Com
frontalidade, argúcia e rigor, bebidos em estudo e em conhecimento profundos, o
autor faz desfilar nas viagens experimentadas de Paulo de Trava Lobo o
argumento:
«Universidade,
Porto, Angola, Comandos, Guerra, Sexo, Paixões várias – quentes e intensas –
mas o Amor da sua vida vertido na sua mulher Iza, Alemanha, Angola de novo mas
já como “cooperante”…conhecedor, professor e amante de Literatura, um tempo
difícil de aventura e de afirmação de caráter, antes do seu regresso «esgotado»
ao “Puto” pela segunda vez: «Ia para a bela e brutal terra da palanca-negra
cheio de garra e voltava a Portugal de rastos».
Talvez um estado depressivo, depois de uma agitada permanência numa Angola que foi e que já não era, tal como hoje – uma Angola que passou e que já não é, embora continue a ser um país “esquemático” e onde “o tempo sobra sempre”. Nesta segunda vez, Paulo percebe toda a estrutura do que lhe disseram ser uma “Ditadura Democrática”. E naquele espaço entre Luanda e a Huíla, percorrendo a magia e os perigos das belas curvas da Serra da Leba – capa lindíssima! – Paulo entende a guerra fratricida, não só MPLA/UNITA mas no seio do próprio MPLA, e vai sabendo como funciona o regime tirano suportado por namibianos, cubanos, russos e outros países de Leste, por oposição aos “Carcamandos e Kwashas”. E a «cooperação» apressada, mal orientada – ou melhor – orientada ideologicamente e pela qual Paulo foi contornando os «pingos da chuva» sem stress, graças também ao seu conhecimento do tempo antes, o tempo da tropa que manda e que mata, os Comandos.
Bastou
devorar as primeiras quarenta páginas para perceber que estava perante um dos
mais belos romances sobre uma das «minhas Áfricas». Sobretudo, identifico-me
com o romance. Pelas memórias, vividas ou lidas; pela beleza crua da escrita
que sabe conciliar a urbana simplicidade do falar com o erudito conhecimento
cultural e histórico do autor.
O regresso de Paulo de Trava Lobo ao
Porto não foi fácil. O «estado depressivo» seguiu, tornando-se um “homem de
tascas” que passava os dias “entre copos e ressacas”, comprometendo a sua
relação com Iza. E havia ainda um fortíssimo «grito» da búlgara Diana, cooperante
como ele na Huíla e que, depois de chantageada pelos seus camaradas comunistas,
levaria Paulo e os amigos angolanos à construção de um acidente mortal que «despacharia»
o espião Dimitrov na Leba. Por isso, e tendo em conta “causas e consequências”,
uma acalmante viagem à Bulgária para colocar o passado recente no armário. Mas,
não muito depois do regresso, um acidente rodoviário por força do álcool,
colocou Paulo às portas da morte. Iza, apesar de tudo, foi o amparo do
«esqueleto quase desfeito».
Outro tipo de instabilidade vivia-se na Universidade, onde dominavam a intriga e a hipocrisia. Paulo não alinhava. E a tábua de salvação teve mais uma vez a mão de Iza que o encaminhou para a Alemanha e para o doutoramento em «Camões», o que o levaria depois à ULL, no Campo Grande, e aonde chegaria de novo a «chantagem» do “Longo Braço do Passado”, antes da felicidade plena com Iza.
António
Bondoso
Agosto
de 2022.
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