2022-08-30


Marta Temido demitiu-se.

SAIRÁ ELA DE CENA EM DEFINITIVO?



Entre a piroseira astrológica da «Praça» e a tristeza «criminal» do Hernâni...os canais de "notícias"(?) vomitaram ódio sobre Marta Temido. Uma vitória do corporativismo, dos média e de...António Costa em mais um processo de «viragem» para Medina. Valerá a pena o «sacrifício» da ministra? E sairá ela de cena em definitivo?

Sendo certo que algumas «clivagens têm mais significado do que outras», Dennis Kavanagh também entende que os partidos se «preocupam mais em representar os vários grupos do que em manter a sua pureza ideológica». E vai mais longe, ao dizer que “Apesar da habilidade do partido em manter a lealdade eleitoral da maior parte dos votantes, a instabilidade de opiniões e o alto nível de desacordo de preferências entre partidários pelos métodos adoptados dá a entender que o partido exerce uma influência bastante vaga sobre os pontos de vista de actuação”.

Isto, no âmbito do que se designa por «Cultura Política». Porque, depois, há a “Cultura Cívica”. E aí, muito mais importante do que a propaganda e a demagogia, há a instrução, a educação, a solidariedade, a cidadania responsável que não se deixa influenciar pelos lóbis. Por isso se diz que a Política não é só uma «arte», é antes de mais uma «ciência».

Obrigado Marta Temido pelo seu desempenho e pela sua frontalidade. 



António Bondoso

Agosto de 2022.  



 



 

KIKO BONDOSO em maré alta, apesar das adaptações que a «equipa» lhe tem pedido. 



A competência e outros atributos a ela ligados estão sempre patentes quando se trabalha com profissionalismo. E o reconhecimento acaba por chegar, naturalmente, mais tarde ou mais cedo. Mesmo quando o cansaço já não permite «tratar» a bola com o «requinte» habitual. E quantas vezes não dá até vontade de «sacudir» o braço. Um gesto permitido aos grandes atletas e, no caso, ao “Homem do Jogo” mais uma vez na Liga Bwin. 



Só a humildade, a coragem e a força mental de um homem adulto e de um atleta de eleição podem elevar e justificar a tua postura. Força KIKO BONDOSO. 



Nem tudo sai bem, sempre! Mas é forçoso continuar. 


António Bondoso

Agosto 2022. 









 

2022-08-29

ACORDAI PARA A VIDA!

Depois do «choque» e do «escândalo» de Vila do Conde, nada melhor do que passar a um canal onde revivi – com agrado pela técnica do filme e pela sua eterna atualidade temática  – a história do gravíssimo acidente ecológico com a «plataforma petrolífera «Deepwater Horizon», no Golfo do México, em Abril de 2010. 



    (Legenda da Foto: [O JOGO] = 5 do FCP não travaram 1 do RA. É sinal de quê?)

         A falta de visão, as hesitações técnicas, a falta de coragem, manifestaram-se, quer em Vila do Conde, quer no Golfo do México. Não basta Sérgio Conceição vir dizer que não foi “digno de se sentar no banco do FCP”. O problema começa muito antes – na ideia da formação da equipa. Na questão da petrolífera nada a dizer – o problema foi das chefias que representavam a administração da BP – mas já no que diz respeito à constituição da equipa inicial do FCP, o problema foi e é nitidamente da responsabilidade do técnico do FCP. Quer na «formação» inicial (qual a razão de David Carmo continuar no banco dos suplentes e qual a valia de Bruno Costa no meio campo da equipa?), quer nas DEMASIADO tardias substituições. A perder por 1-0, nada. A perder por 2-0, nada. E já nada havia a fazer quando passou a 3-0 antes do intervalo. Num jogo a pedir velocidade e profundidade, para além de atenção ao contra-ataque, o explosivo Galeno ficou de fora e o hábil reforço Veron, igualmente. Permaneceram o inábil Bruno Costa – ainda não entendi onde está a sua valia para o plantel – e o «cansado» Marcano, apesar dos 2 golos já apontados. Mas todos percebem que não tem velocidade para situações de contra-ataque. O que pretende a equipa técnica demonstrar aos adeptos e à Administração da SAD? Entendam-se e ORGANIZEM-SE! Os adeptos agradecem.

Siga para Bingo.

Ant. Bondoso
António Bondoso

Agosto 2022. 



2022-08-23

O LONGO BRAÇO DO PASSADO – ou a escrita vigorosa e assertiva de RUI DE AZEVEDO TEIXEIRA sobre o chão que foi «pisando» e sobre a diversa natureza humana que o foi enriquecendo ao longo da vida e em latitudes e circunstâncias várias, remetendo para o protagonista “Paulo de Trava Lobo” – «imagem» central do anterior O ELOGIO DA DUREZA – alguns traços da sua vincada personalidade. Mesmo sabendo que o autor rejeita qualquer ideia de autobiografia. 


Com frontalidade, argúcia e rigor, bebidos em estudo e em conhecimento profundos, o autor faz desfilar nas viagens experimentadas de Paulo de Trava Lobo o argumento:

«Universidade, Porto, Angola, Comandos, Guerra, Sexo, Paixões várias – quentes e intensas – mas o Amor da sua vida vertido na sua mulher Iza, Alemanha, Angola de novo mas já como “cooperante”…conhecedor, professor e amante de Literatura, um tempo difícil de aventura e de afirmação de caráter, antes do seu regresso «esgotado» ao “Puto” pela segunda vez: «Ia para a bela e brutal terra da palanca-negra cheio de garra e voltava a Portugal de rastos».

         Talvez um estado depressivo, depois de uma agitada permanência numa Angola que foi e que já não era, tal como hoje – uma Angola que passou e que já não é, embora continue a ser um país “esquemático” e onde “o tempo sobra sempre”. Nesta segunda vez, Paulo percebe toda a estrutura do que lhe disseram ser uma “Ditadura Democrática”. E naquele espaço entre Luanda e a Huíla, percorrendo a magia e os perigos das belas curvas da Serra da Leba – capa lindíssima! – Paulo entende a guerra fratricida, não só MPLA/UNITA mas no seio do próprio MPLA, e vai sabendo como funciona o regime tirano suportado por namibianos, cubanos, russos e outros países de Leste, por oposição aos “Carcamandos e Kwashas”. E a «cooperação» apressada, mal orientada – ou melhor – orientada ideologicamente e pela qual Paulo foi contornando os «pingos da chuva» sem stress, graças também ao seu conhecimento do tempo antes, o tempo da tropa que manda e que mata, os Comandos. 



Bastou devorar as primeiras quarenta páginas para perceber que estava perante um dos mais belos romances sobre uma das «minhas Áfricas». Sobretudo, identifico-me com o romance. Pelas memórias, vividas ou lidas; pela beleza crua da escrita que sabe conciliar a urbana simplicidade do falar com o erudito conhecimento cultural e histórico do autor.

         O regresso de Paulo de Trava Lobo ao Porto não foi fácil. O «estado depressivo» seguiu, tornando-se um “homem de tascas” que passava os dias “entre copos e ressacas”, comprometendo a sua relação com Iza. E havia ainda um fortíssimo «grito» da búlgara Diana, cooperante como ele na Huíla e que, depois de chantageada pelos seus camaradas comunistas, levaria Paulo e os amigos angolanos à construção de um acidente mortal que «despacharia» o espião Dimitrov na Leba. Por isso, e tendo em conta “causas e consequências”, uma acalmante viagem à Bulgária para colocar o passado recente no armário. Mas, não muito depois do regresso, um acidente rodoviário por força do álcool, colocou Paulo às portas da morte. Iza, apesar de tudo, foi o amparo do «esqueleto quase desfeito».

         Outro tipo de instabilidade vivia-se na Universidade, onde dominavam a intriga e a hipocrisia. Paulo não alinhava. E a tábua de salvação teve mais uma vez a mão de Iza que o encaminhou para a Alemanha e para o doutoramento em «Camões», o que o levaria depois à ULL, no Campo Grande, e aonde chegaria de novo a «chantagem» do “Longo Braço do Passado”, antes da felicidade plena com Iza. 



António Bondoso

Agosto de 2022. 



2022-07-20

A «INFÂMIA» SEGUE, DEVAGAR, A CAMINHO DO 5ºMÊS…ou de como o calor intenso e os incêndios podem fazer esquecer as bombas que continuam a queimar na Ucrânia invadida pelo regime de Putin, já vai para 150 dias. O texto serve também para homenagear o «Repórter de Guerra» Fernando Farinha – muitos anos dedicados a tentar perceber as «guerras». 



         Na ideia do «ditador» russo, a vegetar entre psicopata e cleptocrata, a Ucrânia seria coisa para duas ou três semanas, mas já lá vão quase cinco meses. Contudo, também ninguém pode garantir que o objetivo – um dos – não seja mesmo esse: prolongar. Mas para avaliar isso temos os «especialistas».

         Eu, que penso por mim e não tenho qualquer «especialidade» – essa tive-a no serviço militar em “Transmissões de Infantaria” e foi um bico d’obra – só quero trazer à memória o seguinte: quando começaram os primeiros comentários e, depois, os relatos de alguns «enviados especiais»…fui à estante buscar “Correspondente de Guerra”, de John Steinbeck – uma edição de Livros do Brasil, de 1979. Curioso, neste livro de 260 páginas e que eu poderia «relatar» diacronicamente, é este parágrafo da «Introdução»: “Chamaram à Guerra Civil [Americana] a última guerra cavalheiresca. Pois aquela que baptizaram como a Segunda Guerra Mundial, foi certamente a última de todas as guerras globais. A futura guerra, isto se formos tão estúpidos que a deixemos rebentar, será a última de qualquer espécie. Ninguém sobreviverá para se lembrar seja do que for. E, se realmente formos estúpidos a esse ponto, não mereceremos, de qualquer modo, biologicamente falando, a sobrevivência.”



         E depois, cronológica e diacronicamente, seguem-se os textos que o autor foi escrevendo, quer em Inglaterra, quer no Norte de África, nunca revelando os verdadeiros e precisos locais da sua «presença». A minha atenção recai num pequeno pormenor relacionado com a ideia feita de que a «História» não se repete. Numa crónica datada de 18 de Julho de 1943, algures em Londres, intitulada “Uma Sessão de Cinema”, o autor refere que a casa de espetáculos, tinha uma boa lotação de “soldados feridos, já em convalescença, mulheres do Serviço Militar em gozo de uma licença de horas, domésticas e operários cumprido o respetivo turno de trabalho. Na plateia, à frente, filas cheias de crianças que se apinhavam tão perto do palco quanto podiam”. À comédia do filme – Casei com uma Feiticeira – juntar-se-ia a tragédia da atuação de dez bombardeiros alemães: “Apenas um dos atacantes conseguiu passar, ziguezagueando e esquivando-se por entre a defesa. (…) Voava quase rasteiro quando passou por cima do teatro. Foi nessa altura que lançou as bombas. (…) O aviador inimigo…voltou a sobrevoar o teatro e despejou as peças sobre os escombros. (…) Esmagadas, feridas e mutiladas, as crianças atingidas foram arrancadas aos escombros e conduzidas ao hospital”. Infelizmente, nem sempre isso é possível, como temos vindo a constatar. Quando não são os próprios hospitais alvos de bombardeamentos de arrepiar. 



         Não há «guerras boas ou menos boas». Todas são brutais e quase sempre criminosas. Como foram as da Coreia, da Indochina, Vietnam, Afeganistão, Iraque, as chamadas coloniais ou de libertação, as do realinhamento dos Balcãs, a das Malvinas, da Síria, da Palestina ou as dos genocídios do Ruanda, Somália, Nagorno-Karabakh ou Chechénia. E se formos mais atrás, infelizmente, não ficarão páginas por preencher. Como não ficaram as publicadas por Fernando Farinha – lembrado como o único repórter de guerra português – ontem falecido, com 81 anos de idade. Conhecido pela cobertura da guerra colonial em Angola, Fernando Farinha viveu em Angola desde 1952, iniciou a sua atividade profissional no "Comércio de Luanda", escrevendo e fotografando os movimentos dos soldados portugueses em todas as frentes de guerra, entre 1961 e 1975.

Para acompanhar as operações dos militares portugueses em território angolano, Farinha – que publicou mais tarde também na revista «Notícia», frequentou um curso de comandos e outro de paraquedistas. A guerra – qualquer guerra – exige muito! E magoa e dói sempre.

António Bondoso

Moimenta da Beira, 20 Julho 2022.  







 

2022-07-14

UMA «CHEFE» E UMA AMIGA DE MEIA VIDA…ou de como a sua “partida” nos coloca em choque.

E mais uma vez a Rádio. Porque ficámos sem mais uma camarada. E quando a Rádio perde um dos seus, perdemos todos um pouco de nós. Foi o final da etapa da vida para a Maria Manuela Borralho. A Manela, simplesmente. 



Conheci a Manuela Borralho em S. Tomé e Príncipe em finais dos anos de 1960, no âmbito do processo de transição do Rádio Clube para Emissor Regional da ex Emissora Nacional. De todo o vasto “elenco” da ex-EN empenhado nessa tarefa [Fernando Conde, Engº Freire, Sebastião Fernandes e Guilherme Santos, por exemplo] sobraram e permaneceram duas Amigas de grande nível, elevação escorada numa humilde competência e numa simpática simplicidade: A Maria Emília Michel e a Manuela Borralho. Por circunstâncias e peripécias diversas, o meu trajeto acabou por se cruzar diretamente com o da Manuela. Quer na «Coordenação de Emissão e Programas», com a companhia da Arminda Viana e da Lurdes Brandão, quer no «Serviço de Noticiários», onde já pontuavam os mais antigos Raúl Cardoso e Daniel Pinho. Isto, já depois de alguns meses de uma «ausência voluntária» da minha parte e também de um afastamento «obrigatório» devido ao serviço militar – primeiro em Angola e depois em STP. Resolvidos os «constrangimentos» em 1973, consolidaram-se o respeito e a Amizade mútuos. 



         Regressei a Portugal em Outubro de 1974, a Manuela só voltou em 1975 depois da independência de STP. Eu no Porto, a Manuela em Faro, o trabalho direto não nos juntou mas nunca deixámos de trocar ideias. Para além disso foi a Amizade – sobretudo no tempo de férias, no Algarve, acompanhados por outros camaradas como o Carlos Cardoso, o Livramento e o Humberto Ricardo. Ou então, nos convívios da Rádio que se seguiam por este país, sempre com o pensamento em S. Tomé e Príncipe. 









         E com o passar do tempo…veio a aposentação, embora se tivessem mantido o convívio e a Amizade. O afastamento, involuntário, viria muito mais tarde com a doença. Apenas os telefonemas nos mantinham em contacto, exceto a última vez que tentei – talvez há três semanas – para saber como íamos enfrentando a «pandemia». 



         A Manuela Borralho, por tudo isto, é outra das «Figuras da Minha Vida». E esta não é a «despedida» que havíamos planeado. Competente, afável, de uma serena firmeza no trabalho, Amiga para sempre! Foi meu privilégio. Até sempre «Chefe». 



E porque há ainda amigos e camaradas de muitos anos que merecem estar com eles sentado à mesa de um café.

«Há gente que chega

e se perde

na voragem de ver

os verdes e os vermelhos da vida

esquecendo

o sol e o céu azul.» 

(=== Ant. Bondoso. Maio de 2019 ===) 


14 de Julho de 2022.

António Bondoso. 









 

2022-06-23

D. Pedro IV – um «Coração» em viagem – ou de como a «Memória» é História de relevo. Daí, escrever hoje sobre o Coração de D. Pedro, sobre o Porto, Lisboa e o Brasil, e sobre as lutas pelas liberdades. 


D. Pedro - I do Brasil, IV de Portugal

De seu nome completo “Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon”, D. Pedro IV ficou simplesmente conhecido na história portuguesa como «Libertador» ou «O Rei Soldado» ou ainda e simbolicamente, como escreveu Eça em «Uma Campanha Alegre», de «As Farpas», “…a quem nós, por abreviatura, neste País apressado e preguiçoso, chamamos familiarmente o «Dador»”. E foi, de facto, doando nada mais, nada menos do que a Carta Constitucional, a Liberdade e, finalmente, o seu «Coração» à cidade do Porto. 


         E neste tempo do séc. XXI, em que o «coração» de Vossa Majestade vai ser trasladado temporariamente para o Brasil – de modo a dignificar os 200 anos de independência, resultado do seu «grito do Ipiranga» de 1822, com a frase célebre “independência ou morte” – é fundamental reler e apreender o verdadeiro significado da homenagem que o grande Eça de Queirós lhe presta, em carta de Agosto de 1872 com o título «À Alma de D. Pedro IV, Nos Elísios”. Na missiva, Eça critica o esquecimento a que foi votada a memória dos acontecimentos de 23 e 24 de Julho de 1833 – quando as forças vitoriosas do Duque de Terceira puseram fim à guerra civil entre miguelistas e liberais – e como que «lembra» a D. Pedro o que chama de “incurável rivalidade moral, social, elegante, comercial, alimentícia, política, entre Lisboa e Porto”. A propósito, de acordo com o relato de Eça, da iniciativa portuense de «oferecer» a D. Luís uma Festa Constitucional, numa altura em que se anunciava em Lisboa “um certo movimento subterrâneo, indistinto, informe, do espírito republicano”.

         Não poupando indícios e fatores de comparação, Eça foi estendendo na «carta» os sinais de rivalidade entre um Porto «reformista» e uma Lisboa «saloia».

         E concretiza: “Lisboa inveja ao Porto a sua riqueza, o seu comércio, as suas belas ruas novas, o conforto das suas casas, a solidez das suas fortunas, a seriedade do seu bem-estar. O Porto inveja a Lisboa a Corte, o Rei, as Câmaras, S. Carlos e o Martinho. Detestam-se”. E conclui: perante o «delírio» da receção a D. Luís, no Porto…Lisboa não conseguiu mais do que um arremedo saloio para homenagear os heróis do 24 de Julho, que deram a vitória liberal e constitucional a D. Pedro. “Que quer Vossa Majestade? – Lisboa faz o que pode: quem tem um temperamento saloio não pode tirar dele requintes de artista. (…) A sua imaginação, violentada para conceber uma festa, não pode produzir mais que o arraial. Foguetes e filarmónicas – eis o que ela sabe dar de mais delicado aos heróis que ama. – De modo que este dia de festa como se pode definir? – Um ARRAIAL DE OPOSIÇÃO. Mais nada”.  



         E como «portuense», o que desejo é que o «Coração» de D. Pedro IV possa regressar do Brasil às sagradas pedras da Igreja da Lapa, «são e salvo», para que o Porto e o País possam lembrar eternamente os valores das liberdades.

António Bondoso

23 de Junho de 2022.

Moimenta da Beira. 





 

2022-06-14

De Resende ao Ceará, passando por Angola, Lisboa e Macau, deixou de lutar um verdadeiro «Beirão do Douro». Deixou-nos António Correia, Poeta, Homem de Leis e Empresário.



Quando cheguei a Macau, António Correia era advogado, político (membro do Conselho Consultivo do Governo e em 1992 deputado à Assembleia Legislativa) e possuía belos «Fragmentos» de Poesia. Por isso, pela Poesia, foi um dos meus convidados para dizer e gravar alguns dos seus poemas, transmitidos posteriormente em horário nobre, logo a seguir aos principais noticiários do dia. E, a meu convite, embarcou também, em 1995, no processo de uma campanha eleitoral vista aos olhos de Eça e Ramalho, por meio de muitas «farpas» publicadas em UMA CAMPANHA ALEGRE – uma adaptação minha de alguns excertos e aos quais António Correia deu voz. 

         Presença constante em Macau, quer pela cultura, quer pela advocacia, António Correia viria no final do milénio a ser um dos fundadores de uma sociedade de advogados em Lisboa e foi Administrador Executivo da ANAM, S.A. desde Abril de 1997 a 2000, com a missão de construir o Novo Aeroporto do Funchal, missão que concluiu com êxito, tendo sido agraciado pelo Presidente da República com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Mérito. Foi igualmente sócio fundador do Grupo Lusobrás, no Ceará, Brasil, em 2001. 



         Autor de uma vasta obra de Poesia e de reflexão, com alguns livros traduzidos em língua inglesa e em Chinês, António Correia foi um incansável lutador pelas liberdades. E lutou até ao fim da sua vida, apesar do cansaço dos últimos anos, recebendo ontem o «ponto final». Um abraço sentido a todos os Familiares, particularmente à Teresa Portela – sua mulher – aos Filhos e aos muitos Amigos espalhados pelo mundo. 



Ao lado de sua mulher Teresa Portela, quando homenageado em Coruche por UM POEMA NA VILA, dirigido por Ana Freitas. 

         Recordo talvez o seu último poema (pelo menos um dos últimos) publicado no dia 5 de Junho na sua página do «facebook» e datado da que chamava com propriedade a sua “Casa da Poesia”, em Resende:

Já amadura o trigo

e eu sonho que vou,

que vou contigo,

caminhando,

de mão na mão,

pelos caminhos

onde medra o pão.

E eis senão quando

gorjeios de passarinhos

embalam os odores

silvestres das flores

que ninguém semeou.

Brancas, rubras, amarelas,

lilases também; todas elas

formam pequenos sóis

de um diadema

que coloco em teu cabelo

com o desvelo

de te saber poema

de castos girassóis.

António Correia

Casa da Poesia

5/6/2022

===========

António Bondoso

14 de Junho de 2022. 









 

2022-06-05

UM CONVÍVIO DE MILITARES…É UM QUARTEL DE MEMÓRIAS.

UM CONVÍVIO DE MILITARES…É UM QUARTEL DE MEMÓRIAS.

Não foi o verde de S. Tomé e Príncipe, nem a humidade, nem o calor tórrido da hora do meio dia, nem a temperatura calda das águas do mar que banha as Ilhas. O verde, igualmente bonito do interior beirão, e a simpatia do anfitrião Agostinho Santos, completaram a moldura mental da busca das memórias de quem lá esteve 24 ou 27 meses ou de quem lá cresceu e passou meia vida. 


Agostinho Santos, Rodrigues e Osório

         E foi agradável o esforço de ter reconhecido algumas figuras – umas mais do que outras – que nos acompanharam “aquartelados” ou não. Alguns, como diz o Borges, foram a família uns dos outros enquanto lá estiveram, num tempo em que “a única forma de contactarmos a família, namorada e amigos, era pelo aerograma SPM (Serviço Postal Militar) que só chegava lá no avião que ia de Luanda à Sexta-feira!”. 


Graça, o Farto, o Caritas, o Toninho (Despachante) e o Severiano!


E outras «coisinhas» como eu refiro no meu livro O MEU PAÍS DO SUL, a propósito da «divisão» da cidade à esquerda e à direita do rio Água Grande: Deixando a meio esta interessante investida pelo ensino no meu «país do sul», regresso à «divisão» da cidade capital e às «margens» da estratificação social para lembrar que – como em todas as regras – havia naturalmente exceções, como era por exemplo a zona da Ponta Mina. 


Borges, Osório, Rodrigues e Bondoso

E dava-se o caso de, por muitas vezes, alguns da margem esquerda terem aceitação na outra banda. Como passou a ser o caso dos oficiais militares, já no período da «Guerra Colonial». Oficiais, sargentos e praças com uma vida dividida, de acordo – naturalmente – com a sua cadeia hierárquica ou de comando. Particularmente os idos (vindos) da metrópole, mobilizados – quase se poderá dizer expatriados – procuravam ir cumprindo o seu tempo de destacamento. Alguns com uma pragmática forma de adaptação ao meio físico e social, por vezes bem-sucedida, tanto no convívio com os «colonos», nem sempre fácil, como no relacionamento com os são-tomenses. Os oficiais, claro, no topo. Mas mesmo neste caso, era importante o Água Grande. O Quartel, ou os Quarteis, ficavam na margem esquerda. O Clube Militar, exclusivo a oficiais e seus convidados civis, situava-se na margem direita. E esse, como disse, era território das elites. Havia exceções, claro.


Editora "Edições Esgotadas" - 2021

Depois havia os sargentos – maioritariamente furriéis milicianos – mais ou menos desalinhados. A geografia da cidade, e da ilha, dificilmente os condicionava. A não ser que levassem «recomendações» de amigos da metrópole para alguns amigos nas ilhas. Esta circunstância era menos previsível com os «praças» mas também acontecia. A sua mobilidade era muito mais dificultada, até pela atuação dissuasora da PM – Polícia Militar, curiosamente «instalada» numa zona resguardada do cais da cidade, na margem direita. De certa forma, uma força encarada com algum elitismo na ilha. Um caso à parte eram os furriéis da chamada incorporação local que, depois de frequentar o CSM na EAMA, em Nova Lisboa, Angola, tinham a sorte de regressar a STP, como foi o meu caso entre Agosto de 1971 e Julho de 1974.

                E um pouco de tudo isto esteve (também) em análise neste convívio na Recta do Pereiro, em Sátão, distrito de Viseu. Foi o retomar da rotina depois da fase mais difícil da Covid-19. Um abraço a todos os presentes e um particular à Família Santos, que nos recebeu tão bem. Para o ano…ficou decidido, por consenso, ter lugar em Vila Real.

António Bondoso

5 de Junho de 2022. 

 












 

2022-06-03

ALGUNS MILITARES – ALGUMAS AMIZADES, convívio STP2022

ALGUNS MILITARES – ALGUMAS AMIZADES…ou de como somos e como nos encontrámos em STP, ficando um «laço» que continuamos a tentar atar.


                                          

                                    Praia Banana (antiga Praia do Precipício) Ilha do Príncipe

É certo que não há «guerras boas» ou, se quisermos, todas as guerras são más. Contudo – para aqueles que puderam sobreviver aos conflitos – e para além de todos os traumas que restam, ficam também memórias. Dos camaradas, dos locais e de muitas situações vividas, momentos positivos ou de menor atenção. E depois há essa restrita Amizade que se vai construindo e consolidando…permanecendo. Mesmo que, num primeiro momento de afastamento devido às circunstâncias de cada um, o «nevoeiro» do nosso andar superior tenha (des) arrumado as vivências.

         Amanhã, um grupo de camaradas que se encontraram e conheceram em S. Tomé e Príncipe, vai dar continuidade a uma série de convívios de alguns anos. Em Sátão, mais concretamente na Recta do Pereiro, Estrada Nacional nº 229, porta 638. Tal como referem Nelson Santos e Paulo Marques na carta/convite, “Não queremos deixar cair no esquecimento os nossos encontros que tão agradáveis têm sido e, apesar das dificuldades existentes, estamos convictos de que todos continuamos a ter vontade de nos revermos, de conviver e de recordar momentos inesquecíveis que, juntos ou individualmente, nos marcaram durante a nossa permanência nas belas ilhas de S. Tomé e Príncipe”.

         Por mim, uma nota de presença, oferecendo desde já esta ideia que publiquei em 2012: 

QUANDO REVEJO OS AMIGOS.

 

Quando revejo os amigos

Companheiros de saudade,

O tempo que foi marcante não morreu

Ficou suspenso

De palavras nunca ditas

Ideias e emoções a ferver dentro de mim.

 

Memória viva saída

Arrancada aos corações

Em abraços e sorrisos que nascem

De cada olhar

Parido num frente a frente

Ou na lente de uma câmara.

 

Nessas alturas eu digo buscando

Dos Santos Ary

Revejo tudo e redigo meu camarada e amigo

Estou aqui...estou de pé como cresci.

---------------------------

ABondoso.

EM: O PODER E O POEMA, 2012. Ediç Esgotadas. Pg 85. 



António Bondoso

3 de Junho de 2022. 




2022-03-29

 Sobretudo para os que andam distraídos neste mundo. Independentemente das razões de cada um. 

A Poesia não será uma «cura»...mas alerta para as incongruências das guerras. 




Foto da Web

NÃO FAZ MAL…

 

Se a guerra te bater à porta

Não abras.

Se a guerra te entrar pela janela

Clandestina

Violenta

Irracional

Não faz mal…

Tranca a porta.

 

Dissimulada é a guerra neste tempo

Quer no nome

Quer nas armas

Quer em civis desarmados

E outros feitos soldados.

 

Se a guerra bater à tua porta

Criminosa

E te obrigar a deixar a tua rua

A família e os teus amigos

Irracional…

Não faz mal

Espera que as bombas caiam

E os mísseis expludam

Assassinando crianças por aí

Matando idosos por aqui e por ali.

 

E se a guerra bater à nossa porta

Brutal

Mesmo que traga aviso de receção

Da Palestina ao Irão

Do Iémen ao Iraque

Da Síria a toda a Ucrânia

Não faz mal

Ignore a ignorância

E devolva à procedência.

 

E se mesmo assim

Essa guerra voltar

E de novo bater à nossa porta

Lembrem-se dos que fogem

Da metralha e da fome

Engrossando os campos de lama

E de doenças.

 

Quando as guerras nos passam ao lado

Na sua crueza real

É simples a indiferença

De ter um gesto banal

Esperar o tempo inteiro

Por um milagre caseiro.

 

A guerra? Ahhh…não faz mal!

==========

António Bondoso

Março de 2022.