2021-11-09


MAQUIAVEL À SOLTA EM PORTUGAL…ou de como os média tudo procuram «condicionar» através dos “testas de ferro” saloiamente chamados a comentar a vida em sociedade. Tem hoje a ver especificamente com uma entrevista a António Costa, estrategicamente «alinhada» para um momento de grande indefinição político-partidária, sabendo-se das demoradas movimentações internas no PSD e no CDS. A entrevista, precisamente na sequência do chumbo da proposta de OE que o governo apresentou na AR. Nada mais natural, neste momento, não fosse a conjuntura. 


Fotomontagem retirada da Web

E qual a razão de eu «chamar» Maquiavel à minha narrativa? Exatamente pelo facto de – apesar da influência dos média e da supostamente mais livre decisão dos eleitores – não ter ainda acabado o fosso entre a política e a moral. Por isso, diz Edouard Balladur[1] é necessário ainda mais hipocrisia, enganando não apenas alguns mas todos, para triunfar. E acrescenta: “O mérito de Maquiavel está em ter acabado com a hipocrisia dos bons sentimentos”. E caracterizou os métodos do poder [os fins são outra história] simplesmente dizendo que a «luta pela conquista do poder é a realização das ambições egoístas e nada mais». E como «cheira» a muito dinheiro a entrar neste país nos próximos tempos. Até me faz lembrar o início dos anos de 1990, com as maiorias absolutas de Cavaco Silva. Como foi produtivo esse duradouro «período de betão».

         Na sequência do recente «golpe» na AR, escrevi eu há dias que SABEMOS LER MAS NÃO CONSEGUIMOS ENTENDER…mesmo depois de ouvir. Porque foi impossível «escutar». E por isso não podemos ignorar. Custa lembrar Sofia, mas é fundamental seguirmos o seu pensamento. Tal como não foi por acaso que escreveu «vemos, ouvimos e lemos – não podemos ignorar», também hoje não podemos ignorar o triste, doloroso e caríssimo espetáculo na chamada «Casa da Democracia». E como seria possível não o fazer, quando vimos ali desfilar vaidades, lutas pela sobrevivência, estratégias pessoais – tudo à frente do chamado «interesse nacional». Existe até uma «cassete» que o designa por «superior». O interesse nacional e o Povo. Há dias, havia criticado aqui os patrões e os sindicatos e quem os segue. Agora, acrescento ao lote os meios de comunicação social. E é assim que eu digo que a entrevista a António Costa, emitida ontem, não deixou de ser um «balão de ensaio» para o anunciado debate de hoje sobre o que pensa a «direita».

         Por outro lado, insistem – sem sequer questionar (como fizeram a Costa) – em dar “tempo de antena” a todos os que mais responsabilidades tiveram no desencadear da crise, aproveitando para estender uma passadeira ao «principal» partido da atual oposição, que – vejam lá – tem a «sorte» de ter dois líderes (duplicando, assim, o tempo de antena). E essa «tirada» demagógica do inefável Rangel, a interpretar a entrevista de Costa? Alguém terá ouvido António Costa «admitir» a derrota, como disse Rangel? O que o 1ºM disse, respondendo a uma questão de AJT, é que, se o PS não ganhar, não tiver mais votos do que os adversários, assumirá a sua responsabilidade política. Como é natural num partido democrático, colocando o seu lugar à consideração dos militantes do seu partido. Isto é «admitir» alguma derrota? Tanto…como a angelical intervenção dos pontas de lança do PCP e do BE. Como se nada fosse com eles!

         Não me admira que um candidato a disputar o poder no partido da oposição diga o que disse. O que me entristece é os média deixarem passar essa «blague» sem questionar. Os «pés de microfone» estão de novo na moda? Ou há «ordens» para ser assim? Já sabemos como foi o «papão» do comunismo…agora percebemos o «papão» da maioria absoluta.

[1] - Maquiavel Em Democracia – a mecânica do poder. Casa das Letras, 2006. 



Figura retirada da Web

         Todos sabemos como funciona o «sistema». E todos sabemos que o poder tem encanto e é um prazer. Tal como sabemos que o povo gosta de ser desejado a qualquer preço. Por isso…siga o espetáculo da demagogia!

António Bondoso

Novembro de 2021. 


 

2021-10-22


ALGUMAS «FIGURAS» DA MINHA VIDA (1).

*Lanço o desafio: A palavra, o gesto, a atitude, o palco... o público.

*Chega a resposta: “A Verdade! A minha Verdade consciente e assumida.

O palco é um local sagrado onde, abstraindo de tudo, atinjo uma dimensão superior”.


Alzira Santos dizendo Poesia de António Bondoso
na AJHLP.

*ALZIRA SANTOS – uma Amiga com Teatro e Poesia nas veias…ou de como, ao longo da vida, nos vamos cruzando com pessoas de rara sensibilidade e que emprestam à Cultura o seu tempo de uma vida, o coração e a alma.

*E segue a narrativa desta «avintense» de gema: “Embora a minha prática teatral seja, neste momento, diminuta considero-me uma atriz que gosta de dizer Poesia. E sempre assim foi desde criança.

Comecei a dizer Poesia em público, incentivada pela minha professora do ensino básico, no velho Teatro Almeida e Sousa, em Avintes, nas festas das crianças da catequese  e muito antes de fazer Teatro!

Mas, já nesse tempo, me encantava ouvir os atores que ensaiavam no «Grupo Mérito Dramático Avintense», que ficava paredes meias com a casa dos meus pais! Eu só ouvia, na rua... e pensava que, um dia, lá haveria de chegar! E cheguei com 16 anos, num tempo em que as mulheres de Avintes não faziam Teatro. As atrizes eram profissionais contratadas! Só os homens eram de Avintes! 


No Palco...

Da minha experiência percebi que o processo criativo é idêntico no Teatro ou na declamação de Poesia: estudo do texto, interiorização, interpretação e partilha com o público.

Então porque me dedico mais à Poesia do que ao Teatro? Ambos são cativantes! O Teatro é uma arte coletiva que exige muito tempo de ensaios, enquanto "dizer Poesia "é um trabalho individual, menos moroso e que não obriga a cumprir horários! Só isso!

Mas há outra diferença: A atriz tem uma hora ou mais para fazer chegar ao público a personagem a que deu alma...a "dizedora de Poesia" tem dois ou três minutos para transmitir o pensamento, as emoções do poeta! 


O «Palco» da Poesia...

*ALZIRA SANTOS já referiu, embora ao de leve, o Grupo Mérito Dramático Avintense, fundado em 1910, mas há essa ligação maior aos Plebeus Avintenses, criado em 1918: - sobre "Os Plebeus Avintenses" direi que foram a minha verdadeira escola para a vida. Trabalhei com doutores e operários, sempre estimada por todos. Fiz muitos amigos e com todos aprendi e me fiz gente! A mulher que sou.  Lá conheci o meu amado marido e, por lá, foram criados os meus filhos. Crianças felizes muito acarinhadas e mimadas! Brincavam nos corredores e no pátio como se estivessem em casa! Memórias gratas!

Agora, quando me desloco aos " Plebeus", apesar dos anos que passaram, sinto que ainda sou da casa, e mesmo os jovens atores que nunca me viram representar me estimam e acarinham! É bom sentir aquele aconchego! 


Como ela...a adesão voluntária do neto.

         *Alzira Santos, idade «suficiente e adequada»…foi Professora, estudou animação sócio cultural na Escola Superior de Educação e fez parte do elenco do TEP – Teatro Experimental do Porto. Uma «Amiga» para acompanhar.

António Bondoso

Jornalista

Outubro de 2021. 





 

2021-09-07


POESIA ELEITORAL (II) …ou de como as oposições procuram, com uma poética ingenuidade, soprar música para alguns ouvidos incautos. Vai continuar a ser “Uma Campanha Alegre”, como escreveu Eça. E com ELEVAÇÃO, esperemos. E com ÉTICA e CORAGEM, como desejamos.


Foto de A. Bondoso

Diz-se, de forma séria, que a “Política” é a atividade humana, de tipo competitivo, que tem por objeto a conquista e o exercício do poder (...).

(...) De outro modo, com menos “seriedade”, talvez nos recordemos de ler Ambrose Bierce: a política é «uma guerra de interesses mascarada de luta de princípios»; ou ainda John M. Brown: «um reino, povoado apenas por vilões e heróis, no qual tudo é preto ou branco, e o cinzento é uma cor proibida».

Eu não sou adepto do “cinzentismo”…e acredito que é possível e desejável ter convicções e, sobretudo, ter princípios. É possível fazer as coisas deste modo e definir um caminho com ética e com coragem. E de forma clara. Como escrevi já, «Vivemos numa terra onde há pontes que seguram as margens e montanhas que agarram as pedras…Por isso, há momentos em que é fundamental «dar a cara» por ideias e princípios...e participar. Independentemente de todo o ruído que alguns tentem meter na engrenagem».


Serra da Nave - A. Bondoso


      Volto a Eça de Queiroz, em 1871, para lembrar que “Portugal, não tendo princípios, ou não tendo fé nos seus princípios, não pode propriamente ter costumes». E acrescenta que “O homem, à maneira que perde a virilidade de carácter, perde também a individualidade de pensamento. Depois, não tendo de formar o carácter, porque ele lhe é inútil e teria a todo o momento de o vergar; - não tendo de formar uma opinião, porque lhe seria incómoda e teria a todo o momento de a calar – costuma-se a viver sem carácter e sem opinião. Deixa de frequentar as ideias, perde o amor da rectidão. Cai na ignorância e na vileza. Não se respeitando a si, não respeita os outros: mente, atraiçoa, e se chega a medrar, é pela intriga”.

Assim, para não estender muito a escrita e atormentar a paciência de quem lê, deixo mais um poema de minha autoria: 

                                    UMA CERTA IMPUNIDADE

 

Sem vergonha

Mas com protesto.

 

E se há coisa que eu detesto

É perceber que os abutres

Trazidos pela cegonha

Circulam livres

Impunes

Sedentos de sangue

Maldição, feitiçaria,

Desespero enredado

E tão velado.

 

Sem vergonha…

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Em «Terra de Ninguém», 2ª edição, 2020. Edç Esgotadas. Pg 86.

A. Bondoso

Moimenta da Beira

7 Setembro 2021. 




 

2021-09-04

POESIA ELEITORAL…ou de como as oposições procuram, com uma poética ingenuidade, soprar música para alguns ouvidos incautos. Vai ser “Uma Campanha Alegre”, como escreveu Eça. 



Foto de A.Bondoso

«As Farpas», que também resultaram em «Uma Campanha Alegre», juntaram durante algum tempo da segunda metade do século XIX as vozes críticas de Ramalho Ortigão e de Eça, em época de um «jornalismo atávico», de um inquietante “cinzentismo parlamentar” e de uma triste governação «para lamentar».

No seu primeiro volume, advertia Eça que as páginas do seu livro refletiam as ideias vertidas em “As Farpas”, quando ambos – ele e Ramalho – como o Poeta, estavam convencidos que a «tolice tem cabeça de touro». Talvez por isso, foram arremessando farpas, «uma após outra, para todos os lados onde supunha entrever o escuro cachaço taurino». Nem todas terão acertado, claro, mas «cada arremesso era governado por um impulso puro da inteligência ou do coração».

Se bem se lembram – quem leu, claro – escrevia Eça que “não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos” e que “já não se crê na honestidade dos homens públicos”. Nada que, infelizmente, possa estar muito longe do que se passa nos tempos de hoje. Atualizando, portanto, talvez não seja dramático perceber que “De resto a ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro”. Ou que “A intriga política alastra-se por sobre a sonolência enfastiada do País. Apenas a devoção perturba o silêncio da opinião, com padre-nossos maquinais”.

Como disse acima, o “cachaço taurino” passava igualmente pela «imprensa» composta por periódicos «noticiosos» e «políticos»: estes, escrevia Eça, têm todos a mesma política. E os noticiosos…esses têm todos a mesma notícia. 




Foto de A.Bondoso

À distância de 1871 – estas «farpas» celebram agora 150 anos – o “retrato” não deixa de ser muito fiel, pese embora os avatares da história da humanidade. E não deixo de contabilizar, claro, o atávico atraso de “pelo menos 30 anos” relativamente ao resto da Europa.

Procurando dar sentido ao título que escolhi para estes escritos que me irão acompanhar nos próximos dias, a propósito das eleições autárquicas, recordo sobretudo um outro alvo das farpas de Eça: A literatura – poesia e romance – sem ideia, sem originalidade, convencional, hipócrita, falsíssima, não exprime nada: nem a tendência colectiva da “sociedade, nem o temperamento individual do escritor. Tudo em torno dela se transformou, só ela ficou imóvel. De modo que, pasmada e alheada, nem ela compreende o seu tempo, nem ninguém a compreende a ela. É como um trovador gótico, que acordasse de um sono secular numa fábrica de cerveja”. Exagero? Certamente aos olhos de hoje. Mas não deixa de ser verdade que, tal como na época, “A poesia contemporânea compõe-se assim de pequeninas sensibilidades, pequeninamente contadas por pequeninas vozes”. (…) E no meio das ocupações do nosso tempo, das questões que em roda de nós de toda a parte se erguem como temerosos pontos de interrogação, estes senhores vêm contar-nos as suas descrençazinhas ou as suas axaltaçõezinhas!”

Como já vai longo este meu escrito introdutório, deixo-vos, por hoje, com este «pequeno» poema de minha autoria:

APENAS…E SÓ!

A chuva não é assim tanta

E o vento não se alevanta

Para além da consciência.

O conforto está no gesto

Do direito e do dever

De usar a inteligência!

Em “Terra de Ninguém” – 2020, 2ª edição, Edç Esgotadas. Pg 102.

António Bondoso

Moimenta da Beira

4 Setembro de 2021.  






 

2021-08-24

OS MEUS LIVROS DE 2021…ou de como uma claque se identifica nobremente com as «Histórias» de uma cidade, de uma nação e de um clube: “Porto – 6 de Julho de 1995 – Colectivo Ultras”. De uma «ligação» com estas origens só poderia resultar uma atividade de imaginação criativa de alto nível, já lá vão 26 anos de empenho e dedicação. 



Foto C95

O que se pode ler no livro? História. E muitas outras pequenas «estórias» que, sem tabus, dão forma à alma tripeira – desde o princípio dos tempos.

“Costuma dizer-se que não havia nada antes do mundo ser mundo. Nem vida nem sombras nem brancas nuvens a moldar o azul dos céus. Mas quando o mundo aconteceu e o planeta ficou azul – vieram muitos que ficaram e se foram misturando, formando famílias e núcleos de vida.

Dos Iberos aos Bárbaros, dos Celtas aos Romanos e dos Mouros aos Lusitanos – foram rios de gente que fixaram a presença humana na que é hoje conhecida como a Antiga, Mui Nobre e Sempre Leal, Invicta Cidade do Porto. Tudo começou na Idade do Bronze com a edificação de um castro no Morro da Pena Ventosa – hoje Morro da Sé – a dominar estrategicamente o rio Douro”. 



Foto C95

A revista Visão fez publicar este mês de Agosto mais um dos seus «cadernos» de “História”, inteiramente dedicado às origens do futebol em Portugal. Mas este livro do «C95» [que estava pronto para ser publicado em 2020] centra, natural e particularmente, as ligações dos adeptos «ultras» à cidade do Porto e ao seu clube mais representativo – o F. C. do Porto – desde Nicolau de Almeida [1893] e Monteiro da Costa [1906] a Jorge Nuno Pinto da Costa e José Maria Pedroto.

 Até chegar à modernidade do Estádio do Dragão, em 2003, passaram 110 anos de histórias e de glórias – igualmente de muitas lutas, ilusões e desilusões – tempos de muitos sonhos, de orgulho e de caráter, durante os quais o emblema do Clube ombreou com o lema da cidade. Certamente não por acaso, os versos da primeira estrofe do hino dizem que “Teu pendão leva o escudo da cidade/Que na história deu o nome a Portugal”. E ninguém pode negar que o Clube chegou mesmo a ser, em décadas mais recentes, o motor da região e um verdadeiro embaixador do país.

E as tais «pequenas estórias» de que falei, próprias de um grupo de adeptos organizados e que dispensam muito bem o absurdo «Cartão de Adepto», agora em vigor, podem ir sendo «bebidas» em saborosos textos estilo crónica, dos quais se pode destacar este relativo à época de 2019/2020 – o ano da “pandemia”:

“Chegava a recepção ao Benfica em casa e para este jogo o Colectivo apresentou um espetáculo muito simples mas com bom impacto. Tiras de plástico azul escuro na horizontal a todo o comprimento da bancada a fazer um fundo e 3 modelos de bandeiras gigantes espalhadas pela bancada com os vários símbolos da história do Clube acompanhadas da frase: “AZUL E BRANCA ESSA BANDEIRA AVANÇA!” em alusão ao poema “Aleluia” de Pedro Homem de Mello”.


Foto C95

Portanto, o livro aí está para traduzir as vivências de um grupo de adeptos com alma – o C95 – fazendo lembrar muitos pontos do célebre «A Tribo», de Desmond Morris.

Pode adquiri-lo na sede do grupo ou via net:  https://livro.colectivo95.com/?fbclid=IwAR2Qjf1FPRsaNZI5TfLBBToa78Fz5qmJzhbySY_pCBmkTlRBmmUhRR7BTlw.

Vale a pena, sobretudo para desfazer alguns mitos e tabus.

Parabéns Colectivo 95. 

António Bondoso                            

Agosto de 2021.

 

                                                            

 

2021-08-20



Eu tomo sempre posição. Nunca me escondo. 
DA IGNORÂNCIA DE ALGUNS À COVARDIA DE MUITOS – ou a “politiquice” no seu nível mais baixo em Moimenta da Beira. 



Cidadãos com «deficiência» têm direitos em Moimenta da Beira.

Um texto breve, apenas para lembrar a distância a que já vai o "caráter"!...ou de como idiotas ignóbeis, ignorantes e covardes se «mostram» nas redes sociais a coberto do anonimato, enxovalhando o caráter de pessoas que apenas decidiram exercer o seu direito de cidadania, ao participar em candidaturas às próximas eleições autárquicas. Estou a escrever de e em Moimenta da Beira, mas poderia transpor o tema para muitas outras localidades deste promontório a que dão o nome de Portugal. Como dizia Almada Negreiros…«isto não é um país, é um sítio mal frequentado».

Há princípios, escrevi eu há uns anos a propósito de outras atitudes covardes que me foram atingindo ao longo do tempo. Não esses princípios de quando as coisas começam...mas os que enformam o carácter das pessoas. E que só o abuso do “Poder” pode quebrar depois de truques, pressão, tortura a vários níveis. E que só o amor da família próxima conseguirá “suavizar” em caso de um “natural” fracasso. Há “leis” para as quais o caráter é impotente. E já não basta a «palavra». Talvez porque sejam pensadas e elaboradas por quem não tem caráter! Nem palavra. A “política” – melhor dizendo a “politiquice” – e o caráter andam muito poucas vezes de mãos dadas. E em muitas circunstâncias, com a agravante de os supostos «adversários partidários» nem sequer mexerem um dedo para condenar a baixeza, preferindo antes – muitas vezes – cair na tentação de criticar os direitos cívicos de cada um de nós.

Eu não voto em Moimenta da Beira. Mas declaro, desde já e sem sofismas, o meu apoio aos cidadãos que decidiram aceitar integrar as listas do Partido Socialista aos diferentes níveis do poder autárquico concelhio. Independentes ou militantes, a todos reconheço dignidade e idoneidade para a função que se propõem realizar, marcando uma campanha positiva, assumindo o bom e o menos bom do presente e do passado recente, sem demagogia e sem descer ao inferno da baixeza moral. 



E que todos possam continuar a usufruir de um belíssimo pôr do sol. 

António Bondoso.

Agosto 2021. 


2021-07-29


 Entre a «pandemia» e o drama dos doentes da Junta Médica, a Mén Non – Associação das Mulheres Santomenses em Portugal – vai vendo crescer os resultados da sua década de existência e, simultaneamente, a responsabilidade dos projetos que tem em mãos, como a realização do seu 3º Congresso, a 19 de Setembro, e a consolidação do desejado Amolê Pedaço (ou Pedasu) – alargando o «Espaço Alda Espírito Santo» no Bairro do Padre Cruz, na zona norte de Lisboa. 

         Entretanto, de acordo com a Presidente Fatinha Vera Cruz, a Mén Non vai concentrando atenções na sua «Feira do Livro», a décima edição – mais uma vez online devido às restrições impostas pela pandemia – na qual estão representados 117 autores, o maior número já registado, entre santomenses e/ou seus descendentes e autores de outras nacionalidades que têm escrito sobre S. Tomé e Príncipe em particular ou sobre África em geral. Apesar de tudo, a iniciativa «online» leva vantagem sobre a presencial, uma vez que proporciona contactos com grande número de países. O ano passado resultou. 



A «Mén Non», que congrega 400 associados – embora a pandemia tenha vindo a “desviar” alguns – desenvolve, como é sabido, outras atividades, demonstrando uma dinâmica de louvar. Ao mesmo tempo que prossegue a sua campanha de sensibilização contra a violência e maus tratos às mulheres – apesar da falta de alguns apoios que possam ajudar a concretizar as iniciativas no «terreno», os dados que mais preocupam chegam de S. Tomé e Príncipe. Para ajudar, necessitam do apoio dos média no país, de modo a promover debates e conversas que atinjam vastas camadas da população. O objetivo é abandonar um pouco as redes sociais digitalizadas. Gostariam que a Rádio e a Televisão públicas se envolvessem mais. É preciso mudar mentalidades e as leis no país.

         Uma outra ação sistematizada é a angariação e distribuição de bens alimentares, sobretudo aos doentes da «Junta Médica» que atravessam dificuldades de vária ordem em Portugal.

         Há ainda outros projetos em preparação, nomeadamente o da consciencialização para os Direitos Humanos das Mulheres; a continuação do sucesso que foi a publicação de «Histórias e Contos Tradicionais Santomenses», agora pensando na edição em outras línguas de STP, como o «lunguiê» no Príncipe e o «anguené», na região de “Angolares”. 



         Voltando ao projeto de maior envergadura, o Amolê Pedasu, que conta com um financiamento da EU a 3 anos, está previsto desenvolvê-lo em 3 localidades do norte de Lisboa: Ameixoeira, Galinheiras e Charneca do Lumiar. Não é um projeto apenas para santomenses, pois abrange migrantes de outras nacionalidades. O objetivo é conseguir refeições diárias para 50 famílias. E, repito, abrange o tal espaço de homenagem a Alda Espírito Santo, a funcionar para já numa sala cedida pela Câmara Municipal de Lisboa, num edifício do Bairro do Padre Cruz.

António Bondoso

29 de Julho de 2021. 









 

2021-07-14

S. TOMÉ E PRÍNCIPE – um «quadro pintado para todas as cores» em tempo de eleições presidenciais. Ou as respostas que não chegaram!



Mil quilómetros quadrados, 200 mil habitantes, 120 mil eleitores, 19 candidatos = 3 mulheres e 16 homens!

         De todos estes, conheço apenas dois há muitos anos. Dos tempos de juventude vividos nas ilhas: Posser da Costa e Carlos Neves. Dos outros, apenas as referências do cotidiano, particularmente notícias relacionadas com a atividade pública de cada um ao longo dos anos.

         Sobre Posser, devo dizer que tenho um grande respeito pela memória de seu pai – o velho Celestino – uma figura querida de muitos jovens santomenses – particularmente nas décadas de 1960 e 1970 – ao serviço do desporto, quer no Benfica de S. Tomé, quer no Ginásio. Confidente e mentor dos jovens sobretudo praticantes de andebol, basquetebol e voleibol, Celestino Costa foi senhor de boa educação, bom senso, de um trato irrepreensível. Respeito igualmente a memória do seu irmão Celestino, o primeiro-ministro que conduziu a transição para o multipartidarismo entre 1988 e 1991.

         Sobre Carlos Neves, há uma amizade consolidada há muitos anos, quer seja no tempo em que desempenhou as funções de embaixador em Portugal, quer seja no período da mudança, no qual desempenhou papel preponderante na eleição presidencial de Miguel Trovoada, quer ainda nas conversas frequentes para ir acompanhando a situação política no país – nomeadamente no «golpe» de 1995, estava eu em Macau. Para além disso, e não é pouco, há também a circunstância de Carlos Neves ser tio da minha prima Carla, filha do meu primo Beto – entretanto já falecido – e que foi guarda-redes no Sporting de S. Tomé durante alguns anos. 

         Se gostaria que algum deles viesse a ser eleito? Claro que sim. Mas já lá irei. É ponto assente que não será fácil, perante uma sociedade altamente bipolarizada e condicionada pelas mais diversas razões, uma das quais está já enraizada – o tradicional «banho», traduzido em benesses várias como por exemplo o “djêlu” ou “jêlu”. «Vemos rios de dinheiro cuja proveniência se desconhece», disse há dias a jurista Celisa Deus Lima, citada pela DW. Outras notícias, ou melhor, rumores [o País é pródigo em boatos desde há séculos], especulam com dinheiros que poderão ter origem na venda de terrenos para a tão polémica e já muito contestada plantação de canábis.

Mas, por agora, detenho-me na ideia de que – numa perspetiva de buscar algum esclarecimento sobre o pensamento de futuro para o país – propus a cada um deles tópicos para uma pequena entrevista. Se Carlos Neves foi pronto a responder, e a entrevista foi publicada no meu blogue no dia 1 de Março [pode consultar no link abaixo], já Posser da Costa entendeu não dever responder. Prometeu e repetiu…mas falhou sempre. E apenas por uma questão de ética não coloco aqui as perguntas que formulei em Abril ao candidato Posser da Costa.

Deixo à consideração de quem vota. 



António Bondoso





 

2021-07-13

VIAGENS COM REGISTO

A «iliteracia» dos comboios…e outras pequenas coisinhas



Os comboios, esses circulantes que vagueiam de forma estranha, à inglesa, pela esquerda, igualmente com uma estranha numeração das carruagens, o que tem certamente a ver com o sentido da marcha do comboio. E também a numeração dos lugares, de forma bem visível, a indicar ou à janela ou do lado do corredor. Pois há pessoas que, nem com o desenho, sabem respeitar o lugar. “O meu é o 27” – dizem, com ar de toda a certeza, apesar de estarem a ocupar o 25, correspondente à janela. Não vale a pena argumentar…ou haverá muito provavelmente uma cena de peixeirada. E lá vamos, na marcha, ora em velocidade ora mais lentamente – se é um Alfa Pendular ou apenas um Intercidades, observando, por exemplo, a utilização generalizada de WC destinados a pessoas com deficiência. 



         Ou ainda aqueles passageiros/as que demoram uma eternidade a comer um pequeno pacote de batatas fritas…aproveitando toda a viagem para uma ausência de máscara ou usá-la por baixo do queixo. E o gesto de lamber languidamente os dedos da mão esquerda, provavelmente para que não se perdesse a mínima pitada de sal. Por fim lá volta a máscara, tendo todo o cuidado em deixar o nariz de fora, seguramente à espreita do contágio.

         E o tempo e a viagem mudam a paisagem. E foi o rio e os pinheiros, oliveiras e olivais, e as vinhas – claro – sem esquecer as hortas. Até que chegamos à agradável paisagem da orla costeira de Espinho e de Vila Nova de Gaia, depois de passar o «Bazófias» e o cheiro de Cacia. É tempo de encher os olhos com a barroca beleza dos antigos palacetes dos «torna viagem brasileiros». Não apenas, claro, mas sobretudo. 



         E antes de sair nas «Devezas», ainda tempo para ouvir a simpatia do «picas» a avisar um septuagenário casal de que, chegando a Campanhã, deveriam mudar de comboio para chegar a S. Bento.

António Bondoso

Julho de 2021.   









 

2021-07-11

A SUBSTÂNCIA “ATÍPICA” de “O MEU PAÍS DO SUL”…de António Bondoso, quando S. Tomé e o Príncipe assinalam 46 anos de independência. 



O livro «nasceu» no Auditório da UCCLA ao princípio da noite de sexta-feira passada.

As emoções e a saudade falaram muito forte, mas não quero que fique a ideia de ter sido «cortado» todo o primeiro plano do texto, como aparentemente transparece em alguns escritos. Os quais, no entanto, não deixo de registar com muita satisfação e reconhecimento. 



Mas, talvez sob o efeito contagiante da alegria que o Tonecas Prazeres colocou nas suas intervenções musicais ou da voz autorizada e vibrante da Regina Correia ao dizer alguns Poetas santomenses…talvez quem tenha participado na sessão da UCCLA não tenha retido ou tenha deixado passar ao lado alguns aspetos essenciais da intervenção do apresentador Abílio Bragança Neto.



Em «primeiro plano» o que disse o Abílio?

Que é um livro de “memórias atípicas” de um homem que se propõe – também ele – atípico, e sem dúvida um «nacionalista tranquilo», embora não constitucionalista.

E disse também que o livro é uma «tentativa de resposta identitária contracorrente», do autor, deixando perceber «como pode ser heterodoxa uma compreensão da nacionalidade em muitas pessoas». Nesta linha de pensamento, Abílio Bragança Neto cita a frase do autor que suporta a “Introdução” «…quem sou e o que nunca serei no meio de tanta gente ilustre», «o que leva a compreender a heterodoxia da sua Santomensidade».

Outra perspetiva que o sensibilizou foi o «condão de refletir o país» plasmado na obra, nomeadamente a relação com a cidade de S. Tomé que apresenta um futuro preocupante: “estamos a desistir daquele espaço”, salienta Abílio, acrescentando que “não existe uma visão daquilo que a cidade pode ser e não existe ninguém a pensá-la”. Por isso, diz ainda, “estamos obrigados, todos, a pensar o que fazer dela, refazê-la, para que ela tenha efetivamente futuro”. É fundamental reaver uma cidade orgulhosa da sua dignidade e alegria.

E depois o «Livro 2», a segunda parte da obra – Uma Ilha Coração! Disse Abílio Bragança Neto que é uma magnífica fábula, construída à volta de uma tartaruga e de um golfinho, que acompanharam o autor no seu regresso ao país – ideia inspiradora para criar uma narrativa para a promoção do turismo de STP. Uma visão política de futuro, excelente para «vender» o turismo, a Biosfera, a Ecologia, uma ideia tranquila e sustentada do país. 



Como tenho dito sempre, «a beleza do silêncio de um pôr-do-sol…é diretamente proporcional ao deslumbramento do vigor de um sol nascente.»

Seguindo a Sinopse do livro e carregando as palavras de José Carlos Ary dos Santos...direi que «Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram». A mais sentida sessão de apresentações de livros meus aconteceu ali. E foi bonito participar, e foi bonito de ver e de ouvir. Mesmo em tempo de «pandemia».

 


“O MEU PAÍS DO SUL” é, assim, um conjunto de textos escritos ao sabor do tempo e dos ventos e que agora entendi partilhar [acrescidos de algumas ideias de outros «pensadores»], despidos de qualquer «complexo de colono» mas plenos de um autêntico sentimento de pertença, no sentido de refletir e de provocar reflexão sobre as realidades do país.



De registar o destaque dado a algumas grandes figuras das letras e das artes de São Tomé e Príncipe, nomeadamente Francisco José Tenreiro - no centenário do seu nascimento e nos 60 anos da publicação de “A Ilha de S. Tomé”. Valorizado igualmente o rio Água Grande, que divide a cidade capital e nos oferece a perspetiva das antigas vivências das elites e dos «colonos de segunda» em cada uma das margens. No meio da História e das questões políticas que cercam o colonialismo, a descolonização e a conjuntura da independência, ressaltam a Cultura - do ensino/educação às Línguas, como sustentáculo da economia - e a Saúde. E depois, uma viagem contada ao pormenor à volta da ilha Grande e nesse mar que nos conduz, à margem do petróleo, às mais belas praias do mundo na ilha o Príncipe.

Julho de 2021

António Bondoso


2021-07-03

 

VIAGENS COM REGISTO

O Comboio das 08.37

 

VIAGENS COM REGISTO

O Comboio das 08.37

 

Por tuneis abertos e fechados, o comboio das 08.37 circula, rançoso e esperançoso em chegar ao fim da viagem. A esperança chega-lhe da paisagem deslumbrante de verde e cinza ao amanhecer, mesmo com o sol já a aquecer. Torga diria, do alto de Galafura ou de S. Salvador do Mundo «O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir». De facto, um “excesso de natureza” nas duas margens do rio, quer antes, quer depois das barragens, apesar de muitos gostarem mais da antiga força revolta do Douro. 



         E quando a paisagem do rio termina, aí por alturas do Juncal, quase desaparece o encanto. «Não tendes olhos para o dionisíaco esplendor que vos cerca», escrevia João de Araújo Correia no seu “Sem Método – notas sertanejas” de 1938. Não fora a terra e o verde do arvoredo ou as hortas de subsistência de um povo que não verga ao infortúnio de ter sido mal nascido neste «sítio» mal frequentado como dizia Almada. Esse esplendor só volta a encontrar-se naquele curto trajeto entre Campanhã e S. Bento. É o Douro em toda a sua pujança, antes da Foz, onde abraça o oceano imenso. Fica para trás o comboio das 08.37 e o silêncio da viagem, antes do regresso ao coração do rio e da paisagem. A cidade grande engole por algumas horas toda a magia embriagante. 



Julho de 2021

António Bondoso