2013-05-06


ATÉ OS MORTOS FALAM NA RÁDIO...
“A Rádio é um instrumento de Liberdade porquanto é um apelo permanente à Criatividade".
António Bondoso


Foto de António Bondoso.

Algum tempo depois de ter sido assinalado o “Dia Mundial da Rádio” (mais um) – meio de comunicação ainda privilégio de muitos, na exata medida de outros que pretendem e têm vindo a insistir na sua morte antecipada ( a razão já foi a TV e nos últimos anos tem sido a internet) – apetece escrever de novo sobre este media que, nas circunstâncias mais diversas de tempo e de espaço, continua a revelar-se de uma utilidade fundamental. E continua a ser, de facto, um instrumento de Liberdade, porquanto não deixa – nunca! – de ser um apelo permanente à Criatividade. De liberdade, sim senhor, mesmo quando “rejeitado” em defesa desse valor supremo. Como foi o caso, na Alemanha de Hitler, da família do Padre Bernard Häring – que escreveu em finais dos anos 50 do século XX A Lei de Cristo e que viria a ser consultado pelos Papas João XXIII e Paulo VI:- “Quando o partido [nazi] distribuía aparelhos de rádio pelas famílias para ouvirem o «führer», o pai declarava, apesar da ameaça dos campos de concentração: «Enquanto o führer vociferar na rádio, esses aparelhos não entrarão em nossa casa»”[1].       
          Quando com gente dentro e sem fios...transporta sorrisos audíveis, pensamentos positivos mas inquietos e uma serena tranquilidade para refletir. Algumas unidades continuam a semear cultura, outras – poucas – não poupam espaço à “grande música”, muitas prestam um verdadeiro “serviço público” e ainda outras tantas – infelizmente – cederam ao vício do “fabrico da informação”.
          E para além de tudo...um fabrico “normalizadamente global!”
Do “dever sagrado” que foi o facto de “revelar”, no período do pós-guerra, caíu-se – em finais do século XX – na ideia de que só ditadores e corruptos acreditavam que um grande título poderia ser incómodo e que, por isso, precisavam de encobrir as suas ações. E depois, as notícias passaram – de palavras sagradas – a ser vistas como falsas ou suspeitas. Paradoxalmente, dizem Florence Aubenas e Miguel Benasayag[2], “sob as roupagens da modernidade, a Internet corresponde a novo sobressalto dessa mesma velha certeza [é verdade, pois vem nos jornais]: eis finalmente a rede que irá permitir a cada um de nós aceder às famosas informações que os poderosos tentam ocultar-nos...”.
          Contudo, referem os autores, o sistema de comunicação foi abalroado pelo exagero da transparência e do poder/dever mostrar-se, aparecer.
No fundo, um mundo de representação com o qual temos que saber viver. A adaptação sempre foi inata no homem e, por isso, não podendo ignorar os males e os perigos da internet, temos a obrigação inteligente de os saber e poder contornar a cada dia. Disseminada, mas não necessariamente democrática, compete ao homem ir encontrando formas de retirar da net tudo o que ela pode oferecer de bom, e dessa moderna, prática, eficiente ferramenta tentar eliminar todo o ruído e todo o lixo que a invadem. A tecnologia foi de criação humana, não nasceu de qualquer pulsão artificial.  
Por outro lado, alinham-se no computador as modernamente chamadas playlists – oferta (?) das grandes editoras que fabricam música apenas para vender. Não importa a qualidade, que o lucro não tem sentimentos. E a “qualidade”, pode argumentar-se, não deixa de ser relativa. Mas a playlist é quase como que uma imposição de sobrevivência no meio. E assim, excetuando felizmente alguns casos de coragem e de bom gosto, o que mais vamos tendo por esse país dentro é radio-rooms [a expressão é minha] perfeitamente normalizadas, emitindo três canções-bloco publicitário, repetindo-se o cenário publicidade-três canções! Nem uma ideia, nem um pensamento, nem uma nota sobre o tempo que faz!
E o vento nada me diz, não há notícias do meu país.
E quando surgem em grande parte dessas “rádios(?)” – acontece que, ou estão desfasadas no tempo ou refletem apenas a cópia de publicações nos jornais e – caso imperdoável – até a reprodução de factos já relatados nas televisões. É uma rádio de reação...quando deveria ser de combate na primeira linha. Sem perder o rigor e a qualidade.
Não basta que a evolução tecnológica aconteça e seja bem aproveitada. É fundamental dar-lhe conteúdo. E sonho!
Quando sinto e penso em todas as montanhas que ainda não subi; em todos os rios que ainda não naveguei; nas matas densas onde ainda não me aventurei; nos desertos secos de vida qua ainda não dessedentei; em todas as viagens que ainda preenchem os meus sonhos... e quando sei todos os sonos que ainda não dormi e em todas as madrugadas a que cheguei atrasado e não vi nascer o Sol para além do infinito que imagino – mesmo sem ouvir a Onda Curta a que me habituei no transistor Sony de nove bandas, companheiro de viagem sempre que saía do país em reportagem ou em férias.
E perante tudo isto – porque não podemos ignorar o que vamos ouvindo e porque há datas de Abril e Maio de ligação umbilical à Rádio – coloca-se-me a imperiosa necessidade de lembrar alguns grandes profissionais da rádio. Que já “falaram”...mas que ainda se pronunciam na memória daqueles que – como eu – cultivam o vício de não esquecer: - Alfredo Alvela, Alice Cruz, Amadeu José de Freitas, António Roçadas, António Jorge Oliveira, Armindo Salvador, Arminda Brito Viana, Artur Agostinho, Artur Peres, Carlos Cardoso, Fernando Pessa, Fernando Conde, Francisco Simons, Filinto Lapa, Fernando Figueiredo, Gonçalo de Faria T. Peixoto, Guilherme Santos, Helder Soares, Igrejas Caeiro, João Canedo, Joaquim Berenguel, Johny Reis, Jorge Perestrelo, José Freire, José Andrade, José Gabriel Viegas, José Maria Rocha, José Quelhas, Licínio Oliveira, Manuel Lage, Maria Leonor, Maria da Paz de Barros Santos, Mário João, Nuno Brás, Pacífico Brandão, Rui Andrade, Rui Lima Jorge, Rui Romano, Sebastião Fernandes, Virgílio Proença, Vitor Cruz, Vitor Pombal.
Quem se lembrar de outros – porque há muitos mais para recordar – fará o favor de ir completando a lista. Sem memória não há História! E depois, como diz o jornalista “Sam Ridley” – investigador criminal na londrina City Radio[3] - “A rádio não depende de imagens, e essa é uma das razões porque gosto dela. O olho pode ser um órgão muito engandor”.
António Bondoso
Maio de 2013.   
JOSÉ ANACLETO - 27 de Maio de 2013.           



[1] - VUILLIEZ, Hyacinthe. Na introdução a A IGRJA QUE EU AMO (Bernard Häring). Figueirinhas, 1992.
[2] - A fabricação da informação. 2002.Campo das Letras, Porto.
[3] - NILES, Chris. OS MORTOS NÃO FALAM NA RÁDIO. Bertrand, 2003. 



Foto de António Bondoso.



PARABÉNS AOS PRINCIPENSES...ou habitantes da Ilha do Príncipe - República de S.Tomé e Príncipe. 
O valor deste reconhecimento não pode ser posto em causa, independentemente de - mais uma vez - os "políticos" não terem sido capazes de informar e sensibilizar as populações a respeito dos benefícios e dos DEVERES. 
PRESERVAR A BIOSFERA é uma obrigação de toda a população mundial.

(Da net).
"...conheci o Príncipe em 1966, quando um grupo de jovens decidiu ir de férias para acampar na Praia do Precipício (agora mais conhecida por Praia Banana), na Roça Belo Monte. Entre as memórias de Maria Correia no apogeu da escravatura, uma água salgada transparente e uma areia branca resplandecente como o sol, o grupo pousou as imbambas no meio dos coqueiros virados à praia e ali se deixou espreguiçar horas a fio, quer de noite, quer de dia, sem outra preocupação que não fosse gozar as delícias do paraíso". (António Bondoso, em Escravos do Paraíso, 2005. MinervaCoimbra. Pgs 82 e 83)

Foto de Lains e Silva - 1956/57 (Seios Ilhéus. Pg.31).
 FIRMES AMANTES                    

Que absurdo
Fazer dos “seios das ilhas”
Destas notas…suas filhas!

Seios negros
Mestiços da cor do Sol
Seios de muito calor
Grávidos de muito amor.
São mais seios os do Sul
Perdidos na verde folhagem
Bebidos em rios sem margem
Erguidos ao céu azul.
Os do Norte meios seios
Morros de pouca paixão
Os seios do Morro Peixe
Cabem na concha da mão.
A meio a força da ilha
Com o Morro da Trindade
Lá mais acima a Saudade
Antes dos seios do Pico.
Na Lagoa D. Amélia
Os seios são do vulcão
Estremecem protegidos
E não parecem perdidos.


Os seios deste País alimentam a Esperança
De um dia virem a ter uma boa governança.

Seios tão firmes de vida
Seios fartos bem tisnados
Do tempo são bem tratados
Das rugas visão ardida.
Seios só vistos de noite
Junto à praia do Pantufo
Seios de maré cheia
Molhados no seu arrufo.

São seios a navegar
Pensamentos de outro mundo
Novas ilhas novo mar
Oceano mais profundo.
Passam o Boné do Jockey
Seios da Ilha do Príncipe
Lembram Maria Correia
E as escravas da Sundy.
São seios que se perderam
Na praia do Precipício
Em Belomonte morreram
Seios de outro ofício.
Dói o peito ao respirar
Mas que seios tão estranhos
O simples gesto de arfar
Apresenta dois tamanhos.

Uns morenos de paixão
Seios de olhos profundos
Outros verdes de visão
Feitos filhos em segundos.
Chegam ao Pico em Janeiro
Os seios da “Dêxa” musa
Papagaios nevoeiro
Lembranças da alma lusa.
E os seios do Bom Bom
Na festa de Floripes
Marcam o ritmo e o tom
São seios já muito vipes.

Os seios deste País mirram de muitas fomes
E encomendam a Deus almas de outros nomes.

Outros seios já flutuam
De regresso a S.Tomé
Descem p’lo Ió Grande
Até ao mar de Caué.
Seios lindos de Santana
De invejar amante louca
Guadalupe Madalena
De virgem são coisa pouca.
Chegam depois ao Ilhéu
Das Rolas que vão partindo
Até ao cimo do Céu
Por engano, não fugindo.

Os seios deste País anseiam por mais afecto
Justiça de Coração debaixo do mesmo tecto.

Os seios dos nossos seios
Cheios de seiva e vigor
Por eles correm gorjeios
A pedir força e amor.
Seios amantes da vida
Não fogem de um desafio
Gozam a vida perdida
Ou presa por um só fio.
António Bondoso. Seios Ilhéus. 2010. Euedito. Pgs39,40,41 e 42. 

Foto de Lains e Silva. 1956/57. (Seios Ilhéus.Pg97).
António Bondoso
Maio de 2013.

2013-05-05


À MINHA MÃE E À MÃE DO MEU FILHO... 
pela ternura, pelo carinho, pelo cuidado, pelo Amor.

UMA SAUDADE GRANDE DA MÃE DA MINHA MULHER, que me adotou.
UM CARINHO PARTICULAR À MÃE DA MULHER DO MEU FILHO
ÀS MÃES

SER MÃE É DESAFIO. (A publicar).

Gerar e parir não faz a Mãe
Pois há muito que se perde a todo o tempo:
Educar, o Ser, estar presente... e tanto Amor.

Pelo caminho vai ficando mais carinho
Esgota-se a Amizade e a paciência
Neste tempo de dor e d’incerteza
Não bastando por si só toda a ciência.

Renovar para ser Mãe é desafio
É sentir e não partir.

Urge ficar, perceber, permanecer
Assumir que tudo é belo
Quando ser mãe é sofrer e é sorrir
Antecipar o poder de imaginar
Que ser Filho é alegria e é trabalho
Sistema complexo de crescer
Entre angústia, ilusão... até desgosto
E do sonho retirar maior prazer.


Ser Mãe é intenso desafio
Saber partilhar cada momento
Respeitar o silêncio amargurado
Num breve olhar cúmplice...
Mas atento!
===== António Bondoso ( A PUBLICAR) 



António Bondoso
Maio de 2013.


2013-05-03



CELEBRAR AQUILINO...
...TÃO SIMPLES COMO SACIAR A SEDE !



E VOCÊ... SABE O QUE SIGNIFICA «TEBAIDA»?
Numa altura em que se assinala o centenário da publicação de O Jardim das Tormentas, de Aquilino Ribeiro, lembrei-me de ter lido uma simples e deliciosa historinha sobre o Mestre, contada em 2004 pelo jornalista Pedro Foyos – que começou a sua atividade no República em 1960 – para a obra Memórias Vivas do Jornalismo, de Fernando Correia & Carla Baptista, publicada pela Caminho em 2009.  
E a coisa tem a ver com a forma simples e bela como Aquilino projetava a riqueza da língua para uma dimensão nacional e internacional.
Conta Pedro Foyos que o Mestre, no final de uma entrevista feita na sua casa em Lisboa, lhe ofereceu um livro em cuja dedicatória lhe augurava um «futuro de homem de letras» que se lembraria, por meio daquele livro, «do velho autor que visitou na sua tebaida». E foi esta palavra – tebaida – que ficou a mexer nos neurónios de Pedro Foyos: “Que raio quereria aquilo dizer? É evidente que não iria expor perante o mestre a minha ignorância” e, por isso, nada perguntou. Chegado ao jornal, explica, “corri para o dicionário. Lá estava, sim senhor: «Tebaida: lugar solitário; retiro.» Desde esse dia, admito que seja dos poucos portugueses que está em condições de dizer, tranquila e prontamente, o que significa «tebaida»...”.
Posto isto, passemos então ao texto com que me associei a um número especial do Jornal Beirão, inteiramente dedicado a Aquilino Ribeiro.

CELEBRAR AQUILINO...
...TÃO SIMPLES COMO SACIAR A SEDE !
  
          E sinto-me honrado e grato por poder participar nesta celebração especial, recuperando e atualizando uma carta que dirigi publicamente ao Mestre há já cinco anos, inserida no livro “...DA BEIRA! ALGUNS POEMAS e uma CARTA PARA AQUILINO”.
         Datada da Serra da Nave, que ele conheceu por prazer e, mais tarde, pela necessidade de despistar os esbirros a caminho da liberdade longe, dizia eu que essa era uma carta retirada das gavetas do tempo. Hoje, acrescento um ponto: este tempo novo apresenta-se igualmente duro e difícil. Mário Soares ( não só ele) diz que a situação, hoje, é a mais difícil depois do 25 de Abril – mesmo se nos lembrarmos dos tempos dramáticos dos anos de 1980, particularmente na região de Setúbal, onde o Bispo D.Manuel Martins recebeu a “marca” de Bispo Vermelho, por ter combatido a fome e a miséria e criticado os políticos de então. Um deles era Mário Soares, primeiro ministro de um governo de coligação com o PSD de Mota Pinto, o chamado Bloco Central.
E nessa carta de há cinco anos [Setembro de 2007], escrevia eu designadamente: “Nesta sua Serra da Nave, praticamente incólume no seu espírito de liberdade mas a merecer ainda os adjectivos com que baptizou as Terras do Demo, a vida continua a ser dura e pobrinha. (...) Mas tem havido investimento, criatividade e engenho particularmente nas áreas da Educação e do Desporto e na resolução das carências sócio-culturais. Em Moimenta da Beira (Vila que viu aumentada sobremaneira a sua área urbana), por exemplo, tomou forma um desejo dos anos de 1950 e 1960 (que o mestre ainda partilhou nomeadamente com o Padre Bento da Guia e com o Dr. Amadeu Baptista Ferro) – a excelente e funcional Biblioteca que leva o seu nome.
          Nesta celebração, quero apenas recordar alguns nomes de figuras que foram suas contemporaneas, nomeadamente Amadeu Baptista Ferro, homem ímpar que engrandeceu Moimenta da Beira e que nesta altura – provavelmente não muito longe do espírito do Panteão – certamente lhe recorda conversas de viagem na carreira para Viseu.
          (...) “Baptista Ferro[1], na época de 1980, traçava nas páginas do renascido jornal [Correio Beirão] um Itinerário Aquiliniano (que incluía V.N.Paiva, a Serra da Lapa, Soutosa, Moimenta, a Barragem do Vilar) e revelava que as suas relações com o mestre foram estabelecidas, sobretudo, através do Correio Beirão – naturalmente a 1ª série, nascida em 1956. Competia ao modestíssimo jornal, escrevia o Dr. Ferro, um dever de gratidão e de admiração para com Aquilino, dado o seu estatuto de grande trabalhador das letras. E alguns anos antes das comemorações do cinquentenário de labuta literária do mestre (talvez Outubro de 1959), já o jornal exortava os moimentenses a perpetuarem a “…estima e gratíssima admiração por um dos seus conterrâneos mais ilustres, dos mais altos valores de todos os tempos”. A sua preocupação com a instrução, com a educação, com a cultura – levaram o mestre a manifestar também satisfação com o jornal, com a ascensão do Colégio/Externato Infante D. Henrique e sugeriu até, para o espólio da Biblioteca [uma autêntica aventura], valores firmados da região, como por exemplo Frei Joaquim de Santa Rosa Viterbo, de Gradiz; o crítico de arte Armando de Lucena, com ligações familiares a Sernancelhe e a Leomil; o jurisconsulto Jaime de Gouveia, dos Arcozelos; Leite de Vasconcelos, da Ucanha, sábio etnólogo ; os poetas Luís Veiga Leitão, de Moimenta, e Fausto José, de Armamar e que fez parte do grupo “Presença”; o romancista Afonso Ribeiro, da Vila da Rua – que foi professor em V.N. de Gaia e jornalista no Porto, fundador do “Sol Nascente” em 1937 e proibido pela censura em 1939 – o mesmo Afonso Ribeiro que partiu para Moçambique em 1947, onde viria a exercer também a actividade jornalística, sendo preso dois anos depois na campanha de Norton de Matos; o diplomata António de Sèves e o médico investigador de medicina tropical Fraga de Azevedo, de Sernancelhe. Toda esta lista relatada por Amadeu Baptista Ferro, que era uso viajar consigo na carreira entre Moimenta e Viseu e que, em Soutosa, conheceu o seu amigo íntimo, o Padre António de Andrade, dos Arcozelos; e onde levou os antigos condiscípulos no Colégio da Lapa, Ernesto da Paiva Gomes e Acácio Gomes Machado. Dada a sua partida, mestre, a biblioteca não a chegou a conhecer e, pela sua ausência e oposição do governo, já não se realizou a homenagem que lhe iria ser prestada em Outubro de 1963, no Externato, sendo conferencista convidado outro ilustre natural de Moimenta – o publicista Eduardo Salgueiro, da Editorial Inquérito, desde muito cedo radicado em Lisboa, um inovador no ramo com a edição de livros de bolso – também ele um alvo de perseguição da Censura e da PIDE. (...) Era assim o fadário da existência nas suas Terras do Demo nesses anos da ditadura”. E que é fundamental ter presente, para evitar um futuro idêntico, sabendo-se que hoje Moimenta tem furado essa “muralha interior” com iniciativas de grande alcance, merecedoras da atenção dos media nacionais de referência.
Serra da Nave, (re)escrita em Maio de 2013
Este seu leitor e admirador
António Bondoso


[1]- Correio Beirão – Ano I, nº3. Março de 1986



António Bondoso
Maio de 2013.

O PODER E O POEMA - ANTÓNIO BONDOSO
Editora Edições Esgotadas.
Na Junta de Freguesia de Lavra – Matosinhos.
1 de Maio 2013. 





D.MANUEL MARTINS – BISPO EMÉRITO DE SETÚBAL.
                "Qualquer poder corrompe. E todo o homem sonha Poder". 



A “leitura” que D.Manuel Martins fez do meu livro mais recente, poderei defini-la como “Uma lição de Cultura: democrática, filosófica e político-social”, enquadrando o seu discurso nas circunstâncias do dia e do tempo que vivemos.
Na sede da Junta de Freguesia começou por referir o “Poder Local” como uma das grandes conquistas da revolução de Abril e caracterizou Lavra como terra de gente sã, tendo em conta o contacto com a natureza, com a verdade, com Deus. “Não obstante o progresso – respeita a sua memória e nela se refresca para caminhar. Lavra é de facto uma família e uma terra com futuro”.
E no dia do trabalhador – 1 de Maio – D.Manuel Martins frisou que “O homem é trabalho. Não pode viver sem ele (Deus é trabalho)”. E aparece assim na nossa vida como “dever natural” e, por isso, como “direito natural (Constitucional)”. Por ambição dos homens – disse o Bispo Emérito de Setúbal – “em Portugal ronda o milhão os cidadãos sem trabalho. Já imaginamos o que é isto? Já experimentamos o que é isso? Malditas políticas que se constroem sem este alicerce social que garante o pão na mesa e o progresso de um povo. O trabalho é realização pessoal; é colaboração com o Criador, é gesto, é caminho de solidariedade familiar e social. Sem trabalho, o homem nega-se e compromete-se seriamente a sociedade. Então, que neste dia comece uma vida nova para Portugal”!
A beleza da Primavera foi o passo seguinte: “Na Primavera tudo começa de novo. É o tempo que apela à esperança. É um Sacramento: manifesta – é sinal de – vida nova e faz apelo a vida nova”. Por isso, D.Manuel considera que, apesar do Acordo Ortográfico, Primavera merece ser escrita com letra maiúscula.
Lembrou depois que “Maio é o mês de Maria, mês da Mãe, Mãe que é carinho, respeito, preocupação, presença, sorriso...Mãe que é vida permanente e rica junto de nós, Mãe que nos quer felizes a todos”.
E aparece o livro O PODER E O POEMA, um título sugestivo que D.Manuel chama de “sacramental”!
“A leitura atenta e meditada do livro, aqui e além como necessidade de algum jejum, fez nascer dentro de mim, mais que um comentário, uma reflexão que anda à volta de ideias semeadas pelo livro”. Por onde começar ? – pergunta D.Manuel. “Pelo Poder ou pelo Poema? Antes: porquê o Poder e o Poema? À primeira vista, não nos parecerão mais inimigos que amigos? ...Ao menos, desconhecidos. O Poder, normalmente, aparece frio, insensível, mas, ao mesmo tempo insaciável. O Poema, pelo contrário, aparece-nos quente, sonhador, aventureiro, solto”.
Admitindo que um pode ser consequência do outro, D.Manuel diz que “Sem Poema não haverá Poder e sem Poder, como aparece o Poema”? Concretizando e falando de Poder, coloca algumas ideias em presença: a) Esforço que resultou no êxito, numa nova condição e capacidade; b) Influência conseguida com vários recursos (poderão coincidir com licenciatura sem exames) e que coloca o sujeito em situação nova de «comando»; c) Energia interior que leva o homem à coragem de não sucumbir perante qualquer força, subtil ou clara; d) Fortuna: o dinheiro é o alfa e omega que comanda o cérebro e as pernas do homem; e) Exercício de função política que convence o seu detentor que, com o rei na barriga, tudo pode fazer. Para não falar do eclesiástico que, não sendo e só serviço, pode tornar-se até, se mal usado, fonte de iniquidade. Qualquer poder corrompe, afirma D.Manuel Martins. E todo o homem sonha Poder.
Pormenorizando em seguida o Poder Político “ o mais nobre dos Poderes” (lembrou Pio XII uma das formas mais nobres da caridade), o Bispo Emérito de Setúbal frisou que ele pode, infelizmente, “dar em portas abertas para corrupção, injustiças de toda a ordem, boyismo, vaidades pessoais e familiares. Porém é uma função nobre. É uma das funções mais nobres. Exerce-se com autoridade confiada (eleições) em vistas a realizar um serviço inteiro, competente, feliz, a toda a Comunidade. «Eu sou tu». Político versus Sociedade”.
Volta a recordar que todo o homem sonha Poder já que o sonho governa a vida. «Pelo sonho é que vamos» salienta, para indicar que “na base dos feitos que levam ao Poder, normalmente está o Poema, isto é, o desejo de ser capaz de, com sacrifício de todo o género e feitio, conseguir cantar o Poema. O Poema também faz parte de nós. Etimologicamente, significa acto de criar e é parente da palavra poeta e poesia. Deus é o Poeta: criou tudo do nada. Criados à sua imagem somos poetas, sem que disso tomemos consciência. O Poeta vê o mundo de maneira diferente: O Poeta ouve uma flor que fala, um rio que canta, um oceano que espanta, uma montanha que esmaga”.
Chegado aqui, confessou que um dia – não sabe quando – se surpreendeu a lançar ao papel este voto encantado: “Que bom é ser Poeta. Sim, que bom é ser poeta! O poeta ouve o silêncio, canta como ninguém a beleza da natureza e da vida, chora a tristeza de tantos humanos. O poeta escuta o murmúrio das correntes, as mensagens das flores, o chilreio dos passarinhos. O poeta descobre luz onde os outros vêem treva, espalha esperança quando tantos desesperam, abre infinito enquanto tantos se fecham. O poeta é um homem livre que anda por onde quer. Até por isso, se exprime sem regras, as regras que impedem a simplicidade e, quantas vezes, a verdade do pensamento. É corrente dizer-se que o poeta está fora do mundo. Não é verdade. Acontece, sim, que ele mergulha na alma do mundo. Podemos avançar e dizer que o poeta tem entrada certa nos segredos de Deus, o grande Poeta do universo. Então, uma das grandes condições para entender a vida é ser poeta”.
Por último, D. Manuel Martins focou o seu olhar no autor de O PODER E O POEMA, perguntando: afinal, quem é António Bondoso? E respondeu:- “ Se lhe perguntarem d’onde é, nem ele mesmo é capaz de saber, porque deve ter nascido em terras que não escolheu, já que todo o mundo foi seu. O Poder e o Poema que ele, afinal, é, deu-lhe sensibilidade e arrojo para poder dominar e gritar os feitos de muita gente, também do nosso Portugal de antanho. Refiro-me, já sem desenvolvimento, a três grandes feitos que se deixam envolver no Poder e Poema. A) Descobrimentos (Poder e Poema; Poema e Poder); B) Guerras Coloniais (Poema e Poder envergonhados); C) 25 de Abril ( Poder e Poema que se monumentalizaram em grande Saudade”. 



António Bondoso.
Maio de 2013.

2013-05-01


MAIO MAIS FORTE !



MAIO MAIS FORTE. ( A Publicar).

De Maio florido se escreve
Em Maio de luta se fala
É livre quem não se cala
Quem não teme quem não deve.

Mas custa tanto a liberdade
Percebê-la, defendê-la
Em exercício diário...
Que às vezes fico sem forças
E desistir é tão perto.

Mas em Maio faz-se Abril
Julho, Novembro ou Dezembro,
Cada mês em cada dia
Traz  repetida energia
E novas ideias por certo.

De Maio se diz também
Que há um sentimento mais forte.
  
Feminino, delicado
Maduro Maio Materno
De canseiras, de trabalho
Se reconhece no tempo.
E seja no sul ou a norte
Há sempre uma estrada diferente
E uma estrela marcante
Que é mãe...de tantas outras que brilham.
=========== António Bondoso ( A PUBLICAR) 



ANTÓNIO BONDOSO.
Maio de 2013.

APESAR DE ESTARMOS EM MAIO...PODEMOS/DEVEMOS CONTINUAR A FALAR DE ABRIL.


"E apesar de estarmos em Maio também podemos falar de Abril, pois na atual conjuntura cada período de vinte e quatro horas é um dia de cravos vermelhos, já que todos os dias nos confrontamos com os poderes e a necessidade dos poemas – o sentido da revolução que ficou incompleta: Dos três Dês iniciais só a descolonização se completou. O Desenvolvimento entrou em marcha-atrás e a Democratização vive perigos insuspeitos. Vemos, ouvimos e lemos – não podemos ignorar, parafraseando Sophia de Mello Breyner."----A.Bondoso. 


E deixo a possibilidade das imagens em movimento:

www.youtube.com/watch?v=r-P3fZv-LbA

videos.sapo.pt/vCUG8eM2RHyU5tv4byJU


António Bondoso.
Maio de 2013



2013-04-30

O PODER E O POEMA

CONVITE PARA LAVRA - MATOSINHOS. 



E O QUE OUTROS DIZEM DO LIVRO:

PEDRO BARROSO:
“Este livro não é apenas um livro de poesia, é sobretudo um livro/ensaio sobre as odes à revolta que foram surgindo ao longo da história”.

PROF. JOEL MATA:
“Pode colher-se neste livro uma última ideia: o poeta também é um construtor de pátrias, apelando ao inconformismo, da mesma forma que Almada Negreiros o fizera, com o Ultimatum Futurista às Gerações do Século XX: «O Povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem, portugueses, só vos faltam as qualidades»”.

CELINA VEIGA DE OLIVEIRA:
Celina Veiga de Oliveira escreve sobre o que considera “o legado maior de O Poder do Poema:- a convicção de que o poema pode ser irreverente e até revolucionário, chamando a atenção para a interrogação Quando chegará de novo a madrugada?, para a qual a resposta tem de ser dada por todos nós, tendo em conta “uma das mensagens mais fortes do livro – “a consciência de que o futuro será uma realidade construída pelas nossas mãos”!



António Bondoso
Abril de 2013.

2013-04-28


CRAVO DE AMOR PARIDO...

Arranjo de A.B. de uma foto do JN.

***** CRAVO DE AMOR PARIDO! (A Publicar)...

           A mão que segura o Cravo
           que o ergue apontando ao infinito
           não treme
           não vacila
           tem a garra da firmeza
           e a beleza
           da humilde força da razão
           que Abril não verga sem combate.

           Essa mão essa flor
           um Cravo de amor parido
           jamais será esquecido
           em punho cerrado ao vento
           e ao sol de cada momento!
=========== António Bondoso. (A Publicar)



Foto de António Bondoso em CulturDança, VNGaia.
António Bondoso, Abril de 2013.

2013-04-25


ABRIL...SEMPRE À ESPERA !

***** Há uns anos ouvi dizer que eram necessárias novas flores para renovar Abril. 

O caso é que o problema não está nas flores, antes nas cabeças daqueles que nos (des)governam há uns tempos a esta parte. 

Um cravo é um cravo; um demagogo aprenderá a se-lo cada vez mais; um incompetente não merece respeito; um politiqueiro e aldrabão não tem lugar num país decente. Infelizmente o nosso está doente. E por isso...é preciso um recomeço. 
E eu, sem mudar as flores, presto aqui homenagem ao arquiteto Carlos Marreiros, de Macau, que trabalhou uma belíssima serigrafia para celebrar os 25 anos do 25 de Abril. ( A foto abaixo, não faz justiça à beleza do quadro). 

O RECOMEÇO...

É NECESSÁRIO UM RECOMEÇO...
É URGENTE UM RECOMEÇO...

(A Publicar).
O RECOMEÇO...
Abril começou de sangue e raiva
E de uma revolta assumida muito antes
Do som das botas militares
A marchar no asfalto das ruas da cidade.

E começou a florir antes dos cravos nos canos da G3
E antes do ruído dos tanques a crepitar nas pedras da calçada.

Abril começou na guerra
E nas palavras censuradas dos poetas.
Abril assimilou os gritos nas prisões
Que de noite, cela por cela
Prolongaram a dor até à madrugada.

Abril começou na emigração clandestina
Na fome das mulheres e de homens alquebrados
Na morte antecipada de visões e de projetos
Em pesadelos inquietos transformados.


Abril irrompeu no nevoeiro
Que escondia o pensamento em liberdade
Abril foi o sol das consciências
Ansiosas por chegar à felicidade.

E fomos felizes em Abril
E queremos em Abril continuar a ser felizes.

E se o sol não se apagar
Voltaremos a ver as estrelas a brilhar
Antes do tempo destinado à Primavera
E depois dele...
Como se outro tempo não houvera.
======== António Bondoso (A PUBLICAR)


António Bondoso.
Abril de 2013.