2023-10-11

 

Convívios há muitos…ou de como mais um de Professores, formados na então Escola do Magistério Primário de Lisboa, conseguiu produzir ainda o encantamento de 55 anos de Amizades.

 

Depois de se terem conhecido em 1968 e depois de, em 1970, cada um ter seguido o seu trajeto balizado pela responsabilidade de ensinar, educar e formar, há ainda alguns que apreciam brindar à vida que vai seguindo e à saudade que vai passando. 
 
 
 
 O encontro deste ano – que reuniu três dezenas de amigos – começou em Fátima, para «dar graças à Senhora» e onde se recordaram palavras de Tolentino de Mendonça…”Maria tem esta capacidade de escutar e acolher a vida, de ser visitada, de não viver com a porta fechada”, culminando ali próximo – em Giesteira – no restaurante «A Lanterna do Fado».   

Menu bem elaborado e bem degustado, cada um e/ou cada «grupo» foram de mesa em mesa desfiando memórias de um tempo diverso, do qual ficou a certeza de que «é no estádio inicial da educação básica que se formam, no essencial, as atitudes da criança em relação ao estudo, assim como a imagem que faz de si mesma». 


No convívio nada ficou silenciado – do futebol à Política, da Saúde ou falta dela aos Amigos e Familiares – e houve mesmo tempo para receber mensagens de carinho de alguns ausentes por motivos de «força maior», como foi o caso de um texto da Menta sobre a «vida», na voz da São Pacheco, espaço para ouvir Poesia também pela disponibilidade da Gó, a alegria da Manuela Rito a distribuir 30 quilos de «arroz de Melides», a Amparo a ofertar pequenos sabonetes perfumados…e até um momento particular dedicado à “Grande Música» na voz sempre fresca da Armanda. 


O programa do Encontro terminou já perto do final da tarde com uma visita cultural e recreativa ao Ecoparque Sensorial Pia do Urso.

         Parabéns à São Pacheco, que organizou e que lembrou ser necessário vermo-nos mais vezes, confraternizar sempre, abraçarmo-nos mais: “Que bom continuar a sentir que ainda temos sonhos e um futuro pela frente”. Parabéns igualmente a todos aqueles que percebem a «pedagogia empática», o reconhecimento e valorização de «casos especiais» e – como diz o meu particular Amigo e Professor Jubilado Jorge Bento – ter presente que “a imitação é pedra angular da educação”. 

         Felicidades para todos e até ao próximo ano, estando presente a promessa de irmos «ver o mar», guiados pela precisão da Adelaide Henriques. 

 A «AMIZADE», segundo a São Pacheco, "duplica alegrias, divide tristezas".

António Bondoso

Setembro/Outubro de 2023.


 

2023-09-13

A DEFESA DA POESIA...A DEFESA DA POETISA
 
Há 100 anos…nascia
NATÁLIA CORREIA – Setembro de 1923.
Morte – Março de 1993 (70 anos de idade) = há 30 anos.
Foi poeta, (POETISA – gostava de se afirmar), dramaturga, romancista, ensaísta, tradutora, jornalista, guionista e editora.
Foi tudo isso. E ativista seriamente. De personalidade livre de convenções sociais, patrocinou tertúlias nos anos de 1950, 60 e 70 – aqui já no famoso Botequim.
Censurada, incomodada, acusada…foi obrigada a defender-se. Mas não em verso, como pretendia, a conselho do seu advogado. Nos versos, conhecidos mais tarde, dizia: - “Ó subalimentados do sonho!
A poesia é para comer”.
Desassombrada, claro. 
 

 
***** 
 
NATÁLIA CORREIA...assim recordada por mim em Abril deste ano, no evento O CANTO DAS PALAVRAS, no âmbito de mais uma edição de «Interior no Livro», iniciativa da C.M. de MOIMENTA DA BEIRA.
Este ( de três)...dito por Isabel Salgueiro ( Pingos Poéticos - Clube de Poesia de Moimenta da Beira): 
 


 
"A DEFESA DO POETA" 
 
Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.
Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.
Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.
Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.
Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.
Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.
Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.
Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
Que favor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?
Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.
Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de perdão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho!
A poesia é para comer.
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Natália Correia- 1966
 
 
 

 
 
António Bondoso

13 Set. 2023.