2019-08-13

ALVITE E A GENTE DA NAVE…
…ou a grandeza da História...na simplicidade da Memória! 

A dança e os cantares depois da malhada

         Uma vida dura, comprovada também pela agrura dos caminhos de fuga de Aquilino Ribeiro, tem vindo a marcar – geração após geração – o modo de vida dos Alvitanos, sempre na aventura da descoberta de novos mundos. E foram sobretudo pelo comércio, tendo em conta as dificuldades apresentadas pelo clima à agricultura tradicional da região duriense, paredes meias com o norte beirão. O Planalto da Nave é frio e árido permitindo, contudo, o cultivo do milho, do centeio, da batata para semente e a criação de gado. 

A pesagem do cereal na Feira de Tradições

         Tendo recebido nome ainda antes da nacionalidade, Alvite – que manteve ligações profundas a S. João de Tarouca – é hoje uma vila que integra o concelho de Moimenta da Beira, fazendo gala da sua força de trabalho, do seu empreendedorismo. A sua cultura foi sendo «amassada» ao longo de séculos, resistindo ainda um artesanato variado entre cestos e socos serranos, capotes e capuchos de burel, meias de lã, colchas e mantas de retalho.  

                                                       Capucha de Burel

         É todo este património dos saberes antigos que a Associação de Promoção Social

 de Alvite «Gente da Nave» procura preservar há mais de duas décadas. Existe uma

 «Casa Museu», claro, à dimensão da simplicidade dos costumes da terra, o que leva

 Modesta Silva, que ainda a dirige, a frisar que não há casas brasonadas em Alvite mas 

sim as pessoas. 

O célebre «livro de fiados» dos antepassados de Modesta Silva
Casa Museu

É para elas que o esforço tem sido encaminhado, aproveitando-se a animação de rua. Numa praça central renovada, o Largo da Tulha, e aproveitando a movimentação das festas em honra de Nossa Senhora das Queimas, a «Gente da Nave» tem vindo a promover a Feira de Tradições. Ora dedicada ao «Ciclo da Lã na Nave», ora ao «Ciclo do Milho» e, como foi o caso deste ano, ao «Ciclo do Centeio». Diz Modesta Silva que é simultaneamente uma homenagem aos agricultores do Planalto e uma atitude de consciencializar as novas gerações para a manutenção da identidade do povo. 

Casa Museu Gente da Nave

ALVITE E A GENTE DA NAVE…
…ou a grandeza da História...na simplicidade da Memória!

António Bondoso (Com fotos de Maria do Amparo Bondoso)
Jornalista
Agosto de 2019. 




2019-05-23


SER AUTOR. 
BREVES NOTAS DA MINHA EXPERIÊNCIA


Dizem ser hoje o «Dia do Autor».
Que já sou há alguns anos, na prática desde 1967…altura em que passei a integrar os quadros do Rádio Clube de S. Tomé.
Não me limitava a transcrever notícias gravadas da ex-E.N., passei igualmente a imaginar palavras que utilizava em programas que ia elaborando, com título e guião próprios.
Dizia Pablo Neruda que «escrever é fácil. Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio, coloca as ideias».
E foi mais ou menos isso que passei a fazer em Macau, em 1999, altura em que tive a felicidade de publicar o primeiro livro. De poemas. Ou um projeto de ser. “Em Macau Por Acaso” foi o título da obra…e talvez tenha sido mesmo por acaso, ou não se desse o caso de ter como camaradas de trabalho dois excelentes profissionais de rádio – o António Cardoso Pinto e o Helder Fernando. A tertúlia completava-se com as ideias brilhantes do saudoso Estima de Oliveira, poeta maior do universo literário em língua portuguesa. Faz agora 20 anos…e deles me lembro sempre. O Helder, felizmente, está ainda entre nós. 

António Bondoso

Maio de 2019. 


2019-03-19

A relação entre pais e filhos - ou a condição de ser pai - não pode nem deve ser banalizada pela instituição de um dia apenas. Mas não deixa de ser importante saber e perceber. 

Foto de António Bondoso


Um pai é feliz quando sorri
Um pai é feliz quando mergulha
Fundo nas águas calmas do rio
Que é seu filho.
Um pai é feliz se não se cansa
De alcançar
O coração dos que ama
Em toda a imensidão do mar.
===
António Bondoso
Março 2019.

2019-03-15

Mãe! Completarias hoje 100 anos, se o destino não tivesse tropeçado!



Mãe:
Não poderei levar-te uma rosa.
Mas neste dia em que celebrarias o teu centésimo aniversário estarás, como sempre, no meu coração. E no meu pensamento. E nas minhas palavras. As quais, espero, possas entender à distância.

HOJE (RE) NASCESTE!
Tu me trouxeste
Protegido
Me pegaste com leveza
E cobriste, suave, com carinho.
Foi um amor aquecido
Desde sempre
Acompanhando atenta
Os meus desvios.
Estiveste comigo em permanência
E ao colo me levaste à ilha longe
Pensando estar ali todo o futuro.
Lutaste e sofreste num tempo outro
De calor e humidade refrescante.
Foste mulher inteira e imperfeita
E uma doce mãe preocupada
Como as ondas do mar que sempre vão
Mas retornam à praia por encanto.
Depois veio a dor
No tempo da meia vida
No Equador
E nem soubeste.
E mesmo quando a dor já era grande
Do tamanho de uma idade que não tinhas…
Partiste.
Não importa como e quando
Pois hoje…nasceste!
E a cada hora que passa
Tenho lembranças de ti
Mãe…
Por vezes sinto uma dor no peito
Mas outras há em que
Vejo uma estrela aqui!
================
Momentos. Momentos nossos, de ti e do menino que fui…ou de como se pode assinalar, virtualmente, o centenário da mãe real que tive.


António Bondoso
15 de Março de 2019

2019-03-08

RESPEITO…sempre!
Na sequência do que tem sido o meu hábito «desalinhado» em relação a tudo, particularmente no que toca a temas excessivamente mediatizados ou na “onda”…também neste dia não me visto de negro, embora respeite o luto de muita gente.

Pintura de Gina Marinho

E porque o 8 de Março está «particularizado» no calendário, pretendo apenas repetir o que venho praticando em todos os dias do ano. O meu afeto, o meu carinho, o meu respeito a todas as mulheres…nomeadamente a quem tenho dedicado o meu amor de uma vida há mais de 45 anos – a minha mulher, companheira de todos os momentos:
Por ti
E para ti
Só não morri.

É em ti que me amparo
E que resisto
É em ti
Que alimento
O amor que sei,
É em ti
Que ele vive e permanece.

Por nós
Por ti
E para ti
Só não morri!
Mas igualmente não esqueço aquela que me trouxe ao mundo e que, dentro de dias, será motivo de uma efeméride especial, pese embora a sua ausência física há já muitos anos. Nesta linha de pensamento está igualmente a minha sogra e, nos dias de hoje, a presença reconfortante da minha nora e ainda de sua mãe – minha parceira como se diz por estas bandas do norte do país.
Não pretendendo «oferecer» uma lição de «história», e passando por cima da data tristemente «célebre» de 8 de Março de 1857, não posso deixar de registar alguns nomes de Portugal e da cena internacional que há dias salientei numa aula de R.I. na Universidade Sénior Rotary de Matosinhos, no âmbito do que entendi designar como «Mulheres que ajudaram a mudar o mundo».
De algumas citarei apenas o nome, deixando aos leitores/seguidores a tarefa de «descobrir» os motivos da referência.
Catarina de Bragança, cujo casamento com Carlos II de Inglaterra foi considerado um «triunfo diplomático» para Portugal; D. Luísa de Gusmão, influente no êxito da «Restauração»; Ana de Castro Osório, dirigente da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas; Carolina Michaelis de Vasconcelos e Carolina Beatriz Ângelo, da Associação de Propaganda Feminista; Maria de Lurdes Pintasilgo, Maria Barroso e Manuela Eanes; Amália Rodrigues; Sophia de Mello Breyner Andresen, que foi a primeira mulher a receber o Prémio Camões; Natália Correia, Maria Armanda Falcão; as Três Marias das Novas Cartas Portuguesas (1972) – Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa; Catarina Eufémia, cantada por grandes Poetas portugueses e imortalizada numa canção de Zeca Afonso; D. Antónia, como símbolo do Vinho do Porto; Agustina Bessa Luís e Maria João Pires; Palmira Bastos, Laura Alves e Amélia Rey Colaço; e para não me alongar demasiado, refiro ainda Rosa Mota, Aurora Cunha e Fernanda Ribeiro.
Na «cena internacional» encontramos, entre muitas, por exemplo a Princesa Diana; Catarina – a Grande, da Rússia; Marie Curie; Rosa Parks; Nancy Wake; Indira Gandhi e Benazir Bhutto; Aung San Suu Kyi…e Malala Yousafzai; Madre Teresa, de Calcutá; Mary Quant; Margaret Tthatcher…e Condoleezza Rice; Hillary Clinton; Ângela Merkel; Wangari Maathai, a primeira mulher africana a receber o Prémio Nobel da Paz – ambientalista criadora do célebre Movimento da Cintura Verde e ativista dos direitos das mulheres.
Março de 2019
António Bondoso 

2019-02-13

TAMBÉM SE CONSEGUE EXPLICAR A «RÁDIO» ÀS CRIANÇAS. E elas escutam e percebem.  Do «local» para o «global». 
Como esta manhã, falando com alunos do ensino básico da Escola da Ponte, no Porto, entre os 7 e os 10 anos de idade. Gratificante.
Como funciona, como começou, a sua evolução, as nossas experiências…e depois responder às perguntas inevitáveis. Entre muitas, fixei esta: por que razão a rádio só dá notícias más? 

Percebendo o alcance da interpelação não adocei a resposta. As notícias não são más. Ou não são apenas más. Mas fazem parte da realidade e, ao profissional, cabe transmiti-las com objetividade. Por isso, a resposta foi de imediato enriquecida, de forma a que pudesse ser compreendida a uma escala mais geral. Há muitas notícias que ficam «na gaveta» ou que são ignoradas. Porque não chamam a atenção, não captam audiências. No fundo, o que deveria ter dito – mesmo podendo não ser percebido – é que a palavra da moda, hoje, é «normalizado». Todos falam do mesmo, embora com palavras diferentes, porque está na moda fazê-lo, porque «vende» e é fácil «copiar». Investigar e criar é mais complexo. 

         Agradecendo ao camarada Simões Lopes (também pelas fotos), à Direção da Escola da Ponte, a todos os professores envolvidos e ao interessado número de alunos «participantes», fica a sensação de uma manhã valiosa com o diálogo estabelecido e com a partilha das «ondas da rádio». Que, apesar da era digital, continuam a ser «curtas», «médias» e em Frequência Modulada (FM). E os presentes viram aparelhos de rádio e ouviram rádio. E ouvem rádio sobretudo quando vão no carro. E quiseram saber até onde poderia chegar a antena do transístor e se eu também fazia relatos de futebol. Que não, disse-lhes. Fazia apenas comentários e colaborei muitas vezes como repórter. E gostaria de voltar a trabalhar na rádio? De pronto…e com muita vontade. Mas há convites que não chegam. 

E quando a «Rádio» me chega aos ouvidos da alma, como espero tenha alcançado o coração das crianças da Escola da Ponte, no Porto...começo pela Av da Marginal, em S. Tomé; passo pela Rua do Quelhas 2, 10, 21, por S. Marçal e as duas margens das Amoreiras, em Lisboa; e desaguo no nº 74 da Cândido dos Reis, no Porto, depois de colher as pérolas na Nam Kwong, em Macau. E vou ficando, assim...lembrando dias e horas, meses e anos de muitas palavras e de alguns amigos repousando nelas. Para os que sabem que o são…um eterno e grato abraço!Para os que sabem que o são…um eterno e grato abraço.


António Bondoso
Jornalista
13 Fev. 2019. No «Dia Mundial da Rádio», instituído pela ONU em 2012.  



2019-02-04




ANGOLA – 4 DE FEVEREIRO.
É IMPORTANTE LEMBRAR…FUNDAMENTAL NÃO ESQUECER!
Não é fácil digerir esta parte da história, em ambos os lados da barricada, mas é preciso sempre não esquecer o passado, para melhor encarar o futuro.
Numa página da Fundação Agostinho Neto pode ler-se por exemplo: “…no intuito de libertar os compatriotas injustamente encarcerados, um grupo de nacionalistas munidos de catanas e poucas armas de fogo atacou as principais cadeias, em Luanda dando início a Luta Armada de Libertação Nacional.
Face a esta bravura, a retaliação não se fez esperar. Portugal enviou para Angola, milhares de soldados fortemente armados que foram perseguindo não só os participantes activos desta revolta, mas sobretudo as populações indefesas que eram as principais vítimas dessas barbáries que incluíam raptos e assassinatos, um pouco por todo o país. Isso fazia com que os defensores da liberdade fossem cada vez mais para as matas aderirem ao movimento de guerrilha acabado de nascer, em função dessa revolta”.
Mas nem tudo é linear na história «recente», apesar de ter passado já mais de meio século. Lendo um extenso e bem documentado artigo de Fernando Martins, do jornal Observador, focamos a «ideia» de «verdades e de mitos» a propósito de dois marcos da luta armada em Angola no tempo colonial se acrescentarmos o 15 de Março: No entanto, o essencial da narrativa que aqui nos traz assenta sobretudo em factos que o não foram, ou omite factos que são determinantes para se perceber, de uma outra forma, como se iniciou, porque se iniciou e quem iniciou uma luta sistemática contra o colonialismo português assente em acções de guerrilha. Por exemplo, desvendando-se a autoria correcta dos acontecimentos de Fevereiro, ou uma responsabilidade mais rigorosa no que à preparação e desenrolar do acontecimentos de Março diz respeito, de ambos retirar-se-á um outro significado.
O que implica, não apenas que a narrativa do anticolonialismo angolano (iniciada, grosso modo, em 1960, e concluída, numa primeira fase, em Fevereiro e Março de 1961) merece uma outra interpretação, como as conclusões a retirar sobre o efeito destes dois acontecimentos, pelo menos a curto médio prazo, serão distintas daquelas até agora apresentadas.
Enquanto se debruça nas leituras, valorizamos e deixamos aqui uma pequena nota sobre o estado de espírito do Presidente-Poeta, em 1960. Agostinho Neto, preso no Aljube, manifestava «impaciência nesta mornez histórica» e tinha pressa. Dois poemas ali escritos são exemplares: em DEPRESSA (Agosto de 1960), Neto propõe:
(…)não esperemos os heróis
sejamos nós os heróis
unindo as nossas vozes e os nossos braços
cada um no seu dever
e defendamos palmo a palmo a nossa terra
escorracemos o inimigo
e cantemos numa luta viva e heróica
desde já
a independência real da nossa pátria.
E em Setembro do mesmo ano, Agostinho Neto já fala de LUTA, de violência e de corpos insepultos:

LUTA

 

Violência
vozes de aço ao sol
incendeiam a paisagem já quente

e os sonhos
se desfazem
contra uma muralha de baionetas

Nova onde se levanta
os anseios se desfazem
sobre corpos insepultos
E a nova onde se levanta para a luta
e ainda outra e outra
até que da violência
apenas reste o nosso perdão.
=== António Bondoso
4 de Fevereiro de 2019.

2018-12-31

PARA «ELES»…

Ter uma lista de «amigos»
De tamanho universal
Oferece tantos caminhos
Muito além de Portugal.

Percorrer essas estradas
Quantas só imaginadas
É tarefa que em segundos
Nos conduz a outros mundos.

Por isso…aqui deixo um grão de areia com sabor a mar
Na felicidade de cada um daqueles que me «tocaram»
Neste ano a findar.
E dessa lista com muita «ilusão»
«eles» bem sabem quem são!
Um abraço sentido deste que é apenas o


Foto da Web
António Bondoso
Dezembro de 2018.

2018-12-23


SE PENSARMOS SÓ NA ÁRVORE…nunca chegará o Natal!
Falemos menos de magia e mais de ação. Não vale o exercício repetido do recurso à geografia do sofrimento, da miséria e da guerra…é por demais conhecida. Centremo-nos aqui, nas dores do que somos e que vivemos.


É comum ouvir palavras repetidas por esta altura. Diz-se que é Natal e que há uma árvore toda iluminada e colorida, na base da qual é suposto depositar presentes; e também se diz que há «espírito» no ar; e diz-se igualmente que é um tempo de paz e de alegria; e diz-se ainda que é um tempo solidário e de partilha.
         Sem qualquer ponta de demagogia – e ao contrário de algumas «mensagens» natalícias que já ouvi – eu venho falar-vos dos milhares de árvores despidas e dos milhões de barracas que nem sequer têm lugar para uma árvore. Venho falar-vos desse símbolo máximo do consumismo e de um Pai-Natal que só «viaja» em determinadas latitudes, sem tempo nem espaço para visitar milhões de chaminés frias de vida e vazias de sentido.
         Venho falar-vos de árvores sem raízes, praticamente mirradas por falta de um carinho diário. Venho dizer-vos que os homens esqueceram a boa nova da chegada de Cristo redentor; e lembrar-vos de que o «presépio», na universalidade da mensagem, não precisa de musgo nem de «reis magos» mas sim da nossa «presença».
         Saibamos olhar, saibamos escutar, saibamos agir!
António Bondoso
Jornalista
Dezembro de 2018

2018-12-21

SOBRE O DIA DO SANTO…na ILHA DE NOME SANTO

E há aqueles preciosismos de ter sido a 21, ou a 20, de Dezembro ou de Janeiro… em Novembro não foi certamente e, em Janeiro, talvez fosse preciso mais dinheiro. E numa autêntica «revisão» de factos históricos, baseada em fontes tão credíveis – ou menos – do que as conhecidas e aceites até há pouco, já não é o ano que marca o início da «história». Antes se prefere a década de 1470. Seja.



O australiano A. R. Disney – na sua História de Portugal e do Império Português – referindo-se concretamente ao conjunto de ilhas do Golfo da Guiné, praticamente no meio do mundo, escreve: «Estas ilhas, desabitadas, à excepção de Fernando Pó, quando os Portugueses lá chegaram, foram descobertas na década de 1470 por navegadores, provavelmente ao serviço do contratante Fernão Gomes.»
Seja como for, e este é um tema para desenvolver em outras circunstâncias e com enquadramento diferente, a celebração do «Dia do Santo» é ponto assente para um grande grupo de naturais e de antigos residentes em S. Tomé e Príncipe: - 21 de Dezembro. Tem sido assim há décadas. E por não ser exatamente um «crime» histórico, antes uma data de encontro e de convívio, mais uma vez é assinalada. Trinta e três «santomenses» vão juntar-se em Corroios, num restaurante do escritor santomense Orlando Piedade, junto à Casa do Povo. Para além de outras iguarias próprias das «ilhas»…é fundamental o «calulu».
E de acordo com o professor e escritor Rufas Santo, a data foi também assinalada com uma missa na Igreja Nova de João Baptista Scalabrini, na Amora.
António Bondoso
Jornalista

2018-12-20


O QUE FALHA…ou vai falhando!
Está em voga nos últimos tempos. Repetida à exaustão, é uma conhecida tática de desgaste. Permitida, alimentada e manipulada à exaustão, em toda a pirâmide do Estado, transforma-se na arma perfeita do populismo e dos populistas. 


O que falha neste retângulo não é o Estado, entendido como agregador de todos os portugueses. O que falha é a atitude dos políticos, quer sejam governantes ou não. E à grande parte deles falta competência – uma falha gravíssima. O que falha é a falta de carácter dos «fazedores» de opinião publicada. O que falha é sermos sérios. O que falha é o sentido do ridículo de quem intervém a destempo ou daqueles que pecam por omissão. O que falha é a falta de competência dos técnicos nos vários setores de atividade. O que falha é não termos patrões qualificados ou que saibam ser empresários. O que falha é igualmente a falta de honestidade de uma boa parte dos empregados, já que os verdadeiros trabalhadores nem sequer têm tempo para ser desonestos. O que falha é a atitude gananciosa dos «donos disto tudo», ou da alta finança – se quiserem. O que falha é a contradição entre pobreza e miséria, por um lado, e as benesses atribuídas aos bancos e banqueiros, por outro, para controlo do tecido económico e do défice – como dizem os políticos. O que falha – e tem falhado neste país – é a completa submissão à ilusão da bondade da União Europeia – idealizada para a Paz, mas cuja «construção» tem vindo a ser encaminhada para benefício dos donos do dinheiro, em desfavor dos cidadãos, acentuando mesmo as desigualdades entre os Estados-membros. O que falha, em última análise, é saber olhar para as pessoas. E é delas, e para elas, que vivem os Estados.
O que falha, no caso de Portugal, é a coragem de assumirmos os defeitos – como dizia Almada Negreiros no Ultimato Futurista às gerações do século XX: «O Povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem, portugueses, só vos faltam as qualidades».
Completando a ideia, gostaria apenas de fazer referência ao pensamento de dois amigos. Ao João de Sousa, do jornal TORNADO, sobre a polémica recente à volta dos magistrados do MP. Escreve ele: «Portugal é um Estado de Direito, Democrático, em que o titular da soberania é o povo, representado pelos órgãos eleitos por si. Não há ilhas em autogestão, fora desta soberania. (…) Os magistrados do MP têm de rapidamente reconhecer a autoridade dos órgãos do estado em matéria regulamentar, disciplinar e orgânica sob pena de continuarmos no paradoxo de uma instituição a quem o povo incumbiu de investigar e de fazer cumprir a lei ser ela própria fora da Lei
Já o Jorge Bento, Professor Universitário, lembra a exigência do aprofundamento da democracia, lançada pelo Papa Francisco, a qual parece ter caído no esquecimento da governança do mundo, nomeadamente na Europa: «A democracia não corre perigo algum, bem pelo contrário, quando se toma consciência da necessidade de a aprofundar e melhorar. Ela é ameaçada, sim, quando os partidos se contentam em ser máquinas de conquista, partilha e usura do poder. Do jeito como a coisa anda, eles funcionam, não raras vezes, como instrumento de inaceitável asfixia cívica e democrática. Uma análise responsável das circunstâncias não estranha que os cidadãos procurem formas alternativas de expressão e representação da sua vontade e dos seus anseios. Não é o fim; é a exigência de um novo e superior estádio da democracia! Ora isto coloca a questão de saber se os partidos e os políticos profissionais são capazes de aceitar este desafio.»
Não tendo hoje filiação partidária e não sendo um político profissional, corroboro este desafio aqui expresso por Jorge Bento, tendo em conta que a democracia também não pode fortalecer-se à margem dos partidos, nomeadamente dos tradicionais. Por outro lado, lembro que os novos movimentos gerados na sociedade, particularmente na Europa, em muitos casos contra os partidos, acabam quase sempre por se transformar igualmente em partidos.
O que não deixa de ser uma «falha», claro, e não tão pequena quanto isso!
António Bondoso
Jornalista
Dez de 2018.





2018-11-26

A MINHA DEPRESSÃO não se chama Diana
Ou de como passei a ter mais 250 razões para não voltar a exercer o meu direito de voto neste país da treta. 

Foto do JN

         Como eu teria gostado de ver os mesmos 250 deputados – os do PS que me perdoem – a votar para «obrigar» o governo a repor os cortes na reforma/aposentação desde 2011. Supondo que lá estariam todos, não fosse algum – ou muitos – a «emprestar» a password para outros votarem por eles.
         O que se passou hoje na AR foi o cúmulo da falta de vergonha dos designados «eleitos pelo povo». Os «professores» dão votos – e arrastam outros departamentos da função pública – ao contrário dos aposentados que, infelizmente, não têm condições para reivindicar seja o que for. Os próximos atos eleitorais não podem valer tudo.
         Para mim, seguramente, não terão qualquer valor. Nenhum partido, nenhum movimento merecem hoje a minha aprovação. Por morrer uma andorinha não acaba a primavera, é verdade, mas faço questão de marcar o meu ponto de vista. Sendo certo que o meu (não) voto pouca diferença fará no resultado final de uma qualquer eleição, é seguro que a minha consciência – resultado do meu carácter – ficará em paz. E que os eleitos sejam muito felizes, independentemente de saberem – ou não – o significado das palavras solidariedade ou justiça. E a propósito desta última, sempre recordo que um homem acaba de ser condenado a ano e meio de prisão por ter «roubado» seis euros! E os milhares de milhões que continuam a passear-se por aí?

Foto do JN
António Bondoso
Jornalista
Novembro de 2018.  

2018-11-25


UM LIVRO DE VEZ EM QUANDO…NESTE ANO DE 2018.
Memórias Depuradas…ou a sublime simplicidade das palavras na procura de um caminho – que não é fácil – e na afirmação da esperança, das dúvidas e das certezas que levam ao cume da montanha.


Sendo certo que não há história sem memória…este primeiro livro de Maria Teresa Bondoso apresenta MEMÓRIAS DEPURADAS carregadas de espiritualidade, no qual e do qual se pode dizer que
Cada palavra é um verso
Em sílabas de muita emoção
Cada frase é um poema
Todo o livro um coração.

Todas as fotos da autoria de Ana Guerra Torres - Sonho Óptico
Seguramente mais espiritual do que místico, o livro de Maria Teresa Bondoso revela que a autora gosta de compor as palavras «como se a compor a vida» e diz-nos precisamente que as memórias são histórias desta vida. Cheia de mistérios certamente, alguns sombrios, mas também preenchida com a universalidade da cor – de todas as cores. E de muito Amor igualmente. Nestas suas MEMÓRIAS DEPURADAS, a autora apresenta-se simultaneamente com uma sensação de liberdade e com a certeza de muitos medos. O absoluto da liberdade – talvez só no céu, chegando mesmo a perguntar «como é que se chega aí»? Segundo a minha “leitura” é lá que está Cristo feito Deus, com “Quem” Teresa Bondoso dialoga permanentemente, procurando – assim – aproximar os seus leitores do mistério que é, incorporando o Espírito Santo, a “Santíssima Trindade”. 


Para chegar aqui, é fundamental atingir a “substância” das palavras com que a autora completa a sua obra. E sabendo que, para chegar ao «céu», só «um dia depois da vida», uma vida que passa por ela carregada de dúvidas e de esperanças, Maria Teresa Bondoso não se inibe de afirmar a absoluta certeza de que morrerá e escreve: «espero-te/ estou pronta e já podes vir». Apesar disso, e apesar de repetir a ideia de que «é com medo de morrer que morro», a autora não deixa de perguntar «e quando aí chegar/ como é que se volta aqui». Não vai, com medo, fica…mas sabe que seria outra, indo.
Sendo assim, posso concluir que é este o mistério que nos prende à vida. Somos mortais…mas, «abertas as horas/ o dia veste-se de azul e as palavras correm mais cedo». 

Na dedicatória aposta no meu exemplar, Maria Teresa Bondoso fala de «palavras que encontrarão eco». Posso garantir que todas elas, independentemente da minha visão do mundo e do mundo que a autora nos apresenta em Memórias Depuradas. Estando só, comunicando pela poesia…Maria Teresa Bondoso interroga-se sobre aquilo que a sua poesia pode oferecer ao mundo, e questiona o mundo sobre aquilo que ele lhe pode oferecer de relevante para a sua poesia.



O aspeto gráfico da obra é suficientemente suave para não ferir a vista... e, simultaneamente, é suficientemente atrativo para capturar todas as emoções da Poesia. Um livro espiritualmente sóbrio, como sóbria foi toda a sessão de apresentação no belo auditório da Biblioteca Municipal Bento de Jesus Caraça, na Moita, sendo a Câmara Municipal um dos parceiros deste projeto cultural que é a divulgação de autores do concelho. Os outros são a Editora Local (representada pela Anabela), que nasceu em 2017 e é constituída por um Grupo de Trabalho dos Organismos Populares de Base da Vila da Baixa da Banheira, e a União de Juntas de Freguesia da Baixa da Banheira e Vale da Amoreira.


A sessão foi excelentemente comissariada por Zélia Filipe, do departamento cultural da Câmara, que disse quatro poemas de Maria Teresa Bondoso: aquelas portas tinham mãos, o tempo das palavras, moldura e contenção


O final foi com música ao vivo (violino, piano e voz), exibindo-se professores e alunos da Escola de Artes da Moita, dirigida pelo professor Miguel Xavier: Raquel Fidalgo, Cristina Miranda, Tânia Cravo, Jorge Anacleto, Maria Eduarda, Liuba Sirbu, Filipa Moutinho, Sónia Torres, Ana Filipa e Joana Gonçalves. 



António Bondoso
Jornalista
Novembro de 2018.


COM FOTOS DE ANA GUERRA TORRES - SONHO ÓPTICO.