2021-09-07


POESIA ELEITORAL (II) …ou de como as oposições procuram, com uma poética ingenuidade, soprar música para alguns ouvidos incautos. Vai continuar a ser “Uma Campanha Alegre”, como escreveu Eça. E com ELEVAÇÃO, esperemos. E com ÉTICA e CORAGEM, como desejamos.


Foto de A. Bondoso

Diz-se, de forma séria, que a “Política” é a atividade humana, de tipo competitivo, que tem por objeto a conquista e o exercício do poder (...).

(...) De outro modo, com menos “seriedade”, talvez nos recordemos de ler Ambrose Bierce: a política é «uma guerra de interesses mascarada de luta de princípios»; ou ainda John M. Brown: «um reino, povoado apenas por vilões e heróis, no qual tudo é preto ou branco, e o cinzento é uma cor proibida».

Eu não sou adepto do “cinzentismo”…e acredito que é possível e desejável ter convicções e, sobretudo, ter princípios. É possível fazer as coisas deste modo e definir um caminho com ética e com coragem. E de forma clara. Como escrevi já, «Vivemos numa terra onde há pontes que seguram as margens e montanhas que agarram as pedras…Por isso, há momentos em que é fundamental «dar a cara» por ideias e princípios...e participar. Independentemente de todo o ruído que alguns tentem meter na engrenagem».


Serra da Nave - A. Bondoso


      Volto a Eça de Queiroz, em 1871, para lembrar que “Portugal, não tendo princípios, ou não tendo fé nos seus princípios, não pode propriamente ter costumes». E acrescenta que “O homem, à maneira que perde a virilidade de carácter, perde também a individualidade de pensamento. Depois, não tendo de formar o carácter, porque ele lhe é inútil e teria a todo o momento de o vergar; - não tendo de formar uma opinião, porque lhe seria incómoda e teria a todo o momento de a calar – costuma-se a viver sem carácter e sem opinião. Deixa de frequentar as ideias, perde o amor da rectidão. Cai na ignorância e na vileza. Não se respeitando a si, não respeita os outros: mente, atraiçoa, e se chega a medrar, é pela intriga”.

Assim, para não estender muito a escrita e atormentar a paciência de quem lê, deixo mais um poema de minha autoria: 

                                    UMA CERTA IMPUNIDADE

 

Sem vergonha

Mas com protesto.

 

E se há coisa que eu detesto

É perceber que os abutres

Trazidos pela cegonha

Circulam livres

Impunes

Sedentos de sangue

Maldição, feitiçaria,

Desespero enredado

E tão velado.

 

Sem vergonha…

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Em «Terra de Ninguém», 2ª edição, 2020. Edç Esgotadas. Pg 86.

A. Bondoso

Moimenta da Beira

7 Setembro 2021. 




 

2021-09-04

POESIA ELEITORAL…ou de como as oposições procuram, com uma poética ingenuidade, soprar música para alguns ouvidos incautos. Vai ser “Uma Campanha Alegre”, como escreveu Eça. 



Foto de A.Bondoso

«As Farpas», que também resultaram em «Uma Campanha Alegre», juntaram durante algum tempo da segunda metade do século XIX as vozes críticas de Ramalho Ortigão e de Eça, em época de um «jornalismo atávico», de um inquietante “cinzentismo parlamentar” e de uma triste governação «para lamentar».

No seu primeiro volume, advertia Eça que as páginas do seu livro refletiam as ideias vertidas em “As Farpas”, quando ambos – ele e Ramalho – como o Poeta, estavam convencidos que a «tolice tem cabeça de touro». Talvez por isso, foram arremessando farpas, «uma após outra, para todos os lados onde supunha entrever o escuro cachaço taurino». Nem todas terão acertado, claro, mas «cada arremesso era governado por um impulso puro da inteligência ou do coração».

Se bem se lembram – quem leu, claro – escrevia Eça que “não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos” e que “já não se crê na honestidade dos homens públicos”. Nada que, infelizmente, possa estar muito longe do que se passa nos tempos de hoje. Atualizando, portanto, talvez não seja dramático perceber que “De resto a ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro”. Ou que “A intriga política alastra-se por sobre a sonolência enfastiada do País. Apenas a devoção perturba o silêncio da opinião, com padre-nossos maquinais”.

Como disse acima, o “cachaço taurino” passava igualmente pela «imprensa» composta por periódicos «noticiosos» e «políticos»: estes, escrevia Eça, têm todos a mesma política. E os noticiosos…esses têm todos a mesma notícia. 




Foto de A.Bondoso

À distância de 1871 – estas «farpas» celebram agora 150 anos – o “retrato” não deixa de ser muito fiel, pese embora os avatares da história da humanidade. E não deixo de contabilizar, claro, o atávico atraso de “pelo menos 30 anos” relativamente ao resto da Europa.

Procurando dar sentido ao título que escolhi para estes escritos que me irão acompanhar nos próximos dias, a propósito das eleições autárquicas, recordo sobretudo um outro alvo das farpas de Eça: A literatura – poesia e romance – sem ideia, sem originalidade, convencional, hipócrita, falsíssima, não exprime nada: nem a tendência colectiva da “sociedade, nem o temperamento individual do escritor. Tudo em torno dela se transformou, só ela ficou imóvel. De modo que, pasmada e alheada, nem ela compreende o seu tempo, nem ninguém a compreende a ela. É como um trovador gótico, que acordasse de um sono secular numa fábrica de cerveja”. Exagero? Certamente aos olhos de hoje. Mas não deixa de ser verdade que, tal como na época, “A poesia contemporânea compõe-se assim de pequeninas sensibilidades, pequeninamente contadas por pequeninas vozes”. (…) E no meio das ocupações do nosso tempo, das questões que em roda de nós de toda a parte se erguem como temerosos pontos de interrogação, estes senhores vêm contar-nos as suas descrençazinhas ou as suas axaltaçõezinhas!”

Como já vai longo este meu escrito introdutório, deixo-vos, por hoje, com este «pequeno» poema de minha autoria:

APENAS…E SÓ!

A chuva não é assim tanta

E o vento não se alevanta

Para além da consciência.

O conforto está no gesto

Do direito e do dever

De usar a inteligência!

Em “Terra de Ninguém” – 2020, 2ª edição, Edç Esgotadas. Pg 102.

António Bondoso

Moimenta da Beira

4 Setembro de 2021.  






 

2021-08-24

OS MEUS LIVROS DE 2021…ou de como uma claque se identifica nobremente com as «Histórias» de uma cidade, de uma nação e de um clube: “Porto – 6 de Julho de 1995 – Colectivo Ultras”. De uma «ligação» com estas origens só poderia resultar uma atividade de imaginação criativa de alto nível, já lá vão 26 anos de empenho e dedicação. 



Foto C95

O que se pode ler no livro? História. E muitas outras pequenas «estórias» que, sem tabus, dão forma à alma tripeira – desde o princípio dos tempos.

“Costuma dizer-se que não havia nada antes do mundo ser mundo. Nem vida nem sombras nem brancas nuvens a moldar o azul dos céus. Mas quando o mundo aconteceu e o planeta ficou azul – vieram muitos que ficaram e se foram misturando, formando famílias e núcleos de vida.

Dos Iberos aos Bárbaros, dos Celtas aos Romanos e dos Mouros aos Lusitanos – foram rios de gente que fixaram a presença humana na que é hoje conhecida como a Antiga, Mui Nobre e Sempre Leal, Invicta Cidade do Porto. Tudo começou na Idade do Bronze com a edificação de um castro no Morro da Pena Ventosa – hoje Morro da Sé – a dominar estrategicamente o rio Douro”. 



Foto C95

A revista Visão fez publicar este mês de Agosto mais um dos seus «cadernos» de “História”, inteiramente dedicado às origens do futebol em Portugal. Mas este livro do «C95» [que estava pronto para ser publicado em 2020] centra, natural e particularmente, as ligações dos adeptos «ultras» à cidade do Porto e ao seu clube mais representativo – o F. C. do Porto – desde Nicolau de Almeida [1893] e Monteiro da Costa [1906] a Jorge Nuno Pinto da Costa e José Maria Pedroto.

 Até chegar à modernidade do Estádio do Dragão, em 2003, passaram 110 anos de histórias e de glórias – igualmente de muitas lutas, ilusões e desilusões – tempos de muitos sonhos, de orgulho e de caráter, durante os quais o emblema do Clube ombreou com o lema da cidade. Certamente não por acaso, os versos da primeira estrofe do hino dizem que “Teu pendão leva o escudo da cidade/Que na história deu o nome a Portugal”. E ninguém pode negar que o Clube chegou mesmo a ser, em décadas mais recentes, o motor da região e um verdadeiro embaixador do país.

E as tais «pequenas estórias» de que falei, próprias de um grupo de adeptos organizados e que dispensam muito bem o absurdo «Cartão de Adepto», agora em vigor, podem ir sendo «bebidas» em saborosos textos estilo crónica, dos quais se pode destacar este relativo à época de 2019/2020 – o ano da “pandemia”:

“Chegava a recepção ao Benfica em casa e para este jogo o Colectivo apresentou um espetáculo muito simples mas com bom impacto. Tiras de plástico azul escuro na horizontal a todo o comprimento da bancada a fazer um fundo e 3 modelos de bandeiras gigantes espalhadas pela bancada com os vários símbolos da história do Clube acompanhadas da frase: “AZUL E BRANCA ESSA BANDEIRA AVANÇA!” em alusão ao poema “Aleluia” de Pedro Homem de Mello”.


Foto C95

Portanto, o livro aí está para traduzir as vivências de um grupo de adeptos com alma – o C95 – fazendo lembrar muitos pontos do célebre «A Tribo», de Desmond Morris.

Pode adquiri-lo na sede do grupo ou via net:  https://livro.colectivo95.com/?fbclid=IwAR2Qjf1FPRsaNZI5TfLBBToa78Fz5qmJzhbySY_pCBmkTlRBmmUhRR7BTlw.

Vale a pena, sobretudo para desfazer alguns mitos e tabus.

Parabéns Colectivo 95. 

António Bondoso                            

Agosto de 2021.

 

                                                            

 

2021-08-20



Eu tomo sempre posição. Nunca me escondo. 
DA IGNORÂNCIA DE ALGUNS À COVARDIA DE MUITOS – ou a “politiquice” no seu nível mais baixo em Moimenta da Beira. 



Cidadãos com «deficiência» têm direitos em Moimenta da Beira.

Um texto breve, apenas para lembrar a distância a que já vai o "caráter"!...ou de como idiotas ignóbeis, ignorantes e covardes se «mostram» nas redes sociais a coberto do anonimato, enxovalhando o caráter de pessoas que apenas decidiram exercer o seu direito de cidadania, ao participar em candidaturas às próximas eleições autárquicas. Estou a escrever de e em Moimenta da Beira, mas poderia transpor o tema para muitas outras localidades deste promontório a que dão o nome de Portugal. Como dizia Almada Negreiros…«isto não é um país, é um sítio mal frequentado».

Há princípios, escrevi eu há uns anos a propósito de outras atitudes covardes que me foram atingindo ao longo do tempo. Não esses princípios de quando as coisas começam...mas os que enformam o carácter das pessoas. E que só o abuso do “Poder” pode quebrar depois de truques, pressão, tortura a vários níveis. E que só o amor da família próxima conseguirá “suavizar” em caso de um “natural” fracasso. Há “leis” para as quais o caráter é impotente. E já não basta a «palavra». Talvez porque sejam pensadas e elaboradas por quem não tem caráter! Nem palavra. A “política” – melhor dizendo a “politiquice” – e o caráter andam muito poucas vezes de mãos dadas. E em muitas circunstâncias, com a agravante de os supostos «adversários partidários» nem sequer mexerem um dedo para condenar a baixeza, preferindo antes – muitas vezes – cair na tentação de criticar os direitos cívicos de cada um de nós.

Eu não voto em Moimenta da Beira. Mas declaro, desde já e sem sofismas, o meu apoio aos cidadãos que decidiram aceitar integrar as listas do Partido Socialista aos diferentes níveis do poder autárquico concelhio. Independentes ou militantes, a todos reconheço dignidade e idoneidade para a função que se propõem realizar, marcando uma campanha positiva, assumindo o bom e o menos bom do presente e do passado recente, sem demagogia e sem descer ao inferno da baixeza moral. 



E que todos possam continuar a usufruir de um belíssimo pôr do sol. 

António Bondoso.

Agosto 2021. 


2021-07-29


 Entre a «pandemia» e o drama dos doentes da Junta Médica, a Mén Non – Associação das Mulheres Santomenses em Portugal – vai vendo crescer os resultados da sua década de existência e, simultaneamente, a responsabilidade dos projetos que tem em mãos, como a realização do seu 3º Congresso, a 19 de Setembro, e a consolidação do desejado Amolê Pedaço (ou Pedasu) – alargando o «Espaço Alda Espírito Santo» no Bairro do Padre Cruz, na zona norte de Lisboa. 

         Entretanto, de acordo com a Presidente Fatinha Vera Cruz, a Mén Non vai concentrando atenções na sua «Feira do Livro», a décima edição – mais uma vez online devido às restrições impostas pela pandemia – na qual estão representados 117 autores, o maior número já registado, entre santomenses e/ou seus descendentes e autores de outras nacionalidades que têm escrito sobre S. Tomé e Príncipe em particular ou sobre África em geral. Apesar de tudo, a iniciativa «online» leva vantagem sobre a presencial, uma vez que proporciona contactos com grande número de países. O ano passado resultou. 



A «Mén Non», que congrega 400 associados – embora a pandemia tenha vindo a “desviar” alguns – desenvolve, como é sabido, outras atividades, demonstrando uma dinâmica de louvar. Ao mesmo tempo que prossegue a sua campanha de sensibilização contra a violência e maus tratos às mulheres – apesar da falta de alguns apoios que possam ajudar a concretizar as iniciativas no «terreno», os dados que mais preocupam chegam de S. Tomé e Príncipe. Para ajudar, necessitam do apoio dos média no país, de modo a promover debates e conversas que atinjam vastas camadas da população. O objetivo é abandonar um pouco as redes sociais digitalizadas. Gostariam que a Rádio e a Televisão públicas se envolvessem mais. É preciso mudar mentalidades e as leis no país.

         Uma outra ação sistematizada é a angariação e distribuição de bens alimentares, sobretudo aos doentes da «Junta Médica» que atravessam dificuldades de vária ordem em Portugal.

         Há ainda outros projetos em preparação, nomeadamente o da consciencialização para os Direitos Humanos das Mulheres; a continuação do sucesso que foi a publicação de «Histórias e Contos Tradicionais Santomenses», agora pensando na edição em outras línguas de STP, como o «lunguiê» no Príncipe e o «anguené», na região de “Angolares”. 



         Voltando ao projeto de maior envergadura, o Amolê Pedasu, que conta com um financiamento da EU a 3 anos, está previsto desenvolvê-lo em 3 localidades do norte de Lisboa: Ameixoeira, Galinheiras e Charneca do Lumiar. Não é um projeto apenas para santomenses, pois abrange migrantes de outras nacionalidades. O objetivo é conseguir refeições diárias para 50 famílias. E, repito, abrange o tal espaço de homenagem a Alda Espírito Santo, a funcionar para já numa sala cedida pela Câmara Municipal de Lisboa, num edifício do Bairro do Padre Cruz.

António Bondoso

29 de Julho de 2021. 









 

2021-07-14

S. TOMÉ E PRÍNCIPE – um «quadro pintado para todas as cores» em tempo de eleições presidenciais. Ou as respostas que não chegaram!



Mil quilómetros quadrados, 200 mil habitantes, 120 mil eleitores, 19 candidatos = 3 mulheres e 16 homens!

         De todos estes, conheço apenas dois há muitos anos. Dos tempos de juventude vividos nas ilhas: Posser da Costa e Carlos Neves. Dos outros, apenas as referências do cotidiano, particularmente notícias relacionadas com a atividade pública de cada um ao longo dos anos.

         Sobre Posser, devo dizer que tenho um grande respeito pela memória de seu pai – o velho Celestino – uma figura querida de muitos jovens santomenses – particularmente nas décadas de 1960 e 1970 – ao serviço do desporto, quer no Benfica de S. Tomé, quer no Ginásio. Confidente e mentor dos jovens sobretudo praticantes de andebol, basquetebol e voleibol, Celestino Costa foi senhor de boa educação, bom senso, de um trato irrepreensível. Respeito igualmente a memória do seu irmão Celestino, o primeiro-ministro que conduziu a transição para o multipartidarismo entre 1988 e 1991.

         Sobre Carlos Neves, há uma amizade consolidada há muitos anos, quer seja no tempo em que desempenhou as funções de embaixador em Portugal, quer seja no período da mudança, no qual desempenhou papel preponderante na eleição presidencial de Miguel Trovoada, quer ainda nas conversas frequentes para ir acompanhando a situação política no país – nomeadamente no «golpe» de 1995, estava eu em Macau. Para além disso, e não é pouco, há também a circunstância de Carlos Neves ser tio da minha prima Carla, filha do meu primo Beto – entretanto já falecido – e que foi guarda-redes no Sporting de S. Tomé durante alguns anos. 

         Se gostaria que algum deles viesse a ser eleito? Claro que sim. Mas já lá irei. É ponto assente que não será fácil, perante uma sociedade altamente bipolarizada e condicionada pelas mais diversas razões, uma das quais está já enraizada – o tradicional «banho», traduzido em benesses várias como por exemplo o “djêlu” ou “jêlu”. «Vemos rios de dinheiro cuja proveniência se desconhece», disse há dias a jurista Celisa Deus Lima, citada pela DW. Outras notícias, ou melhor, rumores [o País é pródigo em boatos desde há séculos], especulam com dinheiros que poderão ter origem na venda de terrenos para a tão polémica e já muito contestada plantação de canábis.

Mas, por agora, detenho-me na ideia de que – numa perspetiva de buscar algum esclarecimento sobre o pensamento de futuro para o país – propus a cada um deles tópicos para uma pequena entrevista. Se Carlos Neves foi pronto a responder, e a entrevista foi publicada no meu blogue no dia 1 de Março [pode consultar no link abaixo], já Posser da Costa entendeu não dever responder. Prometeu e repetiu…mas falhou sempre. E apenas por uma questão de ética não coloco aqui as perguntas que formulei em Abril ao candidato Posser da Costa.

Deixo à consideração de quem vota. 



António Bondoso





 

2021-07-13

VIAGENS COM REGISTO

A «iliteracia» dos comboios…e outras pequenas coisinhas



Os comboios, esses circulantes que vagueiam de forma estranha, à inglesa, pela esquerda, igualmente com uma estranha numeração das carruagens, o que tem certamente a ver com o sentido da marcha do comboio. E também a numeração dos lugares, de forma bem visível, a indicar ou à janela ou do lado do corredor. Pois há pessoas que, nem com o desenho, sabem respeitar o lugar. “O meu é o 27” – dizem, com ar de toda a certeza, apesar de estarem a ocupar o 25, correspondente à janela. Não vale a pena argumentar…ou haverá muito provavelmente uma cena de peixeirada. E lá vamos, na marcha, ora em velocidade ora mais lentamente – se é um Alfa Pendular ou apenas um Intercidades, observando, por exemplo, a utilização generalizada de WC destinados a pessoas com deficiência. 



         Ou ainda aqueles passageiros/as que demoram uma eternidade a comer um pequeno pacote de batatas fritas…aproveitando toda a viagem para uma ausência de máscara ou usá-la por baixo do queixo. E o gesto de lamber languidamente os dedos da mão esquerda, provavelmente para que não se perdesse a mínima pitada de sal. Por fim lá volta a máscara, tendo todo o cuidado em deixar o nariz de fora, seguramente à espreita do contágio.

         E o tempo e a viagem mudam a paisagem. E foi o rio e os pinheiros, oliveiras e olivais, e as vinhas – claro – sem esquecer as hortas. Até que chegamos à agradável paisagem da orla costeira de Espinho e de Vila Nova de Gaia, depois de passar o «Bazófias» e o cheiro de Cacia. É tempo de encher os olhos com a barroca beleza dos antigos palacetes dos «torna viagem brasileiros». Não apenas, claro, mas sobretudo. 



         E antes de sair nas «Devezas», ainda tempo para ouvir a simpatia do «picas» a avisar um septuagenário casal de que, chegando a Campanhã, deveriam mudar de comboio para chegar a S. Bento.

António Bondoso

Julho de 2021.   









 

2021-07-11

A SUBSTÂNCIA “ATÍPICA” de “O MEU PAÍS DO SUL”…de António Bondoso, quando S. Tomé e o Príncipe assinalam 46 anos de independência. 



O livro «nasceu» no Auditório da UCCLA ao princípio da noite de sexta-feira passada.

As emoções e a saudade falaram muito forte, mas não quero que fique a ideia de ter sido «cortado» todo o primeiro plano do texto, como aparentemente transparece em alguns escritos. Os quais, no entanto, não deixo de registar com muita satisfação e reconhecimento. 



Mas, talvez sob o efeito contagiante da alegria que o Tonecas Prazeres colocou nas suas intervenções musicais ou da voz autorizada e vibrante da Regina Correia ao dizer alguns Poetas santomenses…talvez quem tenha participado na sessão da UCCLA não tenha retido ou tenha deixado passar ao lado alguns aspetos essenciais da intervenção do apresentador Abílio Bragança Neto.



Em «primeiro plano» o que disse o Abílio?

Que é um livro de “memórias atípicas” de um homem que se propõe – também ele – atípico, e sem dúvida um «nacionalista tranquilo», embora não constitucionalista.

E disse também que o livro é uma «tentativa de resposta identitária contracorrente», do autor, deixando perceber «como pode ser heterodoxa uma compreensão da nacionalidade em muitas pessoas». Nesta linha de pensamento, Abílio Bragança Neto cita a frase do autor que suporta a “Introdução” «…quem sou e o que nunca serei no meio de tanta gente ilustre», «o que leva a compreender a heterodoxia da sua Santomensidade».

Outra perspetiva que o sensibilizou foi o «condão de refletir o país» plasmado na obra, nomeadamente a relação com a cidade de S. Tomé que apresenta um futuro preocupante: “estamos a desistir daquele espaço”, salienta Abílio, acrescentando que “não existe uma visão daquilo que a cidade pode ser e não existe ninguém a pensá-la”. Por isso, diz ainda, “estamos obrigados, todos, a pensar o que fazer dela, refazê-la, para que ela tenha efetivamente futuro”. É fundamental reaver uma cidade orgulhosa da sua dignidade e alegria.

E depois o «Livro 2», a segunda parte da obra – Uma Ilha Coração! Disse Abílio Bragança Neto que é uma magnífica fábula, construída à volta de uma tartaruga e de um golfinho, que acompanharam o autor no seu regresso ao país – ideia inspiradora para criar uma narrativa para a promoção do turismo de STP. Uma visão política de futuro, excelente para «vender» o turismo, a Biosfera, a Ecologia, uma ideia tranquila e sustentada do país. 



Como tenho dito sempre, «a beleza do silêncio de um pôr-do-sol…é diretamente proporcional ao deslumbramento do vigor de um sol nascente.»

Seguindo a Sinopse do livro e carregando as palavras de José Carlos Ary dos Santos...direi que «Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram». A mais sentida sessão de apresentações de livros meus aconteceu ali. E foi bonito participar, e foi bonito de ver e de ouvir. Mesmo em tempo de «pandemia».

 


“O MEU PAÍS DO SUL” é, assim, um conjunto de textos escritos ao sabor do tempo e dos ventos e que agora entendi partilhar [acrescidos de algumas ideias de outros «pensadores»], despidos de qualquer «complexo de colono» mas plenos de um autêntico sentimento de pertença, no sentido de refletir e de provocar reflexão sobre as realidades do país.



De registar o destaque dado a algumas grandes figuras das letras e das artes de São Tomé e Príncipe, nomeadamente Francisco José Tenreiro - no centenário do seu nascimento e nos 60 anos da publicação de “A Ilha de S. Tomé”. Valorizado igualmente o rio Água Grande, que divide a cidade capital e nos oferece a perspetiva das antigas vivências das elites e dos «colonos de segunda» em cada uma das margens. No meio da História e das questões políticas que cercam o colonialismo, a descolonização e a conjuntura da independência, ressaltam a Cultura - do ensino/educação às Línguas, como sustentáculo da economia - e a Saúde. E depois, uma viagem contada ao pormenor à volta da ilha Grande e nesse mar que nos conduz, à margem do petróleo, às mais belas praias do mundo na ilha o Príncipe.

Julho de 2021

António Bondoso


2021-07-03

 

VIAGENS COM REGISTO

O Comboio das 08.37

 

VIAGENS COM REGISTO

O Comboio das 08.37

 

Por tuneis abertos e fechados, o comboio das 08.37 circula, rançoso e esperançoso em chegar ao fim da viagem. A esperança chega-lhe da paisagem deslumbrante de verde e cinza ao amanhecer, mesmo com o sol já a aquecer. Torga diria, do alto de Galafura ou de S. Salvador do Mundo «O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir». De facto, um “excesso de natureza” nas duas margens do rio, quer antes, quer depois das barragens, apesar de muitos gostarem mais da antiga força revolta do Douro. 



         E quando a paisagem do rio termina, aí por alturas do Juncal, quase desaparece o encanto. «Não tendes olhos para o dionisíaco esplendor que vos cerca», escrevia João de Araújo Correia no seu “Sem Método – notas sertanejas” de 1938. Não fora a terra e o verde do arvoredo ou as hortas de subsistência de um povo que não verga ao infortúnio de ter sido mal nascido neste «sítio» mal frequentado como dizia Almada. Esse esplendor só volta a encontrar-se naquele curto trajeto entre Campanhã e S. Bento. É o Douro em toda a sua pujança, antes da Foz, onde abraça o oceano imenso. Fica para trás o comboio das 08.37 e o silêncio da viagem, antes do regresso ao coração do rio e da paisagem. A cidade grande engole por algumas horas toda a magia embriagante. 



Julho de 2021

António Bondoso





2021-06-29

CLARO QUE AS GUERRAS SÃO VIOLENTAS. Neste Dia, um «elogio» ao “comando” e Professor Rui de Azevedo Teixeira. 



E deixo um aviso: não tenho competências para levar por diante o que se pode chamar tecnicamente de recensão ou até uma simples crítica literária. E a qualidade reconhecida e característica fundamental dos escritos de Rui Teixeira obriga-nos a uma reflexão atenta e profunda. Aliás, ele próprio não se coíbe de chamar a atenção para as suas capacidades académicas. Apesar de tudo, devo dizer que sei ler e gostei do que li.

Sem rodeios, sem tabus, sem medo das palavras e das ideias, Rui de Azevedo Teixeira apresenta-nos um romance de certa maneira «diferente» no formato mas «poderoso». As memórias cruzam-se, misturando ficção e realidade como sempre acontece. Mas neste “O Elogio da Dureza” destaca-se a brutalidade, a violência pura e dura. Simultaneamente rude e bela. Pelas palavras. Linguagem e cenários com os quais me identifico, apesar do “desdém” que o autor empresta ao “Lobo” quando este fala da «tropa pacaça». Ou «macaca», diziam outros. Mas há muitos pontos em comum, sobretudo quando descreve a vivência do CIC. Que eu não frequentei mas sei, pelos relatos de quem lá passou, inclusive familiares. A «EAMA», que eu vivi, foi um bom viveiro do CIC, mesmo passando ao largo da conversa do protagonista com o coronel comandante sobre os furriéis angolanos brancos: “nem carne nem peixe quer na hierarquia militar quer na questão da nacionalidade”. É uma perspetiva da «guerra» que ainda não foi devidamente explorada e explicada. Mais do que uma questão de defesa do «império», era talvez o «princípio da pertença». Mas a realidade de quem mandava era outra. Vinham do «puto», saberiam muito de estratégia, mas faltava-lhes a essência. E os costumes e as línguas. Nesta perspetiva, Rui Teixeira colocou o «dedo na ferida» e isso é importante para o debate que se queira fazer.

Por outro lado, pouco importa se é a obra é autobiográfica ou não. O autor já negou e explicou os poucos pontos em comum com o protagonista do romance Paulo de Trava Lobo Ferreira. Mas, creio eu, um romance constrói-se com memórias e vivências que o autor vai apresentando, opondo e conjugando, colocando nas vozes de cada um dos protagonistas exatamente as palavras e as ideias que pretende transmitir. Não para leitura de «mesinha de cabeceira» mas para provocar reações quer se goste ou não. E ainda agora, quando se quer levar ao limite a questão da guerra colonial, mostrando-se apreço e compreensão por quem dela fugiu e apresentando um certo ar de crítica para com os milhares que a cumpriram, Rui de Azevedo Teixeira traça a figura de Paulo Lobo já com 22 anos, comando e conhecedor da guerra em Angola, massacres incluídos: “Pertencia agora, com um grande orgulho negro, à tribo dos homens que praticaram, com continuidade, a morte violenta. Uma tribo muitíssimo pequena, na qual só muito poucos valorizam os que a ela não pertencem”.

Para além deste ponto de reflexão, que o romance ora nos traz ora nos leva, já entre o Portugal do «PREC» e a Angola do Leste e dos Dembos, uma nota para uma outra arma do romance que Rui Teixeira coloca à cintura de Paulo Lobo: a literatura. Raras são as páginas – ou pelo menos os capítulos – em que não aparece uma citação de Os Lusíadas, um título de Hemingway ou de Steinbeck, Bocage, Junqueiro ou Pessanha.

Como dizia o «Paulista» Monteiro Lobato, “Um País se faz com Homens e Livros”. Tenham uma boa leitura.


Rui Teixeira

António Bondoso

29 de Julho de 2021.  


 

2021-06-12

Em Memória de Armando Bondoso.

Um Tio é um Tio...e este era o último do núcleo direto.
UM TIO PARTICULAR…mente relevante.

Armando Bondoso

Sem querer minimizar as ligações que me prenderam a outros tios – foram muitos e a cada um a sua história – o Armando ocupa uma posição de destaque no meu «Panteão» da Família. Por ser o mais novo dos irmãos – a uma década de intervalo – foi o «ai Jesus» de toda a gente. E teve direito a 3 nomes – quando dois era norma incontornável.
Armando Andrade Bondoso manteve as «iniciais» dos nomes do pai – António Almeida Bondoso – as mesmas iniciais que eu herdei – António Augusto Bondoso. Pode ter sido uma circunstância do acaso, é verdade. Mas não deixa de ser relevante quando nos metemos a «interpretar» a história.
Por ser o «ai Jesus» da família, o tio Armando foi merecedor da atenção protetora dos irmãos mais antigos, nomeadamente do meu pai Luís, com quem manteve uma longa proximidade. E dele me recordo, ainda jovem, à mesa da primeira casa onde vivi em S. Tomé, no Bairro da Conceição, uns anos antes de enveredar pela carreira da sua vida – trabalhador da Valle Flor – sobretudo ligado à cultura do cacau, no Rio do Ouro, primeiro, e em Diogo Vaz ao longo dos muitos anos em que permaneceu nas ilhas. Sabia de cacau como ninguém. Estudou o seu cultivo e os necessários cuidados naquelas duas grandes «universidades» de S. Tomé.
E a seguir…a nossa ligação mais profunda, que – para além da afinidade clubística – começou na responsabilidade de me levar de volta às Ilhas, depois de eu ter passado um ano atribulado em Moimenta da Beira, entre os 6 e os 7 anos de idade. E foi uma viagem longa até Lisboa com o seu quê de aventura. O carro de um amigo, que foi avariando por aquecimento, a travessia do Tejo numa barcaça em Abrantes e o deslumbramento de Lisboa. O susto que lhe preguei quando, cansado de desenhar barcos em ondas do mar imenso, saí do quarto da pensão e resolvi enfrentar a rua com uma multidão em movimento apressado. E quando dei por mim, estava perdido, sem noção do espaço. E chamei a atenção, gritando por ele, sem saber sequer o nome da Pensão. E foi essa agitação à minha volta, ali bem perto, que o conduziu ao meu encontro para seu grande alívio. Foi um enorme susto, confessou mais tarde.
E de novo o mar e de novo as Ilhas e por fim a Escola, antes do tempo do casamento, que ele havia «preparado» na sua vinda a Portugal, com passagem de charme por Moncorvo. E casou com a minha vizinha Floripes Tavares [do Bairro da Conceição] em 1958, dona de um «visual» de artista de cinema. E nesse dia usei gravata pela primeira vez, dizendo que já parecia o noivo! Desse casamento nasceu uma relação particular com a família Pontes, à qual me viria a ligar anos mais tarde, sendo os tios padrinhos de casamento da minha mulher.
E o Armando foi marido, e foi pai, e foi avô, mas continuou a ser tio. Estivemos sempre de acordo? Certamente que não, mantendo o respeito devido. O «choque» da descolonização foi, naturalmente, diferente [apesar das circunstâncias madrastas ainda teve força para caminhar e erguer um novo projeto de vida em Portugal], tal como a forma de ir percebendo o mundo. Mas conversávamos muito, até chegar o tempo em que a vida foi sofrendo e repetindo revezes. Mas não deixou de ser um tio especial com o qual fui partilhando memórias. E é de muitas delas que me vou alimentando. Por fim, contudo, foram as circunstâncias da pandemia a marcar o ritmo do relacionamento. E tudo se foi precipitando…até ao desenlace final. Com a sua partida, termina a gesta dos sete irmãos que foram educados musicalmente em casa do avô António, em Moimenta da Beira, antes do chamamento de África.
Deixo então à sua mulher, Floripes, ao seu filho Tozé, à sua nora Teresa e aos netos que adorava Pedro, João e Francisco um forte e sentido abraço, extensivo a todos os outros sobrinhos e afilhados que ainda permanecem.
Até sempre Tio Armando.


Armando Bondoso e Floripes Tavares com Virgínia, Luísa e António Bondoso
S. Tomé. 

António Bondoso
11 de Junho de 2021.