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2023-03-18


O MUNDO VISTO DO MEIO…ou de como o jornalismo se afirma como literatura. Uma velha questão que a jornalista/escritora Conceição Lima, de S. Tomé e Príncipe, ressuscita no seu livro mais recente com o título mencionado. Um livro de crónicas (apesar de já com algum tempo conseguem transmitir atualidade) – talvez uma das «vertentes» mais nobres do jornalismo – às quais a autora acrescenta o que chama de «Um auto do século XX», datado de 2021 e que refresca o dramático ano de 1953, atualizando o «pensamento» sobre o designado Massacre de Batepá. 


Da Web

         É mais um texto sobre a minha ideia genérica de “UM LIVRO DE VEZ EM QUANDO”, sendo que este da São Lima também não me surpreende. A autora merece a distinção de grande Poetisa e, para mim, igualmente o louvor de uma jornalista completa. É sabido que a «crónica» expõe, talvez como nenhuma outra face do jornalismo, o seu autor. Mas a credibilidade da «crónica» depende sobretudo da solidez dos argumentos que oferecem honestidade à opinião de quem escreve. E tudo isso está patente nos escritos que a São Lima nos apresenta neste O MUNDO VISTO DO MEIO. 


Da Web

Não me parece ser a «crónica» uma vertente do jornalismo com muita tradição em STP. Recuando um século, mais ou menos, vem à memória o celebremente pouco conhecido Mário Domingues, também ele um jornalista são-tomense, mas no Portugal europeu, que aos 17 anos entrou pela ficção e que publicou a “Audácia de um Tímido” em 1923. Escritor, editor, tradutor, publicista, historiador – mas sobretudo anarquista – Domingues foi também um devotado jornalista que cultivou o género da crónica em algumas revistas e jornais portugueses.

Para este género de jornalismo é preciso uma grande dose de coragem, particularmente num meio pequeno como é este país insular africano. E essa coragem tem custos, claro. A autora assumiu a sua independência e tem pagado por isso ao longo dos anos. O que não a impediu agora de valorizar os textos publicados, alguns em tempos não muito remotos, carregados de fortes críticas sociais e políticas. É sobretudo esse o mote, aliás bem destacado pela São Lima na sua “Advertência” inicial, quando – numa imagem britanicamente fleumática – entende ser ancestral a razão de chamar tudo pelos nomes, como forma de celebrar por exemplo a nomenclatura das espécies da flora e da fauna insulares: os seus sons, a sua pronúncia, a sua grafia, a beleza da sua singularidade. 


Da Web

Volto ao início da minha «crónica» para enfatizar mais dois ou três pormenores. Primeiro, o título do livro. O MUNDO VISTO DO MEIO faz-me lembrar uma das designações de STP como as Ilhas no meio do mundo, situadas no Equador do Golfo da Guiné e muito próximo do meridiano de Greenwich. Depois, algumas crónicas deliciosas nas quais recorda por exemplo a «combatente» Alda Do Espírito Santo, o Riboquense Carlos Teixeira que eu conheci na Embaixada em Lisboa ou do músico José Aragão de Os Leoninos e dos Úntués.

Não querendo revelar todo o conteúdo, há outras que não posso deixar de nomear, como por exemplo “Carta à Apolinária” escrita também na variante são-tomense do português, na qual se destacam as mudanças da «terra»: “Genti come bunzu assado, caldêrada di bunzu, espetada de bunzu, caril di bunzu, bunzo refogado com coco, bunzu refogado sem coco. (…) Tera mudô muiiito, Apolinária. Quem diz qui terá non mudô, tá com olho fêchado ô tá a vê pulitika só”.  

Ainda um interessante conjunto de três, sobre o «Lôgozo sapiens», o «Lôgozo médio» e o «lôgozo subalterno». A tipificação clara daqueles cidadãos a que se dá o nome de “chicos espertos”, perfeitamente definido o estrato social de cada um. O último, particularmente, faz-me lembrar quase como que o «bisneiro» descrito por Lúcio Amado. Convém esclarecer que «lôgozo», na língua forra são-tomense, é o nome de uma personagem ludibriadora que São Lima atribui ao Txiloli, a mais importante manifestação teatral (de rua) de São Tomé. Contudo, há também quem a atribua a uma personagem do «Dansu-Kongo» que passa de guardiã a usurpadora. 



Para terminar volto à questão de o jornalismo ser ou não literatura. Eu acho que é ou, pelo menos, deveria ser. Grandes e considerados jornalistas o disseram. E também Frederico Gustavo dos Anjos, no seu prefácio, considera que “Este livro é, para mim, uma linda poesia! No que tem de cor, de palavras, e do que tem para dizer aos leitores acerca da sua autora, da sua realidade e dos seus sonhos ou das suas aspirações”. E já que estamos perto da «Quadra Pascal», fica a memória da Conceição Lima sobre o sábado de aleluia e a Sexta-Feira Santa nas Ilhas: “Quando eu era pequena, parecia que até a natureza ficava melancólica, que os ramos e as folhas das árvores não se mexiam, não havia vento, nem brisa. Hoje, as árvores mexem-se alegremente, o vento faz dançar os seus cabelos. Se calhar, eram os meus olhos que viam a natureza através do profundo recolhimento dos adultos, em estado de luto pela morte de Cristo”.

Vão gostar de ler e de perceber este MUNDO VISTO DO MEIO, que a Conceição Lima fez publicar na Caminho e que, recentemente, foi apresentado em Lisboa.

António Bondoso

Moimenta da Beira e Vila Nova de Gaia, Março de 2023. 







 

2021-11-27

S. TOMÉ E PRÍNCIPE TEM HISTÓRIA.

SOBRETUDO A DESCONSTRUÇÃO DOS MITOS…ou uma forma didática e pedagógica de apresentar um livro da e sobre a HISTÓRIA DE S. TOMÉ E PRÍNCIPE

Capa

Foi o desafio que motivou Armindo Silvestre de Ceita do Espírito Santo, uma vez que – segundo o autor – “não existia um livro de história de STP, sendo este o primeiro. O que havia, e há, são uns poucos livros que abordam  matérias de história de STP (alguns com profundidade) que, de resto, por serem obras académicas, são praticamente inacessíveis aos estudantes e interessados no conhecimento da história de STP.” Por isso, diz-me, o livro tem uma narrativa diferente da que se encontra habitualmente em outras obras. 


Foto da Web - Tela Non

Sabemos, por outro lado, que uma «História» nunca é definitiva, sobretudo a dos países e do seu relacionamento. Por muito que as «fontes» permaneçam, há sempre a tentação de uma nova leitura. Mas Armindo Espírito Santo disse a este blogue «Palavras Em Viagem» que a sua “linha de investigação não se afasta da linha conhecida, sobretudo da portuguesa. Há certamente algumas opiniões diferentes, uma visão do economista sobre a história, mas isso não significa uma linha de investigação diferente em busca de novas verdades. Por outro lado, o livro baseou-se, essencialmente, nas fontes já conhecidas. Introduz alguns elementos novos (poucos) como é o caso da cobra preta que novos avanços científicos recentes (2017) demonstram que é nativa, e não introduzida pelos portugueses, como se argumentava. Por outro lado, discute a questão das crianças judias, sobretudo as causas da morte de um elevado número em tão pouco tempo.” A investigação, reforça Armindo Espírito Santo, “levou-me sobretudo à desconstrução dos mitos; às causas das mortes das crianças judias; aos motivos dos vários conflitos de toda a ordem, que nada têm a ver com os atuais conflitos”.


Contracapa

  O autor desta «História de S. Tomé e Príncipe», que é investigador do Centro de Estudos sobre África e Desenvolvimento (CEsA/ISEG-UL) e presentemente investiga história, cultura e economia de STP, do passado ao momento atual, acrescenta que o seu trabalho foi realizado de forma autónoma, sem ajudas de qualquer organismo público ou privado – quer em Portugal, quer em STP.

Apesar disso, destaca que este livro é o primeiro de três que espera publicar sobre história, economia, cultura e demografia (sobretudo a evolução da população)  de STP. O próximo pretende cobrir o período compreendido entre meados do século XIX a Dezembro de 1974 (fim do regime colonial - 2ª colonização). O último estender-se-á até à atualidade e vai do período de transição política até aos nossos dias.


Da Web - Programa Nós Por Lá

A apresentação desta “História de S. Tomé e Príncipe” vai estar a cargo do historiador português Arlindo Caldeira, consensualmente considerado nos meios académicos como aquele que melhor conhece a História do período moderno de STP, entre os séculos XV e XVIII.

O evento vai decorrer no dia 29 do corrente, 2ª feira, pelas 18h00, no auditório da UCCLA em Lisboa – sito na Av. Da Índia, nº110. 


Convite

António Bondoso

Novembro de 2021. 









 

2017-11-21

Celebrar S. Tomé e Príncipe - um desígnio meu. 
Desta vez, a propósito de uma memória do Dr. Manuel Ferreira Ribeiro, natural da Maia, pioneiro da investigação sobre a profilaxia da malária, entre 1869 e 1898.


A semana passada coloquei nas redes sociais (nomeadamente no facebook) uma memória sobre S. Tomé e Príncipe, destacando a figura do médico Manuel Ferreira Ribeiro que viveu, estudou e trabalhou uma dúzia de anos nas ilhas do meio do mundo. Ali chegou em 1869, tendo assumido a Direção dos Serviços de Saúde em 1871. Nas ilhas teve a oportunidade de viver “4 vidas”: - médico, investigador nas questões ligadas à malária, jornalista (fundou o jornal Equador - (…) Equador (1869) foi o primeiro jornal independente do arquipélago, e assumia-se como Semanário Agrícola, Comercial e Científico – e escritor (publicou muitos trabalhos e alguns livros sobre o desenvolvimento daquelas terras). Passou ainda 2 anos em Angola, 1877/1879, como médico da Expedição dos Estudos do Caminho-de-ferro de Ambaca – na linha Luanda/Malanje. Nesse âmbito, organizou em Lisboa quatro ambulâncias (hospital móvel na gíria militar) e publicou instruções higiénicas e de medicina preventiva destinadas sobretudo aos europeus que se deslocassem aos vales dos rios Cuanza e Lucala.
De salientar que ainda em Angola, tirando proveito dos seus conhecimentos, foi-lhe pedido que organizasse ambulâncias que servissem para as campanhas das obras públicas naquela colónia, bem como, um sanatório em Luanda, destinado aos expedicionários que necessitassem de primeiros socorros.
Quando o Dr. Manuel Ferreira Ribeiro chegou a S. Tomé, o território havia já entrado na chamada 2ª colonização – precisamente pela introdução das culturas do café e do cacau nos anos 20 do século XIX. Por essa altura, as condições no sector da saúde não eram famosas. Havia que criar condições para fixar os brancos europeus e, por outro lado, evitar que a malária prejudicasse o rendimento dos serviçais das roças.
As bases desse trabalho foram então lançadas, sendo mais tarde seguidas por outros médicos e investigadores – lembrando por exemplo os médicos já do século XX Melo Sereno, na Roça Água Izé; João Botica, na empresa Vale Flor (roças Rio do Ouro e Diogo Vaz nomeadamente); e o Dr. Mourão, nos Serviços de Saúde das ilhas, recordando-me ainda das campanhas do “flit” – DDT – para a erradicação do paludismo nos de 1950 e de 1960 concretamente.
Pois o Dr. Manuel Ferreira Ribeiro, que nascera em 1839 em Rebordãos, Águas Santas – Maia, viria a falecer na pobreza completa em 16 de Novembro de 1917, em Lisboa, sendo provável que tenha assistido ao funeral do primeiro grande poeta de S. Tomé – Caetano da Costa Alegre – em 21 de Abril de 1890, em Lisboa, onde terminava o seu curso de medicina na Escola Médico-Cirúrgica. Costa Alegre tinha 26 anos de idade. Ferreira Ribeiro exercia por essa altura funções na Direção Geral do Ultramar, só regressando a STP em 1892 para a sua segunda comissão de serviço. Assinalando a efeméride, organizei no passado dia 16 de Novembro, na Universidade Sénior Aprender a Viver/CES Pedras Rubras, na Maia, uma pequena homenagem na presença dos alunos – 2 dos quais familiares de Ferreira Ribeiro. Para além de dois pequenos filmes sobre as ilhas e sobre os escritores de STP, os alunos disseram poemas de autores de S. Tomé e Príncipe, por mim escolhidos. De Costa Alegre (1864-1890), como já referi, evocaram-se os SERÕES de S. Tomé
(…) A nossa terra é tão bela!
Duma beleza sem par,
E por ser assim formosa
Fê-la sua amante o mar. (…)
… de Alda Do Espírito Santo (1926-2010), professora e política, foi dito  A UMA MIRAGEM (1958), em O CORAL DAS ILHAS, de 2006
(…) Partir, partir para o destino das aventuras da glória
Romper as paredes do cárcere
É talvez um sonho marginal
Na prisão sem grades de muitas ilhas humanas
Onde o sonho flutua. (…)
… de Conceição Lima, jornalista (1961), escolhi INEGÁVEL (em A DOLOROSA RAÍZ DO MICONDÓ, de 2006)
(…) Casa marinha, fonte não eleita!
A ti pertenço e chamo-te minha
Como à mãe que não escolhi
E contudo amo.
… de Olinda Beja (1946), professora em Portugal, selecionei À SOMBRA DO OKÁ, (obra com o mesmo título, de 2016)
(…) ali ninguém mais se atreverá a negar-me o chão
a negar-me a mátria, o húmus materno doce e quente e
quente e húmido
o catre onde sempre estirei meu poema e minha mágoa e
minha sede.
… de Francisco José Tenreiro (1921-1963), geógrafo, professor e político em Portugal, o poema CANÇÃO DO MESTIÇO, em ILHA DE NOME SANTO (1942)
Mestiço!
Nasci do negro e do branco
e quem olhar para mim
é como que se olhasse
para um tabuleiro de xadrez:
a vista passando depressa
fica baralhando cor
no olho alumbrado de quem me vê.
Mestiço! (…)
         Ainda tempo para um poema meu (1953-1974 em STP) LEVE-LEVE, em SEIOS ILHÉUS, de 2010
(…) Às vezes sinto que o tempo caminha
Sorrateiro atrás de mim
Perseguindo memórias cheiros e paisagens
O ser e o estar de um ilhéu de mil imagens. (…)

António Bondoso
Jornalista
Novembro de 2017

2016-12-20


OLINDA BEJA trouxe S. Tomé e Príncipe ao PORTO AFRICANO, ainda a decorrer no Espaço Quadras Soltas, na Rua de Miguel Bombarda. Ali foi apresentado o seu livro Á SOMBRA DO OKÁ, cabendo essa responsabilidade a António Bondoso. 

Foto de "Porto Africano"

Mais uma vez para falar de S. Tomé e Príncipe – como eu gosto de conversar sobre o país! – e, neste caso, de uma Mulher que merece todo o respeito e admiração pelo esforço que sempre dedicou ao seu país natal…mesmo quando as condições não eram favoráveis. 
                                          OLINDA BEJA!     
         Hoje, felizmente, pode dizer-se que (de alguma forma) o seu trabalho tem vindo a ser reconhecido. No seu país e internacionalmente. E até premiado!
Tem já publicadas 17 obras, para além de outros trabalhos na Alemanha e na Argentina. Basta percorrer a sua já longa e profícua bibliografia para saber. A AUTORA tem igualmente poemas e contos traduzidos para espanhol, francês, inglês, mandarim, árabe e esperanto.
Olinda Beja – e jogando aqui um pouco com as palavras, função que ela desempenha com m(a)estria – Olinda Beja é SOBEJAMENTE conhecida no mundo da escrita em língua portuguesa. Olinda Beja é a expressão acabada da Rosa dos Ventos de Almada Negreiros: não por acaso os sangues cruzados a sul e a norte, a ocidente e a oriente – Não foi por acaso nada de quem sou agora!
Acrescentarei apenas que OLINDA BEJA faz parte de um considerável “escol” de figuras de relevo na cultura do mundo lusófono…com nascimento nas Ilhas do Meio do Mundo – mais propriamente na Ilha de Nome Santo no seu caso – “escol” que vem de longe…se nos lembrarmos de Costa Alegre, Mário Domingues, Francisco Stockler, Francisco José Tenreiro, Manuela Margarido, Tomás Medeiros, Almada Negreiros, Viana de Almeida, Marcelo da Veiga, Vianna da Mota, Sum Marky, Sacramento Neto e Alda do Espírito Santo.
Segue-se uma longa lista de valores mais ou menos recentes, onde despontam Albertino Bragança, Armindo Vaz D’Almeida (recentemente falecido, tal como Armindo Aguiar, há dias desaparecido e encontrado morto em Lisboa em circunstâncias muito estranhas), Conceição Lima, Frederico Gustavo dos Anjos, Carlos Espírito Santo, Jerónimo Salvaterra, Aíto Bonfim, Rufino Espírito Santo, Inocência Mata, Lúcio Amado, Hélio Bandeira, Ludger Carvalho, Orlando Piedade, Goreti Pina, Osvaldo da Gama Afonso e Francisco Costa Alegre. 

Foto de Porto Africano

É neste “escol” que se destaca a produção de Olinda Beja. Particularmente na Poesia. Tudo o que escreve…tem um sentido, um toque poético. É uma Poesia contada, cantada e representada. E como Olinda Beja tem percorrido Portugal e o Mundo…cantando e representando o seu país natal! Como aconteceu e tem acontecido com este delicioso
                                       À SOMBRA DO OKÁ.
(já distinguido em STP com o Prémio literário Francisco José Tenreiro)
E não faço aqui esta referência apenas por acaso.
Vamos já perceber porquê…
Quem já tem um exemplar, certamente perceberá (ou vai perceber) – por entendidas e eruditas palavras/ideias dos vários prefaciadores – a qualidade literária de Olinda Beja.
A minha teoria, a minha leitura é outra:
Este livro é um sonho. Traduz um sonho….
Olinda sentou-se ali na cadeira (aquela mesma na capa do livro) à sombra do OKá…e sonhou! 

Foto de Porto Africano

E o livro é o resultado do sonho. 
No qual há prelúdios, certezas e dúvidas…e depois fragilidades.
Também angústias, claro, pois o futuro não é só esperança…
E dedicatórias igualmente, em cada uma agradecendo.
Permito-me referir a de Milé Veiga: - minha vizinha de infância e de jovem adulto…Ainda hoje nos tratamos por Família!
À Milé Veiga
lavraste searas de ausência em teu outro húmus
teu pranto vago e terno em começo de recordação
tempo afeiçoado ao gesto
à simetria de teu corpo cambuto e gracioso
deserto de sons e horas
e diásporas de sofrimento

teceste fios de púrpura na estrada de Água Arroz
altivos mamoeiros no quintal de tua espera
e de ti nasceram risos
e abraços
e mãos de acenos fugazes
e palavras esculpidas em folhas de andala
teu ilustre papiro.


Foto de Porto Africano
Por fim as intimidades….Que se prolongam!
E Quando se pensa que vai ser o final do livro…. Eis que as palavras brotam de novo num perfeito “encore”… com um bis citando Manuela Margarido.
E então, tudo – o Oká e as Ilhas – se funde na figura tutelar da MÃE. A mãe é o mundo. Muito mais do que em Almada (mãe passa as tuas mãos pela minha cabeça…ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado); mais do que em Tenreiro (Mai! Entre nós: milhas! Entre nós: uma raça! Contudo este livro é para ti…); e aqui em Olinda – (não mais te perderei nas margens do rio; havemos de recuperar mãe…podemos abrigar nossos sonhos à sombra do velho ocá/ onde sei que ficarão felizes os meus e os teus ossos…/o amor maior é o calor das tuas mãos nas minhas).
         Para Olinda Beja…Imensa é a ternura de nossos corações mestiços. Tal como mestiço é o coração de Tenreiro – ele mesmo o patrono do prémio agora atribuído a Olinda. O trajeto de ambos – desfasado no tempo, embora – tem algumas semelhanças, por exemplo a vinda muito precoce para Portugal. E depois, o longo afastamento da terra natal – mais o de Olinda Beja. Tenreiro não teve tempo – faleceu demasiado cedo. Pelo contrário…Olinda tem vindo a consolidar uma relação mais profunda com a terra, com as ilhas, com a mátria. 
         Talvez por isso a autora tenha conseguido assimilar melhor o sabor, o gosto pela cajamanga e pelo untué – podem crer que não é assim tão fácil – enquanto Tenreiro prefere colocar em poema a fruta  pão e a banana pão. 




Por outro lado, a maior longevidade de Olinda – felizmente – apresenta-nos, não direi um dilema, mas seguramente uma visão diferente da existência, com base numa famosa ave – o Ossóbô: - enquanto Tenreiro apresenta o Ossóbô como um cântico de vida (deslumbramento próprio de quem está de passagem, de quem não vive lá, embora sendo – ou então um sentido mais positivo da vida, um momento de felicidade!):
O OSSOBÓ CANTOU

A cavalo do vento
A chuva chegou.
A chuva chegou
E o ossobó cantou.

Cantou o ossobó
Seu canto molhado.
«Tchuva já vêo?
Já vêo si siô».

Já veio a chuva, Deçu mum
E é um estoirar de amor pelas grotas.
Té o ribeirão seco como mulher vazia
Se abriu gostosamente ao ribeirinho entumescente.

As águas lavam carícias de mãos.

Sob a folhagem amodorra a cobra preta
Enquanto o potro e o menino do engenho
Brincam e correm no terreiro os corpos molhados
Do canto bonito do ossobó.

Já vêo a chuva?
Já vêo si siô.
Não vêo não siô.
Ah! Já vêo que ossobó cantou!

A preta do meu amor pariu,
Pariu, meu Deus!, porque o ossobó cantou!

Olinda prefere dizer que o Ossóbô chora, cumprindo o que ela chama de ritual de pranto em nossas vidas. (TALVEZ uma certa amargura pelo tempo perdido – melhor dizendo tardio – no regresso à terra e ao convívio com a mãe e com os outros familiares de lá): - ou então, um toque de revolta pelos crimes ambientais – igualmente um tema central da sua luta:
chora o ossobô. Chove na floresta
molhadas ficam suas penas, suas asas
o canto repetido é memória de jaqueira
folhas escondidas em recônditos troncos

não mais prantearás o deslizamento do Contador
breve passagem na floresta da existência
relento de incertezas na música efémera do teu canto

chora o ossobô. Ritual de pranto em nossas vidas
enquanto se orvalha o corpo ereto das jaqueiras

Tenho acompanhado um pouco o percurso de Olinda Beja…
          Bô Tendê?, 15 dias de Regresso, No País do Tchiloli, A Ilha de Izunari, Água Crioula, Pé-de-Perfume, Aromas de Cajamanga, Histórias da Gravana…Mas este À SOMBRA DO OKÁ, com ilustração de capa de Teresa Bondoso, – e eu não sou muito adepto de comparações numa análise exclusivamente literária / cada obra é uma obra, tem os seus momentos, a sua ideia -  este À Sombra do Oká, dizia…é provavelmente o melhor livro de Olinda.
          Pelo menos aquele em que a autora assume definitivamente a sua profunda ligação com a terra. Plasmou-se aqui ontologicamente. De corpo e alma construiu como que um romance onde a narradora apresenta as personagens principais num quadro digno de Pascoal Vilhete.
          Assume toda a sua Sãotomensidão – como ela gosta de dizer:
“E agora não haverá mais sombras nos meus sonhos / ali ninguém mais se atreverá a negar-me o chão, a negar-me a mátria”.
          Finalizando…que a função já vai longa, direi só mais isto:
Conhecendo um pouco de Olinda Beja…estou mesmo a imaginar os seus gestos, dizendo ao Oká que já está pronta, pode vir buscá-la.
E remata:
Atravessa o livro
atravessa o livro e desata o meu olhar
e o meu grito e a minha errância e a minha dor
estende-me teu tronco, teus ramos, tua sombra(…)
(…) longo é o rio, longo e pedregoso,
maior, muito maior… o mar…

***** E é nele – Olinda Beja – no mar… que o som da ilha ficará ecoando, como diria Tenreiro.
Dezembro de 2016
António Bondoso

Jornalista

2016-09-03


40 ANOS...APENAS UMA VÍRGULA NAS MEMÓRIAS DE S. TOMÉ E PRÍNCIPE QUE VAMOS CARREGANDO. O CONVÍVIO NA MATA DO BUÇACO.



É assim que começa a página 73 do meu livro ESCRAVOS DO PARAÍSO, publicado em 2005 para assinalar o 30º aniversário da independência de S. Tomé e Príncipe. Até àquela data – excetuando talvez a excelente tese de doutoramento do investigador Gerhard Seibert, publicada em 2001 – penso não ter havido um escrito com uma abordagem tão profunda e tão diversificada sobre o pensamento, quer de portugueses que sempre se consideraram são-tomenses, quer de são-tomenses que até à data da independência não deixaram de ser portugueses. Um pensamento sobretudo virado para as memórias de séculos, boas e más, para além de uma análise e/ou de um balanço – em certos casos até com desassombro – do trajeto político do novo país africano de língua oficial portuguesa.  
Fazendo jus ao título da página com que iniciava o 3º capítulo do livro, escrevia eu que “Apesar do percurso turbulento, não conheço outra comunidade com «raízes» africanas que se reúna tantas vezes ao ano em Portugal”. E salientava o almoço-volante das terças-feiras num restaurante da baixa de Lisboa; o calulu anual de Junho em Alfaião, com Bragança à vista; os habituais convívios, de forma rotativa, daqueles que trabalharam na Rádio – fosse no antigo Rádio Clube de STP, fosse no posterior Emissor Regional da ex-EN, a partir de 1969; no infalível almoço lisboeta em Dezembro para assinalar o dia do Santo; e particularmente no consagrado convívio da Mata do Buçaco, sempre no segundo domingo de cada Setembro desde 1976. Completam-se agora 40 anos!
Por desconhecimento, seguramente, não me referi então aos mais recentes encontros da malta menos idosa em Montachique e ao dos atletas e dirigentes do Andorinha Sport Clube em Pedralva. E mais recentemente ainda, tentou dar-se corpo a um outro promovido também pelos que passaram pelo Liceu D. João II. Friamente, poderá dizer-se que é um exagero. Sobretudo tendo em conta o facto das presenças mais ou menos recorrentes e, de certa forma, os mais recentes anos de crise que a todos tem afetado.
Mas para além disso, acrescem razões que foram motivando comportamentos diferenciados e que levaram ao declínio de alguns dos encontros/convívios em favor de outros. À dispersão dos interessados – embora o país não seja assim tão grande – e ao cansaço da repetição, ter-se-á juntado igualmente, porventura, a emigração.
Bom. O que realmente importa agora é lembrar o convívio da mata do Buçaco, iniciado em 1976, algum tempo depois do regresso ou do retorno originado pelo inevitável processo de descolonização. Provavelmente, a maioria dos “são-tomenses” já estaria instalada, passada uma natural fase de confusão provocada pelas mudanças. Significativas para muitos. Era ainda um tempo em que alguns tinham “receio” de assumir a saudade da história e das suas vidas e de conviver sem tabus…mas era igualmente um tempo de afirmação de outros, graças ao esforço de mobilização de uns quantos. Como sempre, aliás.
A ideia partiu do senhor Leal, que trabalhou nos Serviços de Fazenda, que terá escolhido a Cruz Alta, no Buçaco, sem dúvida pelo significado do local, mas também provavelmente por ser relativamente perto de Viseu, cidade para onde foi residir após o regresso de S. Tomé. Ao Leal juntaram-se depois o Domingos, do Baía, o Victor Cruz, o Eduardo Duarte, o Oliveira que trabalhou no Auspício & Menezes e mais tarde o Américo Gradíssimo. Cada família levava a sua merenda…mas todos partilhavam tudo. Havia calulus para todos os gostos. Num dos primeiros encontros, recorda o Domingos, apareceram lá elementos dos Serviços Florestais e perguntaram quem era o responsável. De imediato lhe responderam: cada um é responsável pelo que faz. Contudo, entendeu-se depois ser mais correto comunicar a realização do evento aos ditos serviços – até pela simples razão de que era necessária autorização para a abertura dos sanitários e balneários. Durante muitos anos essa tarefa foi desempenhada pelo Victor Cruz. 


E como eu digo no livro ESCRAVOS DO PARAÍSO já referido, não se discutia política: “…os convívios são a expressão de nos revermos nos cabelos mais brancos de cada um ou no abraço do parceiro que, algumas vezes e pela corrida do tempo, já nem recordamos o nome. Sem saudosismos, mas para matar saudades, quem não teve oportunidade de regressar ao paraíso, vai repetidamente enchendo o coração com memórias de outro tempo. Todos continuam escravos do milongo, escravos do feitiço das ilhas do obó, onde o cantar dos pássaros desperta os sentidos. No fundo, a História não acabou nem começou em 1975, apenas mudou de rumo acrescentando outras cambiantes”.
E tal como então, também agora – 40 anos depois – o encontro vai ser marcado por esse espírito. Oficialmente, será o último a ser “organizado” ali. Independentemente de poder haver sempre quem, não esquecendo as raízes, ali continuará a aportar, levando a merenda de uma vida. E por ser o último – é só perceber as razões – este vai ter uma celebração particular. O lanche terá um bolo alusivo, com velas e tudo. Nada se apagará. Mas o objetivo é agregar este encontro do Buçaco ao convívio do Andorinha, no Luso, futuramente talvez no derradeiro domingo de Junho de cada ano.
Assim seja. 


António Bondoso
Setembro de 2016.  

2016-05-25


***** Neste Dia de África, quero deixar-vos mais um texto. Sobre um país Paraíso, Poético e sobre um Jovem são-tomense em busca da Felicidade. 

MEU TEXTO DE APRESENTAÇÃO – “A MINHA PALAVRA”!
LUDGER (NOBRE DE) CARVALHO – S. Tomé e Príncipe.
V.N.CERVEIRA – 30 Abril 2016 – PORTA TREZE (XIII)



Boa tarde a todos.
Sou grato por estar aqui, nesta função, por um bom punhado de motivos.
Confesso que não sei de quem partiu a ideia (embora desconfie)... mas para mim é uma enorme satisfação falar de STP; estar junto de um são-tomense; conviver com amigos de STP. Rever o amigo Alfredo Vieira; rever os meus particulares amigos de VN de Cerveira – alguns de muito longa data. Tão longa, que já se perdem no tempo as memórias da luta pela afirmação turística e cultural de Cerveira – que resultaram no que é hoje um ex-líbris do concelho, da região Norte e do país: a Bienal de Arte. Igualmente tão antiga essa memória da aproximação com a vizinha Galiza – cuja realidade se percebe hoje na existência do chamado Eixo Atlântico.
Acresce...o gosto de revisitar este lugar – a Porta XIII – uma porta aberta à cultura.
***** Devo dizer, por outro lado, que não hesitei quando fui contactado – embora não tivesse ainda lido o livro em questão e apesar de não conhecer o seu autor, o Ludger. Apenas uma vaga ideia de que o nome NOBRE DE CARVALHO estaria provavelmente relacionado com o de um funcionário público são-tomense que foi Chefe de Gabinete de Pires Veloso durante o processo de transição para a independência (74-75)... (VER REFERÊNCIAS EM ESCRAVOS DO PARAÍSO...pgs 38 e 68)
....ainda uma lembrança ligeira de um Nobre de Carvalho que estudou no Porto e jogava futebol no Rio Tinto .... e que falava habitualmente com a minha camarada já falecida Arminda Viana ( ambos trabalhámos na Rádio, quer em S. Tomé, quer depois no Porto, já em 1975.
...Talvez seja este Nobre de Carvalho, que viria a ser médico, um primo de que me falou o Ludger.   
(Nobre de Carvalho é o sobrenome que herdei do meu pai José Luís da Silva Nobre de Carvalho, vulgo Ovideo.
A minha família é da zona de Madredeus e de Boa Morte.
Talvez conheça o médico Nobre de Carvalho que trabalhou aqui em Portugal, sou primo dele.)




***** SOBRE O LIVRO – que é o que mais interessa agora:
A capa tem por base uma belíssima foto de um pôr do sol são-tomense...MAS os poemas do Ludger são universais. Tão universais, quanto a linguagem do Amor e da Felicidade. Por isso, situam-se muito para além das Ilhas. Apenas uma referência concreta, no poema MINHA MUSA (PG63)...QUANDO ESCREVE:
”Em Lisboa, passamos a nossa lua-de-mel.
De lingerie preta, estavas uma deusa.
Na Praia Gambôa, comprei o nosso anel.
És a minha musa.”

***** logo a seguir um poema sobre África, no qual destaca a figura incontornável de Nelson Mandela e fala do que chama “continente mãe” como o futuro da humanidade.
Antes disso, na pg 23, MENINA MORENA é um poema em que Ludger aborda levemente a temática da negritude, quando escreve sobre cabelos encaracolados daquela terra distante... assunto que prossegue em A LUZ DO DIA (na pg.39) dizendo:
 “E no brilho achocolatado da tua negritude”. Dos teus lábios grossos/ aos teus arregaçados olhos/espelha a dimensão do teu amor.
Ainda um tema aflorado no poema AFRICANA, (pg41), com os versos:
Africana, tu és a flor / que quero ter no meu jardim.
****** AQUI... lembrei-me de repente do poema VISÃO de Caetano da Costa Alegre, do seu único livro VERSOS – editado pela primeira vez em 1916 – assinalando-se assim o seu centenário.
         Vale a pena retermo-nos por instantes neste poeta – que eu chamo de PRIMEIRO GRANDE POETA SÃO-TOMENSE  - mas que tem sido como que menorizado pelos académicos que estudam as literaturas de raiz africana.
         Vejamos alguma semelhança (EMBORA NÃO PRETENDENDO COMPARAR, naturalmente) com aqueles primeiros versos do poema AFRICANA, de Ludger:
                                         VISÃO...  ( dizer...

***** portanto... temos aqui quase como que um caminho paralelo entre CAETANO DA COSTA ALEGREA e LUDGER CARVALHO: anotadas as diferenças de época (no século 19 S. Tomé fazia parte do espaço português – hoje é um país independente), ambos se deslocam para Portugal a fim de estudar. E também a coincidência da região Centro (Coimbra, Leiria, Pombal)...
Infelizmente, a doença muito cedo levou Costa Alegre.
Esperamos e desejamos uma longa vida a Ludger Carvalho.
Para quem a POESIA... é uma quadra, um soneto, uma oitava, A poesia não tem teto!
            E se a Poesia de Costa Alegre – a sua condição de Poeta – era a de um ser sofrido e a de viver na sua pátria abandonado (COMO ELE DIZ NO SUE POEMA O VATE...)...os Poemas de Ludger Carvalho manifestam o amor (mesmo com dor); e a felicidade: Não é um poeta interventivo, de crítica social. Mas não deixa de estar atento ao que o rodeia – como veremos:
                    Felicidade é a palavra de ordem/ a alegria é a dieta da vida – escreve em SOMOS TRÊS. E depois, em A MINHA PALAVRA – poema que dá título ao livro – Ludger Carvalho afirma todo o seu amor pela mulher que escolheu:
                                      (DIZER...


O preço da felicidade é incalculável.
Está entre a linha do entendimento,
Entre um abraço e aperto de mãos.

Nos bons dias das manhãs,
Nos beijos dos apaixonados,
E no vai correr tudo bem dos que nos amam.

Como em toda a água do oceano,
E toda a terra firme da Terra
É indispensável à vida.

A tua felicidade é merecida.
Sê feliz!

A Minha Palavra
·         Data de publicação: Março de 2015
Este livro tem portanto um ano.
E em um ano, como escreve o autor no seu Blogue A MINHA PALAVRA,
Em um ano tudo acontece
Em um ano realizamos sonhos
Em um ano concretizamos objectivos, 
Divergimos em ideias que para mim não foram as mais acertadas, mas foram para ti e vice-versa.
Em um ano vimos que o sacrifício é preciso para não sermos apenas mais um sem ideias, sem rumo.
E para se Ser Feliz é preciso dar o próximo passo.
Em um ano aprendemos que SER FELIZ é melhor que TER FELICIDADE!
Em um ano conhecemos novos lugares e novas pessoas:
- Pessoas que se encaixam aos nossos propósitos e compartilham as nossas ideias. Com elas caminhámos paralelamente e sabemos que temos alguém presente.
- No sentido contrário, existem pessoas que pensamos "a tua presença é materialmente descartável", apenas pensamos, pois as palavras tendem a contradizer o que já foi pensado. 

NUM MUNDO INJUSTO E MATERIAL, OS IMATERIAIS PERDURAM NA FELICIDADE.

****** PARABÉNS LUDGER NOBRE DE CARVALHO....
E CONTINUA A SER FELIZ!
António Bondoso
V. N de Cerveira, 30 de Abril de 2016.



António Bondoso
Jornalista