quarta-feira, 25 de maio de 2016


***** Neste Dia de África, quero deixar-vos mais um texto. Sobre um país Paraíso, Poético e sobre um Jovem são-tomense em busca da Felicidade. 

MEU TEXTO DE APRESENTAÇÃO – “A MINHA PALAVRA”!
LUDGER (NOBRE DE) CARVALHO – S. Tomé e Príncipe.
V.N.CERVEIRA – 30 Abril 2016 – PORTA TREZE (XIII)



Boa tarde a todos.
Sou grato por estar aqui, nesta função, por um bom punhado de motivos.
Confesso que não sei de quem partiu a ideia (embora desconfie)... mas para mim é uma enorme satisfação falar de STP; estar junto de um são-tomense; conviver com amigos de STP. Rever o amigo Alfredo Vieira; rever os meus particulares amigos de VN de Cerveira – alguns de muito longa data. Tão longa, que já se perdem no tempo as memórias da luta pela afirmação turística e cultural de Cerveira – que resultaram no que é hoje um ex-líbris do concelho, da região Norte e do país: a Bienal de Arte. Igualmente tão antiga essa memória da aproximação com a vizinha Galiza – cuja realidade se percebe hoje na existência do chamado Eixo Atlântico.
Acresce...o gosto de revisitar este lugar – a Porta XIII – uma porta aberta à cultura.
***** Devo dizer, por outro lado, que não hesitei quando fui contactado – embora não tivesse ainda lido o livro em questão e apesar de não conhecer o seu autor, o Ludger. Apenas uma vaga ideia de que o nome NOBRE DE CARVALHO estaria provavelmente relacionado com o de um funcionário público são-tomense que foi Chefe de Gabinete de Pires Veloso durante o processo de transição para a independência (74-75)... (VER REFERÊNCIAS EM ESCRAVOS DO PARAÍSO...pgs 38 e 68)
....ainda uma lembrança ligeira de um Nobre de Carvalho que estudou no Porto e jogava futebol no Rio Tinto .... e que falava habitualmente com a minha camarada já falecida Arminda Viana ( ambos trabalhámos na Rádio, quer em S. Tomé, quer depois no Porto, já em 1975.
...Talvez seja este Nobre de Carvalho, que viria a ser médico, um primo de que me falou o Ludger.   
(Nobre de Carvalho é o sobrenome que herdei do meu pai José Luís da Silva Nobre de Carvalho, vulgo Ovideo.
A minha família é da zona de Madredeus e de Boa Morte.
Talvez conheça o médico Nobre de Carvalho que trabalhou aqui em Portugal, sou primo dele.)




***** SOBRE O LIVRO – que é o que mais interessa agora:
A capa tem por base uma belíssima foto de um pôr do sol são-tomense...MAS os poemas do Ludger são universais. Tão universais, quanto a linguagem do Amor e da Felicidade. Por isso, situam-se muito para além das Ilhas. Apenas uma referência concreta, no poema MINHA MUSA (PG63)...QUANDO ESCREVE:
”Em Lisboa, passamos a nossa lua-de-mel.
De lingerie preta, estavas uma deusa.
Na Praia Gambôa, comprei o nosso anel.
És a minha musa.”

***** logo a seguir um poema sobre África, no qual destaca a figura incontornável de Nelson Mandela e fala do que chama “continente mãe” como o futuro da humanidade.
Antes disso, na pg 23, MENINA MORENA é um poema em que Ludger aborda levemente a temática da negritude, quando escreve sobre cabelos encaracolados daquela terra distante... assunto que prossegue em A LUZ DO DIA (na pg.39) dizendo:
 “E no brilho achocolatado da tua negritude”. Dos teus lábios grossos/ aos teus arregaçados olhos/espelha a dimensão do teu amor.
Ainda um tema aflorado no poema AFRICANA, (pg41), com os versos:
Africana, tu és a flor / que quero ter no meu jardim.
****** AQUI... lembrei-me de repente do poema VISÃO de Caetano da Costa Alegre, do seu único livro VERSOS – editado pela primeira vez em 1916 – assinalando-se assim o seu centenário.
         Vale a pena retermo-nos por instantes neste poeta – que eu chamo de PRIMEIRO GRANDE POETA SÃO-TOMENSE  - mas que tem sido como que menorizado pelos académicos que estudam as literaturas de raiz africana.
         Vejamos alguma semelhança (EMBORA NÃO PRETENDENDO COMPARAR, naturalmente) com aqueles primeiros versos do poema AFRICANA, de Ludger:
                                         VISÃO...  ( dizer...

***** portanto... temos aqui quase como que um caminho paralelo entre CAETANO DA COSTA ALEGREA e LUDGER CARVALHO: anotadas as diferenças de época (no século 19 S. Tomé fazia parte do espaço português – hoje é um país independente), ambos se deslocam para Portugal a fim de estudar. E também a coincidência da região Centro (Coimbra, Leiria, Pombal)...
Infelizmente, a doença muito cedo levou Costa Alegre.
Esperamos e desejamos uma longa vida a Ludger Carvalho.
Para quem a POESIA... é uma quadra, um soneto, uma oitava, A poesia não tem teto!
            E se a Poesia de Costa Alegre – a sua condição de Poeta – era a de um ser sofrido e a de viver na sua pátria abandonado (COMO ELE DIZ NO SUE POEMA O VATE...)...os Poemas de Ludger Carvalho manifestam o amor (mesmo com dor); e a felicidade: Não é um poeta interventivo, de crítica social. Mas não deixa de estar atento ao que o rodeia – como veremos:
                    Felicidade é a palavra de ordem/ a alegria é a dieta da vida – escreve em SOMOS TRÊS. E depois, em A MINHA PALAVRA – poema que dá título ao livro – Ludger Carvalho afirma todo o seu amor pela mulher que escolheu:
                                      (DIZER...


O preço da felicidade é incalculável.
Está entre a linha do entendimento,
Entre um abraço e aperto de mãos.

Nos bons dias das manhãs,
Nos beijos dos apaixonados,
E no vai correr tudo bem dos que nos amam.

Como em toda a água do oceano,
E toda a terra firme da Terra
É indispensável à vida.

A tua felicidade é merecida.
Sê feliz!

A Minha Palavra
·         Data de publicação: Março de 2015
Este livro tem portanto um ano.
E em um ano, como escreve o autor no seu Blogue A MINHA PALAVRA,
Em um ano tudo acontece
Em um ano realizamos sonhos
Em um ano concretizamos objectivos, 
Divergimos em ideias que para mim não foram as mais acertadas, mas foram para ti e vice-versa.
Em um ano vimos que o sacrifício é preciso para não sermos apenas mais um sem ideias, sem rumo.
E para se Ser Feliz é preciso dar o próximo passo.
Em um ano aprendemos que SER FELIZ é melhor que TER FELICIDADE!
Em um ano conhecemos novos lugares e novas pessoas:
- Pessoas que se encaixam aos nossos propósitos e compartilham as nossas ideias. Com elas caminhámos paralelamente e sabemos que temos alguém presente.
- No sentido contrário, existem pessoas que pensamos "a tua presença é materialmente descartável", apenas pensamos, pois as palavras tendem a contradizer o que já foi pensado. 

NUM MUNDO INJUSTO E MATERIAL, OS IMATERIAIS PERDURAM NA FELICIDADE.

****** PARABÉNS LUDGER NOBRE DE CARVALHO....
E CONTINUA A SER FELIZ!
António Bondoso
V. N de Cerveira, 30 de Abril de 2016.



António Bondoso
Jornalista



LIVRO GOLUNGO ALTO. De JERÓNIMO PAMPLONA.
MEU TEXTO DE APRESENTAÇÃO – DIA 23 MAIO 2016 – PORTO, na UNICEPE.


Bom final de tarde...Uma boa noite a todos.
Estamos a 2 dias do Dia de África...o que – de certa forma – confere a esta sessão uma oportunidade particular. Para falar de África, claro!
***** Há um ano...perguntava eu no meu bogue ONDE FICA A ÁFRICA?

E dizia que, numa altura em que há como que um “toque a finados” nesta União Europeia cada vez mais em deriva, também não é sem apreensão que vemos ouvimos e lemos sobre ÁFRICA. As televisões encarregam-se de nos mostrar diariamente. E um dia destes, a 25, celebra-se aquele que pretende chamar a atenção para os inúmeros problemas – claro – mas igualmente colocar em destaque as potencialidades desse terceiro mais extenso continente e segundo mais populoso do mundo…e do qual fazem parte cinco países que têm como oficial a língua portuguesa:- Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique e S. Tomé e Príncipe.(...)

Há poucos meses, voltava a lembrar que, sobre ÁFRICA, não há contradição entre ESQUECER E LEMBRAR!
A verdade é que, pela história, seremos eternamente confrontados – quer dicotomicamente, quer pela dialética – com esta questão!
Esquecer…não é matar a memória. Pelo contrário…é preciso dar vida à memória, para que não sejamos assaltados pela melancolia pesarosa ou por uma nostalgia perniciosa. É preciso perceber e aceitar os outros, aceitar a verdade dos outros e os avatares da história.
De África, como vamos ver, não chegam apenas REFUGIADOS ou NOTÍCIAS MÁS, tal como não chegam apenas matérias-primas.
De África também vem parte da História – muito da nossa história – vem conhecimento e encantamento, encantamento que mata saudade... como acontece com
o livro que aqui nos traz hoje... ANGOLA NOUTROS TEMPOS – POR TERRAS DO GOLUNGO ALTO E DE AMBAQUISTAS.



Rapidamente...poderia remeter-vos para o PREFÁCIO (do antropólogo Paulo Fernandes) no qual se pode ler “estarmos perante um livro de reflexão histórica e cariz sócio antropológico. Sobre o relevo, as dimensões e a substância do devir da África nas suas particularidades e particularismos”.
OU ENTÃO PARA um texto do meu camarada Manuel Rodrigues Vaz – editor jornalista, escritor: Idealizado para ser uma simples evocação da vila angolana Golungo Alto e das suas gentes doutros tempos, este livro aparece enquadrado num projeto mais lato, que passou por uma retrospetiva da História Geral de Angola, numa síntese tão bem organizada como articulada”.
Ou poderia remeter-vos igualmente para o posfácio...no qual o próprio autor destaca e resume as seis partes da obra:
“Na primeira parte abordo a “chegada” dos portugueses a Angola.
Na segunda parte descrevo as personagens e o estatuto dos Ambaquistas e dos Assimilados.
Na terceira parte centro-me na vida económica e social do Golungo Alto em meados do século XX.
Na quarta parte, num estilo em que a paródia prevalece sobre a sátira, revisitando mais de 25 anos, conto 42 “estórias/piadas”, que ocorreram em diferentes lugares de convívio e que são aqui compiladas.
Na quinta parte narro seis contos, no estilo que poderá chamar-se
de “short stories”.
Na última parte percorro, num “rally paper imaginário”, as ruas do Golungo Alto visitando lugares que nos fazem recordar afetos e emoções vivenciadas”.
Perante isto, praticamente pouco me sobraria para dizer.
Contudo, e porque é de bom tom, tendo aceitado esta tarefa (PARA ALÉM DO PRESTÍGIO, DEVO JUSTIFICAR OS HONORÁRIOS) DEVO DIZER QUE é de toda a justiça... ACENTUAR que o livro está muito bem escrito, literariamente rico mas acessível... E ACADEMICAMENTE muito bem estruturado. UM ESTUDO muito completo, sem ter o caráter obrigatório de uma Tese. SIMULTANEAMENTE é um livro de memórias, de saudade – sem, contudo, transmitir nostalgia.
            Numa linguagem reveladora de uma SERENA FRONTALIDADE, estas páginas encaram a História como ela foi – sabendo nós como é fácil julgar a história aos olhos da realidade de hoje.
É, PORTANTO, uma obra em que os factos históricos enquadram e conferem substância a uma série de CRÓNICAS, de contos breves e de historietas – como diz o autor – escritos com alegria, HUMOR, paixão, romance com erotismo QB...: Como por exemplo no Conto 5 “AROMAS TROPICAIS”:
“Um pouco afastados de terra, nadaram lado a lado, mergulharam e boiaram. Quando voltaram à posição vertical a Lú postou-se frente ao Dani, muito próxima, fitou-o nos olhos, duma forma dengosa, e o desejado aconteceu: beijaram-se sofregamente - um beijo ardente e prolongado.”
Há também política, claro, a controvérsia da Guerra... e não falta o Futebol, numa série de historietas contadas ao jornalista Bergeron*, do jornal A Província de Angola:
*) Desde o início que o nome me faz lembrar o meu camarada Joaquim Berenguel, Radialista em Angola (Rádio Clube de Malanje) e que depois trabalhou aqui na RDP, em Lx, no Pto e finalmente em Bragança.
            Era através desse Rádio Clube de Malanje que o Grupo FINA FLOR DE GOLUNGO ALTO (gente solteira ou com a mulher aqui no “Puto”) se deliciava aos domingos a ouvir a rubrica dos DISCOS PEDIDOS ao longo da semana, enquanto degustavam uma valente churrascada e saboreavam umas CUCAS bem geladas.
Estamos a falar desta região do Golungo Alto e de Ambaca, Malanje, Samba Caju, Camabatela, Rio Lucala, Rio Cuanza...mas devo dizer que, histórias como estas, há-as mais ou menos parecidas em muitas outras regiões de Angola.
            A personagem do Freitas de Cacanga (Adulcínio Freitas)...pode ser recontada em dezenas/centenas de lugares – confirmando a imagem “empreendedora” daqueles que desbravaram o sertão angolano. É bom reter a agilidade com que o Freitas conseguiu motivar cidadãos e autoridades para a instalação de água canalizada, energia elétrica e de uma escola em CACANGA – ali a meia dúzia de Klms de Golungo Alto. (PGS 142-144).
            Para ali – para aquela região - foram no início da década de 1950 uns tios meus América e Acácio Bondoso (ele motorista de pesados) acompanhados dos filhos João e Fernando; também Palmira Bondoso e Honorato Cardoso (no início capataz numa plantação de cana de açúcar) mais 2 dos filhos mais velhos, o Toli e o João Luís – tendo ali nascido outros 3 - e estiveram em Camabatela, Samba Caju, Samba Lucala, Cacuso, sempre à espera que o café amadurecesse na Fazenda Ginga, acabando por ser Luanda o destino final da aventura angolana na passagem do ano de 1959 para 60.
E o João Luís (que hoje está na Austrália) ainda se recorda do nome da Professora Maria Paula, em Samba Caju, e da Igreja dos Capuchinhos, em Samba Lucala, onde havia sessões de cinema. E de uma viagem com o pai, atribulada, na picada até Makela do Zombo...sofrendo furos em excesso.A solução foi usar – depois de substituído um dos pneus – muito capim, muito capim, muito capim nos outros pneus para substituir as câmaras de ar furadas.

            É que a penetração no interior não foi nada fácil. A dificuldade da língua – OU DAS LÍNGUAS – e a escassez de colonos. Poucos, sem mulheres e sem escolas. E em LUANDA, por ex, em 1846 – já muito próximo da Célebre e Trágica Conferência de Berlim – em Luanda havia 5 mil habitantes e 100 tabernas, para 144 casas de 1º andar, 275 casas térreas e 1058 cubatas.
            Lê-se por aqui que nos séc. 17 e 18, sobretudo depois da expulsão dos Jesuítas, chegou mesmo a acontecer a KIMBUNDIZAÇÃO dos portugueses. E que já em 1620 tinha sido publicado um CATECISMO em Kimbundu.
            A INVERSÃO SÓ ACONTECE, e numa dimensão reduzida, já na segunda década do séc. 19, com a chegada de uma nova vaga de emigrantes da metrópole e também muito pelo esforço dos chamados AMBAQUISTAS.
É um dos capítulos mais interessantes desta obra:
Quem são/Quem foram os AMBAQUISTAS? COMO FORAM INFLUENCIADOS...E COMO EXERCERAM A SUA INFLUÊNCIA...?
Resumindo a investigação do autor...pode dizer-se que os AMBAQUISTAS constituíram uma elite luso-africana, independente dos SOBADOS e consolidada no séc.19, que teve uma origem muito heterogénea – com negros (mesmo antigos escravos), mestiços e alguns brancos. Nos seus antepassados europeus houve conquistadores, soldados, comerciantes e degredados. A sua ambição de saber ler e escrever levou-os a partilhar a influência dos dominadores coloniais – com o objetivo de a poderem depois exercer junto das sociedades tradicionais africanas, tanto a nível económico como político. Foram considerados os mais importantes intermediários na correspondência entre os chefes angolanos e as autoridades coloniais. Falavam, escreviam e ENSINAVAM o português, para além do seu próprio dialeto ou de uma língua franca africana – no seu caso, o KIMBUNDU.
No final desse séc.19, o número de “Ambaquistas” era calculado em 10 mil, muitos deles dispersos um pouco por todo o território, assumindo inter-relações culturais e sociais com todas as etnias do território.
O exemplo mais conhecido é o da colónia ambaquista na Mussumba, residência dos reis lunda (atualmente República Democrática do Congo). Foi aqui que o seu fundador e dirigente, Lourenço Bezerra Correia Pinto, um ambaquista oriundo do Golungo Alto, conhecido por Lufuma, deu aulas de língua portuguesa, leitura, escrita e aritmética básica, no período de 1865 a 1885. A colónia terá sido fundada em 1859, tendo desenvolvido uma intensa atividade artesanal e agrícola.
OS AMBAQUISTAS tiveram igualmente peso nas caravanas das rotas comerciais e até em expedições de investigação e conhecimento. Como por ex: essa ligação “costa a costa”, entre 1804 – 1814, com Pedro João Baptista e Anastácio José – 2 nativos luso-africanos, que foram ao serviço dos portugueses e foram identificados como tal. Ficará bem, por esta altura, relembrar um poema de Arnaldo Santos em “A Casa Velha das Margens”
O DESTERRO DO AMBAQUISTA
Escrevo de nenhures
De meu coração
Oiço as batidas.
É esse
O meu único chão
O pó
Em que existo
E onde preces e sonhos
Tenho erguidas.
É esta
A Ambaca antiga
Que carrego em mim
Em palavras
E vidas
Com que os espíritos Lhe reclamam.
É este
O meu solo Materno pátrio
No qual busco a cidade
E me consolo.
Os Ambaquistas faziam questão de assumir e de realçar o seu “estatuto especial”... trazendo-me à memória o caso de Macau. A importância decisiva que tiveram os MACAENSES na relação entre a Administração portuguesa e a comunidade chinesa. Exatamente porque falavam as duas línguas – no caso, o português e o Cantonense.
E não querendo abusar da vossa atenção e da vossa paciência, para além das notas históricas sobre a Colonização, o Choque de Culturas, e a Escravatura... PARA ALÉM DOS ASPETOS MUITO PARTICULARES DA CONSCIÊNCIA CÍVICA E POLÍTICA DOS PORTUGUESES DE ANGOLA – sobretudo no Sul, com a FUA, em Benguela, em 1961, fortemente reprimida – mas já antes em Luanda, em 1948, com o aparecimento do MOVIMENTO DOS NOVOS INTELECTUAIS DE ANGOLA, com jovens negros, mestiços e brancos... há esse relato delicioso sobre a rainha Njinga também conhecida como DONA ANA DE SOUSA ( depois de batizada em Luanda já com 40 anos de idade, ela que terá nascido em 1582...), tendo sido nomeada ainda como MUENE NZINGA MBANDI.
Considerada como pioneira do sentimento nacionalista angolano... OS PRIMEIROS REGISTOS sobre NZINGA/NJINGA datam de 1621 – altura em que terá sido enviada a Luanda pelo seu Chefe e Irmão para negociar a Paz com os portugueses.
            Terá conseguido renegociar o número de escravos a transacionar, mas não foi bem sucedida no seu objetivo de obrigar ao desmantelamento do Presídio de Ambaca – uma fortificação fundamental para o avanço colonial no território. Entre 1641 e 48 foi aliada dos holandeses para guerrear os portugueses, mas só viria a capitular em 1656, tendo falecido em 1663, já com 81 anos de idade.
            Há traços reveladores da personalidade da rainha Njinga, neste relato do livro de Jerónimo Pamplona, relacionado com aquela missão diplomática de 1621: (PAG.44)
O episódio teve lugar na visita que fez ao Palácio do Governador vestida, como era seu hábito, com uma bela capa escarlate sobre os ombros e um finíssimo pano de musselina elegantemente preso à cintura por uma cinta de camurça, cravejada de diamantes e outras pedras raras. O governador recebeu-a sentado num cadeirão alto, quase um trono, tendo reservado para a Njinga uma almofada, debruada a ouro, sobre um sedoso tapete.
A Rainha  Njinga deu ordens a uma das suas escravas para que se ajoelhasse e sentou-se sobre o dorso da servidora. Aquele gesto marcou o tom do encontro. No final da visita o governador estranhou que a embaixadora não chamasse a escrava que se mantinha imóvel sobre a almofada. A Rainha riu-se. Deixaria a escrava, retorquiu. Não tinha por hábito usar o mesmo assento mais do que uma vez.
Quanto à origem do nome de Golungo Alto, a história é mais ou menos idêntica tanto neste Livro de Jerónimo Pamplona como no Dicionário Antonito: COROGRÁFICO-COMERCIAL DE ANGOLA de 1959 – 4ª edição: há na região um antílope (muito semelhante à Seixa e ao veado) de seu nome africano : - NGULUNGO (porco raro, especial).  O termos ALTO – vem das montanhas da zona.
Terá passado a prato típico da região, depois de se ter verificado uma peste suína muito gravosa.
O GOLUNGO ALTO é terra de gente ilustre na história de Angola, onde nasceram gradas personalidades angolanas como o famoso Cónego Manuel das Neves, que foi um dos principais impulsionadores da luta de libertação nacional, os dirigentes políticos Mário Pinto de Andrade e o seu irmão Joaquim Pinto de Andrade e à qual estiveram sempre ligados figuras como o poeta António Jacinto, o dirigente político Lopo do Nascimento, o escultor José Rodrigues bem como os seus irmãos António Jacinto Rodrigues, notável arquiteto paisagista, e Irene Guerra Marques, grande figura da cultura angolana.
E na hora de fechar, lugar ao poema RECORDANDO, de António Jacinto, precisamente dedicado ao GOLUNGO ALTO:
RECORDANDO
Oh! Meu Golungo em que a floresta assume
Graças infinitas; doce perfume
Que o Zenza lendário vem beijando
Recordando fatal amor tão nefando!
Zenza caprichoso, me vens contando,
Quando sereno te estava fitando,
Uma história de louco ciúme,
Numa noite de vibrante ciúme.
Em que Ela, embalada, terna e amante
Em meus braços, chorosa e anelante
Me jurava amor eterno. Tão querida!
Este poema está acompanhado de umas breves notas explicativas da Poetisa angolana Ana Paula Tavares: No verso 1: Floresta, alusão à Reserva Florestal de Golungo Alto. Versos 3 e 5: Zenza, alusão ao rio que banha a região de Golungo Alto. Verso 9: Ela, alusão à terra Golungo Alto.
António Bondoso
Porto, 23 de Maio de 2016.


António Bondoso
Jornalista

domingo, 1 de maio de 2016

NESTE DIA:
QUE BOM QUE É FALAR DA MÃE.


Falar da mãe é perceber uma recordação doce de um sorriso contagiante. É a memória que guardo antes de qualquer dor, é a lembrança que retenho antes do sofrimento da partida. Falar da mãe é um sussurrar baixinho antes do rompante do pai – quando os deveres se afastavam de mim e eu deles, provocando o caos no que se dizia correto. A mãe sempre se interpôs entre um direito de circunstância e um dever natural. A mãe que protegia, a mãe que aconselhava, a mãe preocupada...sempre! Muito para além dos sentidos, desejos e previsões. A mãe do carinho, a mãe da advertência, a mãe do chinelo em riste para corrigir o mal feito, a mãe que assumia as dores de um filho a crescer, a mãe do amor, a mãe da amizade, a mãe mulher completa no calendário dos dias, dos meses e dos anos que foram passando a correr...e se finaram tão cedo. Falar da mãe é ter presente a falta. Falar da mãe é entender um tempo outro, em que a ordem pouco sentido fazia. A mãe e a horta, a mãe e a cozinha traduzida num arroz-doce único, a mãe e a camisa branca de domingo, a mãe e os sapatos a brilhar antes de um mergulho na piscina velha, a mãe que percebia a fuga ao cantarolar da tabuada, a mãe que tolerava a ausência de uma missa no calor asfixiante do domingo. Falar da mãe é saber que uma carta de palavras poucas valia a fortuna de uma nota de cem escudos a caminho do sul de Angola, onde o crescimento natural se completava no serviço militar obrigatório preparado a preceito e sem preconceitos. Foi uma mãe à qual devo palavras de louvor, que não soube e não pude transmitir no tempo certo. É uma mãe especial pela bondade da criação nessa ilha longe no meio do oceano do mundo. Não digo que tivesse sido a melhor mãe do mundo. Foi apenas mãe – a minha. E que eu amei e respeito em memória! E que hoje se completa com a mãe do meu filho – igualmente amada e respeitada em vida! Tal como recordo saudoso a sua mãe - uma outra que tive a sorte de ter, embora também por tempo curto. 


E NESTE DIA, AINDA...
SER MÃE…É IR ALÉM:
Às vezes é tudo tão óbvio, quantas delas as ideias parecem repetir-se, em muitas ocasiões pensamos que já não temos palavras, em circunstâncias diversas o discurso apresenta-se fosco, por muito que o sentimento nos comprima o peito – nem sempre conseguimos ter voz para exteriorizar o bater do coração.
Pode acontecer até que o cruzar do imperfeito leve amiúde a situações de conflito. Sentimentos de posse e de libertação, de proteção por excesso e de afirmação da independência – quantas vezes não colidem. Mas é apenas um momento mais ou menos prolongado. Tarde ou cedo há um gesto de carinho a selar o «normal funcionamento» da relação.
Por isso é que eu digo que – ser mãe…é ir além! De tanta coisa! De tanto como ser filho! Aceitando, percebendo, compreendendo, perdoando, amando com humildade. É único! E por isso é um desafio…

Grato à Carminda Carmim por ter selecionado este poema sobre o Dia da Mãe, para mostrar na Santa Casa da Misericórdia da Trofa. 

António Bondoso
Jornalista


terça-feira, 26 de abril de 2016

O IMPORTANTE É CONTINUAR A REVOLUÇÃO HOJE:
Um abril todos os dias...
...Um 25 sempre! Também em Moimenta da Beira. 

Foto de Ant. Bondoso

         Quarenta e dois anos depois de 1974, é gratificante perceber que ainda há imaginação para não repetir ideias. Sendo certo que em 2016 há dois aspetos motivadores – os 40 anos da Constituição da República Portuguesa e os 40 anos do Poder Local Democrático – em Moimenta da Beira não faltaram vozes para chamar a atenção para graves problemas que o país e o mundo vão enfrentando nos dias que correm.
         A liberdade foi um tema recorrente, claro – não sendo embora um dado adquirido – destacando-se a liberdade de expressão, assunto apropriado para o tributo que o município decidiu prestar aos escritores do concelho, na casa que leva o nome do grande Afonso Ribeiro na sua terra natal, a Vila da Rua.

Foto de Ant. Bondoso

Tudo começou no salão nobre da Câmara Municipal onde Alcides Sarmento, presidente da Assembleia Municipal, deu o mote, seguindo-se representantes da CDU e do PSD a destacar a CRP, o 1º de Maio que aí vem, a coragem, a esperança e o interior assimétrico. Celebrar Abril, foi dito, é fazer o que ainda não foi feito. E a sessão terminou com o Presidente da autarquia, José Eduardo Ferreira, a salientar o significado de poder contar com todos os “escritores” – mesmo com os que não podem deslocar-se com frequência. Tivemos ontem e continuamos a ter hoje escritores notáveis – disse. E depois de passar pelos princípios e pelos valores democráticos que enformam a CRP, José Eduardo pormenorizou três grandes problemas que afetam o nosso presente – introduzindo a ideia de que ninguém vive só e que o isolacionismo não dá frutos, apenas conduz a maus resultados. Em primeiro lugar a questão da “crise das migrações”, não sendo possível que a “Europa” continue calada. É preciso voltar aos velhos valores da Europa – destacou – para ultrapassar o “radicalismo” que se instalou, baseado na falta de respostas das Sociedades organizadas. Por último, um grito de alerta para os constrangimentos que afetam os regimes democráticos, como é o caso do problema da natalidade que é fundamental solucionar a curto prazo, a fim de que não atinja o sinal de tragédia em 2050. 

Foto de Ant. Bondoso


Depois do almoço, simpática e profissionalmente servido na sala maior da Associação Cultural e Recreativa da Vila da Rua, o espaço-museu de Afonso Ribeiro recebeu populares, políticos, jornalistas e escritores para cumprir a programada e anunciada tertúlia. Dos atuais aos muito justamente apelidados de “nossos maiores”, falou-se naturalmente de Afonso Ribeiro, na presença de sua filha Lígia. Rodrigues Vaz recordou um percurso notável do neo realista que em 1938 publicou Ilusão na Morte – uma “obra de arte” na opinião de João Pedro de Andrade, na revista Sol Nascente, uma das muitas em que Afonso Ribeiro colaborou. Igualmente um percurso de combate em África – Moçambique – para onde o autor emigrou nos anos de 1950 e onde viria a conviver de perto com António de Almeida Santos, tendo ali editado a revista Itinerário.
Afonso Ribeiro dizia que a Literatura era um instrumento de atuação social, lembrando por exemplo que
Falar do homem do campo, do trabalhador da terra e 
esquecer as suas angústias inconfessadas, seus músculos doridos, seu olhar triste da tristeza horrível que nada aguarda, nada! - parece-me feio embuste.

Foto de Ant. Bondoso
António Bondoso
Jornalista
Abril de 2016



terça-feira, 19 de abril de 2016

Oi.
Já se vota o Impedimento no Senado?
Ou de como se manipula o "impedimento" de um Presidente e se golpeia a democracia.

Foto de Ant. Bondoso

IMPEDIMENTO (de um Presidente)!

Por Deus e pela Família bem mais próxima
É assim que começa a votação:

São filhos e netos
E mais bisnetos tão saudáveis
Que chegaram de pais cobertos de valores
Impolutos princípios de uma ética intocável
E de uma sólida
Inatacável moral.

Também pela Pátria imortal
Se fazem juramentos
Julgamentos
De tantos vizinhos que não sabem
Cuidar de uma nação em desespero
Ou tratar de ulcerados sem cabelo.

Vós...impuros cidadãos
Que vermelho pensais em amarelo testamento
Que fostes torturados
Em busca da liberdade
Nada podeis fazer para alterar
Cruel caminho de verde amortalhado.

Só nós...
Do Senhor poderosos instrumentos
Iluminados sacerdotes da política
Poderemos renovar os mandamentos
De tanta riqueza que perdemos
E agora a tanto ódio agradecemos.

Venha a nós toda a riqueza da nação
Que o reino dos pobres não passa de utopia.

Com cunhas dos donos disto tudo
E com toda a influência que já temos
Certamente não será pura ilusão
Reverter democracia golpeada
E com sangue até impor a ditadura
Por nós desde sempre tão sonhada!
==== António Bondoso
Abril de 2016.




domingo, 17 de abril de 2016



DO TEMPO E DO MODO...

Foto de Ant. Bondoso


O CINZENTO QUE ABORRECE…

O cinzento que aborrece
Cria angústia e não motiva
Faz pensar um tempo bárbaro
Que tortura
E permanece
Afastando o sol do mar
E a noite do seu luar.

É um tempo sem alegria
Arrasa minutos e gente
Dúvidas de um tempo cinza
Que nos rouba a felicidade
De sermos por um instante
Livres
Utopia duradoura e permanente.

Acontece
Ou pelo menos parece
Que nem sempre se merece.

===== António Bondoso (A PUBLICAR)

quinta-feira, 14 de abril de 2016

EPISÓDIOS DA VIDA...E DA MORTE!

José Bondoso e a mulher Isabel

JOSÉ BONDOSO
Assim, tal e qual, só um nome e o apelido – era preciso poupar no registo – tal como os irmãos, todos filhos de Maria José Andrade e de António de Almeida Bondoso, à exceção do mais novo que viria a ter direito ao sobrenome da mãe.
José Bondoso, que ia a caminho do 95º aniversário e foi um aficionado da caça e do “tiro aos pratos”, cedo rumou ao calor africano chegando a S. Tomé em 1949. De noite, como me recordou há uns anos, e com carta de chamada de sua irmã Palmira e cunhado Honorato Cardoso, que viviam e trabalhavam na Trindade. Ali perto ficava a Roça Monte Café, seu destino inicial. Contudo, acabaria por ficar na cidade capital da Ilha a exercer o seu ofício de barbeiro numa casa que mais tarde arrendaria por mil escudos mensais ao proprietário Mota.
Na sua qualidade de barbeiro, dizia-me, ia ao palácio para cortar o cabelo ao governador Gorgulho*. E só o cabelo, pois a barba fazia-a o próprio. José Bondoso tratou da imagem igualmente ao governador Abrantes do Amaral e algumas vezes conversou com o Dr. Palma Carlos, quando este lá esteve a investigar os acontecimentos relacionados com o “massacre do Batepá” em 1953.
José Bondoso exerceu a sua profissão em S. Tomé até regressar a Portugal em 1974 na sequência do processo de descolonização. A caça nunca deixou de ser uma paixão, chegando ao ponto de – na conversa – se esquecer de mexer o açúcar na chávena do café. E havia também o charuto, indispensável.
Sportinguista fiel, José Bondoso ainda praticou futebol nas Ilhas do Meio do Mundo, uma tendência que já levava de Moimenta da Beira. Aqui, a sua fidelidade ao clube de Lisboa era tal...que se recusava a vestir a camisola azul de riscas brancas do CDR. Jogava sempre com uma camisola diferente.
No seu regresso a Portugal, o meu tio envolveu-se com idêntica paixão nos meandros políticos, chegando a desempenhar alguns cargos no âmbito municipal.
Aos filhos e netos que deixa, tal como genro e noras, o meu particular abraço.
* (Do livro ESCRAVOS DO PARAÍSO, 2005. António Bondoso e MinervaCoimbra). 

Foto do CDR
José Bondoso - o 2º, de pé, a contar da esquerda 
António Bondoso
14 de Abril de 2016