2018-10-06


ELEIÇÕES EM S. TOMÉ E PRÍNCIPE
Como, à distância, cruzo informações e sentimentos. Mantendo o equilíbrio, controlando as emoções e apelando à serenidade.
Que o ato eleitoral decorra sem incidentes e que os vencedores, sobretudo se houver maioria absoluta, saibam respeitar as minorias. O pior que pode acontecer em democracia...é a DITADURA das maiorias. Um abraço a S. Tomé e Príncipe.
Foto Téla Nón

Campanha Eleitoral em STP termina em convulsão.

Já é tempo…também em S. Tomé e Príncipe, de quem governa servir o país e não se servir do Estado.
Ou de como a distribuição de arroz «fora de tempo», um cantor nigeriano e uma morte inconveniente podem alterar o sentido de voto nas eleições deste Domingo: Legislativas, Autárquicas e Regionais no Príncipe. 


Sem sondagens fidedignas que possam indicar uma tendência, veremos até que ponto a agitação popular dos últimos dias da campanha pode vir a determinar ou influenciar o comportamento dos 97.274 eleitores, distribuídos por 247 mesas de voto em todo o país.
         A votação decorre entre as 07.00 e as 18.00 horas deste domingo e veremos se o partido atualmente no poder – o ADI de Patrice Trovoada – vai manter a maioria absoluta, sobretudo tendo em conta a agitação vivida nos últimos dias e particularmente a morte de um jovem da Roça de Monte Café, em circunstâncias ainda não totalmente esclarecidas. Tanto quanto se sabe o Ministério Público já mandou abrir um inquérito e os intervenientes diretos estarão sob custódia para interrogatório judicial e subsequentes medidas de coação.
         Nem sempre o que parece é, mas fundamental será que se saiba por que razão o jovem de 34 anos, Onésimo Sacramento, seria portador de uma arma de fogo quando foi comer a uma barraca; e que se saiba por que razão, quando interpelado pelas autoridades, se terá posto em fuga oferecendo resistência; que se saiba por que razão a força policial foi agressiva com o jovem; e que se saiba se a autópsia terá sido efetuada com eficácia (4 médicos na presença de um familiar); e se os resultados  imediatos serão fiáveis: - a primeira conclusão é que o jovem futebolista da UDRA poderia ter morrido de congestão. Não só pelo esforço físico da fuga e da queda a um curso de água na localidade de Água Cola, próxima da vila de Batepá, na Trindade, onde terá sido apanhado pela polícia e por elementos da guarda do governo. Ter-se-á sentido mal logo ali, pelo que terá sido transportado ao Centro de Saúde da Trindade onde já chegou sem vida. Há contudo outras informações, concretamente do jornal Téla Nón, citando populares, segundo as quais o jovem teria morrido na esquadra policial da Trindade, sendo posteriormente transportado para o Hospital Ayres de Menezes, na cidade capital. De facto, segundo outras fontes, o corpo apresentava sinais de agressão...mas, aparentemente, insuficientes para justificar a morte. Apurar as responsabilidades, com seriedade, é o desafio que agora se coloca ao Governo, à Polícia, aos familiares e às pessoas que presenciaram. E, sobretudo, saber transmitir igualmente com seriedade os factos. As razões de um clima tenso e intenso estão de facto a montante do que aconteceu na quinta-feira e cabe aos políticos - a quem governa em 1º lugar - fazer com que tudo seja mais transparente e mais sério.
         É complicado dizer até que ponto isto afeta a popularidade do governo e do partido que o suporta...mas afetar, afeta – dizem-me de S. Tomé. Foi uma campanha tranquila até este incidente e grande a mobilização popular. O ADI continua com a perceção de que é possível atingir a maioria absoluta dos 55 deputados, mas há quem veja potencialidades nas campanhas do MLSTP/PSD e da chamada «Coligação» entre o PCD, a UDD e o MDFM. Mas há quem coloque reservas à capacidade política desta «força», dizendo que as figuras carismáticas dos partidos praticamente desapareceram, perdendo-se a oportunidade de chamar à liça figuras como Maria das Neves ou Rafael Branco, mesmo como independentes.
         Na Região Autónoma do Príncipe, há 5.168 eleitores recenseados e concorrem três candidatos: José Cassandra, atual Presidente do Governo Regional, da União para Mudança e Progresso do Príncipe (UMPP), que procura um quarto mandato; o candidato do MLSTP é Luís Prazeres, mais conhecido por “'Kapala”, e depois há Nestor Umbelina, dissidente da UMPP, que concorre pelo recém-criado Movimento Verde para o Desenvolvimento do Príncipe.

          O processo eleitoral será acompanhado por missões de observação eleitoral, que já estão no terreno, nomeadamente uma da CPLP, chefiada pelo antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Timor-Leste, Zacarias da Costa.


António Bondoso
Jornalista                                                                      
6 de Outubro de 2018. 

2018-09-24

Decorreu em Lisboa o II Congresso da Mulher Santomense em Portugal.
Kwa kaba. Kaba zá e foi globalmente muito positivo, apesar de algumas e naturais lacunas.


Este II Senson Mwala Santome em Portugal foi uma iniciativa da Mén Non, que é a Associação das Mulheres Santomenses em Portugal e teve ajudas importantes da Universidade Lusófona, da Embaixada de STP em Lisboa, da Plataforma Cafuka e da RDP África.
Em resumo, Bwa Lumadu- muito bom, apesar de algumas falhas na organização.
O III Congresso da Mulher Santomense em Portugal foi marcado para 2020 e no próximo ano haverá provavelmente uma Conferência, com novas abordagens e sobre temas mais específicos – de acordo com Fatinha Vera Cruz que é a Presidente da Mén Non.
Entre as «lacunas» referidas – situação normal em iniciativas desta envergadura – esteve a “falta de espaço para debate”. O Congresso foi “panxadu” – muito cheio, com inúmeras intervenções – embora suavizado por excelentes momentos musicais de Toneca Prazeres. Foram igualmente recebidas e lidas muitas mensagens de mulheres que viveram a «manifestação de protesto e luta» do dia 19 de Setembro de 1974 em São Tomé – nomeadamente as de Maria das Neves, Elisa Barros e Maria do Rosário.
As considerações e conclusões, diz Fatinha Vera Cruz, vão agora ser compiladas em relatório com recomendações aos governos de S. Tomé e Príncipe e de Portugal, relatório que será divulgado oportunamente.
De acordo com outros olhos e ouvidos deste blogue «Palavras em Viagem», confirma-se uma reunião globalmente muito positiva com destaque para intervenções de muito nível – como foram as de Maria Amorim, antiga MNE de S. Tomé e Príncipe e depois embaixadora do país em Lisboa, com uma análise muito lúcida da situação presentemente vivida naquele país africano de língua oficial portuguesa, e de João Viegas, santomense a residir há muitos anos em Portugal, sendo funcionário da AR. João Viegas recuou à experiência e às vivências do seu tempo nas Ilhas do Meio do Mundo.
Exatamente sobre as tradições da mulher santomense, esteve em destaque um painel sobre «Quinté Glandji» ou «Kinte-Nglandji» [quintal onde as crianças são orientadas pelos mais velhos], no qual participou Inocência Mata e que foi brilhantemente moderado por Mutema Cravid. A ideia foi completada por um diálogo cómico e à moda antiga, tendo sido ainda declamado um poema de Conceição Lima.
Houve ainda lugar para testemunhos de mulheres de outros países africanos de língua portuguesa como Cabo Verde, Guiné, Angola e Moçambique – sendo este representado pela poetisa Elsa de Noronha, há muitos anos a residir em Portugal e que disse 3 poemas sobre a temática da mulher.
Outra escritora convidada foi a santomense Olinda Beja – igualmente a viver e a trabalhar em Portugal há largos anos – mas que não pode estar presente por motivos ponderosos. Uma mensagem de saudação que enviou ao Congresso [e que me chegou por intermédio da Milé Albuquerque Veiga] acabou por ser lida por Mena Teixeira, quase sem tempo, e no texto Olinda Beja diz não ser fácil «falar do percurso, meu e vosso, que nós, mulheres de São Tomé e Príncipe, temos feito nesta diáspora, que nos acolheu e acolhe mas onde se encontram sempre pedras no caminho». Fazendo apelo à coragem, à humildade e à dignidade para que as mulheres «se imponham nesta senda pedregosa, sem olhar à cor, à religião ou ao estatuto social», Olinda Beja defende uma luta «de olhos nos olhos, sem atropelos e sem traições: - Devemos ter sempre em mente que estamos todas no mesmo barco qualquer que seja o nosso papel na sociedade. Por este motivo não nos esqueçamos nunca de dar as mãos umas às outras». Após a leitura da mensagem já não houve tempo para exibir um pequeno “slideshow” sobre a vida e o trabalho de Olinda Beja – elaborado por alunos da Escola «EB 2.3 de Paço de Sousa», depois de um encontro com a escritora em 2015 – um dos muitos que vão conduzindo Olinda Beja por várias escolas deste país.
Do mesmo modo foi pena não ter sido exibida e comentada a primeira curta-metragem de ficção produzida pela Tela Digital Media Group, idealizada e realizada por Katya Aragão. MINA KIÁ conta a história de Tónia, uma menina sonhadora que é enviada para casa dos tios na cidade grande… 

António Bondoso                                                                                     
Jornalista
Setembro de 2018.            

2018-09-20

S. Tomé e Príncipe em Portugal. II Congresso da Mén Non
COMO SE AVALIA A IMPORTÂNCIA DE UM CONGRESSO SOBRE A MULHER? É preciso ter voz para ultrapassar dificuldades. 


Entre muitas questões que se colocam às «mulheres santomenses» em Portugal, há algumas que, por si só, justificam um aceso e profícuo debate. A MÉN NON – associação que congrega as mulheres de S. Tomé e Príncipe a residir e/ou a trabalhar em Portugal – decidiu pegar no tema da «Migração Feminina Santomense» e pôr muita gente a falar sobre «desafios e conquistas».
         Referindo e lamentando o facto de ainda não haver um núcleo da MÉN NON em S. Tomé e Príncipe, necessário ou mesmo fundamental, a Presidente da Associação – Ilidiacolina (Fatinha) Vera Cruz – disse ser muito mau não terem voz no próprio país. «É como se fossemos estrangeiros».
         Numa breve conversa telefónica, fiquei igualmente a saber que os governantes de STP conhecem a Associação, sabem do trabalho desenvolvido e elogiam…mas «poderiam fazer mais». Contudo, não deixou de salientar que há uma boa relação com Ernestina Menezes, que dirige o Instituto da Igualdade de Género no país.
         Do mesmo modo, elogiou a colaboração que a MÉN NON tem recebido das autoridades portuguesas, por intermédio da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género de Portugal, não apenas no apoio à realização do II Congresso que vai decorrer no dia 22 nas instalações da Universidade Lusófona em Lisboa. Essa colaboração tem sido muito positiva na concretização de projetos no terreno, nomeadamente na sensibilização para os problemas da violência doméstica junto das maiores comunidades situadas no Bairro Jamaica e no Traço da Ponte, antiga Quinta do Mocho.
         A caminhada tem vindo a fazer-se mas é muito dura, perante as enormes dificuldades que se apresentam, sabendo que a diáspora santomense em Portugal é das maiores, apesar de muitos elementos terem daqui partido para a Inglaterra, França e Luxemburgo.
         Mas essas dificuldades, disse-me Fatinha Vera Cruz, dão mais força à Associação. E graças aos amigos, aos associados e às ajudas institucionais tem sido possível desenvolver projetos. Para além dos já mencionados, há igualmente essa ideia de um Feira do Livro de autores santomenses a realizar no Porto, provavelmente a 25 e 26 de Outubro. 


Mas para este II Congresso, já depois de amanhã – na Universidade Lusófona, em Lisboa – vai valer a pena ouvir mulheres de várias latitudes. De S. Tomé virá a jurista Vera Cravid, mas em Portugal residem e trabalham muitas outras palestrantes: Maria Magdala, fundadora e diretora da empresa ComuniDiária tentará responder à questão genérica «Quem é a Mulher Brasileira?»; Joacine Katar Moreira, natural da Guiné-Bissau, ativista social e investigadora do ISCTE dará a sua visão sobre a mulher guineense; de França virá a socióloga Maria-Alves Neto para dar uma perspetiva sociológica da emigração feminina santomense, com enfoque na Europa, particularmente em França. Yasmina Costa falará sobre a Diáspora Africana com enfoque em Angola e, de Moçambique, a poetisa Elsa de Noronha que reside há longos em Portugal. Ainda destaque no campo das letras para as escritoras/poetisas Alda de Barros e Olinda Beja e uma presença masculina em foco – Carlos Almeida Camucuço - para transmitir um olhar diferente sobre os desafios da mulher.
         Um painel a justificar expectativa é seguramente aquele que vai discutir os valores éticos e preconceitos do «Quinté Nglanji», moderado por Abigail Tiny Cosme e com a participação de Inocência Mata.
         Um último destaque para o cinema. Katya Aragão mostrará os bastidores do filme «Mina Kiá» - a primeira curta-metragem  de ficção produzida pela “Tela Digital Media Group”. Tónia, uma menina sonhadora, é enviada para casa dos tios na cidade, onde vai ser educada…
Bom trabalho, bom Congresso da Mulher Santomense em Portugal.


D. Maria de Jesus e D. Luisa Teixeira, mulheres santomenses de um tempo outro.

António Bondoso
Jornalista


20 de Setembro de 2018.

2018-09-18

TUDO PELA POESIA E PELA VIDA DA URBE. MOIMENTA DA BEIRA EM SETEMBRO.
Há sempre um pretexto para dinamizar.
E há sempre um contexto para situar.
E há igualmente o açúcar para consolidar. 


E foi assim que, há dias, se promoveu uma noite de cultura poética bem no coração do «interior centro-norte» deste país assimétrico e de mentalidades periféricas.
Em Moimenta da Beira, uma região de baixa densidade a sul do Douro – castigada pela desertificação (emigração e esquecimento por parte do centralismo) – pensou-se uma «noite de poesia com açúcar» exatamente na Açucarinha, hoje uma pastelaria mas pensada como snack-bar há largos anos. Pegando na ideia de Natália Correia, de que «a poesia é para comer» e tendo em conta que «a poesia tem uma função social» como dizia Antero de Quental… o café de cada um dos presentes foi acompanhado de um pedaço de “sucrinha” – um doce típico de açúcar e de côco que eu me habituei a consumir na infância em S. Tomé e Príncipe. 


Foi nesse espaço, nessas ilhas do «meio do mundo», onde existe um pássaro que anuncia a chuva, que nasceram os grandes Almada Negreiros e Francisco José Tenreiro. Deste último selecionei precisamente «O OSSÓBÓ CANTOU», lembrando que «cantou o ossóbó/seu canto molhado./ Tchuva já vêo?/Já vêo si siô».
O espaço e o nome deram forma à ideia, celebrando-se, portanto, a Poesia. E foram vários os poetas «convidados», não por acaso começando por mim e folheando praticamente todos os livros publicados, nos quais dediquei especial atenção à Poesia. Foi assim que amigos e familiares quiseram dizer poemas de minha autoria, estando grato à Alexandra Cabral, à Isabel Salgueiro, à Rita Regadas, à Dinora Sobral, à Maria do Amparo, ao António José Bondoso, ao Francisco Cardia, ao Fernando Domingos, ao Hugo Bondoso, ao José Eduardo Ferreira e ao Nuno Bondoso.
Numa segunda fase, foi dada oportunidade aos presentes de poderem chamar ao palco outros Poetas. Eu lembrei Alberto Estima de Oliveira e Pablo Neruda; a Maria do Amparo deu primazia a Luís Veiga Leitão e a Maria Teresa Bondoso; Isabel Salgueiro chamou Lilás Carriço; Francisco Cardia homenageou seu pai por intermédio de Guerra Junqueiro; Rita Regadas lembrou Pedro Homem de Melo; José Ricardo Ferreira recitou de cor Miguel Torga e Manuel Rodrigues Vaz deu-nos a conhecer «As Belas Meninas Pardas» de Alda Lara.
E porque era Setembro, veio ainda à memória o Chile, de 1973; Timor, em 1999 e Nova Iorque em 2001, sem esquecer os 75 anos da fundação do antigo «Externato Infante D. Henrique». Propus então “Celebrar a Viagem” na voz da Isabel Salgueiro, não sem antes ter passado por Carlos do Carmo, Ary dos Santos e Jorge Palma – figuras que veriam os seus nomes ligados à “Expodemo 2018”, um certame que mostra bem e dinamiza Moimenta da Beira.  


Um agradecimento particular à D. Manuela e ao Sr. Francisco – hoje proprietários da «Açucarinha» - pelo carinho que atribuíram à iniciativa, e também à D. Augusta – uma santomense que reside no Porto e que foi responsável pela confeção de uma boa parte da «sucrinha». À Ana Maria Fonseca, grato pela excelente «reportagem». 


António Bondoso
Jornalista                   
Setembro de 2018.

2018-09-15

EXPODEMO 2018: o governo não ouviu, mas talvez alguém lhe diga.
É preciso resistir ao centralismo e lutar por uma verdadeira política de coesão nacional! É inadmissível o esquecimento do interior! A maçã e os vinhos não são um conto de fadas e não consta que a «Branca de Neve» perceba de economia. 


Posso dizer que foi um grito de revolta contra o «abandono» das regiões de baixa densidade, o que eu escutei hoje em Moimenta da Beira, pela voz do Presidente da Câmara José Eduardo Ferreira, na abertura da Expodemo 2018 – um certame que pretende mostrar as potencialidades da região e tem vindo a transformá-la numa nova centralidade. Apesar do esquecimento com que esta parte do país tem sido brindada pelas políticas de sucessivos governos.
Das ideias fortes que eu retive do discurso inaugural, como sempre de improviso, posso referir duas ou três que balizam a dura intervenção de José Eduardo Ferreira: Não é admissível que os Fundos de Coesão da UE sejam desviados do verdadeiro objetivo de promover a coesão nacional. A região espera que lhe devolvam o que lhe vem sendo retirado de há muitos anos a esta parte; Não é admissível que as áreas de Lx e Pto, com 6% da população, recebam 50% dos fundos estruturais; Não é admissível que a região seja excluída do Plano Estratégico 20-30; Não é admissível o que se passa com o regadio. Remendar o tradicional não é solução, sobretudo nesta região da melhor maçã do país – provavelmente da Europa e do mundo. E é grave olhar apenas para o Alqueva; Não é admissível que a Linha do Douro continue sem investimento e que o IC26 não entre nas contas do governo para benefício desta vasta região centro/norte do país. 



Mas quem ouviu depois o concerto de Jorge Palma – excelente por sinal – certamente reteve os versos da canção «A gente vai continuar»:
Enquanto houver estrada para andar
a gente vai continuar
enquanto houver ventos e mar
a gente não vai parar
Quem escutou este refrão final de Jorge Palma, sem grande dificuldade pode associar os versos do cantor às palavras duras ditas por José Eduardo Ferreira, para chegarem aos ouvidos moucos do governo. O apelo ficou…e a gente não vai parar! A maçã e os vinhos não são um conto de fadas e não consta que a «Branca de Neve» perceba de economia. 


António Bondoso
Jornalista (CP.150 A)
14 de Setembro de 2018. 



2018-09-14


EXPODEMO 2018 – UMA RENOVAÇÃO PERMANENTE.
A «Expodemo», a par das «Jornadas de Cidadania», é talvez o expoente máximo da «centralidade» que Moimenta da Beira tem vindo a buscar de há uns anos a esta parte e que tem tido tradução particularmente nas áreas da Saúde e do Ensino. 


José Eduardo Ferreira, o atual Presidente da Câmara que vai cumprindo o seu último mandato, tem procurado cimentar essa centralidade de uma forma muito dinâmica, lembrando os fatores da «proximidade, legitimidade, lealdade e humildade» para a liderança da região que Moimenta da Beira deve assumir. Como tem vindo a realçar, ou a região se desenvolve em conjunto…ou poderá vir a desaparecer igualmente em conjunto.
Uma nota que tem pautado a sua atuação como líder do município é o reconhecimento do esforço de cada um – individualmente ou de forma coletiva – nas empresas e nas mais diversas instituições. E isso, como tem repetido, constitui o maior estímulo à sua atividade enquanto servidor, em condições especialmente difíceis. Há uns tempos, dizia-me não ter encontrado resistências nem más vontades. Pelo contrário, frisou, «vejo em todos uma grande vontade de seguir em frente, de ultrapassar as dificuldades e também uma enorme compreensão relativamente às dificuldades por que passamos. Quero tributar um sentido reconhecimento a todos quantos empurram, todos os dias, em condições tão difíceis, a vida para a frente». 



E esta edição do certame que deu vida a Moimenta e à região, apresenta – como todas as outras – algo de novo. A «maçã» e os «vinhos e espumantes» continuam como tema central, mas a decoração das ruas está diferente. No cartaz cultural o destaque vai para a presença de Jorge Palma, mas há igualmente uma coreografia inédita produzida pela “Dança Criativa”. O programa comporta também a estreia de uma prova de resistência BTT «Terras do Demo» e não deixará de ser notada a presença de 10 jornalistas de sete nacionalidades (Hungria, França, Estados Unidos da América, Reino Unido, Eslovénia, Espanha e Portugal) que já se encontram no concelho. Os dez profissionais de comunicação social pertencem à Federação Internacional de Jornalistas e Escritores de Vinho (FIJEV).


António Bondoso
Jornalista (CP.150 A)
Setembro de 2018.

2018-08-07


UM LIVRO DE VEZ EM QUANDO… NESTE ANO DE 2018 [3].
A ALMA DE UM POVO…ou de como as memórias publicadas/partilhadas podem ajudar «um povo de fé e um povo de trabalho», a encontrar ajuda e motivação para, valorizando o passado, trilhar caminhos de futuro sustentado. 


Pe José Salvador, Lurdes Jóia e Teresa Adão

A ALMA DE UM POVO…ou de como as memórias publicadas/partilhadas podem ajudar «um povo de fé e um povo de trabalho, um povo de paz e de respeito, um povo de saudade e de gratidão, um povo que ama o seu passado histórico, um povo de partilha e solidariedade, um povo de migração» a encontrar ajuda e motivação para, valorizando o passado, trilhar caminhos de futuro sustentado. O povo a que se refere o Pe. José Salvador, que prefaciou o livro de Lurdes Jóia – editado pelas Edições Esgotadas – é o povo da freguesia de Castelo, concelho de Moimenta da Beira.
         Ao apresentar a obra da «castelense» Lurdes Jóia, o Padre José Salvador identificou há dias o problema da desertificação – e dos principais apêndices – como uma das grandes causas do esquecimento. Do fecho da «escola primária», com duas salas cheias de crianças, à diminuição – para mais de metade – dos que têm vindo a frequentar a catequese em Castelo, José Salvador autorizou-se a pedir aos castelenses, não só de nascimento, para que regressem sempre e passem aos seus filhos a «cultura» da terra: toda a história, com as suas tradições, os seus costumes, os valores humanos e patrimoniais. 

Lurdes Jóia, também em dia de Aniversário

Lurdes Jóia – ela própria um antigo produto da emigração – praticamente responde ao apelo do Padre Salvador expondo boa parte da sua vida privada neste «estudo» [pois de um “estudo” se trata, embora não referenciado como tal] sobre Castelo. E depois, inclui o que de mais significativo existe sobre lendas, contos e história dos monumentos da freguesia. No fundo, a autora escreve sobre as vivências e sobre a herança de um povo cuja alma tem raízes «nas vozes do tempo». Apesar de todas as transformações, as que melhoraram e as que subtraíram, Lurdes Jóia diz que a essência da «aldeia» é a mesma, a alma permanece intacta. E a sua riqueza provém dos corações das pessoas, que são de uma simplicidade única.
         Numa região da Península (Ibérica) que os Mouros dominavam até ao Douro, diz a autora que apareceu na segunda metade do séc. IX uma povoação que recebeu o nome de Santa Maria de Lobazim, mais tarde dividida em duas aldeias – Castelo e Nagosa – ambas incorporando hoje o concelho de Moimenta da Beira. Embora não referenciando as suas fontes, Lurdes Jóia acrescenta que, no séc. XIII, o nome de Lobazim «começou a ser substituído por Castelo, de onde os frades de Salzedas recebiam muitos foros de pão, vinho, cera, cabritos e dinheiro», situação que se verificaria ainda em 1598. E refere que ainda existe a casa onde moravam estes frades em Castelo.
         A autora, que fez publicar em 2015 o seu primeiro romance O universo do amor o poder da paixão e que hoje reside e trabalha em Braga, fez notar na sua dedicatória ao meu exemplar do seu livro agora em apreço «CASTELO - A ALMA DE UM POVO»…que o sonho seja uma constante da vida! É esta ideia que Lurdes Jóia destaca igualmente já na parte final da obra quando escreve que a natureza «tem pensamento, tem o seu mistério, é o mistério da vida, (…) é uma constante da vida, a vida de uma aldeia, a alma de uma terra. Da minha terra…». Feliz da terra que encontra alento no esforço dos seus filhos. E que a alma se eleve Lurdes Jóia. Um abraço do                    
António Bondoso


Parte da assistência no Salão Nobre do Centro de Dia de Castelo

António Bondoso
Jornalista
Agosto de 2018. 


2018-08-02

UM LIVRO DE VEZ EM QUANDO…NESTE ANO DE 2018. [2]
Ou de como um Professor que eu conheci em S. Tomé – José Casinha Nova – se vai transformando num verdadeiro contador de histórias e num perspicaz «gravador» de memórias, do Algarve a Timor…e talvez S. Tomé e Príncipe. 


Falar de ou escrever sobre UMA VIDA INTEIRA será sempre, e sob qualquer ponto de vista, transmitir uma visão redutora da riqueza humana e patrimonial da aldeia algarvia de Burgau – o último posto avançado do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, já muito perto da cidade de Lagos onde nasceu Tibúrcio, o principal personagem desta obra em apreço, da autoria de José Casinha Nova.
         Casinha Nova, ele próprio natural de Burgau, freguesia de Budens e concelho de Vila do Bispo, foi meu professor de Literatura no então Liceu de D. João II, em S. Tomé, na segunda metade da década de 60 do século passado. Foi igualmente docente em Portimão e em Faro, depois de haver cumprido o serviço militar em Timor. Esta ex-colónia portuguesa, aliás, mereceu já uma reflexão do autor não há muitos anos. Memórias de Timor – assim está referenciado – é um excelente livro de consulta sobre o passado deste novo país de língua oficial portuguesa e destaca a paixão que o território lhe ofereceu titulando RAN MÉAN ÔTU, que significa O SANGUE É TODO VERMELHO.
         Agora, neste seu Uma Vida Inteira (vertida na experiência dos seus preenchidos 84 anos), José Casinha Nova regressa às origens ficcionando a vida de uma típica família algarvia do início do século XX, no seu espaço social, económico e cultural que é Burgau, na sua história e nas suas «estórias», nas suas lendas e nas suas memórias. Não lhe poderei chamar uma «autobiografia», pois o autor não assume a obra como tal, mas a “ficção” é tão real, tão pormenorizada, que – confesso – essa ideia continua a perpassar a minha reflexão.
         Para além de historiador, Casinha Nova assume o excelente trabalho de um retratista e paisagista ímpar, não deixando igualmente – nunca – a sua eterna condição de professor. Não só pela qualidade da escrita, claro, na qual não esquece o tradicional falar algarvio, mas também pelo facto de «valorizar a Escola». Como? Por meio de uma cerrada crítica ao funcionamento da época. De pedagogia, nem falar! O professor «debitava» e os alunos – aqueles afortunados por poderem frequentar – tinham por missão decorar. E quando não decoravam…os tradicionais castigos corporais. Havia uma sala com alunos da 1ª à 4ª classe, uma só professora e nada de aquecimento no Inverno. E depois, o corolário dos retratos de Carmona e de Salazar com o cartaz de Deus, Pátria e Família. Os livros tinham todos grande carga política – escreve Casinha Nova. Para além das alusões a Salazar, havia igualmente «uma abundante prosa de religião católica». Não admira, portanto, que os alunos faltassem às aulas «para ir para um canto da praia jogar às cartas com outros rapazes analfabetos, pois os pescadores de Burgau não punham os filhos na escola». 


Sem pretender desvendar a narrativa, não parece curial esquecer a localização geográfica de Burgau. Podem sempre acompanhá-la na figura anexa, mas o autor encarrega-se de lembrar: «A aldeia de Burgau fica situada exactamente na extremidade sul da famosa Costa Vicentina a oeste do Cabo de S. Vicente que dá nome à dita Costa e tem a particularidade de, embora pequena, estar dividida entre duas freguesias, a da Praia da Senhora da Luz, concelho de Lagos, e a de Budens, concelho de Vila do Bispo». Vista do mar, ao longe – prossegue Casinha Nova - «Burgau lembra uma gaivota pousada em dois estaleiros, o da Teimosa e o do Burgau Velho. As patas da gaivota são duas ruas quase paralelas que vão terminar nos tais dois estaleiros».
José Casinha Nova, exímio retratista das muitas histórias e memórias, acaba por convidar o leitor a viajar no tempo, conhecendo uma povoação pesqueira algarvia antes do advento do turismo de massas. E consegue-o, não só pela palavra, mas também pelas imagens que ilustram profusamente a obra. Pela parte que me toca mais, o destaque da grafonola – pois nesse tempo nem a Rádio existia. E fazer funcionar a grafonola só por meio de uma manivela para dar corda, uma vez que nem eletricidade havia. E depois há o mar, a pesca, a poesia e os tempos difíceis da II Guerra Mundial.
         Uma Vida Inteira é, portanto, um desfiar de estórias e de memórias a partir de Tibúrcio e da sua mulher amada Aldegundes, ele um homem de visão empreendedora, ela uma mulher resoluta, dedicada e empenhada na manutenção do espírito familiar.
         Quem ler, por certo perceberá como o autor foi capaz de me injetar o gosto pela leitura passando primeiro, claro, pela «obrigação» de o fazer. Já lho manifestei, e volto a repetir, a Casinha Nova devo muito do meu gosto pela escrita. E embora não fosse um aluno muito aplicado, recordo hoje como foi decisiva a fórmula por ele «inventada» para nos «obrigar» a ler e a perceber. Simplesmente criou uma «ficha de leitura», na qual deveríamos resumir a obra indicada e autorizada pelo sistema. É só ver a figura.
         E não perca a oportunidade de, lendo o livro, ficar a saber o destino de Tibúrcio e da sua família, não apenas em Burgau. É UMA VIDA INTEIRA, dada à estampa pela Arandis Editora. Boa leitura e um abraço muito particular ao Professor José da Conceição Casinha Nova, ficando à espera do próximo relato sobre S. Tomé e Príncipe. 


António Bondoso
Jornalista
Agosto de 2018. 


2018-08-01

A MINHA RÁDIO HÁ 51 ANOS.
Alguns dos que passaram…ainda me falam de Rádio.
“A Rádio é um instrumento de Liberdade porquanto é um apelo permanente à Criatividade”.


 O texto que segue foi escrito o ano passado. E como eu não gostaria de ver, este ano, o comunicado da CT da RDP - hoje integrada no grupo RTP - que anexo. Apesar de tudo, a RDP ainda é uma das Rádios com Gente Dentro.

«Houve um tempo em que, também em Portugal, se podia citar com orgulho o pensamento do publicitário Bob Schulberg: “Se a televisão tivesse sido inventada antes, a chegada da radiodifusão teria feito as pessoas pensarem: - Que maravilhoso que é a Rádio! É como a televisão, só que nem é preciso olhar!”
Encarar o futuro não pode deixar no esquecimento a importância do passado e, porque as incertezas são imensas, é preciso encarar o presente com muito realismo. Anunciada ciclicamente – televisão, internet, era digital – a morte da “rádio” tem vindo a ser adiada, não por milagre, antes pelo combate e pelo empenho na capacidade de adaptação aos novos tempos. E de muitos que ainda lá trabalham com empenho e com profissionalismo. Mas não bastam as novas tecnologias, não é suficiente “arrumar” tudo ou quase tudo no disco rígido de um moderno computador. É preciso que a rádio volte a estar com as pessoas e que tenha gente dentro! Que seja capaz de pensar e de refletir e que saiba provocar no auditório a capacidade de dialogar, discutir serenamente e reagir aos desafios.
Não basta que a evolução tecnológica aconteça e seja bem aproveitada. É fundamental dar-lhe conteúdo. E sonho!
Quando sinto e penso em todas as montanhas que ainda não subi; em todos os rios que ainda não naveguei; nas matas densas onde ainda não me aventurei; nos desertos secos de vida qua ainda não dessedentei; em todas as viagens que ainda preenchem os meus sonhos... e quando sei todos os sonos que ainda não dormi e em todas as madrugadas a que cheguei atrasado e não vi nascer o Sol para além do infinito que imagino – mesmo sem ouvir a Onda Curta a que me habituei no transístor Sony de nove bandas, companheiro de viagem sempre que saía do país em reportagem ou em férias.
         E neste ano…como recordo com emoção o início da minha atividade no Rádio Clube de S.Tomé e Príncipe em finais de 1967. À experiência, primeiro…com retribuição de 250 escudos depois, sempre subindo etapas, aprendendo diariamente com os mais velhos: Carlos Dias, José Maria Rocha, Victor Dias, Carlos Cardoso, Victor Nobre, Raúl Cardoso, Daniel Pinho, Manuel Sá, Firmino Bernardo, Mina Malé. Dois anos depois – e após algumas peripécias – chegava a Emissora Nacional. E novos camaradas que me foram passando conhecimentos, como Fernando Conde, Sebastião Fernandes, Guilherme Santos, Manuela Borralho e Maria Emília Michel. Alguns destes já passaram…mas, para mim, ainda continuam a falar-me de Rádio. Com serenidade, sem pressas – quantas vezes a pressa é má conselheira – com entusiasmo, com responsabilidade. E ouço, continuo a escutar. E muitas vezes não aprecio o que me transmitem. Melhor dizendo – a forma como me transmitem. Mas há momentos de consolo e de prazer. Felizmente ainda há alguns, que me chegam sobretudo pelo meu transístor. Ou no automóvel quando viajo.
Sem memória não há História! E depois, como dizia o jornalista “Sam Ridley” – investigador criminal na londrina City Radio[1] - “A rádio não depende de imagens, e essa é uma das razões porque gosto dela. O olho pode ser um órgão muito enganador”.
13 de Fev. de 2017
António Bondoso



[1] - NILES, Chris. OS MORTOS NÃO FALAM NA RÁDIO. Bertrand, 2003.



António Bondoso
Jornalista
1 de Agosto de 2018.
Não menosprezem a Teodora. Este é um aviso sério…logo agora que eu atingi as setecentas publicações no meu blogue. Não é que eu faça disto uma festa e deite foguetes. O blogue chama-se «Palavrasemviagem» e, como tal, a pressa não é um atributo. A escrita tem o seu tempo.



A propósito do BE vomitou-se ética por aí. Depois discorreu-se sobre o co1mbate aos incêndios com mangueiras obstruídas da GNR. Bastaram poucos dias para tudo se (re) compor com a cátedra do Passos e com o futebol de novo – agora proeza dos Sub-19. E, de repente, à «inteligência» dos nossos média escapou o terrível aviso da Teodora a propósito da depressão, ou recessão, que não vai demorar cinco anos.
A TEODORA É MESSIÂNICA? NÃO…diz apenas o que os «Donos Disto Tudo» pretendem. O FMI disse uma, duas, três vezes…mas isso não chega. A “proximidade” é muito mais intensa. E quando soam as campainhas do Conselho das Finanças Públicas…é música para os nossos ouvidos.
Os donos disto tudo – a alta finança – ligam tudo no mesmo circuito e sabem gerir o dinheiro. Ora tiram aqui para emprestar (?) ali…como e quando lhes convém. O défice, ou melhor…o (des) controlo do défice (e por mais que digam que não) está intimamente ligado à recessão. E desta à chamada bancarrota é um passinho. Depois aparece uma «Troika», os chamados agiotas, e dizem que vieram para salvar a situação. Selecionam a dedo os países e as regiões. E os seus «homens de mão», normalmente os políticos da direita empedernida, fazem eco desse medo anunciado. Pelo meio, acontecem as chamadas oscilações climáticas – que eles negam – provocando amiúde catástrofes de um sentido trágico incomensurável.
E a Grécia, acabadinha de sair do pomposo Procedimento Por Défice Excessivo, tal como Portugal em 2017, viu-se agora confrontada com uma tragédia terrível. Semelhante à que atingiu Portugal o ano passado. Mesmo que as pessoas já tenham esquecido…«eles», os Donos Disto Tudo, a Troika, a Alta Finança, encarregam-se de lembrar a «populaça».
E depois, para distrair, acrescentam – ou fazem acrescentar – uns pozinhos para emprestar alguma graça. Por exemplo…a água em Marte. Mas há mais:
Ex-assessor de Trump cria grupo para enfraquecer União Europeia
Steve Bannon, ex-estrategista político do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o ativista anti-UE Raheem Kassa criaram uma organização política com sede em Bruxelas com o objetivo de enfraquecer e, por fim, paralisar a União Europeia, disseram os dois à Reuters.

Perseguições, torturas e assassinatos: a direita avança na Colômbia

O presidente recém eleito da Colômbia, Iván Duque, fez sua campanha com base no discurso de ódio contra a esquerda e os movimentos sociais. Mais de uma vez afirmou que faria ‘trizas’ [deixaria em farrapos] do Acordo de paz com as Farc. Ele nem chegou ao Palácio de Nariño e a direita já avança sobre os movimentos sociais com perseguições, torturas e assassinatos.
E a Venezuela? Por favor, não deixem cair em saco roto as premonições da D. Teodora Cardoso. Não se queixem.
António Bondoso
Jornalista
Julho de 2018

2018-07-24

UM LIVRO DE VEZ EM QUANDO…NESTE ANO DE 2018.
Da beleza natural do cair da noite…à poderosa lindeza das palavras entrançadas do santomense Albertino Bragança – um «paisagista» nato.  


Ponderado na escrita e na seleção das ideias, pode dizer-se que este «Homem», que já era «doutor» antes da literatura, adotou um «leve-leve Q.B.» na sua produção literária, procurando antes a certeza do impacto e a previsão do sucesso em cada título dado à estampa.
O cair da noite, nos trópicos, é um fenómeno de rara beleza. E cheio de vida, ao contrário do que se possa imaginar. A melodia dos mais diversos sons (o fascínio do regresso a casa dos papagaios, na Ilha do Príncipe, por exemplo), as cores do sol poente, a tonalidade das águas do mar, um cenário idílico. S. Tomé e o Príncipe não fogem à regra. Mesmo que depois a “noite fique cerrada e chuvosa”, como o autor escreve na primeira frase do primeiro capítulo desta sua obra de 2017 – AO CAIR DA NOITE!
Paisagista nato, como disse, verdadeiro conhecedor da Natureza das Ilhas e da natureza dos seres humanos que as habitam…Albertino Bragança começa por não esquecer o secular «boato», mais recentemente também designado por “rádio boca a boca”, um mal enraizado desde sempre e que, não raras vezes, terá estado na origem de alguns conflitos célebres – como por exemplo a chamada “crise do censo”, quer na época colonial, quer já no período pós independência. O boato está precisamente no cerne do enredo da obra em apreço.
Político experiente e conhecedor dos meandros sensíveis da vida dos gabinetes ministeriais – o autor desempenhou nomeadamente o cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros – a temática alimenta todo o romance, destacando-se a conciliação entre o ministro Virgílio Carvalho e o diretor de serviços João Sabino, cujas famílias andavam desavindas há décadas, precisamente na sequência da crise do censo. Em contraste com essa atitude, a intransigência de um Primeiro-Ministro que havia exigido a distribuição de lugares apenas para funcionários das suas cores, independentemente da sua competência.
Trata-se de um romance, é ficção, e desta história não poderá retirar-se qualquer «semelhança com a realidade», pese embora a liberdade de os leitores conduzir as suas ideias para um determinado alvo.
Contudo, não deixa de ser verdade que a reflexão de Albertino Bragança aponta para o desejo de pacificar a sociedade santomense, inclusivamente no que respeita às «famílias partidárias». Mas o respeito pela nobreza do exercício da atividade política não pode pressupor o aniquilamento da capacidade das oposições para o «combate», embora se admita um enfraquecimento temporário.
Confesso não estar na minha ideia inicial transformar a essência desta apreciação literária num eventual «debate» político, muito menos partidário. Retomo, por isso, outros pontos de vista que despertaram o meu interesse neste «Ao Cair da Noite» e, dada a minha proximidade com as Ilhas, notar desde logo a minha identificação com algumas expressões superiormente utilizadas pelo autor. Há quanto tempo eu não lia/ouvia a palavra “estacar”! E Albertino usa a expressão por mais do que uma vez neste livro. Tal como utiliza expressões do português corrente falado à «moda terra», enriquecendo a narrativa: “Gente só precisa saber se você ainda quer sua mulher ou não. Só assim gente pode saber qué que gente faz”. Ou esta perspetiva de uma festa de arromba no aniversário do avô Júdice: “Ambiente vai ficar ele próprio! É feriado, ninguém não pode faltar. Você Já!...”. E fá-lo tão naturalmente como nos brinda, em simultâneo, com a beleza e leveza do mais puro léxico na língua de Camões, dando corpo à sua veia de paisagista nato: “Olhou de relance pela baixa janela o tempo magnífico que fazia lá fora, o vento balouçando delicadamente os ramos das árvores e tornando mais amenos os efeitos dos raios de sol, num lírico início de tarde como apenas a gravana pode proporcionar”. E se não valorizam esta, posso oferecer-vos outra, convicto de que não quebro qualquer regra deontológica. Pelo contrário, pretendo despertar o interesse na leitura da obra: “Sumia a tarde, mas redobrava de vigor o rumorejar do vento nos terrenos anexos ao grande quintal. A noite aproximava-se sem demasiada pressa, como se pretendesse contemporizar-se com a réstia mortiça do sol despedindo-se lá longe, na fímbria estreita do horizonte”.
Ao Cair da Noite, de Albertino Bragança, para se deliciarem. 


António Bondoso
Jornalista
Julho de 2018.