2019-11-27



MACAU – O ORIENTE DA HISTÓRIA!
20 ANOS – MUITOS SÉCULOS!
...ou de como, em 20 de Dezembro de 1999, Macau passou a ser diferente mas não deixou de ser Macau. 


Foi este o tema que escolhi para uma «aula» de Relações Internacionais – a última deste ano de 2019 – na Universidade Sénior Rotary de Matosinhos (USRM), em Leça do Balio. Uma oportunidade para recordar o relacionamento entre chineses e portugueses através de Macau, numa altura em estamos próximos da data que assinalou a transferência da administração do território para a RPC. Momentos de «história» antiga e recente, imagens, testemunhos e emoções, pela poética, de figuras que marcaram a vida do território onde nasceram ou onde viveram décadas – como foram os casos de Adé dos Santos Ferreira (Tu, Macau, de passado alegre e triste,/Fazes lembrar o céu quando varia de cor); Leonel Alves (Pai); Camilo Pessanha; Graciete Batalha; António Correia; Silveira Machado (mais conhecido como "o Professor" e também chamado por vezes de "Macaense dos Açores") e Estima de Oliveira.
Grato aos alunos e professores, que escutaram e participaram – nomeadamente dizendo poemas – casos de Natália Vale, Adília Gonçalves, Goreti Moreira, Teresa Morais, Arlete Costa, António Domingos, David Martins e Jorge Reis. Um abraço particular ao engº António Rosado que me facultou quase duas dezenas de fotografias sobre a evolução dos trabalhos da construção do aeroporto de Macau e que estão, algumas, expostas no átrio da Universidade. Reconhecido igualmente a convidados que testemunharam vivências mais ou menos recentes, como por exemplo a Alice Santos – que também disse poesia – a Maria do Amparo e o Major-General Jorge Santos, engº e militar, que recordou – numa síntese brilhante – a azáfama dos últimos anos da presença portuguesa em Macau, falando particularmente da construção do aeroporto e do Centro Cultural, infraestrutura onde decorreu a cerimónia da «transferência». Deixou inclusive uma nota de humor quando referiu um episódio ocorrido a poucos dias da «cerimónia»: chuva intensa e ventos fortes obrigaram um colaborador seu a dizer-lhe «Jorge Sampaio tem os pés molhados», querendo significar que, no lugar onde ficaria sentado o Presidente da República Portuguesa, caía chuva. Ao que Jorge Santos retorquiu «agora, só nos resta rezar para que não chova mais». E o assunto resolveu-se assim. Como foram sendo resolvidos outros momentos ao longo de séculos, nomeadamente os tempos difíceis do «1,2,3» de 1966, em plena «Revolução Cultural» na China de Mao, ou os períodos de angústia dos naturais de Macau (particularmente os de ascendência lusa) que se seguiram à assinatura da «Declaração Conjunta» Luso-Chinesa, em 1987, sobre o futuro do território. Que, na perspetiva da RPC, nunca foi uma «colónia». Visão sábia de quem, pacientemente, analisa e projeta o tempo futuro, eliminando essa tese no âmbito das Nações Unidas e pela qual não poderia haver «descolonização». A RPC, com olhos postos na «reconstrução» da «Grande China», depois do retorno de HK, Macau e Taiwan (que ainda demora), não poderia aceitar uma eventual e consequente hipótese de, descolonizados, aqueles territórios pudessem ascender à «independência». Entenderam, por isso, designar os momentos de 1997 e de 1999 como de «Retrocessão». Isto é, o ato de ceder o que se obteve por cessão.
A Declaração Conjunta, apesar de habilmente elaborada, não «oferecia» uma evidente tranquilidade quanto ao futuro. No entanto, nela estavam escritas palavras e ideias como «alto grau de autonomia da RAEM», dotada de um governo próprio e na qual se manteriam «substancialmente inalterados» os sistemas social e económico durante 50 anos. No fundo, ideias que balizavam a semântica do estabelecido no Tratado de restabelecimento das relações diplomáticas entre Portugal e a RPC, de 1979, o qual reconhecia o princípio do mútuo respeito pela soberania e integridade territorial”.
Os altos e baixos do processo de transição, sobretudo a seguir ao «caso Melancia», condicionaram de alguma forma a eficácia da localização de quadros e do ensino do Mandarim como língua oficial, mas – apesar disso – o governo de Macau e os representantes portugueses no Grupo de Ligação Conjunto Luso-Chinês que «negociaram» o futuro, foram capazes de assumir a importância do Aeroporto para a autonomia do território e de formalizar outras questões fundamentais, como as bases do Direito e a permanência da língua portuguesa – pelo menos até 1949 – o que permitiu aprofundar as relações no âmbito da Lusofonia, uma ideia iniciada pela Administração de Rocha Vieira e mais tarde concretizada pela RPC ao criar o «FÓRUM de Macau» em 2003.
Finalmente, a inevitável e sempre considerada comparação entre os casos de Macau e de Hong Kong. Quer pela dimensão, quer pela história, o que nos apresenta Macau como um quadro singular. Há dias, a historiadora Catherine Chan See disse à Agência Lusa que «O fosso político entre Macau e Hong Kong já vem dos tempos da Revolução Cultural chinesa». A Lusa concluiu que, depois de ouvir vários dirigentes de grupos “não alinhados”, «Duas décadas após a transição, a população de Macau permanece desinteressada da política, graças à educação que não favorece o espírito crítico, devido à melhoria do nível de vida ou ao receio de represálias». Os casos foram e são diferentes, sem dúvida. E outra das explicações pode estar nesta ideia de Ron Lam U Tou – presidente da Associação da Sinergia de Macau e o último candidato a ficar fora da Assembleia Legislativa nas últimas eleições, em 2017: “quase metade da população de Macau nasceu do outro lado da fronteira e os mais velhos “ainda se lembram de quando, na China, não havia nada para comer”. “Nos anos 1990, muitos dos meus colegas de liceu viram os pais ir trabalhar para Taiwan de forma ilegal ou na construção civil”.
Também por isso, mas não só, Macau é diferente. E foi, para o bem e para o mal, a mais duradoura relação ultramarina de Portugal. No Extremo Oriente…poderá não ter sido tão intensa e tão problemática quanto a do chamado «Estado Português da Índia», mas foi a mais duradoura.
E deixou marcas indeléveis. Como essa «Língua Maquista» que, sobretudo Adé dos Santos Ferreira, tornou perene. E foi também em «Patuá» que esta aula na USRM se revelou, dizendo e ouvindo poemas – matéria que deixaremos para a próxima nota neste blogue.
Apesar do inevitável «prazo de validade»…Macau passou a ser diferente mas não deixou de ser Macau.


António Bondoso
Jornalista e Mestre em R.I.
27 de Novembro de 2019

2019-11-11


A ILHA É UMA LUPA…ou de como Maria José Nazaré amplia o substrato de uma ILHA CORAÇÃO, abrindo janelas de emoções por onde saem pessoas de sentimentos diversos, de realidades diferentes, nas ilhas do «Meio do Mundo» ou do «Chocolate», que o mesmo é dizer S. Tomé e Príncipe.  


A autora sabe – recorda e escreveu – que «Há momentos levados pelas rajadas do vento». E foi esse vento, não só mas também, que a levou para fora da «ilha» e a fez enfrentar outros mares revoltos e novas tempestades. Mas isso – e aí reside a força do seu sentir – não impediu a ligação às raízes: a magia e o ritmo do «Batuque» que a transportam para outras dimensões; as «Canções de embalar», as lavadeiras de «Amor fragmentado», a magia das crianças em «Quadra Natalícia», o exemplo – à boa maneira africana – de «Mamã Carlota», a defesa da família tradicional em «Nunca é a mesma coisa».
D. Manuel Martins entendia que «uma das grandes condições para entender a vida é ser poeta». Direi que Maria José Nazaré – tal como Federico Garcia Lorca – tem muito a ver com a ideia de que «a poesia é união de duas palavras que ninguém poderia supor que se juntariam e que formam algo como um mistério». Obrigado Maria José por ter vindo acrescentar coisas novas à literatura de S. Tomé e Príncipe.
         E mesmo sem lupa, atrevam-se a descobrir todos os mistérios nos textos de Maria José Nazaré.
         A obra vai ser apresentada pelo amigo e camarada Abílio Bragança Neto, no dia 20 de Novembro, pelas 18h30, no espaço UCCLA – Av. Da Índia, nº110, em Lisboa. O evento será abrilhantado pela atuação da IGNISTUNA – Tuna Académica do Lumiar. 



António Bondoso
Jornalista
Novembro de 2019. 


2019-11-09


O MURO…NÃO CAÍU POR ACASO. Ou de como a «Conferência de Imprensa» que os média (alguns) tanto têm vindo a valorizar, não foi apenas mais um pormenor. A chamada CORTINA DE FERRO estava rota e cheia de caruncho. Desde a sua tomada de posse, Gorbatchev sabia do «sacrifício» que o esperava e tinha noção de que era inevitável. 


Há 12 anos – por outro lado – quando escrevi o texto que segue, ainda não se tinham registado factos que hoje são demonstrativos de que, afinal, a queda do muro de Berlim e as suas consequências imediatas não constituíram o «Fim da História» anunciado por Fukuyama. Os Estados Unidos desbarataram por mais do que uma vez o capital conquistado (Adriano Moreira disse recentemente que “A maior ameaça atual é a incultura e a leviandade do Presidente dos EUA), a UE vai marcando passo a cada passo e a Rússia voltou a ser grande, como o demonstram por exemplo os conflitos «Geórgia/Ossétia» e particularmente o da Ucrânia/Crimeia. Mais recentemente, o reforço da sua posição na Síria. E depois, a esperada e anunciada emergência da RP China e do seu projeto expansionista: África é paradigma de uma visão universal que a liderança chinesa designa agora de iniciativa «Belt and Road» ou a «rota da seda do século XXI».
         Vejamos, então, a minha «leitura» desse tempo distante, elaborada há 12 anos, como disse:
“Apesar de ainda hoje serem visíveis algumas situações de conflito herdadas da chamada “Guerra-Fria” – como por exemplo a divisão da Península da Coreia, o problema de Cuba e a questão do Médio Oriente, particularmente entre Israel e a Palestina – não tem sido possível estabelecer um consenso sobre os limites temporais, causas e definição desse período.
           No entanto, parece não haver dúvidas sobre algumas características que marcaram significativamente quase toda a segunda metade do Séc. XX (talvez não seja um acaso a designação corrente de “Século da Guerra-Fria”, atribuída ao século passado): -- para além de um confronto político, económico e tecnológico, a Guerra-Fria foi, sobretudo, um conflito ideológico travado por dois Blocos, liderados pelos EUA – a Ocidente, e pela URSS – a Leste. Os primeiros, numa tentativa de conter a expansão do Comunismo e, os outros, na expectativa de derrotar o Capitalismo Demoliberal.
          Bernard Droz e Anthony Rowley[1] parecem situar o início do confronto no seguimento da oficialização do plano Marshall (a guerra-fria cristalizou-se, inicialmente, em torno do problema alemão para, rapidamente, adquirir uma dimensão mundial) – atribuindo especial relevo à doutrina Jdanov ou dos “dois mundos antagonistas” e à questão da Coreia. Este problema é também mencionado por Maurice Vaïsse[2] - o ano de 1947 representa uma cisão – mas refere já o que chama de “primeiras fricções”, aludindo nomeadamente à célebre frase de Winston Churchill (já não exercendo o cargo de primeiro-ministro), em 1946 no Missouri (EUA) : “a cortina de ferro que, de Stettin, no Báltico, a Trieste, no Adriático, caiu sobre o nosso continente”.
          O ano de 1947 volta a ser uma referência no Atlas das Relações Internacionais, dirigido por Pascal Boniface[3], no qual se considera a “clivagem Este/Oeste” decomposta em dois grandes períodos – a guerra fria (1947-1962) e a détente (1962-1979), aos quais se sucederam dois períodos mais curtos: uma nova guerra fria (1979-1985) e uma nova détente (1985-1989).
           Para Boniface, apesar de se apresentar globalmente o período de 1947-1989 como de “guerra fria” (foi tudo excepto uma guerra)esse espaço temporal comportou, efectivamente, duas etapas distintas : a guerra fria e a détente! 
           O complexo jogo de interesses, inclusive a preservação da paz mundial, levou a que o confronto nunca se desenvolvesse até ao extremo, ficando célebre o slogan de Raymond Aron “Guerra improvável, paz impossível”!
           Mas não se esgota aqui o leque de opções, destacando Adriano Moreira[4] cinco períodos na vida dessa “guerra que só podia ser evitada pelo permanente equilíbrio pelo terror”:- entre 1945-1951 a dissuasão unilateral, com o monopólio atómico dos EUA; entre 1952-1959 a dissuasão bilateral, com a entrada da URSS no clube nuclear; a disputa cósmica entre 1959-1961, já com o grupo dos cinco do Conselho de Segurança da ONU no “clube”; entre 1961-1975 a política de co-responsabilidade, com os vários tratados de limitação das armas estratégicas e a suspensão formal das experiências nucleares; e, por último, o período que vai da guerra das estrelas à queda do muro, em 1989.
           Resumindo, poderemos estabelecer a Cronologia dos Principais Acontecimentos deste “confronto” como segue:
*** 1945/1947 – A chamada Paz Falhada, em torno do problema alemão.
*** 1947 – Plano Marshall e criação do Kominform (nova designação atribuída por Estaline ao Komintern – a Terceira Internacional – Associação Internacional Operária dos Movimentos Comunistas de todo o mundo).
*** 1948 – Golpe de Praga e Bloqueio de Berlim.
*** 1949 – Tratado da Aliança Atlântica.
*** 1950/1953 – Guerra da Coreia.
*** 1955 – Criação do Pacto de Varsóvia.
*** 1956 – Crise do Suez e repressão soviética na Hungria.
*** 1961 – Nova crise de Berlim e Construção do Muro.
*** 1962 – Crise dos Mísseis em Cuba. (Juntamente com a efeméride anterior – os momentos de maior tensão da Guerra Fria). 
*** 1963 – Instalação do “telefone vermelho” e Tratado sobre interdição dos ensaios nucleares na atmosfera.
*** 1964 – Guerra do Vietnam (envolvimento dos EUA).
*** 1968 – “Primavera de Praga” e TNP (Tratado de Não Proliferação Nuclear).
*** 1969 – Auge da “corrida espacial” (iniciada pela URSS em 1957 com o Sputnik) com a chegada à Lua da Missão Apollo 11 – EUA.
*** 1972 – Tratado SALT 1 sobre controlo de mísseis estratégicos.
*** 1975 – Conferência CSCE em Helsínquia.
*** 1979 - Invasão Soviética do Afeganistão, Descolonização da África Negra.
*** 1980 - IIª Guerra Fria, com a ascensão de Ronald Reagan ao poder, nos EUA.
*** 1985 – Nova Détente, com a Glasnost e Perestroika de Gorbatchev, na URSS.
*** 1989 – Queda do Muro de Berlim e Fim da Guerra Fria.”
         Para além de tudo isto, há igualmente outros factos e acontecimentos que mereceriam destaque idêntico. Poderemos falar deles em outra ocasião e num contexto apropriado, como por exemplo deste «affair» de 1952:  “DC3 Affair” ou “Catalina Affair”.



[1] História do Século XX – 3º Vol, pág. 141. Dom Quixote, Lisboa, 1991.
[2] As Relações Internacionais Desde 1945, pág. 23/24. Edições 70, 2005.
[3] Atlas das Relações Internacionais. Pascal Boniface (Dir). Pág. 22. Plátano Editora- 3ªedição, Lisboa,2005.
[4] Teoria das Relações Internacionais, citada em www.iscsp.utl.pt/cepp. Consulta em 24/11/07.



 E as consequências da queda do muro, claro.
= Desmoronamento da Cortina de Ferro
= Reunificação da Alemanha
= Implosão da União Soviética (URSS)
= Fim do Bloco de Leste (Pacto de Varsóvia)
= Rússia
= Criação da CEI – Comunidade de Estados Independentes
= Implosão da Jugoslávia
= Guerra dos Balcãs
= Afirmação dos EUA como Hiperpotência - «Polícia do Mundo».
= O FIM DA HISTÓRIA E O ÚLTIMO HOMEM - Francis Fukuyama escreveu o “Fim da História e o Último Homem” no começo da década de 1990 (publicado em 1992), época em que o mundo atravessava uma séria crise ideológica. Depois de aproximadamente 70 anos de avanços, o socialismo começa a perder espaço político para a democracia e o capitalismo. O modelo capitalista, a democracia e o liberalismo económico aparecem como a melhor alternativa de sobrevivência para os países recém democratizados. Mais tarde disse que foi mal compreendido pela esquerda e publicou em 2006 «Depois dos Neoconservadores – A Encruzilhada Americana», no qual critica fortemente as políticas de GW Bush.
Redemocratização do Chile – Março 1990.
Realinhamento político e económico dos países saídos da órbita soviética (à exceção da Coreia Norte, Cuba e Vietnam).
Espaço africano (Angola, Namíbia, África do Sul, Moçambique)
                              Retirada cubanos de Angola – retirada sul africanos
                              Mas as «Guerras civis» prosseguem
Democratização dos PALOP (STP, Cabo Verde – inclusive na mudança do símbolo da soberania como a bandeira – GB); tentativas de paz,várias, em Angola e Moçambique.
Crise Asiática e Compasso de Espera no Movimento dos Não Alinhados – particularmente após a implosão da ex- Jugoslávia – Índia, Indonésia e Egito.
Não é tudo, mas é uma boa parte.
António Bondoso
Jornalista e Mestre em R.I.
Novembro de 2019.



2019-11-05


HONG KONG (II) – DE VENCEDOR ECONÓMICO A DERROTADO POLÍTICO? Ou de como a RP da China vai estendendo o seu manto de «império do meio» ou, se preferirem, de um milenar, ambicioso, paciente e calculado «imperialismo silencioso».


No Capítulo I, ontem publicado, apresentei-vos a Introdução de um breve trabalho académico datado de há 10 anos. Hoje apresento-vos a conclusão, sabendo que – pelo meio – ficam as evidências económicas e financeiras da (ainda) pujante RAEHK e muitas dúvidas políticas, nomeadamente sobre os preceitos da Lei Básica.  

         CONCLUSÃO

         Sendo inquestionável a pujança económica e financeira da Região Administrativa Especial de Hong Kong – RAEHK – apesar da presente crise, a questão das reformas políticas é vista com muitas reservas e tem sido merecedora de críticas. O impasse na instauração do sufrágio universal, tal como previsto na Lei Básica, não tem agradado à maioria da população, tal como à imprensa internacional, à União Europeia, a diversas ONG presentes no território e aos vizinhos de Taiwan. A “ilha” – o último elo da engrenagem para a unificação da mãe-pátria, formando o que os analistas económicos chamam de “Grande China” – esperava já ter conseguido maiores apoios para “impor” a sua experiência democrática no desenvolvimento do processo de reunificação. A expectativa criada com a criação das Regiões Administrativas Especiais no delta do Rio das Pérolas não teve ainda a expressão desejada.
         E, de acordo com um relatório do “Trade Development Council” já do ano de 2001 – citado em 2004 pela Agência Fides [da Congregação para a Evangelização dos Povos] – o debate sobre o futuro de Hong Kong         poderá estar centrado sobretudo no “suposto antagonismo com a cidade chinesa emergente de Xangai”. O documento do TDC dizia em 2001 que estava a difundir-se, entre os agentes locais, o temor de que Xangai pudesse ocupar o lugar como hub de primeira grandeza da região asiática. A cidade chinesa, de facto, tem crescido a um ritmo impressionante e – em 2010 – vai ser palco da grande EXPO.
         Contudo, a Agência Fides [cruzando informações das Câmaras de Comércio Italiano no exterior] afirma que Hong Kong goza de uma série de vantagens notáveis, relativamente à RPC – nomeadamente um sistema legal completo e operativo, um mercado livre e competitivo sem interferência do Estado – o que lhe permitirá conquistar o difícil mercado chinês. Mas esta evidência, não afasta por inteiro os temores relativamente à grandeza e imponência de Xangai.
-------------------------------------
António Augusto Bondoso, Abril de 2009.
===========


António Bondoso
Novembro de 2019.

2019-11-04

HONG KONG - DE VENCEDOR ECONÓMICO A DERROTADO POLÍTICO? Ou de como a RP da China vai estendendo o seu manto de «império do meio» ou, se preferirem, de um milenar, ambicioso, paciente e calculado «imperialismo silencioso».




Da Longa Marcha à segunda economia mundial foi um longo percurso. Mas o «caderno vermelho» não tem todas as respostas! Os 70 anos da República Popular da China, recentemente celebrados, têm uma medalha com espinhos numa das faces! Não se trata sobretudo da máxima «um país – dois sistemas», mas da vontade, ou não, de respeitar o compromisso assumido na Declaração Conjunta com o Reino Unido em 1997, sobre Hong Kong.


Há 10 anos, num breve «exercício» académico, perguntava eu a propósito da integração de Hong Kong na República Popular da China:
DE VENCEDOR ECONÓMICO
A DERROTADO POLÍTICO?
E na «introdução» que segue, tentava já «adivinhar» o eventual – mas possível – futuro da RAEHK. É que Xangai é hoje uma incontornável «centralidade»:

“Creio que estamos a escrever um capítulo crítico da história constitucional de Hong Kong. Este será o nosso maior
desafio”.                                                                                              
Donald Tsang-2007[1]

         «O desafio de que fala(va) o líder do governo da Região Administrativa Especial de Hong Kong, Donald Tsang – como se perceberá pela citação – não é um simples desiderato político. Pelo contrário, trata-se de um compromisso consagrado na Lei Básica do território, assinada livremente entre a Grã-Bretanha e a RPC e que prevê a instauração do sufrágio universal para a eleição do Chefe do Executivo e do Conselho Legislativo. A “mini constituição” da RAEHK prevê também um elevado grau de autonomia, até 2047, consagrando a fórmula de “um país – dois sistemas”, no âmbito do que as lideranças da RPC têm chamado de socialismo de características chinesas ou uma economia de mercado socialista.
         Este trabalho sobre Hong Kong, uma das capitais financeiras da Ásia [diz-se que a cidade possui mais bancos do que lojas de arroz], pretende enquadrar o futuro do território sob duas perspectivas:- por um lado, a evidente pujança económica e financeira herdada da administração britânica e, por outro, a sensível questão da democracia – na qual se deveria ter já espelhado a eleição directa e por sufrágio universal, tanto do Chefe do Executivo como do Conselho Legislativo. Perante a evidência da primeira, foi nesta última plataforma que se considerou por bem colocar a questão de partida:- de vencedor económico a derrotado político? É que o território, se não for cumprida a Lei Básica no que respeita ao elevado grau de autonomia prevista, poderá vir a correr o risco de uma integração plena na República Popular da China, perdendo as suas características de região autónoma livre e atractiva para os agentes económicos e financeiros internacionais.
         Há até o receio de que Hong Kong possa vir a perder o seu estatuto de importante praça financeira para a pujante cidade de Xangai.»
====
Voltarei ao tema. Muito interessante, como nos vamos apercebendo. E não podemos esquecer as célebres frases e ideias de DENG XIAOPING:
“Pobreza não é socialismo. Ser rico é glorioso.” 
“Não importa se um gato é preto ou branco, contanto que ele cace ratos.”



António Bondoso
Jornalista e Mestre em R.I.
(Abril de 2009) = Novembro de 2019.





[1] - Chefe do Executivo da RAEHK, quando apresentou em Pequim o seu “Roteiro para a Democracia” – de forma a dar cumprimento ao estipulado na Lei Básia de Hong Kong e a satisfazer  os anseios da maioria da população. Citação da Agência Lusa.


2019-10-27

ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA…e os «guias turísticos» em Lisboa, ou de como todos os ofícios são dignos, desde que sejam exercidos com seriedade e competência. 
Quero apenas referir que há por aí quem se diga «guia turístico» e se aventure, sem seriedade, por caminhos da «história». E o mais grave…com uma certa «cobertura» de historiadores que se apresentam como sérios.
Abolição da escravatura? Os portugueses «mentiram»? Admitindo que sim, sempre direi que, provavelmente, não fomos os primeiros mas também não teremos sido os últimos, mesmo tendo em conta o posterior movimento dos «contratados».
O que se pode ler a seguir foi publicado em 2005, em ESCRAVOS DO PARAÍSO (MinervaCoimbra), e é exatamente da autoria de um britânico, James Walvin:


ESCRAVOS DO PARAÍSO
António Bondoso
Com MinervaCoimbra
2005



2019-10-16

COESÃO…
…ou de como os habituais «profetas da desgraça» olham para o país e para o novo governo.


Ontem e hoje – passe a Catalunha e os Curdos da Síria, pois ninguém se lembra de África – o grande tema nos títulos dos jornais, na rádio e nos comentários das televisões tem sido o governo. Contornando as previsões de muitos, António Costa manteve Centeno e Van Dunem e «politizou» o núcleo duro. Mas eis que alguns membros do chamado «4ºpoder» ou «contrapoder», deixo à escolha, logo «descobriram» algumas brechas para alimentar a «escrita» e o «paleio»: os poderes que Centeno terá perdido – já dizem que vai durar no máximo dois anos – a ousadia ou teimosia em manter os da Educação e da Saúde e, vejam lá, o desplante em promover a ministra uma simples presidente da CCDRC, com a «pasta» da Coesão. Sabe-se como é um tema caro a António Costa. E conhecem-se algumas tentativas para dinamizar a ideia, apesar de nem ter corrido bem. Não por falta de ideias mas por falta de vontade política. O primeiro-ministro não conseguiu casar o seu projeto com as limitações da conjuntura herdada e que era fundamental ultrapassar. Mas agora acredita, embora eu seja cético, e por isso acrescentou importância à «Coesão».
         O meu ceticismo é velho de muitas décadas. Tantas quantas já passaram depois do 25 de Abril. E a falta de coesão, que motivou a desertificação e foi causa maior da emigração, vem até de muito antes. Nunca fomos um país «inteiro». Como eu escrevo e demonstro no meu recente livro TERRA DE NINGUÉM (Edições Esgotadas) e sobre o qual vos deixo alguns pontos de reflexão, particularmente nas páginas 22 e 23:
Falar, hoje, em “reforma do Estado” sem promover a Regionalização...parece-me ser pior a emenda do que o soneto! Racionalizar não significa propriamente apenas “cortar” mas sim tornar mais eficaz e produtivo (…)
Porque não se cumpre a Constituição? É costume alguns responderem com a pequenez do território e outros refugiarem-se na pequenez de mentalidades. Desconcentração, descentralização, regionalização – enquanto se definem e alinham conceitos ao sabor das circunstâncias, o país vai-se mantendo assimétrico, desordenado e cada vez menos coeso (…)
Assimetria “maior”? Tudo é diferente “lá” no litoral...e em “dó” maior no interior ou nos designados territórios de baixa densidade. 
Interior? Armamar, Lamego, Moimenta da Beira, Sernancelhe, Tabuaço ou Tarouca?
Territórios de baixa densidade? Vila Nova de Paiva, Penedono, Resende ou Cinfães?
Também Lisboa e o Porto (ou Braga e Coimbra) têm os seus interiores, tal como possuem os seus arrabaldes. O que os distingue verdadeiramente…é a falta de coesão (…)”.
Esperemos então que a nova ministra e o novo governo possam ultrapassar os eternos condicionalismos da pequenez e da falta de visão estratégica. Se falhar mais uma vez…não será caso para desistir. Mas será uma perda muito grande e uma ferida que tardará a sarar.  

António Bondoso
Jornalista
Outubro de 2019.

2019-10-09

CONVERSAS CRUZADAS DE UMA SALA DE ESPERA NUM CENTRO DE SAÚDE PERTO DE SI

Sala cheia, entre números e vozes de chamada para a inscrição ou para a consulta. E muitas conversas cruzadas. Véspera do Dia da Saúde Mental. 


Sabe qual é a melhor hora para se vir aqui? É à hora e meia! Há menos gente.
Olhe…e como vai o seu marido? Ainda trabalha naquela casa dos leitões? Aquilo é que era um leitão! Que categoria. Mas já não o vejo há muito tempo. Ele está bem?
E a demora…
Diz outra voz: os médicos também adoecem!
E a imagem de fundo, para além das pessoas a circular, é um écran de televisão com a emissão da TVI. O tema – o suicídio!
E as vozes…só venho por causa da medicação. Faz-me falta. Vamos lá a ver se isto vai. Vamos lá ver!
Do outro lado…e o meu pai, coitado, teve que ficar sozinho, eu não posso. E foi agora operado às hérnias. E eu…é como se vê.
Prosseguem as vozes no meio do suicídio da TVI.
Há dias caí na rua…nem tive tempo para nada. Lá veio a ambulância e só dei conta a caminho do hospital. Aquilo até mete medo. É cada um!
Mais uma voz: olhe, e os seus meninos estão bem?
Bem, graças a Deus. Olhe, temos agora mais um. Foi anteontem. Um artista!
O meu é o futebol. É a paixão dele. Tem vontade mas não joga nada de jeito. Mas é cá um portista!
O meu já está um homem! E a irmã…é muito meiguinha!
Ó D. Aldina…já chamaram por si!
Já ouvi, obrigada.
E outro…que entra esbaforido, nervoso, quase a sufocar…de tão gordo que é. Onde estão as senhas? (Temporariamente fora do sítio habitual, por obras na parede antiga).
Aí, em cima da mesa!
Ahhh…obrigado.
E a TVI continua em fundo. Agora são os crimes de faca e alguidar (depois de uma breve passagem pela promoção do calcitrin): discute com a irmã e atinge o sobrinho com um tiro na cara.
Admiração sonora: - ai 75! Setenta e três tenho eu.
E chega a altura do noticiário das 13. O vai e vem dos utentes prossegue.
Um pai com um bébé ao colo, uma idosa apoiada numa bengala e que não sabe se o seu rendimento provém da pensão xis ou do complemento do idoso. O filho que a acompanha também não sabe. O papel está em casa.
E o dinheiro, que tanta falta faz: - quem me dera o totoloto! Uma boa quantia dava jeito. E se fosse o euromilhões?
A raspadinha é que é uma tentação. Às vezes lá sai 20 euritos.
Ó rapariga…isto não está pra nós!
E o telejornal: - a estabilidade que se deseja no país. À medida de cada um, claro!
Tou?...já fez o depósito?...falou no sábado?...mas já não paga há 4 meses!...faz amanhã?...veja lá, não estrague a sua vida! E volta a efetuar uma chamada: - olá, sou eu! Ele ainda não fez o depósito! Envia a carta! Em nome da estabilidade - digo eu!
E eu? De repente veio-me à ideia uma pessoa amiga: - a mim, nunca me dói nada! Sr António Augusto Bondoso! Suba ao 3º andar que a Senhora Doutora vai já chamá-lo.  


António Bondoso
Jornalista
Outubro de 2019. 

2019-10-06

A REPÚBLICA DAS MAÇÃS…
…ou de como os males da interioridade não conseguem eliminar a resiliência dos agricultores que se dedicam à cultura da maçã nesta especial região da Beira Alta situada a sul do Douro: sobretudo Moimenta da Beira, Armamar, Tarouca e Sernancelhe. 


         Quem ler este texto, provavelmente já terá sido confrontado, mais do que uma vez, com a velha expressão depreciativa «república das bananas», uma ideia consolidada em alguns países da América do Sul há muitos anos, sobretudo quando empresas dos EUA se dedicavam à exploração abusiva desses países, comercializando exatamente esse fabuloso fruto que é a banana.
         Pois aqui, nesta região que eu destaco acima, creio não corrermos o risco de sermos avaliados negativa e depreciativamente, pois é bem conhecida a tenacidade com que os agricultores enfrentam – desde sempre – as consequências das oscilações climáticas e o esquecimento a que têm sido votados pelas políticas dos sucessivos governos. A falta de uma rede de frio eficaz foi sendo contornada mas falta ainda a atenção devida ao regadio. E não tem sido por inércia ou deixa andar. Repetidamente nos últimos anos o assunto tem sido falado e houve já projetos aprovados como o da Boavista, em Caria – integrada no plano nacional de regadio. A da Nave estará muito próxima da aprovação. Não só a quantidade importa. A qualidade da água é fundamental. 




Por isso se vai dizendo que esta região produz a melhor maçã do mundo. Daí a minha homenagem, atribuindo o título de «República das Maçãs» a este modesto texto, que me veio à ideia ontem – dia 5 de Outubro – o da implantação da República em 1910. Exatamente durante o acompanhamento que fui fazendo da apanha em pomares da região, com amigos fruticultores associados às «Frutas Cruzeiro» (passe a publicidade) e simultaneamente membros da Confraria da Maçã, criada em 2008 e com sede em Moimenta da Beira. Obrigado Zé Carlos pela magnífica viagem entre a Granja Nova e o espetacular armazém em Armamar. Toneladas de um produto magnífico a viajar pela «Rota da Maçã», nascida e consolidada nesta região da Beira Távora.

         Viva a República das Maçãs!





António Bondoso
Jornalista
Outubro de 2019.

2019-10-04




Pais Fundadores da Democracia…apenas os que arriscaram tudo no derrube da ditadura.

Não se pode, nem deve, menorizar a figura do Prof. Freitas do Amaral. Professor de Direito, fundador do CDS, líder do CDS, ministro e vice-primeiro ministro, Presidente da Assembleia Geral da ONU – alguns dos cargos que exerceu exemplarmente.
         Com todo o respeito que merece a sua «memória», não posso deixar de dizer que me espanta a designação que fui ouvindo ao longo do dia: um dos pais fundadores da democracia portuguesa.
         Quem lutou para instaurar a liberdade e, por consequência, a democracia em Portugal? Os «militares de Abril»! E todos os que morreram na «Guerra» e sofreram a tortura no Tarrafal, em S. Nicolau ou na Machava. Ou no Aljube, Caxias ou Heroísmo. Podemos juntar Álvaro Cunhal e Mário Soares em primeiro lugar. E depois de muitos outros como Salgado Zenha, Emídio Guerreiro, Arlindo Vicente, Jorge Sampaio, Manuel Alegre, Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Padre Fanhais, António Gedeão, Sofia, Ary dos Santos, as «Três Marias», Natália Correia, Snu Abecassis, podemos acrescentar Sá Carneiro, Pinto Balsemão, Magalhães Mota, Mota Amaral e mais uns poucos da chamada «ala liberal».
         Freitas do Amaral, pelo facto único de ser fundador do CDS, não pode ter entrada direta no lote dos citados. E peço desculpa aos que omito no texto. Mas, em respeito pela memória das suas posições incómodas em certos momentos da vida política portuguesa, aceito sem rebuço o papel importante que desenvolveu na consolidação do regime democrático. Contudo, em honra dos que não citei, por omissão (falta de memória enquanto escrevo), não voltem a dizer que foi um dos «pais fundadores» da democracia portuguesa. Não é verdade! Mas descanse em paz!
António Bondoso
Outubro de 2019.