2018-07-24

UM LIVRO DE VEZ EM QUANDO…NESTE ANO DE 2018.
Da beleza natural do cair da noite…à poderosa lindeza das palavras entrançadas do santomense Albertino Bragança – um «paisagista» nato.  


Ponderado na escrita e na seleção das ideias, pode dizer-se que este «Homem», que já era «doutor» antes da literatura, adotou um «leve-leve Q.B.» na sua produção literária, procurando antes a certeza do impacto e a previsão do sucesso em cada título dado à estampa.
O cair da noite, nos trópicos, é um fenómeno de rara beleza. E cheio de vida, ao contrário do que se possa imaginar. A melodia dos mais diversos sons (o fascínio do regresso a casa dos papagaios, na Ilha do Príncipe, por exemplo), as cores do sol poente, a tonalidade das águas do mar, um cenário idílico. S. Tomé e o Príncipe não fogem à regra. Mesmo que depois a “noite fique cerrada e chuvosa”, como o autor escreve na primeira frase do primeiro capítulo desta sua obra de 2017 – AO CAIR DA NOITE!
Paisagista nato, como disse, verdadeiro conhecedor da Natureza das Ilhas e da natureza dos seres humanos que as habitam…Albertino Bragança começa por não esquecer o secular «boato», mais recentemente também designado por “rádio boca a boca”, um mal enraizado desde sempre e que, não raras vezes, terá estado na origem de alguns conflitos célebres – como por exemplo a chamada “crise do censo”, quer na época colonial, quer já no período pós independência. O boato está precisamente no cerne do enredo da obra em apreço.
Político experiente e conhecedor dos meandros sensíveis da vida dos gabinetes ministeriais – o autor desempenhou nomeadamente o cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros – a temática alimenta todo o romance, destacando-se a conciliação entre o ministro Virgílio Carvalho e o diretor de serviços João Sabino, cujas famílias andavam desavindas há décadas, precisamente na sequência da crise do censo. Em contraste com essa atitude, a intransigência de um Primeiro-Ministro que havia exigido a distribuição de lugares apenas para funcionários das suas cores, independentemente da sua competência.
Trata-se de um romance, é ficção, e desta história não poderá retirar-se qualquer «semelhança com a realidade», pese embora a liberdade de os leitores conduzir as suas ideias para um determinado alvo.
Contudo, não deixa de ser verdade que a reflexão de Albertino Bragança aponta para o desejo de pacificar a sociedade santomense, inclusivamente no que respeita às «famílias partidárias». Mas o respeito pela nobreza do exercício da atividade política não pode pressupor o aniquilamento da capacidade das oposições para o «combate», embora se admita um enfraquecimento temporário.
Confesso não estar na minha ideia inicial transformar a essência desta apreciação literária num eventual «debate» político, muito menos partidário. Retomo, por isso, outros pontos de vista que despertaram o meu interesse neste «Ao Cair da Noite» e, dada a minha proximidade com as Ilhas, notar desde logo a minha identificação com algumas expressões superiormente utilizadas pelo autor. Há quanto tempo eu não lia/ouvia a palavra “estacar”! E Albertino usa a expressão por mais do que uma vez neste livro. Tal como utiliza expressões do português corrente falado à «moda terra», enriquecendo a narrativa: “Gente só precisa saber se você ainda quer sua mulher ou não. Só assim gente pode saber qué que gente faz”. Ou esta perspetiva de uma festa de arromba no aniversário do avô Júdice: “Ambiente vai ficar ele próprio! É feriado, ninguém não pode faltar. Você Já!...”. E fá-lo tão naturalmente como nos brinda, em simultâneo, com a beleza e leveza do mais puro léxico na língua de Camões, dando corpo à sua veia de paisagista nato: “Olhou de relance pela baixa janela o tempo magnífico que fazia lá fora, o vento balouçando delicadamente os ramos das árvores e tornando mais amenos os efeitos dos raios de sol, num lírico início de tarde como apenas a gravana pode proporcionar”. E se não valorizam esta, posso oferecer-vos outra, convicto de que não quebro qualquer regra deontológica. Pelo contrário, pretendo despertar o interesse na leitura da obra: “Sumia a tarde, mas redobrava de vigor o rumorejar do vento nos terrenos anexos ao grande quintal. A noite aproximava-se sem demasiada pressa, como se pretendesse contemporizar-se com a réstia mortiça do sol despedindo-se lá longe, na fímbria estreita do horizonte”.
Ao Cair da Noite, de Albertino Bragança, para se deliciarem. 


António Bondoso
Jornalista
Julho de 2018. 


2018-07-18

100 ANOS (OU QUASE)...FOI POUCO TEMPO!
UM PEQUENO TRIBUTO A UM GRANDE HOMEM, A UM GRANDE LÍDER.


Há 5 anos escrevi:
NELSON MANDELA – O POEMA DO HOMEM COMEÇA AGORA!

“Tudo principia no princípio/o nascimento e a morte/…/ - O poema principia no fim!”
São letras e palavras de um poema de Luís Veiga Leitão que, tal como Madiba, conheceu os horrores da prisão e da tortura. E como disse Mandela, “tudo é considerado impossível até acontecer”! Por isso, o seu “poema” começa agora. Para que a memória não se apague e possa iluminar os que tomaram as rédeas do destino. Nelson não mudou apenas um país. Conseguiu (re) construí-lo sobre os escombros de um regime controverso, polémico, desumano. E fê-lo com um grande coração e com uma mente aberta e visionária. Mandela soube perdoar sem perder a firmeza dos grandes líderes. E não conseguiu apenas um Estado democrático e de direito – ganhou também uma Nação.
Partilhou a dor e o sofrimento mas igualmente a alegria de não levar consigo qualquer segredo. Todos puderam aprender as suas lições de vida, seguindo pensamentos metodicamente elaborados e que – nesta hora do seu passamento – quase atingem o limite da vulgaridade.
Socorro-me então, de novo, de Luís Veiga Leitão – para recordar que, ao prisioneiro (como um navio), pode cair-lhe a pintura e até o próprio nome, “Mas o mar está dentro dele/ e não há força que o dome”. E o Poeta e Mandela foram homens que vieram “dos cárceres da noite” e “vestidos de pedra”.
Perante tais gigantes, escuso-me a dizer mais seja o que for. Prefiro partilhar o silêncio dos humildes. E sei que o “poema” de Nelson Mandela começa agora…no fim!
António Bondoso
5 Dezembro de 2013.
Depois, em 2014, fiz publicar um «Pequeno Tributo» no livro EM AGOSTO...A LUZ DO TEU ROSTO, como segue: 


PEQUENO TRIBUTO…

(“A bondade do homem pode ser escondida, mas nunca extinta” – Nelson Mandela).

Confessas?
*Justiça!
Negas?
*Justiça!
Que pretendes?
*Justiça e Liberdade!
A prisão há de vergar-te.
*Nunca! “Sou o dono do meu destino”.
Vais sofrer encarcerado
*Serei livre…sofrendo! “Sou o capitão da minha alma”.
Na ilha definharás
*O meu horizonte é o Povo.
Mas é um povo amordaçado, espezinhado, oprimido, subjugado…
*Levantar-se-á no martírio e beberá as lágrimas da Dignidade!

“Ergueu-se, derramou sangue e suor
Moveu montanhas solidárias
O mundo percebeu toda a urgência
E fez com que mudasse tal tragédia.

 Então o Homem
“Tata” Madiba,
De punho erguido e coração radioso
Provou do Poder toda a justiça
Caminhou humilde em busca de um tempo novo
E mostrou ao país uma nação.
Depois…
“Khulu” Madiba,
Serenou com júbilo o seu espírito
Alimentou de alegria outros amores
Atingiu a dimensão da eternidade
No perdão.
Hamba kahle Madiba
Nkosi Sikelele iAfrica”.
======== António Bondoso
Dezembro de 2013.
*** Com dois versos do poema INVICTUS, de William Ernest Henley(1875).
No livro: EM AGOSTO…A LUZ DO TEU ROSTO, 2014.
&&&&&&&&&&&&&&&&&&
*** Madiba = Nome do clã a que Mandela pertencia e derivado do nome de um chefe que governou a região do Transkei no séc. XVIII.
*** Tata = Pai (Língua Xhosa)
*** Khulu = Avô ( “    “ )
*** Hamba kahle = Adeus ( “  “ )
*** Nkosi Sikelele iAfrica = Senhor, abençoai a África ( “  “) 

António Bondoso
Jornalista
Julho de 2018       

2018-07-17


***** Impróprio para cardíacos...palavras eventualmente chocantes na interpretação da «História».

Foto de Ant. Bondoso

Se não fossem esses tarados dos "portugueses" (descendentes de tantos outros povos que lutaram contra invasões e escravidão) terem tido a tentação de sair deste promontório e enfrentar a aventura do desconhecido...como teríamos hoje um mundo perfeito e maravilhoso.
Mas não. Os tugas (todos sem exceção) foram por aí fora...e mataram, destruíram, queimaram, degolaram, retalharam, roubaram, escravizaram, enganaram, aterrorizaram, atentaram, fornicaram, prenderam, traficaram, mentiram, exploraram, abusaram, humilharam - mesmo onde tudo era deserto.
Porra para os tugas, que chatice, meteram-se aonde não deviam, coisa estranha, devem ter enlouquecido. Com que direito construíram naus e caravelas e se puseram a explorar o mar profundo e outras terras a saber? Descobriram? Acharam? Conquistaram? Colonizaram? Inventaram? Cobiçaram? Esconderam? Apagaram? Aldrabaram? Aculturaram?
Porra! Como é que um mísero e ralo povo fez tudo isso? E ninguém deu conta? E ninguém investigou? E ninguém protestou? E ninguém se revoltou? Foi assim...tudo de mão beijada? Claro que não! E todos sabemos que não. Na esfera do relacionamento internacional...as "amizades" (só) não contam. Apenas (e sobretudo) os interesses!
De outra forma...como entender a eternização do mal?                    
Foram os tugas, sozinhos, com a cruz na esquerda e a espada na direita que alteraram a relação entre os povos. Sem ninguém lhes encomendar o sermão! Ou melhor…certamente que a «Santa Sé» e o «poder de Roma» terão dado uma mãozinha decisiva. Esses malandros da «Cúria Romana» não perderiam a oportunidade de “empurrar” os ignorantes, ingénuos e petulantes tugas para tal empresa suicida.
         E é assim que, decorridos quase sete séculos, os agora impolutos historiadores do politicamente correto – baseados nas fontes que existem desde sempre – entendem e pretendem que, afinal, foram os tugas que deixaram o mundo neste estado caótico. E não assumem a «culpa» e nem sequer pedem «desculpa». Só mesmo dos tugas! E fazem-no…com o mesmo descaramento – quiçá a mesma estultícia – com que decidiram tomar o caminho do mar para descobrir! E isso, os impolutos historiadores do politicamente correto – a que João Pedro Marques chama de «marxismo cultural», e que tem invadido o debate científico por um certo argumentário ideológico – não perdoam.
         Não façam museus. Nem das descobertas, nem dos descobrimentos. Pelo menos, não sem antes – séria e honestamente – debaterem e ensinarem nas escolas tudo o que sabemos. Sem omitir ou relativizar seja o que for. Se é para interpretar…que tudo seja interpretado!
Foto de Ant. Bondoso

António Bondoso
Jornalista e Mestre em Relações Internacionais
Julho de 2018.

2018-07-14

AINDA SOBRE O 43º ANIVERSÁRIO DA INDEPENDÊNCIA DE S. TOMÉ E PRÍNCIPE QUE SE VAI CELEBRANDO POR ESTES DIAS.
Uma perspectiva com ângulo diferente, tendo por base a (in) validade do velho conceito de ser e como ser «INDEPENDENTE».
O texto foi ontem apresentado numa sessão em Cruz de Pau, Seixal, comemorativa da efeméride e organizada pela Associação POTO BETU - de apoio aos imigrantes - em colaboração com a ANALP.

Foto disponível na Web
SER INDEPENDENTE.
O que é e como é…no mundo globalizado de hoje?
O velho conceito que pode ser lido nos dicionários e/ou no «estado da arte» das Relações Internacionais já não corresponde verdadeiramente nos dias de hoje. Devido às interdependências, claro, mas sobretudo aos «blocos regionais» que funcionam na base de OIG (Organizações Intergovernamentais) e até mesmo com objetivos federalistas – como é o caso da União Europeia.
Como pode STP manifestar a sua independência – um PEI (Pequeno Estado Insular) no Golfo da Guiné – tendo em conta a ideia do «exercício exclusivo da autoridade de um Estado sobre uma determinada área territorial»? Partindo do princípio de que essa autoridade é reconhecida pelos outros atores do sistema internacional – inquestionável há 43 anos – há uma série de fatores que determinam o grau de maior ou menor dependência internacional. Para além da economia, que é fundamental, há os critérios de integração regional e os chamados espaços culturais. São fundamentais as ligações mantidas com as mais diversas «Agências» das Nações Unidas – como o PNUD, por exemplo – e da União Africana, nomeadamente o BAD, a CEEAC (Comunidade Económica dos Estados da África Central); o COREP (Comité Regional de Pesca para o Golfo da Guiné). Há igualmente a CPLP e ainda as ligações à UE, concretamente através do NEPAD (Nova Parceria para o Desenvolvimento da África). Com todo este sistema de ligações e de ajudas, pode perguntar-se o porquê do falhanço das sucessivas políticas da governação, apesar de alguns avanços em setores como a Educação/Ensino e no combate à malária.
Ser-se um país «independente», hoje, é ter um Estado que zele pelo abastecimento de água e de energia elétrica eficiente às populações; que seja capaz de levar alimentação a quem precisa; que propicie o encontro das pessoas com a Cultura, preservando as tradições; um Estado que promova atividades lúdicas e desportivas; que trate do saneamento e da Saúde dos doentes; um Estado que incentive a Pesca e a diversificação da agricultura; que regulamente a atividade turística e que não mantenha as populações na ilusão do petróleo; um Estado que cumpra e faça cumprir as leis, zelando pela separação de Poderes e respeitando todos os cidadãos. Isto…é ser «independente». E se perguntarmos: o Estado tem que fazer tudo? Claro que não. Mas deve fazer o essencial e promover o investimento privado interno e externo – direto ou em parcerias vantajosas.  
O Estado de S. Tomé e Príncipe, nascido em plena «Guerra Fria», teve que receber inicialmente a ajuda natural dos países que apoiaram a luta de libertação. 15 anos de regime monopartidário criaram um Estado praticamente dependente da ajuda externa e que se impunha pela força internamente. Depois, já numa fase terminal do chamado Bloco de Leste ou «comunista», apareceu a transição política e económica para o designado Bloco Ocidental de tipo «capitalista». Apesar das adaptações que o novo sistema político exigiu, o país não conseguiu dar o «salto» qualitativo em termos de estabilidade económica e financeira. Pelo meio, o processo foi agravado com algumas situações de instabilidade político-militar e na Justiça.
Hoje, na viragem do 43º aniversário da «independência», o país permanece débil e com um Estado enfraquecido, eternamente à espera de reformas estruturais – particularmente «solicitadas» pelos representantes da alta finança dominadora: o Banco Africano para o Desenvolvimento, o Banco Europeu de Investimento, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. O que preocupa, de facto, é a incapacidade para responder a este «sistema», tendo como objetivo central o bem-estar das pessoas.
Apesar de tudo, há que celebrar a «independência». Parafraseando o meu camarada e amigo Manuel de Sousa (Dende)…independentemente das opiniões de cada um sobre a data, «subscrevo na íntegra a opinião daqueles compatriotas que afirmaram e continuam a afirmar que VALEU A PENA»! Particularmente pela «libertação de todas as formas de opressão e pela assunção dos nossos próprios destinos».
Viva o 12 de Julho, viva todo o Povo de S. Tomé e Príncipe. As Ilhas continuam no meio do mundo, independentemente da capacidade dos políticos que as têm governado.
António Bondoso
Jornalista e Mestre em Relações Internacionais                        
Julho de 2018.

Composição de Ant. Bondoso

2018-07-12

STP – INDEPENDÊNCIA…OU SOBERANIA PARTILHADA?
Ou de como, neste mundo globalizado e «governado» pela alta finança mundial, se poderá ler o título de forma relativamente amena, tendo em conta um país que depende da «ajuda externa» em elevada percentagem: S. Tomé e Príncipe à espera de um «futuro risonho».

Foto do mural de Conceição Lima

STP – INDEPENDÊNCIA…OU SOBERANIA PARTILHADA?
Ou de como, neste mundo globalizado e «governado» pela alta finança mundial, se poderá ler o título de forma relativamente amena, tendo em conta um país que depende da «ajuda externa» em elevada percentagem: S. Tomé e Príncipe.
Um relatório do FMI, de Abril deste ano, revela que "Em 2017 o crescimento económico desacelerou ligeiramente, situando-se em 3,9 por cento, dado que o impulso da despesa pública foi limitado pela menor entrada de recursos externos".
Preocupa, mas não é decisivo, que o segundo mais pequeno país de África – nesta passagem do 43º aniversário da sua independência – apresente uma enorme fragilidade nos índices de desenvolvimento. Já escrevi, e volto a dizer, que 30 ou 40 anos não são decisivos para avaliar o percurso independentista de um jovem país. E STP nasceu num período crítico da Guerra-Fria, na sequência de um golpe militar que derrubou o regime do país colonizador. Os críticos sempre poderão atribuir culpas a Portugal por não ter feito mais para o desenvolvimento das Ilhas, o que não deixa de ser verdade – por exemplo no turismo e num cais acostável – mas também sendo certo que havia alguns sectores, como a saúde, os quais registavam índices apreciáveis de desenvolvimento, comparativamente com outros países do Continente Africano.
Numa outra perspetiva, poderá contrapor-se a pressa da liderança do movimento de libertação no caminho da independência, quando havia exemplos de sucesso (não muitos, é verdade!) em ex-colónias de potências europeias que haviam ascendido à independência em finais dos anos de 1950, após um período de «transição» de 6 anos e depois de uma experiência conflituosa – mesmo violenta – com os ingleses. Isso não impediu Nkrumah de liderar o processo, desenvolver o Gana e ganhar o respeito de muitos outros líderes africanos.
Percebendo embora o contexto das colónias portuguesas em África no início dos anos de 1970 – a guerra prolongada em três frentes e o arrastar da colonização, com todos os aspetos negativos que isso implicava no relacionamento internacional – não posso igualmente deixar de referir a decisão, emocionalmente apressada, da exigência de uma imediata independência. E a forma como ela foi conquistada levou à saída forçada de muitos quadros, particularmente de nível intermédio, de alguma maneira essenciais para o bom funcionamento do Estado nascente. De novo as críticas ao país colonizador pelo facto de, ao longo dos anos, não ter promovido a formação de quadros locais. Igualmente de novo o contraponto, e percebendo quer o tempo e quer a forma do relacionamento entre Portugal e a China, da ideia dos 12 anos de transição para o território de Macau: 1987-1999.
O que verdadeiramente me preocupa em S. Tomé e Príncipe, por esta altura, é ouvir o líder do governo expressar o reconhecimento do fracasso da sua governação – não retirando quaisquer consequências políticas – e, logo de seguida, saber que a OMS vai reduzir a sua «ajuda» ao país. É sobretudo isto que merece a minha atenção, particularmente em ano eleitoral por excelência. Um relatório recente, elaborado para o Banco Africano de Desenvolvimento, toca exatamente nesta tecla: Riscos cruciais também estão ligados às eleições legislativas agendadas para 2018, particularmente, o risco elevado de gastos extra-orçamentais e instabilidade política, juntamente com o aumento dos empréstimos em incumprimento no setor financeiro. A dependência da exportação de bens primários e importação de produtos alimentares e combustíveis deixa o país extremamente vulnerável a choques externos. O relatório, contudo, não deixa de assinalar alguma esperança no futuro, sobretudo tendo em conta o sucesso verificado na erradicação da malária, «esperando que a produção e o acesso à energia melhorem nos próximos anos, com investimentos prometidos pelo Banco Africano de Desenvolvimento, pelo Banco Europeu de Investimento e pelo Banco Mundial.» Cá está grande parte da “alta finança mundial” que referi no início do texto, sem esquecer o FMI.
Lembrando uma intervenção recente do economista Alcídio Montoya Pereira, esta notícia da redução da ajuda por parte da Organização Mundial de Saúde não é propriamente nova, «pois já se sabia que a elevação do país à categoria de desenvolvimento médio é um expediente que a comunidade internacional utiliza para "desmamar" países viciados em "ajudas ao desenvolvimento".» Preocupante…é perceber quão importante é o sector da Saúde para o desenvolvimento. Temos o exemplo de Portugal onde – após largos anos de desinvestimento no SNS, nomeadamente no período da “Troika” – o sector atravessa talvez a maior crise de que há memória. E como é importante um sistema de Saúde forte para um turismo sustentável num país insular como S. Tomé e Príncipe. Não sei se a ideia existe...e nem sei até que ponto poderia ser recomendada aos investidores turísticos pelo governo: - as unidades de maior relevo terem médicos ao seu serviço, como eu vi na Malásia, por exemplo. 
E preocupa-me igualmente o facto de, em Fevereiro deste ano, a Embaixadora dos EUA (USA) para o Gabão e STP, ter ido ao país chamar a atenção para a necessidade de o «Poder» garantir a “Liberdade de Imprensa” e o fortalecimento das instituições democráticas.
Duas notas finais para recordar, primeiro, um pormenor sobre a data da independência de STP. Um amigo de longa data e camarada de profissão – Costa Carvalho – lembrou-me agora do facto de ter sido ele o primeiro a divulgar a data, estando em serviço para a cobertura jornalística do Acordo de Argel: «Numa das miniconferências de Imprensa, tratei o representante de STP por DR. TROVOADA (o nosso era o DR. ALMEIDA SANTOS). Trovoada recusou o título académico e eu disse: " O senhor diz que não é licenciado, mas eu sei que só não o é, porque o regime salazarista não consentiu. Estou aqui, precisamente para reparar tal “injustiça". Sabes, António, o que me valeu esse meu politicamente correcto desaforo? Fui o único a noticiar o dia da independência de STP!».
O outro pormenor…para dar conta da «esperança num futuro risonho» que me foi transmitida pela jovem estudante de STP no Porto, Jéssica Conceição. Escreveu assim: «Ser independente é ser uma nação governada de acordo com o que foi definido pelo povo a partir de suas tradições ou convicções, sem que o governo de qualquer outro país possa interferir. Ser independente é ser capaz de decidir sobre o regime político que lhe convém, sobre a maneira de organizar a administração, a economia, a política e as demais instituições sociais. São Tomé e Príncipe é um país independente? Sei que é difícil manter a esperança em um futuro melhor para São Tomé e Príncipe quando se atravessam dificuldades. Mas deve-se tentar. Creio num futuro risonho».
        Fiquemos com a esperança e com a crença numa vivência em democracia e em liberdade. Viva S. Tomé e Príncipe e um abraço do tamanho do mundo para o seu Povo.


António Bondoso
Jornalista
12 de Julho de 2018. 

2018-07-07


SAUDADE...OU ONDAS DE MEMÓRIAS?



Há quem tenha memória curta ou de grilo. Outros terão excelente memória visual mas há também muitos a quem tudo se varre. E eu, embora creia não ter o que se chama de memória de elefante…sempre direi que conservo uma excelente lembrança de experiências anteriores. Sobretudo tenho assumido sempre uma tomada de consciência do passado, o que me permitiu há muito ultrapassar as consequências dos avatares da história. O «outro» nunca foi para mim um tabu. Por isso, posso sempre rebobinar o filme que conta a história de muitas Ondas de Memórias: 


ONDAS DE MEMÓRIAS 

Quando não alcanço as ondas do mar
É certo que os sentidos estão doentes.
Não ouço o coração a comandar
São meus olhos que choram de tão quentes.

O meu mar já tão longe não me leva
E a vida de tão curta não espera.
Por isso alma própria bem se eleva
Mas o corpo descansa e desespera.

É sempre nesse mar que me revejo
Navego destemido e busco a sorte
E outra felicidade não almejo.

E sigo corajoso deste norte
Para o sul de riquezas que prevejo
Sem medo que me chegue a triste morte.

«É neste mar que me cultivo».
==== A.B. Out.2017 




António Bondoso

Julho 2018. 

2018-06-30


Bom dia.
Sempre que penso em ir à praia…o maior desafio é o mar!


O MEU MAR COMEÇA AQUI

O meu mar começa aqui…
Mas as ondas somam-se à calema
De outras ondas
Que viajam enroladas até ao Golfo.
É esse mar que é mais meu
Pois dele sei
Desde o dia em que cheguei!

E sei que há grandes barcos que navegam
E buscam por ali o seu negócio
Como outrora houve naus e caravelas.
E sei como flutuam as canoas
De pescadores com orações no pensamento
Buscando no mar alto o seu sustento
Feito de sonhos e de perigos no momento.

Sonhos aos saltos como o peixe voador
Perigos apertados na visão de um gandu esfomeado
Anseios e angústias de uma ambição de calor
Tantos riscos assumidos nesse mar tão agitado.
E há esse mar que beija todas as praias da ilha
Debaixo de um sol abrasador
Deixando sempre um certo sabor salgado.

É esse o doce mar que me escolhe e me recolhe
Em tempos tormentosos de saudade
De uma alma em permanente tempestade.
================
António Bondoso
Junho de 2018.


António Bondoso.

2018-06-26


O que está a minar a independência de Moçambique, 43 anos passados sobre a data da libertação colonial?


O que está a minar a independência de Moçambique, 43 anos passados sobre a data da libertação colonial?
Para percebermos um pouco a que ponto se terá chegado, lembremos o que escrevia Leonel Matias, em Outubro do ano passado, para a DW:
«Dívidas e "lista negra"
O Fundo Monetário Internacional suspendeu a ajuda ao Orçamento do Estado moçambicano em 2016, após a descoberta de dívidas contraídas por três empresas com garantias do Estado, sem o conhecimento do Parlamento e dos parceiros internacionais, num valor estimado em cerca de dois mil milhões de dólares.»
         Já em Abril deste ano, o investigador João Mosca, da Universidade moçambicana A Politécnica, dizia que a crise ainda iria perdurar por mais algum tempo:
 “Ainda no contexto da crise financeira, há, igualmente, a necessidade de a cidadania ter cada vez maior importância no desenvolvimento e na solução dos problemas nacionais, bem como na elaboração e participação nas decisões do Estado e do Governo”, considerou João Mosca.
Numa outra abordagem, o orador definiu de “muito crítica” a actual situação financeira do País. Defendeu que, embora existam alguns sinais de melhoria, sobretudo nos sectores financeiros e monetário, “na economia real, aquela que afecta directamente as empresas, os empresários e as famílias, as coisas não estão a melhorar, excepto num e outro sector”.
“Mas no seu conjunto, a crise continua e acredito que vai perdurar por mais algum tempo”, assegurou João Mosca.
         Embora estejamos a viver tempos de uma globalização acentuada, [por ventura ao ritmo imposto pelo capitalismo selvagem e desumanizado], o que vale por dizer que ninguém vive isolado, é interessante perceber o que dizem os dicionários sobre independência e independente: - que não depende de nada nem de ninguém; livre de influências.
         Há instabilidade, claro, mas – de acordo com a revista Mercados&Estratégias - o país é alvo de grandes expectativas de crescimento, principalmente para a primeira metade da década de 2020, por causa do enorme potencial do setor do Gás Natural.

         Que chegue depressa 2020…e que o povo moçambicano possa ultrapassar mais este obstáculo.

António Bondoso
Jornalista.

2018-06-23

A POESIA COMO UM GRANDE MOTOR DE SONHOS NA UNIVERSIDADE SÉNIOR «VIVER A APRENDER», NO “CES-PEDRAS RUBRAS” – MAIA. 


Durante o ano letivo lemos e partilhámos figuras gradas de quase todas as «escolas» poéticas, dos clássicos à atualidade, sem esquecer alguns nomes dos vates maiatos.
         Foi, sem dúvida, um enorme desafio – sobretudo à enorme capacidade de predisposição, de interesse e de partilha dos seniores participantes.
         Foi interessante e gratificante a partilha. Superiormente demonstrada no desafio final, que foi levar à cena uma adaptação do AUTO DO CURANDEIRO, de António Aleixo.
         Dizer Poesia, representando, foi também uma forma sublime de dar corpo à ideia da “função social” da poesia.
         E a escolha, não por acaso, recaiu na profundidade do pensamento do Poeta algarvio. Tendo em conta os que enganam o «povo» e o pressuposto de que a «ignorância» é a mãe de todos os males:
O mundo está na infância,
E adulto só pode ser
Quando desaparecer,
Do povo, a ignorância.
E assim, o ano lectivo chegou ao fim. Obrigado a todos pelo muito que me ensinaram. O futuro logo se vê. 


Entretanto, ontem, no Auditório da Junta de Freguesia de Moreira da Maia, teve lugar a celebração final das Actividades da Universidade, que pode ser revista no link anexo: 



António Bondoso
Junho de 2018.

2018-06-18


AO PAI LUÍS…
A MEMÓRIA NÃO É DIVINA...MAS TEM GRANDEZA.


Em vida, celebrarias hoje o 101º aniversário. Mas partiste há 24 em silêncio, pois – como diz a Tita – raramente falavas com palavras.
Sem pretender repetir-me, lembro que foste um pai perfeitamente comum, à imagem de um tempo outro, no qual os valores da existência encomendavam, porventura, uma atitude mais patriarcal.
Também não cabe aqui julgar-te à distância de uma vida. Seria como julgar a história à luz do presente. Prefiro a memória do gesto de me dares a mão a caminho dos ensaios para um dos espetáculos de variedades, ali junto do jardim da Curadoria e da Câmara Municipal de S. Tomé. Ou ainda esses “safaris” às praias da Boa Entrada e das Conchas, tal como as idas inesquecíveis à Roça Molembú.
De Moimenta da Beira sobram já as memórias de adulto, sentados à braseira na sala da Casa do Terreiro ou dois dedos de conversa à porta do Café Jardim, mas só em fotos me chega o passado da viola no Dramático do Arcozelo ou do avançado na equipa de futebol.
Em qualquer caso, não esqueço a saudade da alegria da tua presença, a saudade do sentido de humor e do riso maroto…a saudade de quem, por obra do destino, se viu desenraizado nas “raízes” e encostado a uma solidão – embora não permanente – mais espiritual do que física.
E procurando evitar grandes tiradas filosóficas...direi simplesmente que os filhos não devem servir como montra dos pais, mais ou menos perfeita ou de alguma forma defeituosa, um espelho de elogios permanentes ou de críticas mais intensas. Os filhos não devem ser um prolongamento obrigatório dos pais. Como eu não fui, seguramente, embora reconheça traços fundamentais de carácter. Por convicção…os valores da retidão.
Os pais não são eternos e, por isso, partem mais cedo ou mais tarde. E tu partiste relativamente cedo…mesmo antes de eu partir de novo em busca do meu Oriente imaginário centrado em Macau, em Março de 1994. Ao Pai que foste, avô do filho que tenho, recordo de novo alguns versos de há uns anos:
Ser pai
                                                  Ser filho                                                 
Ser filho do pai e pai do filho
É ter um sorriso de vida
A emoção de um olhar
A certeza de que estamos e que somos.(…)

Apesar de raramente falares com palavras, como diz a Tita, «eram repletos os teus silêncios. E todos nós sabíamos o significado de cada um deles». Voltaremos a “olhar-nos” um dia destes, Pai. Sempre como ontem…

António Bondoso
Filho
18 de Junho de 2018. 


2018-06-14


ANTÁRCTIDA –  JÁ LHE CHAMEI «O ÚLTIMO REFÚGIO»
Agora, que se volta a falar do Continente Gelado e do Futuro do Planeta, recordo que HÁ 10 ANOS, elaborei um pequeno trabalho académico sobre aquela região do mundo, sobretudo tendo em conta o que agora se designa por Nova Geopolítica. E escrevi, na introdução, o texto que segue, recordando o que salientou  o filósofo político LOUIS POJMAN : «A poluição do ar e da água tende a espalhar-se indiferente a fronteiras políticas. Por exemplo, o ar contaminado pela explosão nuclear de Chernobyl deslocou-se para ocidente na direcção da Suécia, França, Itália e Suiça. Uma camada de ozono cada vez mais esgotada sobre o Antárctico, torna todas as pessoas vulneráveis à radiação ultravioleta que provoca o cancro».   
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«A Antárctida – o último continente a ser descoberto – tem uma área de 14 milhões de Km2 e representa 10% da superfície dos continentes emersos. Outrora submetido a um clima tropical, o continente está hoje praticamente coberto por uma enorme calote glaciária, cuja espessura pode atingir 4700m, e possui 90% das reservas de água doce do nosso planeta. E tendo em consideração os jazigos de ferro, cobre, carvão, níquel, crómio, cobalto, titânio, urânio, zinco, ouro, prata, platina e petróleo – é apontado como muito promissor o potencial mineiro da Antárctida.





                   Tendo em conta que o “aquecimento global” é um tema que vem ganhando enorme relevância de há uns anos a esta parte – sobretudo pelas ligações colaterais que influenciam a política e a economia mundiais (não será um acaso da História a recente atribuição do Nobel da Paz a Instituições e a Figuras das áreas da Ecopolítica e da Investigação ambiental) – o Continente Gelado tem sido apresentado como a “última fronteira” da exploração de recursos decisivos para a sobrevivência do nosso planeta, mesmo sabendo que as “reservas” são diminutas.
                   Quer seja pelas difíceis condições de vida, quer seja pelo óptimo campo de investigação científica – a Antárctida tem conseguido ser protegida das ambições e agressões humanas, graças a um entendimento internacional consubstanciado num Tratado (datado de 1959) que define o Continente como uma zona a ser utilizada unicamente para fins pacíficos. No Atlas de Relações Internacionais, dirigido por Pascal Boniface, diz-se que a Antárctida “fornece, portanto, o modelo perfeito das relações internacionais pacíficas”. Contudo, recentemente, a Grã-Bretanha reclamou, na ONU, direitos de soberania para extracção de reservas de gás, minerais e petróleo – atitude de imediato contestada pelo Chile e Argentina.
                   Independentemente do desenvolvimento deste problema, o trabalho vai tentar responder a uma simples questão de partida: - será a Antárctida, para além da já referenciada “última fronteira”, também o “último refúgio” da humanidade?
                   Com esse objectivo, estabelecemos três capítulos, para analisar a história do continente e a sua importância política e científica- consubstanciada no Tratado de Washington de 1959; fazer o enquadramento geopolítico da região numa perspectiva da Eco política – uma das fases da arquitectura da nova geopolítica que salienta a globalidade dos direitos humanos e, por último, uma breve referência ao pensamento português sobre a Antárctida – destacando as ideias de Soromenho Marques, para quem a eco política ultrapassa uma simples política de ambiente.
                   Um tema complexo que obrigou a um aturado trabalho de pesquisa e que exigiu muita disponibilidade.»
António Bondoso
Jornalista
Junho 2018. 
NOTA: - Se pretender ler o TRABALHO COMPLETO, de 2008, 23 de Março, pode consultar:
https://palavrasemviagem.blogspot.com/2017/03/agua-um-direito-fundamental-proposito.html