2021-07-03

 

VIAGENS COM REGISTO

O Comboio das 08.37

 

VIAGENS COM REGISTO

O Comboio das 08.37

 

Por tuneis abertos e fechados, o comboio das 08.37 circula, rançoso e esperançoso em chegar ao fim da viagem. A esperança chega-lhe da paisagem deslumbrante de verde e cinza ao amanhecer, mesmo com o sol já a aquecer. Torga diria, do alto de Galafura ou de S. Salvador do Mundo «O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir». De facto, um “excesso de natureza” nas duas margens do rio, quer antes, quer depois das barragens, apesar de muitos gostarem mais da antiga força revolta do Douro. 



         E quando a paisagem do rio termina, aí por alturas do Juncal, quase desaparece o encanto. «Não tendes olhos para o dionisíaco esplendor que vos cerca», escrevia João de Araújo Correia no seu “Sem Método – notas sertanejas” de 1938. Não fora a terra e o verde do arvoredo ou as hortas de subsistência de um povo que não verga ao infortúnio de ter sido mal nascido neste «sítio» mal frequentado como dizia Almada. Esse esplendor só volta a encontrar-se naquele curto trajeto entre Campanhã e S. Bento. É o Douro em toda a sua pujança, antes da Foz, onde abraça o oceano imenso. Fica para trás o comboio das 08.37 e o silêncio da viagem, antes do regresso ao coração do rio e da paisagem. A cidade grande engole por algumas horas toda a magia embriagante. 



Julho de 2021

António Bondoso





2021-06-29

CLARO QUE AS GUERRAS SÃO VIOLENTAS. Neste Dia, um «elogio» ao “comando” e Professor Rui de Azevedo Teixeira. 



E deixo um aviso: não tenho competências para levar por diante o que se pode chamar tecnicamente de recensão ou até uma simples crítica literária. E a qualidade reconhecida e característica fundamental dos escritos de Rui Teixeira obriga-nos a uma reflexão atenta e profunda. Aliás, ele próprio não se coíbe de chamar a atenção para as suas capacidades académicas. Apesar de tudo, devo dizer que sei ler e gostei do que li.

Sem rodeios, sem tabus, sem medo das palavras e das ideias, Rui de Azevedo Teixeira apresenta-nos um romance de certa maneira «diferente» no formato mas «poderoso». As memórias cruzam-se, misturando ficção e realidade como sempre acontece. Mas neste “O Elogio da Dureza” destaca-se a brutalidade, a violência pura e dura. Simultaneamente rude e bela. Pelas palavras. Linguagem e cenários com os quais me identifico, apesar do “desdém” que o autor empresta ao “Lobo” quando este fala da «tropa pacaça». Ou «macaca», diziam outros. Mas há muitos pontos em comum, sobretudo quando descreve a vivência do CIC. Que eu não frequentei mas sei, pelos relatos de quem lá passou, inclusive familiares. A «EAMA», que eu vivi, foi um bom viveiro do CIC, mesmo passando ao largo da conversa do protagonista com o coronel comandante sobre os furriéis angolanos brancos: “nem carne nem peixe quer na hierarquia militar quer na questão da nacionalidade”. É uma perspetiva da «guerra» que ainda não foi devidamente explorada e explicada. Mais do que uma questão de defesa do «império», era talvez o «princípio da pertença». Mas a realidade de quem mandava era outra. Vinham do «puto», saberiam muito de estratégia, mas faltava-lhes a essência. E os costumes e as línguas. Nesta perspetiva, Rui Teixeira colocou o «dedo na ferida» e isso é importante para o debate que se queira fazer.

Por outro lado, pouco importa se é a obra é autobiográfica ou não. O autor já negou e explicou os poucos pontos em comum com o protagonista do romance Paulo de Trava Lobo Ferreira. Mas, creio eu, um romance constrói-se com memórias e vivências que o autor vai apresentando, opondo e conjugando, colocando nas vozes de cada um dos protagonistas exatamente as palavras e as ideias que pretende transmitir. Não para leitura de «mesinha de cabeceira» mas para provocar reações quer se goste ou não. E ainda agora, quando se quer levar ao limite a questão da guerra colonial, mostrando-se apreço e compreensão por quem dela fugiu e apresentando um certo ar de crítica para com os milhares que a cumpriram, Rui de Azevedo Teixeira traça a figura de Paulo Lobo já com 22 anos, comando e conhecedor da guerra em Angola, massacres incluídos: “Pertencia agora, com um grande orgulho negro, à tribo dos homens que praticaram, com continuidade, a morte violenta. Uma tribo muitíssimo pequena, na qual só muito poucos valorizam os que a ela não pertencem”.

Para além deste ponto de reflexão, que o romance ora nos traz ora nos leva, já entre o Portugal do «PREC» e a Angola do Leste e dos Dembos, uma nota para uma outra arma do romance que Rui Teixeira coloca à cintura de Paulo Lobo: a literatura. Raras são as páginas – ou pelo menos os capítulos – em que não aparece uma citação de Os Lusíadas, um título de Hemingway ou de Steinbeck, Bocage, Junqueiro ou Pessanha.

Como dizia o «Paulista» Monteiro Lobato, “Um País se faz com Homens e Livros”. Tenham uma boa leitura.


Rui Teixeira

António Bondoso

29 de Julho de 2021.  


 

2021-06-12

Em Memória de Armando Bondoso.

Um Tio é um Tio...e este era o último do núcleo direto.
UM TIO PARTICULAR…mente relevante.

Armando Bondoso

Sem querer minimizar as ligações que me prenderam a outros tios – foram muitos e a cada um a sua história – o Armando ocupa uma posição de destaque no meu «Panteão» da Família. Por ser o mais novo dos irmãos – a uma década de intervalo – foi o «ai Jesus» de toda a gente. E teve direito a 3 nomes – quando dois era norma incontornável.
Armando Andrade Bondoso manteve as «iniciais» dos nomes do pai – António Almeida Bondoso – as mesmas iniciais que eu herdei – António Augusto Bondoso. Pode ter sido uma circunstância do acaso, é verdade. Mas não deixa de ser relevante quando nos metemos a «interpretar» a história.
Por ser o «ai Jesus» da família, o tio Armando foi merecedor da atenção protetora dos irmãos mais antigos, nomeadamente do meu pai Luís, com quem manteve uma longa proximidade. E dele me recordo, ainda jovem, à mesa da primeira casa onde vivi em S. Tomé, no Bairro da Conceição, uns anos antes de enveredar pela carreira da sua vida – trabalhador da Valle Flor – sobretudo ligado à cultura do cacau, no Rio do Ouro, primeiro, e em Diogo Vaz ao longo dos muitos anos em que permaneceu nas ilhas. Sabia de cacau como ninguém. Estudou o seu cultivo e os necessários cuidados naquelas duas grandes «universidades» de S. Tomé.
E a seguir…a nossa ligação mais profunda, que – para além da afinidade clubística – começou na responsabilidade de me levar de volta às Ilhas, depois de eu ter passado um ano atribulado em Moimenta da Beira, entre os 6 e os 7 anos de idade. E foi uma viagem longa até Lisboa com o seu quê de aventura. O carro de um amigo, que foi avariando por aquecimento, a travessia do Tejo numa barcaça em Abrantes e o deslumbramento de Lisboa. O susto que lhe preguei quando, cansado de desenhar barcos em ondas do mar imenso, saí do quarto da pensão e resolvi enfrentar a rua com uma multidão em movimento apressado. E quando dei por mim, estava perdido, sem noção do espaço. E chamei a atenção, gritando por ele, sem saber sequer o nome da Pensão. E foi essa agitação à minha volta, ali bem perto, que o conduziu ao meu encontro para seu grande alívio. Foi um enorme susto, confessou mais tarde.
E de novo o mar e de novo as Ilhas e por fim a Escola, antes do tempo do casamento, que ele havia «preparado» na sua vinda a Portugal, com passagem de charme por Moncorvo. E casou com a minha vizinha Floripes Tavares [do Bairro da Conceição] em 1958, dona de um «visual» de artista de cinema. E nesse dia usei gravata pela primeira vez, dizendo que já parecia o noivo! Desse casamento nasceu uma relação particular com a família Pontes, à qual me viria a ligar anos mais tarde, sendo os tios padrinhos de casamento da minha mulher.
E o Armando foi marido, e foi pai, e foi avô, mas continuou a ser tio. Estivemos sempre de acordo? Certamente que não, mantendo o respeito devido. O «choque» da descolonização foi, naturalmente, diferente [apesar das circunstâncias madrastas ainda teve força para caminhar e erguer um novo projeto de vida em Portugal], tal como a forma de ir percebendo o mundo. Mas conversávamos muito, até chegar o tempo em que a vida foi sofrendo e repetindo revezes. Mas não deixou de ser um tio especial com o qual fui partilhando memórias. E é de muitas delas que me vou alimentando. Por fim, contudo, foram as circunstâncias da pandemia a marcar o ritmo do relacionamento. E tudo se foi precipitando…até ao desenlace final. Com a sua partida, termina a gesta dos sete irmãos que foram educados musicalmente em casa do avô António, em Moimenta da Beira, antes do chamamento de África.
Deixo então à sua mulher, Floripes, ao seu filho Tozé, à sua nora Teresa e aos netos que adorava Pedro, João e Francisco um forte e sentido abraço, extensivo a todos os outros sobrinhos e afilhados que ainda permanecem.
Até sempre Tio Armando.


Armando Bondoso e Floripes Tavares com Virgínia, Luísa e António Bondoso
S. Tomé. 

António Bondoso
11 de Junho de 2021.

2021-04-27

EM JEITO DE RESPOSTA A PALAVRAS SEM IDEIAS DENTRO…ou de como, à boa e saloia maneira portuguesa, se manipula, se disparata, se dizem e se escrevem asneiras, se incentiva à intolerância e ao ódio – sempre a coberto de artimanhas, de falsa moral, de facciosismo parolo, de imbecilidade, próprios de quem só aparece quando dá jeito. 


Pormenor da capa do jornal O Jogo

Como exemplo maior o atual ministro da educação (?), membro de um governo «caloteiro» que não paga o que deve a quem procura cumprir atempadamente os seus compromissos. Falo dos clubes de futebol, claro. Particularmente em tempo de pandemia. E o ministro Tiago, ao «futebol» tem dito nada! Nomeadamente ao FCP que, ainda recentemente, valorizou o nome de Portugal na Liga dos Campeões. Mas adiante…que o burro está impaciente!

         Lembrei há dias – talvez quase ninguém tenha reparado – o que escreveu Almada Negreiros sobre as palavras: «O preço de uma pessoa vê-se na maneira como gosta de usar as palavras. Lê-se nos olhos das pessoas. As palavras dançam nos olhos das pessoas conforme o palco dos olhos de cada um». Não pretendendo interpretar – e muito menos questionar – as palavras de Almada [quedo-me humildemente no reconhecimento das minhas modestas capacidades], e até porque ele próprio escreveu em 1923 «Por amor de Deus, não me obriguem a explicar nada do que eu digo», não deixarei – nunca deixei – de estar atento às palavras que diariamente vão marcando o nosso quotidiano. Por parte seja de quem for.

         Acho piada, sem surpresa – pois os episódios se repetem no que diz respeito às virgens ofendidas – que se queira branquear a incompetência de um grupo de árbitros de futebol pelo relevo dado a um caso de polícia. Quem foi agredido apresenta queixa e testemunhas. E a justiça seguirá o seu caminho. Exatamente ao contrário do que já não poderá suceder com os 2 penáltis não assinalados a favor do FCP no jogo de Moreira de Cónegos. Também não deixa de ser curioso o facto de os média estarem agora a valorizar os 10 centímetros de um fora de jogo. O caso que importa é a sonegação de dois penáltis!

         E depois aparecem as habituais carpideiras da 2ªCircular, qual delas a cheirar mais a processos ainda não totalmente esclarecidos e resolvidos, a reclamar justiça pronta e célere. E os média nos seus habituais julgamentos de praça pública. Tão intensos quando o céu é azul e branco. Mas esquecem as missas, os padres, os e-mails, os juízes corrompidos, as dívidas – mesmo que perdoadas – os assassínios de adeptos, as invasões de violência, o cashball – mesmo que arquivado – e outras tropelias que fazem um santo corar de vergonha. Mas, de facto, não há santos. Nem os ditos jornalistas. Não são inimputáveis, embora às vezes pareça. E não quero falar deste caso em particular, pois não vi o sucedido. Mas perante um crime, é avançar.

         Ouvi igualmente falar em ADN. Pois eu vos digo que o meu ADN é do tempo dos Calabotes. Foi aí que bebi o meu direito à indignação, muito antes de Mário Soares o apresentar como um direito adquirido. E dele não abdico, independentemente de reconhecer os direitos de informação e de liberdade de expressão. O que leio e vou ouvindo quantas vezes conseguem fazer crescer os poucos cabelos que tenho! Para além do ADN, também ouvi falar em «fora-da-lei». Por exemplo, a colagem à figura de Pinto da Costa que os média e outros cidadãos logo fizeram a respeito do eventual agressor. Afinal, quem cometeu o «crime» estava ali a convite do próprio Moreirense.

         Sou contra todo e qualquer tipo de corporativismo. Assumo as minhas responsabilidades enquanto cidadão e enquanto intérprete de um código deontológico. Pode ser que este repórter venha a ter mais sorte do que eu e que o Sindicato o consiga defender, ao contrário do que sucedeu comigo quando fui «saneado» três vezes.

Aqui chegados, não quero igualmente deixar de criticar os responsáveis do FCP pelos acontecimentos de ontem, tal como o treinador Sérgio Conceição pela falta de visão e de leitura do jogo. Sobre os jogadores utilizados? Cada um sabe do que se passa em sua casa. Mas o que deixa transparecer é uma ideia completamente desajustada.

         Independentemente de quem dirige e de quem treina, não deixarei de ser tão portista como os demais. Tal como não deixarei de ser jornalista.

António Bondoso

Abril de 2021.

 


 

2021-04-21

O KIKO BONDOSO E A (BOA) «MONTRA» DO FUTEBOL…ou de como um jovem cheio de talento tardou em ver reconhecido o seu valor. 



         Com um abraço grato e de parabéns ao “Canal 11”, sobretudo nas pessoas de Pedro Sousa e de Sofia Oliveira, que se empenharam na distinção do Kiko, e a propósito do que ali se foi dizendo no programa de ontem – nomeadamente pelo treinador Rui Vitória – recordo o que há mais ou menos 20 dias escrevi sobre «o rei das assistências»: - “O «sistema», que ora promove, ora ignora, é a grande «falha» do futebol em Portugal”..

                                       


         Rui Vitória particularizava a questão do «scouting» e sobretudo a capacidade de “projetar” o futuro de jovens como o Kiko que, segundo ele, tem características fundamentais para se afirmar: - a inteligente leitura de jogo, alicerçada numa rápida e desconcertante capacidade de decisão. Infelizmente, digo eu, não é só o «scouting» que falha. Se a Sofia e o Pedro tivessem tido mais tempo para investigar, talvez pudessem chegar à conclusão de que, nas estruturas dos grandes clubes, também se falha. Ou, melhor dizendo, quem observou o Kiko ainda «júnior» (quer em Alcochete, quer no Olival) não revelou capacidade de «projetar», como referiu Rui Vitória. No fundo, houve incompetência. Felizmente, embora já numa fase "adiantada", o Vizela e o seu técnico Álvaro Pacheco acreditaram no Kiko. Com «visão», diga-se. 



         Apesar de tudo, nomeadamente do valor financeiro que – aos 25 anos – se pode colocar em equação, sobretudo para clubes de topo, penso ser ainda tempo de alguém com visão e com coragem ter o Kiko em perspetiva.  Parabéns Kiko. O futebol agradece.

António Bondoso

21 de Abril de 2021. 




 

2021-04-12

UM PAÍS ESTRANHO…ou de como os portugueses pretendem dividir o país em bons e maus, competentes ou incompetentes, justos ou injustos. 



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         Não há juízes bons e maus. Há juízes que seguem/interpretam as «leis» produzidas pelos deputados sentados no Parlamento. Os mesmos juízes avaliam, com olhos de saber diferente, os indícios e/ou as provas que lhe são apresentadas pelos investigadores do Ministério Público. Que, tal como os deputados, podem ser «falíveis» por motivos diversos. E quem acusa é que tem o ónus da prova. Por isso se exige que os investigadores possam agir com rapidez e competência. Por isso se exige que haja meios humanos e técnicos capazes e eficazes para apoiar o «juiz de instrução».

         Os juízes são de carne e osso, como todos nós. Mas são juízes. Alguém pode pensar que os juízes não têm preferências partidárias? Claro que têm, embora não a possam revelar. Mas alguém sabe a «cor» de cada juiz? O senhor Carlos Alexandre será bom por ser do partido «a» ou «b»? E o senhor Ivo Rosa será mau, por ser do partido «c» ou «d»? Não. Um juiz é um juiz – ponto final!

         E das decisões de cada um, há sempre recurso para uma instância superior. Por isso o MP, que não pode estar isento de culpas nas suas investigações, entendeu recorrer das decisões de Ivo Rosa. Deixemos a «justiça» funcionar. Independentemente da maior ou menor «perplexidade» que possa ter transparecido para a opinião pública. O que não pode ser avaliado da mesma forma pelos agentes da Procuradoria-Geral da República.

         Por outro lado, e seguindo a linha de raciocínio, alguém sabe quantas decisões de um coletivo de juízes terão sido tomadas por unanimidade? Podem consultar os acórdãos dos diversos Tribunais de Relação, do Supremo ou do próprio Tribunal Constitucional. O que é importante reter é que os juízes, de forma perfeitamente normal, podem ter interpretações diferentes do espírito e da letra da «Lei». Por isso, haverá sempre quem possa ficar agradado ou se possa sentir injustiçado com uma determinada decisão. Mas isso, só por si, não justifica a condenação de um juiz na «praça pública». Como tem vindo a acontecer, infelizmente, com a quase totalidade dos arguidos deste país. Porquê? Pela simples razão de que há sempre interesses que se movem, pró ou contra. Para além dos diversos «agentes» da «justiça», há depois os interesses dos «média» que se alimentam das chamadas «fugas de informação» e das formas de pressão exercidas pela seleção dos seus comentadores.

         José Sócrates vai ser entrevistado? Pode ser bom…ou mau para ele. Falar muito ou «fora de tempo» pode não significar ganhos de causa. Em qualquer caso, Sócrates tem sido «condenado» pela opinião pública nos últimos sete anos.  

         Mas a justiça em praça pública não é dignificante. Demasiada mediatização em nada contribui para uma «justiça serena». E quando tudo isto cai na praça pública de forma «enviesada», cai o «pilar» fundamental do regime democrático. Um país, nesse caso, poderá estar a caminho de ser um país «falhado». Exemplos não faltam por esse mundo fora. Não estamos no tempo dos «tribunais plenários» do Estado Novo nem tão pouco no tempo da lenda da «Justiça de Fafe».  

         Quando falo nisto, vem sempre à ideia a célebre frase do Pinheiro de Azevedo: - calma. É só fumaça!   

         O que verdadeiramente nos deve preocupar é o vírus, o desemprego e a pobreza. Uma petição para eliminar ou controlar a pobreza, atacando os verdadeiros alicerces? Isso, eu assino sem reservas. Como assino o fim da má distribuição da riqueza – um mal que nos assalta há séculos. Por isto vale a pena lutar, com inteligência e competência. A ignorância e o carreirismo são os germes de todos os males.

António Bondoso

12 Abril de 2021.  

 

2021-03-01

  

ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS EM STP na Gravana. CARLOS NEVES é um dos perfilados…e vê a Justiça como pedra angular do funcionamento do Estado e uma Administração Pública transparente no combate à corrupção.

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São algumas das ideias presentes no projeto de candidatura de Carlos Filomeno Agostinho das Neves ao cargo de Presidente da República de S. Tomé e Príncipe, país que atravessa um período de crise profunda ao nível da tolerância: “As fraturas sociais aferem-se mais pelo clima de ressentimento e até ódio manifestamente visíveis no Pais por divergências políticas”. Conheço Carlos Neves desde jovem, acompanhei uma parte importante do seu percurso político no processo da «mudança» e o seu empenho nas primeiras eleições livres em STP – quer legislativas, quer presidenciais – e fui testemunha, quase em «direto», via telefone, do golpe militar de 1995, estava eu na Rádio Macau e conversávamos sobre a situação do país.

         Neste breve conjunto de perguntas e respostas para publicar no meu Blogue PALAVRAS EM VIAGEM, ressalta a ideia de um homem de diálogo e de consensos, livre de escândalos no passado e que não negociou a sua candidatura com qualquer partido político, embora converse com todos e com personalidades diversas da sociedade civil santomense. No momento atual, diz, sente que o seu nome tem passado com facilidade entre a população, a qual reconhece na sua pessoa “alguém que sempre esteve presente nos momentos mais importantes da história política de S. Tomé e Príncipe nos últimos quarenta e sete anos”. 

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         Invista alguns minutos do seu tempo para ficar a saber algumas das linhas essenciais da candidatura de Carlos Neves, que vão da cultura democrática à política externa do país, não esquecendo as diásporas.

A.B./PALAVRAS EM VIAGEM:

Dr. Carlos Neves, é visível num dos vídeos promocionais da sua candidatura a sua ligação umbilical à “União MDFM/UDD”.

Foi proposto pelo partido ou recebeu o apoio já depois de apresentar a sua candidatura?

Não teme que essa «ligação» venha a ser redutora da sua candidatura?

CN – Fui um dos criadores da União MDFM-UDD, em 2018, quando os dirigentes desses dois Partidos se uniram reconhecendo que juntos teriam mais força.

Tivemos em conta as nossas raízes comuns, as nossas afinidades políticas e o potencial de intervenção que daí poderia resultar para as duas formações e, acima de tudo, para o país.

Como sabe as eleições presidenciais não são como as eleições legislativas, sendo o eleitor chamado a, após uma aferição dos candidatos, decidir sobre aquele que, na sua opinião, melhor pode exercer as funções de Presidente da República. Daí que a decisão de me candidatar seja exclusivamente minha, mas disso dei a conhecer aos outros dirigentes do Partido, esperando que, naturalmente, alicerçado no meu passado, na minha história de vida e na minha postura de diálogo e de permanente busca de consensos, pudesse colher o seu beneplácito e granjear o seu apoio, o que aconteceu.

A.B.

Negociou a sua candidatura com outras forças políticas (nomeadamente com o MLSTP – parceiro da coligação no poder)? Deseja ou vai lutar pelo apoio desse partido?

Que outros apoios já mereceu da Sociedade Santomense? De que setores e de quais «figuras públicas»?

CN – Procurei em primeiro lugar sondar o grau da minha aceitação ou rejeição junto da população e de seguida comecei a divulgar as grandes linhas do meu pensamento político, dando assim aos potenciais eleitores a oportunidade de conhecerem os meus propósitos e a minha linha de acção se vier a ser eleito PR, o que espero.

Não negociei com nenhum partido político, mas tenho conversado com vários partidos e personalidades do meu País sobre as minhas ideias e o seu eventual apoio à minha candidatura.

No momento atual sinto que o meu nome tem passado com facilidade entre a população, que reconhece em mim alguém que sempre esteve presente nos momentos mais importantes da história política de S. Tomé e Príncipe nos últimos quarenta e sete anos, alguém que nunca esteve metido em escândalos de qualquer natureza e que deseja ver o Pais progredir num clima de unidade, de consensualidade e de transparência governativa.

A.B.

Sabendo-se como está dividida/fraturada a «sociedade civil» em STP, traduzida por exemplo no elevado número de candidatos que já manifestaram a sua intenção de candidatura…Como é que tem medido o seu índice de popularidade e de aceitação?

CN - Creio que não se deve medir as fracturas da nossa sociedade pelo número de cidadãos que manifestaram a intenção de se candidatar. As fraturas sociais aferem-se mais pelo clima de ressentimento e até ódio manifestamente visíveis no Pais por divergências políticas. Como já referi anteriormente, sou alguém que consegue dialogar com todos os partidos políticos e estabelecer pontes e consensos dentro e fora dos partidos. Essa minha postura não é de hoje e é reconhecida por muita gente.

A.B.

Dr Carlos Neves…sente que é o melhor candidato ou o que está melhor posicionado para vencer as eleições presidenciais? Qual o seu rival mais direto?

Não teme que apareçam outros candidatos de maior “peso”, de figuras como Patrice Trovoada, por exemplo…que poderá vir a obter o apoio da ADI – um partido que ajudou a fundar?

CN – Numa disputa como as eleições presidenciais, reconheço que todos os candidatos devem merecer o nosso respeito, independentemente do seu aparente peso político ou das suas condições financeiras, pois entendo que todas as ideias e propostas podem ser discutidas.

Não é minha preocupação saber quais os cidadãos do meu País irão participar neste pleito que se avizinha. Estou mais concentrado no meu projecto e na interacção com os eleitores, muitos dos quais são do ADI, partido que em boa hora ajudei a fundar.

A.B.

Nas «ideias» que apresenta para um país melhor, refere a necessidade de o PR – em função das suas competências constitucionais – ser um “Gerador de Consensos” (magistratura de influência).

Perante o «clima» (social e político) gerado nos últimos anos – agitação, intriga, conflitualidade – está convicto de que o PR ainda pode ser um gerador de consensos, equidistante e acima das forças partidárias?

CN – Uma das virtudes dos sistemas democráticos é o de permitir que através do diálogo permanente se resolvam ou se atenuem os conflitos que sempre existem nas sociedades.

O papel do PR é justamente o de ser alguém que consiga dialogar com toda a gente, independentemente das suas origens, credos religiosos ou inserções político-partidárias, estabelecendo pontes e gerando consensos, proporcionando a paz e a estabilidade ao seu País.

Os conflitos existentes na nossa sociedade devem merecer a nossa atenção e um estudo pormenorizado das causas e origens, por forma a se encontrar as melhores soluções para os mesmos.

A.B.

Justiça, Corrupção, Administração Pública, Evolução Económica, Justiça Social – são outros desideratos que pretende alcançar.

Qual ou quais devem merecer a atenção imediata do novo PR?

CN – Garantir-se uma sociedade com estabilidade obriga a fazer funcionar a Justiça na sua plenitude, daí esse item dever ser uma das grandes prioridades do PR. A solução da problemática do funcionalmente normal do sistema judicial, é a pedra angular do funcionamento do Estado em todas as suas dimensões, pelo que o PR, como garante do regular funcionamento das instituições, deve exigir, contribuir e zelar para que esta questão se resolva.

Uma Administração Pública a funcionar com transparência, permite o combate à corrupção e proporciona a solução das questões económicas, potenciando, por sua vez, a criação de condições para uma melhor produção e distribuição da riqueza nacional.

A.B.

Alinhamentos fundamentais da Política Externa. (em consonância com o governo, naturalmente).

Para além de uma melhor/mais eficaz integração de STP na região do Golfo…quais os parceiros essenciais/privilegiados para a PE do país?

CN – Naturalmente que o PR não tem o exclusivo da política externa, mas tem uma palavra muito decisiva nos alinhamentos a seguir. Penso que não devemos desviar-nos dos alinhamentos já estabelecidos, isto é, com a CPLP, a UNIÃO AFRICANA, a CEAC (integração regional) e a ONU no plano multilateral, e no plano bilateral com os nossos vizinhos mais próximos – Angola, Guiné-Equatorial, Gabão e Nigéria, e com os nossos principais parceiros fora do espaço africano, designadamente com Portugal, país irmão, e com a República Popular da China, actualmente o maior investidor no nosso Pais. Tudo isso não nos deve abstrair de procurar novas parcerias.

É necessário reforçar-se a ideia da integração regional por forma a atrair os investimentos dos nossos vizinhos e estabelecer-se um mercado para a exportação dos nossos produtos. As acções com vista à implementação de uma diplomacia económica devem ser uma prioridade, aproveitando-se melhor a rede das nossas representações diplomáticas e de consulados honorários.

A.B.

Nesse seguimento, que ações e valores defende para as «diásporas»?

CN – Acho que devemos estabelecer uma linha de contacto permanente com a nossa diáspora de molde a conhecer melhor os seus problemas para que juntos e em articulação caminhemos na busca de soluções, e procurando junto aos países de acolhimento o melhor modelo de enquadramento dos nossos concidadãos.


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Obrigado Dr Carlos Neves pela disponibilidade para mais esta reflexão. Felicidades.

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António Bondoso

Jornalista – CP 150 A.

1 de Março de 2021. 




 

2021-02-24

DAS GUERRAS E SEUS EFEITOS...


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DAS GUERRAS E SEUS EFEITOS…ou de como o Homem, com o seu sentido de predador nato, sempre utilizou a força e a barbárie para obter poder. A guerra é a minha pátria – diz Pierre Drieu La Rochelle; a guerra é sobretudo sofrimento, segundo Robert Fisk; a guerra é a grande experiência, escreve Almada. Ou, seguindo a «escrita da guerra» que nos oferece Rui de Azevedo Teixeira, no seu recente “Ensaios de Espelho”, «A violência é parte da raiz do homem; a tendência para a agressão é, tal como a pulsão erótica, parte da essência do homo sapiens, como já o fora do proto-homem, tão bem estudado por Raymond Dart». Teixeira cita mesmo uma expressão de Freud, segundo a qual a guerra mostra o que a civilização tapa.

Numa perspetiva diversa e com oportunidade – já que muito se tem falado de guerra nos últimos tempos em Portugal – a RTP2 exibe, a partir de hoje, um documentário com o qual se pretende dar a conhecer aspetos particulares da violência da II Guerra Mundial. Ali se ouve, por exemplo, que as guerras nunca acabam e que «o inferno começa quando a guerra termina e dura toda a vida». Só por si, não deixa de ser uma frase de extrema violência, proferida por uma mulher norueguesa que foi obrigada a procriar com um soldado alemão durante a ocupação nazi. E foram entre 30 a 50 mil as mulheres nessa situação, tendo ficado conhecidas como “garotas alemãs”. Humilhadas e violentadas no final da guerra, só em 2018 viram o seu governo pedir desculpas pelo tratamento vergonhoso a que foram sujeitas.

Mas, continuando a citar Teixeira…«assim como a água não tem forma permanente, não existem na guerra formas estáveis», ensina o primeiro dos grandes estudiosos da guerra Sun-Tzu. E prossegue, agora com Pessoa, para quem – com a guerra – passa «a ser legítima a solução animal das questões».

Por outro lado e contextualizando os primeiros anos do século XX, mais precisamente 1917, uma breve referência ao «Ultimatum Futurista» de Almada Negreiros, no qual se faz a apologia da guerra: “Ide buscar na guerra da Europa toda a força da nossa nova pátria. (…) A guerra serve para mostrar os fortes mas salva os fracos. (…) É na guerra que se acordam as qualidades e que os privilegiados se ultrapassam». Depois, com a barbárie da II Guerra e de todas as guerras que foram enchendo o globo – concretamente a guerra de África ou Colonial – talvez Almada tivesse escrito um outro «ultimatum».



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 António Bondoso

Fevereiro de 2021.


2021-02-11

 SEI DO TEMPO E DO VENTO…



Foto de A.B. 

Não preciso que os “ventos” me venham contar uma História. Não preciso que os ventos me tragam uma “nova” História. Não preciso que o “tempo”, o tempo dos “manipuladores do tempo”, me traga novas histórias, reescritas ou reinventadas. Apesar de tudo aceito histórias “recontadas”, pois sei, à partida, que, quem conta um conto, acrescenta um ponto. Por isso, saberei descontar os pontos.

         Sei de muitas histórias da História. Sei de António Hespanha, António Sérgio, Borges de Macedo, Carlos Neves, Cortesão, Fernando Rosas, Godinho, Herculano, Mattoso, M’Bokolo, Oliveira Marques, Reis Torgal, Rui Ramos, Saraiva ou de Veríssimo Serrão. E sei de António Borges Coelho, que disse que «O historiador é um manipulador do tempo. Prende-o num campo ou castelo de palavras. E qualquer um o desperta da mortalha das letras…Mas verdadeiramente não é o tempo que prendemos mas tão-só os acontecimentos – sinais gravados noutros sinais». Em O tempo e os homens. Questionar a história III. Lisboa, Editorial Caminho, 1996, p.13.[1]

Sei do meu tempo e do tempo de muitos outros antes de mim.

Sei do tempo em que cheguei, do tempo que percorri e sei dos ventos que me têm «empurrado» até ao presente. E sei dos ventos que vão soprando e das razões que os movem. E sei que, a cada investigação, se reportam quase invariavelmente as mesmas «fontes». Basta ler as “notas” ou as “citações” de referência no final de cada obra. E aí, como diz António Borges Coelho, «desperta-se o tempo da mortalha das letras». Um tempo diferente, interpretado e reinterpretado, de acordo com a direcção e os objectivos pretendidos à luz de um tempo outro. Fica sempre bem uma “leitura” oportuna…ou oportunista! De acordo com os ventos que sopram! Mas, em boa verdade, a essência dos factos está – não deixa de estar – nas fontes consultadas. Independentemente dos períodos de maior ou menor «nebulosidade». Quer se fale do «nascimento» de Portugal, quer se escreva sobre a epopeia dos Descobrimentos. Quer se fale dos impérios, da colonização ou da descolonização. Aliás, sobre este último tema, a RTP1e 2 passaram recentemente dois excelentes espaços de investigação e de conhecimento. https://www.rtp.pt/play/p8429/decolonisations.

         Sei do tempo e do vento…embora não possa saber tudo! Ninguém sabe. Mas procuro, embora – honestamente – não consiga criticar quem o não faça. O que não consigo deixar de criticar é a arrogância com que se…critica!



[1]-http://cm-pvarzim.pt/biblioteca/download/Procurar_a_luz_para_ver_as_sombras_Antonio_borges_coelho.pdf. Uma publicação da C.M. de Vila Franca de Xira e do Museu do Neo-Realismo, com edição de Sílvia de Araújo Igreja – Procurar a Luz para ver as Sombras – 2010.  



Foto de A.B.

António Bondoso

Fev. 2021

2021-02-06

CABO VERDE – 30 ANOS DE «MUDANÇA»…ou de como um jovem quadro ajudou a erguer o MPD (Movimento Para a Democracia) e a levar o “jovem” Estado africano a «um momento sublime e de grande exaltação». Hoje, Carlos Veiga diz candidatar-se pela terceira vez ao cargo de Presidente da República, acreditando no futuro, na juventude mais preparada e com a certeza de que «pode contribuir para o desenvolvimento humano e inclusivo da nossa Nação. E, se posso…devo! A tarefa é de todos!» sublinha este político de Cabo Verde ao Blogue “Palavras em Viagem”, de António Bondoso: 



Carlos Veiga (foto da Web)

A.B. – Dr. Carlos Veiga, a «Mudança» de há 30 anos não foi apenas um momento histórico.

1.     A “Mudança” foi, de facto, um momento decisivo. A pressão externa foi importante e o regime de partido único percebeu-o. Cabo Verde era dos países que mais APD recebia dos “doadores” e sabia que tinha de “abrir”. Mas a Mudança que ocorreu ultrapassou de longe a “abertura” prevista pelo regime. A sociedade cabo-verdiana mostrava então abertamente o seu descontentamento com o status-quo  e, através de um grupo crescente de jovens quadros e activistas,  mostrou que queria mesmo uma mudança de regime e não a tímida abertura “oferecida”. Queria uma democracia verdadeira e mostrou-o  através de propostas claras e consistentes, contrárias às do regime, manifestando-se pacificamente nas ruas, com crescente apoio popular, ao mesmo tempo que se disponibilizava para discutir as suas propostas com o Poder, pacificamente.  O momento era sublime e de grande exaltação. Ninguém do grupo pensava no “medo” ou na sua segurança pessoal. O momento era aquele! O apoio popular era crescente. A palavra de ordem “medo dja caba” (o medo acabou) espalhou-se amplamente  e com entusiamo em todas as ilhas, mesmo naquelas em que a repressão foi mais intensa. Por isso, nunca tememos pela nossa segurança pessoal. Tínhamos a clara consciência de que, naquele contexto internacional e interno, o regime estava fragilizado e tinha pés de barro. 

A A.B. - Mas acredito não ter sido apenas um momento histórico. Ele foi mesmo fundamental para o desenvolvimento de Cabo verde?


2.     A Mudança foi fundamental para o objectivo do Desenvolvimento que é o desafio actual da Nação cabo-verdiana. Não há desenvolvimento sem democracia. Em Cabo Verde isso é, hoje, uma evidência. O desenvolvimento humano trazido pela democracia não tem comparação com a situação vivida sob o partido único. Foi também a democracia que trouxe efectivo crescimento económico. Em 1991 o crescimento era zero; em 2001 atingiu cerca de 8% em média quinquenal; de 2016 a 2019 a economia cresceu de zero para 6%.A COVID19 deitou tudo abaixo, mas as perspetivas de crescimento estão aí, com Cabo Verde no ranking da frente em África.



Carlos Veiga e o seu Governo - o 1º da II República

A.B. - Trinta anos depois da «onda da mudança», não será estranho ouvir ainda dizer-se que as pessoas têm medo de falar, de criticar, de escrutinar?

 

1.   Basta entrar nas redes sociais, ler os jornais, ver as televisões, estar no meio de pessoas, e, ainda ver os rankings internacionais sobre liberdade de expressão para concluir que os cabo-verdianos hoje não têm medo de se exprimir. Fazem-no abertamente. Que alguns afirmem o contrário é normal mas não representativo. Normalmente têm motivações outras, sobretudo “politiqueiras” ou do foro laboral, que não o medo de falar na generalidade das situações de vida. Claro que ainda existe deficit de cultura democrática, mas nada de muito diferente do que ocorre em outras nações mais desenvolvidas.

A A.B. – Em qualquer caso, Dr. Carlos Veiga, a sua popularidade – ou pelo menos o seu carisma – não diminuiu, embora tivesse perdido duas eleições presidenciais para o mesmo adversário, Pedro Pires.

 

2.   Quanto às presidenciais 2001 e 2006, acredito que, na realidade, não  as perdi. Ganhei em ambos os casos nas ilhas e perdi nas comunidades. Por culpa própria, sobretudo no plano da organização do aparelho de campanha. Em 2001 oficialmente perdi por 12 votos. Seis meses depois, pessoas foram condenadas e cumpriram prisão por fraude nessas eleições, relativamente a dezenas de votos falsos introduzidos nas urnas. Mas isso é passado e agora estou a olhar para o presente e para o futuro. Creio estar hoje melhor preparado para contribuir, como supremo magistrado da Nação, para que ela sinta o desenvolvimento como coisa sua, de que tem o direito a ambicionar e para que tem o dever de comparticipar.

A  A.B. – 30 anos depois desse combate pela democracia, com o MPD…parece não estar cansado da política. E é agora de novo candidato. O que o faz pensar que à «terceira» será de vez? Uma avaliação mais ponderada de eventuais opositores, ou sente que o PAICV está em declínio, com a liderança «esgotada»?

 

3.    A minha candidatura não está ligada ao estado actual dos partidos políticos. Como democrata considero que os partidos políticos são essenciais para o funcionamento das democracias. Mas não dependo deles para a minha candidatura. Claro que qualquer candidato presidencial, por definição apartidário, deseja o apoio dos partidos e de outras organizações da sociedade. Não sou exceção: desejo ter apoios partidários e de organizações da sociedade civil que se revejam na minha candidatura, que é ´verdadeiramente apartidária. Candidato-me, independentemente das posições dos partidos sobre a minha candidatura, porque me julgo capaz de desempenhar bem o cargo presidencial no contexto actual, acredito no presente e no futuro do meu país, sobretudo numa juventude bem preparada para enfrentar o mundo global e digitalizado do século XXI, tenho orgulho na minha nação e julgo ter a simpatia e o apoio de milhares de cabo-verdianos nas ilhas e nas comunidades, pelo que fiz, pelo que sou hoje e pelo que posso contribuir para o desenvolvimento humano e inclusivo da nossa Nação. E, se posso, …devo! A tarefa é de todos!

A  A.B. – E o MPD? É apenas um «filho» que deixa para trás ou sente que o Partido já não o apoia?

 

4.   O MpD está bem servido com o seu líder atual, o seu programa politico mantem-se o mesmo e está perfeitamente adequado aos desafios do presente e do próximo futuro. Tenho muito orgulho em ter participado na sua criação e desenvolvimento. Considero que é indispensável e fundamental para Cabo Verde. Mas o meu tempo no ativo dentro do partido já passou, normalmente. A grande maioria dos militantes e dirigentes desse partido continua a rever-se na minha pessoa e acredito que estará a apoiar-me nas próximas presidenciais. O PAICV é um partido histórico em Cabo Verde, representa uma parte significativa do povo cabo-verdiano. O mesmo com a UCID. Os partidos mais novos representam novas tendências que emergem na sociedade cabo-verdiana, uma sociedade viva, vibrante, dinâmica e intensamente plural, como ´desejável. Como Presidente trabalharei com todos os partidos e procurarei promover o indispensável consenso entre eles, sempre que o bem comum o exigir.

A  A.B. – Nos «limites» da Constituição do país, em que aspectos é que o PR pode fazer a diferença? Os anteriores Presidentes cumpriram…ou pensa que poderiam ter ido «mais além»?

 

5.    O Presidente não é o executivo, mas o moderador do sistema democrático, com um papel muito relevante de influenciador desse mesmo sistema e da sociedade no seu conjunto. A Constituição é a grande arma do Presidente, pelos poderes que ela lhe dá, mas também e quiçá mais importante, pelas orientações estratégicas precisas que ela estabelece para a generalidade dos aspectos da vida dos cabo-verdianos. A medida em que tais orientações forem efectivamente usadas pelo Presidente da República para influenciar no sentido do bem comum, nas suas relações com as demais instituições da governação e na sua relação com a sociedade, e se transformarem em realidade sentida pelas pessoas na sua vida corrente, por efeito da acção presidencial no quadro constitucional, marcará a diferença feita por cada Presidente. Penso que os Presidentes anteriores cumpriram, no geral. Mas é sempre possível fazer mais! É assim que o progresso acontece!




Carlos Veiga (foto da Web)

No geral, a minha opinião é que o sistema implantado há 30 anos vai relativamente bem. Claro que, como todas as democracias, precisará sempre de aperfeiçoamentos. Existe também um real deficit de cultura democrática, sobretudo em muitos atores políticos, mas o povo, na sua generalidade, revela uma crescente apropriação dessa cultura, sobretudo votando de forma muito madura.

A.B. – Muito grato, Dr. Carlos Veiga. Foi bom ter testemunhado esse momento de «mudança» de há 30 anos, sobre o qual disse ter sido “Sublime”! Felicidades.