2012-11-14



AINDA A VISITA DA SENHORA MERKEL...

RELENDO LUÍS SEPÚLVEDA[1]

Hoje, dia de “greve geral” – e quanto ela se justifica! – aproveitei para reler, como faço muito regularmente, o incontornável lutador Luís Sepúlveda. E nas suas “Crónicas do Sul” deparei com um texto sobre as questões da emigração/imigração na Europa, a propósito dos tumultos de rua em França quando Sarkozy era ministro do interior. O título, muito sugestivo, era «Carne de Blogue» (3), e derivava depois para a imigração no país da senhora Merkel. É um texto marcante, que não resisto a citar:


[1] - Crónicas do Sul. 2008. ASA, Porto.



Quão longe vão os tempos de Willy Brandt e de Olof Palme!
Até da Europa solidária de Jacques Delors.
Fica o registo.
António Bondoso.




2012-11-11


A IMBECILIDADE CAMPEIA... 


A imbecilidade campeia.
Velozmente tece a sua teia
Aproximando
Apertando
Triturando
Morrendo e putreficando.

Mas o mundo dos sons apresenta-se vivo
Renovado.

A alma alegra-se ouvindo
De um canário encantatório
Trinado rico marcante
Código morse rendido
A esse falar ilusório.

E quando se fina o gorjeio
Veloz compasso melódico,
Volta a morrer a harmonia
Do meu plumoso presente.

E breve de novo me dou conta de que a imbecilidade campeia.
-------A.Bondoso (a publicar). 



2012-11-10


À VOLTA DE MIM E DO MUNDO...







Há pessoas com muitas capacidades.
Alguns mostram-se sem saber, outros sabem mostrar-se, há quem pense que o mundo gira à sua volta – a obsessão é quase um pecado – há muitos que estão “convencidos”, ainda outros que sabem “convencer” e também aqueles que se deixam convencer. Outros, porém, convencem-se de que – em seu redor – tudo o que mexe, pensa, fala ou escreve tem um único destinatário: eles próprios! É o que se pode chamar de suprema atitude narcísica. 
Há humildes competentes, existem falsos humildes, há quem seja humildemente arrogante e ainda o grupo dos teimosos. Alguns serão certamente competentes, mas a maioria coloca-se no grupo dos teimosos incompetentes. 
E há aqueles que vivem no mundo da ilusão. Iludem-se com o que pensam saber mas não sabem, iludem-se com um fugaz clarão do que pensam ser sucesso, vivem na ilusão da mentira, sabendo que não sabem de onde lhes chega a convicção ilusória. Dizendo de outra forma, sabem que a matéria não lhes pertence mas, contudo, conseguem transformá-la (nada se cria, tudo se transforma) remodelá-la, dando-lhe uma aparência de novidade e de autenticidade.
De facto, há pessoas com muitas capacidades. Espero que, por isso, possam perceber o texto.
Mas se alguém não percebe que tudo isto tem a ver com o carácter – ou falta dele – definitivamente é um incapacitado!
---------A. Bondoso. 


2012-11-09


À VOLTA DE MIM E DO MUNDO... 


De repente...quase calcamos uma das muitas víboras que rastejam por aí, dando razão a Maquiavel: o homem é mau por natureza.
E embora os bons sejam aos milhões, sentem-se impotentes para arranjar um antídoto que surta efeito perante o fatídico veneno das cuspideiras.



Há serpentes...


Cobras capelo e de chapéu
Que se passeiam em jardins de uma cidade
Que rastejam nas matas mais profundas
À espreita de emboscada planeada
À espera de um ataque fulminante.

Há serpentes...

Cascavéis em desertos já passados
Víboras da cor da terra
Com meias da cor da pele,
Qual disfarce dos guizos em ruído
Sibilina postura d’entre dentes.
----------------------------A.Bondoso (a publicar)

2012-11-04


MOIMENTA DA BEIRA E A GUERRA COLONIAL.



A guerra, qualquer guerra, deixa marcas profundas. Recuperáveis a médio e longo prazos no aspecto material, mas dificilmente ultrapassáveis no íntimo psicológico dos actores – sobretudo daqueles em que as “marcas” persistem, quase não havendo fronteira entre os problemas físicos e os psíquicos. É o que se designou chamar de “Stress Pós-Traumático de Guerra”, assunto que vai merecer hoje destaque em Moimenta da Beira, por iniciativa da Delegação de Tondela da Associação Nacional dos Combatentes do Ultramar. 


As guerras, todas as guerras, sejam elas nomeadas como “justas” ou “necessárias” – designação impossível por oposição à sempre injusta violência e aos seus efeitos – são igualmente imorais. E como escreve Tim O’Brian, em As Coisas Que Levavam os Homens Que Lutavam, “se uma história de guerra parece moral, não acreditem nela”. É uma citação com que Arturo Pérez-Reverte, jornalista da TVE, abre o seu livro Território Comanche, sobre a guerra da Bósnia: “(...) As bombas levantam pó, cascalho e metralha, e depois matam-te e ficas como aquele soldado croata, completamente só, na valeta da estrada, junto da ponte de Bijelo Polje. Porque os mortos, além de parados, estão sós, e não há nada tão só como um morto”.


 Mas quem tem a “sorte” de não ser atingido...e “apenas” vê morrer ou sente a impotência de salvar a vida de um camarada, ou apresenta ausência de reacção no sentido de poder ajudar o estropiado a seu lado, nunca mais ficará só. Poderá ficar com deficiências físicas ou não...mas no seu interior haverá sempre – mais ou menos evidente, consoante os casos – uma máquina de filmar que rebobina e projecta as imagens de pânico, ânsia, terror, medo, impotência. Por vezes até, sentimentos de culpa por vivo permanecer. Nunca mais estará só, tal como o seu comportamento afectará igualmente familiares e amigos chegados. É sobretudo destas questões que se vai falar hoje em Moimenta da Beira, concelho que também contribuiu com a sua percela de vítimas durante a Guerra do Ultramar, para uns, Guerra Colonial para outros, ainda Guerra da Independência para o “outro”.


Designações que o antigo regime português foi incapaz de ultrapassar no sentido político, preferindo dar razão ao general prussiano Karl von Clausewitz – quando este dizia que “a guerra não é meramente um acto político, mas sim um autêntico instrumento político, uma continuação da actividade política, uma realização da mesma utilizando meios diferentes”. Nestes casos, ou não houve diplomacia, ou a diplomacia falhou, ou a diplomacia se prolongou demasiado no tempo, incapaz de matar a guerra no tempo certo. 


E os resultados, independentemente de quem vence – se realmente existem vencedores – são sempre problemáticos, trágicos e de difícil solução. Mas é fundamental discuti-los sem tabus e sem culpas.  
António Bondoso. 

(NOTA:--- Fotos do Autor (1,4,6) e retiradas da pg.7 do jornal Terras do Demo, de 25 de Outubro 2012, com a designação de Publicidade). 

2012-10-31



À VOLTA DE MIM E DO MUNDO......................















PEDRO, PORTA E O GALO ÁLVARO...
( para adaptar à canção do pintinho piu.........)

Cá em casa havia um Pedro
Cá em casa havia um Pedro,
E o Pedro piu... e o Pedro piu...
Primeiro ouviu
Mas depois não viu!
-------------------------------- ( repete... 2 últimos
Cá em casa havia uma porta
Cá em casa havia uma porta,
E a porta pum... e a porta pum...
Ela assim batia
Sem vento nenhum!
-------------------------------- ( repete... 2 últimos

Cá em casa era só gastar
Cá em casa era só gastar,
E o Vitor dizia...e o Vitor dizia...
Quanto mais gastar
Mais terão azia !
--------------------------------- (repete...2 últimos

Cá em casa só um corta-relvas
Cá em casa só um corta-relvas,
A máquina cansada...a máquina cansada...
Já não tinha força
Nem estudava nada !
---------------------------------- ( repete...2 últimos

Cá em casa havia um galo
Cá em casa havia um galo,
E o galo cantava...e o galo cantava...
Mas a crista murcha
Não desabrochava !
---------------------------------- ( repete ...2 últimos
Cá em casa era uma canseira
Cá em casa era uma canseira,
E se chega o Álvaro...e se chega o Álvaro...
Vai morrer de sede
Aquela pereira !
---------------------------------- ( repete...2 últimos

&&&&&&&&&&&

Cá em casa havia um Pedro
Cá em casa havia uma porta,
E o Pedro piu... e a porta pum...
Era só bater
Sem fazer nenhum !
-------------------------------- ( repete... 2 últimos
Cá em casa havia um galo
Cá em casa só um corta-relvas,
E o galo cantava...e a relva comia...
E a crista murcha
Ao Álvaro dizia:
---------------------------------- ( repete...2 últimos
É preciso dar um jeito
É preciso dar um jeito,
E o tempo urge...e o tempo urge...
Dá-me a dor no peito
E o guito não surge !
---------------------------------- ( repete...2 últimos

Com o Pedro o que fazer ?
Com o Pedro o que fazer ?
A porta já bate... A relva não cresce...
A crista já baixa
E a pereira morre...
A pereira morre e o país fenece !
A pereira morre e o país fenece !
“ “ “ “ “ “ “ “ “ “ “ “ “ “ “ “ “ “ “ “
Idem ..... idem.... ( em fade out....)
........................... A. Bondoso. 

2012-10-21




À VOLTA DE MIM E DO MUNDO.... 


‎*****"A poesia, que eu reservo ao domingo, seja manhã ou de tarde, mas que eu prefiro à noitinha já coberta de silêncios – sem que o vento, o mar e o sol queimem as pistas da minha busca, canta sempre mais do que o belo, mais do que o amor, mais do que a paixão. Os poetas também cantam ( e devem!) a injustiça, as angústias e a tragédia sobre os desencontros e desencantos da vida!"---- A.B. 2012. 

Por isso é que, neste domingo, eu revelo uma "CORRIDA DE FUNDO"! (a publicar) 

"...Corremos sempre atrás da vida
famintos de sensações
que a alma não é medida
por tão pequenas razões.
Corre-se atrás da política
de cinzento requintada
no paós é paralítica
e lá fora encapotada.
É o terror da vingança
sem o pão de cada dia
e fica sempre a lembrança
desta global utopia.
Corre-se além p'la guerra
morre-se também de fome,
por aqui já nada vive
e ninguém dá pelo nome"!
--------------A.Bondoso.







2012-10-08







À VOLTADE MIM E DO MUNDO...

E a propósito de um filme que aí vem... "A Última Vez que vi Macau"

http://www.pardolive.ch/catalogue/film.html?fid=608538

Há um outro "documentário" - bem didáctico - que é muito interessante para quem não conheceu e/ou não conhece :

http://www.youtube.com/watch?v=4f2tMR2bi_8



                                                 CONTENTOR
Apenas um ponto
Longe, ansiosamente distante
Mas ainda assim o centro
Das belas imagens
Que marcaram o oriental capítulo do meu império imaginário.
Macau
O rio e as ilhas
Pérolas brilhantes da memória dos amigos que resguardo
Respeito e respiro
Sinto e vivo em cada lembrança que me chega.
Não foi Camões que me prendeu
Nem a sua virtual Dinamene
Foi mais a força do insenso e do ópio brutal de Pessanha
Como às Portas de um Cerco à espera.
Do seu túmulo se elevam em espiral
Não me deixam levianamente levantar ferro
Ancorado como estou nas amarras de um porto interior
Do qual vi partir o contentor
Fiel depósito dos amores que me rodeiam
Serenam e protegem quando tudo é angústia à minha volta.
------------- A.Bondoso, 2009.  ( A publicar....

2012-10-07



À VOLTA DE MIM E DO MUNDO !




Sogra e mãe, que me deixou órfão pela segunda vez.
Por isso, digo eu hoje que:


 SÃO QUATRO !

São quatro
E partiram bem antes do fim da história.
Deixaram uma saudade perdida
Um vazio imenso
Neste mundo onde se move a minha vida.
Se eu pudesse reverter o tempo
E a alma contada por minutos
O ontem seria tempo ainda hoje
Teimosamente a rodar no tic-tac.
Poderia assim continuar a lembrar de minha mãe
O seu sorriso sofrido
E de meu pai ser saudoso
Do seu sorriso matreiro!
Mas outra mãe se revela
E outro pai se adivinha
Laços novos e antigos
Apertam todo o espaço
Cortam-me a respiração
Estas memórias cansadas
Que o tempo revolto vira
E se apressa a descobrir
Que nunca faz mal sorrir.

São quatro.
Sinto a falta que me fazem
E de todos eles a fé
Num dia seguinte novo !
_____________________ António Bondoso


2012-10-02


Á VOLTA DE MIM E DO MUNDO...




***** O EXTRATERRESTRE:--- O ataque em todas as frentes. Mal apresenta... e já decidiu. À boa maneira dos velhos tempos! É a diferença entre as palas ...e os binóculos! O PCP ainda está no tempo da "cassette", quando já era tempo de ter aderido ao DVD ou à tecnologia Blue-Ray.
           1)- ????"Não contem com o PS para travar este Governo", avisou Jerónimo de Sousa no discurso em que justificou a moção de censura do PCP. ???? (JN online)
           2)- Pelo contrário, como está mais maduro o BE ! Alguma coisa terá aprendido quando há mais de um ano, numa aliança "estranha" com o PCP e a direita agora no poder, contribuiu para derrubar o governo SócratesII. Que - em boa verdade - não deveria ter existido, se JS tivesse tido a coragem de enfrentar Cavaco Silva.
           3)- "O deputado Jerónimo de Sousa é um dos responsáveis por existir neste momento um Governo de direita em Portugal. Num passado recente, votou ao lado da direita", declarou José Junqueiro, numa alusão ao chumbo do PEC IV na Assembleia da República.
José Junqueiro considerou depois que o líder comunista "tem uma obsessão com o PS" e que, "sob a falsa pretensão de atacar a direita, acaba sempre a atacar o PS". (JN online).
           4)- Mas AJ Seguro adormeceu à sombra da vitória antes do Conselho de Estado, reunião que esvaziou o ataque do PS e, sobretudo, uma eventual moção de censura. E agora, MANTENDO-SE AS MESMAS CONDIÇÕES PENALIZADORAS da TSU, talvez muito pouca gente compreenda o compasso de espera e as hesitações do líder socialista. Em política - como no futebol - não se pode adormecer e dar o flanco.
E mesmo com a “ajuda” de Louçã na RTP2 ( todos perceberam a diferença entre o BE e o PCP)...será quase impossível colocar o relógio a andar para trás.  A não ser que AJ Seguro – qual mágico encartado -  consiga tirar da cartola um coelho para estufar em lume brando.
Perde, mesmo votando favoravelmente a moção do BE...
Não cometendo o “suicídio” de apresentar a sua própria – já muito fora de tempo – só resta ao PS “inventar” um facto político, atacando fortemente a coligação no poder.
Como? a ) Insistindo na ideia de um governo de “unidade nacional” – mesmo sem o PCP, mas com o BE – assumindo a ruptura com os comunistas mas empurrando o odioso de rejeitar a solução com o BE para a coligação no poder;  b ) uma fuga para a frente, rompendo definitivamente com os projectos do PSD/CDS, que estão muito para além da Troika, solicitando eleições antecipadas e promovendo acções de rua, comícios, debates – agitando a modorra da vida entre S.Bento, Belém e Bruxelas. Declarações constantes nos OCS.
Ou então...permanecer  na quietude dos bem instalados na vida e morrer aos poucos, aparecendo na frente das sondagens mesmo descendo nas intenções de voto. Menos por mérito próprio, mais por demérito dos outros !
A.Bondoso.

2012-09-29


À VOLTA DE MIM E DO MUNDO......................................


                                   Foto de António Bondoso...Escultura de Aureliano de Aguiar



O Mundo Amanhã – Futuro Confiável?

“Entrámos numa época de tempo tríbulo, em que a sobrevivência dos conceitos clássicos do passado tende para puramente virtual; em que o presente não encontrou categorias racionalizantes do processo que por isso se desenha anárquico; em que o futuro está nimbado de incerteza, refractário a ser apreendido por uma futurologia confiável”.
                                                                                                                                                    Adriano Moreira (2009)

BREVE INTRODUÇÃO
             
            No fundo, a interrogação que aqui se pretende colocar em destaque – partindo do cepticismo e da incerteza de Adriano Moreira – é saber até que ponto estará o mundo preparado e decidido a perceber a problematização da mudança de que nos fala Vitorino Magalhães Godinho. Sabendo o que se passou ontem e percebendo o que acontece hoje, seremos capazes de visionar um amanhã confiável? Seremos capazes de instituir uma Nova Ordem Mundial?
             
I
O QUE MUDOU – E COMO – ENTRE O ONTEM E O HOJE ?
“A globalização competitiva está a ter consequências estruturais de uma dimensão ainda não conhecida. Sabemos todos que estamos num mundo novo. Não sabemos normalmente interpretá-lo nem conhecemos as suas consequências”.
                                                                                                                                                         Neto da Silva (2007)

            Mudam-se os tempos mudam-se as vontades, cantou Camões – todo o mundo é composto de mudança, cantou Gedeão. Todos sabemos que tudo muda a cada instante. E se muitas vezes, de imediato, não sabemos interpretar a mudança – ela aparece-nos pouco depois quase como evidente, mercê sobretudo da conjugação que a disciplina de Relações Internacionais faz dos acontecimentos e da participação, neles, dos diversos actores da cena internacional.
            Vitorino Magalhães Godinho (2010) diz que “Entre a Belle Époque e o ocaso do século ressaltam os contrastes, traçados por mudanças, brutais umas, insidiosas e de longa afirmação, outras”. Referindo-se ao século XX, o autor classifica-o como de contrastes, de violência e de baldões – mas também elenca uma série de benéficas inovações, destacando mesmo o que chama de “uma das decisivas conquistas da Humanidade”, as pensões de reforma!
            Estonteante mudança, por um lado – mas, simultaneamente por outro, uma mudança sem pressa e até estabilizadora em determinados períodos de finais do século XIX e princípios do século XX. Depois, o fim da II Guerra Mundial passou a ser um dos marcos da mudança, mas a Liberdade só ganharia novo alento com a queda do Muro em 1989. Seria a economia, à escala global, a sentir as grandes mudanças. O Estado e o Livre Mercado em blocos opostos, com as ideias ultraliberais de Reagan, Thatcher e Milton Friedman a marcarem o compasso no Ocidente, onde já pontificavam a Informática e a revolução nas comunicações com a Internet (depois da Rádio e da Televisão).
            Entretanto, aparecem algumas contradições entre mercado e capitalismo, dizendo-se que o capitalismo – para Fernand Braudel – “supõe como pilar a economia de mercado, que não se deixa por ele penetrar, permanecendo o sistema da empresa livre e da livre concorrência, enquanto aquele é o sistema dos monopólios e da desigualdade, entre conjuntos e no interior de cada conjunto, onde se distinguem círculos concêntricos (periferias) em redor de um ou dois centros. Assim, não faria sentido falar de capitalismo como economia de mercado, embora com esta coexista, como pode coexistir com outros sistemas”. Desfazendo dúvidas, Godinho entende que “O capitalismo brota no seio da economia de mercado, mas não se identifica com ela, porque é desde a origem um sistema de monopólios e desigualizador”. Não se identifica mas dela se apropriou.
            E depois substituiu-se a solidariedade pela caridade e mercantilizou-se a saúde e o desporto: “Os jogadores compram-se e vendem-se, as suas camisolas são cartazes de propaganda (...); os capitalistas disputam-se a propriedade dos clubes, em busca de prestígio – o futebol tornou-se universal, exalta multidões na China e no Japão, multiplica campeonatos de chorudos proventos e ocasiões de outras actividades lucrativas (até prostituição de luxo). Onde pára o espírito desportivo? O amor da camisola é fugaz, como tende a sê-lo o amor na relação conjugal”.
            E as mudanças sucedem-se. Ao lado de avanços na Ciência e na Tecnologia o rótulo do tráfico de armas e de drogas, excesso de inovação que nem sempre significa desenvolvimento; um descontrolado aumento da produção, para justificar o supérfluo em vez do necessário – obedecendo às leis da publicidade e do marketing. A “obsolescência” é a trave mestra do funcionamento económico hoje em dia.
            E com as mudanças sucederam-se as crises: 1973, 1987, 1993, 1997/98, 2001/03. Nesta última, a Argentina declarou falência! Agora, foi a vez da Islândia.[1]
            A crise actual? – pergunta Vitorino Magalhães Godinho – não tem paralelo nos três quartos de século precedentes: “Todavia ninguém a previu, ninguém a viu chegar, alguns começaram a suspeitar quando já estava instalada”. Ela é desestruturante e só se poderá resolver a longo prazo.
            As tempestades económicas, à semelhança das da Natureza, vêm e vão – escreve Vince Cable (2009). “Não podem ser abolidas. Mas, tal como os furacões e tufões, podem ser antecipadas e preparadas, e uma resposta de emergência bem coordenada, envolvendo uma coopreação internacional, pode atenuar a miséria. As tempestades também testam a solidez dos navios do Estado. Há alguns anos que a frota tem estado a enfrentar uma certa ondulação e a fazer progressos notáveis. Mas as grandes vagas já estão a expor algumas das suas fraquezas. O SS Britannia, considerado inafundável, está a meter água, e o enorme navio-tanque USA está a adernar visivelmente. Os passageiros e as tripulações estão a entrar em pânico e repararam que a maior parte dos salva-vidas estão reservados para a 1ª classe. Não se sabe ao certo quantos navios acabarão por chegar ao porto em bom estado depois da tempestade”.
            É um facto que vivemos na obsessão da segurança e numa civilização do risco; também a Democracia está em crise faltando ideais aos partidos; está na moda a ideia de menos Estado –melhor Estado; existe uma grande contradição entre o pensamento da Igreja Católica e o mundo moderno; a memória apaga-se, ignora-se o passado, dispensa-se a investigação histórica. A História não seduz e – escreve Vitorino Magalhães Godinho – “O inquietante é ter sido pràticamente expulsa da economia e das outras ciências humanas (...)”.
            Há também o fascínio dos números e a precisão dos cálculos. Que depois são corrigidos, apesar de continuarem a dar confiança: “No futebol já não interessa o espectáculo, mas o quadro com o número de remates, faltas cometidas, etc.; e também ficamos a saber a velocidade a que a bola entrou na balisa, quantos quilómetros correu um jogador.
            Apesar de tudo isso, o Professor não deixa de manifestar esperança em alguns remédios. Por exemplo, libertar a economia das garras da especulação financeira; fechar todos os off-shores; reorganizar o Estado, restituindo-lhe funções económicas; ousar o planeamento; ressuscitar o mercado; renunciar à obsessão de reduzir a mão-de-obra e não nos deixarmos enredar na mudança estéril: “Para quê a digitalização da televisão, se o seu problema fundamental é o da qualidade dos programas, a intoxicação publicitária, o desempenho aflitivo de entrevistadores?”
            Com uma pequena “ajuda” de Vince Cable – é mais ou menos assim que Vitorino Magalhães Godinho vê o processo da mudança entre o mundo de ontem e de hoje. E amanhã? – pergunta. Não sei – responde.

II
UM FUTURO CONFIÁVEL?
“A capacidade de projectar o futuro será cada vez mais importante para gerir, controlar e procurar minimizar os riscos sociais, tecnológicos e ambientais que se irão avolumar ao longo do século XXI (...). Finalmente é também necessário aceitar a inevitável incerteza inerente às tentativas de projectar o futuro”.
                                                                                                                                              Filipe Duarte Santos (2007)
            Do “não sei” de Vitorino Magalhães Godinho à “inevitável incerteza” de Filipe Duarte Santos – quanto ao amanhã – não existe qualquer passo desencontrado. Talvez apenas a diferença nos discursos de um Historiador e de um catedrático de Física – acentuada eventualmente pelo lapso temporal na publicação das obras, 2010/2007. A primeira tem presente a actual crise, concluindo Vitorino Magalhães Godinho que “É possível que, baixada a febre mas não debelado o mal, voltemos aos carris do mundo de finais do século XX e início do XXI. A crise de excepcional gravidade que atravessamos poderá não passar de uma oportunidade perdida, poderia ser uma oportunidade para mudar de rumo. Mas seria necessária coragem e lucidez – que não se encontram à venda nos supermercados, essas catedrais dos novos tempos”.
            Quase premonitória esta visão de Magalhães Godinho. Baixou a febre mas o mal parece não estar ainda debelado. De acordo com o Director Geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) – Dominique Strauss-Kahn – a recuperação global está a acontecer de forma mais rápida do que se previa inicialmente, apesar das dúvidas que os mercados financeiros apresentam. Pode recordar-se, a propósito, um dos remédios recomendados pelo Professor: libertar a economia das garras da especulação financeira.
            Relativamente à segunda obra – de Filipe Duarte Santos – a visão pessimista abrange um horizonte temporal muito mais vasto: “A coexistência de valores contraditórios associados ao actual modelo dominante de desenvolvimento tende a gerar incerteza e alguma ansiedade. O futuro foi e será sempre incerto mas, hoje em dia, a incerteza envolve os riscos altamente complexos que resultam de desigualdades de desenvolvimento entre países, da insegurança e conflitualidade sob formas cada vez mais diversas e perigosas, e ainda de vários problemas ambientais graves”. Por isso, acrescenta, “são cada vez mais os que procuram encontrar novas éticas ambientais e novos paradigmas de governação capazes de nos conduzir à sustentabilidade do desenvolvimento”.
            Como refere Neto da Silva (2007) – “Estamos, pela primeira vez na História da Humanidade, numa encruzilhada. De facto, se continuarmos com o crescimento que conhecemos nos últimos séculos, o Planeta deixará de ter condições para que o Homem nele viva”.
            É o crescimento de que nos fala ainda Vitorino Magalhães Godinho ao salientar a nova (velha?) ideologia, da qual se deve distinguir o conceito de desenvolvimento: “As nações avançam em pelotão, as de trás procuram recuperar o atraso (de novo recuperar o atraso). A curva do sempre sacrossanto PIB revelaria a recuperação conseguida e o prosseguir da maratona por todos. Confiança imerecida nesse indicador – o Nobel economista Joseph Stiglitz dirige estudos para forjar indicadores mais fiáveis”. Tudo isto à margem, ou mesmo à custa, do direito fundamental que é a inviolável dignidade da pessoa humana? “Seria mais pertinente ter em conta o salário mínimo como indicador, e melhor ainda uma bateria de indicadores (fundação e extinção de empresas, evolução das bolsas, curvas de preços e salários, etc.)”.
            Mas os estudos podem, ainda e de novo, não ser fiáveis ou adaptáveis. E há que ter em conta uma decisiva questão: o planeta é finito.
            Por isso é que Neto da Silva acrescenta que “Eficiência e Competitividade cegas destruirão as hipóteses de vida sobre a Terra. Por isso, a ideologia da globalização competitiva, para ter sucesso, como é desejável, tem que se basear em eficiência e competitividade compatíveis com um desenvolvimento que satisfaça as necessidades do presente sem comprometer a capacidade de as gerações futuras satisfazerem as suas próprias necessidades. Uma tal visão do progresso liga, de forma interdependente, desenvolvimento económico, protecção do ambiente e justiça social”.
            Sinónimo de Desenvolvimento Sustentável?

CONCLUSÃO

            Depois de todas as dúvidas apresentadas e tendo em conta a “inevitável incerteza” ao projectar o futuro, não será fácil – quando não, mesmo impossível – apresentar argumentos que possam indicar um futuro confiável.
            Depende de nós todos. E da nossa capacidade para entender a inevitabilidade de uma solidariedade intergeracional. Sem ela – diz Filipe Duarte Santos – “iremos construir um mundo mais instável, inseguro, conflituoso, iníquo e injusto. As opções e os compromissos irão tornar-se cada vez mais difíceis de assumir”. 
            Assim, é urgente a instituição – não basta só a procura – de uma nova Ordem Mundial baseada nessa solidariedade. Intergeracional e interestatal – ou melhor, “interespacial”. Como escreve Adriano Moreira, “O reequilíbrio internacional aconselha por isso a olhar mais para os grandes espaços e para os Estados continentes, do que para o pesado tecido de Estados soberanos, doutrinalmente iguais”.
            E voltar a uma ONU onde todos falem com todos, “O que exige a reformulação da Carta escrita por ocidentais, para fazer convergir na leitura do texto as áreas culturais que ganharam finalmente a voz própria. E reconstruir um direito internacional que tenha como premissa a Declaração Universal dos Direitos do Homem, fundada na convicção generalizada da sociedade civil transfronteiriça, de que a dignidade de cada homem não é questionável”.
----------António Bondoso, 2010. (Revisto em 2012).


[1] Entretanto...aparentemente ultrapassada!