2021-02-24

DAS GUERRAS E SEUS EFEITOS...


Foto da Web 

DAS GUERRAS E SEUS EFEITOS…ou de como o Homem, com o seu sentido de predador nato, sempre utilizou a força e a barbárie para obter poder. A guerra é a minha pátria – diz Pierre Drieu La Rochelle; a guerra é sobretudo sofrimento, segundo Robert Fisk; a guerra é a grande experiência, escreve Almada. Ou, seguindo a «escrita da guerra» que nos oferece Rui de Azevedo Teixeira, no seu recente “Ensaios de Espelho”, «A violência é parte da raiz do homem; a tendência para a agressão é, tal como a pulsão erótica, parte da essência do homo sapiens, como já o fora do proto-homem, tão bem estudado por Raymond Dart». Teixeira cita mesmo uma expressão de Freud, segundo a qual a guerra mostra o que a civilização tapa.

Numa perspetiva diversa e com oportunidade – já que muito se tem falado de guerra nos últimos tempos em Portugal – a RTP2 exibe, a partir de hoje, um documentário com o qual se pretende dar a conhecer aspetos particulares da violência da II Guerra Mundial. Ali se ouve, por exemplo, que as guerras nunca acabam e que «o inferno começa quando a guerra termina e dura toda a vida». Só por si, não deixa de ser uma frase de extrema violência, proferida por uma mulher norueguesa que foi obrigada a procriar com um soldado alemão durante a ocupação nazi. E foram entre 30 a 50 mil as mulheres nessa situação, tendo ficado conhecidas como “garotas alemãs”. Humilhadas e violentadas no final da guerra, só em 2018 viram o seu governo pedir desculpas pelo tratamento vergonhoso a que foram sujeitas.

Mas, continuando a citar Teixeira…«assim como a água não tem forma permanente, não existem na guerra formas estáveis», ensina o primeiro dos grandes estudiosos da guerra Sun-Tzu. E prossegue, agora com Pessoa, para quem – com a guerra – passa «a ser legítima a solução animal das questões».

Por outro lado e contextualizando os primeiros anos do século XX, mais precisamente 1917, uma breve referência ao «Ultimatum Futurista» de Almada Negreiros, no qual se faz a apologia da guerra: “Ide buscar na guerra da Europa toda a força da nossa nova pátria. (…) A guerra serve para mostrar os fortes mas salva os fracos. (…) É na guerra que se acordam as qualidades e que os privilegiados se ultrapassam». Depois, com a barbárie da II Guerra e de todas as guerras que foram enchendo o globo – concretamente a guerra de África ou Colonial – talvez Almada tivesse escrito um outro «ultimatum».



Foto da Web
 António Bondoso

Fevereiro de 2021.


2021-02-11

 SEI DO TEMPO E DO VENTO…



Foto de A.B. 

Não preciso que os “ventos” me venham contar uma História. Não preciso que os ventos me tragam uma “nova” História. Não preciso que o “tempo”, o tempo dos “manipuladores do tempo”, me traga novas histórias, reescritas ou reinventadas. Apesar de tudo aceito histórias “recontadas”, pois sei, à partida, que, quem conta um conto, acrescenta um ponto. Por isso, saberei descontar os pontos.

         Sei de muitas histórias da História. Sei de António Hespanha, António Sérgio, Borges de Macedo, Carlos Neves, Cortesão, Fernando Rosas, Godinho, Herculano, Mattoso, M’Bokolo, Oliveira Marques, Reis Torgal, Rui Ramos, Saraiva ou de Veríssimo Serrão. E sei de António Borges Coelho, que disse que «O historiador é um manipulador do tempo. Prende-o num campo ou castelo de palavras. E qualquer um o desperta da mortalha das letras…Mas verdadeiramente não é o tempo que prendemos mas tão-só os acontecimentos – sinais gravados noutros sinais». Em O tempo e os homens. Questionar a história III. Lisboa, Editorial Caminho, 1996, p.13.[1]

Sei do meu tempo e do tempo de muitos outros antes de mim.

Sei do tempo em que cheguei, do tempo que percorri e sei dos ventos que me têm «empurrado» até ao presente. E sei dos ventos que vão soprando e das razões que os movem. E sei que, a cada investigação, se reportam quase invariavelmente as mesmas «fontes». Basta ler as “notas” ou as “citações” de referência no final de cada obra. E aí, como diz António Borges Coelho, «desperta-se o tempo da mortalha das letras». Um tempo diferente, interpretado e reinterpretado, de acordo com a direcção e os objectivos pretendidos à luz de um tempo outro. Fica sempre bem uma “leitura” oportuna…ou oportunista! De acordo com os ventos que sopram! Mas, em boa verdade, a essência dos factos está – não deixa de estar – nas fontes consultadas. Independentemente dos períodos de maior ou menor «nebulosidade». Quer se fale do «nascimento» de Portugal, quer se escreva sobre a epopeia dos Descobrimentos. Quer se fale dos impérios, da colonização ou da descolonização. Aliás, sobre este último tema, a RTP1e 2 passaram recentemente dois excelentes espaços de investigação e de conhecimento. https://www.rtp.pt/play/p8429/decolonisations.

         Sei do tempo e do vento…embora não possa saber tudo! Ninguém sabe. Mas procuro, embora – honestamente – não consiga criticar quem o não faça. O que não consigo deixar de criticar é a arrogância com que se…critica!



[1]-http://cm-pvarzim.pt/biblioteca/download/Procurar_a_luz_para_ver_as_sombras_Antonio_borges_coelho.pdf. Uma publicação da C.M. de Vila Franca de Xira e do Museu do Neo-Realismo, com edição de Sílvia de Araújo Igreja – Procurar a Luz para ver as Sombras – 2010.  



Foto de A.B.

António Bondoso

Fev. 2021

2021-02-06

CABO VERDE – 30 ANOS DE «MUDANÇA»…ou de como um jovem quadro ajudou a erguer o MPD (Movimento Para a Democracia) e a levar o “jovem” Estado africano a «um momento sublime e de grande exaltação». Hoje, Carlos Veiga diz candidatar-se pela terceira vez ao cargo de Presidente da República, acreditando no futuro, na juventude mais preparada e com a certeza de que «pode contribuir para o desenvolvimento humano e inclusivo da nossa Nação. E, se posso…devo! A tarefa é de todos!» sublinha este político de Cabo Verde ao Blogue “Palavras em Viagem”, de António Bondoso: 



Carlos Veiga (foto da Web)

A.B. – Dr. Carlos Veiga, a «Mudança» de há 30 anos não foi apenas um momento histórico.

1.     A “Mudança” foi, de facto, um momento decisivo. A pressão externa foi importante e o regime de partido único percebeu-o. Cabo Verde era dos países que mais APD recebia dos “doadores” e sabia que tinha de “abrir”. Mas a Mudança que ocorreu ultrapassou de longe a “abertura” prevista pelo regime. A sociedade cabo-verdiana mostrava então abertamente o seu descontentamento com o status-quo  e, através de um grupo crescente de jovens quadros e activistas,  mostrou que queria mesmo uma mudança de regime e não a tímida abertura “oferecida”. Queria uma democracia verdadeira e mostrou-o  através de propostas claras e consistentes, contrárias às do regime, manifestando-se pacificamente nas ruas, com crescente apoio popular, ao mesmo tempo que se disponibilizava para discutir as suas propostas com o Poder, pacificamente.  O momento era sublime e de grande exaltação. Ninguém do grupo pensava no “medo” ou na sua segurança pessoal. O momento era aquele! O apoio popular era crescente. A palavra de ordem “medo dja caba” (o medo acabou) espalhou-se amplamente  e com entusiamo em todas as ilhas, mesmo naquelas em que a repressão foi mais intensa. Por isso, nunca tememos pela nossa segurança pessoal. Tínhamos a clara consciência de que, naquele contexto internacional e interno, o regime estava fragilizado e tinha pés de barro. 

A A.B. - Mas acredito não ter sido apenas um momento histórico. Ele foi mesmo fundamental para o desenvolvimento de Cabo verde?


2.     A Mudança foi fundamental para o objectivo do Desenvolvimento que é o desafio actual da Nação cabo-verdiana. Não há desenvolvimento sem democracia. Em Cabo Verde isso é, hoje, uma evidência. O desenvolvimento humano trazido pela democracia não tem comparação com a situação vivida sob o partido único. Foi também a democracia que trouxe efectivo crescimento económico. Em 1991 o crescimento era zero; em 2001 atingiu cerca de 8% em média quinquenal; de 2016 a 2019 a economia cresceu de zero para 6%.A COVID19 deitou tudo abaixo, mas as perspetivas de crescimento estão aí, com Cabo Verde no ranking da frente em África.



Carlos Veiga e o seu Governo - o 1º da II República

A.B. - Trinta anos depois da «onda da mudança», não será estranho ouvir ainda dizer-se que as pessoas têm medo de falar, de criticar, de escrutinar?

 

1.   Basta entrar nas redes sociais, ler os jornais, ver as televisões, estar no meio de pessoas, e, ainda ver os rankings internacionais sobre liberdade de expressão para concluir que os cabo-verdianos hoje não têm medo de se exprimir. Fazem-no abertamente. Que alguns afirmem o contrário é normal mas não representativo. Normalmente têm motivações outras, sobretudo “politiqueiras” ou do foro laboral, que não o medo de falar na generalidade das situações de vida. Claro que ainda existe deficit de cultura democrática, mas nada de muito diferente do que ocorre em outras nações mais desenvolvidas.

A A.B. – Em qualquer caso, Dr. Carlos Veiga, a sua popularidade – ou pelo menos o seu carisma – não diminuiu, embora tivesse perdido duas eleições presidenciais para o mesmo adversário, Pedro Pires.

 

2.   Quanto às presidenciais 2001 e 2006, acredito que, na realidade, não  as perdi. Ganhei em ambos os casos nas ilhas e perdi nas comunidades. Por culpa própria, sobretudo no plano da organização do aparelho de campanha. Em 2001 oficialmente perdi por 12 votos. Seis meses depois, pessoas foram condenadas e cumpriram prisão por fraude nessas eleições, relativamente a dezenas de votos falsos introduzidos nas urnas. Mas isso é passado e agora estou a olhar para o presente e para o futuro. Creio estar hoje melhor preparado para contribuir, como supremo magistrado da Nação, para que ela sinta o desenvolvimento como coisa sua, de que tem o direito a ambicionar e para que tem o dever de comparticipar.

A  A.B. – 30 anos depois desse combate pela democracia, com o MPD…parece não estar cansado da política. E é agora de novo candidato. O que o faz pensar que à «terceira» será de vez? Uma avaliação mais ponderada de eventuais opositores, ou sente que o PAICV está em declínio, com a liderança «esgotada»?

 

3.    A minha candidatura não está ligada ao estado actual dos partidos políticos. Como democrata considero que os partidos políticos são essenciais para o funcionamento das democracias. Mas não dependo deles para a minha candidatura. Claro que qualquer candidato presidencial, por definição apartidário, deseja o apoio dos partidos e de outras organizações da sociedade. Não sou exceção: desejo ter apoios partidários e de organizações da sociedade civil que se revejam na minha candidatura, que é ´verdadeiramente apartidária. Candidato-me, independentemente das posições dos partidos sobre a minha candidatura, porque me julgo capaz de desempenhar bem o cargo presidencial no contexto actual, acredito no presente e no futuro do meu país, sobretudo numa juventude bem preparada para enfrentar o mundo global e digitalizado do século XXI, tenho orgulho na minha nação e julgo ter a simpatia e o apoio de milhares de cabo-verdianos nas ilhas e nas comunidades, pelo que fiz, pelo que sou hoje e pelo que posso contribuir para o desenvolvimento humano e inclusivo da nossa Nação. E, se posso, …devo! A tarefa é de todos!

A  A.B. – E o MPD? É apenas um «filho» que deixa para trás ou sente que o Partido já não o apoia?

 

4.   O MpD está bem servido com o seu líder atual, o seu programa politico mantem-se o mesmo e está perfeitamente adequado aos desafios do presente e do próximo futuro. Tenho muito orgulho em ter participado na sua criação e desenvolvimento. Considero que é indispensável e fundamental para Cabo Verde. Mas o meu tempo no ativo dentro do partido já passou, normalmente. A grande maioria dos militantes e dirigentes desse partido continua a rever-se na minha pessoa e acredito que estará a apoiar-me nas próximas presidenciais. O PAICV é um partido histórico em Cabo Verde, representa uma parte significativa do povo cabo-verdiano. O mesmo com a UCID. Os partidos mais novos representam novas tendências que emergem na sociedade cabo-verdiana, uma sociedade viva, vibrante, dinâmica e intensamente plural, como ´desejável. Como Presidente trabalharei com todos os partidos e procurarei promover o indispensável consenso entre eles, sempre que o bem comum o exigir.

A  A.B. – Nos «limites» da Constituição do país, em que aspectos é que o PR pode fazer a diferença? Os anteriores Presidentes cumpriram…ou pensa que poderiam ter ido «mais além»?

 

5.    O Presidente não é o executivo, mas o moderador do sistema democrático, com um papel muito relevante de influenciador desse mesmo sistema e da sociedade no seu conjunto. A Constituição é a grande arma do Presidente, pelos poderes que ela lhe dá, mas também e quiçá mais importante, pelas orientações estratégicas precisas que ela estabelece para a generalidade dos aspectos da vida dos cabo-verdianos. A medida em que tais orientações forem efectivamente usadas pelo Presidente da República para influenciar no sentido do bem comum, nas suas relações com as demais instituições da governação e na sua relação com a sociedade, e se transformarem em realidade sentida pelas pessoas na sua vida corrente, por efeito da acção presidencial no quadro constitucional, marcará a diferença feita por cada Presidente. Penso que os Presidentes anteriores cumpriram, no geral. Mas é sempre possível fazer mais! É assim que o progresso acontece!




Carlos Veiga (foto da Web)

No geral, a minha opinião é que o sistema implantado há 30 anos vai relativamente bem. Claro que, como todas as democracias, precisará sempre de aperfeiçoamentos. Existe também um real deficit de cultura democrática, sobretudo em muitos atores políticos, mas o povo, na sua generalidade, revela uma crescente apropriação dessa cultura, sobretudo votando de forma muito madura.

A.B. – Muito grato, Dr. Carlos Veiga. Foi bom ter testemunhado esse momento de «mudança» de há 30 anos, sobre o qual disse ter sido “Sublime”! Felicidades. 




 

2021-01-14


LEONEL COSME…ou o homem de palavra e das palavras que viajam para além do seu nome, fazendo sentido. Ausentou-se agora, depois de ter nascido em 1934, em Guimarães, e de ter vivido 25 anos em Angola – de 1950 a 1975 – terra africana onde voltaria como cooperante em 1982, regressando ao Porto em 1987. 



Não quero que as palavras pareçam banais. Por isso, penso que devo destacar hoje o seu nome, a sua figura, a sua escrita e parte do seu pensamento. Com Leonel Cosme partilhei momentos de luta pela democracia na RDP, no Porto, com ele partilhei – em momentos distintos – a chefia da Redação que fomos construindo, praticamente a partir do zero. Com a sua assinatura, deixo excertos de documentos que significam exatamente parte desses momentos de combate pela afirmação da Rádio, no Porto e no Norte – uma Rádio que não nos era estranha, pois ele havia trabalhado no Rádio Clube da Huíla (Sá da Bandeira) e eu no Rádio Clube de S. Tomé, depois Emissor Regional da E.N. em finais de 1969.



É, tem sido, à escrita de Leonel Cosme que recorro frequentemente, quando é mister falar de África. Que, afinal, são muitas, como ele lembrava. Por exemplo no seu livro MUITAS SÃO AS ÁFRICAS (Novo Imbondeiro,2006),especificava: «não são apenas muitas as Áfricas-nações que procuram a sua unidade, em cada território e no continente, mediante um esforço de “reafricanização”, para retomar o fio da história cortado pelo colonialismo; são também as muitas áfricas-sociológicas que existem em cada uma delas, como boas ou más heranças, conforme o olhar de quem faz a leitura dos resultados. E porque muitas são essas “áfricas”, muitos foram e ainda são os olhares, uns que vêm do passado, outros, do tempo que ainda decorre». Ou ainda, quando escreve sobre Agostinho Neto e o seu tempo - «sempre a África Negra teve as imagens que dela fizeram os colonizadores». 

Leonel Cosme deixou a missão jornalística em 1991 para viajar em busca de conhecimento – foi o caso do Brasil – e para apresentar palestras e comunicações em diversas Universidades de Portugal e do Brasil. E para escrever, claro. Dezenas de livros publicados, alguns dos quais já aqui mencionei, sendo África a «centralidade». Tive também, nesta faceta de escritor, a felicidade de poder contar com a sua «leitura» do meu livro “Escravos do Paraíso”, que ele apresentou no Palácio da Bolsa, no Porto, em 15 de Dezembro de 2005, dizendo na altura: - «Este livro, de um escritor-jornalista, é um caso invulgar. Poético e realista, fala-nos do amor e do fracasso em S.Tomé e Príncipe:- amor dos portugueses e de santomenses expatriados em Portugal, que amaram e jamais esquecerão aquela terra de eleição; fracasso, porque os poderes nela estabelecidos não lograram, ao longo de séculos e até hoje, fazer de tanta beleza e fertilidade os meios de tornar o seu reduzido povo um dos mais felizes do mundo».


Foi em Angola que Leonel Cosme, para além da Rádio, foi co-diretor das Edições Imbondeiro (que a PIDE fechou em 1965) e co-fundador da Delegação da Sociedade Cultural de Angola e do Cine Clube da Huíla. 

Independentemente das divergências que tivemos ao longo da caminhada profissional que fomos partilhando – e por isso as palavras fazem sentido – devo dizer que o Leonel Cosme foi sempre um camarada empenhado e leal, de uma tranquila e permanente sensatez.

Fica bem e não deixes que a viagem das palavras termine. Abraço grato por nos termos conhecido. Uma nota final, para lembrar que – apesar da situação de emergência devido à pandemia – o velório irá decorrer durante o dia de amanhã, 15 de janeiro, a partir das 10h00, na Capela da Ressurreição de S. Cosme – Gondomar, e que o funeral terá lugar às 14h30.


Até sempre Leonel Cosme e recebe um abraço que seguramente te vai ser transmitido pela Gina, tua mulher e companheira dedicada, pela Ariana e pela Vânia – filhas que igualmente te deram felicidade.

A propósito, recordo com ternura o que ambas as filhas escreveram em 2017, numa publicação no «facebook», sobre a vida do pai na Rádio:

“Ariana Cosme

Filha de um jornalista da rádio, posso dizer que sou filha da rádio!!!
Cresci nos corredores, nos estúdios e na régie do Rádio Clube da Huíla junto de gente que marcou profundamente a minha infância e o gosto pela rádio. (Sabe-se que estou em casa quando o rádio está ligado).
Aluna do Colégio Paula Frassinetti, descia a rua, passava em frente à casa da
Cristina Romariz, da Carla Nóbrega Velho e entrava na porta do Rádio Clube para passar as últimas horas da tarde perto do meu pai (fazendo os TPCs e outras tantas tropelias). Recordo a infinita paciência do Mário Soares, do Leston Bandeira, da Zi, Isilda Arruda e do Humberto Ricardo; eram a nossa família alargada...Desse tempo recordo ainda o auditório grande onde estudava piano (as lições do Cserny pareciam nunca acabar) e se fazia a distribuição dos brinquedos no Natal às crianças da cidade.
Faz agora um ano voltei à rua da Gena Prata, Maria Prata Prata, que reunia no portão sempre um grupo de amigas e à rua do "terno" da mãe da 
Isabel Roçadas Flores e foram grandes as saudades de todos.

Vânia Cosme Saudades imensas dessa infância feliz em que enchia de risos e correrias os pisos todos do Rádio Clube da Huíla e era recebida diariamente com o maior carinho do mundo e palavras sempre ternurentas por todos aqueles que ali trabalhavam e que com uma infinita paciência lá aguentavam as nossas (minhas e da minha irmã) tropelias com um sorriso rasgado no rosto!!! Leston BandeiraHumberto RicardoDiamantino Pereira MonteiroMario Soares , Isilda Arruda, são alguns dos nomes muito queridos que guardo ternamente num cantinho muito especial do meu coração. O Dia Mundial da Rádio foi ontem mas para mim é todos os dias pois olho para o meu Pai diariamente e nunca deixo de pensar nessa rádio especial que ficou lá para a Terra do Sul. Também não esqueço a Antena 1 (Portugal) onde, tal como no Rádio Clube da Huíla, passei muitas horas da minha adolescência a estudar e a aprender a ser Gente com todos aqueles que na Redacção levavam as notícias para lá das paredes e das janelas da Rua Cândido dos Reis. Recordo com saudade imensa o Gonçalo Nuno cuja estrelinha já brilha no céu, o Carlos Ferreira, o Carlos Magno, o António Bondoso e muitos outros. E, mais uma vez, o meu Pai confundindo-se com os dias da rádio de milhares de pessoas. Amanhã, quando acordar, prometo dedicar uns minutos numa amena cavaqueira com o meu Pai sobre as nossas memórias, as dele bem diferentes das minhas, da vida de um Homem da Rádio.” 

Não sei se houve tempo…mas teria sido interessante. 

Porto, 14 de Janeiro de 2021.

António Bondoso. 







 

2020-12-31

SE O NOVO ANO VIESSE DO CÉU

Ant. Bondoso

SE O NOVO ANO VIESSE DO CÉU

Se a viragem do ano transportasse em si mesma o valor absoluto do bem-estar e da justiça, seria como que um momento perfeito da humanidade.

Contudo, é muito complicado este mundo habitado por humanos!

Desde o início dos tempos sempre a pesar a vida e a morte, matar ou morrer, viver e sobreviver, a pobreza e a riqueza, a alegria e a tristeza, o belo e o feio, o mal e o bem, a felicidade e a miséria, o poder e a submissão, o pecado e a graça, a mentira e a verdade, a dúvida e a certeza, a traição e a lealdade, o amor e ódio, o perto e o longe.

Por isso me tenho interrogado inúmeras vezes se haverá um tempo justo.

Não sei se o tempo existe nem sei se haverá tempo para isso. Uma dúvida existencial como tantas outras, uma questão filosófica talvez – ontológica certamente e quase a confundir-se com a metafísica. O tempo não é velho nem é novo – recordando o que há dias escrevi a propósito de uma ideia “abadesca” situando o paradoxo do Natal (como tempo de nascer) e da morte (igualmente tempo de nascer numa ou para outra dimensão). Neste ponto…é a Fé a sobrepor-se. Como que uma retórica de conforto em tempo de dor. Mas nestes tempos de crise – o que é realmente importante é o conforto de viver em dignidade! E essa...só será conseguida com um tempo novo.

Voltamos, portanto, à existência do tempo. E quem não se lembra daquela “ladainha” em que o tempo pergunta ao tempo quanto tempo o tempo tem…e o tempo responde ao tempo que o tempo que o tempo tem é tanto tempo…quanto tempo o tempo tem! A ser assim, penso não deixar de ser fundamental que esta asserção englobe toda e qualquer circunstância, toda e qualquer medida.  

Por isso, seja-me permitido esperar legitimamente que venha aí um tempo novo, um tempo de justiça e de felicidade. E desejar a todos que assim seja, com muita saúde para viver esse tempo – um intervalo entre a vida preenchida de altos e baixos…e essa ideia real que podemos situar entre o negro tétrico e o cinzento mais ou menos enigmático.

Pensando positivo, lá vamos a caminho do Novo Ano/Ano Novo...levados pelos ventos de uma liberdade conquistada e defendida com sacrifícios de vária ordem. E que agora clamam por mais felicidade e mais justiça.

E se…

Se o novo ano viesse do céu

Por certo seria azul

E diferente, pois então!

Para melhor

Sempre a caminho do sul

Guiado pelas estrelas

De um enorme coração.

 

Se o novo ano viesse do céu

Por certo seria azul

Tal como as águas tranquilas do rio

Ou do mar alto que sei.

Diferente e para melhor

Sempre em busca do calor

De um imaginário que é meu

Do qual gostei e que amei.

 

Se o novo ano viesse do céu

Talvez o mundo tivesse a cor dos meus olhos!

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António Bondoso

(Dez de 2017)


Ant. Bondoso

António Bondoso
Dezembro de 2020 - Ano da Pandemia. 







 

2020-12-23

Não há duas depressões iguais.



Uma depressão pela «pandemia» tem como causas o medo, sobretudo, acompanhado de incerteza e de angústia. E de sofrimento, claro, tendo em conta as sequelas. Mas há hoje esperança na cura!

A depressão pela «perda» de uma mãe é muito mais complexa e nunca será curada. Não há vacina que possa evitar o contágio! Eu, infelizmente, fui atingido ainda muito jovem. Podem crer que foi devastador, como poderão ler neste relato de memória. Era Dezembro…e o Natal ficou adiado. Há 49 anos:

Foi uma despedida triste, de esperança quase nula, nesse Dezembro de um calor húmido e tórrido, na placa do aeroporto, à beira de um avião que me levava o berço aconchegante, o colo de um amor maior, a fonte da minha energia e do meu equilíbrio no mundo dos adultos. Meio perdido, nem choviam lágrimas nem transpirava soluços. Estava apenas ali, sem dizer fosse o que fosse, sem ouvir as vozes que justificavam a partida, como que uma derradeira tentativa para reverter a doença que a minava. Não sei mesmo se ela acalentava alguma esperança nessa viagem que os médicos determinaram, como se o Hospital do Ultramar fosse de facto a solução. E partiu, e eu praticamente imóvel a olhar para além dela, sem um gesto, sem um grito, sem um choro, que me doía o peito, que me toldava a visão e me arrepiava os tímpanos esse ruído dos motores do «friendship» a preparar-se para levantar voo. E já no «ar»…houve sonhos que ficaram suspensos e pesadelos que se apresentaram. Foi ali que senti que a perdi!

Dezembro de 2020.

António Bondoso


 

2020-12-11


HÁ SELOS QUE VALE A PENA GUARDAR…e recordar!



HÁ SELOS QUE VALE A PENA GUARDAR…e recordar! Ou de como a História de um país se vai perpetuando nas coleções dos CTT, este ano a assinalar 500 anos de existência, recuando ao tempo em que o rei D. Manuel I criou os Correios – ou Correio de Serviço Público – de Portugal e o cargo de Correio-Mor do Reino. Mais interessante ainda quando a proximidade nos proporciona cruzar caminhos com o autor de um selo, baseado na qualidade e na beleza de uma fotografia capturada por um amigo como é o lamecense João Oliveira. 


         A foto e o selo têm como «cenário» a Romaria de N. Senhora dos Remédios, em Lamego – precisamente uma das romarias que completam o álbum idealizado pelo Prof. Paulo Mendes Pinto e cuja edição bilingue atingiu 4 mil exemplares numerados, com o título genérico de «Festas e Romarias – Lugares de Fé». Não foi um processo fácil de seleção, mas a qualidade da foto do selo e de outras fotos que integram o capítulo dedicado à Senhora dos Remédios é inquestionável.

         Parabéns ao João Oliveira, pelo momento e pela técnica das fotos, parabéns aos CTT pela iniciativa que decorre desde o ano de 1983, sem interrupção, com o título genérico de «Portugal em Selos», parabéns à Câmara Municipal de Lamego pelo apoio ao João Oliveira.  



Neste 5º centenário da empresa mãe, o álbum completo bilingue tem a assinatura de Jorge M. Martins e a tradução de José Manuel Godinho, numa edição limitada de 7 mil exemplares, dedicada especialmente à música. De Beethoven a Amália Rodrigues, a edição teve como ponto de partida o concerto patrocinado por D. Manuel I, em Évora, quando nomeou o primeiro Correio-Mor do Reino. 



António Bondoso

Dezembro de 2020. 





 

NATAL DE FÉ em «Lugares de Fé»…ou de como a responsabilidade a que nos obriga a «pandemia» não nos pode provocar maior angústia e demasiada ansiedade. Devemos aceitar que é um Natal diferente, mas não podemos deixar de celebrar!


Foto de A.B. 

E como eu escrevia há dois anos, não pensemos apenas na «Árvore»!

As circunstâncias convocam-nos a um maior recolhimento, mas não devemos esquecer a «magia», por um lado, e a «ação», por outro. Não coloquemos de lado o exercício repetido do recurso à geografia mundial do sofrimento, da miséria e da guerra…mas centremo-nos aqui, nas dores do que somos e do que vivemos.

         Ouvimos muitas vezes as palavras que viajam, como o espírito, a alegria, a paz, mas esquecemos frequentemente a ideia de que o Natal é um tempo solidário e de partilha.

         Sem qualquer ponta de demagogia – e ao contrário de algumas «mensagens» natalícias que já ouvi e li – eu venho falar-vos dos milhares de árvores despidas e dos milhões de barracas que nem sequer têm lugar para uma árvore. Venho falar-vos desse símbolo máximo do consumismo e de um Pai-Natal que só «viaja» em determinadas latitudes, sem tempo nem espaço para visitar milhões de chaminés frias de vida e vazias de sentido.

         Venho falar-vos também de árvores sem raízes, praticamente mirradas por falta de um carinho diário. Venho dizer-vos que os homens esqueceram a boa nova da chegada de Cristo redentor; e lembrar-vos de que o «presépio», na universalidade da mensagem, não precisa de musgo nem de «reis magos» mas sim da nossa «presença». Li há dias na Igreja da freguesia onde nasci que a «Família é um lar de intimidade, um berço de humanidade», uma ideia extraída da Pastoral da Diocese de Lamego para 2020/21. Pensamento de enorme alcance, claro. O que me pergunto é…quantos cristãos, entrando ou saindo da igreja, fazem habitualmente seu esse berço da humanidade, perante o «outro», olhando à sua volta e tentando perceber a tristeza do «vazio»?

         Saibamos olhar, saibamos escutar, saibamos agir. Com Fé!



Foto de A. B. 

António Bondoso

Dezembro de 2020. 



 

2020-11-25


O QUE FOI, ONDE ESTÁVAMOS, O QUE FIZÉMOS?

Falar do 25 de Novembro de 1975 ainda implica riscos de imprecisão histórica. Dizer por exemplo que esse movimento militar terá sido um 11 de Março ao «contrário». Não foi, certamente, pois as motivações devem ser enquadradas numa sucessão de acontecimentos plenos de anarquia social, política e militar. Era a «revolução»! Repare em dois documentos datados de Julho de 1975. 



E no final deste texto vou incluir um «link» que nos remete para um outro texto já escrito em 2013 e no qual pergunto “Onde Estava no 25 de Novembro?”. Por outro lado, talvez essas «imprecisões históricas» travem ainda – 45 anos depois – o estudo aprofundado da matéria nas escolas portuguesas. Mas o «estado da arte» é já suficientemente completo para permitir análises interessantes.

Contudo, prevalece a ideia de que AINDA É CEDO PARA, em termos históricos, definir os acontecimentos de 25 de Novembro de 1975. Diz-se muito, escreve-se muito, mas não tem sido fácil aceitar uma ideia concreta. Golpe, contragolpe, reposição do ideário do 25 de Abril de 1974, resposta da direita e dos «moderados» aos acidentes de percurso que foram os «desastres» da maioria silenciosa de 74, o 11 de Março de 75 e o verão quente de 75. Para aquilatar das dificuldades em saber, podemos dizer que tudo isto entra na equação, tal como as lutas pelo poder – quer no seio dos militares que, de formas distintas, não queriam trair a promessa de o devolver ao povo, quer na sociedade civil representada pelos partidos políticos, sobretudo pelos seus líderes mais carismáticos como eram Cunhal e Soares, sem excluir de todo Sá Carneiro. Imperativo é, igualmente, perfilar os militares com poder: Costa Gomes, Otelo, Rosa Coutinho, Fabião, Vasco Lourenço, Melo Antunes, Pires Veloso, Jaime Neves e Ramalho Eanes.

         Do Copcon ao Grupo dos Nove, dos spinolistas aos otelistas, da marinha ao exército, da reforma agrária às campanhas da 5ªdivisão, do MFA ao Conselho da Revolução, do cerco à Assembleia Constituinte à CAP de Rio Maior, Da descolonização aos «retornados», tudo é aproveitado para baralhar e dar de novo.

         Será interessante, por exemplo, seguir os passos da historiadora Raquel Varela, para quem o período que medeia as duas datas é marcado pela existência de poderes paralelos, concluindo que a democracia não é filha da «revolução» de Abril de 74. Daí terá nascido a «democracia direta», ao passo que a «democracia representativa» terá começado a ser construída em Novembro de 75. Começou, de facto, a ser construída aí, mas não se livrou imediatamente dos tais poderes paralelos, uma vez que o Conselho da Revolução se prolongou por mais 7 anos.

         Por outro lado, não podemos esquecer o significado de «revolução». Ela acontece quando, de facto, há mudança de regime. E o «regime», ou «regimes» se quiserem – como propõe Raquel Varela – sofreu alterações profundas depois do golpe militar de Abril de 74. Nesta perspetiva, talvez não se possa esquecer que a «democracia», prevista nos documentos do Movimento dos capitães e depois no programa do MFA – mesmo com todos os desvios e ziguezagues – começou a ser construída em 74.

          E seguindo o rasto do «operacional» de Novembro de 75, Ramalho Eanes, veremos que “no plano das convicções, foi política e militarmente igual o que me determinou no 25 de Novembro e no 25 de Abril: tudo fazer e tudo arriscar para restituir verdadeira dignidade nacional às Forças Armadas e, concomitantemente, devolver ao Povo o que só a ele, originariamente e sempre, pertenceu e pertence – o poder político soberano, a liberdade de construir democraticamente o seu verdadeiro bem-estar. O 25 de Abril e o 25 de Novembro limitaram-se, pois, a devolver a liberdade ao Povo, o senhorio soberano do seu destino”. Mas Eanes, num outro texto publicado em 2005 no JN, não deixa – de certa forma – de ir ao «encontro» da tese de Raquel Varela, escrevendo que «depois de realizado o objectivo comum de derrube do regime, é natural que tivessem emergido vários e até contraditórios projectos, e que aqueles que os defendiam os tentassem impor na sociedade. Nessa luta pela imposição de projectos, um bem definido quadro legal parademocrático em muito poderia ter contribuído para a pluralização saudável da sociedade civil. No entanto, essa definição não se fez. Na verdade, nem sequer, como se impunha, se procedeu à definição clara de um grande propósito colectivo, necessidade imperativa para a confirmação e operacionalização, obviamente de um novo regime, mas também da transição para o mesmo.» E lembra que, como militar do 25 de Abril e do 25 de Novembro, “direi que as Forças Armadas, apesar de tudo, cumpriram”.

         É isso mesmo. Como tenho dito sempre, não se condenem os «cravos». Também eu aderi à ideia e ao processo de Abril, também eu aderi e participei nos «acontecimentos» de Novembro – nessa altura como jornalista da EN no Porto, onde a Rádio «oficial» centrou a sua emissão nacional até à normalização do processo.

António Bondoso                                                                  

Novembro de 2020.

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ONDE ESTAVA NO 25 DE NOVEMBRO DE 1975?

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