2019-10-09

CONVERSAS CRUZADAS DE UMA SALA DE ESPERA NUM CENTRO DE SAÚDE PERTO DE SI

Sala cheia, entre números e vozes de chamada para a inscrição ou para a consulta. E muitas conversas cruzadas. Véspera do Dia da Saúde Mental. 


Sabe qual é a melhor hora para se vir aqui? É à hora e meia! Há menos gente.
Olhe…e como vai o seu marido? Ainda trabalha naquela casa dos leitões? Aquilo é que era um leitão! Que categoria. Mas já não o vejo há muito tempo. Ele está bem?
E a demora…
Diz outra voz: os médicos também adoecem!
E a imagem de fundo, para além das pessoas a circular, é um écran de televisão com a emissão da TVI. O tema – o suicídio!
E as vozes…só venho por causa da medicação. Faz-me falta. Vamos lá a ver se isto vai. Vamos lá ver!
Do outro lado…e o meu pai, coitado, teve que ficar sozinho, eu não posso. E foi agora operado às hérnias. E eu…é como se vê.
Prosseguem as vozes no meio do suicídio da TVI.
Há dias caí na rua…nem tive tempo para nada. Lá veio a ambulância e só dei conta a caminho do hospital. Aquilo até mete medo. É cada um!
Mais uma voz: olhe, e os seus meninos estão bem?
Bem, graças a Deus. Olhe, temos agora mais um. Foi anteontem. Um artista!
O meu é o futebol. É a paixão dele. Tem vontade mas não joga nada de jeito. Mas é cá um portista!
O meu já está um homem! E a irmã…é muito meiguinha!
Ó D. Aldina…já chamaram por si!
Já ouvi, obrigada.
E outro…que entra esbaforido, nervoso, quase a sufocar…de tão gordo que é. Onde estão as senhas? (Temporariamente fora do sítio habitual, por obras na parede antiga).
Aí, em cima da mesa!
Ahhh…obrigado.
E a TVI continua em fundo. Agora são os crimes de faca e alguidar (depois de uma breve passagem pela promoção do calcitrin): discute com a irmã e atinge o sobrinho com um tiro na cara.
Admiração sonora: - ai 75! Setenta e três tenho eu.
E chega a altura do noticiário das 13. O vai e vem dos utentes prossegue.
Um pai com um bébé ao colo, uma idosa apoiada numa bengala e que não sabe se o seu rendimento provém da pensão xis ou do complemento do idoso. O filho que a acompanha também não sabe. O papel está em casa.
E o dinheiro, que tanta falta faz: - quem me dera o totoloto! Uma boa quantia dava jeito. E se fosse o euromilhões?
A raspadinha é que é uma tentação. Às vezes lá sai 20 euritos.
Ó rapariga…isto não está pra nós!
E o telejornal: - a estabilidade que se deseja no país. À medida de cada um, claro!
Tou?...já fez o depósito?...falou no sábado?...mas já não paga há 4 meses!...faz amanhã?...veja lá, não estrague a sua vida! E volta a efetuar uma chamada: - olá, sou eu! Ele ainda não fez o depósito! Envia a carta! Em nome da estabilidade - digo eu!
E eu? De repente veio-me à ideia uma pessoa amiga: - a mim, nunca me dói nada! Sr António Augusto Bondoso! Suba ao 3º andar que a Senhora Doutora vai já chamá-lo.  


António Bondoso
Jornalista
Outubro de 2019. 

2019-10-06

A REPÚBLICA DAS MAÇÃS…
…ou de como os males da interioridade não conseguem eliminar a resiliência dos agricultores que se dedicam à cultura da maçã nesta especial região da Beira Alta situada a sul do Douro: sobretudo Moimenta da Beira, Armamar, Tarouca e Sernancelhe. 


         Quem ler este texto, provavelmente já terá sido confrontado, mais do que uma vez, com a velha expressão depreciativa «república das bananas», uma ideia consolidada em alguns países da América do Sul há muitos anos, sobretudo quando empresas dos EUA se dedicavam à exploração abusiva desses países, comercializando exatamente esse fabuloso fruto que é a banana.
         Pois aqui, nesta região que eu destaco acima, creio não corrermos o risco de sermos avaliados negativa e depreciativamente, pois é bem conhecida a tenacidade com que os agricultores enfrentam – desde sempre – as consequências das oscilações climáticas e o esquecimento a que têm sido votados pelas políticas dos sucessivos governos. A falta de uma rede de frio eficaz foi sendo contornada mas falta ainda a atenção devida ao regadio. E não tem sido por inércia ou deixa andar. Repetidamente nos últimos anos o assunto tem sido falado e houve já projetos aprovados como o da Boavista, em Caria – integrada no plano nacional de regadio. A da Nave estará muito próxima da aprovação. Não só a quantidade importa. A qualidade da água é fundamental. 




Por isso se vai dizendo que esta região produz a melhor maçã do mundo. Daí a minha homenagem, atribuindo o título de «República das Maçãs» a este modesto texto, que me veio à ideia ontem – dia 5 de Outubro – o da implantação da República em 1910. Exatamente durante o acompanhamento que fui fazendo da apanha em pomares da região, com amigos fruticultores associados às «Frutas Cruzeiro» (passe a publicidade) e simultaneamente membros da Confraria da Maçã, criada em 2008 e com sede em Moimenta da Beira. Obrigado Zé Carlos pela magnífica viagem entre a Granja Nova e o espetacular armazém em Armamar. Toneladas de um produto magnífico a viajar pela «Rota da Maçã», nascida e consolidada nesta região da Beira Távora.

         Viva a República das Maçãs!





António Bondoso
Jornalista
Outubro de 2019.

2019-10-04




Pais Fundadores da Democracia…apenas os que arriscaram tudo no derrube da ditadura.

Não se pode, nem deve, menorizar a figura do Prof. Freitas do Amaral. Professor de Direito, fundador do CDS, líder do CDS, ministro e vice-primeiro ministro, Presidente da Assembleia Geral da ONU – alguns dos cargos que exerceu exemplarmente.
         Com todo o respeito que merece a sua «memória», não posso deixar de dizer que me espanta a designação que fui ouvindo ao longo do dia: um dos pais fundadores da democracia portuguesa.
         Quem lutou para instaurar a liberdade e, por consequência, a democracia em Portugal? Os «militares de Abril»! E todos os que morreram na «Guerra» e sofreram a tortura no Tarrafal, em S. Nicolau ou na Machava. Ou no Aljube, Caxias ou Heroísmo. Podemos juntar Álvaro Cunhal e Mário Soares em primeiro lugar. E depois de muitos outros como Salgado Zenha, Emídio Guerreiro, Arlindo Vicente, Jorge Sampaio, Manuel Alegre, Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Padre Fanhais, António Gedeão, Sofia, Ary dos Santos, as «Três Marias», Natália Correia, Snu Abecassis, podemos acrescentar Sá Carneiro, Pinto Balsemão, Magalhães Mota, Mota Amaral e mais uns poucos da chamada «ala liberal».
         Freitas do Amaral, pelo facto único de ser fundador do CDS, não pode ter entrada direta no lote dos citados. E peço desculpa aos que omito no texto. Mas, em respeito pela memória das suas posições incómodas em certos momentos da vida política portuguesa, aceito sem rebuço o papel importante que desenvolveu na consolidação do regime democrático. Contudo, em honra dos que não citei, por omissão (falta de memória enquanto escrevo), não voltem a dizer que foi um dos «pais fundadores» da democracia portuguesa. Não é verdade! Mas descanse em paz!
António Bondoso
Outubro de 2019.

2019-09-30

VISEHRAD – A Ponte do Suicídio”, de Hélio Bandeira, um «romance gourmet»…ou de como estamos a gostar da ficção na nova literatura de São Tomé e Príncipe ou ainda e sobretudo, de como podemos retomar o gosto pela leitura – exatamente quando se identificam sinais de crise na literatura mundial. 


No seu prefácio a este novo romance de Hélio Bandeira, Abílio Bragança Neto escreve que algo de bom está a acontecer na literatura santomense. Pela escrita e pela edição. No fundo, a constatação da «evolução e da consolidação de uma literatura que já pedia novas vozes capazes de trazer novas abordagens, novos olhares e novos desafios temáticos e estilísticos».


Segundo a minha leitura estamos perante um «Romance Gourmet». E não fui buscar a ideia apenas à gastronomia, particularmente à gastronomia são-tomense que nos oferece a tentação de um divinal peixe com banana ou um não menos sublime calulu. Não! A minha ideia prende-se com a QUALIDADE que o Helio Bandeira coloca na sua ficção. Uma confeção quase perfeita, combinando os bons e indispensáveis ingredientes de um romance: - como a capacidade narrativa, que nos coloca sem esforço no centro da «história»; um enredo credível, que facilmente poderemos situar no espaço e no tempo da história recente de STP - mais precisamente no último quartel da década de 1980 e no início dos anos 90 do século XX, tendo em conta a datação pormenorizada dos subcapítulos.
Nessa perspetiva…o autor aborda sem tabus alguns temas de perfeita atualidade como o racismo, de raízes bem cimentadas nos males do colonialismo; críticas naturais à colonização portuguesa, patentes por exemplo na expressão leveleve – a que alguns pretendem retirar o seu sentido «original» mas que, no recente Dicionário Livre do “Santome – português ou Santome – putugêji”, tem precisamente como significados os termos «assim-assim, devagar e mais ou menos»; a Religião, com todos os seus dilemas e angústias, sem conseguir desligar-se da fragilidade humana (consubstanciada na relação entre um médico e uma freira, por sinal enfermeira) e, por fim, a superstição do velho curandeiro como recurso último para tentar travar a doença que começava a ameaçar a humanidade – a SIDA.
Para além, naturalmente, da nova estrutura da sociedade são-tomense pós-colonial, ciente da sua inquestionável independência mas – de alguma forma – não afastando uma pequena dose saudosa do tempo antes: Téla sé na bilá tê piada máchi fá! Pelo meio, ainda, uma pitada de crítica aos governantes e à forma de governar, misturada de certa forma com a hipocrisia político-partidária.
Uma última nota para referir uma significativa «universalidade» espacial da história que nos apresenta Hélio Bandeira, identificando com rigor na sua narrativa, quer o Reino Unido (onde estudou e onde permanece), quer a Austrália e Angola, STP e Portugal, ou os EUA e particularmente a então Checoslováquia – país onde o autor situa não só o monumento que dá origem ao título do livro (a Ponte do Suicídio, em VYSEHRAD) mas igualmente a personagem «mistério» do romance – a noviça Marta, enfermeira de profissão e que se vê envolvida num turbilhão de angústias e de emoções.
A esta «universalidade» chama Abílio Bragança Neto o redimensionar da santomensidade, onde a diáspora ganha representação e peso, onde «nós, santomenses, somos olhados por outros, por estrangeiros, no estrangeiro».

António Bondoso, jornalista e Mestre em R.I.
Setembro de 2019. 

2019-09-21


 LINHA DO DOURO…merece um comboio melhor! 
Não para «turista ver» mas para gáudio e prazer dos utentes de todos os dias!


O que é um comboio melhor? É por exemplo ter carruagens limpas, embora modestas – sabendo que o Douro é uma zona turística de grande impacto. É por exemplo ver os vidros das janelas minimamente limpos, não para que os utentes possam conseguir boas fotografias mas para melhor apreciarem a paisagem magnífica. É por exemplo ter as grades, nas quais se deposita a bagagem, em condições mínimas de conservação e com os parafusos devidamente apertados, para não termos o incómodo de um barulho ensurdecedor e ter que presenciar os passageiros a tentarem colmatar a deficiência com a aplicação de papel ou cartão dobrado a servir de cunha.
         O que se pede a quem de direito é atenção à limpeza. Das carruagens, como disse, mas igualmente das estações onde param os comboios. Na da Régua, por exemplo, há muitas ervas a desfear o espaço de rara beleza e há objetos em degradação absoluta a merecer a intervenção urgente de arquitetos paisagistas. 


         Já nem peço que a linha seja eletrificada. Teríamos eventualmente um comboio menos poluente e mais cómodo, mas não seria a mesma coisa! Tal como já nem peço a instalação de uma via dupla. O comboio seria mais rápido, sem dúvida, mas não teria o mesmo encanto!
         O que é um comboio melhor? Uma composição a merecer seguramente a existência de um «bar», um espaço acolhedor e sem luxos. Talvez não para servir refeições – o percurso não é assim tão longo – mas para que os passageiros, turistas ou não, possam apreciar a paisagem única, saboreando por exemplo um «porto tónico».
         E depois, viajar na linha do Douro não é só ver as uvas ao alcance da mão e o rio a dois metros do comboio mais os barcos que ali navegam. É também olhar os montes e perceber o encanto da vida nas e das encostas, para além de saber que a vida de muitos que ali habitam nunca é fácil. Sempre foi dura, como sabemos de Torga!
António Bondoso
Jornalista
Setembro de 2019. 




2019-09-05


Apenas para deixar um abraço a Domingos Gomes. Um amigo. 


Apenas para deixar um abraço a Domingos Gomes. Um amigo.
Com ele aprendi muito. Por exemplo…a confirmar o significado da palavra disponível.
Uma simplicidade de ser e de estar. Que gerava – ainda gera – empatia e simpatia. Uma figura incontornável na vida de algumas gerações de jornalistas. Pelo menos na minha.
Para não falar de entrevistas ou de comentários mais elaborados, Domingos Gomes nunca me recusou uma breve declaração que fosse. Tal como – qual João Semana do final do século XX e princípio do século XXI – sempre esteve disponível para atender as minhas solicitações em casos de doença. Até de familiares meus. E de amigos e de camaradas de trabalho! Sei bem! E os problemas do F.C. do Porto, que foi a sua casa de trabalho durante quase 30 anos, nunca se misturaram.
Para cada caso, Domingos Gomes teve sempre uma solução distinta. E continua a ser assim, agora que está a completar 50 anos de atividade médica.
Grato por ter sido – e continuar a ser – meu amigo! As amizades não se vendem, não se compram, não se pagam. Cultivam-se. Como foi notório na homenagem de ontem.
Um abraço…à dimensão de todo o mar de memórias que sabemos. Extensivo à Família, claro.


António Bondoso
5 de Setembro de 2019. 



2019-08-13

ALVITE E A GENTE DA NAVE…
…ou a grandeza da História...na simplicidade da Memória! 

A dança e os cantares depois da malhada

         Uma vida dura, comprovada também pela agrura dos caminhos de fuga de Aquilino Ribeiro, tem vindo a marcar – geração após geração – o modo de vida dos Alvitanos, sempre na aventura da descoberta de novos mundos. E foram sobretudo pelo comércio, tendo em conta as dificuldades apresentadas pelo clima à agricultura tradicional da região duriense, paredes meias com o norte beirão. O Planalto da Nave é frio e árido permitindo, contudo, o cultivo do milho, do centeio, da batata para semente e a criação de gado. 

A pesagem do cereal na Feira de Tradições

         Tendo recebido nome ainda antes da nacionalidade, Alvite – que manteve ligações profundas a S. João de Tarouca – é hoje uma vila que integra o concelho de Moimenta da Beira, fazendo gala da sua força de trabalho, do seu empreendedorismo. A sua cultura foi sendo «amassada» ao longo de séculos, resistindo ainda um artesanato variado entre cestos e socos serranos, capotes e capuchos de burel, meias de lã, colchas e mantas de retalho.  

                                                       Capucha de Burel

         É todo este património dos saberes antigos que a Associação de Promoção Social

 de Alvite «Gente da Nave» procura preservar há mais de duas décadas. Existe uma

 «Casa Museu», claro, à dimensão da simplicidade dos costumes da terra, o que leva

 Modesta Silva, que ainda a dirige, a frisar que não há casas brasonadas em Alvite mas 

sim as pessoas. 

O célebre «livro de fiados» dos antepassados de Modesta Silva
Casa Museu

É para elas que o esforço tem sido encaminhado, aproveitando-se a animação de rua. Numa praça central renovada, o Largo da Tulha, e aproveitando a movimentação das festas em honra de Nossa Senhora das Queimas, a «Gente da Nave» tem vindo a promover a Feira de Tradições. Ora dedicada ao «Ciclo da Lã na Nave», ora ao «Ciclo do Milho» e, como foi o caso deste ano, ao «Ciclo do Centeio». Diz Modesta Silva que é simultaneamente uma homenagem aos agricultores do Planalto e uma atitude de consciencializar as novas gerações para a manutenção da identidade do povo. 

Casa Museu Gente da Nave

ALVITE E A GENTE DA NAVE…
…ou a grandeza da História...na simplicidade da Memória!

António Bondoso (Com fotos de Maria do Amparo Bondoso)
Jornalista
Agosto de 2019. 




2019-05-23


SER AUTOR. 
BREVES NOTAS DA MINHA EXPERIÊNCIA


Dizem ser hoje o «Dia do Autor».
Que já sou há alguns anos, na prática desde 1967…altura em que passei a integrar os quadros do Rádio Clube de S. Tomé.
Não me limitava a transcrever notícias gravadas da ex-E.N., passei igualmente a imaginar palavras que utilizava em programas que ia elaborando, com título e guião próprios.
Dizia Pablo Neruda que «escrever é fácil. Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio, coloca as ideias».
E foi mais ou menos isso que passei a fazer em Macau, em 1999, altura em que tive a felicidade de publicar o primeiro livro. De poemas. Ou um projeto de ser. “Em Macau Por Acaso” foi o título da obra…e talvez tenha sido mesmo por acaso, ou não se desse o caso de ter como camaradas de trabalho dois excelentes profissionais de rádio – o António Cardoso Pinto e o Helder Fernando. A tertúlia completava-se com as ideias brilhantes do saudoso Estima de Oliveira, poeta maior do universo literário em língua portuguesa. Faz agora 20 anos…e deles me lembro sempre. O Helder, felizmente, está ainda entre nós. 

António Bondoso

Maio de 2019. 


2019-03-19

A relação entre pais e filhos - ou a condição de ser pai - não pode nem deve ser banalizada pela instituição de um dia apenas. Mas não deixa de ser importante saber e perceber. 

Foto de António Bondoso


Um pai é feliz quando sorri
Um pai é feliz quando mergulha
Fundo nas águas calmas do rio
Que é seu filho.
Um pai é feliz se não se cansa
De alcançar
O coração dos que ama
Em toda a imensidão do mar.
===
António Bondoso
Março 2019.

2019-03-15

Mãe! Completarias hoje 100 anos, se o destino não tivesse tropeçado!



Mãe:
Não poderei levar-te uma rosa.
Mas neste dia em que celebrarias o teu centésimo aniversário estarás, como sempre, no meu coração. E no meu pensamento. E nas minhas palavras. As quais, espero, possas entender à distância.

HOJE (RE) NASCESTE!
Tu me trouxeste
Protegido
Me pegaste com leveza
E cobriste, suave, com carinho.
Foi um amor aquecido
Desde sempre
Acompanhando atenta
Os meus desvios.
Estiveste comigo em permanência
E ao colo me levaste à ilha longe
Pensando estar ali todo o futuro.
Lutaste e sofreste num tempo outro
De calor e humidade refrescante.
Foste mulher inteira e imperfeita
E uma doce mãe preocupada
Como as ondas do mar que sempre vão
Mas retornam à praia por encanto.
Depois veio a dor
No tempo da meia vida
No Equador
E nem soubeste.
E mesmo quando a dor já era grande
Do tamanho de uma idade que não tinhas…
Partiste.
Não importa como e quando
Pois hoje…nasceste!
E a cada hora que passa
Tenho lembranças de ti
Mãe…
Por vezes sinto uma dor no peito
Mas outras há em que
Vejo uma estrela aqui!
================
Momentos. Momentos nossos, de ti e do menino que fui…ou de como se pode assinalar, virtualmente, o centenário da mãe real que tive.


António Bondoso
15 de Março de 2019

2019-03-08

RESPEITO…sempre!
Na sequência do que tem sido o meu hábito «desalinhado» em relação a tudo, particularmente no que toca a temas excessivamente mediatizados ou na “onda”…também neste dia não me visto de negro, embora respeite o luto de muita gente.

Pintura de Gina Marinho

E porque o 8 de Março está «particularizado» no calendário, pretendo apenas repetir o que venho praticando em todos os dias do ano. O meu afeto, o meu carinho, o meu respeito a todas as mulheres…nomeadamente a quem tenho dedicado o meu amor de uma vida há mais de 45 anos – a minha mulher, companheira de todos os momentos:
Por ti
E para ti
Só não morri.

É em ti que me amparo
E que resisto
É em ti
Que alimento
O amor que sei,
É em ti
Que ele vive e permanece.

Por nós
Por ti
E para ti
Só não morri!
Mas igualmente não esqueço aquela que me trouxe ao mundo e que, dentro de dias, será motivo de uma efeméride especial, pese embora a sua ausência física há já muitos anos. Nesta linha de pensamento está igualmente a minha sogra e, nos dias de hoje, a presença reconfortante da minha nora e ainda de sua mãe – minha parceira como se diz por estas bandas do norte do país.
Não pretendendo «oferecer» uma lição de «história», e passando por cima da data tristemente «célebre» de 8 de Março de 1857, não posso deixar de registar alguns nomes de Portugal e da cena internacional que há dias salientei numa aula de R.I. na Universidade Sénior Rotary de Matosinhos, no âmbito do que entendi designar como «Mulheres que ajudaram a mudar o mundo».
De algumas citarei apenas o nome, deixando aos leitores/seguidores a tarefa de «descobrir» os motivos da referência.
Catarina de Bragança, cujo casamento com Carlos II de Inglaterra foi considerado um «triunfo diplomático» para Portugal; D. Luísa de Gusmão, influente no êxito da «Restauração»; Ana de Castro Osório, dirigente da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas; Carolina Michaelis de Vasconcelos e Carolina Beatriz Ângelo, da Associação de Propaganda Feminista; Maria de Lurdes Pintasilgo, Maria Barroso e Manuela Eanes; Amália Rodrigues; Sophia de Mello Breyner Andresen, que foi a primeira mulher a receber o Prémio Camões; Natália Correia, Maria Armanda Falcão; as Três Marias das Novas Cartas Portuguesas (1972) – Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa; Catarina Eufémia, cantada por grandes Poetas portugueses e imortalizada numa canção de Zeca Afonso; D. Antónia, como símbolo do Vinho do Porto; Agustina Bessa Luís e Maria João Pires; Palmira Bastos, Laura Alves e Amélia Rey Colaço; e para não me alongar demasiado, refiro ainda Rosa Mota, Aurora Cunha e Fernanda Ribeiro.
Na «cena internacional» encontramos, entre muitas, por exemplo a Princesa Diana; Catarina – a Grande, da Rússia; Marie Curie; Rosa Parks; Nancy Wake; Indira Gandhi e Benazir Bhutto; Aung San Suu Kyi…e Malala Yousafzai; Madre Teresa, de Calcutá; Mary Quant; Margaret Tthatcher…e Condoleezza Rice; Hillary Clinton; Ângela Merkel; Wangari Maathai, a primeira mulher africana a receber o Prémio Nobel da Paz – ambientalista criadora do célebre Movimento da Cintura Verde e ativista dos direitos das mulheres.
Março de 2019
António Bondoso 

2019-02-13

TAMBÉM SE CONSEGUE EXPLICAR A «RÁDIO» ÀS CRIANÇAS. E elas escutam e percebem.  Do «local» para o «global». 
Como esta manhã, falando com alunos do ensino básico da Escola da Ponte, no Porto, entre os 7 e os 10 anos de idade. Gratificante.
Como funciona, como começou, a sua evolução, as nossas experiências…e depois responder às perguntas inevitáveis. Entre muitas, fixei esta: por que razão a rádio só dá notícias más? 

Percebendo o alcance da interpelação não adocei a resposta. As notícias não são más. Ou não são apenas más. Mas fazem parte da realidade e, ao profissional, cabe transmiti-las com objetividade. Por isso, a resposta foi de imediato enriquecida, de forma a que pudesse ser compreendida a uma escala mais geral. Há muitas notícias que ficam «na gaveta» ou que são ignoradas. Porque não chamam a atenção, não captam audiências. No fundo, o que deveria ter dito – mesmo podendo não ser percebido – é que a palavra da moda, hoje, é «normalizado». Todos falam do mesmo, embora com palavras diferentes, porque está na moda fazê-lo, porque «vende» e é fácil «copiar». Investigar e criar é mais complexo. 

         Agradecendo ao camarada Simões Lopes (também pelas fotos), à Direção da Escola da Ponte, a todos os professores envolvidos e ao interessado número de alunos «participantes», fica a sensação de uma manhã valiosa com o diálogo estabelecido e com a partilha das «ondas da rádio». Que, apesar da era digital, continuam a ser «curtas», «médias» e em Frequência Modulada (FM). E os presentes viram aparelhos de rádio e ouviram rádio. E ouvem rádio sobretudo quando vão no carro. E quiseram saber até onde poderia chegar a antena do transístor e se eu também fazia relatos de futebol. Que não, disse-lhes. Fazia apenas comentários e colaborei muitas vezes como repórter. E gostaria de voltar a trabalhar na rádio? De pronto…e com muita vontade. Mas há convites que não chegam. 

E quando a «Rádio» me chega aos ouvidos da alma, como espero tenha alcançado o coração das crianças da Escola da Ponte, no Porto...começo pela Av da Marginal, em S. Tomé; passo pela Rua do Quelhas 2, 10, 21, por S. Marçal e as duas margens das Amoreiras, em Lisboa; e desaguo no nº 74 da Cândido dos Reis, no Porto, depois de colher as pérolas na Nam Kwong, em Macau. E vou ficando, assim...lembrando dias e horas, meses e anos de muitas palavras e de alguns amigos repousando nelas. Para os que sabem que o são…um eterno e grato abraço!Para os que sabem que o são…um eterno e grato abraço.


António Bondoso
Jornalista
13 Fev. 2019. No «Dia Mundial da Rádio», instituído pela ONU em 2012.  



2019-02-04




ANGOLA – 4 DE FEVEREIRO.
É IMPORTANTE LEMBRAR…FUNDAMENTAL NÃO ESQUECER!
Não é fácil digerir esta parte da história, em ambos os lados da barricada, mas é preciso sempre não esquecer o passado, para melhor encarar o futuro.
Numa página da Fundação Agostinho Neto pode ler-se por exemplo: “…no intuito de libertar os compatriotas injustamente encarcerados, um grupo de nacionalistas munidos de catanas e poucas armas de fogo atacou as principais cadeias, em Luanda dando início a Luta Armada de Libertação Nacional.
Face a esta bravura, a retaliação não se fez esperar. Portugal enviou para Angola, milhares de soldados fortemente armados que foram perseguindo não só os participantes activos desta revolta, mas sobretudo as populações indefesas que eram as principais vítimas dessas barbáries que incluíam raptos e assassinatos, um pouco por todo o país. Isso fazia com que os defensores da liberdade fossem cada vez mais para as matas aderirem ao movimento de guerrilha acabado de nascer, em função dessa revolta”.
Mas nem tudo é linear na história «recente», apesar de ter passado já mais de meio século. Lendo um extenso e bem documentado artigo de Fernando Martins, do jornal Observador, focamos a «ideia» de «verdades e de mitos» a propósito de dois marcos da luta armada em Angola no tempo colonial se acrescentarmos o 15 de Março: No entanto, o essencial da narrativa que aqui nos traz assenta sobretudo em factos que o não foram, ou omite factos que são determinantes para se perceber, de uma outra forma, como se iniciou, porque se iniciou e quem iniciou uma luta sistemática contra o colonialismo português assente em acções de guerrilha. Por exemplo, desvendando-se a autoria correcta dos acontecimentos de Fevereiro, ou uma responsabilidade mais rigorosa no que à preparação e desenrolar do acontecimentos de Março diz respeito, de ambos retirar-se-á um outro significado.
O que implica, não apenas que a narrativa do anticolonialismo angolano (iniciada, grosso modo, em 1960, e concluída, numa primeira fase, em Fevereiro e Março de 1961) merece uma outra interpretação, como as conclusões a retirar sobre o efeito destes dois acontecimentos, pelo menos a curto médio prazo, serão distintas daquelas até agora apresentadas.
Enquanto se debruça nas leituras, valorizamos e deixamos aqui uma pequena nota sobre o estado de espírito do Presidente-Poeta, em 1960. Agostinho Neto, preso no Aljube, manifestava «impaciência nesta mornez histórica» e tinha pressa. Dois poemas ali escritos são exemplares: em DEPRESSA (Agosto de 1960), Neto propõe:
(…)não esperemos os heróis
sejamos nós os heróis
unindo as nossas vozes e os nossos braços
cada um no seu dever
e defendamos palmo a palmo a nossa terra
escorracemos o inimigo
e cantemos numa luta viva e heróica
desde já
a independência real da nossa pátria.
E em Setembro do mesmo ano, Agostinho Neto já fala de LUTA, de violência e de corpos insepultos:

LUTA

 

Violência
vozes de aço ao sol
incendeiam a paisagem já quente

e os sonhos
se desfazem
contra uma muralha de baionetas

Nova onde se levanta
os anseios se desfazem
sobre corpos insepultos
E a nova onde se levanta para a luta
e ainda outra e outra
até que da violência
apenas reste o nosso perdão.
=== António Bondoso
4 de Fevereiro de 2019.