2022-11-11


ESPAÇOS PARA OCUPAR A MENTE E O CORPO.

QUINTA DO RIBEIRO – TERRAS DA RUA, MOIMENTA DA BEIRA. 

Hoje celebramos o S. Martinho a preceito e...com jeito!



Propriedade da Fundação Rodrigues Silveira, ali funciona a Escola Profissional de Moimenta da Beira, em cooperação com a Câmara Municipal. Anteriormente denominada de IFEC – Instituto de Formação e Educação Cooperativa – a Associação da Quinta do Ribeiro, na freguesia de Vila de Rua, constituída em Maio de 1987, alterou os estatutos em 1994. A natureza, contudo, prossegue sendo educativa e técnico-profissional.

No âmbito das suas atividades, a Escola tem uma Academia de Música “Quinta do Ribeiro”, cujo objetivo principal é ampliar o universo das artes, cultura e cidadania de crianças e jovens, através do ensino da música. Ou seja, incentivar o gosto musical e promover os valores de integração e cooperação entre os alunos. 



Possuidora de um largo e atrativo espaço, com “História”, a Quinta tem vindo a promover os designados “Serões da Quinta”, sobretudo em épocas de significado particular. Como é o caso da celebração do Dia de S. Martinho – jeropiga e castanhas no «prato principal». 



Se não puder lá ir hoje, marque uma visita na sua agenda próxima. Vale a pena. 




António Bondoso

Jornalista

Novembro de 2022.

epmoimenta.pt














 

2022-11-09

LINHAS TROCADAS...

A outra margem da «linha» não tem rio que se alongue

A correr para o mar, lavado em lágrimas. 



Foto de A.B. (por Tlm)

Mas tem gente de labor

Dedicada, resiliente, sem perder a esperança.

E tem também escarpas cheias de vida teimosa

E campos com laranjas e tangerinas a dourar o sofrimento. 



Foto de A.B. (por Tlm)

E os carros que não viajam

Carregam vidas paradas. 


Foto de A.B.(por Tlm)

António Bondoso

Nov de 2022. 



 

2022-11-07

De súbito…veio-me à ideia de que havia lido, algures, um «Poema» datado de 7 de Novembro. Não há muito, claro, pois a memória está ainda fresca. E o livro à mão, sem esforço. É que o dito tem sido um dos mais recentes na mesinha de cabeceira. O poema tem por título “O Velho calhambeque” e faz parte de «Chuva de Prata», que a poetisa santomense Alda Barros fez publicar na Chiado Editora em 2019. 


Alda Barros 

         Depois de conferida a ideia, lembrei-me igualmente de que estamos quase a assinalar a data da independência de Angola. É com poesia, portanto, por ela e através dela, que desta vez abordo o tema. Pelo menos uma aproximação. De Angola e do «espaço lusófono», como veremos. E justifico de forma simples por dois ou três motivos: embora Alda Barros tenha nascido em S. Tomé e Príncipe, também viveu e estudou em Luanda – Jornalismo e Relações Internacionais. Uma compatibilidade interessante do ponto de vista profissional e académico. Alda Barros, recordo, fez parte de um grupo de jovens jornalistas que fundou em STP o jornal “Revolução” – o primeiro do novo país independente. Depois, Luanda de novo, onde iniciou a sua carreira profissional no PNUD das Nações Unidas. Ainda outros «postos» da ONU, quer em Timor-Leste, quer na Guiné-Bissau, com uma breve passagem pelo Burundi. Uma outra razão – e já com o livro como objeto – tem a ver com o «prefácio», da autoria do angolano Lopito Feijó, e que ele intitulou como segue: “ALDA BARROS: PARA UMA OUTRA DISTENDIDA PROPOSTA POÉTICA LUSÓFONA”. Pela sua leitura da obra, Lopito Feijó destaca “Alguma guineensidade. Patente angolanidade e até algo de moçambicanidade mas, acima de tudo a visível santomensidade (…). A autora condensa aqui vários motivos de identidade comum a todas as culturas e povos dos países cultores da língua portuguesa”. De facto, o livro viaja por tudo isto e, embora os poemas não precisem de ser explicados – Almada Negreiros diz mesmo que a Poesia não aceita intermediários, é direta – a autora achou por bem colocar algumas notas nas páginas iniciais. Não tanto para falar dos poemas, mas sobretudo para evidenciar a felicidade que se tem quando beneficiamos de um tempinho para amar, escrever, inventar ou até reinventar um espaço temporal que nos dê prazer. Por isso as palavras que, “vindas do coração e ditas com alma nunca nos causam arrependimentos”, e por isso as histórias contadas. Neste caso, em forma de poemas. 



         E é assim que “O Velho calhambeque” nos traz à memória os musseques de Luanda, onde a sobrevivência é difícil, mesmo com uma caneca de «nguem-nguenha»; ou “Um pesadelo bom” nos fala do sonho de uma refeição quente, de muito amor e do cheiro forte da «kissângua de milho».

         Este meu texto, que não pretende ser uma recensão – longe disso – significa apenas felicitar Alda Barros pela sua obra em crescimento e agradecer a frescura do seu sentir em Chuva de Prata. Obrigado Alda Barros pelo seu «Grito» em Santa Catarina; grato Alda Barros por nos trazer a memória da Trindade e do baú onde moram segredos; obrigado pelos «descaminhos» onde nos diz que o poema é penumbra, encanto, mas também suor e pudor; grato por nos oferecer ainda «Beijos trocados no carnaval» em Quifindá. 


Apresentação do livro na sede da UCCLA

         Quem quiser perceber tudo isto, nada como adquirir “Chuva de Prata”. Chiado, 2019.

António Bondoso

Jornalista e Mestre em Relações Internacionais. Poeta nos «intervalos».

Moimenta da Beira, 7 de Novembro de 2022.   














 

2022-11-01

PAIXÃO, PARADOXO, POESIA…ou apenas a beleza das palavras comuns. «Ao vivo» ou na Rádio…



Conceição Lima, a Poesia e a Rádio Vizela

A Poesia pode ser tudo e pode ser nada, mas tem palavras de sonho e de esperança – mesmo quando o sentido da vida parece escoar-se pelos ecos secos dos batimentos num teclado projetado numa “folha” em branco. Com tendências ou marginal…a poesia é uma arte difícil. Não só na sua elaboração mas sobretudo no incentivo à sua procura e na sua divulgação, tendo em conta os «paradoxos» da própria poesia – como escreveu José Régio: “A poesia é inseparável das formas que a exprimem, a captam, e simultaneamente acha maneira de pairar acima dessas mesmas formas”.

Quem navega nesta onda talvez saiba que existe há onze anos uma paixão numa Rádio local. Como em tempos na Antena 1e na Rádio Macau, por exemplo. Em Vizela, o labor apaixonado de uma amante das palavras insiste e resiste. E a Rádio acompanha. O tributo em forma de «gala» aconteceu mais uma vez na passada sexta-feira. Eu, que já tive o privilégio de poder «mostrar-me» ali, de viva voz, não pude responder desta vez ao convite da Conceição Lima. Mas não quis passar ao lado e deixar pendurado o meu sentir. Por isso, enviei um pequeno texto e um «poema» em forma de mensagem. Que a Conceição leu e disse, à luz da lanterna do Eduardo Roseira, como se pode avaliar pelas fotos aqui reproduzidas, da autoria de Hélder Leal Martins.          


 

Conceição Lima e a «mensagem»

ANTÓNIO BONDOSO , homem de Cultura e de convicções, enviou-nos um recado, de que me fiz veículo...Foi tão bom este carinho, com esta seriedade! Obrigada, amigo! Vou aceitar os elogios .

E o que dizia a mensagem? Apenas isto:

Não há palavras mortas em definitivo, como sabemos. Reinventadas, recicladas, renovadas, ressuscitam para moldar outras ideias. Os avatares da escrita, ora no discurso inquieto da prosa, ora na função social da poesia.  E mesmo que se não goste…o «movimento» tem graça!

         No nome e na personalidade da Conceição Lima – de “sua Graça” – há décadas a lidar com palavras de autores diversos, ora no ensino, ora em públicos mais vastos, quer na apresentação de livros, quer através das ondas da Rádio. Onze anos – 11 – a divulgar Poesia na Rádio Vizela. A cada semana de cada mês de todos estes anos. É obra. Pelo seu «dom» de pessoa garbosa, elegante e graciosa, sempre em busca de palavras outras, sempre olhando mundos outros.

         Esta pequena mensagem, sincera, não tem qualquer outro objetivo que não seja valorizar o trabalho da Conceição Lima e da Rádio Vizela. Todos sabemos como os «média» têm um largo défice de cultura e como, nos «média», a Cultura não tem espaço. Por isso, e porque não posso vir aqui dizer-vos isto pessoalmente, voaram as palavras.

         Obrigado e parabéns Conceição Lima, obrigado e parabéns Rádio Vizela". 

 E ainda o poema que segue e que elaborei há poucos dias. Quero apenas dizer que o mesmo é baseado numa foto que tirei num pomar de maçã, e na qual aparece um espaço de céu azul. E isso bastou para o poema: 

 UM BURACO NO POMAR…por onde espreitam «Poemas».

 

Fruto de imaginação ou de produto palpável

Será sempre uma ideia

De uma utopia em cadeia.

 

Aromas de muitos sonhos

A penetrar nos sentidos

Um azul que rasga o tempo

Uma vontade inquebrável.

=== A. Bondoso

7 Out. 2022. 


                                                  11º aniversário de "A HORA DE POESIA"

António Bondoso. 

Outubro de 2022. 




 

2022-10-25

Há anos. Não só mas também...



POR CÁ DISCUTE-SE, CRITICA-SE, REIVINDICA-SE EM PERFEITO NAMORO COM A INTRIGA E A INSÍDIA…

…Há 8 meses que os ucranianos lutam e morrem pela liberdade na Europa; há anos que os sírios são dizimados, tal como os curdos; há anos que os iemenitas morrem pela fome e pela barbárie, tal como na Somália; e agora a Nigéria volta a colocar a África no mapa das tragédias enquanto a miséria assola a Ásia e a América do Sul como nunca; agora, que a liberdade e a democracia sofrem ataques no Brasil – país em vias de se tornar rapidamente num «pobre» Estado Teocrático no qual os mortos não contam; nos EUA mude-se o termo para «rico»; na Rússia, riqueza só em armas nucleares, como a norte do Paralelo 38; na China, o símbolo é o regresso do “silencioso” «poder imperialista»; por outro lado, há anos que os palestinianos morrem por um país que não existe e os libaneses sofrem às mãos de Estados terroristas; e o Iraque e Moçambique e o Sri Lanka; há muitos meses e anos que tudo isto vai passando ao lado das más consciências e dos «pobres» umbigos recolhidos.

Há anos! Por cá – não só mas também [como eu gosto desta expressão!] ignorando o terrível período da recente Pandemia. Passem bem.



António Bondoso

Outubro de 2022. 





 

2022-10-14

 

            Um adeus ao Álvaro Trigueiros. 

                                         

Uns anos mais antigo do que eu. Familiar de muitos Amigos meus e amigo de muitos outros amigos. Nunca privei muito com ele, a não ser quando a Rádio me deu essa oportunidade. De falarmos, pouco, mas sobretudo de o ouvir a cantar. Quantas vezes ao vivo, durante os convívios, festas ou bailes, nomeadamente no salão do Benfica. Álvaro Trigueiros – Sum Alvarinho no mundo artístico – era humilde mas interventivo, sociável e respeitador, como era condição geral dos «Filhos da Terra». E cantava bem, com muita energia. Para quem não entendia a Língua Forra de STP, a maioria das letras das canções não lhes tocava. Era sobretudo o ritmo e a alegria que transbordavam. Viu o seu país ser independente, como desejou, mas interventivo, respeitador e de caráter, nunca deixou de ser crítico do rumo que os novos políticos foram dando às suas Ilhas. E saiu, continuando a ser «ele» nesta terra longe, fria mas acolhedora. Danilo Salvaterra chamou-lhe hoje visionário e combatente: “Sum Alvarinho como era conhecido deixou-nos levando o sonho de algum dia ver S.Tomé e Príncipe melhor. (…) Fez da música a sua arma de combate. Uma das vozes mais criticas e visionária, irá contemplar desde às Alturas, o que seremos capazes de fazer”.

Para trás ficou o grupo «Maracujá», fundado por ele e pelos irmãos Morais [Américo e Alexandre] de Santo Amaro, tal como as canções emblemáticas “Zozé Lóvè”, “Vida D’homé Sá pintenxa” [alô meu irmão Luís Moura!] ou “Tindádji”. Lúcio Neto Amado, na sua obra «MANIFESTAÇÕES CULTURAIS SÃO-TOMENSES» cita por exemplo Albertino Bragança que recorda a rivalidade entre o Sporting Clube de São Tomé e o Sport São Tomé e Benfica, «…não só no plano desportivo como no espectro político em que cada um se situava, O Maracujá criou ainda assim um espaço próprio na música são-tomense dos finais dos anos cinquenta e na década de sessenta [século XX] através de composições que ganharam inegável popularidade na sua época».

         Conceição Lima recorda hoje por exemplo “53 ni San Tomé” e “Cacau é ouro, é prata e diamante”, mas particularmente “Sun Américo”. Para Álvaro Trigueiros, a música era, portanto, «Vida»!

         Até sempre Sum Alvarinho, receba um abraço e saiba que – tal como para mim – S. Tomé fará sempre anos, independentemente do antes e do depois.

                                              


António Bondoso

13 Outubro 2022.

https://www.youtube.com/watch?v=4GilPKDH1SA&feature=share&si=ELPmzJkDCLju2KnD5oyZMQ


2022-10-07


Não há palavras mortas em definitivo, como sabemos. Reinventadas, recicladas, renovadas, ressuscitam para moldar outras ideias. Os avatares da escrita, ora no discurso inquieto da prosa, ora na função social da poesia.  E mesmo que se não goste…o «movimento» tem graça!



UM BURACO NO POMAR…por onde espreitam «Poemas».

 

Fruto de imaginação ou de produto palpável

Será sempre uma ideia

De uma utopia em cadeia.

 

Aromas de muitos sonhos

A penetrar nos sentidos

Um azul que rasga o tempo

Uma vontade inquebrável.

=== A. Bondoso

7 Out. 2022. 

António Bondoso

7 de Outubro de 2022. 
 

2022-09-24


LETRAS E PALAVRAS EM TEMPO DE MAÇÃ…ou de como perceber que é preciso dar corpo à expressão «música para os meus ouvidos».

Letras, letras, letras e palavra e palavras, e vozes, algumas vozes a dar corpo a uma ideia de ouvir e de escutar outras ideias, mesmo que haja poucos interessados em participar. 


         Dizem que as palavras são como as cerejas. E são. Mas este ano foi um tempo difícil para a cereja – como para quase toda a fruta, aliás. Não fiquemos espantados, pois, em saber que algumas, palavras claro, terão certamente caído em «saco roto».

         Apesar de tudo, dos desencontros de horários, de uma promoção pouco eficaz – defeito que eu assumo cota-parte, ou quota-parte, talvez mais eloquente – o designado “Pavilhão das Letras”, em segunda edição, lá foi cumprindo a sua função de «dar a conhecer» qualidade e diversidade na literatura carregada de pensamento e de mensagem. Sempre na grata presença dos vereadores Mónica Gertrudes e Hugo Bondoso, procurou-se honrar os pergaminhos de um evento [EXPODEMO] que já assinalou 10 anos e 9 edições, desde 2012, em Moimenta da Beira. A «pandemia» impediu duas. 


         E quem lá esteve, no Pavilhão das Letras – desta vez no belíssimo Auditório do Pe. Bento da Guia – teve, assim, a possibilidade de ficar a conhecer a «poesia» de Regina Correia, uma poesia rica, capaz de resistir ao desenraizamento de «Pátrias» e de «Amores» que nunca morrem. Luísa Ferro, por exemplo, disse-me ter gostado dos autores do dia em que esteve presente, com especial destaque para a Regina Correia: “Já em Lisboa, estou a ler, pausadamente, os seus poemas, que me estão a agarrar a atenção”. «Conjugação de Mapas», assim é intitulado o livro que esteve em análise. 



         E depois, Jorge Bento disse aos presentes que é preciso reinventar a sociedade, pois não estamos a caminhar «Para Um Novo Normal», longe disso. Espraiando um olhar inquieto e profundo sobre a atual desordem mundial – “vivemos tempos sombrios” – Jorge Bento apela à ressurreição das nossas capacidades de apreender, perceber, questionar e de amar. O jubilado professor universitário, verdadeiro encantador de palavras e com uma escrita eloquente, foi um reputado colunista do jornal A Bola. E nessa qualidade foi reconhecido por António José Bondoso que, após a intervenção de Jorge Bento, salientou entender agora o alcance das mensagens contidas nas crónicas de A Bola.



         Teresa Adão, diretora das Edições Esgotadas, apresentou uma nova reimpressão de Afonso Ribeiro. “Povo” foi a obra escolhida, na qual o autor neorrealista de Vila da Rua colige uma série de contos sobre a miséria e a opressão em que viviam as classes trabalhadoras. “Povo”, que a censura proibiu, classificando-o como «pura propaganda comunista», foi – depois de Aldeia e de Ilusão na Morte – mais um trabalho de transcrição aturada e atualização de linguagem de Denisa Sousa. Lembrando a importância do autor para o concelho e para o país, Teresa Adão acabaria por lançar mais uma vez, à Câmara Municipal, o desafio de promover uma «Residência Literária Afonso Ribeiro» em Moimenta da Beira, à semelhança do que vem acontecendo com Eça de Queirós em Tormes. Afonso Ribeiro, preso pelo antigo regime, foi depois exilado em Moçambique, de onde só regressou em 1976. 


         Precisamente de Moçambique foi o autor que se apresentou no dia seguinte, falando sobretudo do seu livro “Fuzilaram a Utopia”, uma crítica cerrada ao período pós colonial. Escritor e professor, Delmar Maia Gonçalves nasceu em Quelimane em 1969, tendo chegado a Portugal nos anos de 1980. Divulgador de poesia e pragmático contador de histórias africanas, Delmar criou em Portugal o «Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora» [CEMD]. Define-se como um irreverente humanista, defensor da paz e da fraternidade universal. 


         E foi com a sua poesia que se iniciou a sessão última do Pavilhão das Letras, ficando a ideia de que “As chuvas/ são lágrimas de dor/ que no limite/ o mundo liberta". 

Por fim, juntaram-se à sessão o Nuno Requeijo Bondoso, Alexandra Cabral, Maria Amélia Padrão, Regina Correia, Maria do Amparo Bondoso, José Brites Marques Inácio, e António José Bondoso.  

Jorge Bento terminou a sessão de forma humorística, lembrando o brasileiro Ronaldo Cunha Lima, que foi advogado, poeta, político e chegou a Governador do Estado da Paraíba, terminando a sua carreira política em tragédia. O poema, de 1955, tem por título “Habeas Pinho” ou a história da prisão de um violão em noite de serenata boémia. 

Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da 2ª Vara desta Comarca

O instrumento do crime que se arrola
neste processo de contravenção
não é faca, revólver nem pistola,
é simplesmente, doutor, um violão.

Um violão, doutor, que na verdade
Não matou nem feriu um cidadão.
Feriu, sim, a sensibilidade
de quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,
instrumento de amor e de saudade.
O crime a ele nunca se mistura.
Inexiste entre eles afinidade.

O violão é próprio dos cantores,
dos menestréis de alma enternecida
que cantam as mágoas que povoam a vida
e sufocam suas próprias dores.

O violão é música e é canção,
é sentimento vida e alegria,
é pureza é néctar que extasia,
é adorno espiritual do coração.

Seu viver como o nosso é transitório,
mas seu destino, não, se perpetua.
Ele nasceu para cantar na rua
e não para ser arquivo de cartório.

Mande soltá-lo pelo amor da noite
que se sente vazia em suas horas,
p’ra que volte a sentir o terno açoite
de suas cordas leves e sonoras.

Libere o violão, Dr. Juiz,
Em nome da Justiça e do Direito.
É crime, porventura, o infeliz,
cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, e afinal, será pecado,
será delito de tão vis horrores,
perambular na rua um desgraçado
derramando na rua as suas dores?

É o apelo que aqui lhe dirigimos,
na certeza do seu acolhimento.
Juntada desta aos autos nós pedimos
e pedimos também DEFERIMENTO.

Ronaldo Cunha Lima, advogado.

O juiz Arthur Moura deu sua sentença no mesmo tom:

Para que eu não carregue
remorso no coração,
determino que se entregue
ao seu dono o violão.

===================== 

António Bondoso

Setembro de 2022. 

Veja o vídeo neste link: 

https://youtube.com/watch?v=Wb0v99OANjc&feature=share&si=EMSIkaIECMiOmarE6JChQQ



















 





 

2022-09-15


III Congresso Mulheres de STP em Portugal

2022.

Nada mais desafiante do que ser um homem a falar da «mulher». Particularmente nestes dias em que se prepara uma iniciativa de envergadura, com a realização do III Congresso das Mulheres Santomenses em Portugal – que vai decorrer no dia 18 no Forum Lisboa. 



Aproveitando o mote da reunião – “O Contributo do Legado Africano para a Construção de uma Sociedade Global” – basta dirigir-me

À MULHER SANTOMENSE.

…Nela revejo as mulheres de todo o mundo!

         E como labutam as mulheres africanas. E como sofrem. E como se erguem em tempos difíceis, nunca desistindo. Desde o começo do mundo. E embora possam duvidar do presente complexo, renovam a alma e dão sempre uma outra oportunidade à Esperança. 



Especificamente no dia 19 ou não, quer seja em Setembro ou em Maio, a mulher é uma bênção. Recordo por exemplo Vinícius de Moraes na sua «Receita de Mulher» “…e em sua incalculável imperfeição constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável”.

Nesta ocasião, e nas mulheres que vão levando a «Mén Non», volto também eu a renovar votos de uma urgente «brisa fresca», rumo aos poderes que merecem sem esquecer o orgulho no passado. 



Tudo isto - o que escrevo e o que adivinho na qualidade dos intervenientes - coloco na memória de um Poema que já escrevi há uns anos (2015):  

NO DIA DEZANOVE…

As mulheres

                                            No calor da luta    

Souberam empenhar-se

E ajudaram a amassar todo o futuro

Que sonharam.

 

Foi apenas o início

De um comprometimento imaginado

Atitude alimentada pela força da razão

Que os poderes

Então expostos

Não puderam acarinhar

Acalentando a paixão.

 

E o futuro adiado

Rasgou o sonho desenhado

Nos anos que pareciam ser abençoados.

 

Mas as mulheres não desistiram

Engravidaram

E foram parindo Fé

Num tempo mais temperado

De outras lutas e projetos

Realistas, moderados,

Até cinzentos

À imagem destes dias incansados.

António Bondoso

(19 Set. 2015)





António Bondoso

Setembro de 2022. 







 

2022-09-06

 

ADRIANO MOREIRA – 100 ANOS DE «PENSAMENTO».

Saúdo o aniversário com admiração e respeito, salientando sobretudo o facto de ter sido uma das «figuras» centrais do meu livro sobre “LUSOFONIA E CPLP – Desafios na Globalização”, de Setembro de 2013.



         E precisamente nesta altura, quando se celebram os 200 anos da independência do Brasil, vale a pena recordar a voz de Adriano Moreira quando – na obra em referência – salienta a importância do Brasil no «espaço lusófono»: “…nós temos que estar preparados para admitir que a liderança é brasileira”. Na CPLP, claro.

         E mesmo que o Brasil se tenha vindo a «desviar» dessa sua natural «responsabilidade», até hoje nunca assumida com frontalidade, pois há sempre e ainda muitos «pontos críticos» a ter em conta, Adriano Moreira reitera a necessidade de observar e perceber a conjuntura e escutar “o diálogo construtivo sobre as respostas sustentáveis”, sendo fundamental não colocar em dúvida a exigência irrenunciável da igualdade dos Estados participantes. 



         E a «Língua», claro, como «cimento de tudo isto. Uma Língua, como me referiu em 2011, “que transporta valores, não sendo nunca um instrumento neutro”. E foi mais longe: “…acontece que a língua portuguesa, a meu ver, tem mistura de etnias. Também é mestiça!”. Por isso, não é apenas «nossa». Também é nossa.

         E para não alongar em demasia este pequeno texto de homenagem ao Professor Dr. Adriano Moreira, finalizo com mais uma referência ao meu livro sobre a Lusofonia e CPLP, lembrando a ideia que me foi sabiamente transmitida de que a CPLP é uma «organização muito original». Porquê? Porque – afirma – “ a França, que tem instrumentos de projeção da sua cultura como a Alliance Française, não tem uma CPLP; a Espanha, que tem uma série de países, sobretudo na América Latina, que falam espanhol e tem o Instituto Cervantes – não tem uma CPLP; a China, atualmente, já tem espalhados por todo o mundo cerca de 300 Institutos Confúcio, mas não tem nenhuma CPLP. [Promoveu Macau para se encostar e liderar]. Portanto, a CPLP é, de facto, uma originalidade. A reunião de tantos países unidos pela mesma língua como primeiro elemento”(gravação, 2011)”.

         Parabéns Adriano Moreira. Grato pela partilha de algum do seu «pensamento». 




António Bondoso

6 Setembro de 2022.