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2021-07-11

A SUBSTÂNCIA “ATÍPICA” de “O MEU PAÍS DO SUL”…de António Bondoso, quando S. Tomé e o Príncipe assinalam 46 anos de independência. 



O livro «nasceu» no Auditório da UCCLA ao princípio da noite de sexta-feira passada.

As emoções e a saudade falaram muito forte, mas não quero que fique a ideia de ter sido «cortado» todo o primeiro plano do texto, como aparentemente transparece em alguns escritos. Os quais, no entanto, não deixo de registar com muita satisfação e reconhecimento. 



Mas, talvez sob o efeito contagiante da alegria que o Tonecas Prazeres colocou nas suas intervenções musicais ou da voz autorizada e vibrante da Regina Correia ao dizer alguns Poetas santomenses…talvez quem tenha participado na sessão da UCCLA não tenha retido ou tenha deixado passar ao lado alguns aspetos essenciais da intervenção do apresentador Abílio Bragança Neto.



Em «primeiro plano» o que disse o Abílio?

Que é um livro de “memórias atípicas” de um homem que se propõe – também ele – atípico, e sem dúvida um «nacionalista tranquilo», embora não constitucionalista.

E disse também que o livro é uma «tentativa de resposta identitária contracorrente», do autor, deixando perceber «como pode ser heterodoxa uma compreensão da nacionalidade em muitas pessoas». Nesta linha de pensamento, Abílio Bragança Neto cita a frase do autor que suporta a “Introdução” «…quem sou e o que nunca serei no meio de tanta gente ilustre», «o que leva a compreender a heterodoxia da sua Santomensidade».

Outra perspetiva que o sensibilizou foi o «condão de refletir o país» plasmado na obra, nomeadamente a relação com a cidade de S. Tomé que apresenta um futuro preocupante: “estamos a desistir daquele espaço”, salienta Abílio, acrescentando que “não existe uma visão daquilo que a cidade pode ser e não existe ninguém a pensá-la”. Por isso, diz ainda, “estamos obrigados, todos, a pensar o que fazer dela, refazê-la, para que ela tenha efetivamente futuro”. É fundamental reaver uma cidade orgulhosa da sua dignidade e alegria.

E depois o «Livro 2», a segunda parte da obra – Uma Ilha Coração! Disse Abílio Bragança Neto que é uma magnífica fábula, construída à volta de uma tartaruga e de um golfinho, que acompanharam o autor no seu regresso ao país – ideia inspiradora para criar uma narrativa para a promoção do turismo de STP. Uma visão política de futuro, excelente para «vender» o turismo, a Biosfera, a Ecologia, uma ideia tranquila e sustentada do país. 



Como tenho dito sempre, «a beleza do silêncio de um pôr-do-sol…é diretamente proporcional ao deslumbramento do vigor de um sol nascente.»

Seguindo a Sinopse do livro e carregando as palavras de José Carlos Ary dos Santos...direi que «Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram». A mais sentida sessão de apresentações de livros meus aconteceu ali. E foi bonito participar, e foi bonito de ver e de ouvir. Mesmo em tempo de «pandemia».

 


“O MEU PAÍS DO SUL” é, assim, um conjunto de textos escritos ao sabor do tempo e dos ventos e que agora entendi partilhar [acrescidos de algumas ideias de outros «pensadores»], despidos de qualquer «complexo de colono» mas plenos de um autêntico sentimento de pertença, no sentido de refletir e de provocar reflexão sobre as realidades do país.



De registar o destaque dado a algumas grandes figuras das letras e das artes de São Tomé e Príncipe, nomeadamente Francisco José Tenreiro - no centenário do seu nascimento e nos 60 anos da publicação de “A Ilha de S. Tomé”. Valorizado igualmente o rio Água Grande, que divide a cidade capital e nos oferece a perspetiva das antigas vivências das elites e dos «colonos de segunda» em cada uma das margens. No meio da História e das questões políticas que cercam o colonialismo, a descolonização e a conjuntura da independência, ressaltam a Cultura - do ensino/educação às Línguas, como sustentáculo da economia - e a Saúde. E depois, uma viagem contada ao pormenor à volta da ilha Grande e nesse mar que nos conduz, à margem do petróleo, às mais belas praias do mundo na ilha o Príncipe.

Julho de 2021

António Bondoso


2020-11-21

SÃO TOMÉ E O PRÍNCIPE ESPELHADOS NUM LIVRO COLORIDO…POR UM «OLHAR» DE NOVE CORES... 


SÃO TOMÉ E O PRÍNCIPE ESPELHADOS NUM LIVRO COLORIDO…POR UM «OLHAR» DE NOVE CORES – ou de como Rufino do Espírito Santo construiu uma obra poética plena de uma saudável «loucura», desenhando e entrelaçando palavras de beleza tropical num cenário de «bolas de sabão», das quais só as crianças sabem o verdadeiro significado. A «sabedoria dos adultos é cada vez mais questionável, como o autor recorda num provérbio santomense: - “se pretenderes viver com sossego neste mundo, terás de fazer-te de louco, e permitir aos outros acreditarem que são os sábios”[1].

         Para além do que escrevi no curto prefácio, que o autor gentilmente me solicitou, gostaria hoje de realçar dois ou três outros pormenores interessantes que Rufas Santo utilizou na construção deste “NOVE CORES DA BOLA DE SABÃO”. Na sua «Introdução», o autor explica detalhadamente a causa e o sentido de cada palavra, de cada ideia. Talvez tenha querido precisar a sua escrita para que não possam restar dúvidas, embora o poeta não tenha que explicar a sua poesia. Ela basta por si, está lá para ser decifrada pelos leitores. Ou como dizia Almada Negreiros, “não me obriguem a explicar nada do que eu digo”.

         Contudo, lembro que o livro está dividido em três partes, atribuindo o autor a cada uma delas – não por acaso – três cores. Na parte I, dedicada à «Insularidade», escolheu o verde (muitos verdes, dizem que são mil!) das ilhas, o azul dos céus e do mar da Lagoa Azul…e o amarelo – esta cor como que simbolizando, segundo a minha “leitura”, uma advertência a quem não tem feito o que devia, seja decisor ou cidadão comum. Por isso pergunta: “Que fazer destes filhos do coito interrompido por inação”? E por isso quer voar até “onde consiga ver o outro lado do mundo/ Conhecer onde se escondem os monstros/ Que atormentam as minhas noites…”. Nestas Ilhas de Kajumbi há também a cobra preta de viperinos silvos. Por isso quer “Que venha a chuva”, que venha muita chuva “para lavar as nossas lágrimas”.

         Não se colocando fora da equação, pois «admite falhas» em poemas espaçados, tal como as bolas de sabão, Rufas Santo abre a janela da excentricidade na Parte II. E aqui, joga com as cores vermelho, roxoranja e violeta. Por isso aparecem diversos “Quadros Na Parede”, espaçados pelas quase 200 páginas do livro, por isso o autor escreve sobre a Ilusão, sobre a Paixão e a Loucura, por isso fala do purgatório de Deuses e Demónios, da Noite da Queima dos Anjos e de uma “garrafa de vinho tinto de sempre”, sem esquecer a “lenha que alimenta essa chama”.

          A “Crioulidade” preenche a Parte III, merecendo uma reflexão sobre «nós – as pessoas», enquadradas pelas cores a preto e branco. É uma tradução incontornável da sociedade de STP. Por isso, o autor destaca ANASTÁCIA que, «cantando a insularidade, transporta numa bola de sabão a crioula origem». Por isso, Rufino do Espírito Santo pede também que VEJAM um crioulo olhar de fogo, a cobra preta e – ao alto – um «lenço branco/ Da cor do seu sorriso».

         Por último, quero assinalar o significado marcante das citações e dedicatórias que o autor revela nas suas páginas coloridas. E começa pelo princípio, isto é, pelas «mulheres». Quer às Mulheres do 19 de Setembro, quer a todas as Mulheres: “Para vós que não perdestes a força que a maternidade vos incutiu e a cada aurora vos levantais para dar o que não vos foi dado e para que não percais a força e a vontade de lutar”.  Por isso não esquece Inocência Mata e Conceição Lima – “essa alma rebelde das Ilhas do Meio do Mundo” e autora da Dolorosa Raiz do Micondó a quem presta homenagem particular. E depois aos Poetas das Ilhas do Meio do Mundo, tal como aos Artistas, aos Poetas de Sal e Sol, incluindo um recado para o Mestre Marcelo da Veiga e para Tomás de Medeiros. Por fim, uma dedicatória aos «anónimos das nossas ilhas», a todos dizendo: “Acreditem que esta é uma forma de agradecer os carinhos de amizade – Simplesmente”!

O livro, à boleia deste tempo de pandemia, ainda não foi publicamente apresentado. Mas já pode ser adquirido, quer através de contacto com o autor, quer por intermédio da própria editora “ Edições Vieira da Silva”. 



[1] - “Xi bô mêsê vivê ni mundo, sela bô finji malôkô, semple pla inem pô fla kuma inem soku sa bêtôdô” (tradução do autor na pg.70). Em «Forro» - língua maior de STP.  



António Bondoso

Novembro de 2020. 


 

2020-02-03


TLÊXI FÊVÊLÊLU 2020
…ou de como o «regime colonial» sofreu uma derrota em S. Tomé e Príncipe há 67 anos. Uma «revolta inventada» e movida por interesses mesquinhos e pessoais provocou violência, dor, sofrimento e humilhação que conduziram à repressão, à tortura e ao ódio. 


Da falta de mão-de-obra – que se arrastava desde o século XVIII – à luta pela posse de terras dos nativos no tempo da segunda colonização, no século XIX, passando pelas «brigadas de trabalhos forçados» para erguer a capital da colónia nos anos de 1940 e de 1950, tem havido tentativas diversas de «explicar» as causas remotas e imediatas dos acontecimentos em Batepá, na cidade de S. Tomé, em Fernão Dias e na ilha do Príncipe em 1953.
         Alda do Espírito Santo (“Onde estão os homens caçados neste vento de loucura”), Carlos do Espírito Santo, Inocência Mata, Gerhard Seibert, Tomás de Medeiros, Sum Marky, Hermínio Ferraz, Francisco Costa Alegre, Jerónimo Salvaterra, Carlos Neves, Aíto Bonfim e Armindo de Ceita do Espírito Santo têm deixado muitas pistas ao longo dos anos. O meu modesto contributo está plasmado em Escravos do Paraíso, de 2005.
         Não pretendendo ser repetitivo, quer quanto ao «filme» dos acontecimentos, quer quanto ao número de mortos – ainda hoje dificilmente quantificável com exatidão – deixo-vos apenas estes versos de um longo e belo poema de Conceição Lima: «1953»*
(…) Ó penal colónia que no Equador contorces
Sem sentir do Kabaka a exilada dor
Arquipélago sobre as rasgadas tripas fechado
Mar de Fernão Dias pelo frio varado
Ó algas marinhas, ó pedras dos rios!

Lulas sem olhos encalham nas praias
Pombas sem asas despenham nas ondas
Seca nos seios o leite das mães
Há sangue, há pus no vão das escadas
Gemem passos em fuga nas matas da ilha. (…)

*Em A DOLOROSA RAIZ DO MICONDÓ, Caminho, 2006


https://youtu.be/ubfAX8QdDd0


António Bondoso
Jornalista
3 de Fevereiro de 2020

2017-07-12


UMA CERTA INDEPENDÊNCIA QUE CHEGOU A S. TOMÉ E PRÍNCIPE HÁ 42 ANOS. 

Composição fotográfica de Miguel Bondoso


UMA CERTA INDEPENDÊNCIA QUE CHEGOU A S.TOMÉ E PRÍNCIPE HÁ 42 ANOS.
“Independência é uma coisa bela
E santa, mas é preciso compreendê-la!”
(Marcelo da Veiga, Amadora – 20/07/63)
                                                                         
É um facto para celebrar, sem qualquer ponta de dúvida, independentemente das ilusões e das pedras no caminho, muito acima de qualquer reação menos positiva sobre a evolução do processo da construção do novo país. Nunca há apenas uma rota segura, há bifurcações que conduzem a determinadas políticas, sempre tendo em conta a conjuntura de amigos e de parceiros, sempre tendo em conta o momento político específico de cada região e/ou da chamada comunidade internacional. Determinadas opções são válidas para cada um dos momentos. Realismo, diz-se. Mas há ideias e atitudes que não podem ser maculadas num país moderno, como por exemplo os direitos fundamentais dos cidadãos e o sentido de responsabilidade – individual e coletiva.
         Por muito que perceba as desilusões, e compreendo-as porque as sinto igualmente na democracia portuguesa, não me revejo em qualquer tipo de atitude balizada pela ideia de luto. O desânimo posso aceitar, mas é fundamental nunca desistir da luta pelos valores essenciais como a liberdade e a democracia participativa. Cidadãos ativos precisam-se, embora não seja fácil. Nunca é fácil. Permito-me citar a propósito um excerto de um texto de Solange Salvaterra Pinto no facebook:  
É o nosso país.
Porque raio vamos enterrá lo.
As pessoas que enterro, tenho umas saudades que doem....
Não quero estar dorida por causa do meu país.
Meu São Tomé e Príncipe que amo.
Que amas.
Que amamos, apesar dos pesares.
No dia 12 vou festejar com toda a garra os 42 anos ........
Façamos nos próximos 42 , algo que nos possamos orgulhar.
O nosso legado será esse.
Tornar STP um lugar melhor para os nossos filhos.
Esse é o nosso compromisso.
A nossa obrigação.
A nossa tarefa maior.
         Parabéns ao país por mais um aniversário soberano, um abraço fraterno a todos os cidadãos de S. Tomé e do Príncipe – particularmente aos amigos que me acompanharam em cada um dos anos que vivi no paraíso, mesmo aqueles que já partiram deste mundo.
         Escrevi no meu livro ESCRAVOS DO PARAÍSO, de 2005, que “De S. Tomé, a ilha que divide o mundo, diz Francisco Tenreiro que é a ilha «…dos cafezais floridos e dos cacaueiros balançando como mamas de uma mulher virgem». Do Príncipe de Maria Correia e da Praia do Precipício, escreve Marcelo da Veiga que é ali «…onde florescem palmas e cacaueiros e têm murmúrios doces os ribeiros”. Apesar da distância e da circunstância, estas são imagens que nunca perderão a essência. O país vale por si. Só é preciso seriedade e competência para fomentar o desenvolvimento.
         Voltando a Marcelo da Veiga e ao seu poema “Independência”, de 1963, deve reter-se a ideia de que
Independência não é
Vadiar, viver sem respeito;
Por tudo bater com o pé
E inchar, qual balão, o peito.
Independência não é cada um
Fazer só o que quer: comer, dormir,
Não sentir por ninguém respeito algum
E beber marufo até cair.
Atualizando e contextualizando, podemos sempre recorrer ao Hino de S. Tomé e Príncipe – um belo poema de Alda Espírito Santo – no qual se repetem palavras como combate, dinamismo, trabalhando, lutando, vencendo. E trabalhar e lutar é Cultura. Como Cultura é esforço e é respeito, a arte de pensar e de fazer. Como Cultura é imaginar e ousar, é o estudo e o saber, é beleza e simpatia. Como Cultura é sentimento e emoção, é amor e amizade, alegria e sofrimento. Como Cultura é o turismo, a arte de saber receber como sabe o povo de S. Tomé e do Príncipe. Como Cultura é a pesca e a agricultura. Como Cultura é não perder o cacau e é renovar o aroma do café. Como Cultura é ser livre e ter liberdade de expressão. Como Cultura é enfrentar o presente mas não idolatrar o petróleo. Cultura é ter orgulho de ser de STP…em qualquer ponto do mundo.
         S. Tomé e Príncipe é hoje um PEID – Pequeno Estado Insular Em Desenvolvimento – e que sobrevive em grande medida da ajuda externa e há muito ligado à panaceia do petróleo. Como já disse a jornalista e poetisa Conceição Lima, “Com ou sem petróleo, é minha opinião que se deve apostar em sectores como o turismo e o mar, cujas potencialidades são consensualmente reconhecidas hoje”.
         É exatamente esse mar que eu ainda hoje imagino, quando «olho o horizonte, sentado nesse espaço infinito entre a areia e o mar»; ou quando Albertino Bragança diz «pressentir que existe algo de espantoso e de belo nesse mar», lembrando lugares míticos como as sete pedras e a praia das sete ondas»; ou de como Inocência Mata descobriu há uns anos que «a sua memória de STP está ligada aos lugares que se metaforizam no Atlântico – esse mar que gera do sol o calor humano que a recebe no país».
         Parabéns S. Tomé e Príncipe. Que o presente seja digno e que o futuro seja feliz e risonho.

Imagem da Web

António Bondoso
Jornalista
Julho de 2017. 

2015-12-11

SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE - UM PAÍS BASEADO NUMA ILHA CORAÇÃO (III)


SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE
Projeto de bioenergia em território são-tomense apresentado na Cimeira do Clima
10:16 - 11-12-2015

O projeto-piloto «Bioenergia em São Tomé e Príncipe – Aproveitamento Energético de Biogás», iniciado em dezembro de 2014, foi apresentado na quinta-feira em Paris, na Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas.

Este projeto será desenvolvido já a partir do próximo mês de janeiro, através da instalação de cinco digestores anaeróbicos em comunidades rurais junto da zona tampão do Parque Natural do Obô, para tratar os resíduos orgânicos dos agregados familiares.

O programa, que tem como objetivo a replicação futura da tecnologia por outras comunidades em São Tomé e Príncipe e mais tarde em Angola, Moçambique e em algumas ilhas de Cabo Verde, está a ser desenvolvido com o apoio da Cooperação Portuguesa, através do Camões - Instituto da Cooperação e da Língua e da Agência Portuguesa de Ambiente, e é financiado pelo Fundo Português de Carbono ao abrigo do programa ‘Fast Start’. O orçamento do projeto está avaliado em 660 mil euros.
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Feliz por saber desta nova, publicada hoje no jornal A BOLA, entendi que seria interessante finalizar a publicação do meu texto sobre UMA “ILHA CORAÇÃO”…EM FORMA DE PAÍS. Simbólica é a imagem que vos deixo deste safu pendurado - sinal de que mantenho a esperança de um dia voltar às Ilhas do Meio do Mundo:




(...) E zarpámos, deixando para trás a Ponta Mandioca e a Ponta Bote, antes de atingirmos a Praia do Ió ou do Ilhéu Grande, em Dona Augusta e bem à vista do Pico Macuru. Ali descansa o Rio Ió Grande – o maior da ilha – depois de uma longa caminhada desde a zona do Pico de Ana Chaves e após receber sucessivamente as águas do Rio Ana Chaves, Rio Campos, Rio João, Rio Miranda Guedes e Rio Umbugú. Contornámos a Ponta Juntabudo e depois a Ponta do Ocá, até que se nos depara a Angra de S. João dos Angolares. E já sem o recorte agressivo da paisagem costeira mais a sul, atrevemo-nos a espreitar muito próximo ou um pouco acima da linha de água, com Santana a revelar algumas cautelas, sendo possível observar a faina dos pescadores, ali na região de Santa Cruz. Canoas à vela, umas quantas a motor, a comunidade piscatória da ilha – direta ou indiretamente – representa quase 30% da população. E um estudo não muito antigo refere por exemplo que 50% dos pescadores terão entre 18 e 40 anos de idade e que 95% dos pescadores são angolares. Um sistema artesanal que, infelizmente, não permite uma utilização plena dos recursos, abrindo caminho a concessões a frotas pesqueiras estrangeiras – nem sempre com as melhores contrapartidas.

         Ali bem perto, soubemos, o João Carlos transformou a sua roça São João num polo de cultura turística, um dos primeiros no período pós-independência longe do bulício da capital. E abrigados na Praia Pequena, ali pernoitamos para recuperar a energia necessária para completar a ação exploratória. Com os primeiros raios de sol a colorir a escuridão daquelas águas, depressa agitamos as barbatanas e tomámos o rumo da Ponta dos Morcegos, em Angobó, deixando para trás a ideia de “turismo rural”. E depois Angra Toldo, Micondó, o Ilhéu Catarino e a Colónia Açoreana, antes de chegar à Ribeira Afonso – outro interessante e importante polo piscatório. Mais um esforço, agora numa costa menos difícil, para alcançar a Baía Luísa, contornar a Península e deparar com a Praia Rei – em Água Izé – junto à foz do Rio Abade na sua margem direita. Nas imediações – lembrei a Pantufo e a Santana – é preciso muito cuidado para não ser arrastado para a conhecida “Boca do Inferno”, um típico local da costa batido pelas fortes marés e cuja erosão deu origem a um curioso canal/túnel, merecedor de uma lenda: de tão perigoso foi associado ao demónio, partindo a lenda de uma figura maldosa representada pelo administrador/proprietário da roça que, quando se ausentava em férias ou em trabalho, não o fazia de barco. Preferia montar a cavalo e com ele desaparecer no canal/túnel onde a rebentação era muito forte.
Mais para norte é já a Praia Amador, antes do Ilhéu Santana – cujas águas são excelentes para a prática da pesca submarina. A barracuda é típica, algo preocupante quando em cardumes de certa dimensão – o que não deixou de agitar os sentidos de Santana. Se a presença de um tubarão, apesar da manifesta elegante imponência, mete respeito…a visão de algumas barracudas, com aspeto robusto e uma cabeça pouco simpática, implica um redobrar de atenção.  
         Ali ao lado, depois da Ponta Agulha, a Praia Méssia Alves [hoje chamam-lhe Messias Alves] acolhe um complexo turístico de excelência – o Club Santana Beach Resort – que oferece 20 bungalows e 11 suites com todo o conforto, para além de uma panorâmica única e inseridos num jardim tropical. Mais um exemplo do turismo de referência que o “país novo” tem vindo a valorizar, à semelhança dos projetos já mencionados. Um turismo alimentado como estratégia fundamental do desenvolvimento – tanto económico, social, cultural, ambiental – e como um vetor de paz e de segurança.
         De Santana à protegida Praia das Pombas foi apenas o tempo de um impulso de barbatanas do Santana e a que o Pantufo respondeu com alegria, deixando que eu “cavalgasse” o seu dorso por alguns momentos. Contornámos a Ponta Praião e depois a Praia Melão, na foz do Rio Manuel Jorge, antes de atingir a Ponta de S. Marçal já no polo piscatório de Pantufo. Esta zona representou para mim, em tempos recuados, um trajeto domingueiro de peregrinação e de enamoramento. E ainda a Ponta de S. Jerónimo, onde hoje está implantado o afamado complexo turístico do grupo Pestana. E é um desfiar de memórias vividas em toda aquela marginal, a Praia Perigosa, os edifícios onde em tempos funcionou o Rádio Clube de S. Tomé – primeiro no que viria a ser o Clube Militar e hoje Embaixada de Portugal, depois na atual instalação da Rádio Nacional e onde eu dei os primeiros passos na profissão, quer no Rádio Clube, quer mais tarde no Emissor Regional da EN. Ainda o Clube Náutico, a Piscina Velha e a Fortaleza de S. Sebastião – atual Museu Nacional – a Praia da PM e o Cais acostável apenas para navios de baixo calado. Um tema até hoje não resolvido e fundamental para o desenvolvimento – o chamado Porto de Águas Profundas.
         E, assim, de novo aportámos à Baía de Ana Chaves, confirmando o trajeto de uma “Ilha-Coração” que me deu forma de adulto e da qual ainda hoje guardo todo o sangue da juventude – feliz pelo caminho natural de um país independente. Caminho de muitos obstáculos e de muitas dificuldades que é preciso ultrapassar com seriedade, competência e total disponibilidade para trabalhar. Um país não nasce por osmose – é preciso muita energia positiva, muita imaginação, muito trabalho e gerar um clima de confiança. Definindo prioridades e explicando, explicando sempre as decisões que é necessário tomar em prol das pessoas que são a razão do país!
         Um país que se alarga à Ilha do Príncipe – paraíso que é hoje administrado como Região Autónoma e que vai dando passos seguros, embora lentos, nos caminhos do desenvolvimento. O turismo e os transportes como prioridade, mas também a preocupação de um serviço de saúde capaz de responder aos desafios do turismo, agora que a UNESCO classificou a ilha como Reserva da Biosfera.
         E a distância de 140 quilómetros que separa S. Tomé do Príncipe foi um desafio que Pantufo e Santana rapidamente aceitaram. Navegar em mar alto não é fácil, mesmo para golfinhos e tubarões, mas uma milagrosa “quietude” das águas do Golfo permitiu que eu trouxesse à memória uma viagem num navio patrulha da Marinha de Guerra portuguesa. Seis horas demorou, então, a viagem…e não foi nada fácil. Só melhorou quando avistámos o Ilhéu Boné de Jóquei – também ele merecedor de uma lenda, mas esta amorosa e envolvendo dois jovens apaixonados. Um amor impossível, contudo, para a época muito distante e dada a diferença da cor da pele. Um pormenor que não deixou de causar alguma perplexidade a Pantufo, mamífero de rara sensibilidade. Já Santana pouco ou nada se sentiu afetado com a história.
E os dois lá me guiaram pelo canal até à Ponta Café, sendo visível que esta região do sul da ilha é bastante acidentada, com destaque para o Pico de Mencorne e Morro de Este. O Pico do Príncipe e o Morro de Carreote ficam mais para o interior desta região montanhosa. Com exceção desta cadeia, as formas de relevo do Príncipe são menos abruptas, o que origina uma topografia mais favorável à agricultura. A boa onda das marés do Golfo rapidamente nos colocou na Praia do Abade, e depois de contornar a Ponta da Praia Salgada foi preciso apenas um ligeiro impulso até chegar à Ponta da Mina, onde – séculos atrás – o regime colonial erigiu uma fortaleza e ali instalou uma forte “bateria” de costa. Apreciámos a quietude da protetora Baía de Santo António e de seguida rumámos ao norte da ilha – onde se fala da lenda de Maria Correia, a grande Senhora da Ilha que dormia com os escravos mais fortes e depois os empurrava no Precipício de Belo Monte, ali bem perto da já muito famosa Praia Banana. E aparece a Praia das Burras mais a Praia de Santa Rita, já bem perto do Ilhéu Bombom – entretanto e em boa hora aproveitado para um excelente Resort turístico. Excelentes praias tem o norte do Príncipe, ainda longe de uma eventual exploração petrolífera – provavelmente nada conciliável com os cuidados exigentes da classificação da UNESCO.
         Foi ali na Praia Banana que eu me despedi de Pantufo e de Santana, proferindo um amigável “paçô”… de até sempre. E ali fiquei, como há 50 anos, sentado na praia e olhando o horizonte, gozando o paraíso e esperando pelo desenvolvimento sustentado e amigo do ambiente. E o mar – sempre o mar! – a proteção das tartarugas e o pensamento na criação de uma “Reserva Marinha”, à semelhança daquela que há poucos anos foi criada no Gabão, com 46 Klms quadrados e correspondendo a 23% das águas territoriais do país. É esse o caminho." 
=== António Bondoso 
Jornalista 

2015-04-30

***** A PROPÓSITO DE UMA EFEMÉRIDE. 
               30 de Abril 1926/ 9 de Março 2010
Passaram cinco anos sobre o desaparecimento físico da Poetisa, Educadora e Combatente pela Liberdade em S. Tomé e Príncipe - ALDA DO ESPÍRITO SANTO.
Faria hoje 89 anos.  


Quando a entrevistei em 2004, para o meu livro ESCRAVOS DO PARAÍSO (MinervaCoimbra-2005), Alda do Espírito Santo disse-me que a independência é a maior conquista de um Povo...mas nunca corresponde ao nosso sonho. É dessa conversa que vos deixo aqui um excerto: 




E também linhas de um Poema seu:
(...) A nossa terra é linda, amigas
E nós queremos que ela seja grande...
Ao longo dos tempos!...
 Mas é preciso, irmãs
Conquistar as ilhas inteiras de lés a lés
(...) Mas é preciso conversar ao longo dos caminhos
Tu e eu, minha irmã.
 É preciso entender o nosso falar
 Juntas de mãos dadas
 Vamos fazer a nossa festa!
Em «É Nosso o Solo Sagrado da Terra»
Alda Espírito Santo
==== António Bondoso
Jornalista