2011-10-18

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !


Como vamos de Crise ?

Nada bem, como calculam. É pesada, preocupante, pessimista, ... tal como crítica, cruel, criminosa

E num momento em que todos falam de tudo - viva o espaço público alargado - talvez seja acertado ou avisado dar voz a quem, de forma clara, esteja abalizado para tal. Quero crer que, actualmente, isso acontece no dia a dia, quer seja na imprensa, na rádio, nas televisões, nas redes sociais na net. Mas sem retirar mérito aos que nos são - têm sido - próximos, julgo que ainda há espaço para atentarmos em mais algumas opiniões. Independentemente de termos acompanhado o Prós e Contras , na RTP1 e ouvir hoje, na Antena 1, falar de Internacionalização e Competitividade, posso remexer nos meus papeis e encontrar um texto de 2010. Mantém-se muito actual...como veremos:

INTRODUÇÃO

Este trabalho, subordinado ao tema Estratégias de Internacionalização em Tempo de Crise:Ousadia ou Cautelas, deve-se por um lado à actual conjuntura de crise e, por outro, à persistência dos problemas estruturais da economia portuguesa – nomeadamente as tradicionais faltas de competitividade e de produtividade.

Como ultrapassar o problema? – é a genérica questão de partida para este trabalho, procurando-se ainda respostas para outras situações como: só exportar? internacionalizar a produção? Formar consórcios nacionais para competir no estrangeiro? Apenas cooperar com empresas locais para expandir o negócio? Qual a melhor forma de enfrentar os desafios da globalização?Que pilares para uma estratégia nacional?

Dividimos este projecto em três partes, sendo a primeira dedicada ao enquadramento teórico da internacionalização da economia, às suas motivações de uma forma geral nesta era de globalização; um segundo capítulo em que se procura salientar os diversos estágios do processo – desde a exportação (a que dedicamos particular atenção) até ao ponto alto da empresa multinacional ou transnacional. Antes da conclusão, um capítulo especialmente dedicado ao que Michael Porter chama de arma decisiva – a estratégia – quer no plano mundial, quer no plano nacional, dando relevo a casos positivos de algumas empresas portuguesas neste tempo de crise mundial.

I

RAZÕES PARA A INTERNACIONALIZAÇÃO.

“A estratégia de internacionalização corresponde a uma lógica de diversificação geográfica no processo de desenvolvimento da empresa”.

Michael Porter (1986)

A ideia não é exclusiva de Michael Porter. O que ele chama de lógica de diversificação geográfica é comum em qualquer manual de economia. O crescimento e o desenvolvimento de uma empresa – seja ela pequena, média ou grande – numa era global, implica necessariamente uma relação internacionalizada. É até já muito comum dizer-se que, quem não faz parte da economia global, não existe.

António Alexandre da Costa Abrantes, docente na ESTV – Departamento de Gestão – do Instituto Politécnico de Viseu, apresenta duas perspectivas para uma definição de internacionalização: por um lado, tendo em conta as empresas e os mercados onde pretendem actuar, “internacionalização significa a actuação em diferentes nações conduzindo movimentos de factores de produção como tranferências de capital, desenvolvendo projectos em cooperação com parceiros estrangeiros, ou simplesmente comercializando os seus produtos noutros países” – a vulgarmente designada exportação. Já no sentido macro-económico, “internacionalização tem a ver com o conjunto dos fluxos de trocas de matérias-primas, produtos acabados e semi-acabados e serviços, dinheiro, ideias e pessoas, efectuadas entre dois Estados-nação”.

C. Pasco, na sua obra Mercatique et Negociacion Internacionales, apresenta a internacionalização como o desenvolvimento das actividades das empresas em sistemas económicos, políticos e culturais diferentes. E acrescenta que esse desenvolvimento internacional adquire formas variadas, as quais traduzem diferentes graus de apreciação e de ligação aos mercados estrangeiros e também motivações e e objectivos diversificados – conduzindo estes últimos a múltiplas estratégias de internacionalização. Conclui, dizendo que “L’internationalisation est alors un processus, une succession d’étapes permettant à l’entreprise de réaliser un apprentissage progressif des marchés étrangers”.

Sabendo que as razões e motivações da internacionalização se prendem fundamentalmente com a ambição de aumentar o volume de negócios (quer pela pequena dimensão, quer pela saturação dos mercados nacionais, quer ainda pela oportunidade e motivação do líder da empresa), pode concluir-se destas perspectivas que as vantagens ou desvantagens da internacionalização estão relacionadas com um conjunto de externalidades que o hipotético país hóspede pode oferecer. Os médios e grandes empresários procuram sobretudo economias de escala e a redução dos custos de produção.

Mas há outras motivações para a internacionalização, como refere Vitor Corado Simões (1997) citado por Henrique Diz e Sebastião Teixeira em Estratégias de Internacionalização (2005). Vitor Simões sintetiza os motivos em cinco grandes grupos: endógenos – nos quais se destacam ainda a exploração de competências e tecnologias e a diversificação de riscos; características dos mercados – limites internos e percepção de dinamismo dos mercados externos; relacionais – como a resposta a concorrentes, o acompanhamento de movimentos de internacionalização dos clientes e abordagens por empresas estrangeiras; acesso a recursos no exterior – deslocalização devido a custos de produção mais baixos no exterior e acesso a conhecimentos tecnológicos; incentivos governamentais por último – traduzidos em apoios dos governos, do país de origem ou de acolhimento.

Por outro lado e segundo a revista MOCI (1991), para 85% das PME-PMI, a exportação (temática a que dedicaremos particular atenção no capítulo II) é uma dimensão essencial para o desenvolvimento da empresa. A mesma fonte revela que a exportação é uma oportunidade para 15% dos inquiridos; 34% consideram que exportar é uma obrigação e 51% salientam que a exportação é uma escolha estratégica.

Mas Costa Abrantes diz também que pode mesmo acontecer que a internacionalização “deva iniciar-se não pela exportação de bens e serviços mas logo pela aquisição ou criação de uma unidade produtiva no país de destino”. A ideia é baseada nas profundas mudanças que ocorreram nas últimas décadas e referidas por J. Antonio Alonso (1994), nomeadamente:- o protagonismo crescente das pequenas e médias empresas; novas fórmulas institucionais de associação de empresas, mais flexíveis e que permitem um melhor aproveitamento das vantagens competitivas; e ainda o facto de a internacionalização já não ser uma aventura solitária para uma empresa – antes a integração numa rede de acordos inter-empresariais erigidos por cima das fronteiras políticas.

Internacionalizar, acrescenta Costa Abrantes, deixou mesmo de ser uma questão de opção para se tornar num desafio de sobrevivência.

Não sendo a economia uma ciência exacta, como diz o Prof. Fernando Almeida, é preciso ter uma visão do mundo onde estamos ou procuramos inserir-nos. Ao partir para um projecto externo, deve, por isso, ter-se em conta os custos da mão-de-obra, as condições de financiamento e de crédito, as taxas de juro, a flexibilidade da legislação laboral, o sistema de justiça, o sistema de saúde, o clima, a inovação tecnológica, transportes e comunicações, a demografia, o PIB e a estabilidade política.

Deste conjunto de condições técncicas específicas, geográficas, geopolíticas e geo-económicas e de infraestruturas resulta a ideia de que tudo está ligado, como no chamado diamante de Porter. A estratégia (uma arma decisiva para Porter) – não só da empresa como do país – a estrutura e a rivalidade das empresas, as condições de procura, as indústrias de suporte e as condições de factores, tanto no que diz respeito às dotações básicas (recursos naturais e clima) como às dotações adiantadas (a investigação e o conhecimento). Ambas, como se sabe, determinam a quantidade e a qualidade dos produtos que se pretendem colocar no mercado.

II

EVOLUÇÃO DAS ESTRATÉGIAS DE INTERNACIONALIZAÇÃO – SUAS FASES E FORMAS ALTERNATIVAS.

“Uma das principais razões para o fracasso de muitos negócios internacionais é a falta de preparo para enfrentar a complexidade e a incerteza decorrentes da intensa integração mundial”.

Manuel Teixeira (2006)

Manuel Teixeira, director do Centro de Inteligência Textil – CENIT – que desenvolveu o conceito do Homem Transnacional, apresenta quatro opções distintas de internacionalização, de acordo com uma reduzida ou elevada adaptação local (empresa internacional e empresa multinacional/multidoméstica) e também de reduzida ou elevada integração global (empresa global e empresa transnacional). As diferenças estão exactamente na estratégia e no modelo de organização (ver figura anexa 1).

Na empresa Internacional, a estratégia é a “extensão do modelo de negócios e do marketing-mix do país de origem a mercados externos”. A inovação gerada na sede pode permitir reduzir custos e aumentar receitas. O modelo de organização deste tipo de empresa é entendido como uma “federação coordenada, com descentralização de tarefas e responsabilidades”. No entanto, tudo é controlado pela sede.

Na empresa Multinacional, procura-se “desenvolver produtos adequados às preferências dos clientes dos diversos mercados geográficos, isto é, opta por dar resposta às diferenças e exigências locais”. Quanto ao modelo de organização, aparece-nos uma federação com recursos descentralizados e auto-suficientes e com delegação de responsabilidades.

A estratégia da empresa Global assenta no desenvolvimento de “vantagens competitivas, capitalizando nas economias associadas ao desenho normalizado do produto, produção em economias de escala mundiais (liderança no custo), além do controlo centralizado das operações”. A organização apresenta um modelo com um núcleo centralizador, verificando-se um apertado controlo central das actividades que geram valor.

Finalmente, a estratégia da empresa Transnacional é marcada pela integração global e resposta local, assentando o actual desafio em três pressupostos:- “eficiência global como forma de atingir a competitividade global; capacidade de resposta local como forma de atingir a eficiência das operações globais; e o desenvolvimento das inovações, que são entendidas como o resultado de um processo alargado de aprendizagem organizacional que engloba cada elemento da empresa”. O modelo de organização é híbrido – federação descentralizada e uma gestão integrada e interdependente.

Um esquema semelhante é apresentado por Hill (2004) – citado por David Bennett num ensaio para Internacionalização e os Países Emergentes, de Fleury e Fleury (2007) – ao identificar duas dimensões ou condições de negócio importantes:- pressões de custo e pressões por responsividade local, ambas variando de baixas a altas (ver figura anexa 2).

Parece não haver, contudo, um modelo único e paradigmático que possa ser reconhecido como o melhor. Mesmo antes de se atingirem estes níveis da pirâmide da internacionalização, sempre houve alternativas para as empresas. Manuel Teixeira destaca a exportação directa – com a vantagem de maior informação sobre o mercado e maior controlo sobre os canais de distribuição, embora apresente como desvantagens maior dificuldade de penetração inicial e maiores custos de estrutura; e a exportação indirecta – que permite maior facilidade de penetração inicial e menores custos de representação, mas que também propicia um menor controlo e uma menor informação sobre o mercado.

E nesta perspectiva de acesso aos mercados estrangeiros que é a exportação, continua a não afirmar-se um modelo único. O Prof. Fernando Almeida, por ex, considera três grandes grupos:- a exportação Controlada, a Contratada e a Concertada.

Incluindo naturalmente a directa e mais simples no primeiro grupo – com um produto standardizado – Fernando Almeida chama a atenção para a dificuldade em assegurar a qualidade do serviço e fidelizar a clientela. Para além do representante no estrangeiro, do escritório de representação e do Agente, este economista destaca a importância de saber distinguir as vantagens e os riscos entre as hipóteses Sucursal e/ou Filial. Enquanto a primeira é uma extensão da casa-mãe, assumindo esta todas as vantagens e todos os riscos da sucursal, já a filial tem razão jurídica autónoma. É a filial que assume todo o esforço da produção e/ou distribuição – tal como o risco – cabendo à empresa original apenas uma percentagem dos eventuais lucros.

No segundo grupo – a exportação Contratada – Fernando Almeida considera o importador, o concessionário (importador exclusivo) e outros intermediários (proprietários e não proprietários) tais como o mediador, o comissário e o consignatário, refere a especificidade dos escritórios de compra estrangeiros, recorda a antiga utilidade das Sociedades de Gestão para a Exportação e, por último, fala de um tipo de penetração indirecta nos mercados estrangeiros nos quais a exportação directa é difícil ou não é permitida – como é o caso das transferências de tecnologia que podem assumir duas formas: a cedência de patente e a licença.

Relativamente à exportação Concertada, é comum referir a Joint-Venture e o Franchising e a menos conhecida Portagem, atribuindo-se especial atenção aos Agrupamentos de Exportadores – conjuntos de várias empresas exportando em comum e beneficiando de sinergias. Ganham importância no caso particular das PME, sendo fundamental que não haja concorrência, que se verifique homogeneidade no número limitado de participantes, regras de funcionamento bem definidas e um bom entendimento entre os membros do agrupamento.

Mas há também o que se designa por IDE – investimento directo estrangeiro – o qual pode assumir formas de carácter comercial ou industrial, de acordo com Fernando Almeida – como se viu – e também com Costa Abrantes. Este autor cita Rugman e Hodgetsvi para salientar algumas das razões para o IDE, concretamente entrar rapidamente em mercados com forte crescimento ou tirar partido de operações dentro de blocos como a UE – tendencionalmente proteccionistas.

III

ESTRATÉGIAS GLOBAIS E ESTRATÉGIA NACIONAL – EXEMPLOS DE ALGUMAS EMPRESAS PORTUGUESAS.

“Estratégias internacionais ao nível das empresas são ditadas em grande parte pelas vantagens competitivas desenvolvidas por elas em seus países de origem. À medida que crescem e ganham escala em seus países de origem, as organizações desenvolvem competências que se traduzem em vantagens específicas das empresas (DUNNING,1988). Além disso, as estratégias internacionais possuem importantes influências da estrutura do setor e da sua evolução (PORTER,1998). Em indústrias globais, a estrutura do setor, assim como as competências e os recursos desenvolvidos no país de origem, conduzem às opções estratégicas disponíveis às empresas nos mercados internacionais”.

Betânia Tanure, Álvaro B. Cyrino, Érika Penido (2007)

Numa rápida leitura da citação supra, a primeira ideia a retirar poderá ter a ver com a tentação de transportarmos o conteúdo para a situação portuguesa. Pela negativa, naturalmente, já que hoje o pensamento maioritário expresso pelos especialistas e comentadores alinha por estas palavras de Daniel Bessa (2010): “o problema fundamental da economia portuguesa é não ter oferta.[...] A nossa economia tem de ganhar alguma competitividade, ser capaz de vender mais alguma coisa”.

Competitividade, produtividade – exactamente alguns dos problemas elencados na nossa introdução com o objectivo de justificar a oportunidade e a escolha do tema deste trabalho. Explorando os conceitos, vemos que a OIT – Organização Internacional do Trabalho – define produtividade como a relação entre os bens e serviços produzidos e o valor dos recursos utilizados no processo de produção. Competitividade, por sua vez, é apresentada nos manuais como ter maior produtividade que os concorrentes para assegurar a sobrevivência da empresa. E isso só se consegue se aliarmos qualidade à produtividade. Esta, só por si, não resolve o problema da competitividade. Por isso se refere habitualmente a necessidade de inovação, ter capacidade para inovar.

A ideia é visível na mais recente literatura económica que, de acordo com Ana Paula Faria (2009), “reconhece de forma inequívoca que a contínua introdução de inovações tecnológicas e sua difusão pelos vários agentes económicos é um dos principais motores do crescimento económico das empresas e das nações”. Doutorada em Economia pela Universidade de Nottingham e docente na Universidade do Minho, Ana Paula Faria identifica dois temas de particular relevância associados à inovação e aos seus efeitos na actividade económica:- o estudo do processo de adopção e difusão das inovações tecnológicas e o impacto destas na produtividade.

Embora seja fundamental não esquecer a questão do financiamento, o problema é por vezes colocado de forma simples – apenas como uma nova maneira de olhar para as coisas. Ao reflectir sobre como manter o sucesso nos negócios em condições económicas adversas, Patrick Forsyth e Frances Kay escreveram sobre Estratégias Eficazes para Tempos Difíceis (2009). Lembram por exemplo a ajuda que é ter algumas ideias ingénuas, buscando as leis imutáveis do marketing – nomeadamente “é melhor ser o primeiro do que ser o melhor” ou “se não puder ser o primeiro de uma categoria, estabeleça uma categoria nova em que possa ser o primeiro”. Pode ser uma questão de atitude – acrescentam: “pode achar difícil manter uma perspectiva positiva quando está a remar contra a maré. Mas, se tem tendência para fazer afirmações negativas, tente, em vez disso, transformá-las em positivas”.

Os mesmos autores falam ainda da descoberta de novas oportunidades e de alianças estratégicas que, muitas vezes, são a forma de avançar para pequenas e médias organizações. Papel importante desempenha “a cooperação com concorrentes, clientes, fornecedores e companhias que produzem produtos complementares”. Em tempos difíceis, acrescentam, “a cooperação tem mais sentido do que a concorrência”.

Nesta perspectiva, de certa forma, podemos incluir o “Cluster Moda” patrocinado por empresários texteis do Norte de Portugal e da Galiza. Num encontro realizado o mês passado, no Porto, Manuel Teixeira, do CENIT, salientou que “deve ainda existir mais cooperação entre as duas regiões. Elas são complementares, há espaço para projectos com mais profundidade e ambas as regiões têm muito a ganhar uma com a outra”. A ideia resulta de um estudom sobre a “Análise da Indústria Têxtil e Vestuário do Norte de Portugal e da Galiza: Consolidação da Complementaridade do Cluster Transfronteiriço na Euroregião”. Na mesma ocasião foi também apresentada uma base de dados com os players dos dois lados da fronteira, uma ferramenta que Alberto Rocha Guisande, secretário-geral da AIPC – Asociación de Industrias de Punto y Confeccion – diz pretender “identificar os elementos mais dinâmicos de toda a cadeia de valor e fomentar uma cooperação competitiva entre empresas”.

No encontro marcou ainda presença Marco Bettiol, Professor da Universidade Internacional de Veneza e Universidade de Pádua, que salientou a criatividade como o segredo do sucesso para o futuro: “É preciso que a estrutura e a empresa sirvam o empreendedorismo. A empresa tem de ser criada para ser criativa”.

Diremos que, neste ponto, poderá ter início o “ciclo do sucesso”:- criatividade, diferenciação, qualidade, produtividade, competitividade. E para competir nesta era global é fundamental a internacionalização da economia, para a qual o governo aprovou recentemente uma dotação financeira de 250 milhões de euros. Um pacote que prevê a criação de 14 Lojas da Exportação – a primeira das quais foi inaugurada em Leiria no início de Abril. Ali disse o Primeiro Ministro que “precisamos de exportar serviços com mais valor e mais tecnologia, para novos mercados e precisamos de exportar mais”.

Numa altura em que o comércio mundial verifica a maior queda desde a II Guerra – 12% em 2009 – a actividade económica em Portugal recupera muito lentamente, ainda em terreno negativo diz o INE. Apesar de tudo as exportações cresceram 7,6% no início de 2010, destacando o Instituto Nacional de Estatística que não havia variações homólogas positivas no comércio internacional desde Outubro de 2008.

É neste quadro que se anuncia por exemplo a preparação de um novo acordo económico entre Portugal e a Rússia com o objectivo de reverter a redução de 30 por cento nas trocas comerciais em 2009; sabe-se que o sector do calçado ultrapassou o têxtil na batalha da internacionalização, sendo exemplo a empresa Ferreira Avelar e Irmão, de Santa Maria da Feira, com uma facturação de 5 milhões de euros e exportando 97% da sua produção.

E as exportações verificam-se cada vez mais para fora da Europa, com destaque para os PALOP – sobretudo Angola – e para a América do Sul, particularmente a Venezuela.

A Sovena, uma empresa de gorduras alimentares, tem como principais mercados a Tunísia, o Brasil e os Estados Unidos, embora também se destaque a Espanha.

As construtoras portuguesas apostam cada vez mais no estrangeiro, com realce para Angola, Moçambique, Marrocos e Argélia. A África do Norte, sobretudo Argélia e Líbia, e o Médio Oriente – Omã – vão ser apostas da Soares da Costa em 2010.

E a EFACEC pretende crescer nos EUA. O grupo inaugurou recentemente uma unidade de transformadores na Geórgia, onde espera facturar mil milhões de euros até final do ano, e pensa em diversificar as actividades para as áreas do transporte ferroviário, engenharia e energias renováveis.

CONCLUSÃO

“2007-2010: uma profunda crise estrutural, de entranhadas raízes, angustia Portugal; sobrepõe-se-lhe uma crise conjuntural, especialmente no sector financeiro, ligada às convulsões por que atravessa o mundo; por seu turno, dando volta ao globo, as formas da economia e sociedade são abaladas também nas suas estruturas, e o confronto de civilizações põe em causa o rumo da humanidade. [...] Nestas circunstâncias adversas, será bom que ressurjam as inquietações, e não se desista de reflectir na pergunra inevitável: que rumo para Portugal?”

Vitorino M. Godinho (2009)

Uma eventual resposta a esta questão de Vitorino Magalhães Godinho será sempre demasiado complexa, tanto quanto possa dizer respeito à dimensão mundial. Citando um ditado árabe que diz que “Quem pretende prever o futuro está a mentir, mesmo se, por acaso, o que diz se vem a revelar certo” – o economista e actual deputado liberal democrata britânico Vince Cable (2009) salienta que “A extraordinária rapidez com que a crise se desenvolveu e esmagou quem não estava preparado para ela deve sublinhar a necessidade de cuidado na antevisão dos próximos meses, já para não falar dos próximos anos. Talvez seja mais útil pensar em cenários plausíveis em vez de em desenvolvimentos prováveis, e enquadrar quaisquer propostas políticas num espírito de humildade, reconhecendo que ninguém compreende plenamente o que está a acontecer e o modo como o actual drama se desenrolará”.

Mas esta verdade não poderá bloquear decisões e soluções. E embora alguns reconheçam que dar tempo ao tempo pode ser a maneira mais rápida e mais segura, também não deixa de ser interessante a recomendação de Patrick Forsyth e Frances Kay:- não seja cauteloso, seja ousado. Cocretizando, escrevem que “Perceber as raízes da competitividade é a chave para o crescimento e o sucesso em tempos difíceis. A questão com que todos se defrontam é como distinguir o que faz realmente a diferença (no meio de tantos dados, de conselhos não solicitados e de mensagens comerciais competitivas)”. E nesta perspectiva salientam a importância das TIC – tecnologias de informação e comunicação – na competitividade.

Não havendo modelos únicos para situações bem diversas, podemos incluir aqui com plena legitimidade a ideia da economista Helena Marques (2009), docente na Universidade de Manchester, sobre a estratégia de internacionalização da economia portuguesa – a qual deve assentar em três pilares fundamentais: “Primeiro, é necessário identificar o potencial competitito nacional que distinga o país dos seus principais competidores. [...] Segundo, é necessário identificar parceiros comerciais em forte crescimento e com fortes perspectivas de crescimento. [...] Finalmente, a estratégia de internacionalização da economia portuguesa nas duas últimas décadas tem passado pela integração na economia europeia, com implicações para os padrões de comércio externo e especialização internacional de Portugal”.

Fica implícita a necessidade de acompanhar as constantes mutações que, para António José Telo (2010), tornam especialmente complexo e exigente o seu conceito de estratégia nacional: “Penso que uma estratégia nacional é definida no essencial por um conjunto de grandes objectivos nacionais, que tem associados a si as linhas mestras das políticas necessárias para os concretizar, tanto em termos de recursos, como de agentes, alianças e prazos, incluindo a forma de contrariar eventuais oposições”. Sendo um conceito histórico para o autor, tem diferentes leituras em cada momento.

Há ainda a ideia de que conhecimento e comprometimento são ideias-chave do processo de internacionalização, como escreve Yongjiang Shi (2007), da Universidade de Cambridge, e o emergente fenómeno do mundo dos negócios de que nos falam Bruno Henrique Rocha Fernandes e Rene Eugênio Seifert Júnior (2007) – empresas de rápida internacionalização: “Pioneiro na área, Rennie (1993) detectou o fenômono ao analisar o comportamento de um conjunto de empresas australianas, batizadas por ele de born globals, que iniciaram a exportação nos primeiros dois anos de vida, dependiam fortemente dos mercados externos e consideravam o mundo o seu mercado natural”. São os chamados NEI – Novos Empreendimentos Internacionais.

FONTES E BIBLIOGRAFIA

Publicações Periódicas e em Série

Agência Lusa

Agência Financeira

Jornal “i”

Jornal de Notícias

BIBLIOGRAFIA

Monografias

CABLE, Vince. 2009. A Tempestade. A Crise Económica Mundial e o seu Significado. Lisboa: Bizâncio.

FLEURY, Afonso e FLEURY, Maria Tereza Leme (Organizadores). 2007. Internacionalização e os Países Emergentes. São Paulo, Brasil: Editora Atlas.

FORSYTH, Patrick e KAY, Frances. 2009. Estratégias Eficazes Para Tempos Difíceis. Lisboa: Espuma dos Dias, Livros – Gradiva.

GODINHO, Vitorino Magalhães. 2009 (2ª tiragem Fevereiro 2010). Os Problemas de Portugal. Lisboa: Edições Colibri.

LAINS, Pedro (Organizador). 2009. Sem Fronteiras. Os novos horizontes da economia portuguesa. Lisboa: ICS – Imprensa de Ciências Sociais.

PASCO, C. Mercatique et negociacion internacionales.

TEIXEIRA, Sebastião e DIZ, Henrique. Publisher Team.

TELO, Antóio José, CRUZ, António Martins da e VITORINO, António (Coordenação).2010. Pilares da Estratégia Nacional. Lisboa: Edições Prefácio e Instituto da Defesa Nacional.

Sítios da Internet

www.portugaltextil.com

www.ipv.pt/millenium/Millenium_15.htm ( António Alexandre da Costa Abrantes – ESTV, IPV.

www.cotectportugal.pt ( Daniel Bessa )

www.anje.pt/feira/media ( Manuel Teixeira, CENIT – O Homem Transnacional ).

2011-09-28

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !



MOIMENTA DA BEIRA ORGULHA-SE DE TER COMO BANDEIRA A FIGURA E A OBRA DE AQUILINO RIBEIRO.









MOIMENTA DA BEIRA ORGULHA-SE DE TER COMO BANDEIRA A FIGURA E A OBRA DE AQUILINO RIBEIRO.

A propósito do centenário do nascimento Mestre... gostei de ver imagens da casa da Fundação em Soutosa - Moimenta da Beira. No Porto Canal. E os outros? Deixo aqui este friso de algumas obras de e sobre Aquilino, talvez pouco conhecidas. E aproveito para rever uma adaptação que o Mestre fez da Peregrinação - de Fernão Mendes Pinto - e que foi publicada pelo Expresso em 2009, através da Editora Sá Da Costa. Formoso livro de aventuras, como não há segundo na língua portuguesa, diz Aquilino.(...) Modernas investigações históricas, textos japoneses vindos a lume, as cartas dos religiosos que missionavam no Oriente, livros de viagens, atestam a fidedignidade da Peregrinação(1640). Mas frisa que o livro está em verdade coalhado de clareiras inexplicáveis. E quem seria Fernão Mendes Pinto?--- Que não era qualquer, tanto na cultura como no trato, em contra do que certos biógrafos se comprazem em notar, ressalta das embaixadas que lhe confiam, mal desembarca em Diu. (...) E foi corsário, aventureiro, soldado. Mas - como refere Aquilino - teve pejo de se exibir antigo capitão de corsários e pôs a Máscara (António de Faria?). Embora o seu vulto seja dos mais avançados da Ilíada portuguesa, faltou-lhe, para a sagração, bandeira de pátria. Sentindo-o, dissimulou-se. E Aquilino termina a sua adaptação interrogando: --- Era judeu marrano? Não se sabe, nunca se virá, porventura,a averiguar. O certo era ser um magnífico e denodado homem, representativo como poucos de um Portugal que findou. Estas palavras de Aquilino Ribeiro foram escritas na Cruz Quebrada, em Dezembro de 1933. Também ele - Aquilino - foi e é representativo do que de melhor teve Portugal.



2011-08-23

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !


O Autor e Família com George Alcântra e Sr Silva - no restaurante Lisboa, no Bairro Português de Malaca.

Quando se teima em remar contra a História !

500 anos de expressão "lusa" em Malaca. Eles, ao contrário de nós, não esquecem !

E só quem lá esteve pode avaliar o "sentimento português" de quem quer preservar, mas não pode, perante tanto abandono!

Bastou ver um dos documentários que a RTP2 passou hoje.

E a propósito, vou aqui deixar parte de um trabalho modesto que elaborei em Novembro de 2008. Peço, por isso, a vossa condescendência para a questão das datas.


INTRODUÇÃO

Terminado o Império físico português, e não se tendo cumprido em qualquer altura e circunstância um tal “Quinto Império” de Vieira ou de Pessoa – ou mesmo de Camões, que o tinha pensado sem qualquer limite à liberdade na ilha dos Amores, como refere Agostinho da Silva[1]- a presença da Cultura e da Língua Lusas no mundo volta a merecer atenções na cena internacional.

Em Portugal, naturalmente; no Grande Brasil; também nos países africanos falantes do português mas não só. A Oriente da História (sobretudo), onde o português desempenhou o papel de língua franca – a par do glorioso passado de Goa, Damão e Diu temos ainda hoje o caso singular e não menos preocupante do território de Macau, desde Dezembro de 1999 parte integrante da República Popular da China.

Foi exactamente em Macau que o Professor Malaca Casteleiro, no Verão passado, se lamentou do facto de Portugal não ter uma política para a língua – dizendo haver falta de dinheiro para coisas essenciais.

Então, como conciliar não só a preservação mas já uma nova expansão, se não houver meios para o conseguir?

Temendo não encontrar uma resposta inequívoca – ou até mesmo minimamente apropriada – vamos procurar recolher algumas opiniões que possam sustentar um caminho a seguir em direcção ao objectivo.

CAPÍTULO I

O ESPLENDOR DO PASSADO NÃO MERECE O ESQUECIMENTO.

“Considero que o monumento mais importante do passado histórico dos portugueses por terras do Oriente não é nenhuma fortaleza ou catedral mas sim o ‘portuguese settlement’ de Malaca, na Malásia. As casas de pescadores são de madeira, mas a sua língua, a sua religião e os seus costumes – o seu substrato cultural – permaneceram ao longo de 500 anos sem outros contactos com Portugal”.

Armando Teixeira Carneiro,

2004[2]

Este testemunho, que podemos de certa forma subscrever – não se desse o caso de desconhecermos muitos outros monumentos e lugares – merece apenas uma ligeira “correcção”: durante os últimos anos da Administração Portuguesa de Macau, a comunidade de luso-descendentes de Malaca foi alvo das atenções que foi possível desenvolver em termos oficiais, mesmo sem o apoio ou iniciativa do Governo da República. De Macau partiram para o Bairro Português de Malaca por exemplo alguns conjuntos de trajes folclóricos para “alimentar” uma das grandes atracções turísticas da cidade[3].

Nós próprios pudemos colaborar com gravações de música portuguesa, incluindo o Hino Nacional (a música que se toca e canta com a Bandeira!) – quer instrumental, quer cantado – a pedido dos proprietários do restaurante Lisboa, Sr. Silva (já por diversas vezes aliciado para trabalhar num restaurante português da ilha de Coloane em Macau) e do amigo Sr. Alcântara, cujos netos nos “brindaram” com a simplicidade e o à vontade de uma longa convivência, dizendo em perfeito e perceptível Kristang que “na escola fala malaio, em casa fala português”! Querendo manter vivas as suas raízes, George Alcântara (Alcantra) publicou mesmo nos anos de 1990 um pequeno livro onde conta toda a história dos luso-descendentes de Malaca e da sua fixação no Portuguese Settlement nos anos de 1930. Escrito embora em língua inglesa e com o título “The Malacca Malaysian Portuguese Heritage”, o livro inclui até um modesto e pequeno “dicionário” de vocábulos portugueses traduzidos para Inglês e para Malay (Kristang)

Num artigo para a Revista Macau, o bolseiro da Fundação Oriente Brian Juan O’Neill[4] – que trabalhou em Malaca cerca de ano e meio – descreve também em pormenor toda essa história e, a propósito do livro “Undi nos by di aki?”[5], destaca as dificuldades que a comunidade enfrenta no presente, nomeadamente a questão jurídica da posse da terra e a construção de um aterro para instalar um complexo hoteleiro – aterro que poderá significar a “morte” do Bairro Português. Ficará em perigo a actividade piscatória a que se dedica ainda uma boa parte dos luso-descendentes. A questão do hotel não é pacífica e tem dividido a comunidade, que receia poderem vir os especuladores imobiliários a colocar em risco a coesão dos cerca de dois mil habitantes do Bairro.

Sem pretender mediatizar excessivamente a questão de Malaca – talvez a menos conhecida e menos estudada das possessões do antigo Império Português – destaque ainda para outro livro, da autoria da Historiadora Beatriz Basto da Silva, publicado em Macau em 1989 pelos Serviços da Educação e distribuído e dedicado às crianças de Malaca. Trabalho pedagógico, simples mas atractivo e bilingue (português e inglês), “Malaca – o Futuro no Passado” põe na palavra de Luís de Camões a história da aventura lusíada que uniu povos e países bem distintos, apesar da distância acentuada. De 1511 a 1641 – foram apenas 130 anos de convívio, contudo suficientes para o que a autora classifica de milagre: “o sentimento de portugalidade preservado pela religião e pela língua lusíada, apesar de tudo em volta ser tão diferente”. Beatriz B. da Silva termina perguntando “será que a herança recebida irá permanecer por muito tempo”?

Uma pergunta ainda sem resposta, tal como muitas outras referentes a outros tantos pontos de contacto luso a Oriente e nos quais a presença portuguesa sempre assentou em dois pilares – a religião católica e a língua crioula.

CAPÍTULO II

INCAPACIDADE = FALTA DE VONTADE POLÍTICA.

“Em toda a parte, aquilo que avulta como menos vulnerável e como cimento mais forte, é realmente a língua e, com ela, se a capacidade existir e a vontade não faltar, o veículo da cultura capaz de disputar o seu espaço e de o fazer crescer”

Adriano Moreira[6]

Aquando da sua eleição presidencial, Cavaco Silva dirigiu aos portugueses na diáspora uma carta[7] em que prometeu criar, na Presidência da República, uma assessoria política para as Comunidades Portuguesas.

Aproveitando a circunstância, as “Comunidades ou Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente” dirigiram a Cavaco Silva uma carta aberta[8], na qual solicitaram atenção para as suas dificuldades de sobrevivência cultural por parte daquela “assessoria”, que funciona – de facto – no âmbito da tradicional assessoria política da Presidência da República. Não se sabe a resposta mas, tratando-se de uma questão de política externa, é natural que o assunto tenha sido encaminhado para a Secretaria de Estado das Comunidades e Cooperação.

Contudo, como é lembrado naquela carta aberta, “a incapacidade de Portugal nesta matéria tem sido uma evidência secular, filha da ignorância e do preconceito”. O documento refere também uma Conferência realizada em Malaca, em 1996, sobre “O renascimento do Papiá-Cristão e o Desenvolvimento do Património Malaco-Português”, na qual as diversas comunicações questionaram temas de grande importância – nomeadamente sobre o crescente interesse dos estudantes e professores malaios pelo estudo do crioulo Kristang; sobre a eventualidade de o crioulo e o Português padrão poderem vir a incluir o sistema de ensino da Malásia e sobre a necessidade de uma sumariação dos crioulos existentes no mundo e de uma troca de experiências dos seus falantes. Apelou-se então ao apoio de Portugal e das Fundações Portuguesas, falando-se inclusive da possibilidade de ligação das Comunidades Crioulas Lusófonas do Oriente à CPLP. Por outro lado – e a atestar a dita incapacidade de Portugal – foi pedido ao Governo Português que viabilizasse a organização de um pavilhão das Comunidades Crioulas na EXPO 98. Primeira resposta – o envio do preçário para arrendamento dos pavilhões! Nova diligência, nova resposta – cada Comunidade deveria diligenciar no sentido de ser incluída nos pavilhões dos respectivos países!

Assunto arrumado e que mereceu do Arcebispo Emérito de Mandalay (Birmânia-Myanmar) – D. U Thang Aung, descendente de portugueses e onde a maioria do clero católico é de origem portuguesa com raízes na cidade de Pegú, desde 1600 – o comentário de que “quem nunca recebeu a mais ténue manifestação de solidariedade de Portugal nada tem a esperar daí”!

Confirmando este lamento e dando corpo ao título deste Capítulo II e ainda ao “se” de Adriano Moreira, não é de estranhar que o crioulo de Myanmar – já não seja falado, tendo a comunidade perdido, com o tempo, os nomes e apelidos cristãos, apesar de permanecer fiel à religião católica.

Em Goa – considerada em tempos a Roma do Oriente – ainda hoje se fala e escreve em português padrão, não tendo as características dialectais chegado a dar origem a um verdadeiro crioulo[9]. A presença da Fundação Oriente tem, certamente, muita influência, mas o mesmo parece já não acontecer em outras regiões da Índia, como Diu, Damão, Mangalor, Cananor, Mahé e Cochim – e também no Sri Lanka, Xangai, Java, Flores, Bali, Sumatra e Singapura.

Entretanto em Korlai, junto a Chaúl, na Índia – é provável que ainda resista o crioulo Kristi, revelado ao mundo somente em 1982 pelo etnólogo romeno Laurentiu Theban, e na Tailândia (Bangkok e Ayutia) ainda permanecem vocábulos de uso corrente no relacionamento familiar e na religião.

Aliada a outros sinais da presença lusa a Oriente, a preservação e a expansão do ensino da língua devem ser encaradas – não como despesa mas sim como investimento para o futuro de Portugal – opção estratégica que implica equacionar meios e objectivos diferentes, consoante os territórios e os públicos alvo.

Esta evidência, a par de um real desinvestimento por parte do Estado Português ao longo dos últimos anos, estava contida num Projecto de Resolução apresentado por deputados do PCP na A.R., já em 2005, e no qual se propunha – por ex – a criação de um sítio na Internet; a divulgação de programas de qualidade na RTP Int., na RTP/África e em idênticos canais da Rádio Pública, de modo a estimular a aprendizagem da língua portuguesa no mundo; e o apoio aos Órgãos de Comunicação Social de língua portuguesa publicados ou transmitidos no estrangeiro.

Não se conhecem efeitos práticos desta iniciativa do PCP mas, a julgar pelas críticas que continuam a surgir de diversos quadrantes, não terá sido um projecto bem sucedido. Curiosamente, no mesmo ano, o sítio do Ministério da Educação na Internet, sobre a promoção e ensino da língua – antecipava que “O século XXI assistirá, pois, a um assinalável processo de expansão da Língua Portuguesa nos diversos continentes”.

É verdade que o século actual vai ainda consumir muitas e longas décadas, mas também é um facto que os primeiros anos não têm sido muito animadores para tal desiderato. Guerras e crises financeiras e económicas complicam o presente e ensombram o futuro.

Numa análise breve e simplista, poder-se-á ficar com a ideia de que o assunto é ‘um caso perdido’.

Contudo e certamente não de forma espontânea e casuística, eis que a Indonésia – através do seu Embaixador em Lisboa, o timorense por nascimento Francisco Lopes da Cruz[10]afirma ter dado início aos contactos para obter o estatuto de observador associado da CPLP. A Indonésia tem Timor-Leste como vizinho e o relacionamento entre os dois países é excelente – disse Lopes da Cruz – acrescentando haver muitas razões de ordem histórica que ligam a Indonésia a Portugal, sobrando ainda o facto de a língua indonésia contar com cerca de duas mil palavras de origem portuguesa.

Uma aposta estratégica e geopolítica da Indonésia – sem dúvida – mas também um verdadeiro ‘balão de oxigénio’ para os objectivos de Portugal nesta matéria.

As palavras de Lopes da Cruz mereceram já assentimento e elogios por parte do Presidente Timorense, Ramos Horta[11]: “é uma excelente ideia” e a Indonésia “é um país com longas tradições portuguesas. Só por aí, a Indonésia merece o estatuto”.

Ramos Horta levantou ainda a hipótese de ser concedido o mesmo estatuto à Malásia por causa de Malaca, se esse país se mostrar interessado.

CAPÍTULO III

TIMOR-LESTE E MACAU – CASOS ESPECIAIS.

“Seria lógico pensar-se que o fim da administração portuguesa de Macau significaria a morte da língua portuguesa na China. Mas ao fazer de Macau uma plataforma para os países lusófonos, a política de Pequim mudou tudo. Afinal, há um número crescente de chineses que querem aprender a falar português”.

Luís Pereira, na Revista Macau[12]

Não há muito tempo, este lead de um artigo na Revista Macau com o título “queremos falar português” talvez merecesse dos eternos cépticos um sorriso irónico e amarelo. Mas hoje, mau grado a “falta de (vontade) política”, a falta de estratégia ou a falta de meios financeiros, há que encontrar um caminho para dar resposta – não só à procura (essencial no imediato) mas sobretudo ao “esquecimento” de longo prazo, onde estão os afectos e onde o futuro da língua pode ser mais sólido e mais duradouro.

Já vimos o caso de Goa onde, apesar de ainda se falar e escrever em português corrente, a língua está em regressão. Segundo Vasco Graça Moura[13], a situação só poderá ser ultrapassada “se houver políticas de cooperação bilateral suficientemente fortes e sugestivas”. Em Timor, acrescenta Vasco Graça Moura, “a tradição cultural e religiosa, aliada à cooperação bilateral e inscrita em todo o complexo processo que levou à independência em relação à Indonésia, levam a que o português possa aspirar a um papel importante na construção desse novo país”.

Não custa imaginar, por isso, que – se “a capacidade existir e a vontade não faltar”, na palavra de Adriano Moreira – as recentes declarações de Lopes da Cruz e de Ramos Horta possam ultrapassar a simples retórica.

Timor, ex-colónia portuguesa, independente em 1975, invadida e ocupada pela Indonésia que a fez sua 27ª província, libertada pela ONU em finais do século XX e de novo independente em 2002 – tem dezasseis línguas autóctones[14]que, ao longo do último século, foram “ligadas” pelo tétum-Praça (ou tétum-Díli), uma forma específica do tétum, crioulizado pelo português. De considerar também a importância recente do inglês e, particularmente, o português e o bahasa[15] indonésio.

Ao inverso do português durante o período colonial – praticamente só as elites escolarizadas e os funcionários da administração pública nos grandes centros utilizavam a língua de forma corrente – o idioma indonésio foi imposto (com a proibição total da utilização da língua portuguesa) numa tentativa de promover a assimilação completa do povo timorense. Uma intenção acompanhada, e salientada por Rui Feijó, de “uma invasão administrativa e da religião muçulmana, na sequência de uma invasão militar que, nos primeiros quatro anos, terá sido responsável pelo desaparecimento de cerca de duzentos mil cidadãos”.

Mas foi exactamente neste período de ocupação indonésia que os timorenses decidiram afirmar a sua identidade, resistindo por todas as formas – até mesmo pela simples “nomeação” e, talvez particularmente, pela religião. O estudo de Rui Feijó destaca o baptismo de amplos sectores da população de qualquer escalão etário no tempo indonésio e cita Frédéric Durand (2004)[16] para referir que “a população baptizada terá passado de cerca de um quarto a mais de três quartos” adoptando geralmente nomes em língua portuguesa.

E há ainda a “guerrilha” – diz Rui Feijó. Taur Matan Ruak (o seu último comandante), em 2001, sustentou ter havido três factores de peso na decisão de a guerrilha manter o uso da língua portuguesa: “a) a presença de intelectuais falantes dessa língua, cujo contributo para a formação da estrutura militar da guerrilha terá sido considerável; b) a existência entre os timorenses conhecedores da língua escrita de um elevado número de indivíduos que se exprimiam em português; e ainda c) o facto de ser uma língua ortograficamente estabilizada e desenvolvida”. Essa – acrescenta Taur – seria “uma arma para contrapor à língua malaia no âmbito da luta cultural”.

Contudo, é um problema passado. Hoje, interessa criar ali condições para um correcto e atractivo ensino da língua a estrangeiros.

Como se clama hoje em Macau (tanto pelo IPOR como pelo IPM e pela Universidade), onde a grande maioria da população chinesa nunca se interessou pela aprendizagem do português – exceptuando talvez o esforço desenvolvido nos últimos anos da Administração Portuguesa. A falta de capacidade e de uma política das entidades de Portugal para o ensino e expansão da língua foi uma constante e Rui Rocha[17] – empresário macaense de origem portuguesa – diz mesmo que “Portugal sempre desprezou Macau”.

Vasco Graça Moura salienta o exemplo de Goa, em contraponto com o caso de Macau, onde – “sem uma política concertada com as autoridades daquela autonomia especial da República Popular da China, o português estaria condenado a desaparecer de todo a breve trecho”.

Voltando a Luís Pereira e ao seu trabalho na Revista Macau, o Director dos Serviços de Educação – Sou Chiu Fai – afirma que o interesse pelo português se faz sentir desde a escolaridade infantil ao secundário complementar, incluindo o nocturno e programas de formação contínua. Mas… só há um professor de português por cada 2,3 escolas, exceptuando as do ensino luso-chinês e, naturalmente, a Escola Portuguesa.

De que se queixam as instituições para o ensino do português em Macau? Sobretudo da falta de materiais adequados, pelo menos numa versão bilingue, com explicações gramaticais e vocabulário para facilitar o processo de estudo – afirma o director da Escola Superior de Línguas e Tradução do IPM, Choi Wai Hão[18]. O Prof. Malaca Casteleiro está de acordo, confessando que os materiais bilingues produzidos em Portugal apenas se adequam ao contexto europeu.

Para além do Tribuna de Macau, há outros jornais em língua portuguesa como o Clarim, o Hoje Macau e o Ponto Final.

José Sales Marques, macaense e antigo Presidente do Leal Senado – hoje Presidente do Instituto de Estudos Europeus – aproveitando mais um aniversário do Hoje Macau[19] e referindo-se à questão do que deve ser um jornal em língua portuguesa naquele território, hoje, afirmou que “deve contribuir para a divulgação da língua portuguesa e da nossa cultura numa perspectiva de diálogo humanista e sem preconceitos sobre o passado, como processo legítimo de vincar e aprofundar uma mais-valia da RAEM: a sua diversidade cultural”.

Recorda-se ainda que a Administração de Macau mantém em funcionamento um canal de rádio e outro de televisão em língua portuguesa, apesar da diminuta percentagem de falantes – mas como resultado dos acordos que levaram à transferência de poderes para a RPC. E é exactamente no vasto território chinês que a língua portuguesa é cada vez mais procurada. Só em Pequim, já existem quatro universidades que leccionam a língua portuguesa.

CONCLUSÃO

Tendo em atenção que a língua portuguesa é a sexta a nível mundial, a terceira língua europeia mais falada no mundo com cerca de 250 milhões de falantes – para o ano de 2050 as estatísticas apontam para 357 milhões, embora com menos portugueses mas mais falantes nos países lusófonos[20] – é fundamental considerar a língua e a sua expansão como um investimento decisivo para o futuro; produção de materiais adequados, pelo menos em duas línguas; formação específica de professores; acordos bi-laterais com os países dos vários continentes onde se notou e nota a presença portuguesa; uma parceria especial com o Brasil – o país da CPLP com maior número de falantes – e apoiar os Órgãos de Comunicação Social com vocação para serem veículos de promoção e divulgação, sem esquecer a Internet. Foi exactamente “na rede” que pudemos consultar o sítio geoscópio[21], no qual se propõe o ano de 2015 como “O Ano da Expansão” e ponto culminante dos 600 anos do processo, considerando a decisão estratégica da expedição a Ceuta. Até lá, são propostas quatro datas para assinalar a efeméride:

- 2009 – 500 anos sobre a batalha de Diu.

- 2010 – 500 anos sobre a criação de Goa.

- 2011 – 500 anos sobre a presença dos portugueses em Malaca.

- 2014 – 500 anos sobre a primeira grande operação de marketing internacional de uma grande potência, uma inovação dos portugueses com a embaixada a Roma.

Entre outras sugestões, o autor da “iniciativa” propõe ainda avançar com um projecto de filme internacional e um jogo online sobre a batalha de Diu (1509), a concluir em 2009 – não no sentido de exaltação imperial, mas como crónica romanceada das lições de estratégia e de inovação militar e tecnológica.



[1] - O Império acabou. E agora? – Antónia de Sousa, Editorial Notícias, Lisboa, 2000.

[2] - - Doutorado em Ciências da Educação pela Univ de Salamanca e fundador do Instituto Superior de Ciências da Informação e Administração de Aveiro. Em Revista de Cultura Pensar Iberoamérica, nº5- Janeiro/Abril de 2005.

[3] - Brian Juan O’Neill, em Revisra Macau, II Série nº64, Agosto de 1997.

[4] - idem

[5] - Joseph Sta Maria, luso-descendente de Malaca. A capa do livro mostra duas dançarinas “portuguesas” vestidas com típicos trajes folclóricos, provavelmente de origem minhota.

[6] - Citado por José Palmeira em O Poder de Portugal nas Relações Internacionais, Prefácio, Lisboa,2006.

[7] - 16 de Janeiro de 2006.

[8] - 23 de Janeiro de 2006. Consultada em Elos Clube de Uberaba, a 20/11/08, em www.uaisites.adm.br/iclas/solidariedade e em http://passaleao.blogspot.com/

[9] - Maria Isabel Tomás, em Os Crioulos Portugueses do Oriente – uma Bibliografia, Instituto Cultural de Macau, 1992 e Teotónio R. de Souza, em Lusofonia sem Lusofilia? O caso do Antigo Estado da Índia – consultado em 12/11/08 em www.geocities.com/Athens/Forum/1503/lusof_goa.html

[10] - Agência Lusa, em 21/11/08 – Lisboa e Dili.

[11] - Agência Lusa em 21/11/08 – Lisboa e Dili.

[12] - IV série, nº1, consultada em 13/11/08 em www.revistamacau.com/

[13] - Atlas de Portugal, consultado em 21/10/08 em www.igeo.pt/atlas

[14] - Rui Graça Feijó, 2008, em Etnográfica. (Língua, nome e identidade numa situação de plurilinguismo concorrencial: o caso de Timor-Leste).

[15] - Termo que, no Sudeste Asiático, significa “língua”.

[16] - Catholicisme et Protestantisme dans l’Ile de Timor: 1556-2003.

[17] - Sítio da BBC Brasil na Internet, artigo de Sílvia Salek, publicado a 4 de Novembro de 2002

[18] - Jornal Tribuna de Macau em língua portuguesa, Junho de 2008. www.jtm.com.mo/

[19] - www.hojemacau.com/news, consultado em 21/10/08.

[20] - Diário de Notícias, 16 de Novembro de 2008, com base num relatório da ONU sobre a situação da população mundial, que não inclui S.Tomé e Príncipe.

[21] - http://geoscopio.tv/2007/06/a-diferenca-portuguesa/2015. Por JNR.



2011-08-08

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !


A VERDADE E SÓ A VERDADE !

Há princípios. Não de quando as coisas começam...mas que enformam o carácter das pessoas. E que só o abuso do “Poder” pode quebrar depois de truques, pressão, tortura a vários níveis. E que só amor da família próxima conseguirá “suavizar” em caso de um “natural” fracasso. Há “leis” para as quais o carácter é impotente. Talvez porque sejam pensadas e elaboradas por quem não tem carácter ! A “política” e o carácter andam muito poucas vezes de mãos dadas.

E foi sobre isto que acabei de ver na RTP1 um excelente filme sobre os princípios e o carácter de uma jornalista...na relação com as suas “fontes”!

No "princípio" era o verbo...e o carácter !

No "jornalismo" em Portugal... onde é que isso já vai !

2011-08-04

À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !



JOÃO PAULO REGO TEIXEIRA – 1927/2011.

Pode dizer-se que não foi apenas a família a perdê-lo. Também S.Tomé e Príncipe perdeu mais um filho. E eu e a minha família um amigo. Tão ilustre quanto humilde, filho do também humilde Camilo José Teixeira, transmontano que aportou à então vila da Trindade nos anos finais do século XIX, “chamado” por um parente estabelecido na vila como comerciante. Camilo não teve a “sorte” que haveria de bafejar um seu compatriota que mais tarde viria a tomar o título de Marquês de Valle Flôr (José Constantino Dias chegou a STP em 1871 – com apenas 16 anos de idade – foi caixeiro na cidade e depois ganhou o título), morreu pobre com 93 anos de idade e já com 65 na Ilha de Nome Santo – um desses que tomam como sua a inexplicável “doença incurável” que é a paixão de certos homens brancos pela África Negra e da “qual” resultaram cinco filhos. A “tal família à moda da terra” que assumiu e cuidou, embora viesse 30 anos depois a casar com a mãe de João Paulo Rego Teixeira, agora chamado a outra viagem para novas ilhas encantadas no meio de um novo oceano imaginadas.

João Paulo Teixeira foi funcionário público desde 1947, sempre em STP, primeiro nos Serviços de Fazenda e Contabilidade – de que viria a ser Director – e tendo depois desempenhado o cargo de Presidente da Câmara Municipal da cidade capital durante os governos de Silva Sebastião.

E só assumiu o cargo (mais serviço público do que verdadeira autarquia), disse-me, para demonstrar ao governador ser possível encontrar alguém no meio local para desempenhar funções que, em geral, eram entregues a pessoas vindas do exterior.

A sua mulher Maria Amélia e aos seus filhos Maria Teresa e António José – ambos igualmente nascidos em S.Tomé – deixo o sentimento da minha amizade.

João Paulo Rego Teixeira, uma das figuras de primeiro plano do meu livro “Escravos do Paraíso” – bem merece a beleza das palavras que ali dirigiu ao governador : “podem as gravanas ser mais tristes, podem as chuvas ser mais pesadas, podem os rios levar menos água, podem os cacaueiros dar menos fruto, que a presença de Vexa nesta terra pela qual tanto fez, continuará”!