2022-03-29

 Sobretudo para os que andam distraídos neste mundo. Independentemente das razões de cada um. 

A Poesia não será uma «cura»...mas alerta para as incongruências das guerras. 




Foto da Web

NÃO FAZ MAL…

 

Se a guerra te bater à porta

Não abras.

Se a guerra te entrar pela janela

Clandestina

Violenta

Irracional

Não faz mal…

Tranca a porta.

 

Dissimulada é a guerra neste tempo

Quer no nome

Quer nas armas

Quer em civis desarmados

E outros feitos soldados.

 

Se a guerra bater à tua porta

Criminosa

E te obrigar a deixar a tua rua

A família e os teus amigos

Irracional…

Não faz mal

Espera que as bombas caiam

E os mísseis expludam

Assassinando crianças por aí

Matando idosos por aqui e por ali.

 

E se a guerra bater à nossa porta

Brutal

Mesmo que traga aviso de receção

Da Palestina ao Irão

Do Iémen ao Iraque

Da Síria a toda a Ucrânia

Não faz mal

Ignore a ignorância

E devolva à procedência.

 

E se mesmo assim

Essa guerra voltar

E de novo bater à nossa porta

Lembrem-se dos que fogem

Da metralha e da fome

Engrossando os campos de lama

E de doenças.

 

Quando as guerras nos passam ao lado

Na sua crueza real

É simples a indiferença

De ter um gesto banal

Esperar o tempo inteiro

Por um milagre caseiro.

 

A guerra? Ahhh…não faz mal!

==========

António Bondoso

Março de 2022. 









2022-03-19


QUANDO OS PAIS TÊM FILHOS E OS FILHOS SÃO PAIS...como eu. 


Foto de Ant. Bondoso


«Há dias de uma exponencial felicidade

Quando se pode rememorar a caixa de

Valores e sentires

E a vida mantém o brilho

De cada instante.

Não é saudade

É sobretudo reconfortante!»


Foto de Zé Guilherme


António Bondoso

Dia do Pai, 19 Março 2022. 




 


 

2022-03-14

 

HÁ VIDA NOS ESCOMBROS…

É um massacre genocídio mas contudo ainda há gritos debaixo dos escombros – é a vida a chamar por nós pela nossa consciência…



Foto Anas Alkharboutli (DPA)

Aviões mísseis blindados soldados espingardas balas metralha explosões e pessoas feridas e mortas é uma invasão é a guerra sem sentido irracional certamente aldeias vilas e cidades arrasadas crianças que choram e perguntam e não há respostas e fogem à procura de abrigo e segurança pela mão das mães e irmãos pois os pais ficam a combater a defender o território que é seu onde nasceram e cresceram a terra de pais e avós que outros cobiçam e então partem emigrantes que outros países acolhem uns mais e outros menos dizem que é ser solidário e amigo embora tudo seja uma incerteza mesmo na esperança de um dia poderem voltar ao país às raízes que prendem a memória e a história feita de lutas e de horrores pois há muitos que não conseguem fugir ou não têm simplesmente para onde ir e ficam à sede e à fome a morrer devagarinho quantas vezes desejando que uma bomba ou um projétil cheguem de supetão e termine o sofrimento mas aparecem generais e especialistas e tantas vezes jornalistas a tentar explicar o que é obscuro e inexcitável muito menos aceitável erguendo a bandeira da informação que é mais comunicação e sobretudo propaganda morta à distância escondida em colunas de fumo e fogo e os soldados a avançar e os aviões a lançar mais uns mísseis que se enganam e atingem inocentes e as imagens mostram cenas cada vez mais chocantes de tantas terras distantes e por aqui e por ali no bem-estar da certeza o que choca é o protesto de quem não sabe da dor e aparece um microfone que reproduz ignorância ou vomita intolerância e de novo os generais e sempre os especialistas a cada minuto que passa a dizer o que não podem saber apenas imaginar e as bombas a rebentar com a ordem internacional que já não faz sentido nesta desordem do mundo no qual poucos pensam e muito poucos são capazes de agir à espera do gás na torneira e do petróleo na carteira impotentes nas ideias e nas palavras que matam tanto como os mísseis de cruzeiro ou como as bombas de fragmentação que atingem grávidas de vida ou idosos acamados em prédios sem paredes e sem teto são escombros sombrios alguns gelados de frio outros de calor tórrido é conforme a latitude e a atitude que falta de grandes mediadores e as guerras vão seguindo em mentes descabeladas ou entranhas desfiguradas ninguém percebe a razão de tantas hesitações e jogos de bastidores de senhores endinheirados e sonhos inacabados nos quais a pobreza morre farta e de novo a televisão para deixar a notícia de um hospital bombardeado de uma escola destruída onde já ninguém ensina e não aprende o futuro e as notícias de quem foge de quem consegue fugir um êxodo do inferno para outro subalterno e os corredores humanitários em direção a nenhures que vão dar a paraísos – só fiscais aí algures – desumanos ou sem culpas pouco interessa a quem decide bem longe de explosões de tiros e de combates pois a morte é um negócio próspero de quem vive bem e no qual nem os fracos escapam à sua sorte.

    É um massacre genocídio mas contudo ainda há gritos debaixo dos escombros – é a vida a chamar por nós pela nossa consciência…

                Foto Gabriela Silva (Medium)

António Bondoso

Março de 2022. 

 

2022-03-09


A FORÇA DE UM GIRASSOL…ou de como se consegue falar do empenhamento das mulheres e da “Educação” na construção de um mundo melhor, apesar dos trompetes da guerra. 



Universidade Sénior Rotary de Matosinhos, ao Araújo – Leça do Balio, a celebração coincidente do Dia Internacional da Mulher e um simples espaço de troca de conhecimentos, falando de assuntos próprios das Relações Internacionais.

         Convidada – a Profª Doutora ARIANA COSME, uma estudiosa permanente dos assuntos da educação e da formação de professores, na busca de avanços. 



Ariana Cosme. 

         A «Educação» e todos os valores que a integram e complementam, são – de facto – a forma mais eficaz de ajudar a mudar o mundo, este mundo onde é ainda muito difícil ser «mulher», apesar de grandes passos já caminhados.

         E quando questionada sobre tempos difíceis na Europa, de novo, concretamente sobre o seu entendimento a propósito do «sacrifício» das mulheres ucranianas ao deixar maridos e namorados num país em guerra – depois da invasão do exército russo de Putin – Ariana Cosme foi buscar memórias marcantes da infância quando foi obrigada a deixar a sua Angola, separando-se dos pais, para embarcar com a irmã mais nova no «último navio» a sair do porto de Moçâmedes (hoje Namibe), com destino a Luanda, para conseguir ainda chegar a tempo da «ponte aérea» para Portugal, em função da instalada «guerra civil». Não foi fácil o silêncio da viagem entre Sá da Bandeira e Moçâmedes, foi muito difícil a separação. Por isso percebe as mulheres ucranianas. 



Na USRM - aula de R.I.

         E depois conversámos sobre as eventuais «saídas» para o conflito que Putin e o seu regime trouxeram à Europa. Por fim, e perante as imagens da tragédia, recordámos o que foi o “Holodomor” em 1932/33, quando Estaline governava a URSS com mãos assassinas. Em ucraniano, Holodomor significa morrer de inanição, morrer pela fome. Assim ficou conhecido o genocídio do povo ucraniano naquela época, revoltado com as políticas económicas de Estaline: controlar a produção de cereais através de uma “requisição compulsória”. O povo ucraniano foi o que mais resistiu a essa medida. E pagou muito caro. Como está a pagar hoje, pela simples «ousadia» de querer continuar a ser um país livre e soberano.

         Daí, o meu «girassol» para Ariana Cosme, como um símbolo de resistência. 


9 Março 2022.

António Bondoso


 


 

2022-02-24

 O que faz sentido, hoje, refletir. Do livro de Almada Negreiros A INVENÇÃO DO DIA CLARO – 1921. LIBERDADE!

O que faz sentido, hoje, refletir. Do livro de Almada Negreiros A INVENÇÃO DO DIA CLARO – 1921.

“LIBERDADE

Quando entrei na cidade fiquei sozinho no meio da multidão.

Em redor as portas estavam abertas. A multidão entrava naturalmente pelas portas abertas. Por cima das portas havia tabuletas onde estava colada aquela palavra que sobe – Liberdade!

Entrei por uma porta. Entrei como uma farpa!

Era uma ratoeira, Mãe! era uma ratoeira! Se eu tivesse entrado como uma agulha podia ter saído como uma agulha, mas entrei como uma farpa, fiz sangue verdadeiro, já não me esquece. Aconteceu exactamente. Dei um mau jeito nos rins por causa da ratoeira! Ainda me lembro da palavra – Liberdade!”

Almada Negreiros.

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Deixo apenas um pequeno vídeo de minha autoria, exatamente sobre a Liberdade, elaborado em 2013. 

https://youtu.be/jZKhvEiS7x8

António Bondoso

24 de Fevereiro de 2022


2022-02-23

AQUILINO RIBEIRO – DE SOUTOSA AO MUNDO…transporta o nome de Moimenta da Beira e a ideia das Terras do Demo. Figura maior das letras portuguesas, adjetivo já por si carregado de significativa e eterna homenagem, Aquilino Ribeiro – que o meu camarada Rodrigues Vaz também apresenta como «contador de estórias e repórter de memórias» - vai ser objeto de mais uma distinção, desta vez no coração da Vila.



Escrevi em 2008 que «Celebrar Aquilino…é tão simples como saciar a sede». Pois bem…mais uma ocasião se apresenta, já no próximo sábado, dia 26, quando Moimenta da Beira – e quem nos visita – passarem a apreciar o “Conjunto Escultórico” em justa homenagem ao «Mestre», em local privilegiado da renovada Praça do Município, mesmo na esquina entre o Largo do General Humberto Delgado e a Praceta Fernão Mergulhão. 



         O monumento, da autoria do escultor Daniel Castro Gamelas, partiu de uma ideia do então Presidente da Câmara – José Eduardo Ferreira – em conversa com o seu vice Francisco Cardia, ia entrando o ano de 2018, que marcava os 60 anos da publicação do livro de Aquilino QUANDO OS LOBOS UIVAM. Ouvi falar do conjunto escultórico pela primeira vez em 2021, em Soutosa, exatamente pela fala de Alexandre Cardia – no decorrer da campanha eleitoral autárquica. E a ideia cumpre-se agora, com Alexandre Cardia a lembrar que aderiu de imediato ao desafio “com o sentido de que essa seria uma tarefa de especial significado para mim, para cada um de nós, para os nossos munícipes, por todas as razões, pois representa também uma marca profunda que determina a vida de toda uma região designada pelo Mestre como “Terras do Demo”.

         O conjunto escultórico de Daniel Castro Gamelas e que foi “moldado” por Alcides Rodrigues – depois trabalhado e terminado, entre 2018 e 2021, numa empresa de fundição de Pontevedra, na Galiza – representa Aquilino e três lobos em tamanho natural. Para reter a ideia:  
Dimensões: consta de 4 peças de escultura em bronze. Uma com a altura da figura humana 180 cm; três figuras que representam lobos ibéricos com a dimensão aproximada de cada lobo de 70cm X 140/180cm.

         Moimenta da Beira, dia 26 pelas 15 horas.

António Bondoso 

(Com Francisco Cardia)

Fevereiro de 2022.

Deixo uma ligação para poderem visionar um pequeno slideshow sobre Aquilino 

e outros maiores de Moimenta da Beira: 

https://youtu.be/J_TfpEjCXio

https://youtu.be/J_TfpEjCXio


2022-02-22

ISTO SOU EU A PENSAR…

Neste «Dia do Pensamento», segundo a Agenda das Edições Esgotadas, não sei se haverá assim tantos a pensar. Sonhar talvez seja parecido, embora me pareça menos profundo.


Foto de A. Bondoso

         Dando sequência ao meu «pensar»…recordo que, em 2014, escrevi sobre a «diferença». Assim:

Se não entendermos e assumirmos que foi a diferença

Que fez de nós um grande povo,

Então...jamais aceitaremos o que é diferente!

         Já antes, em 2012, tinha chamado a atenção do que designei por «manipuladores»:

Se o destino quiser um dia presentear-me com um simples e simbólico galardão literário – mesmo que a título póstumo – que o faça tendo em conta apenas o valor real das palavras que traduzem o que penso, escrevo e digo. Nunca pelo significado que os “manipuladores” da essência – ou do tempo – lhe quiserem atribuir

         E depois, em 2015 e 2016, «pensei» poeticamente em duas versões de uma mesma «escuridão»:

“Mergulhei na escuridão.

E nem todas as luzes de todos os faróis do mundo

Me fazem afastar

Da tua costa rochosa”!

         Ligeiramente diferente numa segunda versão:

“Mergulhei na escuridão!

Mas tenho todas as luzes de todos os faróis do mundo

Para me guiarem

Pela tua costa rochosa”.

         Não querendo alongar mais, pois não sou narcisista, pretendo recuar ainda um pouco no tempo, mais precisamente a 2012, ao meu «ensaio/livro» sobre O PODER E O POEMA: 

ATÉ ONDE PODE VOAR O PENSAMENTO?

 

Até onde pode voar o pensamento?

As graciosas andorinhas não têm autonomia para alcançar o

infinito

Nem a envergadura das enormes e cruéis aves de rapina

É suficiente para ultrapassar essa missão impossível.

 

Mas o homem – qual estranho ser do instinto e do saber

Menospreza quantas vezes a paixão de sonhar

Sem amor pela beleza do voar das andorinhas

Sem respeito pela visão planada de abutres, condores,

milhafres ou falcões.

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O meu contributo «pensante». Apenas parte. Obrigado.

António Bondoso

22 de Fevereiro de 2022. 


 

2022-02-21

 

"DIA INTERNACIONAL DA LÍNGUA MATERNA”.

Foi proclamado pela UNESCO em 1999, com o objetivo de proteger e salvaguardar as línguas faladas em todo o mundo. Estima-se que existam mais de 7000 línguas em todo o planeta. No entanto, quase metade delas corre o risco de vir a desaparecer. A escolha deste dia 21 de Fevereiro teve origem na tragédia que ocorreu em Fevereiro de 1952, na cidade de Daca, no Bangladesh. Vários estudantes foram mortos pela polícia nessa data, durante uma manifestação pelo reconhecimento da sua língua - o bengalês - como um dos dois idiomas oficiais do então Paquistão.

         E, por isso, é pelas línguas que devemos ir. 

Recordo, a propósito, a intensidade desta ideia do Prof. Adriano Moreira: 
"...Em toda a parte, aquilo que avulta como menos vulnerável e como cimento mais forte, é realmente a língua". (...) E se houver capacidade e não faltar vontade, a língua é o veículo da cultura capaz de disputar o seu espaço e de o fazer crescer"!

         E é neste desiderato que devemos entender o espírito do espaço «lusófono», enquadrado na «instituição» CPLP, embora os horizontes das diásporas sejam mais vastos. Admitindo como verdadeira a ideia de que, quando o sonho se concretiza, deixa de haver utopia – continuemos a sonhar nesta tarefa de consolidar a lusofonia e a atuação da CPLP. Que o “não-lugar” que nos foi legado pelos Gregos vá deixando de ser paulatinamente o lugar que não existe, prolongando o sonho. Fixemo-nos no interior do que chamo “Trapézio dos Nove” e nos Mares que os unem, abraçando simultaneamente todas as diásporas. E todas as Línguas daqueles que partilham a nossa.

Composição de A. Bondoso

Mas para lá chegar, sabemos que é preciso mais empenho de Portugal, quer nessa perceção do outro – sua história e cultura – quer na expansão da Língua Portuguesa. Sem querer estender demasiado este meu texto, penso ser interessante e importante recordar uma «conversa» minha com a Historiadora Maria Manso, em 2015, na qual se criticam autoridades e se pede reforço do papel da Rádio e da Televisão públicas:

         «Embora esteja de acordo com o facto de a nossa política externa dever ter um pé na Europa e outro no Atlântico, a professora da Universidade de Évora considera que “deveríamos dedicar maior percentagem de atenção aos Países Lusófonos e às regiões que por questões culturais se mantêm/estiveram ligadas a Portugal. Somos europeus, mas somos sobretudo lusófonos. Na actual situação em que o País se encontra, necessitaríamos de desenvolver políticas de cooperação que possibilitassem o fortalecimento da CPLP e permitissem uma “menor dependência” de Portugal face às políticas europeias”. Maria de Deus Beites Manso, docente e investigadora nas áreas da Arqueologia e de Humanidades, vai estar no Porto na próxima na quinta-feira para falar da expansão da língua, da Lusofonia, da CPLP, e do reforço do papel da comunicação social do Estado.

          A propósito da palestra que vai proferir na Quinta da Bonjóia, a convite da AICEM – Associação do Idioma e das Culturas em Português, com sede no Porto – Maria Manso considera que, para a construção do Projeto da Lusofonia, a língua e os afetos são essenciais mas “também precisamos de desenvolver uma política que fortaleça as relações no âmbito do ensino (reconhecimento dos graus académicos, criar /aumentar - ou criar - os programas de mobilidade docente e discente…) , da investigação, etc na CPLP.  Para as regiões que não fazem parte da CPLP mas que tiveram ligações a Portugal devíamos criar políticas de cooperação que preservassem viva esta ligação cultural e linguística”.

         Recentemente, entrevistada no programa “Em Nome do Ouvinte”, da RDP, a propósito do encerramento das emissões em Onda Curta, o qual critica, Maria Manso afirma que “há uma sede de ouvir a língua portuguesa e que é preciso dar condições para que as pessoas se sintam ligadas à língua e à história de Portugal. Há quem se sinta português, mesmo não tendo a nacionalidade e, de alguma maneira, há mesmo quem se sinta abandonado por Portugal”.

         O Instituto Camões tem o seu papel importante e fundamental mas, na opinião de Maria Manso “não é suficiente o que se ensina numa universidade”. Por isso, diz, os meios de comunicação social “devem conseguir reforçar, dar mais condições para que as pessoas, ouvindo, possam treinar a língua e, ao mesmo tempo, ficar a conhecer a história e a cultura”.

         A internet ainda não chega a todo o lado, nomeadamente em África e na América do Sul, pelo que se justifica a existência do serviço da Onda Curta na RDP, à semelhança do que fazem outros países europeus, particularmente a Espanha. Contudo, refere, é necessário levar a cabo um estudo para melhor conhecer o público-alvo e que permita repensar a programação, sobretudo tendo em conta a grande heterogeneidade».

         É bom recordar que o número de falantes da língua portuguesa tem aumentado, estimando-se que, em 2050, atinja 350 milhões espalhados pelos cinco Continentes.

António Bondoso

Fevereiro de 2022.

 


 

2022-02-13

 

ALGUMAS FIGURAS DA MINHA VIDA!

Ó SÓCIO!

Como tenho vindo a escrever nos tempos mais recentes, há figuras de amigos que nos deixam marcas profundas. É o caso do Gonçalo de Faria Taveira Peixoto – conhecido que foi na «Rádio» simplesmente como NUNO FARIA. 



E aproveitando a conjugação circunstancial de, se ainda estivesse entre nós, ter podido celebrar ontem o seu 77º aniversário e assinalar, hoje, o Dia Mundial da Rádio, quero lembrar essa figura de um camarada completamente «desalinhado» e «dono» de uma semântica muito própria em que sobressaiam «imagens» ontológicas, a circunstância de cada um – embora integrado na equipa – a verbalização numérica de eventos oficiais/governamentais e que a todos tratava por «sócio», quando argumentava ou pretendia fazer valer a sua opinião.

Não esquecerei, nunca, a tradução inédita do título e/ou do «lead» que marcou uma época: - “seis ministros – seis – estiveram hoje no Porto”. Ao tempo, não foi nada fácil convencer os editores e a direção em Lisboa. Mas o Nuno Faria era assim. Surpresa atrás de surpresa. Contudo, e apesar de entrarmos muitas vezes em choque, não me recordo de alguma vez ter rejeitado as minhas observações. 



O Nuno Faria era Amigo. E foi meu Amigo ao longo dos anos, não só na Rádio. Também no aspeto social. Tanto, que ainda hoje mantenho contacto com a Graça, que foi sua mulher, e com os filhos. Com o Duarte já não estou há uns anos, mas a Rita ainda hoje me trata por «tio». Como «tios» eram, alguns dos mais chegados camaradas do pai.

Através dele «bebi» e fui cultivando a paixão pela Galiza, a Pátria Galega como dizia, e fui percebendo que as amizades, as grandes e verdadeiras, podem começar por um simples acto de desconfiança. Mas não morrem nunca! Num escrito de Dezembro de 2010, aquando do seu passamento, tive oportunidade de esclarecer a forma pouco ortodoxa como se processou o nosso «conhecimento», logo após a nacionalização da Rádio e com a «criação» da RDP. No final deste texto deixo a “ligação” para quem quiser recordar esses momentos. Que foram de grande «turbulência» no nosso processo de aprendizagem democrática. Mas que foram, igualmente, momentos de construção e de manutenção de amizades perenes. 


Ó sócio, diria ele hoje, a «Fenícia» (Lisboa) nunca entendeu o sentido das nossas «reivindicações». E por isso fomos perdendo muita da «força» que conseguimos conquistar, sobretudo na década de 1980 e nos primeiros anos da de 1990. Mas devo esclarecer que nunca esteve em causa qualquer tipo de obtenção de «poder» pela força. Apenas nos movia o exemplo do nosso trabalho numa Rádio em permanente transformação. O qual, no fundo, não deixava de traduzir a «força» económica e social de toda a região norte do país. 




E é assim, sócio! 77 anos de idade – 77 – terias completado ontem. Estejas onde estiveres, tem a certeza de que estamos juntos neste Dia Mundial da Rádio. Grato pela amizade, sempre, Nuno Faria.

António Bondoso

13 de Fevereiro de 2022.

O OUTRO TEXTO COMPLETO EM:

https://palavrasemviagem.blogspot.com/2010/12/volta-de-mim-e-do-mundo.html










2022-01-31


DE UMA PROPALADA ESTUPIDEZ AO BOM SENSO REAL – vai todo o caminho de uma arrojada «surpresa» que milhões de portugueses souberam oferecer no ato eleitoral. Ao «desejado» “empatão”…responderam com um perfeito “empadão”. 

Da Web...

Os portugueses souberam dizer a Francisco Louçã que o governo não estava a fazer de nós estúpidos. E souberam dizer aos jornalistas, analistas e comentadores que a «floresta está muito para além de meia dúzia de árvores»! Curioso não ter ouvido com firmeza as habituais críticas às sondagens.

No meio de tantos corporativismos, de tanta arrogância, de tanta demagogia, de tanta pequenez, de tanto atavismo…houve respostas para muitas questões que se anunciavam «perdidas»!

Houve vencedores? Claro. O PS e António Costa à cabeça. Só ele e o seu diretor de campanha, com humildade e visão, souberam preparar e executar a campanha. E como «choveram» as críticas! Exceto, devo reconhecer e felicitar, o “comentador” João Soares. Foi o único a quem ouvi dizer que esperava uma boa surpresa nestas eleições. E dos outros «ganhadores», quero distinguir a «inteligência» da IL e do Livre. O combate de Cotrim de Figueiredo e a inteligência de Rui Tavares vão ser muito úteis na A.R.

Os grandes «perdedores»? Simples: Catarina Martins e o BE à cabeça, por terem deliberadamente retirado o «tapete» ao governo, chumbando um excelente OE. De igual modo o PCP, que – desta vez – já não foi capaz de repetir a velha rábula de que, mesmo perdendo, ganhavam. Outros perdedores? Sem dúvida Rui Rio e o seu gato Zé Albino, que não perceberam – por falta de estratégia e sem ideias – o beco para aonde conseguiram levar o PSD; depois, seguramente os jornalistas, comentadores e analistas. Uns, porque não conseguiram perceber que a «floresta» não é a «árvore» à sua frente…e outros porque não conseguiram livrar-se do «pensamento normalizado», sendo incapazes de assumir a diferença e ir mais além da rábula popularizada por Ivone Silva: com um vestido preto, nunca me comprometo. E apesar de todo o «carinho» e «entusiasmo» que o P.R. tentou levar aos jornalistas, lá no seu Clube, em Lisboa…devo dizer que a maior parte dos «envolvidos» na campanha eleitoral não foram merecedores de reconhecimento. Foram, isso sim, incapazes de reconhecer o esforço de um governo – liderado por António Costa – que ao longo de dois anos enfrentou, com sucesso [recuperando o emprego e a economia], as enormes dificuldades da maior crise sanitária, económica e social que o país atravessou desde sempre. Essa questão foi completamente ignorada, quer nos debates, quer nas perguntas aos líderes em ações de campanha. Limitavam-se a ser «pés de microfone» e a alimentar o tal pensamento normalizado. Destaco, o grupo Impresa, o Público e até o JN. Basta recordar os títulos (mal) produzidos na campanha. Então aquele de que Pedro Nuno Santos tinha ignorado e virado as costas a António Costa, foi de gritos. E depois…o CDS. Foi um ar que lhe deu! E o imberbe Xicão bem pode «agradecer» a ele próprio – incapaz, mal preparado e sedento de poder – e ainda um agradecimento especial ao PSD, ao BE e ao PCP por terem chumbado o OE. Se não fosse a crise, ainda lá estariam os «passageiros do táxi». Só lamento a desconsideração pelo prestígio do Professor Adriano Moreira.

Agora, com a «maioria absoluta» que muitos vão continuar a menorizar e a complicar – introduzindo infantilmente o fator Marcelo Rebelo de Sousa – talvez se possam redimir, admitindo a espantosa visão e a determinante capacidade de combate de António Costa, capaz de uma inédita «maioria absoluta» depois de 6 (seis) anos de governação intensa para recuperar um país saído das trevas em 2015. 



Da Web...

António Bondoso

Jornalista – CP nº150 A.

Janeiro de 2022.

2022-01-22

ALGUMAS FIGURAS DA MINHA VIDA. 

Apresento-vos hoje o HELDER FERNANDO, um companheiro que é um resistente nos princípios e valores da justiça democrática…e que ainda respira e transpira «informação e comunicação» por todos os poros da vida. 



Ouvi a sua voz à distância – um traço entre Porto e Lisboa – estava a (re) nascer a Democracia Portuguesa em finais da década de 70 do século XX e tinha eu vindo de S. Tomé e Príncipe e ele de Moçambique.

Mas o clima, talvez o PREC ou ainda e de novo a aventura de saber outros lugares, colocaram a «rota de Macau» na vida de HÉLDER FERNANDO nos primeiros anos da década de 80. Foi lá que o «conheci» pessoalmente já no último lustro do século XX, na Rádio e no semanário A Tribuna de Macau. Um tempo atribulado, inquieto, a caminho da Administração Chinesa do Território, depois de uma «presença» portuguesa de mais de 400 anos. 



1 – Helder Fernando. África e Ásia, ano após ano, e agora o repouso na ponta ocidental da Europa. Tanto mundo, Helder! Sempre com a Rádio na «bolsa» do coração?

*** “Sim, sempre com a rádio no coração em tempos e continentes diferentes, tentando acumular concepções, orientações e até motivações vividas, inclusivamente opostas. A partir de 1983 até 2015, a palavra escrita complementou a radiófonica, nenhuma sendo eco ou emenda da outra”.



2 – Foste sucumbindo às mudanças? Reagiste? Ou conseguiste sempre condicionar e limitar a «moldura» de cada lugar?

*** Sucumbir no sentido de não poder resistir ou ir-me abaixo em forma de negação, naturalmente não - até pela razão do apoio à essência real do que motivou essas mudanças: a opressão, a ditadura, a usurpação territorial. O que levou, como sabemos todos, à Revolucão do 25 de Abril, seguida da democratização do regime, à descolonização e à transferência da administração portuguesa em Macau para a RPC, por exemplo. Com as indecisões, erros, avanços compridos e recuos demasiados que cada um de nós pode interpretar como entender.

### Mas foste e tens sido um «resistente»…

*** Sim, resisti e resisto com o que pude e vou podendo, contra a obscuridade mesquinha e velhaca dos que se artilham pesadamente, agora já com poucos disfarces, contra o regime  democrático, minando-o em cada sector, diabolizando-o em cada palmo de terreno; tal como fizeram e fazem contra tudo o que seja a dignificação e justiça social, embora bolsando o contrário. Com impudentes palavrinhas mansas, falsos modernismos de fancaria ou patética gritaria boçal, é como alguns bem instalados vão tentando convencer os mais distraídos.

Com os meios ao alcance, em jornais e na rádio, fui vivendo décadas de algum ativismo por um lado, e denúncia por outro. Uma reportagem no local, pode valer mais que mil discursos; uma entrevista bem dirigida pode ser mais esclarecedora que muitos debates. Meio século percorrido profissionalmente na denominada comunicação social, 10 anos em Moçambique, 8 em Portugal e 32 em Macau, senti-o, como tantos de nós, com picos de enorme responsabilidade e emoção indescritíveis, e momentos assaltados pela dúvida, pela desilusão, pelo quase abalo.



3 – A Rádio sobretudo, a comunicação, a escrita, a palavra, o Jornalismo, a imagem, mensagens com muito conteúdo são memórias boas!

*** A experiência de, na rádio,  integrar a cobertura em direto da Independência de Moçambique, na circunstância longe dos palcos principais, colocado numa carrinha-rádio, nos subúrbios de Maputo, juntamente com uma repórter moçambicana formada num país de Leste, e um motorista, tentando retratar as reações populares longe da pirotecnia barulhenta, luminosa ou discursiva no estádio da Machava onde descia uma Bandeira e subia outra, foi das mais marcantes lições humanas e profissionais que recebi. Tal como, logo posteriormente, as múltiplas iniciativas espontâneas e oficiais que acompanhei. Guardo que foram as 'molduras' mais significantes que vivi e relatei. 



4 – E em Macau, na Transferência de Administração… Acompanhámos/Vivemos as cerimónias juntos nos estúdio da Rádio Macau. Emoções fortes…

E o tempo depois? Correspondeu às expetativas?

*** Exatamente.  Duas dúzias de anos depois, a oriente, a mesma Bandeira descia para outra definitivamente subir. Apenas as particularidades fundamentais foram semelhantes. Nos contextos históricos, bastantes diferenças; a 'questão de Macau', as variantes do relacionamento Portugal-China foram factores que  estabeleceram e estabelecem outros olhares, naturalmente alguns outros sentires. A emoção do relato do momento e dos momentos posteriores, foi grande, mas a coreografia da alegria obedeceu ao estético vigente. Ambos vivemos esse histórico virar de página. Muito mais rico foi o experimentado tirocínio dos anos seguintes: ver, escrever e falar sobre o desenvolvimento da região, acompanhar  a quase completa transformação, organização social e administrativa de Macau. Com curvas apertadas, travagens, derrapagens, decisões críticas, mas imparável modernização.

5 – E em Portugal, Helder, voltando um pouco atrás…ainda há mensagens de conteúdo que «passem» nos média portugueses?

*** Na comunicação social em Portugal a preocupação com o rigor já teve melhores dias. Com as pontuais excepções conhecidas, jornais e audiovisuais atropelam-se na constância dos lugares-comuns, na confrangedora falta de memória, no seguidismo de modas e vassalagens. Estão com dificuldades financeiras e vão definhando e morrendo. Sobretudo perdendo credibilidade. 'Jornais de referência' é praticamente coisa do passado. Preocupante a imensidade de jornalistas a salário mínimo ou estágios sem receber, com carência de crítica profissional, maltratando o nosso idioma, ofendendo a deontologia, alguns cheios de maneirismos envaidecendo-se com os holofotes, a fatiota e o penteado, balbuciando textos copiados e colados, de canal para canal, de jornal para jornal, desbaratando os benefícios da era digital. Não fosse alguma imprensa regional respirando cultura e sentido ético, juntamente com um punhado de profissionais ainda resistentes, e uns poucos que vieram dar ao jornalismo a dinâmica e a clareza com o tecnicismo destes dias, mais um reduzido número de analistas e opinantes estudiosos e competentes, independentemente dos pontos de vista, e já nem valeria a pena olhar para os títulos pendurados num quiosque, ou saber das notícias para além das que nos chegam ao minuto, ao telemóvel.

Será bom lembrar que, apesar do universo da nossa Língua ser relativamente reduzido em Macau, e apesar de outras dificuldades, os jornais de língua portuguesa ali publicados são profissionalmente muito mais eficazes, capazes e indispensáveis do que muita imprensa entre nós.



6 – E os livros? E a Poesia? Companhia permanente, sendo tu um homem de Cultura. Há uma «Literatura» pujante em Portugal?

*** Felizmente os nossos poetas e prosadores em atividade prosseguem encantando-nos, pensando connosco e desbravando-nos caminhos. Na ficção mostrando-nos realidades, na poesia suscitando-nos paletas para meditar, no ensaio perspectivando a nossa reflexão. As comunidades de jornais na internet, alguns muitíssimo bem conseguidos, mais os bloggers e diferenciados autores de posts, por vezes podem mostrar-nos prejudiciais farrapos disparatados mas, por outro lado, consumindo com critério as novas estradas tecnológicas, temos muitos exemplos que nos habituam à rapidez de reflexão, a conjuntos de concepções e ideias não imaginados, a propostas de terminologias novas, sobretudo extensa pluralidade com carácter de urgência.



 

6 – Não me esqueço – como poderia – da (con) vivência com Estima de Oliveira. Tu e ele foram figuras decisivas na minha aventura da Poesia, com aquele EM MACAU POR ACASO (1999) …

*** Mesmo estando desativado profissionalmente, sinto a felicidade de ainda conviver,  não tanto como gostaria, com artistas, poetas e prosadores africanos, europeus e asiáticos. No necessário enquadramento social destes dias, faço por mantê-los como minha companhia,  consumindo o possível do que escrevem, dizem, pintam, tocam,  enfim constroem cultura nas variadas polissémicas e metafísicas. Para personalizar o primeiro exemplo, permite-me sublinhar que, mesmo à distância, vou acompanhando a tua atividade literária, António Bondoso, muito ajudado, é certo, pela generosidade que possuis. Ou a exemplar e pujante criatividade do poeta e prosador António Correia, que por Macau, Ceará, ou da sua Casa da Poesia em Resende, nos enche a alma de palavras mágicas. Como, também, o poeta e médico José Brites Inácio que, como observas, camarada, nas tuas Palavras em Viagem, ‘canta as belezas da vida e do Douro’. Como António Conceição Júnior, luminoso artista de tantas artes e da palavra profunda, o mais portuense de todos os portugueses do oriente. Ainda como o nosso querido Alberto Estima de Oliveira que por Angola, Macau e Portugal nos inundou de multiculturalismo, de genial visão do mundo, de poemas inesquecíveis, obra literária que tanto marcou e marcará tantos; mesmo não morando por aqui, o Alberto habita bem presente nas leituras, nas memórias, nos estudos académicos sobre o que escreveu. A palavra poética dele também inspirou o virtuoso violinista Carlos Damas, com concertos por todo o mundo, que morou em Macau, e que por volta de 1999, comigo se juntou em estúdio, para o registo formal desses encontros quotidianos da palavra.

Para mencionar ao de leve apenas alguns amigos comuns, ficando imensos por referir. 

### Claro que sim. Sei que o teu «arquivo» é imenso. Mas agora é o Algarve…O Algarve para descanso do espírito e nova oportunidade de conhecer «o Puto»…e de provar e saborear um excelente Terras do Demo.


Helder Fernando – de Moçambique a Macau, onde o conheci na Rádio. Por ali trabalhámos juntos, não me esquecendo de que ele valorizou – dando-lhe voz – o meu projeto “MACAU – O ORIENTE DA HISTÓRIA”, uma série de 31 programas que passaram em muitas rádios locais em Portugal, nesse ano de 1999.

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António Bondoso

Janeiro de 2022.