2020-01-19

Olá Eduardo.
Sabes que fazes falta. Aos teus…e aos amigos!


Há dois anos partiste sem poder dizer fosse o que fosse e deixaste um vazio no convívio diário.
E estejas onde estiveres, sei que a solidão das noites – apesar de tudo – deixa lugar para alguns raios de sol nos dias e nas tardes que agora são frias.
Sabes que fazes falta Eduardo. Aos teus…e aos amigos.
Sobretudo, por exemplo, para exibir um sorriso de felicidade quando me contavas pela «milionésima vez» a relação de amizade entre ti e o meu tio Armando. Na escola e na bola. E também quando me exibias com orgulho os teus produtos na «Feirinha». O tamanho da batata-doce ou a qualidade dos kiwis. E outras «estórias» de uma vida com tempos duros, igualmente a par de épocas de maior felicidade – uma vida repentinamente interrompida, fora do tempo de um momento pensado.
Fazes falta Eduardo. E estejas onde estiveres, saberás certamente que vamos pensando e falando em ti. Sem maldade, com verdade e com uma positiva e abençoada saudade.
Fazes falta Eduardo!



António Bondoso
19 de Janeiro de 2020.

2020-01-13

AS ONDAS DA RÁDIO vão ficando mais pobres…ou de como o desaparecimento físico de alguns camaradas vai marcando o resto da nossa caminhada. Até sempre Nuno Rebocho. 


Ontem foi o Nuno Rebocho, que eu conheci na Rádio e depois como poeta. Liga-nos a escrita, sobretudo a Poesia, a Rádio e o apelido. Rebocho é indicativo de ligações ultramarinas – tendo ele crescido e estudado em Moçambique até 1962, dezassete anos a ganhar raízes africanas – possuindo laços familiares ao meu amigo Toneca, cujo pai viveu longo tempo em Angola e foi primo de Rebocho Vaz que ali desempenhou o cargo de governador-geral.
         A sua matriz «libertária» de poesia pensada e refletida conduziu-o à contestação ao regime da ditadura, o que lhe valeu cinco anos de prisão em Peniche.
         Do percurso de Nuno Rebocho nos jornais não tenho grande memória, mas na Rádio mantivemos uma relação mais permanente. Pela cultura, claro, e quando ele desempenhou funções de chefia na redação da RDP2. Mais tarde Cabo Verde a balizar o seu horizonte – ainda e sempre a chamada do ritmo africano. Mas voltou ao «puto» já cansado e para ficar, antes de partir. Tive pena de não poder responder ao convite que me enviou para assistir à apresentação do seu livro mais recente «Rotxa Scribida», de 2019, uma homenagem a Cabo Verde com a chancela da editora Rosa de Porcelana dirigida pelos meus amigos Márcia e Filinto Silva. 



A madrugada, o tempo [entre paredes], o silêncio, a memória, o infinito – constantes do seu momento poético, traduzidas nestes seus versos que a seguir vos deixo.
         Para ti, Nuno, que haja uma nova madrugada verde:
Quando o verde se mostrava

entre os verdes, em busca de Guillelmo Velez

E de verde se vestiu a madrugada. E a estrada era o verde
e era a entrada por onde o verde corria por fora da estrada.
Então o verde cansou-se e mudou-se de amarelo como farpela
que enrodilha o diário com o medo de se transformar em contrário.
E já não havia verde - o magenta magoou-se no lápis de pastel:
estava a sanguínea na pausa do tempo e não havia tempo,
nem amarelo, nem magenta. Apenas a madrugada cantava
e o verde voltava à madrugada. E já não era silêncio.
E já não era amanhã. E já não era o vício de cruzar as pernas,
de se oferecer como pélvis ao sacrifício de uma cama manchada:
e o verde descansava de ser verde. Era árvore. Era parede.
Era pénis entre as tetas do tempo. Era o verde que penetrava
por orifícios onde o som refulgia. E era memória. E era dia.
E era ouro quando o cacau mergulhava por dentro da estrada
à entrada da noite. E já não era silêncio: era amanhã, o corpo
aberto em grito de infinito. E o ouro era verde como um suicídio,
mas a corda quebrava, a noite quebrava, o verde cobrava o vento
que se desfazia em tempo, que se desfazia em água. E inundava
a estrada que era verde porque a vida era verde. Era verde e cantava.
António Bondoso
Porto, Janeiro de 2020




2020-01-11


O POEMA DOS SETENTA…ou de como «Nascer e ter vida em Janeiro/ é correr à frente do tempo/ sem parar/ com respiros e suspiros/ em cada onda do mar». 

Esqueleto e alma na viagem de uma vida
Corpo repleto de sentidos
E de emoções
Na caminhada subversiva por este mundo
Que eu infundo num segundo!

No fundo e apesar do mundo
Continuo a sonhar agarrado ao peso
Das memórias
Aos sons e aos cheiros de lugares
Que me enamoram
E me despertam tantas glórias.

Sei que alguém sempre estará
Para me dar um abraço de carinho
Unindo corações
E um sorriso aberto
Em liberdade!
===========
António Bondoso
11 de Janeiro de 2020 




2020-01-06


RUMO AO SUL em mares já muito navegados…ou a maior viagem do navio-escola Sagres, quer em duração, quer em distância – nos seus 82 anos de história 


RUMO AO SUL em mares já muito navegados…ou a maior viagem do navio-escola Sagres, quer em duração, quer em distância – nos seus 82 anos de história – para recordar ao mundo «perigos e guerras esforçados…mais do que prometia a força humana, (…) e outros em quem poder não teve a morte (…)». O comandante da Sagres, Maurício Camilo, assinalou que esta viagem “vai ter a maior tirada da história do navio, que serão 32 dias a navegar, entre o Taiti e Punta Arenas”. 
         Ao ouvir e ao ler isto, veio-me à memória um escrito brilhante do chileno Francisco Coloane, natural de Quemchi – Chiloé – no sul do país e filho de um marinheiro, com quem tive o prazer de conversar telefonicamente há mais de 20 anos (juntamente com a minha camarada da Rádio Macau Joyce Pina), escrito a que deu o título de «O Último Veleiro» para homenagear a última viagem do navio-escola BAQUEDANO até ao cabo Horn. 


Coloane, que Luís Sepúlveda considera o seu mestre na arte de contar, foi jornalista e um dos maiores escritores chilenos, deixando-nos outras obras como Terra do Fogo, Terra do Esquecimento, A Voz do Vento, Cabo Hornos ou O Caminho da Baleia – as quais retratam de forma vigorosa a geografia social e humana das longínquas terras e mares por onde navegou Magalhães para chegar ao outro lado do mundo, antes de ser morto em Cebu, uma das inúmeras ilhas das Filipinas.
         Neste «O Último Veleiro», no capítulo “De Punta Arenas Até La Tumba Del Diablo”, Coloane descreve uma viagem em sentido inverso ao de Magalhães, dizendo que a Baquedano “…deu a volta ao cabo Froward, abrupta extremidade que assinala o fim da parte continental do Novo Mundo,e, passado o Farol San Isidro, numa manhã de Inverno, avistou a bonita cidade de Punta Arenas, com quarenta mil habitantes, situada nas margens do estreito de Magalhães, frente à lendária ilha da Terra do Fogo. (…) A cidade, reclinada no sopé da península de Brunswick, surgiu completamente branca de neve, como se fosse uma fantástica metrópole de mármore».
         Pois vai ser também por ali que o navio-escola Sagres vai navegar, nesta reedição da viagem de circum-navegação que Fernão de Magalhães iniciou há 500 anos, ao serviço de Espanha. O navio vai passar por 22 portos de 19 países, prevendo-se que visite 12 cidades da rede mundial de Cidades Magalhânicas antes de regressar a Lisboa em 10 de Janeiro de 2021.

Pode acompanhar o rumo da Sagres, aqui: https://www.facebook.com/groups/2369641546620781/?fref=mentions
https://www.facebook.com/groups/2369641546620781/?fref=mentions



António Bondoso
Jornalista
6 de Janeiro de 2020

2020-01-02


DEVEMOS ESTAR PREPARADOS PARA TUDO…


E já vamos no dia 2 de 2020 e é o tempo a correr levado pelo vento acompanhando segundos minutos e horas que esperamos sigam cheios de esperança neste ano que é bissexto e sempre nos acolhe mais um pouco nesta vida que temos e merecemos com a dose de felicidade atribuída a cada um de acordo com o estipulado pelo Criador ou determinado pelos ziguezagues da existência que levamos num mundo difícil quantas vezes cruel com guerras fratricidas ou crimes de guerra de líderes que a cada minuto colocam o mundo em perigos escusados – mas pensados – inquietos e inquietantes como sinais de um tempo que nem sabemos se existe ou até quando e no qual temos até dificuldades em conseguir distinguir as dores das alegrias ou perceber como o dinheiro sobra a uns quantos e falta a tantos mesmo muitos e por isso têm que fazer pela vida sem ajuda ou com ajuda como essa aos sem-abrigo luta de há muito do Papa Francisco que se interessa e que age com atitudes concretas no Vaticano à margem dos interesses do Banco Mundial do FMI ou do Banco Central Europeu à margem da UE e dos EUA e da Rússia e da China e das guerras comerciais ou dos «mercados» que são donos disto tudo e até determinam quem pode e como viver ou morrer faça calor ou esteja frio e os barcos navegando no rio carregados de angústia ou de amargura – o que me transporta ao livro de Ignacio del Valle «O Tempo dos Imperadores Estranhos» e a uma frase que lá li «Até para morrer é preciso ir cagado e mijado» o que significa que é preciso prepararmo-nos para tudo!
Bom Ano 2020



António Bondoso
2 Janeiro de 2020

2019-12-31

DEZEMBRO É O TEMPO!


Dezembro é o Alfa e o Ómega do tempo.
Deste nosso tempo em desafio:

De nascer em Cristo primeiro
Do final do calendário colorido
Celebrando uma contagem diacrónica
De enterro do ano velho
Do início de uma nova esperança
Que avança
E que vamos somando e cantando
Horas a fio em cada dia.

Também em semanas e meses esforçados
Faça calor ou esteja frio
Com tristeza ou alegria acomodados
Esperança em tempo tríbulo desenhada
E construída.

É nela que a roda do tempo gira sempre
Até Dezembro
No sentido dos ponteiros de um relógio
Imaginado mais brilhante.


=== António Bondoso
Dezembro de 2019. 

2019-12-30


CONCEITOS…
De treinador de futebol a «herói» nas TVs…ou a confusão de conceitos que se espalha por algumas «cabecinhas» que se dizem jornalistas ou apresentadores de telejornais. 


O «problema» não está em qualquer caso particular. Nem sequer coloco em causa a distinção a Jorge Jesus. O caso está na «cultura», sobretudo na falta dela, dos média e de quem os vai representando. O homem e a sua circunstância…cada vez mais nas «ondas» da amargura.
         Abrir um telejornal do canal público com a «tirada» de herói para «promover» a entrevista com o treinador, não me parece um bom caminho. Mas a isso já estou habituado.
         E a propósito de «heróis»…vale a pena recordar um expressivo texto de Vergílio Ferreira ao qual deu o título de “Um País de Canalhas”:
«Pensar Portugal. Nós somos um país de «elites», de indivíduos isolados que de repente se põem a ser gente. Nós somos um país de «heróis» à Carlyle, de excepções, de singularidades, que têm tomado às costas o fardo da nossa história. Nós não temos sequer núcleos de grandes homens. Temos só, de longe em longe, um original que se levanta sobre a canalhada e toma à sua conta os destinos do país. A canalhada cobre-os de insultos e de escárnio, como é da sua condição de canalha. Mas depois de mortos, põe-os ao peito por jactância ou simplesmente ignora que tenham existido. Nós não somos um país de vocações comuns, de consciência comum. A que fomos tendo foi-nos dada por empréstimo dos grandes homens para a ocasião. Os nossos populistas é que dizem que não. Mas foi. A independência foi Afonso Henriques, mas sem patriotismo que ainda não existia. Aljubarrota foi Nuno Álvares. Os descobrimentos foi o Infante, mas porque o negócio era bom. O Iluminismo foi Verney e alguns outros, para ser deles todos só Pombal. O liberalismo foi Mouzinho e a França. A reacção foi Salazar. O comunismo é o Cunhal. Quanto à sarrabulhada é que é uma data deles. Entre os originais e a colectividade há o vazio. O segredo da nossa História está em que o povo não existe. Mas existindo os outros por ele, a História vai-se fazendo mais ou menos a horas. Mas quando ele existe pelos outros, é o caos e o sarrabulho. Não há por aí um original para servir?»
Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 2'

Quanta atualidade no texto. Subscrevo por inteiro e um dia destes até poderei «rever e aumentar». 


António Bondoso
Dezembro de 2019. 


2019-12-29

A Rádio…amputada de mais um Amigo. 

Celso Santos

A Rádio…amputada de mais um Amigo.
Magicava eu sobre as últimas palavras de 2019 quando o telefone dá sinal. Atendo e fico a saber a triste notícia do falecimento de mais um camarada da Rádio. O Celso Santos, 74 anos de idade, aposentado da RDP. Tínhamos em comum a Rádio – onde ele começou a trabalhar bem mais cedo do que eu, em 1964. E a cidade do Porto, claro, e Vila Nova de Gaia, onde residia, e também a beleza de S. Tomé e Príncipe – país a que ele se deslocou algumas vezes em trabalho de cooperação técnica. O Celso – todo ele – receberá com a gentileza de sempre os amigos, na Igreja da Lapa, para mais um abraço. Sentidamente endossado a toda a Família enlutada. Até amanhã camarada! 

Celso e alguns camaradas da Rádio e dos almoços das quintas-feiras. Este, «fora de portas»

António Bondoso
29 Dez 2019. 

2019-12-26

  Se tudo fosse perfeito…ou de como – parafraseando Aquilino Ribeiro ao escrever sobre o que chamou Terras do Demo: - «a justiça é para a aldeia a mais voraz das sanguessugas. Concebida para proteger o órfão, deixa o órfão sem coiro e o viúvo sem camisa». 


E é tudo tão simples como o valor das cheias. Ou de como a TV aliena mais do que forma e informa. Vende-se a desgraça e o sofrimento como simples entretenimento. Como acontece com os incêndios, com os acidentes nas estradas ou com os fait-divers extra futebol. As televisões, concretamente os chamados «canais de notícias», são multiplicadores maléficos de um qualquer «ópio do povo».
         Se tudo fosse perfeito, o que alimentaria esses sorvedouros do que ainda resta da nossa sanidade mental?
         Se não tivesse havido cheias, não teriam praticamente «desaparecido» temas cruciais do que verdadeiramente importa a uma sociedade organizada. A corrupção e os tentáculos do sistema; a regionalização, que – por ironia eventualmente – veio colocar a nu as causas de uma pronta resposta aos problemas. E muitos continuam a teimar numa «descentralização» incapaz, inócua, saco sem fundo e sem fundos para colocar no saco. Ou até mesmo numa dita «desconcentração» que, ao fim e ao cabo, não passa de uma redundância semântica das tarefas que já competem – pela sua natureza básica – a um Estado dito organizado.
         E no meio de tudo isto vem a galopante sociedade consumista do Natal, do Fim d’Ano, das Janeiras e dos Reis, apenas minimizada pela coragem voluntária de quem ajuda os que verdadeiramente precisam. Só não conseguem chegar aos que ficam sem casa e sem rendimentos por dívidas ao fisco. Alguns…apenas de algumas dezenas. Aos que devem milhões pouco importa. É o rosto dos «mercados» e dos donos do dinheiro a determinar as regras.
         Fisco penhora 48 imóveis e 175 salários por dia! É um título do JN. Apesar da brutalidade dos números, acrescentam que a «tendência» tem vindo a diminuir e, como no caso particular das pensões, tem estabilizado: São 17,7 pensões retidas por dia, em média, contra as 18,9 penhoras destas prestações que se registaram no ano passado. Em 2018, foram penhoradas 6924 pensões. Os números de 2019, aos quais falta ainda o mês de dezembro, caminham assim para acompanhar a tendência observada no último ano”.
         Como tinha razão Aquilino Ribeiro ao escrever sobre o que chamou Terras do Demo: - «a justiça é para a aldeia a mais voraz das sanguessugas. Concebida para proteger o órfão, deixa o órfão sem coiro e o viúvo sem camisa».
         Que haja «JUSTIÇA» EM 2020. No sentido mais amplo do termo! Como dizem os fiéis no final da prédica do pároco da aldeia…assim seja!


António Bondoso
Dezembro de 2019


2019-12-19

MACAU – UMA PÉROLA DA (E NA) DIPLOMACIA PORTUGUESA…ou de como um pequeno território consegue manter e consolidar pontes entre o Império do Meio e a ponta ocidental da Europa. (PARTE 1). 


Durante mais de 400 anos e perspetivando-se ainda alguns mais no horizonte. Entre alguns dos momentos da «história recente» e que podem ser considerados fundamentais para perceber as diferenças e a «singularidade» de Macau, há para destacar a inteligência e a rara sensibilidade de um dos maiores diplomatas portugueses – José Calvet de Magalhães que foi nomeado cônsul em Cantão no Verão de 1946, numa altura já muito delicada, quer para o governo «nacionalista» do Kuomintang, quer para os diplomatas estrangeiros. Não recuando demasiado no tempo, assinala-se em 1887 o Protocolo de Lisboa, ainda na Dinastia Qing. Não foi mais do que um Tratado de Comércio e Amizade no qual se reconhecia a soberania portuguesa no território. 


1912 = Criação da República da China. SUN YAT SEN.
Tal como em Portugal… essa 1ª República foi marcada por conflitos permanentes, entre grupos de militares e entre comunistas e não comunistas que não reconheceram a vitória eleitoral do KMT (Kuomintag/Partido Nacionalista). Os «senhores da guerra» continuaram a governar em Pequim, com o apoio do Japão.
         1925 = O KMT estabelece um governo em Cantão, no sul.
         1927/1928 = Colapso da economia do norte.
Sun Yat Sem morre e, em 1928, CHANG KAI-SEK assume o poder, com apoio da União Soviética derrota os senhores da guerra (apoiados pelo Japão) e estabelece um Governo de Unidade Central em Nanjing. MAS as guerras «intestinas» prosseguiram e tudo ficou latente durante a Guerra com o Japão e a II Guerra Mundial, entre 1937-1945.
         1946 = Logo a seguir ao final da guerra há negociações para a renúncia dos direitos de extraterritorialidade*, mas o governo de Lisboa recusa. A China, contudo, consegue fazer assinar, em 1947, um Acordo sobre essa temática, intensificando-se de seguida nos jornais de Cantão e de Hong Kong a campanha para a restituição de Macau à China. No entanto, CHANG-KAI-CHEK trava quaisquer intenções governamentais nesse sentido.
·        (Os portugueses seriam sujeitos, no território da China, às leis e à jurisdição do Tribunal da República da China.)
É neste período que é nomeado para Cantão José Calvet de Magalhães quando, no dizer de Pedro Aires Oliveira, até Salazar já dava como perdida a questão de Macau: «Gozando de instruções bastante abertas, o novo cônsul rapidamente revelou notável desembaraço na condução de uma série de iniciativas visando esvaziar a pressão desses sectores mais militantes, desde a organização de uma visita de jornalistas cantoneses a Macau ao estabelecimento de um relacionamento pessoal com T. V. Soong, governador de Guangdong, cunhado e antigo ministro das Finanças de Chiang Kai-shek, junto do qual foi capaz de garantir um acordo para o fornecimento de arroz a Macau – proeza tão mais assinalável quanto a guerra civil em curso viera trazer enormes dificuldades ao abastecimento de Cantão e outras cidades».
         Esta visão de Calvet de Magalhães acabaria por se consolidar, mas a vitória comunista de Mao, em 1949, deitaria tudo por terra. E o diplomata português ficou retido um ano em Cantão, só deixando a China quando já decorria a «guerra da Coreia». Das peripécias e provocações então vividas, falaremos depois. Voltando à cronologia, salienta-se em 1949 a criação da RPC, sob a liderança de Mao Tsé Tung e do Partido Comunista Chinês. Portugal reconhece o Governo de Taiwan.
==== E mesmo sem «relações diplomáticas oficiais» é interessante verificar que a RPC não «rasgou» (apesar do 1,2,3 de 1966) o «compromisso» de permitir aos portugueses continuar a administrar o território.
         === E após o corte de relações entre a RPC e o Vaticano (1951), Macau, como HK, serviu de plataforma para o relacionamento não oficial entre a China e o Vaticano.
***** Terá sido nesse período de turbulência da «Revolução Cultural Chinesa» (tempos difíceis para a Administração Portuguesa de Macau), que se perdeu o precioso CADERNO (de capa preta) com poemas de Camilo Pessanha, que, segundo Fernando Pessoa, é um dos três poetas do Séc. XIX que merecem a designação de «Mestre».
         Em 1975, depois do Golpe militar dos «capitães» em Abril de 1974, Portugal reconhece o Governo de Pequim. Corta Relações Diplomáticas Com Taiwan – território que reconhece como parte integrante da RPC.



António Bondoso
Jornalista e Mestre em Relações Internaconais
19 de Dezembro de 2019.

2019-12-12

ONDAS DE CALOR…OU 70 ANOS DE RÁDIO NO EQUADOR!
12 DEZEMBRO 1949 – 12 DEZEMBRO 2019.


Aqui, Rádio Clube de São Tomé…
Escutam o Emissor Regional da Emissora Nacional em
 São Tomé e Príncipe…
Em Onda Média e FM escutam a Rádio Nacional
de São Tomé e Príncipe…
Tem sido assim, ao longo de 70 anos. Longa vida à Rádio nas Ilhas do Meio do Mundo.
«As ondas da Rádio projetam-se.
Ora se misturam com as ondas do mar
ora se confundem com as nuvens do céu.
E amam-se
Como só os corações da Rádio sabem amar.(…)
António Bondoso – 2018. 


De parte de um meu poema...à síntese perfeita da São Lima:
 “ De Rádio Clube a Rádio Nacional - Presença, memória e nova emergência nas casas, nas mentes e nos corações.”
Conceição Lima – 2019.


E deixo ainda, por agora, o resumo sentido do João Carlos:
"Nasci em 1959. Cresci a ouvir a Rádio Clube de São Tomé e Príncipe. Foi neste percurso que fui ganhando o fascínio pela rádio, aquela caixinha mágica que iludia os meninos ingênuos das ilhas. Veio a independência mas ficou em mim a memória da "Grândola Vila Morena", a canção que anunciara antes o fim do regime colonial, após o 25 de abril de 1974. Independente, ganhei responsabilidade e maturidade como um dos quadros jovens nas fileiras da Comunicação Social São-tomense. A Rádio Nacional ficou em mim e dela guardo experiências e memórias que até hoje guiam o meu percurso profissional como jornalista radicado em Portugal. "
João Carlos – 2019. 


E há também o «bichinho» da Rádio que não larga a Lourdes Costa: 
"A viagem das ondas hertzianas do Rádio Clube de S. Tomé que passou em 1975 para a Rádio Nacional de S. Tomé e Príncipe, nas ilhas do Meio Mundo, na linha do Equador, deixa o marco inesquecível dos anos em que, na memória jovem, me fiz profissional. Lembranças salutares, histórias marcantes vividas, amizades sólidas perduram ainda dentro de mim como o "bichinho" dessa estação emissora. São experiências, memórias, recordações nunca esquecidas." 



Intervalo para o seu almoço…e música para o seu jantar... na companhia da Rádio.

António Bondoso
Jornalista.
Dezembro de 2019 


2019-12-06

Escrever em blogues pode não significar obrigatoriamente ser «influencer», antes poderá querer dizer apenas ter o gosto de conversar com as palavras e de viajar com as ideias. Vem a propósito do meu PALAVRAS EM VIAGEM e de alguns números que marcam as publicações.


Não sou nem pretendo ser um «influencer», agora tão na moda! O meu blogue, como o próprio título indica, quero que tenha apenas a virtude de trazer e de levar «palavras em viagem», sempre à volta de livros – poesia e prosa, tanto faz – embora não possa passar ao lado de questões políticas e sociais. E depois, a viagem das palavras leva-me sobretudo ao meu «país do sul», S. Tomé e Príncipe – o paraíso do chocolate e das praias com sol e areia branca, de gente boa e simpática – e ao meu «Oriente da História», esse território de Macau onde reganhei o prazer de trabalhar na Rádio e onde vivi «felicidade».
         E não faço disto profissão, apesar de quase todos os dias me virem propor negócios e para além de saber que tenho apenas 20 (vinte) seguidores. Poucos, mas fiéis.
         Porque o meu cotidiano gira à volta de outros interesses e de outros afazeres, felizmente ainda sou «formador» no Instituto Multimédia no Porto, também faço voluntariado lecionando na Universidade Sénior Rotary de Matosinhos e ainda vou imaginando e escrevendo livros (nem todos foram publicados até esta data), o que me chama ao blogue tem que me tocar o coração e o caráter. Para os «faits divers» há outros espaços em plataformas diversas – as conhecidas redes sociais como o facebook ou o twitter.
         Por isso é que só publiquei até hoje 740 «crónicas» ou escritos, que mereceram mais de 51 mil visualizações. Para mim é um número mítico. E, com um pouco mais de vida, talvez venha a atingir as cem mil. Quem sabe! Mas gostaria hoje de agradecer aos que me têm acompanhado fielmente, sobretudo em Portugal mas igualmente nos EUA, em STP, no Reino Unido, na Irlanda e no Brasil.
         E quando não gostarem, não se inibam de deixar o respetivo comentário. Será publicado apesar de desfavorável e desde que não seja ofensivo.
         Muito grato a todos pela «paciência» de me lerem e pelo gosto de viajarem com as palavras. Até sempre!



António Bondoso
Jornalista
Dezembro de 2019.

2019-12-05

DOS VENTOS DE LOUCURA e do INCONFORMISMO, do CANTO NEGRO até à desilusão de CONTRATEMPO…a poesia são-tomense de Alda do Espírito Santo foi o destaque na «Hora da Poesia» da Rádio Vizela. Conceição Lima deu ainda voz às Ilhas…chamando Albertino Bragança.


Das ilhas do chocolate que foram de escravidão, penso a cada instante e escrevo permanente, escutando quando dizem poemas de amor e dor.
Mais uma vez sintonizei as palavras ditas nas vozes de quem me toca, na ordem de quem escreve e de quem seleciona. Tudo tão doce quando se atravessa o oceano azul para ouvir a esperança, a certeza de um tempo novo ou a desilusão de promessas incumpridas. Duas Ilhas e um País que foram de Alda do Espírito Santo, combatente da liberdade, Poetisa maior de S. Tomé e Príncipe que a «Hora da Poesia», nas ondas da Rádio Vizela, trouxe à primeira fila desta emissão semanal.
         E foi bom ouvir de novo a Conceição Lima a viajar pelas palavras e pelo sentimento da língua portuguesa além do mar. E foi bom escutar a força com que a Alzira Santos e a Lourdes dos Anjos disseram e valorizaram os poemas. E como foi retemperador escutar a emoção de Albertino Bragança, companheiro de letras e de cidadania ativa de Alda Espírito Santo. Dois dos fundadores da UNEAS – União Nacional dos Escritores e Artistas de S. Tomé e Príncipe – militantes empenhados na construção do país novo até que os caminhos da «partidarite» divergiram e chegou a desilusão. Albertino em 2005 com o romance UM CLARÃO SOBRE A BAÍA, Alda em 2006 com o poema CONTRATEMPO:«Hoje, há oceanos em turbilhão/ nas mentes do luchan do meu país africano» (…).Este foi um dos que pudemos escutar na Hora da Poesia de ontem. Mas podemos recuar no tempo e chegar a 1953 – humilhação, tortura e morte, da Trindade a Fernão Dias, e reler ONDE ESTÃO OS HOMENS CAÇADOS NESTE VENTO DE LOUCURA: «O sangue caindo em gotas na terra/ homens morrendo no mato/ e o sangue caindo, caindo…/nas gentes lançadas no mar…(…)». Não foram ditos todos como é natural, pois o tempo é precioso, sobretudo na Rádio. A Rádio que Alda do Espírito Santo escutava em 1958 quando escreveu INCONFORMISMO: «Contemplando a criançada atirada aos caminhos/ Encostada ao burgo onde moro/ Acenando aos carros circulando pelas estradas poeirentas/ Ouvindo as notícias chegadas pela rádio/ Doutros mundos distantes/ De pugnas, lutas, invenções/ Do progresso da vida no mundo da ciência/ Das artes, das letras, da conquista do cosmos/ Da ânsia de resolver os problemas do planeta/ Sentimos a inutilidade das mesquinhices do dia-a-dia/ Dos complexos criados pelas nossas futilidades/ E analisando a vida vazia/ Um clima de angústia se levanta sobre as nossas cabeças/ Gritando a nossa inércia permanente/ Condensada em lugares comuns latentes» (…).
         Para vós, todos, que amais a Poesia, atentai na esperança deste «Inconformismo». 


Link: www.radiovizela.pt/programa-hora-da-poesia

António Bondoso
Jornalista
Dezembro de 2019

2019-12-02



CONSULADO DE STP na Região Centro de Portugal transferido de Coimbra para Cantanhede.



“Portugal tem que chegar primeiro a S. Tomé e Príncipe”…ou de como a inauguração de um Consulado em Cantanhede coloca as relações entre os dois Estados e Povos já a um nível de «relações familiares».

         A ideia foi hoje cimentada pelo Embaixador de STP em Lisboa, Dr. António Quintas do Espírito Santo, no ato da inauguração das novas instalações do Consulado Honorário daquele país para a região centro de Portugal em Cantanhede, substituindo a localização de há muitos anos em Coimbra. Razões de «proximidade» entre a «missão» e a residência do Cônsul levaram à mudança. José Diogo vai agora ter como vice-cônsul a Senhora Maria de Fátima Loureiro.

          A cerimónia da inauguração das novas instalações, junto ao Quartel dos Bombeiros, começou no exterior com os hinos de Portugal e de S. Tomé e Príncipe, acompanhando o momento do hastear da Bandeira daquele país africano de língua oficial portuguesa. Já no interior, o Padre Miranda procedeu à bênção do espaço, referindo ser um lugar de acolhimento daqueles que pretendem viver aqui, depois de terem saído da sua terra para procurar uma nova esperança. 



         A Presidente da Câmara Municipal de Cantanhede, Helena Teodósio, recordou as excelentes relações de há muitos anos com STP e disse que esta nova situação valoriza e reforça as relações de cooperação, referindo a disponibilidade do município – nomeadamente para a formação de quadros daquele país em vários domínios de atividade. José Diogo agradeceu mais uma vez o apoio da autarquia, particularmente no decorrer da EXPOFACIC, e destacou satisfação pela presença do Embaixador António Quintas. Na resposta às intervenções anteriores, o diplomata são-tomense realçou o facto de ser este novo espaço uma plataforma estratégica para todos os cidadãos de STP na «diáspora», mas também para os cidadãos portugueses que pretendam deslocar-se em turismo ou em negócios ao seu país – nomeadamente aqueles que no século passado nasceram, viveram e trabalharam nas Ilhas do Meio do Mundo. Esses, disse António Quintas, «também pertencem à diáspora são-tomense», frisando que Portugal é um espaço aberto à multiculturalidade e que as «relações familiares» já ultrapassam as normais relações institucionais entre os dois Estados.

          Salientando que é necessário passar o relacionamento entre os dois Estados para outro nível, as autarquias – o Poder Local menos burocrático – surgem como um fator estratégico, pois as relações diplomáticas não podem ser um peso. É preciso animar os negócios entre os países e os povos. Os empresários são fundamentais e Portugal, devendo chegar primeiro, tem que mostrar interesse nos concursos internacionais já abertos ou a abrir naquele país africano, exatamente para poder marcar a diferença! Concretamente nos setores da Formação, da Construção Civil, do Turismo e da Cultura. 

         Por último – e antes de rumar ao Porto para acompanhar a Ministra dos Negócios Estrangeiros numa missão de captar investimento – o Embaixador António Quintas agradeceu a particular dedicação do Cônsul José Diogo, figura ímpar ao longo de muitos anos, contribuindo de forma intensa para elevar o nome de S. Tomé e Príncipe, antes de convidar a Presidente da C. M. de Cantanhede, Helena Teodósio, a visitar o país para melhor conhecer as oportunidades de STP.

António Bondoso
Jornalista

2 de Dezembro de 2019.