2023-03-18


O MUNDO VISTO DO MEIO…ou de como o jornalismo se afirma como literatura. Uma velha questão que a jornalista/escritora Conceição Lima, de S. Tomé e Príncipe, ressuscita no seu livro mais recente com o título mencionado. Um livro de crónicas (apesar de já com algum tempo conseguem transmitir atualidade) – talvez uma das «vertentes» mais nobres do jornalismo – às quais a autora acrescenta o que chama de «Um auto do século XX», datado de 2021 e que refresca o dramático ano de 1953, atualizando o «pensamento» sobre o designado Massacre de Batepá. 


Da Web

         É mais um texto sobre a minha ideia genérica de “UM LIVRO DE VEZ EM QUANDO”, sendo que este da São Lima também não me surpreende. A autora merece a distinção de grande Poetisa e, para mim, igualmente o louvor de uma jornalista completa. É sabido que a «crónica» expõe, talvez como nenhuma outra face do jornalismo, o seu autor. Mas a credibilidade da «crónica» depende sobretudo da solidez dos argumentos que oferecem honestidade à opinião de quem escreve. E tudo isso está patente nos escritos que a São Lima nos apresenta neste O MUNDO VISTO DO MEIO. 


Da Web

Não me parece ser a «crónica» uma vertente do jornalismo com muita tradição em STP. Recuando um século, mais ou menos, vem à memória o celebremente pouco conhecido Mário Domingues, também ele um jornalista são-tomense, mas no Portugal europeu, que aos 17 anos entrou pela ficção e que publicou a “Audácia de um Tímido” em 1923. Escritor, editor, tradutor, publicista, historiador – mas sobretudo anarquista – Domingues foi também um devotado jornalista que cultivou o género da crónica em algumas revistas e jornais portugueses.

Para este género de jornalismo é preciso uma grande dose de coragem, particularmente num meio pequeno como é este país insular africano. E essa coragem tem custos, claro. A autora assumiu a sua independência e tem pagado por isso ao longo dos anos. O que não a impediu agora de valorizar os textos publicados, alguns em tempos não muito remotos, carregados de fortes críticas sociais e políticas. É sobretudo esse o mote, aliás bem destacado pela São Lima na sua “Advertência” inicial, quando – numa imagem britanicamente fleumática – entende ser ancestral a razão de chamar tudo pelos nomes, como forma de celebrar por exemplo a nomenclatura das espécies da flora e da fauna insulares: os seus sons, a sua pronúncia, a sua grafia, a beleza da sua singularidade. 


Da Web

Volto ao início da minha «crónica» para enfatizar mais dois ou três pormenores. Primeiro, o título do livro. O MUNDO VISTO DO MEIO faz-me lembrar uma das designações de STP como as Ilhas no meio do mundo, situadas no Equador do Golfo da Guiné e muito próximo do meridiano de Greenwich. Depois, algumas crónicas deliciosas nas quais recorda por exemplo a «combatente» Alda Do Espírito Santo, o Riboquense Carlos Teixeira que eu conheci na Embaixada em Lisboa ou do músico José Aragão de Os Leoninos e dos Úntués.

Não querendo revelar todo o conteúdo, há outras que não posso deixar de nomear, como por exemplo “Carta à Apolinária” escrita também na variante são-tomense do português, na qual se destacam as mudanças da «terra»: “Genti come bunzu assado, caldêrada di bunzu, espetada de bunzu, caril di bunzu, bunzo refogado com coco, bunzu refogado sem coco. (…) Tera mudô muiiito, Apolinária. Quem diz qui terá non mudô, tá com olho fêchado ô tá a vê pulitika só”.  

Ainda um interessante conjunto de três, sobre o «Lôgozo sapiens», o «Lôgozo médio» e o «lôgozo subalterno». A tipificação clara daqueles cidadãos a que se dá o nome de “chicos espertos”, perfeitamente definido o estrato social de cada um. O último, particularmente, faz-me lembrar quase como que o «bisneiro» descrito por Lúcio Amado. Convém esclarecer que «lôgozo», na língua forra são-tomense, é o nome de uma personagem ludibriadora que São Lima atribui ao Txiloli, a mais importante manifestação teatral (de rua) de São Tomé. Contudo, há também quem a atribua a uma personagem do «Dansu-Kongo» que passa de guardiã a usurpadora. 



Para terminar volto à questão de o jornalismo ser ou não literatura. Eu acho que é ou, pelo menos, deveria ser. Grandes e considerados jornalistas o disseram. E também Frederico Gustavo dos Anjos, no seu prefácio, considera que “Este livro é, para mim, uma linda poesia! No que tem de cor, de palavras, e do que tem para dizer aos leitores acerca da sua autora, da sua realidade e dos seus sonhos ou das suas aspirações”. E já que estamos perto da «Quadra Pascal», fica a memória da Conceição Lima sobre o sábado de aleluia e a Sexta-Feira Santa nas Ilhas: “Quando eu era pequena, parecia que até a natureza ficava melancólica, que os ramos e as folhas das árvores não se mexiam, não havia vento, nem brisa. Hoje, as árvores mexem-se alegremente, o vento faz dançar os seus cabelos. Se calhar, eram os meus olhos que viam a natureza através do profundo recolhimento dos adultos, em estado de luto pela morte de Cristo”.

Vão gostar de ler e de perceber este MUNDO VISTO DO MEIO, que a Conceição Lima fez publicar na Caminho e que, recentemente, foi apresentado em Lisboa.

António Bondoso

Moimenta da Beira e Vila Nova de Gaia, Março de 2023. 







 

2023-03-07


FIZ E TORNARIA A FAZER…ou de como uma frase convictamente plena de princípios, levou uma de muitas jovens portuguesas e estrangeiras às prisões do Estado Novo.

         O nome de Belarmina Augusta de Oliveira Lopes é um dos 1755 inscritos no livro “ELAS estiveram nas prisões do fascismo”, editado pela URAP (União de Resistentes Antifascistas Portugueses) em 2021 e dedicado a “todas as mulheres portuguesas que, em tempos de medo, silêncio e opressão, contribuíram com palavras e actos de resistência para construir o nosso caminho solidário para a liberdade e a democracia”. 



Belarmina Lopes, falecida há meia dúzia de anos, carregou – na sua vida centenária – o sofrimento da prisão em 1936 e 37, na Cadeia da Relação do Porto, provavelmente na habitável memória da cela que foi de Camilo Castelo Branco. Natural de Vimioso, a jovem Belarmina estudou e cursou o Magistério Primário na Escola Normal do Porto, onde foi vigiada e detida pela PVDE. O seu «Exame de Estado» foi mesmo efetuado sob vigilância policial. Na prisão, sofreu nomeadamente a tortura do sono e o isolamento sofredor da «solitária».

         Por que razão foi presa? Pela pronúncia da simples frase inicial deste texto perante um juiz, na sequência da sua atividade na organização de solidariedade que dava pelo nome de «Socorro Vermelho Internacional». E daí? – perguntará quem não conhece. Se pensarmos a época, só a palavra «vermelho» já seria motivo de controvérsia. O caso é que a “SVI” foi criada pela Internacional Comunista em 1922, ano da fundação da União Soviética, com o propósito de ajudar na criação de organizações que prestassem auxílio material e moral a todos os «prisioneiros do capitalismo». A "Socorro Vermelho Internacional", também conhecida pelo seu acrónimo russo MOPR, foi extinta em 1941, depois da sua importância internacional ter diminuído – embora a «filial» soviética só tenha terminado em 1947.

Muitas das mulheres presas neste período, tanto em Portugal como em Espanha – sobretudo – mas também em outros países como Marrocos, Polónia, México e Reino Unido, terão igualmente pertencido à SVI, mas outras militaram por exemplo na “Associação Feminina Portuguesa para a Paz”, nascida em 1935, ou no “Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas” – CNMP. Domésticas, operárias e estudantes constituíam a maior parte das detidas, embora houvesse também professoras, artistas de cinema e de teatro da Áustria, Hungria, Vimioso e da Alemanha, bailarinas da Itália e da Áustria, enfermeiras de S. Tomé e Príncipe e de Cabo Verde, uma intérprete da Holanda, uma engenheira da Rodésia, e uma redatora de Angola.

No seu conjunto, as mulheres espanholas foram das que mais tempo passaram nas prisões, nomeadamente uma na cadeia de Moura, nos anos de 1937, 43, 44 e 46; e uma outra em estabelecimento desconhecido, nos anos de 1948, 50, 51 e 53. No entanto, a campeã foi a portuguesa Engª Virgínia Moura, presa no Porto nos anos de 1948, 49, 50, 52, 53, 54, 55, 56, 57 e 1962. Embora alguns dados da «lista» das mulheres presas não sejam muito precisos, neste livro da URAP, podemos destacar outros casos: - Maria da Conceição Alves, em Monção, nos anos de 1946, 1963, 64 e 66 várias vezes; Maria dos Santos Machado, de Oeiras e professora em Lisboa, nos anos de 1936, 1945/47, 1953/54 e 1956; Teresa de Jesus Paz, comerciante de Arcos de Valdevez e presa em Monção, nos anos de 1957, 58, 59,1960, 62 e 63. 

Talvez por alguma ironia, digo eu, há o caso de Leonor de Oliveira Coelho, pirotécnica de Santa Comba Dão, detida em Lisboa em 1937 e quero ainda destacar alguns casos de «proximidade» com o meu percurso: - em 1933 foi presa em Lisboa a peixeira Maria Augusta, nascida em 1898 em Moimenta da Beira e, também de Moimenta da Beira, a doméstica Elisa Dinis foi presa em Monção nos anos de 1951 e de 1959. De Torre de Moncorvo, a «manicure» Maria Beatriz Duarte foi detida em local «desconhecido» em 1936; e também da mesma Vila e concelho, a doméstica Maria do Rosário Flores ali foi detida no ano de 1945.

Das ex-colónias, todas «representadas» no processo, toca-me particularmente S. Tomé e Príncipe com 11 casos referenciados: a professora Alda Neves da Graça do Espírito Santo esteve presa em Lisboa entre Dezembro de 1965 e Fevereiro de 1966; Andresa da Graça do Espírito Santo, doméstica, detida na mesma data, tal como Ema de Oliveira Baptista [Batista] de Sousa. Já a estudante Joana da Costa Sousa Aragão havia sido presa em Coimbra, em 1961. No mesmo ano e na mesma cidade de Coimbra foi detida a também estudante Margarida Pinto Tavares Neves. Voltando ao período de 1965/66, igualmente em Lisboa, foram presas as domésticas Maria da Piedade Marques de Alva e Maria do Espírito Santo da Graça e ainda a estudante Maria de Lourdes [Lurdes] Meneses de Alva Bragança Gomes Torres. Nesse mesmo período negro para STP, foram detidas em Lisboa a enfermeira Odete Quaresma Soares de Barros e a doméstica Otília Sobral Sequeira Bragança. Já em 1962, foi presa em Valença a que viria a ser a influente escritora Maria Manuela da Conceição Carvalho Margarido, no livro referida ainda como doméstica.

Regressando ao «caso» de abertura deste meu texto, à professora Belarmina Augusta de Oliveira Lopes, que se formou na Escola Normal do Porto, quero ainda destacar que ela começou por lecionar em Argozelo, concelho de Vimioso e depois em Miragaia, concelho da Lourinhã. As suas posições na luta pela condição feminina e que, recordo, a levaram à prisão, foram motivo de «afastamento» de alguns familiares. Talvez por isso tenha decidido rumar a Lisboa onde, já casada, Belarmina Lopes cursou Ciências Pedagógicas e foi mãe de duas crianças. Ambas, a Maria José e a Maria do Rosário Praça viriam também a seguir a profissão de professoras. E um caminho de liberdade, como diria Aquilino Ribeiro: “Adiante e consideremos que para chegar a bom termo da viagem é preciso ser livres”!

António Bondoso

Março de 2023. 


 


 

 

2023-02-21


UM LIVRO DE VEZ EM QUANDO…ou o «feitiço» da literatura que me traz “O meu país do sul”. Proponho desta vez recuperar a «conterrânea» Goretti de Pina e o seu livro de contos “BAIADO” – dez histórias sobre São Tomé e o Príncipe que, no olhar interessado da própria autora, refletem “vivências, costumes e algo mais que não sei bem definir, no país do meio do mundo”. 


Baiado – mais modernamente «Bayadu» – significa “enfeitiçado” ou que trata de matérias relacionadas com o feitiço ou com algo do sobrenatural. Lemos e percebemos o conto “Feijão n’água” – nome de um antigo e fatal feitiço na ilha do Príncipe – que funcionava sobre a pessoa a quem era destinado, conforme o ritmo da maré. São as amarras dos costumes locais, diz Abílio Bragança Neto no seu prefácio, mostrando as “agruras de ser e viver um quotidiano aprisionado a regras sociais que asfixiam, desesperam e despersonalizam”. É que, consultar um curandeiro, é uma prática muito antiga: «Záua di piá sá kuá ku nón bili uê contlá». E na luta contra esta situação estranha…estão as mulheres. São elas o principal rosto que a autora Goretti Pina desenha nas páginas do seu livro, falando da coragem para tentar esvaziar séculos de mitos e de crendices, e revelando coragem para atribuir essa tarefa à «Mulher», às mulheres de coragem de STP. 



         Numa linguagem direta e sem sofismas – na qual tudo se percebe, apesar de algumas gralhas e falhas editoriais na revisão do texto – a autora coloca-nos facilmente dentro das histórias, escrevendo no melhor da «língua portuguesa», pese embora em três ou quatro situações não poder «fugir» ao encantatório português falado nas ilhas. Lembro-me deliciado do “Mata Sete” quando se lê: “Prima, não fala assim, não hem. Não toma pecado com praga de mundo pôr no corpo de prima. Coitada dela! Isso de certeza que é qualquer coisa que fizeram pra ela. Qualquer plassela, ou qualquer homem que ela não deu confiança é que fez ela esse trabalho, prima pode apostar!”.

         E em cada história deste “Baiado”, Goretti Pina aproveita para dela tirar a sua «moral». Como por exemplo em «Os Compadres e o Sol», lá está o testemunho dos astros a dizer que o crime não compensa. 



         Por outro lado, o livro tem o condão de me trazer locais de memória, tanto em S. Tomé como no Príncipe. Desde a Baía de Ana Chaves e da Ponte Cais à Avenida Marginal, desde o Jardim das palmeiras em leque à Casa Sacadura Cabral, desde Simalô (Chimalô) à roça de Belo Monte – de Maria Correia – com a sua imponente Praia do Precipício, hoje famosa como Praia Banana.

         Para além de acompanharem esta preciosidade literária de Goretti Pina, conselho que renovo, o que mais vos posso desejar é que “Dêçu ká dá bô vida ku saôdje ku tudo kuá ku buado ni vida bô”.

         Baiado tem edição da Colibri (2022) e oferece uma capa maravilhosa baseada num quadro com o traço inconfundível do artista Manuel Xavier representando uma dança tradicional africana – a puíta.



António Bondoso

Fevereiro de 2023. 


2023-02-18


UM LIVRO DE VEZ EM QUANDO…ou de como parece tudo poder começar na literatura infantil ou infantojuvenil. 



Desde sempre, os temas difíceis foram, de algum modo, tratados na literatura infantil, apesar das reservas que a sociedade pode ou não ter em relação à sua abordagem junto dos mais novos. Se por um lado a Humanidade procura proteger as crianças destes temas mais complexos, esta proteção não pode nem deve ser confundida com ignorância, relativamente a acontecimentos ou a aspetos com os quais os mais jovens se podem vir a confrontar.

(AZEVEDO, Fernando; BALÇA, Angela; SELFA SASTRE, Moisés (2017). Os conflitos bélicos e a criança na literatura infantil. Perspectiva, 35(4), 1141-1156. 

         Vem isto a propósito dos tempos que vamos vivendo, claro, mas sobretudo de um livro que acabei de ler. Tem por título “A CIDADE QUE DEIXOU DE SORRIR” e sobre o qual eu percebi que, na literatura infantojuvenil, há histórias que podem espelhar um país ou o mundo em momentos particulares. 



         O livro de que falo e que integra o Plano Nacional de Leitura é da autoria de Milu Loureiro, publicado em 1ª edição em 2018 e reimpresso em 2022. É natural que a «ideia» tenha sido «bebida» nas dificuldades de um cotidiano de alguma forma perturbador e inquieto, pois exemplos não têm faltado. Depois dos anos da Troika e da difícil recuperação económica e financeira, a «pandemia» quase não deixou respirar a sociedade e – ainda numa fase crítica de «rescaldo» – sobreveio nova guerra em território europeu.

                   Portanto, entrando mais diretamente no que me traz aqui – que é o livro da Milu Heitor – à época em que a história foi idealizada, tal como hoje, “A vida na cidade ia de mal a pior e a tolerância era menos que zero”. E para além das discussões que se sucediam, “muita vezes passava-se ao uso da força”. Por outro lado, toda a gente reclamava e chegou-se ao ponto de “os filhos não respeitarem os pais e estes não terem paciência para eles”. 



         Buscando novamente Ângela Balça (2007), citada por Vera Lúcia Correia Mota em dissertação de mestrado (2019), temos que “Para formar leitores literários é necessário facultar as ferramentas adequadas − suportes escritos de qualidade −  bem como orientar os leitores no sentido de criarem novas perspetivas, de modo a torná-los «capazes de ler uma obra literária de forma competente, crítica, reflexiva, leitores capazes de olhares plurais, múltiplas leituras e distintas interrogações sobre o texto literário»”. E é também isto que nos oferece Milu Loureiro, nesta sua “CIDADE QUE DEIXOU DE SORRIR”, independentemente do facto de a história ter um final feliz – uma das características da literatura infantil, para além, claro, dos aspetos didáticos e pedagógicos. 



                   O livro tem a «chancela» da editora SANA e tem capa e ilustrações da própria autora. Vale a pena ler e seguir o trajeto desta licenciada em Filologia Românica, natural de Aguiar da Beira e que, deixando de ser Professora Bibliotecária, passou a «ensinar» pela escrita, pela narração oral e até pela confeção de tapetes narrativos, aventais e livros de pano.

António Bondoso

Fevereiro de 2023. 


 

2023-01-30


O MASSACRE…E A SOMBRA! Ou de como se assinala este ano o 70º aniversário dos acontecimentos de humilhação e de violência gratuita em Fevereiro de 1953, em S. TOMÉ, CIDADE, BATEPÁ, FERNÃO DIAS e  PRÍNCIPE, quando a morte saiu à rua: 


Da Web

--- «(…) O passado histórico não se vive todos os dias, mas vive-se eternamente. Porque há que lembrar!...E não se pode consentir que se repita». É uma síntese com um forte poder simbólico que me é transmitida por Frederico Gustavo dos Anjos, licenciado em Estudos Alemães mas que é sobretudo Poeta e ensaísta santomense.

--- «(…) a celebração do 70º aniversário do “Massacre de Batepá” no corrente ano será num quadro de elevadíssima tensão política, com uma sociedade dividida, temerosa, desesperançada, ao ponto de, sem rodeios, questionar a soberania.(…)»:- Alcídio Montóia, economista e pensador santomense, igualmente em testemunho a este meu blogue PALAVRAS EM VIAGEM.



O MASSACRE:

A.B. - Massacre, Revolta, Inventona ou “Guerra Inventada” pelo regime colonial português em S. Tomé e Príncipe em Fevereiro de 1953, à espera de que a memória do novo país vire a página negra e a catarse se feche. Mas a efeméride acontece num clima de tensão, nada favorável a um momento reflexivo. Pode deduzir-se dessa frase que Alcídio Montóia me escreveu, depois de aceitar o “desafio” que lancei nos seguintes termos: Dos 70 anos passados sobre a «revolta/massacre» de 1953, mais de metade já o foram depois da independência. Pode afirmar-se que a «data» é uma etapa já exorcizada pelo país, pelos dirigentes e pela população? Ou ainda não foi possível concluir a catarse?

ALCÍDIO MONTÓIA. - Enquanto houver testemunhas vivas dos nefastos efeitos dos grotescos acontecimentos de fev'53, dificilmente a catarse poderá ser dada como fechada. Por outro lado, tendo os acontecimentos de 1953 espoletado sentimentos soberanistas, que culminaram com a independência em 1975, agravados pela constatação de que a justiça não foi feita (Gorgulho não foi julgado e muita documentação ainda está como classificada ou extraviada) e perante o fraco desempenho económico e social do país nestes quase 50 anos de independência; há uma preocupação da classe política em manter esse episódio muito presente e sistematicamente revisitado, dado que é praticamente o único que ainda consegue agregar toda a sociedade e trazer para o presente os fantasmas do colonialismo. 


Da Web - Monumento aos Mártires de 1953

A SOMBRA:

A.M. - Ainda assim, perante os bárbaros acontecimentos de 25/11/2022 e a constatação de que, afinal, a capacidade para, gratuitamente, praticar o mal não é um exclusivo do colonialismo e a crescente cristalização na opinião pública do conceito de “colono forro”, assiste-se, de certa forma, a um relativizar dos acontecimentos de 1953 e a trazer à baila, ainda que em surdina, os “inconfessados pecados” da elite forra que alimentaram o clima de desconfiança entre a governação portuguesa e os ilhéus em 1953.

A.B. - Que fatores mais têm contribuído para isso? E o «ensino/aprendizagem» da História?

A.M. - Consequência de ter sido, durante décadas, objeto de exploração exaustiva para fins políticos e como agregador de uma consciência nacional que tarda em se afirmar, proliferam descrições mal fundamentadas do massacre, com impacto negativo sobretudo nos mais jovens. Enquanto subsistir esse peso estrutural do “Massacre de ‘53” na definição da nação, dificilmente o tema poderá ser abordado de forma factual e despido das emoções necessárias à afirmação da identidade.

De resto, a celebração do 70º aniversário do “Massacre de Batepá” no corrente ano será num quadro de elevadíssima tensão política, com uma sociedade dividida, temerosa, desesperançada, ao ponto de, sem rodeios, questionar a soberania. Muito possivelmente, a classe política, ladeada pelos “pais-fundadores-da -nação”, receosa da reação popular, apavorada e, muito provavelmente, ainda sem conhecer as conclusões do inquérito judicial aos acontecimentos de 25/11/2022; aproveitará a ocasião para ensaiar discursos pouco convincentes de reconciliação e de apaziguamento de espíritos. Veremos como será.


Da Web - Mortes em 25 Nov. 2022

A.B. – Por sua vez, FREDERICO DOS ANJOS não sobrepõe os acontecimentos de 1953 e de 2022, salientando que o recente 25 de Novembro foi “tão somente um momento de «perversão», embora também condenável e irrepetível”:

F.G.A. – São momentos históricos diferentes com contornos cada um deles únicos. Páginas de sangue e luto não se "apagam" com o tempo. Pode acontecer que se "referenciem" diferentemente através de gerações já que a cultura evolui no tempo, mas não deixarão de ser  marcos sobre os quais o futuro se edifica retomando sempre o simbolismo do que não se deve repetir. Sobre isso não há espaço para dúvidas: "non na ka pô kunxintxi 53 bilá bi fa." O 25 de Novembro de 2022 é tão somente um momento de "perversão". Também condenável e irrepetível.
O passado histórico não se vive todos os dias, mas vive-se eternamente. Porque há que lembrar!..."

         A.B. - Dos dramáticos efeitos/consequências dos acontecimentos desse longínquo ano de 1953, já largamente investigados – apesar da ideia de Alcídio Montóia de que “a justiça não foi feita (Gorgulho não foi julgado e muita documentação ainda está como classificada ou extraviada) – pouco mais de relevância haverá a acrescentar. Contudo, e como contraponto ao eventual desalento que se vive hoje em S. Tomé e Príncipe, fui recuperar uma recente declaração de Ana Maria Cabral, viúva de Amílcar Cabral, nos 50 anos da morte do líder africano, questionada pela Radio France Internacional sobre o legado de Amílcar e sobre se ainda vale a pena lutar em prol do pan-africanismo: “(…) O mundo já deu tanta volta, está tão estranho e já não tem nada a ver com o mundo daquela altura. Mas acho que vale sempre a pena lutar pelo pan-africanismo, porque há muitos tabus ainda a vencer. Foram muitos anos de colonização em África, há muitos preconceitos ainda sobre África, de maneira que é preciso lutar contra tudo isso, contra todos esses preconceitos, essas alienações, digamos assim, das quais os africanos ainda não conseguiram libertar-se. (…)”. 

Da Web- Monumento aos Mártires de 1953.

António Bondoso

30 de Janeiro de 2023.

Complementos da História em vídeo:

https://youtu.be/ubfAX8QdDd0







 

2023-01-26


E ASSIM SEGUIMOS CEGAMENTE…SOLIDÁRIOS!

Nas suas zonas de conforto, de alimentação e dormida dignas, há quem possa andar por aí…

O sol nasce...para todos!

Infelizmente, já poucos pensam na pandemia – ainda em rescaldo preocupante – e poucos refletem sobre a pobreza extrema, enquanto muitos esquecem a violência da guerra (de guerras mais precisamente) e as suas consequências dramáticas. Mas as guerras ficam longe, não são da nossa conta, pouco importa que morram 5 ou 500…«eles» que se entendam. Por cá, no “Ocidente” não é importante perceber se os cereais faltam – e as razões – e se os combustíveis aumentam. Fundamental é reivindicar, protestando, esquecendo passados implicados.

Mas isso não interessa nada. É apenas um devaneio meu, implicado com as (e nas) palavras.   

E assim seguimos cegamente solidários…até ao próximo estrondo!

Força portugueses, só vos faltam as qualidades para um «povo inteiro», como dizia Almada. 


Muito nevoeiro no Vale das 3 montanhas

António Bondoso

26 Janeiro 2023. 




 

2023-01-21


FAÇAM DE CONTA QUE EU NÃO ESTOU CÁ…embora saiba dos abutres e das excrescências que se vão lendo e ouvindo. Passo, apenas para dar o meu recado a António Costa. 


         Sei da tua fibra e do teu caráter. Por isso, adivinho que serás incapaz de «abandonar o barco», sobretudo numa altura muito difícil para o país – a guerra e a inflação – para além do «milagre» que é fundamental acontecer para que a economia não se afunde. E depois…essas «oposições» de bandarilha, analfabetas mas de facas afiadas, prontas para o assalto ao «poder» a qualquer custo. Cheira-lhes aos quentes aromas dos «fundos europeus do PRR». Até os sindicatos dizem que há muito dinheiro.

         Acresce o comportamento, quantas vezes menos ético do PR, a distribuir humilhações ao governo – por muito que ele seja ineficaz e trapalhão – desautorizando permanentemente a tua figura de «primeiro-ministro».

         Sabes que ele pretende governar com o parceiro ideológico natural, embora sabendo igualmente que MRS percebe que ninguém está preparado para o fazer nesta conjuntura muito difícil.

         Por isso, entendo que já é tempo – o ponto de não retorno – de não mais permitires humilhações quase diárias, e em direto nos média. No teu lugar, não estaria preocupado com o futuro, a não ser com aquele que é objeto da governação: os portugueses. Mas se até as «sondagens», mal ou bem orientadas pela opinião publicada, te colocam numa situação desagradável…não deves hesitar. Deixa o dilema para quem só pensa no poder. As revoluções trituram sempre os seus mentores.

         Como me disse um dia o Bispo D. Manuel Martins, …Qualquer poder corrompe. E todo o homem sonha Poder. Pormenorizando em seguida o Poder Político “ o mais nobre dos Poderes” (lembrou Pio XII uma das formas mais nobres da caridade), o Bispo Emérito de Setúbal frisou que ele pode, infelizmente, “dar em portas abertas para corrupção, injustiças de toda a ordem, boyismo, vaidades pessoais e familiares. Porém é uma função nobre. É uma das funções mais nobres. Exerce-se com autoridade confiada (eleições) em vistas a realizar um serviço inteiro, competente, feliz, a toda a Comunidade. «Eu sou tu». Político versus Sociedade”. 


Dia bom…e façam de conta que não leram.

António Bondoso

Janeiro de 2023. 


 

2023-01-20



No tempo da «outra senhora» não era permitido publicar notícias más ou desagradáveis…nos tempos que vão correndo esquecem-se as notícias boas e positivas ou, simplesmente, vão sendo «varridas» e empurradas para baixo dos computadores. 

É como que uma «escola» seguidista, sem criação e – quantas vezes – até mesmo sem reação. Dito de outra forma, são os média «justiceiros», não lhes bastando o poder de escrutínio e de crítica. O «Populismo» começa aí, sem dúvida. Embora o PR diga que “escrutinar governantes não é populismo”. E não esquecendo que ele próprio foi distribuindo publicamente «guias de marcha» a Ministros e a Secretários de Estado, esquecendo o dever institucional do recato, cedendo – naturalmente – ao populismo. Agora, contudo, diz não se pronunciar sobre casos concretos.  

         Vai daí, lembrei-me que poderia legitimamente «formar» o que se pode designar como O MINISTÉRIO DOS «MÉDIA». Omniscientes, Omnipresentes e Omnipotentes, desfilando ou fazendo desfilar uma enormidade de especialistas e de comentadores.

Todos juntos, descobriram recentemente que, afinal, o governo não tem apenas 10 meses de maioria absoluta. O «desgaste», dizem, já vem de 7 anos de governação anterior. Uma conclusão de alguma verdade, não se desse o caso de – desde 2015 – os ministros terem entrado e saído ou simplesmente terem mudado de pastas, de acordo com a necessidade de ir ultrapassando as dificuldades que foram surgindo. Todos sabemos quais foram e vão sendo. Como sabemos, igualmente, que nem sempre as escolhas são fiáveis. E de repente, alguém se lembrou da «ética republicana». Que não se deve limitar aos governantes e aos políticos de uma forma geral, incluindo o PR e as oposições, para já não falar dos média. Que, do meu modesto ponto de vista, poderiam formar, mais ou menos assim, o «Novo Ministério»: 




RTP = 1ºM, Ministros De Estado e das Comunidades.

SIC = Infraestruturas e Propaganda

TVI = Economia e PRR

Público = Assuntos Parlamentares

JN = Finanças e Descentralização

Observador = Nomeações e Negócios Estrangeiros

CM = Entretenimento e Fait Divers

Lusa = Ética Republicana.

DN = Cultura. E História e Geografia, para além das «Artes», claro.

====Deixo ao vosso critério o desafio de um exercício com resultados diferentes. E não resisto, mais uma vez, a recuar aos tempos das «farpas» de Eça e de Ramalho:       
“(…) Portugal, não tendo princípios, ou não tendo fé nos seus princípios, não pode propriamente ter costumes.

Fomos outrora o povo do caldo da portaria, das procissões, da navalha e da taberna. Compreendeu-se que esta situação era um aviltamento da dignidade humana: e fizemos muitas revoluções para sair dela. Ficámos exactamente em condições idênticas. O caldo da portaria não acabou. Não é já como outrora uma multidão pitoresca de mendigos, beatos, ciganos, ladrões, caceteiros, que o vai buscar alegremente, ao meio-dia, cantando o Bendito; é uma classe inteira que vive dele, de chapéu alto e paletó.

Este caldo é o Estado. Toda a Nação vive do Estado.” (…) Ou quer e pretende viver!

António Bondoso

Janeiro de 2023. 


 

2023-01-17



Apresento-vos um «Romance» de pequenas histórias (2008) que liga o Porto a Angola e a S. Tomé e Príncipe, durante a «Guerra Colonial». 

UM LIVRO DE VEZ EM QUANDO…ou de como dar uso às memórias, num tempo em que a memória é curta. E viajar, pelas palavras, a latitudes outras que também me marcaram em África – como é o caso das que escreveu António Cadete Leite, médico, professor universitário e escritor, que nos deixou fisicamente em 2016. MEMÓRIAS COLONIAIS, de 2008, foi um dos livros com que nos brindou, editado pela Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. 

         E é dele que me tocam algumas das histórias, nomeadamente de Angola, com passagem em S. Tomé e Príncipe, abrindo – ainda antes do «prefácio de Francisco Duarte Mangas» – com um soberbo desenho do saudoso mestre José Rodrigues. 



         Este livro de Cadete Leite quase me parece um «romance» de ou com pequenas histórias – no fundo, todos passam por aí – no qual há uma narrativa perfeita de um romance comum adaptada, naturalmente, às breves circunstâncias de cada momento de ação.

         A escrita do autor facilmente nos coloca dentro do «ambiente» de cada história, mesmo para quem não esteja familiarizado com o tema, o espaço e o tempo – o antigo “Ultramar” e a “Guerra Colonial”.

         Com uma linguagem simples e direta e com diálogos vivos até à quebra do «suspense», como no caso do “Viajante Clandestino”, o médico Cadete Leite foi passando um relato breve das suas vivências em Angola, escolhendo situações que o marcaram, não só pelo inédito mas também pela excentricidade de cada história. Das várias, volto ao «Viajante Clandestino» para recordar o insólito de um pedido do então (1966) ministro do Ultramar – Silva Cunha – dirigido ao então governador-geral Silvério Marques, a fim de tentar conseguir, nos “Estados Gerais Universitários de Angola” [Cadeira de Anatomia do Curso Médico-Cirúrgico], um «esqueleto» para que a sobrinha do senhor ministro pudesse preparar, no sossego do seu domicílio em Lisboa, a difícil disciplina. Eram peças caras e não abundavam nas Faculdades no Portugal metropolitano. Angola ia avançada, portanto. E o esqueleto lá conseguiu passar nas malhas da «Alfândega», numa mala de madeira envernizada e com pega de couro.

         Uma outra, que também envolve o saudoso Professor Nuno Grande, camarada de Cadete Leite no Laboratório de Anatomia, em Luanda, tem a ver com a atitude (demasiado) protetora da mulher de outro governador-geral – Rebocho Vaz – quando pretendeu, na manhã de um exame na Faculdade e já com os alunos prontos para tal, que a filha pudesse sair da sala para «ir tomar o pequeno-almoço» na secretaria ou no refeitório. Cadete Leite, avesso a «cunhas», propôs que a filha do governador (Conceição) – não podendo sair da sala sob pena de ser excluída do exame – tomasse mesmo ali o “matabicho”. Seria a própria «Ção» a resolver o imbróglio, de difícil gestão para o professor, dizendo não lhe apetecer o pequeno-almoço.

         Para não desvendar o conteúdo completo desta obra de “Memórias Coloniais” – não posso nem o devo fazer – quero apenas referir mais uma «salgada» história de Cadete Leite, que envolve a mulher de um governador de S. Tomé e Príncipe, em Julho de 1964, na sequência de uma evacuação/retirada de feridos da guerra em Angola para Lisboa. O DC6 receberia no aeroporto de S. Tomé «mais um doente, civil, urgente» que seria acompanhado pelo Dr. Fialho. Nem mais nem menos do que a mulher do governador, “diagnosticada” com leucemia mas que, já em pleno voo para Lisboa, Cadete Leite viria a saber tratar-se de um «expediente» para justificar o transporte em avião militar. 



         Encomendem o livro à AJHLP e divirtam-se com a leitura.

homens.deletras@gmail.com

António Bondoso

17 de Janeiro de 2023.            



 

2023-01-13

UM AUTÊNTICO «BANHO DE MULTIDÃO»…e nem sequer estou em campanha eleitoral para um qualquer cargo político. Ou de como se pode tornar em paradoxo a celebração do «envelhecimento». 


da Web

Potenciado naturalmente pelas «redes sociais», o facto de celebrarmos hoje um aniversário é exigente. Contrastando com a calmaria da ocorrência do evento no sossego do apartamento, é perturbantemente visível a agitação mostrada no computador ou no Smartphone de cada um.

         Mais uma vez aconteceu comigo e sei que o mesmo acontece a outros amigos. Sem uma certeza absoluta, creio ter «respondido» a todos quantos me contactaram ou, pelo menos, ter assinalado a perceção da «mensagem». É uma tarefa esgotante, sem dúvida. Mas faz parte deste mundo inquieto. A habituação é que demora.

         Mas vale-me a paciência, pois eu ainda sou de um tempo em que não eram permitidas manifestações. Nem casa nem na rua. E eu já me considerava um protestante militante, de mau feitio. 


da Web

         Hoje dou graças às conquistas de Abril, sem delas fazer uso indevido ou injustificado. Quando fui «maltratado» por outros e diferentes governantes deste país, não houve «sindicato» ou «associação» que me defendesse.

         E é assim…Dia Bom.


Da Web 

António Bondoso

Janeiro de 2023.