2023-04-25

Há sempre tanto para dizer e contar sobre o «tempo de Abril». Pelo menos, alguma coisa de relevante. Por exemplo, a ideia de que o Eurocentrismo, ou o Euromundialismo, inserido em dois MUNDIALISMOS que vinham do final da 2ª GM/Guerra Fria (EUA e URSS), terminou ali.

                                                                    Em 25 de Abril de 1974 “(…) verificou-se       um acontecimento de importância sem paralelo desde esse longínquo 1945, o qual foi a Revolução de 25 de Abril de 1974 em Portugal”.

                                                                           Adriano Moreira, 1977, S. Paulo – Brasil



Foto de Ant. Bondoso. 

         Assim transcrito, poderá julgar-se que se trata de uma declaração banal. Mas Adriano Moreira colocava a questão em termos de Relações Internacionais, fazendo sobressair a ideia de que, tal facto, “Demonstrou a interdependência crescente de um mundo socializado a partir das descobertas portuguesas”.

         E o maior impacto do que disse então o Professor, durante uma Lição incluída no Curso de Relações Político-Económicas Internacionais, em S. Paulo, viria a seguir:

“Esse acontecimento, levado a cabo por umas escassas centenas de homens, de nacionalidade diferente da dos Estados em competição mundial, “arruinaram os planos dos estados-maiores dos exércitos mais poderosos do mundo”. E assim, a “linha de tensão entre a URSS e os EUA mudou radicalmente de trajecto”.


Da Web

         Já tanto se escreveu, já muito se disse, até já muito se filmou sobre esse «Golpe dos 4 Dês» como lhe chamo, mas pouco – muito pouco ou nada – se tem dado relevo a esta perspetiva. Talvez esquecida por motivos conjunturais internos, durante esse período tão desafiante e em simultâneo tão conturbado da realidade portuguesa, ou talvez pela simples razão de ter sido abordada lá longe, no Brasil, por um «exilado» que nunca escondeu as suas ligações ao antigo regime. Só que não se tratava de um exilado qualquer. Adriano Moreira foi, de facto, ministro de Salazar…mas era igualmente um Professor Catedrático, senhor de um pensamento crítico e aberto às mudanças no mundo.

         E é pena, pois, que essa perspetiva não tenha merecido a devida atenção, uma vez que nada ficou como dantes: - “O desmantelamento da «estrutura» do Estado Português, com a descolonização em África (Timor ficou adiado e Macau foi quando os chineses quiseram) “abriu definitivamente o ÍNDICO e o ATLÂNTICO SUL à expansão soviética”. E sem negociação de contrapartidas. Rompeu-se, assim, o equilíbrio de ambos os mundialismos em competição. E não foi a favor dos EUA.



Da Web

A chamada «comunidade ocidental» parece nunca ter entendido bem a questão africana, apesar dos exemplos de finais de 50 e princípios dos anos 60 do século XX, esperando que a descolonização lhe viesse a ser favorável.

         Salazar e Caetano tinham a ideia de que estavam a defender os «interesses ocidentais», mas Adriano Moreira coloca aqui duas questões relevantes, em termos do que chama a «dúvida de muitos», isto é, se o «Ocidente sabia disso»…e, por outro lado, o que designa por «a certeza dos informados»: “a retirada de Portugal implicaria um imediato preenchimento do «vazio» pelo mundialismo melhor colocado”. A NATO terá sido apanhada de surpresa? Não se sabe. Ou não se tem dito. E os EUA? Saberiam eles que um dos objetivos desse novo figurino internacional era precisamente a «Retirada americana» de cena? E que outros dois passavam pela «desarticulação da NATO e pela paralisação da institucionalização do Mercado Comum na Europa?



Da Web 

         Seja como for, o certo é que se perdeu, pelo menos temporariamente, o sonho do que Adriano Moreira designava por “Oceano Moreno”, com a

organização desse «espaço vital» sob a liderança natural do Brasil, com a cooperação portuguesa e procurando a adesão dos “estados ribeirinhos”. Felizmente, depois da “queda do muro”, outras ideias deram corpo ao chamado «espaço lusófono». 



Foto de Miguel Bondoso

FONTE: Livro CIÊNCIA POLÍTICA. 1ª ediç – 1979. 2ª ediç – 1984. (Este é a 8ª Reimpressão da 2ª ediç).

António Bondoso

Abril de 2023. 







 



2023-04-18

DÊXA PUÍTA SÓCÓ(M)PÉ. MÚSICA EM SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE DO COLONIALISMO À INDEPENDÊNCIA”…ou de como uma investigação e as suas coincidências se podem transformar numa relação de proximidade, de amor e de paixão. Pelo país e pelas pessoas. 


Esta é uma história protagonizada por Magdalena Bialoborska Chambel, natural da Polónia onde estudou piano e flauta e depois se licenciou em Etnologia e Antropologia Cultural na Universidade de Varsóvia em 2001. Doze anos mais tarde o mestrado em Estudos Africanos e, em plena pandemia da Covid-19, o consequente doutoramento. De uma parceria com o fotógrafo e animador cultural são-tomense José Chambel, a relação aprofundou-se…e hoje, para se poderem organizar melhor, criaram “uma sociedade de direito santomense, que chamamos Manga-Manga. Decidimos, também, fazer os possíveis para passar uma parte do ano em São Tomé e Príncipe. No ano passado construímos a nossa casa no sul da ilha de São Tomé. Queremos que este espaço seja – ao mesmo tempo – uma base para a realização de projetos artísticos, de investigação, de criação. Um espaço aberto a todos que precisam de se dedicar ao trabalho, sem demasiadas distrações”.

         De todo o seu percurso de investigação, entre Portugal, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Maurícia e S. Tomé e Príncipe, resultou agora um livro que vai ser apresentado amanhã às 18h00 na FLUL - Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Anfiteatro II. Aqui deixo as palavras de uma «conversa» breve com a autora: 



A.B. = Este trabalho creio ser o «resultado» de uma morosa e detalhada investigação académica.

M.B. = O livro resulta da minha tese de doutoramento escrita sob a orientação do doutor Augusto Nascimento (Centro de História da Universidade de Lisboa e Centro de Estudos Internacionais do Iscte) e do doutor Josep Martí (Institució Milà i Fontanals, CSIC). Foi um trabalho muito moroso e bastante detalhado, que decorreu em Portugal e em São Tomé e Príncipe entre 2013 e 2019.

--- África aparece na sua vida…só depois de estar em Portugal ou já antes?

Comecei a trabalhar sobre África durante a licenciatura em Etnologia e Antropologia Cultural na Universidade de Varsóvia, a escrever vários textos em diversas áreas de estudo.

    Fascínio? Ou descoberta de outros valores?

    E porquê um País tão pequeno…praticamente perdido no Golfo, no Equador? Tinha gente conhecida, de lá?

A dedicação do meu trabalho de doutoramento a São Tomé e Príncipe teve que ver com uma série de coincidências, que – mais tarde – continuaram a surgir e fizeram com que esta ligação se tivesse enraizado de forma definitiva. Em 2013, enquanto trabalhei no projeto de investigação “Organizações na economia informal nos PALOP”, coordenado pelo doutor Carlos Lopes, fui convidada a realizar um trabalho de terreno em São Tomé e Príncipe. Era prevista uma estadia de sete a dez dias. No entanto, como conhecia algumas pessoas aí, que me disponibilizaram sítio para ficar e apoiaram nas deslocações, fiquei um mês na ilha de São Tomé. Além da pesquisa no âmbito do projeto sobre as organizações na economia informal – durante a qual entrevistei e passei bastante tempo com motoqueiros, taxistas, artesões e cambistas –, comecei a entrevistar alguns músicos, artistas plásticos e pessoas ligadas à difusão das manifestações culturais. Apercebi-me que havia várias questões interessantes para trabalhar, pouco descritas na altura. Foi a fase em que estava a aguardar a defesa da tese de mestrado e a preparar o meu projeto de doutoramento. Durante uma conversa com a professora Inocência Mata, que estava nas ilhas na mesma altura, partilhei os meus dilemas e a vontade de incluir o trabalho de pesquisa sobre São Tomé e Príncipe, no meu projeto doutoramento, dedicado a Cabo Verde, na sequência da tese de mestrado. Até agora lembro-me as palavras da professora: “Deixa Cabo Verde por uns anos. Dedica-te só a São Tomé e Príncipe durante o teu doutoramento”. Não pensei duas vezes. Após o regresso a Portugal, escolhi um dos três temas que me interessavam e comecei o trabalho sobre a música em São Tomé e Príncipe.



--- Em qualquer caso, a investigação avançou.

A investigação avançou. Foram vários anos dedicados a construção de um corpus de estudo. Não existia nenhum trabalho mais detalhado dedicado à música existente no arquipélago, nenhum arquivo completo e organizado de registos áudio. Seguiu-se um longo período de pesquisa, de recolha do material para a análise, depois a fase da própria análise do material e, por fim, a escrita, a revisão e a preparação do trabalho para apresentação pública. Não era um processo tão linear, já que sempre continuei a pesquisa e, muitas vezes, voltava às partes já escritas e reescrevia-as, acrescentando algumas informações. Tenho a consciência que muito ficou para recolher e escrever. E nunca mais parei – assim que terminei a tese, avancei com outros textos e projetos de investigação e difusão deste conhecimento.

--- Foi bem avaliada? Mereceu reconhecimento por parte de quem avaliou?

Sim. Apresentei a minha tese em janeiro de 2021 em provas públicas no Iscte – Instituto Universitário de Lisboa. Foi uma defesa muito agradável, com comentários relevantes, que me permitiram aperfeiçoar vários detalhes durante o processo de transformação da tese em livro. A tese foi aprovada com distinção por unanimidade.

    Não foi um trabalho fácil. Quais foram os aspetos mais críticos?

O mais difícil foi a impossibilidade, durante certos períodos, de me dedicar somente à investigação. Todas as dificuldades de pesquisa são ultrapassáveis, mas é necessário tempo para se dedicar plenamente a este estudo. Como sabe, a maioria dos investigadores não tem contratos fixos e indeterminados. Vivemos de concurso a concurso. Muitas vezes, quando não conseguimos fundos para a realização da nossa pesquisa, trabalhamos noutros projetos. E o nosso trabalho de investigação tem de ser adiado ou então realizado em paralelo. Foi assim durante uma parte desta pesquisa.

--- Ou tudo foi um deslumbramento? Um trabalho apaixonante?

--- No cartaz promocional da apresentação do livro…o título reflete, creio, a realidade de uma dupla insularidade, uma vez que destaca uma representação do Príncipe, outra de S. Tomé e uma terceira que é introduzida nas Ilhas devido às migrações do chamado “trabalho forçado” para as Roças – o caso da Puíta.

         Contudo, o destaque do título não quer dizer que tenha esquecido outras manifestações musicais das Ilhas?

A primeira parte do título “Dêxa puíta sócó(m)pé”, criado pelo Ângelo Torres, além de enumerar alguns géneros musicais interpretados em São Tomé e Príncipe, é um jogo de palavras. Atualmente, a puíta é frequentemente divulgada como uma das manifestações mais importantes de São Tomé e Príncipe, um género musical-bandeira do arquipélago. Contudo, como indicam várias pessoas em São Tomé e Príncipe e os santomenses nas ilhas, não é necessariamente assim. Há outros géneros musicais importantes e não existe um consenso em relação daquele que deveria ser indicado como o mais representativo das ilhas. Portanto, além da puíta, há muito mais, não se pode esquecer disso. 

   


--- Vai frequentemente a STP?

Sim, vou lá com regularidade.

--- Qual a ideia que faz do País? Vale a pena continuar a dedicar-se?

Trabalho, principalmente, sobre a história e a cultura. A música sempre terá um lugar de destaque nas minhas investigações. Há imenso para fazer e continuarei a pesquisa em São Tomé e Príncipe nos próximos anos. Tenho vários trabalhos em curso e espero conseguir realizá-los.

--- Há um próximo trabalho?

Tenho vários trabalhos em curso, uma parte dos quais em parceria com o fotógrafo José Chambel. A parceria começou há alguns anos e até agora conseguimos realizar várias atividades. Outras iniciativas estão a decorrer. Em 2020, para nos podermos organizar melhor, criámos uma sociedade de direito santomense, que chamamos Manga-Manga. Decidimos, também, fazer os possíveis para passar uma parte do ano em São Tomé e Príncipe. No ano passado construímos a nossa casa no sul da ilha de São Tomé. Queremos que este espaço seja – ao mesmo tempo – uma base para a realização de projetos artísticos, de investigação, de criação. Um espaço aberto a todos que precisam de se dedicar ao trabalho, sem demasiadas distrações.

Quanto aos projetos, destacaria o trabalho dedicado ao danço congo (https://dancocongo.com/), a criação de um Mapa Cultural de São Tomé e Príncipe (um projeto de longa duração, que se encontra numa fase inicial, e que será desenvolvido nos próximos anos, em parceria com várias pessoas que já foram e que serão convidadas a se juntarem à nós https://culturastp.com/) e o projeto Polo Anguené, dedicado às pessoas da, agora, “a nossa zona”, que nos acolheram com imenso carinho. Quando começámos a realização do Polo Anguené, nem imaginávamos que, relativamente pouco tempo depois, iriamos construir a nossa casa lá, em Angolares.

No ano passado, comecei um trabalho de investigação na ilha Maurícia, o que se revelou muito enriquecedor para a pesquisa em e sobre São Tomé e Príncipe. Ao meu foco no Mundo Atlântico, acrescentei os conhecimentos das dinâmicas do Índico, o que me permitiu colocar outras questões e reparar em pormenores que anteriormente não chamaram a minha atenção. A comparação dos universos musicais – atual e das décadas passadas – destas duas ilhas é um dos trabalhos que atualmente estou a realizar.

E quanto ao próximo livro, comecei a desenhar a ideia no dia em que recebi a cópia impressa do “Dêxa puíta sócó(m)pé”. Com um exemplar na mão, muito emocionada, senti que uma etapa chegou ao fim, um ciclo se fechou e com a energia renovada, comecei o trabalho no livro seguinte. Não posso, ainda, desvendar o tema. Mas posso dizer que será, mais uma vez, dedicado à música em São Tomé e Príncipe.

Muito obrigada.

A.B. = Grato eu pela disponibilidade.

“DÊXA PUÍTA SÓCÓ(M)PÉ. MÚSICA EM SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE DO COLONIALISMO À INDEPENDÊNCIA” – livro de

 Magdalena Anna Bialoborska Chambel, luso-polaca e agora igualmente são-tomense, com apresentação marcada para amanhã, às 18h00, no anfiteatro II da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Apresentação a cargo de José Manuel Sobral (ICS-ULisboa) e Angelo Torres (ator e realizador). Moderação de Ana Lúcia Sá (Iscte-IUL).

A sessão contará com a presença do Senhor Embaixador de São Tomé e Príncipe em Portugal, António Quintas.


António Bondoso.

18 de Abril de 2023. 






 

2023-04-05

 

Em memória de Maria Emília Michel, que deixa os amigos mais tristes e a Rádio com mais um espaço vazio.


MARIA EMÍLIA MICHEL…«assistente musical» que foi na Emissora  Nacional, rumou em 1968 a S. Tomé e Príncipe a fim de iniciar – com Manuela Borralho (assistente literária e noticiarista) – o processo de transição do Rádio Clube local para o Emissor Regional da EN.

Da sua página no Facebook

Foi lá que a conheci e com ela privei, dando-se o caso de a consultar com frequência para me enriquecer musicalmente os programas que eu editava, creio que o Fator Z e o Expresso da Meia Noite.

Um grupo de trabalhadores do ER de STP, da ex- EN. 

         E ficou, claro, a Amizade. Prolongou-se e permaneceu, até que – há já alguns anos – deixou de responder aos contactos. E, soube há minutos, deixou-nos hoje. 

No Programa Música na Praia, de Manuel Sá. 

         Para além dos convívios que regularmente aconteciam no âmbito da Rádio, Maria Emília Michel rapidamente conquistou a Amizade de outras pessoas da «terra», não só colonos, assumindo ser madrinha de algumas crianças. 

         E depois, nunca esqueço, essa boa disposição permanente e uma disponibilidade admirável para colaborar e participar. Neste contexto, vêm à memória as «brincadeiras» que tiveram lugar por ocasião dos 500 anos da descoberta das Ilhas, com a presença de Américo Tomaz, e os acontecimentos do 25 de Abril de 1974. Por essa altura, destaque para as madrugadas que passámos a gravar em bobina, à velocidade de 7e meio ou a 15, muitas canções da chamada «música de intervenção» que eu possuía em fitas pequenas e gravadas a 3,3/4 e em 4 pistas. Origem em alguns camaradas meus do serviço militar que eram mobilizados na «metrópole». Alguns já falecidos, infelizmente. Recordo que a EN não possuía esse tipo de música ou, por meio da censura do lápis amarelo, algumas faixas eram inutilizadas.

No E. Regional de STP com os irmãos Bandeira

          O funeral de Maria Emília Michel deve realizar-se no sábado em Setúbal.

Até sempre camarada e amiga.

Com outros camaradas do ER de STP da ex-EN. 
António Bondoso

5 de Abril de 2023. 




 



2023-03-28


JOSÉ CONCEIÇÃO CASINHA NOVA recorda António Aleixo. Um livro de 2020 com plena atualidade. 


Por agora, por muitos dias já antes e por tantos outros que vão seguir-se, as palavras repetidas soam a Guerra, invasão, urânio empobrecido, inflação, questões ambientais, cabaz alimentar, pobreza, solidão, terrorismo, o mundo globalizado e o multilateralismo. 


Casinha Nova, no ICP, com alguns dos seus antigos alunos em STP

E hoje é o Dia do Teatro e ontem já foi o do livro português. Repesquei então a minha leitura de um antigo meu professor de Literatura – José Conceição Casinha Nova – algarvio de Burgau (1934), Vila do Bispo, que já deu mais de meia volta ao mundo, partilhando comigo, por exemplo, memórias de São Tomé e Príncipe.

         O livro, que tem mais de cem páginas preenchidas com muitas quadras e algumas sextilhas, fala de todos aqueles temas e tem um título que obriga a um compromisso de ação e de acutilância: “Recordando o Aleixo”. 


         Sem pretender entrar por caminhos comparativos – até pela distância dos momentos e dos sinais – este livro de Casinha Nova tem igualmente alguma crítica incisiva, embora também fale de amor, da capacidade de sonhar ou de dizer o que pensa. 


Eu e o Autor no ICP, durante uma Sessão sobre STP

E apesar de ter sido escrito e publicado ainda antes da atual «guerra/invasão» da Ucrânia (Setembro de 2020 com a Arandis Editora), a leitura levou-me a pousar os olhos nesse tão antigo «urânio empobrecido» na forma de uma sextilha: “As actuais munições,/ com urânio empobrecido,/ atenuam as distinções/ entre quem vence ou é vencido:/ Matam todos por igual,/ o que é bem feito, afinal…”. O humor negro sobre a guerra neste verso final de Casinha Nova, um tema que percorre outras quadras e sextilhas de outras tantas páginas do livro, desde o «erro que foi a segunda invasão do Iraque», passando pela triste guerra israelo-árabe até à água – um recurso natural que pode vir a gerar conflitos: “ Por posse de águas potáveis,/ muita guerra vai haver,/ pois quem tem as fontes de águas/ em seu solo as quer reter…”.

         Críticas aos média, particularmente às TVs, em temas como as guerras de audiência e a publicidade: «Se algo dá a televisão/ com uma certa qualidade/ é para que o cidadão/ “engula” publicidade!...». E a qualidade dos programas na perspetiva de quem vê: “O espectador de bom gosto,/ quando vê televisão,/ sente vergonha e desgosto/ dos programas que lhe dão!...

         E a liberdade de expressão comportando a verdade e a mentira. Para quê dizer o que penso e o que sinto, interroga Casinha Nova, (…) “ Se já mentindo convenço/ melhor que quando não minto?”. E é por aí, pelo caminho dos sonhos que não mentem, que o autor vai seguindo: “Ando permanentemente/ atrás de sonhos sem fim/ e é neste sonhar assim/ que minha mente não mente…”. 


Convívio no Algarve

 José Conceição Casinha Nova, primeiro Professor e depois Escritor, sabe das dores da escrita apesar de ter publicado apenas três ou quatro títulos: “Em Portugal, um escritor,/ tem de outra profissão ter/ onde ganhe com suor/ o que não ganha a escrever…”. Mas tem escrito para recordar o seu Algarve, sobretudo Lagos e Portimão; para lembrar Timor e S. Tomé e Príncipe, sem esquecer os Açores. E para dizer também que o preocupam a «Justiça Lenta» e a «corrupção», situações que minam a Democracia. 


Imagem do «interior» do Livro

         «Recordando o Aleixo», de Casinha Nova, para não esquecermos a simplicidade da crítica mordaz. Como esta quadra sobre o teatro: “Dizia Schopenhauer/ que quem ao teatro não ia/ a toilette fazia/ sem um espelho p’ra se ver.”.

Março de 2023.

António Bondoso






2023-03-25


GRANDE MANUEL

E quando somos como que «surpreendidos» pelas imagens de um jovem familiar no Primeiro Jornal da SIC. Nada do outro mundo, claro. No fim de contas, trata-se «apenas» da Final da 16ª edição do Campeonato Nacional de Jogos Matemáticos (ensinos básico e secundário), que ontem decorreu em Aveiro e na qual o Manuel Almeida, meu sobrinho-neto, saiu vencedor na sua categoria. 


Foto cedida por Jacinta Raquel Bondoso Dias Coutinho de Almeida

         A notícia já me tinha chegado telefonicamente pelo avô do Manuel, mas confesso não ter imaginado o relevo da reportagem da SIC, de que junto algumas fotos.

         Na edição deste ano dos Jogos Matemáticos – Jogos de Tabuleiro que obrigam ao raciocínio matemático – participaram mais de 2 mil alunos, com as eliminatórias a decorrerem em 350 escolas. Na final de ontem saíram 36 vencedores, depois de terem resolvido 6 jogos de 12 categorias.

         O Manuel foi um deles. E mereceu a atenção jornalística da SIC.



Os «Jogos Matemáticos» são promovidos desde 2004 pela Associação Ludus, Associação de Professores de Matemática, Sociedade Portuguesa de Matemática e a Ciência Viva. Em 2023, a organização da final esteve a cargo da Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro, do Departamento de Matemática da Universidade de Aveiro e do Projeto Matemática Ensino (PmatE). 


Parabéns Manuel Almeida. Um abraço de orgulho, de louvor e de estímulo. Parabéns também aos avós, aos pais e aos professores do Manuel.



António Bondoso

Março de 2023. 


2023-03-22

USRM - Poetas Vivos e outros que, por serem «tão grandes», se foram da lei da morte libertando…


Poetas Vivos e outros que, por serem «tão grandes», se foram da lei da morte libertando…ou de como o tema «Amizade» mobilizou ontem a tradicional Tertúlia Poética e Musical da Universidade Sénior de Rotary, em Matosinhos. O salão do Centro Cultural de Leça do Balio encheu para ouvir dizer poemas – da «casa» e de outros grandes do mundo – e cantares de Coimbra, do Alentejo e da saudade africana do Duo Ouro Negro, quer com o “Grupo de Violas e Cavaquinhos”, da USRM, quer pela presença do grupo “Do Choupal até à Lapa”.  

         O grupo “Encontros de Poesia e Escrita”, da Universidade, lembrou a saudosa docente e amiga Natália Vale e trouxe para a ribalta outros nomes da «casa» como Adília Gonçalves, Raul Ribeiro, José Teixeira, Joaquim Pinto de Sousa, Álvaro Varzim, Maria da Luz Barros e Jorge Reis que, no seu poema UM AMIGO, soube dizer que «é alguém que está contigo e não tem pressa».

Poetas Vivos, portanto, e outros que, por serem «tão grandes», se foram da lei da morte libertando.

Vinícius de Moraes, Pedro Homem de Mello, Fernando Pessoa e Miguel Torga emprestaram notoriedade à tertúlia, destacando-se por exemplo o poema “Que Belo é Ter Um Amigo”, de Torga, no qual se diz que “acima das ideias estão os homens”. Sobressaiu igualmente a ideia de que, no poema “Procura-se Um Amigo”, ali atribuído a Vinícius mas que não há certeza – pois também é dado como a um autor desconhecido – esse amigo «Não precisa ser homem, basta ser humano, e que deve ter um ideal e medo de perdê-lo».

A organização, por meio do dirigente Trindade Pereira, disponibilizou apenas este excerto para visionamento. Grato pelos momentos especiais vividos e sentidos.

https://www.facebook.com/josetrindade.pereira/videos/938083740710127/

Entretanto...chegou mais este: 

https://www.facebook.com/100002468055758/videos/1216060109299994/

António Bondoso

Março de 2023

2023-03-18


O MUNDO VISTO DO MEIO…ou de como o jornalismo se afirma como literatura. Uma velha questão que a jornalista/escritora Conceição Lima, de S. Tomé e Príncipe, ressuscita no seu livro mais recente com o título mencionado. Um livro de crónicas (apesar de já com algum tempo conseguem transmitir atualidade) – talvez uma das «vertentes» mais nobres do jornalismo – às quais a autora acrescenta o que chama de «Um auto do século XX», datado de 2021 e que refresca o dramático ano de 1953, atualizando o «pensamento» sobre o designado Massacre de Batepá. 


Da Web

         É mais um texto sobre a minha ideia genérica de “UM LIVRO DE VEZ EM QUANDO”, sendo que este da São Lima também não me surpreende. A autora merece a distinção de grande Poetisa e, para mim, igualmente o louvor de uma jornalista completa. É sabido que a «crónica» expõe, talvez como nenhuma outra face do jornalismo, o seu autor. Mas a credibilidade da «crónica» depende sobretudo da solidez dos argumentos que oferecem honestidade à opinião de quem escreve. E tudo isso está patente nos escritos que a São Lima nos apresenta neste O MUNDO VISTO DO MEIO. 


Da Web

Não me parece ser a «crónica» uma vertente do jornalismo com muita tradição em STP. Recuando um século, mais ou menos, vem à memória o celebremente pouco conhecido Mário Domingues, também ele um jornalista são-tomense, mas no Portugal europeu, que aos 17 anos entrou pela ficção e que publicou a “Audácia de um Tímido” em 1923. Escritor, editor, tradutor, publicista, historiador – mas sobretudo anarquista – Domingues foi também um devotado jornalista que cultivou o género da crónica em algumas revistas e jornais portugueses.

Para este género de jornalismo é preciso uma grande dose de coragem, particularmente num meio pequeno como é este país insular africano. E essa coragem tem custos, claro. A autora assumiu a sua independência e tem pagado por isso ao longo dos anos. O que não a impediu agora de valorizar os textos publicados, alguns em tempos não muito remotos, carregados de fortes críticas sociais e políticas. É sobretudo esse o mote, aliás bem destacado pela São Lima na sua “Advertência” inicial, quando – numa imagem britanicamente fleumática – entende ser ancestral a razão de chamar tudo pelos nomes, como forma de celebrar por exemplo a nomenclatura das espécies da flora e da fauna insulares: os seus sons, a sua pronúncia, a sua grafia, a beleza da sua singularidade. 


Da Web

Volto ao início da minha «crónica» para enfatizar mais dois ou três pormenores. Primeiro, o título do livro. O MUNDO VISTO DO MEIO faz-me lembrar uma das designações de STP como as Ilhas no meio do mundo, situadas no Equador do Golfo da Guiné e muito próximo do meridiano de Greenwich. Depois, algumas crónicas deliciosas nas quais recorda por exemplo a «combatente» Alda Do Espírito Santo, o Riboquense Carlos Teixeira que eu conheci na Embaixada em Lisboa ou do músico José Aragão de Os Leoninos e dos Úntués.

Não querendo revelar todo o conteúdo, há outras que não posso deixar de nomear, como por exemplo “Carta à Apolinária” escrita também na variante são-tomense do português, na qual se destacam as mudanças da «terra»: “Genti come bunzu assado, caldêrada di bunzu, espetada de bunzu, caril di bunzu, bunzo refogado com coco, bunzu refogado sem coco. (…) Tera mudô muiiito, Apolinária. Quem diz qui terá non mudô, tá com olho fêchado ô tá a vê pulitika só”.  

Ainda um interessante conjunto de três, sobre o «Lôgozo sapiens», o «Lôgozo médio» e o «lôgozo subalterno». A tipificação clara daqueles cidadãos a que se dá o nome de “chicos espertos”, perfeitamente definido o estrato social de cada um. O último, particularmente, faz-me lembrar quase como que o «bisneiro» descrito por Lúcio Amado. Convém esclarecer que «lôgozo», na língua forra são-tomense, é o nome de uma personagem ludibriadora que São Lima atribui ao Txiloli, a mais importante manifestação teatral (de rua) de São Tomé. Contudo, há também quem a atribua a uma personagem do «Dansu-Kongo» que passa de guardiã a usurpadora. 



Para terminar volto à questão de o jornalismo ser ou não literatura. Eu acho que é ou, pelo menos, deveria ser. Grandes e considerados jornalistas o disseram. E também Frederico Gustavo dos Anjos, no seu prefácio, considera que “Este livro é, para mim, uma linda poesia! No que tem de cor, de palavras, e do que tem para dizer aos leitores acerca da sua autora, da sua realidade e dos seus sonhos ou das suas aspirações”. E já que estamos perto da «Quadra Pascal», fica a memória da Conceição Lima sobre o sábado de aleluia e a Sexta-Feira Santa nas Ilhas: “Quando eu era pequena, parecia que até a natureza ficava melancólica, que os ramos e as folhas das árvores não se mexiam, não havia vento, nem brisa. Hoje, as árvores mexem-se alegremente, o vento faz dançar os seus cabelos. Se calhar, eram os meus olhos que viam a natureza através do profundo recolhimento dos adultos, em estado de luto pela morte de Cristo”.

Vão gostar de ler e de perceber este MUNDO VISTO DO MEIO, que a Conceição Lima fez publicar na Caminho e que, recentemente, foi apresentado em Lisboa.

António Bondoso

Moimenta da Beira e Vila Nova de Gaia, Março de 2023. 







 

2023-03-07


FIZ E TORNARIA A FAZER…ou de como uma frase convictamente plena de princípios, levou uma de muitas jovens portuguesas e estrangeiras às prisões do Estado Novo.

         O nome de Belarmina Augusta de Oliveira Lopes é um dos 1755 inscritos no livro “ELAS estiveram nas prisões do fascismo”, editado pela URAP (União de Resistentes Antifascistas Portugueses) em 2021 e dedicado a “todas as mulheres portuguesas que, em tempos de medo, silêncio e opressão, contribuíram com palavras e actos de resistência para construir o nosso caminho solidário para a liberdade e a democracia”. 



Belarmina Lopes, falecida há meia dúzia de anos, carregou – na sua vida centenária – o sofrimento da prisão em 1936 e 37, na Cadeia da Relação do Porto, provavelmente na habitável memória da cela que foi de Camilo Castelo Branco. Natural de Vimioso, a jovem Belarmina estudou e cursou o Magistério Primário na Escola Normal do Porto, onde foi vigiada e detida pela PVDE. O seu «Exame de Estado» foi mesmo efetuado sob vigilância policial. Na prisão, sofreu nomeadamente a tortura do sono e o isolamento sofredor da «solitária».

         Por que razão foi presa? Pela pronúncia da simples frase inicial deste texto perante um juiz, na sequência da sua atividade na organização de solidariedade que dava pelo nome de «Socorro Vermelho Internacional». E daí? – perguntará quem não conhece. Se pensarmos a época, só a palavra «vermelho» já seria motivo de controvérsia. O caso é que a “SVI” foi criada pela Internacional Comunista em 1922, ano da fundação da União Soviética, com o propósito de ajudar na criação de organizações que prestassem auxílio material e moral a todos os «prisioneiros do capitalismo». A "Socorro Vermelho Internacional", também conhecida pelo seu acrónimo russo MOPR, foi extinta em 1941, depois da sua importância internacional ter diminuído – embora a «filial» soviética só tenha terminado em 1947.

Muitas das mulheres presas neste período, tanto em Portugal como em Espanha – sobretudo – mas também em outros países como Marrocos, Polónia, México e Reino Unido, terão igualmente pertencido à SVI, mas outras militaram por exemplo na “Associação Feminina Portuguesa para a Paz”, nascida em 1935, ou no “Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas” – CNMP. Domésticas, operárias e estudantes constituíam a maior parte das detidas, embora houvesse também professoras, artistas de cinema e de teatro da Áustria, Hungria, Vimioso e da Alemanha, bailarinas da Itália e da Áustria, enfermeiras de S. Tomé e Príncipe e de Cabo Verde, uma intérprete da Holanda, uma engenheira da Rodésia, e uma redatora de Angola.

No seu conjunto, as mulheres espanholas foram das que mais tempo passaram nas prisões, nomeadamente uma na cadeia de Moura, nos anos de 1937, 43, 44 e 46; e uma outra em estabelecimento desconhecido, nos anos de 1948, 50, 51 e 53. No entanto, a campeã foi a portuguesa Engª Virgínia Moura, presa no Porto nos anos de 1948, 49, 50, 52, 53, 54, 55, 56, 57 e 1962. Embora alguns dados da «lista» das mulheres presas não sejam muito precisos, neste livro da URAP, podemos destacar outros casos: - Maria da Conceição Alves, em Monção, nos anos de 1946, 1963, 64 e 66 várias vezes; Maria dos Santos Machado, de Oeiras e professora em Lisboa, nos anos de 1936, 1945/47, 1953/54 e 1956; Teresa de Jesus Paz, comerciante de Arcos de Valdevez e presa em Monção, nos anos de 1957, 58, 59,1960, 62 e 63. 

Talvez por alguma ironia, digo eu, há o caso de Leonor de Oliveira Coelho, pirotécnica de Santa Comba Dão, detida em Lisboa em 1937 e quero ainda destacar alguns casos de «proximidade» com o meu percurso: - em 1933 foi presa em Lisboa a peixeira Maria Augusta, nascida em 1898 em Moimenta da Beira e, também de Moimenta da Beira, a doméstica Elisa Dinis foi presa em Monção nos anos de 1951 e de 1959. De Torre de Moncorvo, a «manicure» Maria Beatriz Duarte foi detida em local «desconhecido» em 1936; e também da mesma Vila e concelho, a doméstica Maria do Rosário Flores ali foi detida no ano de 1945.

Das ex-colónias, todas «representadas» no processo, toca-me particularmente S. Tomé e Príncipe com 11 casos referenciados: a professora Alda Neves da Graça do Espírito Santo esteve presa em Lisboa entre Dezembro de 1965 e Fevereiro de 1966; Andresa da Graça do Espírito Santo, doméstica, detida na mesma data, tal como Ema de Oliveira Baptista [Batista] de Sousa. Já a estudante Joana da Costa Sousa Aragão havia sido presa em Coimbra, em 1961. No mesmo ano e na mesma cidade de Coimbra foi detida a também estudante Margarida Pinto Tavares Neves. Voltando ao período de 1965/66, igualmente em Lisboa, foram presas as domésticas Maria da Piedade Marques de Alva e Maria do Espírito Santo da Graça e ainda a estudante Maria de Lourdes [Lurdes] Meneses de Alva Bragança Gomes Torres. Nesse mesmo período negro para STP, foram detidas em Lisboa a enfermeira Odete Quaresma Soares de Barros e a doméstica Otília Sobral Sequeira Bragança. Já em 1962, foi presa em Valença a que viria a ser a influente escritora Maria Manuela da Conceição Carvalho Margarido, no livro referida ainda como doméstica.

Regressando ao «caso» de abertura deste meu texto, à professora Belarmina Augusta de Oliveira Lopes, que se formou na Escola Normal do Porto, quero ainda destacar que ela começou por lecionar em Argozelo, concelho de Vimioso e depois em Miragaia, concelho da Lourinhã. As suas posições na luta pela condição feminina e que, recordo, a levaram à prisão, foram motivo de «afastamento» de alguns familiares. Talvez por isso tenha decidido rumar a Lisboa onde, já casada, Belarmina Lopes cursou Ciências Pedagógicas e foi mãe de duas crianças. Ambas, a Maria José e a Maria do Rosário Praça viriam também a seguir a profissão de professoras. E um caminho de liberdade, como diria Aquilino Ribeiro: “Adiante e consideremos que para chegar a bom termo da viagem é preciso ser livres”!

António Bondoso

Março de 2023.