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2016-09-03


40 ANOS...APENAS UMA VÍRGULA NAS MEMÓRIAS DE S. TOMÉ E PRÍNCIPE QUE VAMOS CARREGANDO. O CONVÍVIO NA MATA DO BUÇACO.



É assim que começa a página 73 do meu livro ESCRAVOS DO PARAÍSO, publicado em 2005 para assinalar o 30º aniversário da independência de S. Tomé e Príncipe. Até àquela data – excetuando talvez a excelente tese de doutoramento do investigador Gerhard Seibert, publicada em 2001 – penso não ter havido um escrito com uma abordagem tão profunda e tão diversificada sobre o pensamento, quer de portugueses que sempre se consideraram são-tomenses, quer de são-tomenses que até à data da independência não deixaram de ser portugueses. Um pensamento sobretudo virado para as memórias de séculos, boas e más, para além de uma análise e/ou de um balanço – em certos casos até com desassombro – do trajeto político do novo país africano de língua oficial portuguesa.  
Fazendo jus ao título da página com que iniciava o 3º capítulo do livro, escrevia eu que “Apesar do percurso turbulento, não conheço outra comunidade com «raízes» africanas que se reúna tantas vezes ao ano em Portugal”. E salientava o almoço-volante das terças-feiras num restaurante da baixa de Lisboa; o calulu anual de Junho em Alfaião, com Bragança à vista; os habituais convívios, de forma rotativa, daqueles que trabalharam na Rádio – fosse no antigo Rádio Clube de STP, fosse no posterior Emissor Regional da ex-EN, a partir de 1969; no infalível almoço lisboeta em Dezembro para assinalar o dia do Santo; e particularmente no consagrado convívio da Mata do Buçaco, sempre no segundo domingo de cada Setembro desde 1976. Completam-se agora 40 anos!
Por desconhecimento, seguramente, não me referi então aos mais recentes encontros da malta menos idosa em Montachique e ao dos atletas e dirigentes do Andorinha Sport Clube em Pedralva. E mais recentemente ainda, tentou dar-se corpo a um outro promovido também pelos que passaram pelo Liceu D. João II. Friamente, poderá dizer-se que é um exagero. Sobretudo tendo em conta o facto das presenças mais ou menos recorrentes e, de certa forma, os mais recentes anos de crise que a todos tem afetado.
Mas para além disso, acrescem razões que foram motivando comportamentos diferenciados e que levaram ao declínio de alguns dos encontros/convívios em favor de outros. À dispersão dos interessados – embora o país não seja assim tão grande – e ao cansaço da repetição, ter-se-á juntado igualmente, porventura, a emigração.
Bom. O que realmente importa agora é lembrar o convívio da mata do Buçaco, iniciado em 1976, algum tempo depois do regresso ou do retorno originado pelo inevitável processo de descolonização. Provavelmente, a maioria dos “são-tomenses” já estaria instalada, passada uma natural fase de confusão provocada pelas mudanças. Significativas para muitos. Era ainda um tempo em que alguns tinham “receio” de assumir a saudade da história e das suas vidas e de conviver sem tabus…mas era igualmente um tempo de afirmação de outros, graças ao esforço de mobilização de uns quantos. Como sempre, aliás.
A ideia partiu do senhor Leal, que trabalhou nos Serviços de Fazenda, que terá escolhido a Cruz Alta, no Buçaco, sem dúvida pelo significado do local, mas também provavelmente por ser relativamente perto de Viseu, cidade para onde foi residir após o regresso de S. Tomé. Ao Leal juntaram-se depois o Domingos, do Baía, o Victor Cruz, o Eduardo Duarte, o Oliveira que trabalhou no Auspício & Menezes e mais tarde o Américo Gradíssimo. Cada família levava a sua merenda…mas todos partilhavam tudo. Havia calulus para todos os gostos. Num dos primeiros encontros, recorda o Domingos, apareceram lá elementos dos Serviços Florestais e perguntaram quem era o responsável. De imediato lhe responderam: cada um é responsável pelo que faz. Contudo, entendeu-se depois ser mais correto comunicar a realização do evento aos ditos serviços – até pela simples razão de que era necessária autorização para a abertura dos sanitários e balneários. Durante muitos anos essa tarefa foi desempenhada pelo Victor Cruz. 


E como eu digo no livro ESCRAVOS DO PARAÍSO já referido, não se discutia política: “…os convívios são a expressão de nos revermos nos cabelos mais brancos de cada um ou no abraço do parceiro que, algumas vezes e pela corrida do tempo, já nem recordamos o nome. Sem saudosismos, mas para matar saudades, quem não teve oportunidade de regressar ao paraíso, vai repetidamente enchendo o coração com memórias de outro tempo. Todos continuam escravos do milongo, escravos do feitiço das ilhas do obó, onde o cantar dos pássaros desperta os sentidos. No fundo, a História não acabou nem começou em 1975, apenas mudou de rumo acrescentando outras cambiantes”.
E tal como então, também agora – 40 anos depois – o encontro vai ser marcado por esse espírito. Oficialmente, será o último a ser “organizado” ali. Independentemente de poder haver sempre quem, não esquecendo as raízes, ali continuará a aportar, levando a merenda de uma vida. E por ser o último – é só perceber as razões – este vai ter uma celebração particular. O lanche terá um bolo alusivo, com velas e tudo. Nada se apagará. Mas o objetivo é agregar este encontro do Buçaco ao convívio do Andorinha, no Luso, futuramente talvez no derradeiro domingo de Junho de cada ano.
Assim seja. 


António Bondoso
Setembro de 2016.  

2016-01-12


O 66º NÃO É UM ANIVERSÁRIO QUALQUER!


VIVER É CANSATIVO!

         Assumindo a ideia de Armand Robin, segundo a qual não temos a certeza de pertencer à nossa própria vida, devo dizer que completar 66 anos de existência – para além de toda a simpatia que o número possa gerar – não deixa de ser um marco significativo de uma certa ideia de equilíbrio, físico e mental, perante as contradições e os perigos de dois tempos distintos: a juventude e a idade adulta. Viver sem rede, trabalhar no arame, assumir riscos e desafios sem pesar consequências – posso dizer terem sido circunstâncias que desenharam muitos passos do meu circuito. Quer no tempo ativo, quer no designado período de aposentação.
         E agora, completados os 66, tudo isso me subiu ao quinto andar com uma nitidez invejável – não tivesse eu clarificado recentemente no escrito EM AGOSTO…A LUZ DO TEU ROSTO [e um escritor, como diz Olivier Rolin em O MEU CHAPÉU CINZENTO, é quase inevitavelmente alguém desequilibrado], os momentos mais significativos de um percurso que me levou de Moimenta da Beira a Macau, pousando longamente a “juventude” em S. Tomé e Príncipe [onde foi marcante o ano de 1966] e a “idade adulta” no Porto [onde se desenrolou a maior parte da carreira profissional]. Expressão desse trajeto sentimental foram sem dúvida as incontáveis mensagens de felicitações que me chegaram de viva voz, por sms e por meio das redes sociais da Web, não só do Minho aos Algarves, e se estenderam igualmente a Goa, Londres, ao Canadá, Brasil e à Colômbia, morando aqui um sinal destes tempos de inquietação e de emigração quase forçada. Talvez não tenha dado resposta atempada e merecida a todos esses gestos de atenção e de carinho, pelo que o faço agora e aqui com a devida vénia. Lembrando até a graça que foi ter ouvido ao telemóvel os parabéns “cantados” – quase ao estilo dos antigos “telegramas”.
         E depois o amparo do núcleo familiar, a mulher e os filhos, o bolo especial com mensagem dedicada e a presença de um casal amigo que fez questão de estar e de partilhar esse momento particular de soprar as velas e de formular desejos. São simples os meus: saúde, paz interior, a devolução da quietude e da esperança sorridente de outros anos. O futuro é sempre incerto…e o do país não se apresenta brilhante, apesar de alguns sinais positivos. O caso é que já não é fácil acreditar em políticos e em banqueiros que nos tolheram os passos. E a campanha eleitoral que agora decorre, apesar do tino que possa aparentar, também não nos oferece tranquilidade quanto à capacidade e aos valores de todos os candidatos em presença.  
         Resta-me voltar a Olivier Rolin e aos “escritores”: o primeiro dever do escritor, antes de «contar estórias» ou de «fazer sonhar», como está de novo na moda, continua a ser o de dar um sentido mais puro às palavras da tribo. Por isso me agarro à esperança de poder contribuir…escrevendo! E vivendo…para além do cansaço!
António Bondoso
Jornalista 


António Bondoso

2015-03-11


OS MEUS LIVROS DE 2014 - I


Africana inteira, do Bié e do Lubango, Maria do Rosário de Freitas acaba de soltar palavras ao vento, respirando poesia – da Tundavala a Coruche, da Senhora do Monte a Sesimbra.
Quem a conhece bem, como a amiga Ana Maria Teixeira Freitas, diz que a sua escrita “é prenhe de emoções, muito ligadas ao real”.
De facto, este livro que agora nos apresenta – editado pela sua Apenas Livros Lda e com o título Solto Palavras ao Vento – é um retrato de si, desde menina, mostrando a pureza da alma, nua, e abrindo o coração às memórias. É o seu tempo de saldar contas com o passado sem recurso a qualquer tipo de engenharia espiritual. Diz o que sentiu e sente – apenas! Pelas palavras, que são símbolos, e pela poesia que delas emana. “No piar das aves/no sopro do vento/no som da chuva…” Rosário de Freitas “semicerra os olhos” e leva “na sua viagem” o que lhe “vai no coração”. E não esquece Abril – que vai chegando – tempo que “abriu os corações para a esperança…e as portas do sonho”!
Parabéns…e escreva sempre!



António Bondoso
Jornalista