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2021-01-14


LEONEL COSME…ou o homem de palavra e das palavras que viajam para além do seu nome, fazendo sentido. Ausentou-se agora, depois de ter nascido em 1934, em Guimarães, e de ter vivido 25 anos em Angola – de 1950 a 1975 – terra africana onde voltaria como cooperante em 1982, regressando ao Porto em 1987. 



Não quero que as palavras pareçam banais. Por isso, penso que devo destacar hoje o seu nome, a sua figura, a sua escrita e parte do seu pensamento. Com Leonel Cosme partilhei momentos de luta pela democracia na RDP, no Porto, com ele partilhei – em momentos distintos – a chefia da Redação que fomos construindo, praticamente a partir do zero. Com a sua assinatura, deixo excertos de documentos que significam exatamente parte desses momentos de combate pela afirmação da Rádio, no Porto e no Norte – uma Rádio que não nos era estranha, pois ele havia trabalhado no Rádio Clube da Huíla (Sá da Bandeira) e eu no Rádio Clube de S. Tomé, depois Emissor Regional da E.N. em finais de 1969.



É, tem sido, à escrita de Leonel Cosme que recorro frequentemente, quando é mister falar de África. Que, afinal, são muitas, como ele lembrava. Por exemplo no seu livro MUITAS SÃO AS ÁFRICAS (Novo Imbondeiro,2006),especificava: «não são apenas muitas as Áfricas-nações que procuram a sua unidade, em cada território e no continente, mediante um esforço de “reafricanização”, para retomar o fio da história cortado pelo colonialismo; são também as muitas áfricas-sociológicas que existem em cada uma delas, como boas ou más heranças, conforme o olhar de quem faz a leitura dos resultados. E porque muitas são essas “áfricas”, muitos foram e ainda são os olhares, uns que vêm do passado, outros, do tempo que ainda decorre». Ou ainda, quando escreve sobre Agostinho Neto e o seu tempo - «sempre a África Negra teve as imagens que dela fizeram os colonizadores». 

Leonel Cosme deixou a missão jornalística em 1991 para viajar em busca de conhecimento – foi o caso do Brasil – e para apresentar palestras e comunicações em diversas Universidades de Portugal e do Brasil. E para escrever, claro. Dezenas de livros publicados, alguns dos quais já aqui mencionei, sendo África a «centralidade». Tive também, nesta faceta de escritor, a felicidade de poder contar com a sua «leitura» do meu livro “Escravos do Paraíso”, que ele apresentou no Palácio da Bolsa, no Porto, em 15 de Dezembro de 2005, dizendo na altura: - «Este livro, de um escritor-jornalista, é um caso invulgar. Poético e realista, fala-nos do amor e do fracasso em S.Tomé e Príncipe:- amor dos portugueses e de santomenses expatriados em Portugal, que amaram e jamais esquecerão aquela terra de eleição; fracasso, porque os poderes nela estabelecidos não lograram, ao longo de séculos e até hoje, fazer de tanta beleza e fertilidade os meios de tornar o seu reduzido povo um dos mais felizes do mundo».


Foi em Angola que Leonel Cosme, para além da Rádio, foi co-diretor das Edições Imbondeiro (que a PIDE fechou em 1965) e co-fundador da Delegação da Sociedade Cultural de Angola e do Cine Clube da Huíla. 

Independentemente das divergências que tivemos ao longo da caminhada profissional que fomos partilhando – e por isso as palavras fazem sentido – devo dizer que o Leonel Cosme foi sempre um camarada empenhado e leal, de uma tranquila e permanente sensatez.

Fica bem e não deixes que a viagem das palavras termine. Abraço grato por nos termos conhecido. Uma nota final, para lembrar que – apesar da situação de emergência devido à pandemia – o velório irá decorrer durante o dia de amanhã, 15 de janeiro, a partir das 10h00, na Capela da Ressurreição de S. Cosme – Gondomar, e que o funeral terá lugar às 14h30.


Até sempre Leonel Cosme e recebe um abraço que seguramente te vai ser transmitido pela Gina, tua mulher e companheira dedicada, pela Ariana e pela Vânia – filhas que igualmente te deram felicidade.

A propósito, recordo com ternura o que ambas as filhas escreveram em 2017, numa publicação no «facebook», sobre a vida do pai na Rádio:

“Ariana Cosme

Filha de um jornalista da rádio, posso dizer que sou filha da rádio!!!
Cresci nos corredores, nos estúdios e na régie do Rádio Clube da Huíla junto de gente que marcou profundamente a minha infância e o gosto pela rádio. (Sabe-se que estou em casa quando o rádio está ligado).
Aluna do Colégio Paula Frassinetti, descia a rua, passava em frente à casa da
Cristina Romariz, da Carla Nóbrega Velho e entrava na porta do Rádio Clube para passar as últimas horas da tarde perto do meu pai (fazendo os TPCs e outras tantas tropelias). Recordo a infinita paciência do Mário Soares, do Leston Bandeira, da Zi, Isilda Arruda e do Humberto Ricardo; eram a nossa família alargada...Desse tempo recordo ainda o auditório grande onde estudava piano (as lições do Cserny pareciam nunca acabar) e se fazia a distribuição dos brinquedos no Natal às crianças da cidade.
Faz agora um ano voltei à rua da Gena Prata, Maria Prata Prata, que reunia no portão sempre um grupo de amigas e à rua do "terno" da mãe da 
Isabel Roçadas Flores e foram grandes as saudades de todos.

Vânia Cosme Saudades imensas dessa infância feliz em que enchia de risos e correrias os pisos todos do Rádio Clube da Huíla e era recebida diariamente com o maior carinho do mundo e palavras sempre ternurentas por todos aqueles que ali trabalhavam e que com uma infinita paciência lá aguentavam as nossas (minhas e da minha irmã) tropelias com um sorriso rasgado no rosto!!! Leston BandeiraHumberto RicardoDiamantino Pereira MonteiroMario Soares , Isilda Arruda, são alguns dos nomes muito queridos que guardo ternamente num cantinho muito especial do meu coração. O Dia Mundial da Rádio foi ontem mas para mim é todos os dias pois olho para o meu Pai diariamente e nunca deixo de pensar nessa rádio especial que ficou lá para a Terra do Sul. Também não esqueço a Antena 1 (Portugal) onde, tal como no Rádio Clube da Huíla, passei muitas horas da minha adolescência a estudar e a aprender a ser Gente com todos aqueles que na Redacção levavam as notícias para lá das paredes e das janelas da Rua Cândido dos Reis. Recordo com saudade imensa o Gonçalo Nuno cuja estrelinha já brilha no céu, o Carlos Ferreira, o Carlos Magno, o António Bondoso e muitos outros. E, mais uma vez, o meu Pai confundindo-se com os dias da rádio de milhares de pessoas. Amanhã, quando acordar, prometo dedicar uns minutos numa amena cavaqueira com o meu Pai sobre as nossas memórias, as dele bem diferentes das minhas, da vida de um Homem da Rádio.” 

Não sei se houve tempo…mas teria sido interessante. 

Porto, 14 de Janeiro de 2021.

António Bondoso. 







 

2020-09-17

Olá. Estamos – de novo – em período de contingência.

Olá. Estamos – de novo – em período de contingência. E com números elevados que assustam! 



Estamos, sobretudo, na contingência de perder o «Planeta» devido às atitudes humanas que foram conduzindo a «Terra» às doenças que, agora, nos obrigam à “contingência”.

Estamos também na contingência de ver reeleito um presidente em «estado de negação», como é o caso de Trump, nos EUA, que abandonou/rasgou os acordos sobre o clima – igualmente uma evidência que vai destruindo o Ártico, oscilações que, seguramente, têm vindo a ajudar a chegar a esta situação de contingência. Depois da UNESCO abandonou também a OMS (só falta mesmo deixar a ONU) e tem vindo a alimentar uma guerra comercial com a República Popular da China – a qual terá sem dúvida graves repercussões na boa saúde da economia mundial, sendo evidente que a RPC, pela sua milenar cultura de paciência e de olhar o tempo a longo prazo, sairá vencedora do confronto. É uma cultura de «imperialismo silencioso», baseada na propaganda do “pacifismo” e da “amizade”, e cujo cenário se foca na necessidade de dar respostas a quase mil e quinhentos milhões de cidadãos que habitam o país considerado o meio do mundo. África e América Latina no centro desse esforço.  

Por outro lado, estamos na contingência de tentar perceber até onde irá o belicismo de Putin, escudado na busca do espaço vital da Rússia em permanente e intensa atividade para recuperar o protagonismo de tempos idos. Direi mesmo uma contingência iniludível, face às respostas que o regime tem dado sempre que há «movimentações» sociais em países próximos, como aconteceu na Geórgia e na Ucrânia, como agora sucede na Bielorússia – já não falando na intervenção na Síria.

Estamos na contingência imediata de perceber o que se está a passar no Médio Oriente, quando países árabes estendem as mãos e os negócios ao Estado de Israel – com uma atitude «discreta» dos rivais Irão e Arábia Saudita. Uma operação «abençoada» por Trump numa tentativa de ganhos internos em época de eleições…mas que não resolve o velho problema dos palestinianos. Tampouco dos israelitas, pois um depende do outro.

E o que dizer da contingência africana…sabendo-se da fragilidade intrínseca da UA perante o já mui antigo «assalto» de outras potências. Basta ler Nkrumah em «A Luta de Classes Em África» para perceber como se instalou o neocolonialismo, depois de um colonialismo secularmente vicioso que não permitiu uma estrutura social economicamente forte: “Permanece, portanto, uma burguesia compradora, tributária em grande escala dos interesses imperialistas em África. (…) O neocolonialismo, sob todas as formas, impediu o estabelecimento de uma independência real”. Por isso e apesar de outros «senhores» se apresentarem, permanece a «eterna dívida» das potências europeias.

Também por isso se percebe a contingência de uma União Europeia eternamente cheia de boas intenções mas falha de uma estratégia duradoura. Talvez não possa ser de outra forma quando ela própria tem hesitado e apenas dá pequenos passos «internamente». Tanto na crise financeira de há dez anos como neste conturbado tempo da pandemia da Covid-19 que nos conduz para um buraco económico imprevisível. Louve-se, por agora e finalmente, a ideia de um salário mínimo europeu.

Mas estamos em tempo de contingência. E de urgência! Na contingência de mais uma «vaga» da “SarsCov-2” e na urgência de uma vacina para debelar o mal que nos impede de levar uma vida normal. Se não percebermos isto…estaremos na contingência de nos perdermos. 


António Bondoso

Setembro de 2020. 

 

2018-07-18

100 ANOS (OU QUASE)...FOI POUCO TEMPO!
UM PEQUENO TRIBUTO A UM GRANDE HOMEM, A UM GRANDE LÍDER.


Há 5 anos escrevi:
NELSON MANDELA – O POEMA DO HOMEM COMEÇA AGORA!

“Tudo principia no princípio/o nascimento e a morte/…/ - O poema principia no fim!”
São letras e palavras de um poema de Luís Veiga Leitão que, tal como Madiba, conheceu os horrores da prisão e da tortura. E como disse Mandela, “tudo é considerado impossível até acontecer”! Por isso, o seu “poema” começa agora. Para que a memória não se apague e possa iluminar os que tomaram as rédeas do destino. Nelson não mudou apenas um país. Conseguiu (re) construí-lo sobre os escombros de um regime controverso, polémico, desumano. E fê-lo com um grande coração e com uma mente aberta e visionária. Mandela soube perdoar sem perder a firmeza dos grandes líderes. E não conseguiu apenas um Estado democrático e de direito – ganhou também uma Nação.
Partilhou a dor e o sofrimento mas igualmente a alegria de não levar consigo qualquer segredo. Todos puderam aprender as suas lições de vida, seguindo pensamentos metodicamente elaborados e que – nesta hora do seu passamento – quase atingem o limite da vulgaridade.
Socorro-me então, de novo, de Luís Veiga Leitão – para recordar que, ao prisioneiro (como um navio), pode cair-lhe a pintura e até o próprio nome, “Mas o mar está dentro dele/ e não há força que o dome”. E o Poeta e Mandela foram homens que vieram “dos cárceres da noite” e “vestidos de pedra”.
Perante tais gigantes, escuso-me a dizer mais seja o que for. Prefiro partilhar o silêncio dos humildes. E sei que o “poema” de Nelson Mandela começa agora…no fim!
António Bondoso
5 Dezembro de 2013.
Depois, em 2014, fiz publicar um «Pequeno Tributo» no livro EM AGOSTO...A LUZ DO TEU ROSTO, como segue: 


PEQUENO TRIBUTO…

(“A bondade do homem pode ser escondida, mas nunca extinta” – Nelson Mandela).

Confessas?
*Justiça!
Negas?
*Justiça!
Que pretendes?
*Justiça e Liberdade!
A prisão há de vergar-te.
*Nunca! “Sou o dono do meu destino”.
Vais sofrer encarcerado
*Serei livre…sofrendo! “Sou o capitão da minha alma”.
Na ilha definharás
*O meu horizonte é o Povo.
Mas é um povo amordaçado, espezinhado, oprimido, subjugado…
*Levantar-se-á no martírio e beberá as lágrimas da Dignidade!

“Ergueu-se, derramou sangue e suor
Moveu montanhas solidárias
O mundo percebeu toda a urgência
E fez com que mudasse tal tragédia.

 Então o Homem
“Tata” Madiba,
De punho erguido e coração radioso
Provou do Poder toda a justiça
Caminhou humilde em busca de um tempo novo
E mostrou ao país uma nação.
Depois…
“Khulu” Madiba,
Serenou com júbilo o seu espírito
Alimentou de alegria outros amores
Atingiu a dimensão da eternidade
No perdão.
Hamba kahle Madiba
Nkosi Sikelele iAfrica”.
======== António Bondoso
Dezembro de 2013.
*** Com dois versos do poema INVICTUS, de William Ernest Henley(1875).
No livro: EM AGOSTO…A LUZ DO TEU ROSTO, 2014.
&&&&&&&&&&&&&&&&&&
*** Madiba = Nome do clã a que Mandela pertencia e derivado do nome de um chefe que governou a região do Transkei no séc. XVIII.
*** Tata = Pai (Língua Xhosa)
*** Khulu = Avô ( “    “ )
*** Hamba kahle = Adeus ( “  “ )
*** Nkosi Sikelele iAfrica = Senhor, abençoai a África ( “  “) 

António Bondoso
Jornalista
Julho de 2018       

2017-05-25



NESTE DIA DE ÁFRICA...É BOM SABER QUE “ÁFRICA NÃO É APENAS UM LUGAR, É UM SENTIMENTO… 
Figura da Web


 “ÁFRICA NÃO É APENAS UM LUGAR, É UM SENTIMENTO
…E só alguns de nós fomos tocados por ele!”
                                                                                      Ashley Gerrand

Certamente todos ou quase todos sabem onde fica a ÁFRICA! No coração do mundo…se tivermos bem presente a cartografia.
O que talvez nunca tenhamos interiorizado…é que há MUITAS ÁFRICAS! E muitas Línguas: É impressionante!
Com 54 países, a África possui 2092 línguas faladas, número correspondente a nada menos que 30% dos idiomas em todo o planeta. Além das duas mil línguas, estão presentes mais oito mil dialetos
A quantidade de línguas faladas na África supera provavelmente a de qualquer outro continente. O árabe é predominante entre as nações da costa do Mediterrâneo. Línguas derivadas do banto são faladas por grande parte das populações subsaarianas. Nos grandes centros urbanos de alguns países é comum adotar-se a língua dos antigos colonizadores europeus, como o inglês, o francês, o espanhol e o português.
Esse sentimento, que felizmente me tocou, tem vindo a obrigar-me, sobretudo nos últimos anos, a uma reflexão sobre o dilema ESQUECER E LEMBRAR!
Haverá contradição? Embora possa parecer…veremos que não existe! E a verdade é que, pela história, seremos eternamente confrontados – quer dicotomicamente, quer pela dialética – com esta questão!
Esquecer…não é matar a memória. Pelo contrário…é preciso dar vida à memória, para que não sejamos assaltados pela melancolia pesarosa ou por uma nostalgia perniciosa. É preciso perceber e aceitar os outros, aceitar a verdade dos outros e os avatares da história. 
E OUTRA COISA:- de África não nos chegam apenas “refugiados”!
Portanto…o desafio é este: por um lado, esqueçamos os filmes idílicos sobre África. Lawrence da Arábia, África Minha, Fiel Jardineiro, Amor sem Fronteiras, por exemplo. Esqueçamos livros como As Verdes Colinas de África, de Hemingway…Um Lugar Dentro de Nós, Adeus África, ou Uma Fazenda em África. E é sempre bom lembrar, por exemplo – reconhecendo o sabor a sangue e a ambição desmedida – outros filmes como O Senhor das Armas, Hotel Ruanda, Diamante de Sangue ou Crianças Invisíveis.
Em qualquer caso…Esqueçamos África, vista pelos olhos eurocêntricos. Mas, por outro lado, seja-nos permitido lembrar a busca do conhecimento propiciada pela era dos descobrimentos – recordando que se assinalaram recentemente os 600 anos do início da expansão. Podemos até lembrar Camões ou as missões científicas de Silva Porto, Hermenegildo Capelo ou Roberto Ivans uns séculos depois…mas esqueçamos, definitivamente, os Impérios de países europeus em África! Ou melhor, não deixemos de lembrar as atitudes menos próprias, as condutas erradas, indignas e violentas desses impérios – como o desenvolvimento da escravatura humilhante, por exemplo.
E não devemos deixar de lembrar, igualmente, os genocídios mais recentes do Biafra, do Ruanda ou do Darfur…
Numa outra perspetiva, e apesar de tudo, tenhamos sempre presente figuras como Santo Agostinho, Senghor, Wangari Maathai, Lumumba, Nyerere, Eduardo Mondlane, Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Aristides Vieira, Kaunda, Kenyatta, Selassiè, Samora Machel, Desmond Tutu, Nelson Mandela…De outro modo, não deixemos de lembrar – pelos piores motivos – nomes como Bokassa, Francisco Macias Nguema, Idi Amin Dada, Habib Bourguiba, Sékou Touré, Mobutu, Robert Mugabe…
Fundamental é que – sabendo que esquecer não significa o mesmo que varrer para debaixo do tapete – ainda assim é bom esquecer a África da Conferência de Berlim, em 1884/1885 – na qual 14 países redesenharam o Continente onde tudo terá começado, sem ter em consideração as fronteiras linguísticas e culturais estabelecidas. Antes dessa data, 80% do continente africano era dominado por chefes tribais. Basta recordar que, em finais do séc.XVIII, a “estrutura política” variava entre reinos, impérios, cidades-Estado, e outras linhagens de clãs e aldeias, resultado de inúmeros movimentos migratórios associados à sobrevivência, à religião, à cultura, ao poder e ao comércio. Mas bastou um século para se assistir a uma notável transformação do continente, fruto de uma expansão de modernidade com base em fatores exógenos – particularmente as armas de fogo, que alteraram significativamente os conceitos de estratégia militar e de ocupação dos espaços.
E nesse período houve até um reino/império…por onde passou o navegador e explorador Sancho de Tovar (que alguns identificam mesmo como espião!)…império que floresceu entre os séculos 15 e 18 – numa região banhada pelo rio Zambeze e cujo território hoje se pode situar entre o Zimbabwe e Moçambique – o Império de Monomotapa. De tão curioso – e talvez até pelas ligações que mais tarde se verificariam a propósito do Mapa Cor-de-Rosa – seria objeto de uma obra de Ana Maria Magalhães e de Isabel Alçada “ NO CORAÇÃO DA ÁFRICA MISTERIOSA”. Ouro e marfim foram as riquezas que elevaram e derrubaram esse império. Como outros casos inumeráveis.
E ainda hoje se encontram no topo das Relações Internacionais os problemas diretamente ligados à exploração das riquezas africanas – matérias-primas de caráter vital para muitas potências. Isto, apesar de – entre os 10 países mais pobres do mundo – 9 serem africanos. E de, entre estes, se encontrarem a Guiné-Equatorial e S. Tomé e Príncipe, países inseridos na área da lusofonia/CPLP e ambos com a palavra “PETRÓLEO” gravada na agenda mediática.
O caso é que, nos dias de hoje (pese embora o eterno acordo entre a CEE/União Europeia com os países designados como ACP), o pêndulo do relacionamento está nitidamente a desviar-se para a Ásia: - primeiro foi a China [que até criou há pouco mais de uma dezena de anos o Fórum de Macau para desenvolver as relações com os países «lusófonos»]…e agora, com muitos anos de atraso, está a ser a Índia a promover essa aproximação. Dois dos países BRICS a recentrar o eixo da política internacional.
A União Europeia, apesar da sua atenção/preocupação mais centrada em questões internas, no leste europeu e no próximo e médio oriente, vai tentando arrepiar caminho no que foi o seu afastamento dos problemas da África. E não só no que diz respeito aos “refugiados” ou Migrantes, apesar da recente tentativa de perceber, para resolver, esse complexo problema. Só dinheiro para os Estados Africanos não resolverá certamente. Por isso é que Federica Mogherini, [Alta Representante da UE para a política externa] diz que “o objetivo é criar oportunidades para as pessoas, proteger a vida das pessoas, lutar contra as redes de tráfico que exploram o desespero das pessoas e fazer tudo isto em conjunto”. Daí, o avanço das parcerias estratégicas.
Quero dizer eu…não impor, mas aceitar e adaptar regimes com a maior transparência possível e à medida de uma justiça universal, sem pretender ser donos da justiça ou de um conceito único de democracia. A isto chamo COOPERAÇÃO – uma atitude para a qual é fundamental rever os atuais paradigmas. Por isso, Podemos sempre incluir aqui inúmeras ideias.
Há sempre qualquer coisa de novo em África e uma aptidão constante para surpreender – diz o historiador Elikya M’Bokolo – ciente de que há muitas Áfricas.
         Apesar de tudo, apesar das imagens que nos chegam, esperemos poder continuar a ser surpreendidos. E no que diz respeito ao chamado espaço da África Lusófona – o que nos toca – continuemos a acreditar na Guiné-Bissau; reforcemos o pragmatismo de Cabo Verde; tenhamos esperança no “rio dos bons sinais” em Moçambique; não regateemos esforços relativamente a S. Tomé e Príncipe; olhemos convictamente para Angola…com Kizola (Amor) e com Kidielela (Esperança).
Segundo o Artigo 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.” Traduzido para Ovimbundu, é mais ou menos assim: - Omanu vosi vacitiwa valipwa kwenda valisoka kovina vyosikwenda komoko. Ovo vakwete esunga kwenda, kwenda olondunge kwenje ovo vatêla okuliteywila kuvamwe kwenda vakwavo vesokolwilo lyocisola.
E no princípio…o Senhor alimentou África, dando vida aos rios no continente: senegal, gâmbia, níger, congo, cuanza, kwando, cubango, zambeze, limpopo, orange, nilo…e plantou no mar as ilhas de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe, com muito sol. Lembrando a língua Xhosa de Nelson Mandela – NKOSI SIKELELE iÁFRICA (o que significa = Senhor, abençoai a África!). 
António Bondoso
Jornalista
Maio de 2017

2016-05-25



LIVRO GOLUNGO ALTO. De JERÓNIMO PAMPLONA.
MEU TEXTO DE APRESENTAÇÃO – DIA 23 MAIO 2016 – PORTO, na UNICEPE.


Bom final de tarde...Uma boa noite a todos.
Estamos a 2 dias do Dia de África...o que – de certa forma – confere a esta sessão uma oportunidade particular. Para falar de África, claro!
***** Há um ano...perguntava eu no meu bogue ONDE FICA A ÁFRICA?

E dizia que, numa altura em que há como que um “toque a finados” nesta União Europeia cada vez mais em deriva, também não é sem apreensão que vemos ouvimos e lemos sobre ÁFRICA. As televisões encarregam-se de nos mostrar diariamente. E um dia destes, a 25, celebra-se aquele que pretende chamar a atenção para os inúmeros problemas – claro – mas igualmente colocar em destaque as potencialidades desse terceiro mais extenso continente e segundo mais populoso do mundo…e do qual fazem parte cinco países que têm como oficial a língua portuguesa:- Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique e S. Tomé e Príncipe.(...)

Há poucos meses, voltava a lembrar que, sobre ÁFRICA, não há contradição entre ESQUECER E LEMBRAR!
A verdade é que, pela história, seremos eternamente confrontados – quer dicotomicamente, quer pela dialética – com esta questão!
Esquecer…não é matar a memória. Pelo contrário…é preciso dar vida à memória, para que não sejamos assaltados pela melancolia pesarosa ou por uma nostalgia perniciosa. É preciso perceber e aceitar os outros, aceitar a verdade dos outros e os avatares da história.
De África, como vamos ver, não chegam apenas REFUGIADOS ou NOTÍCIAS MÁS, tal como não chegam apenas matérias-primas.
De África também vem parte da História – muito da nossa história – vem conhecimento e encantamento, encantamento que mata saudade... como acontece com
o livro que aqui nos traz hoje... ANGOLA NOUTROS TEMPOS – POR TERRAS DO GOLUNGO ALTO E DE AMBAQUISTAS.



Rapidamente...poderia remeter-vos para o PREFÁCIO (do antropólogo Paulo Fernandes) no qual se pode ler “estarmos perante um livro de reflexão histórica e cariz sócio antropológico. Sobre o relevo, as dimensões e a substância do devir da África nas suas particularidades e particularismos”.
OU ENTÃO PARA um texto do meu camarada Manuel Rodrigues Vaz – editor jornalista, escritor: Idealizado para ser uma simples evocação da vila angolana Golungo Alto e das suas gentes doutros tempos, este livro aparece enquadrado num projeto mais lato, que passou por uma retrospetiva da História Geral de Angola, numa síntese tão bem organizada como articulada”.
Ou poderia remeter-vos igualmente para o posfácio...no qual o próprio autor destaca e resume as seis partes da obra:
“Na primeira parte abordo a “chegada” dos portugueses a Angola.
Na segunda parte descrevo as personagens e o estatuto dos Ambaquistas e dos Assimilados.
Na terceira parte centro-me na vida económica e social do Golungo Alto em meados do século XX.
Na quarta parte, num estilo em que a paródia prevalece sobre a sátira, revisitando mais de 25 anos, conto 42 “estórias/piadas”, que ocorreram em diferentes lugares de convívio e que são aqui compiladas.
Na quinta parte narro seis contos, no estilo que poderá chamar-se
de “short stories”.
Na última parte percorro, num “rally paper imaginário”, as ruas do Golungo Alto visitando lugares que nos fazem recordar afetos e emoções vivenciadas”.
Perante isto, praticamente pouco me sobraria para dizer.
Contudo, e porque é de bom tom, tendo aceitado esta tarefa (PARA ALÉM DO PRESTÍGIO, DEVO JUSTIFICAR OS HONORÁRIOS) DEVO DIZER QUE é de toda a justiça... ACENTUAR que o livro está muito bem escrito, literariamente rico mas acessível... E ACADEMICAMENTE muito bem estruturado. UM ESTUDO muito completo, sem ter o caráter obrigatório de uma Tese. SIMULTANEAMENTE é um livro de memórias, de saudade – sem, contudo, transmitir nostalgia.
            Numa linguagem reveladora de uma SERENA FRONTALIDADE, estas páginas encaram a História como ela foi – sabendo nós como é fácil julgar a história aos olhos da realidade de hoje.
É, PORTANTO, uma obra em que os factos históricos enquadram e conferem substância a uma série de CRÓNICAS, de contos breves e de historietas – como diz o autor – escritos com alegria, HUMOR, paixão, romance com erotismo QB...: Como por exemplo no Conto 5 “AROMAS TROPICAIS”:
“Um pouco afastados de terra, nadaram lado a lado, mergulharam e boiaram. Quando voltaram à posição vertical a Lú postou-se frente ao Dani, muito próxima, fitou-o nos olhos, duma forma dengosa, e o desejado aconteceu: beijaram-se sofregamente - um beijo ardente e prolongado.”
Há também política, claro, a controvérsia da Guerra... e não falta o Futebol, numa série de historietas contadas ao jornalista Bergeron*, do jornal A Província de Angola:
*) Desde o início que o nome me faz lembrar o meu camarada Joaquim Berenguel, Radialista em Angola (Rádio Clube de Malanje) e que depois trabalhou aqui na RDP, em Lx, no Pto e finalmente em Bragança.
            Era através desse Rádio Clube de Malanje que o Grupo FINA FLOR DE GOLUNGO ALTO (gente solteira ou com a mulher aqui no “Puto”) se deliciava aos domingos a ouvir a rubrica dos DISCOS PEDIDOS ao longo da semana, enquanto degustavam uma valente churrascada e saboreavam umas CUCAS bem geladas.
Estamos a falar desta região do Golungo Alto e de Ambaca, Malanje, Samba Caju, Camabatela, Rio Lucala, Rio Cuanza...mas devo dizer que, histórias como estas, há-as mais ou menos parecidas em muitas outras regiões de Angola.
            A personagem do Freitas de Cacanga (Adulcínio Freitas)...pode ser recontada em dezenas/centenas de lugares – confirmando a imagem “empreendedora” daqueles que desbravaram o sertão angolano. É bom reter a agilidade com que o Freitas conseguiu motivar cidadãos e autoridades para a instalação de água canalizada, energia elétrica e de uma escola em CACANGA – ali a meia dúzia de Klms de Golungo Alto. (PGS 142-144).
            Para ali – para aquela região - foram no início da década de 1950 uns tios meus América e Acácio Bondoso (ele motorista de pesados) acompanhados dos filhos João e Fernando; também Palmira Bondoso e Honorato Cardoso (no início capataz numa plantação de cana de açúcar) mais 2 dos filhos mais velhos, o Toli e o João Luís – tendo ali nascido outros 3 - e estiveram em Camabatela, Samba Caju, Samba Lucala, Cacuso, sempre à espera que o café amadurecesse na Fazenda Ginga, acabando por ser Luanda o destino final da aventura angolana na passagem do ano de 1959 para 60.
E o João Luís (que hoje está na Austrália) ainda se recorda do nome da Professora Maria Paula, em Samba Caju, e da Igreja dos Capuchinhos, em Samba Lucala, onde havia sessões de cinema. E de uma viagem com o pai, atribulada, na picada até Makela do Zombo...sofrendo furos em excesso.A solução foi usar – depois de substituído um dos pneus – muito capim, muito capim, muito capim nos outros pneus para substituir as câmaras de ar furadas.

            É que a penetração no interior não foi nada fácil. A dificuldade da língua – OU DAS LÍNGUAS – e a escassez de colonos. Poucos, sem mulheres e sem escolas. E em LUANDA, por ex, em 1846 – já muito próximo da Célebre e Trágica Conferência de Berlim – em Luanda havia 5 mil habitantes e 100 tabernas, para 144 casas de 1º andar, 275 casas térreas e 1058 cubatas.
            Lê-se por aqui que nos séc. 17 e 18, sobretudo depois da expulsão dos Jesuítas, chegou mesmo a acontecer a KIMBUNDIZAÇÃO dos portugueses. E que já em 1620 tinha sido publicado um CATECISMO em Kimbundu.
            A INVERSÃO SÓ ACONTECE, e numa dimensão reduzida, já na segunda década do séc. 19, com a chegada de uma nova vaga de emigrantes da metrópole e também muito pelo esforço dos chamados AMBAQUISTAS.
É um dos capítulos mais interessantes desta obra:
Quem são/Quem foram os AMBAQUISTAS? COMO FORAM INFLUENCIADOS...E COMO EXERCERAM A SUA INFLUÊNCIA...?
Resumindo a investigação do autor...pode dizer-se que os AMBAQUISTAS constituíram uma elite luso-africana, independente dos SOBADOS e consolidada no séc.19, que teve uma origem muito heterogénea – com negros (mesmo antigos escravos), mestiços e alguns brancos. Nos seus antepassados europeus houve conquistadores, soldados, comerciantes e degredados. A sua ambição de saber ler e escrever levou-os a partilhar a influência dos dominadores coloniais – com o objetivo de a poderem depois exercer junto das sociedades tradicionais africanas, tanto a nível económico como político. Foram considerados os mais importantes intermediários na correspondência entre os chefes angolanos e as autoridades coloniais. Falavam, escreviam e ENSINAVAM o português, para além do seu próprio dialeto ou de uma língua franca africana – no seu caso, o KIMBUNDU.
No final desse séc.19, o número de “Ambaquistas” era calculado em 10 mil, muitos deles dispersos um pouco por todo o território, assumindo inter-relações culturais e sociais com todas as etnias do território.
O exemplo mais conhecido é o da colónia ambaquista na Mussumba, residência dos reis lunda (atualmente República Democrática do Congo). Foi aqui que o seu fundador e dirigente, Lourenço Bezerra Correia Pinto, um ambaquista oriundo do Golungo Alto, conhecido por Lufuma, deu aulas de língua portuguesa, leitura, escrita e aritmética básica, no período de 1865 a 1885. A colónia terá sido fundada em 1859, tendo desenvolvido uma intensa atividade artesanal e agrícola.
OS AMBAQUISTAS tiveram igualmente peso nas caravanas das rotas comerciais e até em expedições de investigação e conhecimento. Como por ex: essa ligação “costa a costa”, entre 1804 – 1814, com Pedro João Baptista e Anastácio José – 2 nativos luso-africanos, que foram ao serviço dos portugueses e foram identificados como tal. Ficará bem, por esta altura, relembrar um poema de Arnaldo Santos em “A Casa Velha das Margens”
O DESTERRO DO AMBAQUISTA
Escrevo de nenhures
De meu coração
Oiço as batidas.
É esse
O meu único chão
O pó
Em que existo
E onde preces e sonhos
Tenho erguidas.
É esta
A Ambaca antiga
Que carrego em mim
Em palavras
E vidas
Com que os espíritos Lhe reclamam.
É este
O meu solo Materno pátrio
No qual busco a cidade
E me consolo.
Os Ambaquistas faziam questão de assumir e de realçar o seu “estatuto especial”... trazendo-me à memória o caso de Macau. A importância decisiva que tiveram os MACAENSES na relação entre a Administração portuguesa e a comunidade chinesa. Exatamente porque falavam as duas línguas – no caso, o português e o Cantonense.
E não querendo abusar da vossa atenção e da vossa paciência, para além das notas históricas sobre a Colonização, o Choque de Culturas, e a Escravatura... PARA ALÉM DOS ASPETOS MUITO PARTICULARES DA CONSCIÊNCIA CÍVICA E POLÍTICA DOS PORTUGUESES DE ANGOLA – sobretudo no Sul, com a FUA, em Benguela, em 1961, fortemente reprimida – mas já antes em Luanda, em 1948, com o aparecimento do MOVIMENTO DOS NOVOS INTELECTUAIS DE ANGOLA, com jovens negros, mestiços e brancos... há esse relato delicioso sobre a rainha Njinga também conhecida como DONA ANA DE SOUSA ( depois de batizada em Luanda já com 40 anos de idade, ela que terá nascido em 1582...), tendo sido nomeada ainda como MUENE NZINGA MBANDI.
Considerada como pioneira do sentimento nacionalista angolano... OS PRIMEIROS REGISTOS sobre NZINGA/NJINGA datam de 1621 – altura em que terá sido enviada a Luanda pelo seu Chefe e Irmão para negociar a Paz com os portugueses.
            Terá conseguido renegociar o número de escravos a transacionar, mas não foi bem sucedida no seu objetivo de obrigar ao desmantelamento do Presídio de Ambaca – uma fortificação fundamental para o avanço colonial no território. Entre 1641 e 48 foi aliada dos holandeses para guerrear os portugueses, mas só viria a capitular em 1656, tendo falecido em 1663, já com 81 anos de idade.
            Há traços reveladores da personalidade da rainha Njinga, neste relato do livro de Jerónimo Pamplona, relacionado com aquela missão diplomática de 1621: (PAG.44)
O episódio teve lugar na visita que fez ao Palácio do Governador vestida, como era seu hábito, com uma bela capa escarlate sobre os ombros e um finíssimo pano de musselina elegantemente preso à cintura por uma cinta de camurça, cravejada de diamantes e outras pedras raras. O governador recebeu-a sentado num cadeirão alto, quase um trono, tendo reservado para a Njinga uma almofada, debruada a ouro, sobre um sedoso tapete.
A Rainha  Njinga deu ordens a uma das suas escravas para que se ajoelhasse e sentou-se sobre o dorso da servidora. Aquele gesto marcou o tom do encontro. No final da visita o governador estranhou que a embaixadora não chamasse a escrava que se mantinha imóvel sobre a almofada. A Rainha riu-se. Deixaria a escrava, retorquiu. Não tinha por hábito usar o mesmo assento mais do que uma vez.
Quanto à origem do nome de Golungo Alto, a história é mais ou menos idêntica tanto neste Livro de Jerónimo Pamplona como no Dicionário Antonito: COROGRÁFICO-COMERCIAL DE ANGOLA de 1959 – 4ª edição: há na região um antílope (muito semelhante à Seixa e ao veado) de seu nome africano : - NGULUNGO (porco raro, especial).  O termos ALTO – vem das montanhas da zona.
Terá passado a prato típico da região, depois de se ter verificado uma peste suína muito gravosa.
O GOLUNGO ALTO é terra de gente ilustre na história de Angola, onde nasceram gradas personalidades angolanas como o famoso Cónego Manuel das Neves, que foi um dos principais impulsionadores da luta de libertação nacional, os dirigentes políticos Mário Pinto de Andrade e o seu irmão Joaquim Pinto de Andrade e à qual estiveram sempre ligados figuras como o poeta António Jacinto, o dirigente político Lopo do Nascimento, o escultor José Rodrigues bem como os seus irmãos António Jacinto Rodrigues, notável arquiteto paisagista, e Irene Guerra Marques, grande figura da cultura angolana.
E na hora de fechar, lugar ao poema RECORDANDO, de António Jacinto, precisamente dedicado ao GOLUNGO ALTO:
RECORDANDO
Oh! Meu Golungo em que a floresta assume
Graças infinitas; doce perfume
Que o Zenza lendário vem beijando
Recordando fatal amor tão nefando!
Zenza caprichoso, me vens contando,
Quando sereno te estava fitando,
Uma história de louco ciúme,
Numa noite de vibrante ciúme.
Em que Ela, embalada, terna e amante
Em meus braços, chorosa e anelante
Me jurava amor eterno. Tão querida!
Este poema está acompanhado de umas breves notas explicativas da Poetisa angolana Ana Paula Tavares: No verso 1: Floresta, alusão à Reserva Florestal de Golungo Alto. Versos 3 e 5: Zenza, alusão ao rio que banha a região de Golungo Alto. Verso 9: Ela, alusão à terra Golungo Alto.
António Bondoso
Porto, 23 de Maio de 2016.


António Bondoso
Jornalista