2022-09-24


LETRAS E PALAVRAS EM TEMPO DE MAÇÃ…ou de como perceber que é preciso dar corpo à expressão «música para os meus ouvidos».

Letras, letras, letras e palavra e palavras, e vozes, algumas vozes a dar corpo a uma ideia de ouvir e de escutar outras ideias, mesmo que haja poucos interessados em participar. 


         Dizem que as palavras são como as cerejas. E são. Mas este ano foi um tempo difícil para a cereja – como para quase toda a fruta, aliás. Não fiquemos espantados, pois, em saber que algumas, palavras claro, terão certamente caído em «saco roto».

         Apesar de tudo, dos desencontros de horários, de uma promoção pouco eficaz – defeito que eu assumo cota-parte, ou quota-parte, talvez mais eloquente – o designado “Pavilhão das Letras”, em segunda edição, lá foi cumprindo a sua função de «dar a conhecer» qualidade e diversidade na literatura carregada de pensamento e de mensagem. Sempre na grata presença dos vereadores Mónica Gertrudes e Hugo Bondoso, procurou-se honrar os pergaminhos de um evento [EXPODEMO] que já assinalou 10 anos e 9 edições, desde 2012, em Moimenta da Beira. A «pandemia» impediu duas. 


         E quem lá esteve, no Pavilhão das Letras – desta vez no belíssimo Auditório do Pe. Bento da Guia – teve, assim, a possibilidade de ficar a conhecer a «poesia» de Regina Correia, uma poesia rica, capaz de resistir ao desenraizamento de «Pátrias» e de «Amores» que nunca morrem. Luísa Ferro, por exemplo, disse-me ter gostado dos autores do dia em que esteve presente, com especial destaque para a Regina Correia: “Já em Lisboa, estou a ler, pausadamente, os seus poemas, que me estão a agarrar a atenção”. «Conjugação de Mapas», assim é intitulado o livro que esteve em análise. 



         E depois, Jorge Bento disse aos presentes que é preciso reinventar a sociedade, pois não estamos a caminhar «Para Um Novo Normal», longe disso. Espraiando um olhar inquieto e profundo sobre a atual desordem mundial – “vivemos tempos sombrios” – Jorge Bento apela à ressurreição das nossas capacidades de apreender, perceber, questionar e de amar. O jubilado professor universitário, verdadeiro encantador de palavras e com uma escrita eloquente, foi um reputado colunista do jornal A Bola. E nessa qualidade foi reconhecido por António José Bondoso que, após a intervenção de Jorge Bento, salientou entender agora o alcance das mensagens contidas nas crónicas de A Bola.



         Teresa Adão, diretora das Edições Esgotadas, apresentou uma nova reimpressão de Afonso Ribeiro. “Povo” foi a obra escolhida, na qual o autor neorrealista de Vila da Rua colige uma série de contos sobre a miséria e a opressão em que viviam as classes trabalhadoras. “Povo”, que a censura proibiu, classificando-o como «pura propaganda comunista», foi – depois de Aldeia e de Ilusão na Morte – mais um trabalho de transcrição aturada e atualização de linguagem de Denisa Sousa. Lembrando a importância do autor para o concelho e para o país, Teresa Adão acabaria por lançar mais uma vez, à Câmara Municipal, o desafio de promover uma «Residência Literária Afonso Ribeiro» em Moimenta da Beira, à semelhança do que vem acontecendo com Eça de Queirós em Tormes. Afonso Ribeiro, preso pelo antigo regime, foi depois exilado em Moçambique, de onde só regressou em 1976. 


         Precisamente de Moçambique foi o autor que se apresentou no dia seguinte, falando sobretudo do seu livro “Fuzilaram a Utopia”, uma crítica cerrada ao período pós colonial. Escritor e professor, Delmar Maia Gonçalves nasceu em Quelimane em 1969, tendo chegado a Portugal nos anos de 1980. Divulgador de poesia e pragmático contador de histórias africanas, Delmar criou em Portugal o «Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora» [CEMD]. Define-se como um irreverente humanista, defensor da paz e da fraternidade universal. 


         E foi com a sua poesia que se iniciou a sessão última do Pavilhão das Letras, ficando a ideia de que “As chuvas/ são lágrimas de dor/ que no limite/ o mundo liberta". 

Por fim, juntaram-se à sessão o Nuno Requeijo Bondoso, Alexandra Cabral, Maria Amélia Padrão, Regina Correia, Maria do Amparo Bondoso, José Brites Marques Inácio, e António José Bondoso.  

Jorge Bento terminou a sessão de forma humorística, lembrando o brasileiro Ronaldo Cunha Lima, que foi advogado, poeta, político e chegou a Governador do Estado da Paraíba, terminando a sua carreira política em tragédia. O poema, de 1955, tem por título “Habeas Pinho” ou a história da prisão de um violão em noite de serenata boémia. 

Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da 2ª Vara desta Comarca

O instrumento do crime que se arrola
neste processo de contravenção
não é faca, revólver nem pistola,
é simplesmente, doutor, um violão.

Um violão, doutor, que na verdade
Não matou nem feriu um cidadão.
Feriu, sim, a sensibilidade
de quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,
instrumento de amor e de saudade.
O crime a ele nunca se mistura.
Inexiste entre eles afinidade.

O violão é próprio dos cantores,
dos menestréis de alma enternecida
que cantam as mágoas que povoam a vida
e sufocam suas próprias dores.

O violão é música e é canção,
é sentimento vida e alegria,
é pureza é néctar que extasia,
é adorno espiritual do coração.

Seu viver como o nosso é transitório,
mas seu destino, não, se perpetua.
Ele nasceu para cantar na rua
e não para ser arquivo de cartório.

Mande soltá-lo pelo amor da noite
que se sente vazia em suas horas,
p’ra que volte a sentir o terno açoite
de suas cordas leves e sonoras.

Libere o violão, Dr. Juiz,
Em nome da Justiça e do Direito.
É crime, porventura, o infeliz,
cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, e afinal, será pecado,
será delito de tão vis horrores,
perambular na rua um desgraçado
derramando na rua as suas dores?

É o apelo que aqui lhe dirigimos,
na certeza do seu acolhimento.
Juntada desta aos autos nós pedimos
e pedimos também DEFERIMENTO.

Ronaldo Cunha Lima, advogado.

O juiz Arthur Moura deu sua sentença no mesmo tom:

Para que eu não carregue
remorso no coração,
determino que se entregue
ao seu dono o violão.

===================== 

António Bondoso

Setembro de 2022. 

Veja o vídeo neste link: 

https://youtube.com/watch?v=Wb0v99OANjc&feature=share&si=EMSIkaIECMiOmarE6JChQQ



















 





 

2022-09-15


III Congresso Mulheres de STP em Portugal

2022.

Nada mais desafiante do que ser um homem a falar da «mulher». Particularmente nestes dias em que se prepara uma iniciativa de envergadura, com a realização do III Congresso das Mulheres Santomenses em Portugal – que vai decorrer no dia 18 no Forum Lisboa. 



Aproveitando o mote da reunião – “O Contributo do Legado Africano para a Construção de uma Sociedade Global” – basta dirigir-me

À MULHER SANTOMENSE.

…Nela revejo as mulheres de todo o mundo!

         E como labutam as mulheres africanas. E como sofrem. E como se erguem em tempos difíceis, nunca desistindo. Desde o começo do mundo. E embora possam duvidar do presente complexo, renovam a alma e dão sempre uma outra oportunidade à Esperança. 



Especificamente no dia 19 ou não, quer seja em Setembro ou em Maio, a mulher é uma bênção. Recordo por exemplo Vinícius de Moraes na sua «Receita de Mulher» “…e em sua incalculável imperfeição constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável”.

Nesta ocasião, e nas mulheres que vão levando a «Mén Non», volto também eu a renovar votos de uma urgente «brisa fresca», rumo aos poderes que merecem sem esquecer o orgulho no passado. 



Tudo isto - o que escrevo e o que adivinho na qualidade dos intervenientes - coloco na memória de um Poema que já escrevi há uns anos (2015):  

NO DIA DEZANOVE…

As mulheres

                                            No calor da luta    

Souberam empenhar-se

E ajudaram a amassar todo o futuro

Que sonharam.

 

Foi apenas o início

De um comprometimento imaginado

Atitude alimentada pela força da razão

Que os poderes

Então expostos

Não puderam acarinhar

Acalentando a paixão.

 

E o futuro adiado

Rasgou o sonho desenhado

Nos anos que pareciam ser abençoados.

 

Mas as mulheres não desistiram

Engravidaram

E foram parindo Fé

Num tempo mais temperado

De outras lutas e projetos

Realistas, moderados,

Até cinzentos

À imagem destes dias incansados.

António Bondoso

(19 Set. 2015)





António Bondoso

Setembro de 2022. 







 

2022-09-06

 

ADRIANO MOREIRA – 100 ANOS DE «PENSAMENTO».

Saúdo o aniversário com admiração e respeito, salientando sobretudo o facto de ter sido uma das «figuras» centrais do meu livro sobre “LUSOFONIA E CPLP – Desafios na Globalização”, de Setembro de 2013.



         E precisamente nesta altura, quando se celebram os 200 anos da independência do Brasil, vale a pena recordar a voz de Adriano Moreira quando – na obra em referência – salienta a importância do Brasil no «espaço lusófono»: “…nós temos que estar preparados para admitir que a liderança é brasileira”. Na CPLP, claro.

         E mesmo que o Brasil se tenha vindo a «desviar» dessa sua natural «responsabilidade», até hoje nunca assumida com frontalidade, pois há sempre e ainda muitos «pontos críticos» a ter em conta, Adriano Moreira reitera a necessidade de observar e perceber a conjuntura e escutar “o diálogo construtivo sobre as respostas sustentáveis”, sendo fundamental não colocar em dúvida a exigência irrenunciável da igualdade dos Estados participantes. 



         E a «Língua», claro, como «cimento de tudo isto. Uma Língua, como me referiu em 2011, “que transporta valores, não sendo nunca um instrumento neutro”. E foi mais longe: “…acontece que a língua portuguesa, a meu ver, tem mistura de etnias. Também é mestiça!”. Por isso, não é apenas «nossa». Também é nossa.

         E para não alongar em demasia este pequeno texto de homenagem ao Professor Dr. Adriano Moreira, finalizo com mais uma referência ao meu livro sobre a Lusofonia e CPLP, lembrando a ideia que me foi sabiamente transmitida de que a CPLP é uma «organização muito original». Porquê? Porque – afirma – “ a França, que tem instrumentos de projeção da sua cultura como a Alliance Française, não tem uma CPLP; a Espanha, que tem uma série de países, sobretudo na América Latina, que falam espanhol e tem o Instituto Cervantes – não tem uma CPLP; a China, atualmente, já tem espalhados por todo o mundo cerca de 300 Institutos Confúcio, mas não tem nenhuma CPLP. [Promoveu Macau para se encostar e liderar]. Portanto, a CPLP é, de facto, uma originalidade. A reunião de tantos países unidos pela mesma língua como primeiro elemento”(gravação, 2011)”.

         Parabéns Adriano Moreira. Grato pela partilha de algum do seu «pensamento». 




António Bondoso

6 Setembro de 2022. 


 






 

2022-08-30


Marta Temido demitiu-se.

SAIRÁ ELA DE CENA EM DEFINITIVO?



Entre a piroseira astrológica da «Praça» e a tristeza «criminal» do Hernâni...os canais de "notícias"(?) vomitaram ódio sobre Marta Temido. Uma vitória do corporativismo, dos média e de...António Costa em mais um processo de «viragem» para Medina. Valerá a pena o «sacrifício» da ministra? E sairá ela de cena em definitivo?

Sendo certo que algumas «clivagens têm mais significado do que outras», Dennis Kavanagh também entende que os partidos se «preocupam mais em representar os vários grupos do que em manter a sua pureza ideológica». E vai mais longe, ao dizer que “Apesar da habilidade do partido em manter a lealdade eleitoral da maior parte dos votantes, a instabilidade de opiniões e o alto nível de desacordo de preferências entre partidários pelos métodos adoptados dá a entender que o partido exerce uma influência bastante vaga sobre os pontos de vista de actuação”.

Isto, no âmbito do que se designa por «Cultura Política». Porque, depois, há a “Cultura Cívica”. E aí, muito mais importante do que a propaganda e a demagogia, há a instrução, a educação, a solidariedade, a cidadania responsável que não se deixa influenciar pelos lóbis. Por isso se diz que a Política não é só uma «arte», é antes de mais uma «ciência».

Obrigado Marta Temido pelo seu desempenho e pela sua frontalidade. 



António Bondoso

Agosto de 2022.  



 



 

KIKO BONDOSO em maré alta, apesar das adaptações que a «equipa» lhe tem pedido. 



A competência e outros atributos a ela ligados estão sempre patentes quando se trabalha com profissionalismo. E o reconhecimento acaba por chegar, naturalmente, mais tarde ou mais cedo. Mesmo quando o cansaço já não permite «tratar» a bola com o «requinte» habitual. E quantas vezes não dá até vontade de «sacudir» o braço. Um gesto permitido aos grandes atletas e, no caso, ao “Homem do Jogo” mais uma vez na Liga Bwin. 



Só a humildade, a coragem e a força mental de um homem adulto e de um atleta de eleição podem elevar e justificar a tua postura. Força KIKO BONDOSO. 



Nem tudo sai bem, sempre! Mas é forçoso continuar. 


António Bondoso

Agosto 2022. 









 

2022-08-29

ACORDAI PARA A VIDA!

Depois do «choque» e do «escândalo» de Vila do Conde, nada melhor do que passar a um canal onde revivi – com agrado pela técnica do filme e pela sua eterna atualidade temática  – a história do gravíssimo acidente ecológico com a «plataforma petrolífera «Deepwater Horizon», no Golfo do México, em Abril de 2010. 



    (Legenda da Foto: [O JOGO] = 5 do FCP não travaram 1 do RA. É sinal de quê?)

         A falta de visão, as hesitações técnicas, a falta de coragem, manifestaram-se, quer em Vila do Conde, quer no Golfo do México. Não basta Sérgio Conceição vir dizer que não foi “digno de se sentar no banco do FCP”. O problema começa muito antes – na ideia da formação da equipa. Na questão da petrolífera nada a dizer – o problema foi das chefias que representavam a administração da BP – mas já no que diz respeito à constituição da equipa inicial do FCP, o problema foi e é nitidamente da responsabilidade do técnico do FCP. Quer na «formação» inicial (qual a razão de David Carmo continuar no banco dos suplentes e qual a valia de Bruno Costa no meio campo da equipa?), quer nas DEMASIADO tardias substituições. A perder por 1-0, nada. A perder por 2-0, nada. E já nada havia a fazer quando passou a 3-0 antes do intervalo. Num jogo a pedir velocidade e profundidade, para além de atenção ao contra-ataque, o explosivo Galeno ficou de fora e o hábil reforço Veron, igualmente. Permaneceram o inábil Bruno Costa – ainda não entendi onde está a sua valia para o plantel – e o «cansado» Marcano, apesar dos 2 golos já apontados. Mas todos percebem que não tem velocidade para situações de contra-ataque. O que pretende a equipa técnica demonstrar aos adeptos e à Administração da SAD? Entendam-se e ORGANIZEM-SE! Os adeptos agradecem.

Siga para Bingo.

Ant. Bondoso
António Bondoso

Agosto 2022. 



2022-08-23

O LONGO BRAÇO DO PASSADO – ou a escrita vigorosa e assertiva de RUI DE AZEVEDO TEIXEIRA sobre o chão que foi «pisando» e sobre a diversa natureza humana que o foi enriquecendo ao longo da vida e em latitudes e circunstâncias várias, remetendo para o protagonista “Paulo de Trava Lobo” – «imagem» central do anterior O ELOGIO DA DUREZA – alguns traços da sua vincada personalidade. Mesmo sabendo que o autor rejeita qualquer ideia de autobiografia. 


Com frontalidade, argúcia e rigor, bebidos em estudo e em conhecimento profundos, o autor faz desfilar nas viagens experimentadas de Paulo de Trava Lobo o argumento:

«Universidade, Porto, Angola, Comandos, Guerra, Sexo, Paixões várias – quentes e intensas – mas o Amor da sua vida vertido na sua mulher Iza, Alemanha, Angola de novo mas já como “cooperante”…conhecedor, professor e amante de Literatura, um tempo difícil de aventura e de afirmação de caráter, antes do seu regresso «esgotado» ao “Puto” pela segunda vez: «Ia para a bela e brutal terra da palanca-negra cheio de garra e voltava a Portugal de rastos».

         Talvez um estado depressivo, depois de uma agitada permanência numa Angola que foi e que já não era, tal como hoje – uma Angola que passou e que já não é, embora continue a ser um país “esquemático” e onde “o tempo sobra sempre”. Nesta segunda vez, Paulo percebe toda a estrutura do que lhe disseram ser uma “Ditadura Democrática”. E naquele espaço entre Luanda e a Huíla, percorrendo a magia e os perigos das belas curvas da Serra da Leba – capa lindíssima! – Paulo entende a guerra fratricida, não só MPLA/UNITA mas no seio do próprio MPLA, e vai sabendo como funciona o regime tirano suportado por namibianos, cubanos, russos e outros países de Leste, por oposição aos “Carcamandos e Kwashas”. E a «cooperação» apressada, mal orientada – ou melhor – orientada ideologicamente e pela qual Paulo foi contornando os «pingos da chuva» sem stress, graças também ao seu conhecimento do tempo antes, o tempo da tropa que manda e que mata, os Comandos. 



Bastou devorar as primeiras quarenta páginas para perceber que estava perante um dos mais belos romances sobre uma das «minhas Áfricas». Sobretudo, identifico-me com o romance. Pelas memórias, vividas ou lidas; pela beleza crua da escrita que sabe conciliar a urbana simplicidade do falar com o erudito conhecimento cultural e histórico do autor.

         O regresso de Paulo de Trava Lobo ao Porto não foi fácil. O «estado depressivo» seguiu, tornando-se um “homem de tascas” que passava os dias “entre copos e ressacas”, comprometendo a sua relação com Iza. E havia ainda um fortíssimo «grito» da búlgara Diana, cooperante como ele na Huíla e que, depois de chantageada pelos seus camaradas comunistas, levaria Paulo e os amigos angolanos à construção de um acidente mortal que «despacharia» o espião Dimitrov na Leba. Por isso, e tendo em conta “causas e consequências”, uma acalmante viagem à Bulgária para colocar o passado recente no armário. Mas, não muito depois do regresso, um acidente rodoviário por força do álcool, colocou Paulo às portas da morte. Iza, apesar de tudo, foi o amparo do «esqueleto quase desfeito».

         Outro tipo de instabilidade vivia-se na Universidade, onde dominavam a intriga e a hipocrisia. Paulo não alinhava. E a tábua de salvação teve mais uma vez a mão de Iza que o encaminhou para a Alemanha e para o doutoramento em «Camões», o que o levaria depois à ULL, no Campo Grande, e aonde chegaria de novo a «chantagem» do “Longo Braço do Passado”, antes da felicidade plena com Iza. 



António Bondoso

Agosto de 2022. 



2022-07-20

A «INFÂMIA» SEGUE, DEVAGAR, A CAMINHO DO 5ºMÊS…ou de como o calor intenso e os incêndios podem fazer esquecer as bombas que continuam a queimar na Ucrânia invadida pelo regime de Putin, já vai para 150 dias. O texto serve também para homenagear o «Repórter de Guerra» Fernando Farinha – muitos anos dedicados a tentar perceber as «guerras». 



         Na ideia do «ditador» russo, a vegetar entre psicopata e cleptocrata, a Ucrânia seria coisa para duas ou três semanas, mas já lá vão quase cinco meses. Contudo, também ninguém pode garantir que o objetivo – um dos – não seja mesmo esse: prolongar. Mas para avaliar isso temos os «especialistas».

         Eu, que penso por mim e não tenho qualquer «especialidade» – essa tive-a no serviço militar em “Transmissões de Infantaria” e foi um bico d’obra – só quero trazer à memória o seguinte: quando começaram os primeiros comentários e, depois, os relatos de alguns «enviados especiais»…fui à estante buscar “Correspondente de Guerra”, de John Steinbeck – uma edição de Livros do Brasil, de 1979. Curioso, neste livro de 260 páginas e que eu poderia «relatar» diacronicamente, é este parágrafo da «Introdução»: “Chamaram à Guerra Civil [Americana] a última guerra cavalheiresca. Pois aquela que baptizaram como a Segunda Guerra Mundial, foi certamente a última de todas as guerras globais. A futura guerra, isto se formos tão estúpidos que a deixemos rebentar, será a última de qualquer espécie. Ninguém sobreviverá para se lembrar seja do que for. E, se realmente formos estúpidos a esse ponto, não mereceremos, de qualquer modo, biologicamente falando, a sobrevivência.”



         E depois, cronológica e diacronicamente, seguem-se os textos que o autor foi escrevendo, quer em Inglaterra, quer no Norte de África, nunca revelando os verdadeiros e precisos locais da sua «presença». A minha atenção recai num pequeno pormenor relacionado com a ideia feita de que a «História» não se repete. Numa crónica datada de 18 de Julho de 1943, algures em Londres, intitulada “Uma Sessão de Cinema”, o autor refere que a casa de espetáculos, tinha uma boa lotação de “soldados feridos, já em convalescença, mulheres do Serviço Militar em gozo de uma licença de horas, domésticas e operários cumprido o respetivo turno de trabalho. Na plateia, à frente, filas cheias de crianças que se apinhavam tão perto do palco quanto podiam”. À comédia do filme – Casei com uma Feiticeira – juntar-se-ia a tragédia da atuação de dez bombardeiros alemães: “Apenas um dos atacantes conseguiu passar, ziguezagueando e esquivando-se por entre a defesa. (…) Voava quase rasteiro quando passou por cima do teatro. Foi nessa altura que lançou as bombas. (…) O aviador inimigo…voltou a sobrevoar o teatro e despejou as peças sobre os escombros. (…) Esmagadas, feridas e mutiladas, as crianças atingidas foram arrancadas aos escombros e conduzidas ao hospital”. Infelizmente, nem sempre isso é possível, como temos vindo a constatar. Quando não são os próprios hospitais alvos de bombardeamentos de arrepiar. 



         Não há «guerras boas ou menos boas». Todas são brutais e quase sempre criminosas. Como foram as da Coreia, da Indochina, Vietnam, Afeganistão, Iraque, as chamadas coloniais ou de libertação, as do realinhamento dos Balcãs, a das Malvinas, da Síria, da Palestina ou as dos genocídios do Ruanda, Somália, Nagorno-Karabakh ou Chechénia. E se formos mais atrás, infelizmente, não ficarão páginas por preencher. Como não ficaram as publicadas por Fernando Farinha – lembrado como o único repórter de guerra português – ontem falecido, com 81 anos de idade. Conhecido pela cobertura da guerra colonial em Angola, Fernando Farinha viveu em Angola desde 1952, iniciou a sua atividade profissional no "Comércio de Luanda", escrevendo e fotografando os movimentos dos soldados portugueses em todas as frentes de guerra, entre 1961 e 1975.

Para acompanhar as operações dos militares portugueses em território angolano, Farinha – que publicou mais tarde também na revista «Notícia», frequentou um curso de comandos e outro de paraquedistas. A guerra – qualquer guerra – exige muito! E magoa e dói sempre.

António Bondoso

Moimenta da Beira, 20 Julho 2022.  







 

2022-07-14

UMA «CHEFE» E UMA AMIGA DE MEIA VIDA…ou de como a sua “partida” nos coloca em choque.

E mais uma vez a Rádio. Porque ficámos sem mais uma camarada. E quando a Rádio perde um dos seus, perdemos todos um pouco de nós. Foi o final da etapa da vida para a Maria Manuela Borralho. A Manela, simplesmente. 



Conheci a Manuela Borralho em S. Tomé e Príncipe em finais dos anos de 1960, no âmbito do processo de transição do Rádio Clube para Emissor Regional da ex Emissora Nacional. De todo o vasto “elenco” da ex-EN empenhado nessa tarefa [Fernando Conde, Engº Freire, Sebastião Fernandes e Guilherme Santos, por exemplo] sobraram e permaneceram duas Amigas de grande nível, elevação escorada numa humilde competência e numa simpática simplicidade: A Maria Emília Michel e a Manuela Borralho. Por circunstâncias e peripécias diversas, o meu trajeto acabou por se cruzar diretamente com o da Manuela. Quer na «Coordenação de Emissão e Programas», com a companhia da Arminda Viana e da Lurdes Brandão, quer no «Serviço de Noticiários», onde já pontuavam os mais antigos Raúl Cardoso e Daniel Pinho. Isto, já depois de alguns meses de uma «ausência voluntária» da minha parte e também de um afastamento «obrigatório» devido ao serviço militar – primeiro em Angola e depois em STP. Resolvidos os «constrangimentos» em 1973, consolidaram-se o respeito e a Amizade mútuos. 



         Regressei a Portugal em Outubro de 1974, a Manuela só voltou em 1975 depois da independência de STP. Eu no Porto, a Manuela em Faro, o trabalho direto não nos juntou mas nunca deixámos de trocar ideias. Para além disso foi a Amizade – sobretudo no tempo de férias, no Algarve, acompanhados por outros camaradas como o Carlos Cardoso, o Livramento e o Humberto Ricardo. Ou então, nos convívios da Rádio que se seguiam por este país, sempre com o pensamento em S. Tomé e Príncipe. 









         E com o passar do tempo…veio a aposentação, embora se tivessem mantido o convívio e a Amizade. O afastamento, involuntário, viria muito mais tarde com a doença. Apenas os telefonemas nos mantinham em contacto, exceto a última vez que tentei – talvez há três semanas – para saber como íamos enfrentando a «pandemia». 



         A Manuela Borralho, por tudo isto, é outra das «Figuras da Minha Vida». E esta não é a «despedida» que havíamos planeado. Competente, afável, de uma serena firmeza no trabalho, Amiga para sempre! Foi meu privilégio. Até sempre «Chefe». 



E porque há ainda amigos e camaradas de muitos anos que merecem estar com eles sentado à mesa de um café.

«Há gente que chega

e se perde

na voragem de ver

os verdes e os vermelhos da vida

esquecendo

o sol e o céu azul.» 

(=== Ant. Bondoso. Maio de 2019 ===) 


14 de Julho de 2022.

António Bondoso.