2016-08-01

1 de AGOSTO DE 1935
A EMISSORA NACIONAL
Foi uma “escola” do regime…mas também do rigor.

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A EMISSORA NACIONAL
Foi uma “escola” do regime…mas também do rigor.

         1 de Agosto de 1935. Data oficial da inauguração da EN. Já havia o Rádio Clube Português mas ainda não havia o transístor. Onde eu hoje ainda ouço atentamente os noticiários, o 5 minutos de Jazz e sigo com reverência as peripécias da Volta a Portugal em Bicicleta. Por exemplo.
         Mas a história da EN, de acordo com várias fontes, começa verdadeiramente em 1930, com a criação dos Serviços Rádio Eléctricos na dependência dos CTT. Tudo avança em 1932 – quando o engº Duarte Pacheco manda iniciar experiências com um emissor de Onda Média, seguindo-se novos estudos em 1934 com um emissor de Ondas Curtas. Os primeiros estúdios situavam-se em Barcarena, mas ainda em 1934 foram transferidos para o nº2 da Rua do Quelhas, em Lisboa – onde a sede da estação haveria de permanecer até 1996.
         Nesse dia 1 de Agosto de 1935, o capitão Henrique Galvão – esse mesmo que mais tarde se rebelou e desviou o Santa Maria – disse exatamente para o que vinha a EN: a Emissora Nacional, realização do Estado Novo é hoje, como mais um soldado que se alista, uma força ao serviço do Estado Novo.
         E foi, de facto. Mas durante muito tempo não esteve só nesse papel. O RCP de Botelho Moniz – esse mesmo que viria a estar ligado a uma das tentativas de golpe contra Salazar – foi um exemplo de colaboração com as forças de Franco durante a Guerra Civil Espanhola. Lendo com interesse a obra O QUE PARECE É, de Alberto Pena (Tinta da China, 2009), ficamos com a ideia segura de que “A rádio portuguesa desempenhou um papel extraordinariamente importante no decurso do confronto bélico. A sua intervenção propagandística a favor dos rebeldes, como veremos, alcançou um curioso e reconhecido protagonismo que, no final do conflito, seria recompensado com inúmeros actos de homenagem organizados pelos vencedores.
A estatal Emissora Nacional e o então arquifamoso Rádio Club Português, fundado e dirigido pelo dinâmico e controverso capitão Jorge Botelho Moniz, foram autênticas trincheiras de combate na luta propagandística com as emissoras leais de Madrid e Barcelona. Com emissões em espanhol e um contacto permanente com as autoridades rebeldes, colocaram-se ao serviço da causa golpista, porque esta representava «os princípios e as doutrinas que tornaram grandes as nações da Península», segundo o próprio Botelho Moniz”.
O conflito no Estado Espanhol viria a ficar conhecido, aliás, como a Guerra do Éter: “Alguns ideólogos do Estado Novo, como o correspondente
de O Século, Leopoldo Nunes, baptizá-la-iam como a «guerra do éter», destacando a «importância decisiva» da rádio portuguesa na «Revolução Nacionalista» espanhola. De facto, o RCP seria um baluarte indestrutível a partir da sua sede na Parede, frente às emissoras de Madrid e Barcelona, que o jornalista luso Oldemiro César via como verdadeiros «balões de oxigénio» para os leais.”
         Depois disso a história seguiu o seu curso e vieram outros acontecimentos que balizaram e balancearam o comportamento radiofónico em Portugal. A II Guerra Mundial, a subsequente “Guerra Fria”…e mais tarde as questões do Estado Português da Índia e as colónias em África e na Ásia. Lembro aqui apenas a importância opinativa das célebres NOTAS DO DIA, na EN, ou as CRÓNICAS DE ANGOLA, de Ferreira da Costa. Sem esquecer, evidentemente, o impacto dos “serões para trabalhadores” da FNAT – transmitidos pela EN.
         Contudo, o serviço ao “regime” implicava um perfeito rigor técnico e uma excelente qualidade literária. Antes do 25 de Abril de 1974, muito aprendi diretamente com Fernando Conde, Hernâni Santos, Maria da Paz, Sebastião Fernandes, Helder Sobral, Manuela Borralho ou Maria Emília Michel. De ouvido e de sentido, tinha exemplos como Igrejas Caeiro, Maria Leonor, Artur Agostinho, Fernando Correia, Romeu Correia ou Nuno Brás. De alguns deles viria ainda a receber ensinamentos fundamentais, recordando-me igualmente de Vasco Fernandes ou João Dias, de Palma Fialho ou de Alfacinha da Silva.
         Não se esgotam neste texto as minhas memórias. Há de vir o livro, por agora em maturação.
         Para quem estiver interessado, ficam alguns links imprescindíveis:
         E não posso terminar sem lembrar com alguma mágoa, a tristeza de saber como viriam a ficar as instalações da sede da EN – e depois da RDP – na mítica Rua do Quelhas: “As instalações desativadas da ex-Rádio Difusão Portuguesa serviram para que a produção da série da RTP recriasse uma sala dos Alcoólicos Anónimos.
As paredes esgaçadas, o cheiro a mofo, os corredores escuros e a perder de vista, as salas de som que servem de armazém a todo o tipo de objetos, as câmaras espalhadas, os cabos entrelaçados uns nos outros. Foi aí, naquelas que já foram as instalações da antiga Rádio Difusão Portuguesa (RDP), que Ivo Canelas, João Tempera e Isabel Abreu estiveram a gravar mais uma cena da série da RTP1 Os Filhos do Rock. "Estamos a reavivar os fantasmas que aqui estão. É um sítio tão sombrio e nostálgico...", disse a atrizà NotíciasTV.”(http://www.jn.pt/revistas/ntv/interior.aspx?content_id=3612665)
António Bondoso
Jornalista
1 de Agosto de 2016.



2 comentários:

OUTONO disse...

Tocaste-me com alguns nomes, que me (nos) ensinaram tanto.
E aquela Rua do Quelhas, deixa-me triste. Era praticamente a Rua da Comunicação Radiofónica. Lá estavam os estúdios, serviços técnicos e de produção, mais acima a informação e depois a área internacional, mais tarde um grande museu da rádio, que foi igualmente premiado.
Hoje, na Marechal Gomes da Costa, restam uns quantos aparelhos e um velho estúdio desse mundo museológico, onde ia com frequência com os meus alunos.
A saudade marcante, com tantas histórias inesquecíveis do mundo da comunicação radiofónica

António Bondoso disse...

Grato pela tua leitura. Um abraço.