2023-07-12
2023-01-30
O MASSACRE…E A SOMBRA!
Ou de como se assinala este ano o 70º aniversário dos acontecimentos de
humilhação e de violência gratuita em Fevereiro de 1953, em S. TOMÉ, CIDADE,
BATEPÁ, FERNÃO DIAS e PRÍNCIPE, quando a
morte saiu à rua:
---
«(…) O passado
histórico não se vive todos os dias, mas vive-se eternamente. Porque há que
lembrar!...E não se pode consentir que se repita». É uma síntese com um forte
poder simbólico que me é transmitida por Frederico Gustavo dos Anjos,
licenciado em Estudos Alemães mas que é sobretudo Poeta e ensaísta santomense.
--- «(…) a celebração do 70º aniversário do “Massacre de Batepá” no corrente ano será num quadro de elevadíssima tensão política, com uma sociedade dividida, temerosa, desesperançada, ao ponto de, sem rodeios, questionar a soberania.(…)»:- Alcídio Montóia, economista e pensador santomense, igualmente em testemunho a este meu blogue PALAVRAS EM VIAGEM.
O MASSACRE:
A.B.
- Massacre, Revolta, Inventona ou “Guerra Inventada” pelo regime colonial
português em S. Tomé e Príncipe em Fevereiro de 1953, à espera de que a memória
do novo país vire a página negra e a catarse se feche. Mas a efeméride acontece
num clima de tensão, nada favorável a um momento reflexivo. Pode deduzir-se
dessa frase que Alcídio Montóia me escreveu, depois de aceitar o “desafio” que
lancei nos seguintes termos: Dos 70 anos passados sobre a «revolta/massacre» de
1953, mais de metade já o foram depois da independência. Pode afirmar-se que a
«data» é uma etapa já exorcizada pelo país, pelos dirigentes e pela população?
Ou ainda não foi possível concluir a catarse?
ALCÍDIO MONTÓIA. - Enquanto houver testemunhas vivas dos nefastos efeitos dos grotescos acontecimentos de fev'53, dificilmente a catarse poderá ser dada como fechada. Por outro lado, tendo os acontecimentos de 1953 espoletado sentimentos soberanistas, que culminaram com a independência em 1975, agravados pela constatação de que a justiça não foi feita (Gorgulho não foi julgado e muita documentação ainda está como classificada ou extraviada) e perante o fraco desempenho económico e social do país nestes quase 50 anos de independência; há uma preocupação da classe política em manter esse episódio muito presente e sistematicamente revisitado, dado que é praticamente o único que ainda consegue agregar toda a sociedade e trazer para o presente os fantasmas do colonialismo.
A SOMBRA:
A.M.
- Ainda assim, perante os bárbaros acontecimentos de 25/11/2022 e a constatação
de que, afinal, a capacidade para, gratuitamente, praticar o mal não é um
exclusivo do colonialismo e a crescente cristalização na opinião pública do
conceito de “colono forro”, assiste-se, de certa forma, a um relativizar dos
acontecimentos de 1953 e a trazer à baila, ainda que em surdina, os
“inconfessados pecados” da elite forra que alimentaram o clima de desconfiança
entre a governação portuguesa e os ilhéus em 1953.
A.B.
- Que fatores mais têm contribuído para isso? E o «ensino/aprendizagem» da
História?
A.M.
- Consequência de ter sido, durante décadas, objeto de exploração exaustiva
para fins políticos e como agregador de uma consciência nacional que tarda em
se afirmar, proliferam descrições mal fundamentadas do massacre, com impacto
negativo sobretudo nos mais jovens. Enquanto subsistir esse peso estrutural do
“Massacre de ‘53” na definição da nação, dificilmente o tema poderá ser
abordado de forma factual e despido das emoções necessárias à afirmação da
identidade.
De resto, a celebração do 70º aniversário do “Massacre de Batepá” no corrente ano será num quadro de elevadíssima tensão política, com uma sociedade dividida, temerosa, desesperançada, ao ponto de, sem rodeios, questionar a soberania. Muito possivelmente, a classe política, ladeada pelos “pais-fundadores-da -nação”, receosa da reação popular, apavorada e, muito provavelmente, ainda sem conhecer as conclusões do inquérito judicial aos acontecimentos de 25/11/2022; aproveitará a ocasião para ensaiar discursos pouco convincentes de reconciliação e de apaziguamento de espíritos. Veremos como será.
A.B.
– Por sua vez, FREDERICO DOS ANJOS
não sobrepõe os acontecimentos de 1953 e de 2022, salientando que o recente 25
de Novembro foi “tão somente um momento de «perversão», embora também
condenável e irrepetível”:
F.G.A.
– São momentos
históricos diferentes com contornos cada um deles únicos. Páginas
de sangue e luto não se "apagam" com o tempo. Pode acontecer que se
"referenciem" diferentemente através de gerações já que a
cultura evolui no tempo, mas não deixarão de ser marcos sobre os quais o
futuro se edifica retomando sempre o simbolismo do que não se deve repetir.
Sobre isso não há espaço para dúvidas: "non
na ka pô kunxintxi 53 bilá bi fa." O
25 de Novembro de 2022 é tão somente um momento de "perversão". Também
condenável e irrepetível.
O passado histórico não se vive todos os dias,
mas vive-se eternamente. Porque há que lembrar!..."
A.B. - Dos dramáticos efeitos/consequências dos acontecimentos desse longínquo ano de 1953, já largamente investigados – apesar da ideia de Alcídio Montóia de que “a justiça não foi feita (Gorgulho não foi julgado e muita documentação ainda está como classificada ou extraviada) – pouco mais de relevância haverá a acrescentar. Contudo, e como contraponto ao eventual desalento que se vive hoje em S. Tomé e Príncipe, fui recuperar uma recente declaração de Ana Maria Cabral, viúva de Amílcar Cabral, nos 50 anos da morte do líder africano, questionada pela Radio France Internacional sobre o legado de Amílcar e sobre se ainda vale a pena lutar em prol do pan-africanismo: “(…) O mundo já deu tanta volta, está tão estranho e já não tem nada a ver com o mundo daquela altura. Mas acho que vale sempre a pena lutar pelo pan-africanismo, porque há muitos tabus ainda a vencer. Foram muitos anos de colonização em África, há muitos preconceitos ainda sobre África, de maneira que é preciso lutar contra tudo isso, contra todos esses preconceitos, essas alienações, digamos assim, das quais os africanos ainda não conseguiram libertar-se. (…)”.
António
Bondoso
30
de Janeiro de 2023.
Complementos
da História em vídeo:
2022-11-07
Depois de conferida a ideia, lembrei-me igualmente de que estamos quase a assinalar a data da independência de Angola. É com poesia, portanto, por ela e através dela, que desta vez abordo o tema. Pelo menos uma aproximação. De Angola e do «espaço lusófono», como veremos. E justifico de forma simples por dois ou três motivos: embora Alda Barros tenha nascido em S. Tomé e Príncipe, também viveu e estudou em Luanda – Jornalismo e Relações Internacionais. Uma compatibilidade interessante do ponto de vista profissional e académico. Alda Barros, recordo, fez parte de um grupo de jovens jornalistas que fundou em STP o jornal “Revolução” – o primeiro do novo país independente. Depois, Luanda de novo, onde iniciou a sua carreira profissional no PNUD das Nações Unidas. Ainda outros «postos» da ONU, quer em Timor-Leste, quer na Guiné-Bissau, com uma breve passagem pelo Burundi. Uma outra razão – e já com o livro como objeto – tem a ver com o «prefácio», da autoria do angolano Lopito Feijó, e que ele intitulou como segue: “ALDA BARROS: PARA UMA OUTRA DISTENDIDA PROPOSTA POÉTICA LUSÓFONA”. Pela sua leitura da obra, Lopito Feijó destaca “Alguma guineensidade. Patente angolanidade e até algo de moçambicanidade mas, acima de tudo a visível santomensidade (…). A autora condensa aqui vários motivos de identidade comum a todas as culturas e povos dos países cultores da língua portuguesa”. De facto, o livro viaja por tudo isto e, embora os poemas não precisem de ser explicados – Almada Negreiros diz mesmo que a Poesia não aceita intermediários, é direta – a autora achou por bem colocar algumas notas nas páginas iniciais. Não tanto para falar dos poemas, mas sobretudo para evidenciar a felicidade que se tem quando beneficiamos de um tempinho para amar, escrever, inventar ou até reinventar um espaço temporal que nos dê prazer. Por isso as palavras que, “vindas do coração e ditas com alma nunca nos causam arrependimentos”, e por isso as histórias contadas. Neste caso, em forma de poemas.
E é assim que “O Velho calhambeque” nos
traz à memória os musseques de Luanda, onde a sobrevivência é difícil, mesmo
com uma caneca de «nguem-nguenha»; ou “Um pesadelo bom” nos fala do sonho de
uma refeição quente, de muito amor e do cheiro forte da «kissângua de milho».
Este meu texto, que não pretende ser uma recensão – longe disso – significa apenas felicitar Alda Barros pela sua obra em crescimento e agradecer a frescura do seu sentir em Chuva de Prata. Obrigado Alda Barros pelo seu «Grito» em Santa Catarina; grato Alda Barros por nos trazer a memória da Trindade e do baú onde moram segredos; obrigado pelos «descaminhos» onde nos diz que o poema é penumbra, encanto, mas também suor e pudor; grato por nos oferecer ainda «Beijos trocados no carnaval» em Quifindá.
Quem quiser perceber tudo isto, nada
como adquirir “Chuva de Prata”. Chiado, 2019.
António
Bondoso
Jornalista
e Mestre em Relações Internacionais. Poeta nos «intervalos».
Moimenta
da Beira, 7 de Novembro de 2022.
2022-10-14
Um adeus ao Álvaro Trigueiros.
Uns anos mais antigo do que eu. Familiar de muitos Amigos meus e amigo de muitos outros amigos. Nunca privei muito com ele, a não ser quando a Rádio me deu essa oportunidade. De falarmos, pouco, mas sobretudo de o ouvir a cantar. Quantas vezes ao vivo, durante os convívios, festas ou bailes, nomeadamente no salão do Benfica. Álvaro Trigueiros – Sum Alvarinho no mundo artístico – era humilde mas interventivo, sociável e respeitador, como era condição geral dos «Filhos da Terra». E cantava bem, com muita energia. Para quem não entendia a Língua Forra de STP, a maioria das letras das canções não lhes tocava. Era sobretudo o ritmo e a alegria que transbordavam. Viu o seu país ser independente, como desejou, mas interventivo, respeitador e de caráter, nunca deixou de ser crítico do rumo que os novos políticos foram dando às suas Ilhas. E saiu, continuando a ser «ele» nesta terra longe, fria mas acolhedora. Danilo Salvaterra chamou-lhe hoje visionário e combatente: “Sum Alvarinho como era conhecido deixou-nos levando o sonho de algum dia ver S.Tomé e Príncipe melhor. (…) Fez da música a sua arma de combate. Uma das vozes mais criticas e visionária, irá contemplar desde às Alturas, o que seremos capazes de fazer”.
Para
trás ficou o grupo «Maracujá», fundado por ele e pelos irmãos Morais [Américo e
Alexandre] de Santo Amaro, tal como as canções emblemáticas “Zozé Lóvè”, “Vida
D’homé Sá pintenxa” [alô meu irmão Luís Moura!] ou “Tindádji”. Lúcio Neto
Amado, na sua obra «MANIFESTAÇÕES CULTURAIS SÃO-TOMENSES» cita por exemplo Albertino
Bragança que recorda a rivalidade entre o Sporting Clube de São Tomé e o Sport
São Tomé e Benfica, «…não só no plano desportivo como no espectro político em
que cada um se situava, O Maracujá criou ainda assim um espaço próprio na
música são-tomense dos finais dos anos cinquenta e na década de sessenta
[século XX] através de composições que ganharam inegável popularidade na sua
época».
Conceição Lima recorda hoje por exemplo “53 ni
San Tomé” e “Cacau é ouro, é prata e diamante”, mas particularmente “Sun
Américo”. Para Álvaro Trigueiros, a música era, portanto, «Vida»!
Até sempre Sum Alvarinho, receba um abraço e saiba que – tal
como para mim – S. Tomé fará sempre anos, independentemente do antes e do
depois.
António Bondoso
13 Outubro 2022.
https://www.youtube.com/watch?v=4GilPKDH1SA&feature=share&si=ELPmzJkDCLju2KnD5oyZMQ
2022-07-14
Conheci a Manuela Borralho em S. Tomé e Príncipe em finais dos anos de 1960, no âmbito do processo de transição do Rádio Clube para Emissor Regional da ex Emissora Nacional. De todo o vasto “elenco” da ex-EN empenhado nessa tarefa [Fernando Conde, Engº Freire, Sebastião Fernandes e Guilherme Santos, por exemplo] sobraram e permaneceram duas Amigas de grande nível, elevação escorada numa humilde competência e numa simpática simplicidade: A Maria Emília Michel e a Manuela Borralho. Por circunstâncias e peripécias diversas, o meu trajeto acabou por se cruzar diretamente com o da Manuela. Quer na «Coordenação de Emissão e Programas», com a companhia da Arminda Viana e da Lurdes Brandão, quer no «Serviço de Noticiários», onde já pontuavam os mais antigos Raúl Cardoso e Daniel Pinho. Isto, já depois de alguns meses de uma «ausência voluntária» da minha parte e também de um afastamento «obrigatório» devido ao serviço militar – primeiro em Angola e depois em STP. Resolvidos os «constrangimentos» em 1973, consolidaram-se o respeito e a Amizade mútuos.
Regressei a Portugal em Outubro de 1974, a Manuela só voltou em 1975 depois da independência de STP. Eu no Porto, a Manuela em Faro, o trabalho direto não nos juntou mas nunca deixámos de trocar ideias. Para além disso foi a Amizade – sobretudo no tempo de férias, no Algarve, acompanhados por outros camaradas como o Carlos Cardoso, o Livramento e o Humberto Ricardo. Ou então, nos convívios da Rádio que se seguiam por este país, sempre com o pensamento em S. Tomé e Príncipe.
E com o passar do tempo…veio a aposentação, embora se tivessem mantido o convívio e a Amizade. O afastamento, involuntário, viria muito mais tarde com a doença. Apenas os telefonemas nos mantinham em contacto, exceto a última vez que tentei – talvez há três semanas – para saber como íamos enfrentando a «pandemia».
A Manuela Borralho, por tudo isto, é outra das «Figuras da Minha Vida». E esta não é a «despedida» que havíamos planeado. Competente, afável, de uma serena firmeza no trabalho, Amiga para sempre! Foi meu privilégio. Até sempre «Chefe».
E porque há ainda
amigos e camaradas de muitos anos que merecem estar com eles sentado à mesa de
um café.
«Há gente que chega
e se perde
na voragem de ver
os verdes e os vermelhos da vida
esquecendo
o sol e o céu azul.»
(=== Ant. Bondoso. Maio de 2019 ===)
14
de Julho de 2022.
António
Bondoso.
2021-11-27
Sabemos, por outro lado, que uma «História»
nunca é definitiva, sobretudo a dos países e do seu relacionamento. Por muito
que as «fontes» permaneçam, há sempre a tentação de uma nova leitura. Mas
Armindo Espírito Santo disse a este blogue «Palavras Em Viagem» que a sua “linha de investigação não se afasta da linha
conhecida, sobretudo da portuguesa. Há certamente algumas opiniões diferentes,
uma visão do economista sobre a história, mas isso não significa uma linha de
investigação diferente em busca de novas verdades. Por outro lado, o livro
baseou-se, essencialmente, nas fontes já conhecidas. Introduz alguns elementos
novos (poucos) como é o caso da cobra preta que novos avanços científicos
recentes (2017) demonstram que é nativa, e não introduzida pelos portugueses,
como se argumentava. Por outro lado, discute a questão das crianças judias,
sobretudo as causas da morte de um elevado número em tão pouco tempo.” A
investigação, reforça Armindo Espírito Santo, “levou-me sobretudo à desconstrução
dos mitos; às causas das mortes das crianças judias; aos motivos dos vários
conflitos de toda a ordem, que nada têm a ver com os atuais conflitos”.
O autor desta «História de S. Tomé e
Príncipe», que é investigador do Centro de Estudos sobre África e Desenvolvimento
(CEsA/ISEG-UL) e presentemente investiga história, cultura e economia de
STP, do passado ao momento atual, acrescenta que o seu trabalho foi realizado
de forma autónoma, sem ajudas de qualquer organismo público ou privado – quer
em Portugal, quer em STP.
Apesar disso, destaca que este livro é o primeiro de três que espera publicar sobre história, economia, cultura e demografia (sobretudo a evolução da população) de STP. O próximo pretende cobrir o período compreendido entre meados do século XIX a Dezembro de 1974 (fim do regime colonial - 2ª colonização). O último estender-se-á até à atualidade e vai do período de transição política até aos nossos dias.
A apresentação desta “História de S. Tomé e Príncipe”
vai estar a cargo do historiador português Arlindo Caldeira, consensualmente
considerado nos meios académicos como aquele que melhor conhece a História do
período moderno de STP, entre os séculos XV e XVIII.
O evento vai decorrer no dia 29 do corrente, 2ª feira, pelas 18h00, no auditório da UCCLA em Lisboa – sito na Av. Da Índia, nº110.
António
Bondoso
Novembro
de 2021.
2021-07-14
S.
TOMÉ E PRÍNCIPE – um «quadro pintado para todas as cores» em tempo de eleições
presidenciais. Ou as respostas que não chegaram!
Mil
quilómetros quadrados, 200 mil habitantes, 120 mil eleitores, 19 candidatos = 3
mulheres e 16 homens!
De todos estes, conheço apenas dois há
muitos anos. Dos tempos de juventude vividos nas ilhas: Posser da Costa e
Carlos Neves. Dos outros, apenas as referências do cotidiano, particularmente
notícias relacionadas com a atividade pública de cada um ao longo dos anos.
Sobre Posser, devo dizer que tenho um
grande respeito pela memória de seu pai – o velho Celestino – uma figura
querida de muitos jovens santomenses – particularmente nas décadas de 1960 e
1970 – ao serviço do desporto, quer no Benfica de S. Tomé, quer no Ginásio.
Confidente e mentor dos jovens sobretudo praticantes de andebol, basquetebol e
voleibol, Celestino Costa foi senhor de boa educação, bom senso, de um trato
irrepreensível. Respeito igualmente a memória do seu irmão Celestino, o
primeiro-ministro que conduziu a transição para o multipartidarismo entre 1988
e 1991.
Sobre Carlos Neves, há uma amizade
consolidada há muitos anos, quer seja no tempo em que desempenhou as funções de
embaixador em Portugal, quer seja no período da mudança, no qual desempenhou
papel preponderante na eleição presidencial de Miguel Trovoada, quer ainda nas
conversas frequentes para ir acompanhando a situação política no país –
nomeadamente no «golpe» de 1995, estava eu em Macau. Para além disso, e não é
pouco, há também a circunstância de Carlos Neves ser tio da minha prima Carla,
filha do meu primo Beto – entretanto já falecido – e que foi guarda-redes no
Sporting de S. Tomé durante alguns anos.
Se gostaria que algum deles viesse a
ser eleito? Claro que sim. Mas já lá irei. É ponto assente que não será fácil,
perante uma sociedade altamente bipolarizada e condicionada pelas mais diversas
razões, uma das quais está já enraizada – o tradicional «banho», traduzido em
benesses várias como por exemplo o “djêlu” ou “jêlu”. «Vemos rios de dinheiro
cuja proveniência se desconhece», disse há dias a jurista Celisa Deus Lima,
citada pela DW. Outras notícias, ou melhor, rumores [o País é pródigo em boatos
desde há séculos], especulam com dinheiros que poderão ter origem na venda de
terrenos para a tão polémica e já muito contestada plantação de canábis.
Mas,
por agora, detenho-me na ideia de que – numa perspetiva de buscar algum esclarecimento
sobre o pensamento de futuro para o país – propus a cada um deles tópicos para uma
pequena entrevista. Se Carlos Neves foi pronto a responder, e a entrevista foi
publicada no meu blogue no dia 1 de Março [pode consultar no link abaixo], já Posser da Costa
entendeu não dever responder. Prometeu e repetiu…mas falhou sempre. E apenas
por uma questão de ética não coloco aqui as perguntas que formulei em Abril ao
candidato Posser da Costa.
Deixo à consideração de quem vota.
António
Bondoso
14 de Julho de 2021.
https://palavrasemviagem.blogspot.com/2021/03/eleicoes-presidenciais-em-stp-nagravana.html
2020-09-18
A MULHER SANTOMENSE/SÃO-TOMENSE EM PORTUGAL…e esse caminho
longe!
“A
saudade é uma distância que dói porque não é acessível”.
“Carregamos
a saudade de gente que nos fez bem…e por vezes dói”.
Duas
ideias que marcam pessoas diferentes mas que manifestam idêntica emoção quando
se fala do país distante.
Duas
mulheres de S. Tomé e Príncipe, na diáspora em Portugal, a propósito do Dia da
Mulher Santomense que se assinala a 19 de Setembro.
Independentemente
do simbolismo da data, que vai ser comemorada a preceito e com dinamismo – como
saberemos mais à frente – há sentimentos e emoções na comunidade que traduzem
uma forte ligação às ilhas encantadas do Golfo da Guiné. E foi por aí que
tracei o caminho, solicitando pequenos depoimentos sobre a saudade da «terra» e
sobre a perceção que têm do país à distância.
E se a saudade «não é mensurável» por
vezes – como são os casos da Áurea Graça Amorim, da Mena e da Nanda Teixeira,
ela também é «infinita», por outras, por exemplo para a Maomé Cravid e Milé
Albuquerque Veiga. Em qualquer caso, foram vivências únicas para Conceição
Beirão Carvalho, que as recorda sem «saudosismo doentio» e podem ser analisadas
sob vários pontos de vista – como sucede com Maria José Rebelo: “é uma ausência
de algo que já passou” e “também é uma questão emocional. Carregamos o peso de
algo invisível e por mais que se diga que se mata a saudade, ela está dentro de
nós”. No fundo, reforça a Mena Teixeira, há uma «saudade boa dos cheiros, dos
sabores, da presença e da ausência».
E é nesta ambivalência da presença e da
ausência que se coloca a questão da perceção do país à distância.
A Maomé, por exemplo, diz ter «um
sentimento de pertença, resignação e amor incondicional» enquanto a Nanda
Teixeira refere “a percepção de um país muito frágil, com inúmeras carências a
todos os níveis”. A Áurea diz que «a perceção
do país à distância é impossível» mas a Milé Veiga afirma ter uma «perceção
permanente, buscando informação por via dos média». Para Maria José «não
podemos caminhar para São Tomé. Não há caminho. É preciso voar ou fazer viagem
de barco». Por isso dói tanto a saudade. Tal como a Milé, igualmente a
Conceição Beirão procura manter-se atualizada e cita Francisco Tenreiro:- “longe…apenas
nas milhas”! O tempo, diz, ainda é de brumas: - «Quisera poder sorrir de
júbilo, mas, infelizmente, ainda não chegou esse tempo há muito acalentado. A
brisa fresca de Abril de 1974 demora a dar o ar da sua graça».
45 anos depois da independência de STP,
já era tempo de sentirmos soprar a «brisa fresca». Contudo, Conceição Beirão
regista com enorme satisfação o papel da mulher santomense na diáspora,
reconhecendo que «ser santomense em Portugal, apesar das vicissitudes, é arar
em terra fértil. Portugal é o país mais hospitaleiro do mundo». Por isso, deixa
a maior e a mais respeitosa vénia à “MenNon” (Associação das Mulheres
Santomenses em Portugal, a comemorar 10 anos de vida) pela «generosidade e
presença admirável, onde a escuridão turva o presente e tolhe o futuro, bem
como a todas as que, de uma ou outra forma, continuam a fazer a História
Nacional».
Muito grato a todas as que, sendo solicitadas a participar nesta minha ideia, o fizeram prontamente. Longa vida à “MULHER” de S. Tomé e Príncipe em todo o mundo!
António Bondoso
18 Setembro 2020.
2020-08-21
2020-04-04
A partir de foto de Alberto Helder
(reconhecendo o IvoJordão, o Vieira da Recauchutagem e um dos irmãos Mendes)











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