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2022-08-30

 

KIKO BONDOSO em maré alta, apesar das adaptações que a «equipa» lhe tem pedido. 



A competência e outros atributos a ela ligados estão sempre patentes quando se trabalha com profissionalismo. E o reconhecimento acaba por chegar, naturalmente, mais tarde ou mais cedo. Mesmo quando o cansaço já não permite «tratar» a bola com o «requinte» habitual. E quantas vezes não dá até vontade de «sacudir» o braço. Um gesto permitido aos grandes atletas e, no caso, ao “Homem do Jogo” mais uma vez na Liga Bwin. 



Só a humildade, a coragem e a força mental de um homem adulto e de um atleta de eleição podem elevar e justificar a tua postura. Força KIKO BONDOSO. 



Nem tudo sai bem, sempre! Mas é forçoso continuar. 


António Bondoso

Agosto 2022. 









 

2021-08-24

OS MEUS LIVROS DE 2021…ou de como uma claque se identifica nobremente com as «Histórias» de uma cidade, de uma nação e de um clube: “Porto – 6 de Julho de 1995 – Colectivo Ultras”. De uma «ligação» com estas origens só poderia resultar uma atividade de imaginação criativa de alto nível, já lá vão 26 anos de empenho e dedicação. 



Foto C95

O que se pode ler no livro? História. E muitas outras pequenas «estórias» que, sem tabus, dão forma à alma tripeira – desde o princípio dos tempos.

“Costuma dizer-se que não havia nada antes do mundo ser mundo. Nem vida nem sombras nem brancas nuvens a moldar o azul dos céus. Mas quando o mundo aconteceu e o planeta ficou azul – vieram muitos que ficaram e se foram misturando, formando famílias e núcleos de vida.

Dos Iberos aos Bárbaros, dos Celtas aos Romanos e dos Mouros aos Lusitanos – foram rios de gente que fixaram a presença humana na que é hoje conhecida como a Antiga, Mui Nobre e Sempre Leal, Invicta Cidade do Porto. Tudo começou na Idade do Bronze com a edificação de um castro no Morro da Pena Ventosa – hoje Morro da Sé – a dominar estrategicamente o rio Douro”. 



Foto C95

A revista Visão fez publicar este mês de Agosto mais um dos seus «cadernos» de “História”, inteiramente dedicado às origens do futebol em Portugal. Mas este livro do «C95» [que estava pronto para ser publicado em 2020] centra, natural e particularmente, as ligações dos adeptos «ultras» à cidade do Porto e ao seu clube mais representativo – o F. C. do Porto – desde Nicolau de Almeida [1893] e Monteiro da Costa [1906] a Jorge Nuno Pinto da Costa e José Maria Pedroto.

 Até chegar à modernidade do Estádio do Dragão, em 2003, passaram 110 anos de histórias e de glórias – igualmente de muitas lutas, ilusões e desilusões – tempos de muitos sonhos, de orgulho e de caráter, durante os quais o emblema do Clube ombreou com o lema da cidade. Certamente não por acaso, os versos da primeira estrofe do hino dizem que “Teu pendão leva o escudo da cidade/Que na história deu o nome a Portugal”. E ninguém pode negar que o Clube chegou mesmo a ser, em décadas mais recentes, o motor da região e um verdadeiro embaixador do país.

E as tais «pequenas estórias» de que falei, próprias de um grupo de adeptos organizados e que dispensam muito bem o absurdo «Cartão de Adepto», agora em vigor, podem ir sendo «bebidas» em saborosos textos estilo crónica, dos quais se pode destacar este relativo à época de 2019/2020 – o ano da “pandemia”:

“Chegava a recepção ao Benfica em casa e para este jogo o Colectivo apresentou um espetáculo muito simples mas com bom impacto. Tiras de plástico azul escuro na horizontal a todo o comprimento da bancada a fazer um fundo e 3 modelos de bandeiras gigantes espalhadas pela bancada com os vários símbolos da história do Clube acompanhadas da frase: “AZUL E BRANCA ESSA BANDEIRA AVANÇA!” em alusão ao poema “Aleluia” de Pedro Homem de Mello”.


Foto C95

Portanto, o livro aí está para traduzir as vivências de um grupo de adeptos com alma – o C95 – fazendo lembrar muitos pontos do célebre «A Tribo», de Desmond Morris.

Pode adquiri-lo na sede do grupo ou via net:  https://livro.colectivo95.com/?fbclid=IwAR2Qjf1FPRsaNZI5TfLBBToa78Fz5qmJzhbySY_pCBmkTlRBmmUhRR7BTlw.

Vale a pena, sobretudo para desfazer alguns mitos e tabus.

Parabéns Colectivo 95. 

António Bondoso                            

Agosto de 2021.

 

                                                            

 

2021-04-27

EM JEITO DE RESPOSTA A PALAVRAS SEM IDEIAS DENTRO…ou de como, à boa e saloia maneira portuguesa, se manipula, se disparata, se dizem e se escrevem asneiras, se incentiva à intolerância e ao ódio – sempre a coberto de artimanhas, de falsa moral, de facciosismo parolo, de imbecilidade, próprios de quem só aparece quando dá jeito. 


Pormenor da capa do jornal O Jogo

Como exemplo maior o atual ministro da educação (?), membro de um governo «caloteiro» que não paga o que deve a quem procura cumprir atempadamente os seus compromissos. Falo dos clubes de futebol, claro. Particularmente em tempo de pandemia. E o ministro Tiago, ao «futebol» tem dito nada! Nomeadamente ao FCP que, ainda recentemente, valorizou o nome de Portugal na Liga dos Campeões. Mas adiante…que o burro está impaciente!

         Lembrei há dias – talvez quase ninguém tenha reparado – o que escreveu Almada Negreiros sobre as palavras: «O preço de uma pessoa vê-se na maneira como gosta de usar as palavras. Lê-se nos olhos das pessoas. As palavras dançam nos olhos das pessoas conforme o palco dos olhos de cada um». Não pretendendo interpretar – e muito menos questionar – as palavras de Almada [quedo-me humildemente no reconhecimento das minhas modestas capacidades], e até porque ele próprio escreveu em 1923 «Por amor de Deus, não me obriguem a explicar nada do que eu digo», não deixarei – nunca deixei – de estar atento às palavras que diariamente vão marcando o nosso quotidiano. Por parte seja de quem for.

         Acho piada, sem surpresa – pois os episódios se repetem no que diz respeito às virgens ofendidas – que se queira branquear a incompetência de um grupo de árbitros de futebol pelo relevo dado a um caso de polícia. Quem foi agredido apresenta queixa e testemunhas. E a justiça seguirá o seu caminho. Exatamente ao contrário do que já não poderá suceder com os 2 penáltis não assinalados a favor do FCP no jogo de Moreira de Cónegos. Também não deixa de ser curioso o facto de os média estarem agora a valorizar os 10 centímetros de um fora de jogo. O caso que importa é a sonegação de dois penáltis!

         E depois aparecem as habituais carpideiras da 2ªCircular, qual delas a cheirar mais a processos ainda não totalmente esclarecidos e resolvidos, a reclamar justiça pronta e célere. E os média nos seus habituais julgamentos de praça pública. Tão intensos quando o céu é azul e branco. Mas esquecem as missas, os padres, os e-mails, os juízes corrompidos, as dívidas – mesmo que perdoadas – os assassínios de adeptos, as invasões de violência, o cashball – mesmo que arquivado – e outras tropelias que fazem um santo corar de vergonha. Mas, de facto, não há santos. Nem os ditos jornalistas. Não são inimputáveis, embora às vezes pareça. E não quero falar deste caso em particular, pois não vi o sucedido. Mas perante um crime, é avançar.

         Ouvi igualmente falar em ADN. Pois eu vos digo que o meu ADN é do tempo dos Calabotes. Foi aí que bebi o meu direito à indignação, muito antes de Mário Soares o apresentar como um direito adquirido. E dele não abdico, independentemente de reconhecer os direitos de informação e de liberdade de expressão. O que leio e vou ouvindo quantas vezes conseguem fazer crescer os poucos cabelos que tenho! Para além do ADN, também ouvi falar em «fora-da-lei». Por exemplo, a colagem à figura de Pinto da Costa que os média e outros cidadãos logo fizeram a respeito do eventual agressor. Afinal, quem cometeu o «crime» estava ali a convite do próprio Moreirense.

         Sou contra todo e qualquer tipo de corporativismo. Assumo as minhas responsabilidades enquanto cidadão e enquanto intérprete de um código deontológico. Pode ser que este repórter venha a ter mais sorte do que eu e que o Sindicato o consiga defender, ao contrário do que sucedeu comigo quando fui «saneado» três vezes.

Aqui chegados, não quero igualmente deixar de criticar os responsáveis do FCP pelos acontecimentos de ontem, tal como o treinador Sérgio Conceição pela falta de visão e de leitura do jogo. Sobre os jogadores utilizados? Cada um sabe do que se passa em sua casa. Mas o que deixa transparecer é uma ideia completamente desajustada.

         Independentemente de quem dirige e de quem treina, não deixarei de ser tão portista como os demais. Tal como não deixarei de ser jornalista.

António Bondoso

Abril de 2021.

 


 

2021-04-21

O KIKO BONDOSO E A (BOA) «MONTRA» DO FUTEBOL…ou de como um jovem cheio de talento tardou em ver reconhecido o seu valor. 



         Com um abraço grato e de parabéns ao “Canal 11”, sobretudo nas pessoas de Pedro Sousa e de Sofia Oliveira, que se empenharam na distinção do Kiko, e a propósito do que ali se foi dizendo no programa de ontem – nomeadamente pelo treinador Rui Vitória – recordo o que há mais ou menos 20 dias escrevi sobre «o rei das assistências»: - “O «sistema», que ora promove, ora ignora, é a grande «falha» do futebol em Portugal”..

                                       


         Rui Vitória particularizava a questão do «scouting» e sobretudo a capacidade de “projetar” o futuro de jovens como o Kiko que, segundo ele, tem características fundamentais para se afirmar: - a inteligente leitura de jogo, alicerçada numa rápida e desconcertante capacidade de decisão. Infelizmente, digo eu, não é só o «scouting» que falha. Se a Sofia e o Pedro tivessem tido mais tempo para investigar, talvez pudessem chegar à conclusão de que, nas estruturas dos grandes clubes, também se falha. Ou, melhor dizendo, quem observou o Kiko ainda «júnior» (quer em Alcochete, quer no Olival) não revelou capacidade de «projetar», como referiu Rui Vitória. No fundo, houve incompetência. Felizmente, embora já numa fase "adiantada", o Vizela e o seu técnico Álvaro Pacheco acreditaram no Kiko. Com «visão», diga-se. 



         Apesar de tudo, nomeadamente do valor financeiro que – aos 25 anos – se pode colocar em equação, sobretudo para clubes de topo, penso ser ainda tempo de alguém com visão e com coragem ter o Kiko em perspetiva.  Parabéns Kiko. O futebol agradece.

António Bondoso

21 de Abril de 2021. 




 

2020-02-17

AS CORES DA PELE E AS CORES DOS CLUBES…ou de como a «Humanidade» perde sempre para a intolerância de uns, para a omissão das leis, para a fraqueza das instituições. E é nesta fraqueza que reside uma grande parte do problema: situações graves e de contornos diversos, repetidamente praticadas e nunca penalizadas, geram «impunidade». E desta à «indignidade» há apenas uma simples troca de letras. 


         Dizem os especialistas que há formas ou truques para tentar resistir aos insultos. Mas, como disse também filosoficamente Arthur Schopenhauer – em cujo pensamento se baseou Franco Volpi[1] para o seu ensaio sobre a arte de insultar – há momentos em que é praticamente impossível recuar, pois, quem insulta, faz-nos perder a honra, mesmo se for o "mais indigno canalha, o mais estúpido animal, um vagabundo, um jogador, um facadista".
         Portanto, podemos ser levados a intuir que só a «vileza» responderá satisfatoriamente à provocação e ao insulto. Contudo, quem é humilhado terá capacidade para – seguindo Schopenhauer – fazer-se de desentendido e ignorar os insultos do adversário? Certamente alguns se recordarão da «estória» do anão que, depois de ser repetidamente insultado, um dia matou os prevaricadores. E disso foi absolvido. A nós, ter-nos-á chegado de forma anedótica. Mas há para ler – e refletir – o conto «Hop-Frog», do escritor norte-americano Edgar Allan Poe, publicado pela primeira vez em 1849 e originalmente designado como "Hop-Frog ou os Oito Orangotangos Acorrentados".
Entrando no caso concreto que aqui me traz – a atitude do jogador do FCP Marega, em Guimarães, depois de ouvir durante mais de uma hora (os insultos terão começado ainda no período de «aquecimento») os mais diversos impropérios – teria esse jogador condições psicológicas para continuar em campo? Poderão os adeptos do seu clube criticá-lo por ter pedido para abandonar o relvado e, com isso, eventualmente vir a prejudicar/enfraquecer a equipa para o resto do jogo? Marega é um ser humano antes de tudo. Mesmo, claro, antes de ser jogador profissional. Decidiu, e bem, responder de forma dura à continuada humilhação. Já havia respondido aos insultos quando, depois de marcar um golo, resolveu mostrar a cor da sua pele. E o que aconteceu? Da bancada «choveram» cadeiras e ele, para dar um sinal de protesto e até de se proteger, colocou uma delas na cabeça. O que fez o árbitro? Puniu-o com um cartão amarelo. Triste juiz! Nada de espantar, sabendo que já antes havia atropelado um jogador – o Danilo – e depois o expulsou. O árbitro não percebeu, ou não teve tempo de perceber, todo o ambiente hostil que vinha das bancadas em direção a Marega? Mostrando o «amarelo» ao jogador entendeu que iria aplacar a ira dos que o insultavam há mais de uma hora? O que terá ele escrito no relatório? E qual será o entendimento da Liga, a mesma Liga que decidiu de imediato condenar os insultos ao jogador? O cartão a Marega será revertido? E o que dizer de toda uma série de condenações que se seguiram – algumas delas carregadas de hipocrisia, como as de alguns movimentos e/ou partidos políticos? Quantos, dos que apoiam ou criticam Marega, já viram o vídeo «Many Faces» (James e FCP) e refletiram sobre ele?
O comentador da SIC/Notícias, David Borges, terá dito por outro lado – segundo li – que o “futebol está, cada vez mais, transformado num Estado dentro do Estado". Um pequeno pormenor me separa desta citação. Para mim não é todo o «futebol»…mas sim, e sobretudo pelo que se tem publicado e passado, um «clube» de futebol. O SLB faz-me lembrar o velho sistema colonial das Roças/Fazendas em África, particularmente em Angola e em S. Tomé e Príncipe. Aí sim, um Estado dentro do Estado. Claro que o FCP e outros clubes não podem também ficar isentos de culpas, tal como dirigentes sucessivos da Liga e da FPF, dos árbitros e da chamada justiça desportiva.
         Hoje a «manchete» é o racismo, mas há muito mais para trás. Quando falo da fraqueza das instituições é também disto que falo. Pela simples razão de que essa fraqueza tem conduzido a outras situações de impunidade. E, infelizmente, não é apenas a «justiça desportiva» que está ferida de morte. É a justiça deste país. Ponto final! Um país que nasceu da forma que sabemos, mesmo tendo em conta a luz da História, o espírito do tempo…poderá ser reabilitado?



António Bondoso
Jornalista
Fevereiro de 2020.

2018-05-18

JOSÉ MARIA PEDROTO
O futebol era um vício…mas o Homem tinha vida para além da Paixão!


JOSÉ MARIA PEDROTO
O futebol era um vício…mas o Homem tinha vida para além da Paixão!
E quando se diz que Pedroto, treinador, era um homem à frente do seu tempo…tudo se estendia para lá da metodologia do treino, da visão do fenómeno e da leitura do jogo no “banco”. O “Zé” era um homem preocupado com os seus jogadores enquanto pessoas comuns. E tinha um forte espírito de solidariedade, não só no âmbito da “família portista” (Miguel Arcanjo chamava-lhe o Divino Mestre), mas até com ex-jogadores de outros clubes a quem ajudava não só financeiramente. 


José Carlos Silva

José Maria Pedroto foi mais uma vez homenageado, agora pela «Tertúlia do Dragão”, cujo espaço passou a contar com uma sala VIP que leva o seu nome. A mulher, Cecília, e os filhos Isabel e Rui acompanharam o Prof. José Neto e o Presidente do FCP Pinto da Costa, numa sessão para lembrar o homem e o treinador de eleição. José Neto ilustrou a importância de Pedroto na sua passagem pelo clube e na sua formação como homem do futebol – não apenas no pormenor das estatísticas; Isabel e Rui acentuaram a faceta do pai, embora com uma natural rigidez, preocupado com o saudável crescimento dos filhos à luz do tempo que foi – uma ideia igualmente partilhada por Pinto da Costa, que destacou o facto de ele lhe manifestar a sua preocupação, não com o futuro financeiro dos filhos, antes com a importância de lhes proporcionar ferramentas para melhor enfrentar eventuais dificuldades da vida; e Cecília Pedroto preferiu salientar que o marido, embora respirando e transpirando futebol, sempre procurou nunca misturar a família e a profissão. Visivelmente emocionada, revelou que o marido nem sabia que ela ia ver os jogos ao estádio das Antas no seu lugar cativo. E feliz pela continuidade de Sérgio Conceição como técnico do clube, Cecília Pedroto – embora recusando comparações com outros grandes treinadores portugueses, antigos e actuais, e não esquecendo a enorme evolução do futebol – sempre foi dizendo com orgulho que nenhum o igualou no que respeita a capacidades técnicas. Jorge Nuno Pinto da Costa lembrou com naturalidade a sua relação de amizade com Pedroto não só no F.C. do Porto. E foi em sua casa, com amigos comuns, que partilhou responsabilidades com a ida do técnico, quer para Setúbal, quer para o Boavista. A doença que viria a minar a vida de Pedroto, demasiado cedo, foi igualmente objecto da memória do presidente do clube azul e branco. 


Foi pena, embora se perceba a exígua disponibilidade de tempo, que a «tertúlia» não tivesse sido estendida à numerosa assistência. Pedroto era um homem de tertúlias, lembrou o filho Rui. E eu, que tive a felicidade de poder acompanhar pelo menos duas na Petúlia, madrugada dentro, graças sobretudo à camaradagem de Nuno Brás, Sérgio Teixeira e de Manuel Fernandes, da RDP, não esqueço a simplicidade com que o «Mestre» explicava como os defesas laterais deviam evitar os cruzamentos dos extremos adversários. Ou de como, ainda não havia marcas no relvado como hoje, e já ele colocava um jogador à frente do adversário na marcação dos cantos e um outro junto ao poste da baliza – quantas vezes até nos dois! Questionado um dia por um jornalista, depois de uma série de 5 empates do FCP, no tempo em que as vitórias ainda valiam 2 pontos…Pedroto disse: meu rapaz…vale mais 5 empates do que 3 derrotas! Há muitas outras situações conhecidas, como aquela do penálti que o Oliveira falhou contra o Sporting, nas Antas (a perder por 1-0) e que, por indicação de Pedroto, Romeu acabou por ter êxito na recarga, empatando o jogo…ou uma outra passada com Jairo – um brasileiro que chegou ao clube em finais dos anos 70 do séc. XX: num dos treinos, o avançado insistia em cruzar muito antes da linha de fundo para a área, o que retirava eficácia ao ataque. Então Pedroto mostrava-lhe aquele espaço mais próximo do ângulo entre as linhas lateral e de fundo, imaginando um “quarto de círculo” em grande plano. Estás a ver? É mais ou menos por aqui que deves cruzar. Mas Jairo insistia no “erro”. Até que, num desses cruzamentos, o ataque lá acabou por marcar um golo. Então Pedroto terá desabafado: pronto, também serve! 


         Era assim José Maria Pedroto – um homem à frente do seu tempo e que o tempo levou muito antes do tempo merecido! De Lamego ao Porto, da Invicta ao Mundo…a doença fatal viria a impedir-me de apresentar a história do «Mestre», ou parte dela, na primeira pessoa, mas ficaram testemunhos vários de diferentes quadrantes clubísticos, salientando as capacidades como homem e como treinador. Transmitido ainda antes do seu passamento…talvez ainda esteja em “arquivo” na RDP-Antena1. 



António Bondoso
Jornalista
18 de Maio de 2018. 


2017-05-22

OBRIGADO NUNO...


NEM ABERTO NEM FECHADO…
…mas de espírito livre!
O meu lamento de ser pensante tanto serve para criticar a SAD azul e branca como para homenagear Nuno Espírito Santo – o homem educado e bem formado que se dispôs a transformar um plantel moribundo – e desequilibrado – numa equipa de futebol. E quase o conseguiu…embora sabendo que não havia dinheiro para jogadores de topo.  Na hora da partida, a SAD e o Clube deviam mostrar-se gratos. Mais que não seja, pelo sacrifício da tua carreira nas condições em que assumiste o cargo de treinador do FCP. Cometeste erros? Claro que sim. Mas a maior responsabilidade está a montante do teu trabalho. Que não deixou de ser excelente para uma época conturbadíssima. Obrigado Nuno. E sorte para o futuro.

Por outro lado, o meu tom amargurado [pois ainda não é o tempo de agonia], que agora manifesto, não tem exclusivamente a ver com eventuais danos colaterais próprios de uma vida marcada pela intensidade das circunstâncias de uma cidade apaixonada. E apaixonante. Não é só o meu clube que me intriga, não são os golos desperdiçados, não é a Câmara fechada, não é o azul e branco trémulo por uma vez. A mais azeda amargura relaciona-se diretamente – e sobretudo – com o cinzento da vida, com o retrocesso da esperança que nasceu há 43 anos. Porque foi bonito mudar, porque foi legítimo mudar, porque foi importante transformar, porque foi fundamental avançar! As pontes passaram a fazer sentido e daqui voltou a irradiar um forte sinal de vontade, de querer, de sentir a liberdade, de conquista. E sim…também o futebol foi nessa onda.
Mas os lugares do poder ficaram inquietos. E como sempre, bem cedo se dedicaram a estudar e a aplicar uma estratégia de regresso a um centralismo atávico, que tudo arrasta, tudo arrasa e tudo mata. Mesmo com a conivência de alguns lugares e de certos poderes locais, iluminados por uma fosca claridade de jogos egoístas, ambições mesquinhas, interesses desmedidos e concertados ou escorados em pessoas e organismos pouco recomendáveis. E tudo foi permitido, calando ou esbanjando. De um tempo bonito de abertura e de felicidade, pouco a pouco o país foi sendo coagido, chantageado, esmifrado dos valores da redenção de um Abril esplendoroso. E quase tudo se foi! Aos poucos fomos morrendo, amputados já de um frágil poder de decisão, mutilados nas convicções. E não foi o vento que quase tudo levou. Foi a fraqueza e a maldade dos homens vestidos de políticos, de juízes, de líderes de um qualquer organismo centralizado na capital. Qualquer que tenha sido a roupagem, do desporto à cultura. Depois da esforçada façanha para colocar um ponto final aos célebres “roubos de igreja”, voltou-se a um tempo em que a dignidade se pendura por uma perna e em que o caráter se enrola numa folha branqueada de princípios. Começa no Clube e na Cidade…e prolonga-se por 300 quilómetros. Voltamos a estar quase como a 24 de Abril de 1974, o Terreiro do Paço agoniza de pasmo, há um túnel da Alexandre Herculano até ao Jamor, os árbitros treinam inclinados e só se adaptam a certos campos, os ministros enviam telegramas de felicitações aos reformados que vivem abaixo do limiar da pobreza, A AR endeusa uma canção de um festival – embora internacional – a comunicação social está nas mãos e no pensamento de um pequeno grupo de iluminados e endinheirados. Não deixam que a televisão se veja, a não ser o que lhes possa parecer matematicamente favorável, não deixam que a rádio se ouça e se espalhe, a não ser a horas mortas ou de audiência moribunda.
GENTE SEM PORTE

Temos um país suspenso
Em agonia de morte,
É já a Lei que se rejeita
Por certa gente sem porte.
E sofre mais quem não suspeita
Que essa gente percebe
E até promove
Traição infame, desonra e dor.
===Pag.19 em O PODER E O POEMA.2012. Ant.Bondoso e Edições Esgotadas.
António Bondoso
Jornalista

Maio de 2017. 

2016-07-12

A TODOS OS “ÉDERS” “PEPES” E “PATRÍCIOS” DESTE MUNDO…

Foto da Web...para Interpretar como Quiserem.

A TODOS OS “ÉDERS” “PEPES” E “PATRÍCIOS” DESTE MUNDO…
…Ou de como tantos disparates lidos e ouvidos durante este campeonato europeu de futebol mostram que o “preconceito” continua a ser filho do egocentrismo e da ignorância e afilhado da pobreza: física e mental.

Vivi em S. Tomé e Príncipe 21 anos da minha existência, lá cresci e me fiz homem, brinquei, estudei e trabalhei com amigos de todas as etnias e origens. Tenho bem presente que nunca me referi a qualquer deles tratando-os ou distinguindo-os pela cor da pele. Sempre tratei cada um pelo seu nome próprio…apenas constituindo exceção, pela maior convivência diária, o tratamento por alguma “alcunha” de marca. Não me surpreende que esta questão continue a estar na ordem do dia das sociedades, sabendo sobretudo como este mundo é cada vez mais desigual, fruto de circunstâncias que os comuns mortais são incapazes de contornar – designadamente de uma “globalização” desumanizada que gera pobreza, alienação e analfabetismo.  
Entristece-me. Muito. Independentemente das causas e das motivações, pois há mais “emoção” do que “razão” nestes debates, particularmente os das redes sociais. Cultura e Instrução precisam-se.
Em Abril deste ano escrevi um texto que agora não prescindo de partilhar. E diz assim:
“RACISMO”

«Falta de instrução valoriza o preconceito.
Falta de educação potencia o preconceito.
Falta de cultura justificará sempre o preconceito.
Falta de tolerância agravará eternamente a evidência do preconceito.
Falta de caráter aumenta o risco de preconceito.
Falta de princípios alimenta o preconceito.
A pobreza marginaliza e o preconceito estará sempre para além da raça.
O estrangeiro, o que é diferente, não pode ser entendido como ameaça.
Eu e o outro podemos sempre beber da mesma taça.»

Entretanto, não resisto igualmente a convidar-vos a ler um excelente artigo sobre esta temática. A reflexão séria indica sempre caminhos.
         Obrigado por me terem dado um pouco de atenção e pela paciência e disponibilidade para a leitura.
Julho de 2016
António Bondoso
Jornalista


2016-07-10


MAIS DO QUE UM JOGO DE FUTEBOL...OU DE COMO O FUTEBOL É UMA ARTE!
Vai ser o Europeu do bate, bate...bate e foge como na tática de guerrilha. 

Fotos da Web

O FUTEBOL É UMA ARTE

O futebol é uma arte da qual
Nem todas as ciências fazem parte.

Das exatas bem se vê
Pois de muitas outras há sinais
Como a tática e a física
Também a espiritual
E outras tantas bem empíricas
Sejam formais ou naturais
Dizem que até sociais.

Da geografia à política
Da história à astronomia
Tem a estratégia um lugar
Definido a bom preceito.
Mas é da mente e da sorte
Que salta a alma do peito
Quando o golo acontece e a razão
Cede o lugar à paixão!

O futebol é mesmo uma arte…
E todo o resto é à parte!
===António Bondoso.



Foto C95
António Bondoso
Jornalista
Julho de 2016.

2016-07-09


ANTES QUE SEJA TARDE...OU COMO VALORIZAR O QUE JÁ GANHÁMOS NESTE EUROPEU DE FUTEBOL

Foto da Web


ANTES QUE SEJA TARDE.

Aconteça seja o que for no jogo da final do Euro, em Paris, Portugal e os portugueses já ganharam muito neste verão de 2016. Para além do orgulho de participar num momento decisivo – neste caso a ver com o futebol – os selecionados, pelo seu comportamento vitorioso [mesmo reconhecendo que o futebol praticado não foi espetacular], deram a conhecer ao país uma diáspora ímpar. Particularmente a de França…mas não só. Permitiram, por outro lado, ficarmos a conhecer manifestações de carinho e de apoio um pouco por todo o espaço lusófono, não podendo esquecer as imagens que nos chegaram de Timor-Leste. É caso para ter a autoestima em alta. E a Fé. E a Esperança. E a Crença. Um ganho acrescido, tendo particularmente em atenção as angústias, as frustrações, o desespero, o desânimo, as humilhações a que temos vindo a ser sujeitos nos últimos anos.
Por isso, devemos assistir ao jogo com a máxima tranquilidade – independentemente de não abdicarmos da nossa tradicional energia latina – aceitando o resultado, qualquer que ele seja, e sem pretender ter a tentação de responder às provocações de alguns atávicos, incultos e chauvinistas de outros países, pois esses ataques não têm tido origem apenas na França. Deve prevalecer a nossa matriz multicultural que, sobretudo hoje, nos coloca numa elevada consideração em todo o mundo. E depois, há que ter sempre presente que o futebol não é uma ciência exata, existindo uma série de imponderáveis que conduzem a um de três resultados possíveis. Portanto, sabendo e aceitando as condicionantes do fenómeno, devemos manifestar serenidade, cordialidade e respeito, independentemente de não dispensarmos os gritos de apoio aos jogadores portugueses ou o nosso protesto sobre uma decisão do árbitro. E creio mesmo que devemos até festejar o simples facto de termos participado na final do torneio.
Escrevo isto, antes que seja tarde.
Sem pretender calar a euforia e a alegria que envolvem uma final [confesso não ter qualquer bandeira pendurada na janela, pois o meu apoio vai muito para além disso], quero apenas significar que, a esse estado de alma, não poderá seguir-se a desilusão, não poderemos entrar em depressão se o resultado for negativo. Tem acontecido inúmeras vezes, é certo. A verificar-se de novo, não será a última seguramente. Por isso, e antes que seja tarde, mantenhamos a autoestima em alta. Independentemente do resultado do jogo, independentemente da saída do Reino Unido da UE, independentemente de haver sanções dessa mesma UE ao nosso país. A construção da UE tem sido referida como um exemplo no concerto das nações, mas seguramente não é esse o sentimento que hoje prevalece no relacionamento entre os dirigentes tecnocratas de Bruxelas e os povos dos Estados-Membros.
Antes que seja tarde – força Portugal!
Antes que seja tarde – viva Portugal!
Já ganhámos muito. Ainda temos muito para ganhar!
António Bondoso

Foto de António Bondoso
António Bondoso
Jornalista
Julho de 2016.