depois Spínola e Costa Gomes a juntar à Coordenadora do MFA. Como disse Melo Antunes – ideólogo maior do Movimento – “o processo de descolonização foi das coisas mais difíceis, mais dramáticas e mais trágicas que aconteceu em Portugal. Sei que se cometeram erros e assumo as minhas responsabilidades”.
António Bondoso
Jornalista
7 de Janeiro de 2017.














2017-01-01

NESTE PROMONTÓRIO...NADA DE NOVO!

Foto de Ant. Bondoso.

Acordo, estou vivo. Apalpo a moleirinha, belisco o pulso e dou comigo a ouvir um centenário comunicado do porta-voz da unidade hospitalar em que se transformou este imenso Portugal, este promontório mais ocidental da Europa.
         Ele é o vírus H3N1 – a ou b tanto faz – ele é a corrida às urgências, mas sem vítimas do terrorismo, para desespero dos pés de microfone, ele é os aumentos do gás e da água, do bilhete do elétrico ou do metro, dos combustíveis que fazem mexer a geringonça de cada um, ele é o IMI de um qualquer casebre virado ao sol e à praia, virado aos montes ou aos baldios que são do povo.
         Acordo e estou vivo. Não é preciso ser o médico a dizer-me, constato eu no alto da minha sabedoria. Mas há qualquer coisa que me escapa…apesar do latido faminto e sedento de um cão da vizinhança que aguarda a chegada dos donos que foram passar o ano fora. É que neste promontório mais ocidental da Europa nada mexe. Nem o vento nem a imaginação, nem as águas do rio nem o mar que sempre nos levou longe, nem os salários que fazem mover a economia. Ninguém se lembra dos anos de sacrifício, ninguém se recorda dos lamentos e das vidas destruídas. Nada de nada. Nada se mexe. Nem o futebol – agora que o tempo dos bons rapazes voltou ao Porto – nem a política em ano de eleições autárquicas, todos se vão acomodando ao saldo zero das contas de tantos bancos da nossa infelicidade.
         Acordo…e já não sei se estou mesmo vivo ou se apenas sobrevivo, acordo e não me sai da cabeça o som do porta-voz a repetir a estabilidade do coma profundo. É de facto este o estado deste promontório mais ocidental da Europa. Em coma e de corações gelados, apesar do fogo de artifício que foi estourando um pouco por todas as terras. Toneladas de estrelas que não minimizam a sobretaxa do IRS que muitos vão continuar a pagar, talvez até à venda definitiva do Novo Banco, sabe-se lá! E é o ano do centenário de Fátima, e é o primeiro ano de António Guterres como Secretário Geral da ONU apelando à Paz no mundo, neste planeta esventrado por guerras sucessivas e chorado por migrantes perseguidos e torturados.
         Acordo…e para meu espanto ainda cá estou. Felizmente rodeado por familiares e alguns amigos fiéis que entendem a força que têm a amizade e a solidariedade. Ainda cá estamos, apesar de não haver nada de novo. É preciso ser, é fundamental acontecer, cada um deve cumprir a sua parte.
Um abraço virtual e tudo de bom em cada um dos próximos dias.  
António Bondoso
Jornalista
1 de Janeiro do ano da graça de 2017.

         

2016-12-31

UM 2017 MAIS SERENO E MAIS SOLIDÁRIO.

Foto de Ant. Bondoso

Se a viragem do ano transportasse em si mesma o valor absoluto do bem-estar e da justiça, seria como que um momento perfeito da humanidade. 
Como tudo é complicado neste mundo habitado por humanos! Desde o início dos tempos sempre a pesar a vida e a morte, matar ou morrer, viver e sobreviver, a pobreza e a riqueza, a alegria e a tristeza, o belo e o feio, o mal e o bem, a felicidade e a miséria, o poder e a submissão, o pecado e a graça, a mentira e a verdade, a dúvida e a certeza, a traição e a lealdade, o amor e ódio, o perto e o longe.
Um 2017 mais sereno e mais solidário. 
António Bondoso

Foto de Ant. Bondoso

António Bondoso
Jornalista
31 Dez. de 2016

2016-12-22

NATAL - UMA QUADRA DE SIGNIFICADOS MAL PERCEBIDOS. A CRISE NÃO ACABOU...APESAR DAS MARATONAS AOS CENTROS COMERCIAIS.


QUANDO DECIDIRMOS FALAR DE NATAL…
FALEMOS DE JUSTIÇA E DE AMOR.

         De amor, seja o que for que entendamos pelo conceito: solidário, disponível, amigo, atento, presente, carinhoso, paciente, compreensivo, alegre, sorridente, ouvinte, confidente, partilhado, arejado.
Não me venham falar de Natal, quando a miséria, a pobreza, a desigualdade entre os indivíduos dos diferentes troncos da raça humana se acentua; não me falem de Natal quando os “donos disto tudo”, banqueiros e mercados sem rosto, somam cada vez mais às suas fortunas roubando o produto de quem trabalha e de quem já trabalhou; não me falem de Natal quando os jovens não têm futuro na terra onde nasceram; não me venham falar de Natal quando as migrações são cada vez mais forçadas por situações de conflito social, de guerra e de perseguições políticas – da Síria ao Sudão, da Líbia ao Iraque, da Sérvia ao Kosovo, da Albânia à Turquia, do Líbano a Israel, da Rússia à Palestina, do Paquistão à Índia, da Indonésia às Filipinas, da China ao Tibete, do México aos Estados Unidos, da Alemanha à Hungria, do Congo ao Chade, do Mali ao Iémen, da Tunísia ao Burquina Faso, de Angola ao Zimbabwe, do Brasil à Venezuela. Não me falem de Natal quando as crianças em todo o mundo são violentadas pela fome e pela escravidão.
Não me falem de Natal sem referir Justiça, sem lembrar o sacrifício de Jesus Cristo – esse mesmo cujo nascimento celebramos há séculos por esta altura, o que nada tem a ver com a figura do Pai Natal fabricada pela Coca-Cola – e do Papa Francisco que, com muita coragem e com muita persistência, nos tem devolvido alguma esperança e muita Fé.  
Não me falem de Natal, quando ver morrer jovens à porta dos hospitais começa a tornar-se moda, tendo por base cortes orçamentais absurdos. E dos mais velhos nem vale a pena falar, aumentando as situações críticas já mesmo à porta das farmácias – quando não, até da porta de suas casas. Não me venham falar de Natal quando os avós e os pais já não conseguem – em cada dia – fazer face ao desespero dos filhos. Não me falem de Natal, quando há situações diárias de pais e filhos desavindos. Não me venham falar de Natal, quando há escolas que não funcionam por falta de verbas. Não me falem de Natal quando a violência doméstica é cada vez mais comum; não me falem de Natal quando os vizinhos se agridem por uma flor de jardim ou por um arbusto saído; não me venham falar de Natal quando as alterações climáticas – resultado sobretudo das ambições desmedidas do “homem” – conduzem à morte do nosso planeta a um ritmo assustador.
         Não me venham falar de Natal apenas em Dezembro. 
         Falem-me de Justiça, de Cristo e de Consciências Iluminadas.
Enviei, aceitei e retribuí mensagens de Boas Festas. Sobretudo para os amigos que muito considero. Mas não me falem de Natal, quando percebo nesses gestos apenas uma circunstância de moda. Não me venham falar de Natal quando se consomem fortunas em decorações de rua e nas casas de cada um, apenas para umas horas de mesa e de companhia desfeita; não me falem de Natal quando o consumismo se concentra em figuras como a Popota ou como a Leopoldina. Não me venham falar de Natal, quando as compras e as trocas de presentes são a razão única de estabelecer um convívio de amigos e de famílias.
         Não me venham falar de Natal…por tudo isto!
         Falem-me de Amizade presente e desinteressada, falem-me de Justiça, dos verdadeiros valores do humanismo. O Natal é isto: Paz em todos os habitantes do planeta e amor – seja o que for que entendamos pelo conceito: solidário, disponível, amigo, atento, presente, carinhoso, paciente, compreensivo, alegre, sorridente, ouvinte, confidente, partilhado, arejado.

Dezembro de 2016
António Bondoso
Jornalista