2017-07-12


UMA CERTA INDEPENDÊNCIA QUE CHEGOU A S. TOMÉ E PRÍNCIPE HÁ 42 ANOS. 

Composição fotográfica de Miguel Bondoso


UMA CERTA INDEPENDÊNCIA QUE CHEGOU A S.TOMÉ E PRÍNCIPE HÁ 42 ANOS.
“Independência é uma coisa bela
E santa, mas é preciso compreendê-la!”
(Marcelo da Veiga, Amadora – 20/07/63)
                                                                         
É um facto para celebrar, sem qualquer ponta de dúvida, independentemente das ilusões e das pedras no caminho, muito acima de qualquer reação menos positiva sobre a evolução do processo da construção do novo país. Nunca há apenas uma rota segura, há bifurcações que conduzem a determinadas políticas, sempre tendo em conta a conjuntura de amigos e de parceiros, sempre tendo em conta o momento político específico de cada região e/ou da chamada comunidade internacional. Determinadas opções são válidas para cada um dos momentos. Realismo, diz-se. Mas há ideias e atitudes que não podem ser maculadas num país moderno, como por exemplo os direitos fundamentais dos cidadãos e o sentido de responsabilidade – individual e coletiva.
         Por muito que perceba as desilusões, e compreendo-as porque as sinto igualmente na democracia portuguesa, não me revejo em qualquer tipo de atitude balizada pela ideia de luto. O desânimo posso aceitar, mas é fundamental nunca desistir da luta pelos valores essenciais como a liberdade e a democracia participativa. Cidadãos ativos precisam-se, embora não seja fácil. Nunca é fácil. Permito-me citar a propósito um excerto de um texto de Solange Salvaterra Pinto no facebook:  
É o nosso país.
Porque raio vamos enterrá lo.
As pessoas que enterro, tenho umas saudades que doem....
Não quero estar dorida por causa do meu país.
Meu São Tomé e Príncipe que amo.
Que amas.
Que amamos, apesar dos pesares.
No dia 12 vou festejar com toda a garra os 42 anos ........
Façamos nos próximos 42 , algo que nos possamos orgulhar.
O nosso legado será esse.
Tornar STP um lugar melhor para os nossos filhos.
Esse é o nosso compromisso.
A nossa obrigação.
A nossa tarefa maior.
         Parabéns ao país por mais um aniversário soberano, um abraço fraterno a todos os cidadãos de S. Tomé e do Príncipe – particularmente aos amigos que me acompanharam em cada um dos anos que vivi no paraíso, mesmo aqueles que já partiram deste mundo.
         Escrevi no meu livro ESCRAVOS DO PARAÍSO, de 2005, que “De S. Tomé, a ilha que divide o mundo, diz Francisco Tenreiro que é a ilha «…dos cafezais floridos e dos cacaueiros balançando como mamas de uma mulher virgem». Do Príncipe de Maria Correia e da Praia do Precipício, escreve Marcelo da Veiga que é ali «…onde florescem palmas e cacaueiros e têm murmúrios doces os ribeiros”. Apesar da distância e da circunstância, estas são imagens que nunca perderão a essência. O país vale por si. Só é preciso seriedade e competência para fomentar o desenvolvimento.
         Voltando a Marcelo da Veiga e ao seu poema “Independência”, de 1963, deve reter-se a ideia de que
Independência não é
Vadiar, viver sem respeito;
Por tudo bater com o pé
E inchar, qual balão, o peito.
Independência não é cada um
Fazer só o que quer: comer, dormir,
Não sentir por ninguém respeito algum
E beber marufo até cair.
Atualizando e contextualizando, podemos sempre recorrer ao Hino de S. Tomé e Príncipe – um belo poema de Alda Espírito Santo – no qual se repetem palavras como combate, dinamismo, trabalhando, lutando, vencendo. E trabalhar e lutar é Cultura. Como Cultura é esforço e é respeito, a arte de pensar e de fazer. Como Cultura é imaginar e ousar, é o estudo e o saber, é beleza e simpatia. Como Cultura é sentimento e emoção, é amor e amizade, alegria e sofrimento. Como Cultura é o turismo, a arte de saber receber como sabe o povo de S. Tomé e do Príncipe. Como Cultura é a pesca e a agricultura. Como Cultura é não perder o cacau e é renovar o aroma do café. Como Cultura é ser livre e ter liberdade de expressão. Como Cultura é enfrentar o presente mas não idolatrar o petróleo. Cultura é ter orgulho de ser de STP…em qualquer ponto do mundo.
         S. Tomé e Príncipe é hoje um PEID – Pequeno Estado Insular Em Desenvolvimento – e que sobrevive em grande medida da ajuda externa e há muito ligado à panaceia do petróleo. Como já disse a jornalista e poetisa Conceição Lima, “Com ou sem petróleo, é minha opinião que se deve apostar em sectores como o turismo e o mar, cujas potencialidades são consensualmente reconhecidas hoje”.
         É exatamente esse mar que eu ainda hoje imagino, quando «olho o horizonte, sentado nesse espaço infinito entre a areia e o mar»; ou quando Albertino Bragança diz «pressentir que existe algo de espantoso e de belo nesse mar», lembrando lugares míticos como as sete pedras e a praia das sete ondas»; ou de como Inocência Mata descobriu há uns anos que «a sua memória de STP está ligada aos lugares que se metaforizam no Atlântico – esse mar que gera do sol o calor humano que a recebe no país».
         Parabéns S. Tomé e Príncipe. Que o presente seja digno e que o futuro seja feliz e risonho.

Imagem da Web

António Bondoso
Jornalista
Julho de 2017. 

2017-05-25



NESTE DIA DE ÁFRICA...É BOM SABER QUE “ÁFRICA NÃO É APENAS UM LUGAR, É UM SENTIMENTO… 
Figura da Web


 “ÁFRICA NÃO É APENAS UM LUGAR, É UM SENTIMENTO
…E só alguns de nós fomos tocados por ele!”
                                                                                      Ashley Gerrand

Certamente todos ou quase todos sabem onde fica a ÁFRICA! No coração do mundo…se tivermos bem presente a cartografia.
O que talvez nunca tenhamos interiorizado…é que há MUITAS ÁFRICAS! E muitas Línguas: É impressionante!
Com 54 países, a África possui 2092 línguas faladas, número correspondente a nada menos que 30% dos idiomas em todo o planeta. Além das duas mil línguas, estão presentes mais oito mil dialetos
A quantidade de línguas faladas na África supera provavelmente a de qualquer outro continente. O árabe é predominante entre as nações da costa do Mediterrâneo. Línguas derivadas do banto são faladas por grande parte das populações subsaarianas. Nos grandes centros urbanos de alguns países é comum adotar-se a língua dos antigos colonizadores europeus, como o inglês, o francês, o espanhol e o português.
Esse sentimento, que felizmente me tocou, tem vindo a obrigar-me, sobretudo nos últimos anos, a uma reflexão sobre o dilema ESQUECER E LEMBRAR!
Haverá contradição? Embora possa parecer…veremos que não existe! E a verdade é que, pela história, seremos eternamente confrontados – quer dicotomicamente, quer pela dialética – com esta questão!
Esquecer…não é matar a memória. Pelo contrário…é preciso dar vida à memória, para que não sejamos assaltados pela melancolia pesarosa ou por uma nostalgia perniciosa. É preciso perceber e aceitar os outros, aceitar a verdade dos outros e os avatares da história. 
E OUTRA COISA:- de África não nos chegam apenas “refugiados”!
Portanto…o desafio é este: por um lado, esqueçamos os filmes idílicos sobre África. Lawrence da Arábia, África Minha, Fiel Jardineiro, Amor sem Fronteiras, por exemplo. Esqueçamos livros como As Verdes Colinas de África, de Hemingway…Um Lugar Dentro de Nós, Adeus África, ou Uma Fazenda em África. E é sempre bom lembrar, por exemplo – reconhecendo o sabor a sangue e a ambição desmedida – outros filmes como O Senhor das Armas, Hotel Ruanda, Diamante de Sangue ou Crianças Invisíveis.
Em qualquer caso…Esqueçamos África, vista pelos olhos eurocêntricos. Mas, por outro lado, seja-nos permitido lembrar a busca do conhecimento propiciada pela era dos descobrimentos – recordando que se assinalaram recentemente os 600 anos do início da expansão. Podemos até lembrar Camões ou as missões científicas de Silva Porto, Hermenegildo Capelo ou Roberto Ivans uns séculos depois…mas esqueçamos, definitivamente, os Impérios de países europeus em África! Ou melhor, não deixemos de lembrar as atitudes menos próprias, as condutas erradas, indignas e violentas desses impérios – como o desenvolvimento da escravatura humilhante, por exemplo.
E não devemos deixar de lembrar, igualmente, os genocídios mais recentes do Biafra, do Ruanda ou do Darfur…
Numa outra perspetiva, e apesar de tudo, tenhamos sempre presente figuras como Santo Agostinho, Senghor, Wangari Maathai, Lumumba, Nyerere, Eduardo Mondlane, Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Aristides Vieira, Kaunda, Kenyatta, Selassiè, Samora Machel, Desmond Tutu, Nelson Mandela…De outro modo, não deixemos de lembrar – pelos piores motivos – nomes como Bokassa, Francisco Macias Nguema, Idi Amin Dada, Habib Bourguiba, Sékou Touré, Mobutu, Robert Mugabe…
Fundamental é que – sabendo que esquecer não significa o mesmo que varrer para debaixo do tapete – ainda assim é bom esquecer a África da Conferência de Berlim, em 1884/1885 – na qual 14 países redesenharam o Continente onde tudo terá começado, sem ter em consideração as fronteiras linguísticas e culturais estabelecidas. Antes dessa data, 80% do continente africano era dominado por chefes tribais. Basta recordar que, em finais do séc.XVIII, a “estrutura política” variava entre reinos, impérios, cidades-Estado, e outras linhagens de clãs e aldeias, resultado de inúmeros movimentos migratórios associados à sobrevivência, à religião, à cultura, ao poder e ao comércio. Mas bastou um século para se assistir a uma notável transformação do continente, fruto de uma expansão de modernidade com base em fatores exógenos – particularmente as armas de fogo, que alteraram significativamente os conceitos de estratégia militar e de ocupação dos espaços.
E nesse período houve até um reino/império…por onde passou o navegador e explorador Sancho de Tovar (que alguns identificam mesmo como espião!)…império que floresceu entre os séculos 15 e 18 – numa região banhada pelo rio Zambeze e cujo território hoje se pode situar entre o Zimbabwe e Moçambique – o Império de Monomotapa. De tão curioso – e talvez até pelas ligações que mais tarde se verificariam a propósito do Mapa Cor-de-Rosa – seria objeto de uma obra de Ana Maria Magalhães e de Isabel Alçada “ NO CORAÇÃO DA ÁFRICA MISTERIOSA”. Ouro e marfim foram as riquezas que elevaram e derrubaram esse império. Como outros casos inumeráveis.
E ainda hoje se encontram no topo das Relações Internacionais os problemas diretamente ligados à exploração das riquezas africanas – matérias-primas de caráter vital para muitas potências. Isto, apesar de – entre os 10 países mais pobres do mundo – 9 serem africanos. E de, entre estes, se encontrarem a Guiné-Equatorial e S. Tomé e Príncipe, países inseridos na área da lusofonia/CPLP e ambos com a palavra “PETRÓLEO” gravada na agenda mediática.
O caso é que, nos dias de hoje (pese embora o eterno acordo entre a CEE/União Europeia com os países designados como ACP), o pêndulo do relacionamento está nitidamente a desviar-se para a Ásia: - primeiro foi a China [que até criou há pouco mais de uma dezena de anos o Fórum de Macau para desenvolver as relações com os países «lusófonos»]…e agora, com muitos anos de atraso, está a ser a Índia a promover essa aproximação. Dois dos países BRICS a recentrar o eixo da política internacional.
A União Europeia, apesar da sua atenção/preocupação mais centrada em questões internas, no leste europeu e no próximo e médio oriente, vai tentando arrepiar caminho no que foi o seu afastamento dos problemas da África. E não só no que diz respeito aos “refugiados” ou Migrantes, apesar da recente tentativa de perceber, para resolver, esse complexo problema. Só dinheiro para os Estados Africanos não resolverá certamente. Por isso é que Federica Mogherini, [Alta Representante da UE para a política externa] diz que “o objetivo é criar oportunidades para as pessoas, proteger a vida das pessoas, lutar contra as redes de tráfico que exploram o desespero das pessoas e fazer tudo isto em conjunto”. Daí, o avanço das parcerias estratégicas.
Quero dizer eu…não impor, mas aceitar e adaptar regimes com a maior transparência possível e à medida de uma justiça universal, sem pretender ser donos da justiça ou de um conceito único de democracia. A isto chamo COOPERAÇÃO – uma atitude para a qual é fundamental rever os atuais paradigmas. Por isso, Podemos sempre incluir aqui inúmeras ideias.
Há sempre qualquer coisa de novo em África e uma aptidão constante para surpreender – diz o historiador Elikya M’Bokolo – ciente de que há muitas Áfricas.
         Apesar de tudo, apesar das imagens que nos chegam, esperemos poder continuar a ser surpreendidos. E no que diz respeito ao chamado espaço da África Lusófona – o que nos toca – continuemos a acreditar na Guiné-Bissau; reforcemos o pragmatismo de Cabo Verde; tenhamos esperança no “rio dos bons sinais” em Moçambique; não regateemos esforços relativamente a S. Tomé e Príncipe; olhemos convictamente para Angola…com Kizola (Amor) e com Kidielela (Esperança).
Segundo o Artigo 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.” Traduzido para Ovimbundu, é mais ou menos assim: - Omanu vosi vacitiwa valipwa kwenda valisoka kovina vyosikwenda komoko. Ovo vakwete esunga kwenda, kwenda olondunge kwenje ovo vatêla okuliteywila kuvamwe kwenda vakwavo vesokolwilo lyocisola.
E no princípio…o Senhor alimentou África, dando vida aos rios no continente: senegal, gâmbia, níger, congo, cuanza, kwando, cubango, zambeze, limpopo, orange, nilo…e plantou no mar as ilhas de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe, com muito sol. Lembrando a língua Xhosa de Nelson Mandela – NKOSI SIKELELE iÁFRICA (o que significa = Senhor, abençoai a África!). 
António Bondoso
Jornalista
Maio de 2017

2017-05-22

OBRIGADO NUNO...


NEM ABERTO NEM FECHADO…
…mas de espírito livre!
O meu lamento de ser pensante tanto serve para criticar a SAD azul e branca como para homenagear Nuno Espírito Santo – o homem educado e bem formado que se dispôs a transformar um plantel moribundo – e desequilibrado – numa equipa de futebol. E quase o conseguiu…embora sabendo que não havia dinheiro para jogadores de topo.  Na hora da partida, a SAD e o Clube deviam mostrar-se gratos. Mais que não seja, pelo sacrifício da tua carreira nas condições em que assumiste o cargo de treinador do FCP. Cometeste erros? Claro que sim. Mas a maior responsabilidade está a montante do teu trabalho. Que não deixou de ser excelente para uma época conturbadíssima. Obrigado Nuno. E sorte para o futuro.

Por outro lado, o meu tom amargurado [pois ainda não é o tempo de agonia], que agora manifesto, não tem exclusivamente a ver com eventuais danos colaterais próprios de uma vida marcada pela intensidade das circunstâncias de uma cidade apaixonada. E apaixonante. Não é só o meu clube que me intriga, não são os golos desperdiçados, não é a Câmara fechada, não é o azul e branco trémulo por uma vez. A mais azeda amargura relaciona-se diretamente – e sobretudo – com o cinzento da vida, com o retrocesso da esperança que nasceu há 43 anos. Porque foi bonito mudar, porque foi legítimo mudar, porque foi importante transformar, porque foi fundamental avançar! As pontes passaram a fazer sentido e daqui voltou a irradiar um forte sinal de vontade, de querer, de sentir a liberdade, de conquista. E sim…também o futebol foi nessa onda.
Mas os lugares do poder ficaram inquietos. E como sempre, bem cedo se dedicaram a estudar e a aplicar uma estratégia de regresso a um centralismo atávico, que tudo arrasta, tudo arrasa e tudo mata. Mesmo com a conivência de alguns lugares e de certos poderes locais, iluminados por uma fosca claridade de jogos egoístas, ambições mesquinhas, interesses desmedidos e concertados ou escorados em pessoas e organismos pouco recomendáveis. E tudo foi permitido, calando ou esbanjando. De um tempo bonito de abertura e de felicidade, pouco a pouco o país foi sendo coagido, chantageado, esmifrado dos valores da redenção de um Abril esplendoroso. E quase tudo se foi! Aos poucos fomos morrendo, amputados já de um frágil poder de decisão, mutilados nas convicções. E não foi o vento que quase tudo levou. Foi a fraqueza e a maldade dos homens vestidos de políticos, de juízes, de líderes de um qualquer organismo centralizado na capital. Qualquer que tenha sido a roupagem, do desporto à cultura. Depois da esforçada façanha para colocar um ponto final aos célebres “roubos de igreja”, voltou-se a um tempo em que a dignidade se pendura por uma perna e em que o caráter se enrola numa folha branqueada de princípios. Começa no Clube e na Cidade…e prolonga-se por 300 quilómetros. Voltamos a estar quase como a 24 de Abril de 1974, o Terreiro do Paço agoniza de pasmo, há um túnel da Alexandre Herculano até ao Jamor, os árbitros treinam inclinados e só se adaptam a certos campos, os ministros enviam telegramas de felicitações aos reformados que vivem abaixo do limiar da pobreza, A AR endeusa uma canção de um festival – embora internacional – a comunicação social está nas mãos e no pensamento de um pequeno grupo de iluminados e endinheirados. Não deixam que a televisão se veja, a não ser o que lhes possa parecer matematicamente favorável, não deixam que a rádio se ouça e se espalhe, a não ser a horas mortas ou de audiência moribunda.
GENTE SEM PORTE

Temos um país suspenso
Em agonia de morte,
É já a Lei que se rejeita
Por certa gente sem porte.
E sofre mais quem não suspeita
Que essa gente percebe
E até promove
Traição infame, desonra e dor.
===Pag.19 em O PODER E O POEMA.2012. Ant.Bondoso e Edições Esgotadas.
António Bondoso
Jornalista

Maio de 2017. 

2017-05-05


É preciso sentir e ter esperança. É preciso também conhecer as línguas dos outros que connosco se cruzaram. Uma vontade intemporal. 


E é pela língua que vamos…seguindo o rasto e os efeitos desse documento com mais de 800 anos – aceitando que a sua identidade plena se afirma e consolida a partir do século XV, com o desenvolvimento da expansão marítima. E vale a pena lembrar Fernando Pessoa e a presença do mar em D. Dinis: = Do poema ao rei Plantador – talvez o primeiro a projetar a aventura dos descobrimentos – diz o poeta da MENSAGEM: "É o som presente desse mar futuro, / É a voz da terra ansiando pelo mar".
Até chegarmos ao presente – vai havendo notícias de que a Língua Portuguesa é a 4ª mais falada no mundo, representa 17% do PIB em Portugal, está instalada em quase 8% da superfície continental da Terra, e o espaço dos países lusófonos significa já 4% do comércio mundial.
Pelo meio, como saberão, a Língua foi FRANCA – utilizada nos negócios, no comércio, não apenas na Europa, mas também e sobretudo no Oriente. Ombreou nos Sec. XVI e XVII com a língua inglesa …e chegou mesmo a ser falada na Corte do Reino do Sião – a atual Tailândia. Em sinal de respeito pelos 500 anos de relações diplomáticas, a Princesa Real Maha Chakri Sirindhorn, filha do rei da Tailândia visitou Portugal em 2012. Historiadora, educadora e música, foi embaixadora de boa-vontade da ONU para o desenvolvimento do Sudoeste Asiático.
Hoje, o português é a 6ª língua mais utilizada nos negócios a nível mundial e, no ano passado, estava em 5º lugar nos utilizadores da internet, com tendência para subir.
Mas a língua portuguesa foi também importante na China, servindo os portugueses como diplomatas nas relações entre os povos do sul (Cantão) e o norte (Pequim). Para além da Administração de Macau, por mais de 400 anos…a língua portuguesa é uma das línguas oficiais naquele território até 2049 (pelo menos no papel), e é hoje ensinada em mais de 30 Universidades Chinesas. É um sinal do interesse do colosso asiático na sua aproximação e expansão na África lusófona, no Brasil e na Europa – tendo mesmo criado há mais de uma década o FÓRUM DE MACAU para a CPLP.
Por outro lado, o português é LÍNGUA OFICIAL na União Europeia, na OEA – Organização dos Estados Americanos, na UNESCO – a agência para a educação e cultura da ONU, na União Africana…e o antigo 1ºMinistro da Guiné Bissau (Domingos Simões Pereira) chegou a dizer que já era altura de a língua portuguesa ser oficializada na UEMOA – a União Económica e Monetária da África Ocidental (um organismo quase exclusivamente francófono).
Lembro também que o português é a 2ª língua mais falada em Joanesburgo, na África do Sul; na cidade de Newark, em Nova Jérsia (EUA); no Luxemburgo e em Caracas, na Venezuela.
Podemos ainda dizer que a língua portuguesa é já utilizada em organismos desportivos internacionais, nomeadamente ligados às questões do controlo antidoping. O objetivo, agora, é que o idioma luso seja igualmente oficial nas Nações Unidas…mas há também outros dados importantes que por estes dias nos chegaram dos EUA e do VATICANO:
***** Nos EUA… os políticos luso-descendentes estão empenhados em criar uma rede que os una, formando um grupo de pressão. Será mais fácil defender Portugal em Washington – dizem. A FLAD (Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento) percebeu isso e criou pontes para que os políticos se unam, naquilo a que chama de "plataforma de diálogo". Ou…num inglês puro: o que designamos por lobby. Ainda não se conhecem consequências desta iniciativa, não sendo provável que o venham a ser nos próximos tempos, tendo em conta a eleição de Donald Trump. 
«Por outro lado, o Cardeal D. Manuel Clemente disse em Roma que seria "importante" uma maior valorização da língua portuguesa nos trabalhos das grandes reuniões de cardeais e da Santa Sé, "porque o português tem uma expressão grande na vida da Igreja".
D. Manuel Clemente sublinhou que a língua permite uma aproximação entre os vários cardeais lusófonos, que são agora 13, sete dos quais com direito a voto num eventual conclave.
O novo Cardeal português confessa que a nossa língua materna "ajuda muito" nos encontros entre prelados de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique e Cabo Verde, os países de língua oficial portuguesa com representação no novo Colégio Cardinalício da Igreja Católica.
"Quando falamos em português há muitas coisas que vêm ao de cima e que têm a ver com o nosso património comum".»
 “Parte do património comum da humanidade” – no dizer do Prof. Adriano Moreira; ou...como lhe chama o Prof. Moisés de Lemos Martins -  “o continente imaterial dos Oito”; ou ainda…como disse Amílcar Cabral – o idioma português foi a melhor coisa que os tugas nos deixaram!
Este espaço – este mundo da língua portuguesa – não é ficção política. Existe mesmo. É concreto e palpável. E incomoda, claro, a Francofonia e a Anglofonia.
E a sua construção é o desafio mais aliciante deste século no âmbito das Relações Internacionais …costumo eu dizer!

A língua é o cimento deste “espaço”…mas não basta saber falar ou escrever português. É preciso sentir e ter esperança. É preciso também conhecer as línguas dos outros que connosco se cruzaram. Partilhar uma vontade intemporal. 
António Bondoso
Jornalista


2017-05-01


É O TRABALHO EM LIBERDADE, É O TRABALHO EM DIGNIDADE!


É o trabalho.
Das nove às cinco ou de sol a sol – é o trabalho. Que dignifica, que sustenta, que faz mover o mundo em cada espaço que vive. E o trabalho é sempre trabalho, mesmo que seja temporário, mesmo que o vínculo entre as partes seja apenas parcial. O trabalho é um direito. O trabalho é uma responsabilidade das sociedades organizadas. Um Estado que não valoriza o trabalho…é, de certa forma, um Estado falhado. Tal como um Estado que se alimenta dos rendimentos de quem trabalha. Direta ou indiretamente. Suga, esmifra quem trabalha e o produto do feito. Foi desta circunstância que nasceu a expressão aquiliniana “Terras do Demo”. Os do fisco, de Lisboa ou a mando de Lisboa, só visitavam a “província” – nesse caso o interior beirão – vestidos com alma dos homens de fraque.
É o trabalho.
E que não se coloque o trabalho como oposição ao capital. Não é essa a questão como sabemos. O caso é a exploração desabrida do capital desumano, o problema está nesta globalização selvagem. Neste neoliberalismo que mata, mental e fisicamente. Explora, oprime e coloca o garrote na oportunidade mais certeira.
É o trabalho.
E que não se coloque o trabalho como oposição aos avanços tecnológicos. Essa é apenas uma parte da questão. Qualquer Estado de bem deve promover, ou ajudar a por em prática, a qualificação precisa para o equilíbrio sustentável. É o trabalho e a justa retribuição. É o trabalho em liberdade, é o trabalho em felicidade, é o trabalho…simplesmente. Tão importante como o ar que respiramos. E que seja um ar mais puro, o que vamos respirar neste 1º de Maio de 2017.
António Bondoso
Jornalista

2017-04-24

Foto de António Bondoso

ABRIL PODERIA TER SIDO EM MARÇO…ou de como os militares, em 1974, tiveram dificuldades em comunicar e se viram envolvidos num fogo cruzado de informação e de contrainformação, envolvendo oficiais oriundos da Academia e sendo outros milicianos. Mas o 16 de Março, garante Manuel Monge, não foi um engodo de ninguém e muito menos do PCP. A operação desencadeada pelo RI5, das Caldas da Rainha, tinha como objetivo primeiro reagir às anunciadas demissões de Spínola e de Costa Gomes pelo regime de Marcelo Caetano.
 Manuel Monge diz sentir mágoa pela situação fortuita que levou ao falhanço do 16 de Março, nomeadamente as hesitações dos Paraquedistas que – segundo ele – eram incapazes de desobedecer à cadeia de comando e que, por isso, não deveriam ter sido contactados. Foi um erro, diz o general Monge, apesar de as Ordens de Operações apenas incluírem os Paraquedistas numa situação de “reserva”. Mas garante que estava tudo preparado pelo Movimento dos Capitães, incluindo o empenhamento de Otelo e de Jaime Neves, por exemplo e de outros elementos do RI5 como Casanova Ferreira.
Para além do episódio com os Paraquedistas, Manuel Monge refere igualmente problemas de última hora com alguns dos militares do CIOE de Lamego que não puderam tomar parte na operação. No fim, acrescenta, acabou por assumir a responsabilidade juntamente com Casanova Ferreira, tendo sido presos na Trafaria. Foram libertados na tarde do dia 25 de Abril por uma unidade de Vendas Novas. Era para ter sido uma força do Batalhão de Estremoz, mas foi preciso desviar esses militares para ajudar Salgueiro Maia no Largo do Carmo.
Apesar de tudo, Manuel Monge não sente desilusão com a sequência do golpe de 25 de Abril, excetuando talvez o problema da descolonização, cujo obreiro foi Melo Antunes, num período difícil da Guerra Fria. Pior não era possível – diz o gen. Monge – que não se esquiva igualmente a criticar o que chama de infiltrações esquerdistas, nomeadamente da Marinha, cujo rosto mais visível era o de Rosa Coutinho e que “nunca fez nada para o Movimento”. Por outro lado, o já Movimento das Forças Armadas, apesar das tentativas de Spínola, não conseguiu arregimentar o poder interventivo da ONU, ao contrário do que viria a passar-se anos mais tarde com a sensibilização para a resolução do problema de Timor-Leste.
E sobre a União Europeia, o gen. Monge diz que a Organização sucumbiu atualmente aos interesses do grande capital e da Alemanha, notando igualmente que há uma gritante falta de líderes e de liderança.
A propósito do 25 de Abril de 1974, quero ainda deixar um excerto de uma entrevista que o Coronel Castro Carneiro deu em 2014 aos alunos do Instituto Multimédia do Porto Tomás Cazaux e João Farpa. Castro Carneiro, que aderiu ao Movimento dos Capitães em Angola, em 1973, foi o oficial encarregado de distribuir as Ordens de Operações do golpe pelas unidades da Região Militar do Norte (Lamego, Vila Real, Chaves e Bragança), a partir do CICA, no Porto. Nessa entrevista, aquele oficial confessa que o sigilo era fundamental. Nem a sua mulher sabia dos movimentos para que foi destacado.  

https://youtu.be/3GZPiKgRBqQ


António Bondoso
Jornalista
Abril de 2017.  







2017-04-20




DE UM TÍTULO VERGONHOSO…À VERGONHA DE UM QUASE LEVANTAMENTO DE RANCHO

Olá.
A propósito da escravatura e de uma intervenção do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, durante uma visita ao Senegal, houve por aí mosquitos por cordas no seio da corporação dos Historiadores – a quem um deles chamou um dia manipuladores do tempo – acusando o presidente de alinhar com a chamada excecionalidade portuguesa. Utilizaram mesmo o termo vergonha ou vergonhoso. Mais uma vez em causa o que os ditos classificam como mito do benigno colonialismo português, consolidado durante o Estado Novo e varrido para debaixo do tapete depois de Abril de 1974. Um dos subscritores da carta hoje publicada no DN diz até que, na escola, nunca ouviu falar de escravatura. Mas eu estudei história e sabia, independentemente de fazer ou não parte da cartilha. Além disso, não foi fundamental licenciar-me em História ou em Antropologia para perceber os contornos do processo esclavagista no qual Portugal participou ativamente.
         Olá a quem estiver a ler este pequeno texto. Nunca ouviram falar de escravatura? Egito, Roma, Grécia…diz-lhes alguma coisa? Nunca leram ou nunca ouviram falar dos escravos africanos que os colonizadores europeus traficaram para a Europa, para a América do Norte e para o Brasil? Nunca ouviram falar de Lisboa cidade negra no séc. XVI? E já foram visitar o Museu da escravatura em Lagos, no Algarve? Quem nunca ouviu falar do tráfico de escravos e da participação portuguesa nesse processo ou quem nunca ouviu falar do trabalho forçado nas ex-colónias portuguesas…levante o dedo!
         Não sei ao certo se as palavras do presidente Marcelo em Gorée, no Senegal, terão sido retiradas do contexto do discurso e em que medida! Por isso, compreendo que alguns intelectuais – em Portugal ou noutros países – se tenham sentido tocados pelo choque de uma eventual imprecisão. O que disse Marcelo? "Recordei que Portugal aboliu, pela mão do Marquês de Pombal, pela primeira vez, a escravatura, numa parte do seu território em 1761 - embora só alargasse essa abolição definitivamente no século XIX -, e que nesse momento, ao abolir, aderiu a um ideal humanista que estava virado para o futuro".
            Não é um facto que, em 1761, houve um decreto publicado? É. A lei não foi cumprida? Pelo que sempre se soube…Não! E quantas leis não são ainda hoje objeto de incumprimento em Portugal? Pouca gente liga ao que os académicos investigam e publicam? Na presente conjuntura é aceitável. Temos 500 mil analfabetos e provavelmente 3 milhões que não percebem o que leem. Somando os efeitos das crises económica e financeira, é natural que os portugueses tenham outras preocupações. Por exemplo não passarem dificuldades, morrendo de fome ou por falta de medicamentos.
         Nada tenho de pessoal contra qualquer dos intelectuais que assinaram a carta publicada no DN. Não os conhecendo pessoalmente, valorizo o seu trabalho, claro, sabendo embora quão subjetiva pode ser a análise e a interpretação dos documentos em arquivo. As verdades são de acordo com os olhos de cada um. E depois, há essa ideia de Eduardo Galeano sobre os intelectuais, que eu partilho de certa forma. Ele não se considerava um guru, nem um sábio, nem tão pouco um intelectual pois – dizia – “os intelectuais são os que divorciam a cabeça do corpo”. E a razão cria monstros, acrescentava. Por isso, enfatizava, “há que raciocinar e sentir, há que pensar e sentir, pois quando a razão se separa do coração, tudo começa a tremer”.  
Vem tudo isto a propósito de um texto da jornalista Fernanda Câncio, no Público, com um título que eu percebo mas não aceito. É verdade que tem impacto – por isso “vende” – mas o texto não retira toda a verdade às palavras de Marcelo. Por isso, a palavra vergonha…é, de facto, vergonhosa. Marcelo fez a sua interpretação de um tempo histórico. Como fazem, legitimamente, os subscritores da carta publicada no DN. Mesmo se um deles, num texto à parte, confunde tráfico…com tráfego!
Já não bastava o futebol…agora o nervosismo passou também para o campo dos investigadores/historiadores. Apesar de tudo, diz um dos subscritores da carta que Marcelo acabou por reabrir o debate sobre a matéria, o qual saiu do âmbito académico para passar às redes sociais. Por mim não reabriu coisa alguma. Aqui vos deixo excertos do que tive oportunidade de escrever já em 2005 em ESCRAVOS DO PARAÍSO. Obrigado pela paciência.
António Bondoso 






António Bondoso
Jornalista.
20 de Abril de 2017. 


2017-03-27


COMO RUFAS SANTO CONQUISTOU MARIAZINHA…CALCINHA DE RENDA – ou de como S. Tomé e o Príncipe continuam a ser musas inspiradoras dos agentes da escrita, em prosa ou em poesia. É a mulher, de cá e de lá e de todas as latitudes, que está no centro poético de mais um livro que vai ser apresentado na próxima sexta-feira na sede da UCCLA, em Lisboa.  



Rufino Espírito Santo, que reside em Portugal há 20 anos, nasceu em 1959 em S. Tomé e passou parte da infância no Riboque. Estudou, como eu – embora mais tarde – na Escola Primária de Vaz Monteiro [hoje de D. Maria de Jesus], depois frequentou a Escola Preparatória e o Liceu Nacional. Licenciou-se em Física na Universidade de Havana [Cuba], sendo posteriormente professor de Física e de Matemática nas Ilhas do Meio do Mundo.
         Com vocação para a escrita, desde jovem, Rufino Espírito Santo – que se dá a conhecer nas redes sociais como RUFAS SANTO – foi um dos laureados no primeiro concurso de literatura promovido pela UNEAS, a União Nacional de Escritores e Artistas de STP, com a obra PALAVRA PERDIDA E OUTROS CONTOS.
Após um largo interregno, e durante o qual nos habituou e brindou com excelentes textos na sua página do facebook, sob o título genérico de DELÍCIAS DAS ILHAS, Rufino Espírito Santo decidiu presentear-nos neste mês de Março, aproveitando a Primavera, com o seu livro de poesia MARIAZINHA CALCINHA DE RENDA que não é, segundo o autor, uma sequência de histórias em poesia:
São momentos de explosões nostálgicas a que mais tarde tentei dar um sentido e uma certa arrumação. Contudo, não seguiu uma arrumação lógica, deixando prevalecer a ordem ou melhor a desordem do surgimento das mesmas excepto pequenas alterações em dois casos específicos que são o par “A minha rua agoniza” e “A rua das três palmeiras” e o par “Mariazinha” e “Mariazinha, calcinha de renda” que foram deslocados e colocados intencionalmente juntos e em determinada ordem.
***Cada poema é uma história ou há capítulos diversos?
Não há capítulos embora seja possível distinguir três momentos bem definidos, pelo menos no meu entendimento: um momento de preocupação ecológica representado por “A minha rua agoniza”, “A rua das três palmeiras” e “Esse deus não é o meu deus”; o momento nostálgico representado em grande parte por poemas centrados no retorno ao passado, a infância em São Tomé e Príncipe, combinado com o presente, de algumas décadas, em terras lusas, representado por poemas como “Estação sem destino” e “Aonde vais Tejo” , por exemplo. E finalmente, um momento que tem como figura central a mulher (representado por uma Maria ou Mariazinha santomense mas cujos problemas podem abranger outras mulheres por este mundo fora) representado por “N’Oquê Mulundu”, “Mariazinha” e “Mariazinha, calcinha de renda”.
***Tem escrito textos lindíssimos em prosa. E de repente aparece este com poemas. É pela beleza da construção? É mais fácil a expressão poética?
Na realidade tenho escrito tanto em poesia como em prosa embora faça chegar ao público do Facebook, que é a plataforma que tenho usado para publicar essa forma que encontrei de brincar com as palavras e com as ideias, muito mais texto em prosa do que em poesia. Há momentos em que me dedico a contar histórias a mim próprio e a ter uma conversa prolongada mais racional e serena. Há outros momentos em que tenho uma espécie de explosão (tal como disse anteriormente) e tenho uma necessidade urgente e, digamos, menos racionalizada de exprimir determinados pedaços de mim.
***O título é uma delícia. Mariazinha domina por completo?
O título é um retorno aos tempos de garoto sem dúvidas. Essa delícia, como diz, é fruto da riqueza inerente ao espírito criativo do nosso povo, um pouco como muitas vezes tenho abordado numas publicações que tenho no Facebook com o título comum de DELÍCIAS DAS ILHAS.
Como anteriormente mencionei, o livro tem vários momentos e o poema que dá nome ao livro insere-se num deles. Mas, mais do que relatar a Mariazinha, a dupla “Mariazinha” e “Mariazinha, calcinha de renda” reflecte, numa outra dimensão, o caminho trilhado por um país que sonhava (que ainda sonha, é verdade), com uma beleza impar e de “chás” suficientes para dar respostas a todas as necessidades mas que poderá ver-se um dia à procura do “chá contra a espera engolida pelo mar”.

RUFAS SANTO dito e apresentado. Sobre o livro, apenas se levantou o véu.


Rufas Santo
António Bondoso
Jornalista
Março de 2017.

2017-03-23


ÁGUA – UM DIREITO FUNDAMENTAL
                   A propósito do dia de hoje – Dia Mundial da Água – é bom entender que o importante não é apenas celebrar mais um dia. Inquestionável como direito humano fundamental – o acesso a água potável é, contudo, muitíssimo limitado em muitas regiões do planeta. Há muito mais água do que terra firme, mas apenas 3% dessa água é, em princípio, doce e potável.



                   A desertificação de muitas regiões – também ou sobretudo por via do aquecimento global – tem vindo a gerar inúmeros problemas sociais e pode inclusive gerar conflitos insanáveis se a questão não for encarada com seriedade prioritária a nível mundial.
                   Só para uma ideia muito genérica, sabemos que há pelo menos 10 países em risco extremo, mais de metade dos quais no Médio Oriente: Bahrein, Qatar, Kuwait, Emirados Árabes, Arábia Saudita e Omã. Depois aparecem em vários índices a Líbia, o Egito, Iémen e Djibouti. Este país não tem rios perenes e só lá chove 150mm/ano. No Kuwait não existe água doce. A salvação do Egito é o Nilo, mas o rio é cada vez mais disputado por países como o Ruanda, Uganda, Etiópia e Tanzânia. O Iémen, que é um dos países com maior taxa de crescimento populacional, poderá ver secar os seus poços num prazo de 10 anos. Dessalinizar ou importar é a solução, mas os países mais pobres não o poderão fazer. E os mais ricos em petróleo é certo que gastam mais em armamento. O que não iliba a Arábia Saudita de responsabilidades acrescidas, sabendo que as guerras no Golfo têm originado graves problemas, para além da poluição química na agricultura.
                   Em Portugal, mais de 44 mil cidadãos levaram os problemas da água à Assembleia da República, em 2014, mas o Projeto de Lei 368/XII foi rejeitado pela então maioria PSD/CDS. Havia sobretudo a intenção de não ver a água transformar-se num negócio privado, designando-se o diploma como “Proteção dos direitos individuais e comuns à água”. Em 2015 houve novas iniciativas de sensibilização, mas até agora o problema não voltou a ser discutido no Plenário, pelo menos de uma forma concreta e com consequências práticas.
                   Voltando ao início, apenas 3% da água do planeta é doce. A restante habita nos oceanos e é salgada. Como vimos igualmente, a escassez tem gerado problemas complexos e poderá vir a potenciar conflitos insanáveis. Depois dos combustíveis fósseis, a falta de água doce poderá vir a tornar-se o foco de novas guerras.
                   Em 2008, elaborei e apresentei um trabalho académico sobre a questão da água, conduzindo o estudo para uma região do globo tão mágica quanto vital para a sobrevivência humana. Talvez não seja por acaso que os cientistas buscam incansavelmente água em outros planetas. Tive em conta que o chamado continente gelado é conhecido como a “última fronteira” na exploração de recursos, mas titulei, então, o meu trabalho como ANTÁRTIDA – O ÚLTIMO REFÚGIO. Numa situação de tragédia global, não poderá ser mesmo o último recurso da humanidade?
                   Fica o convite à leitura…


ANTÁRTIDA – O ÚLTIMO REFÚGIO

António Augusto Bondoso

PORTO
2008

NOTA: quando este trabalho foi elaborado e apresentado, Portugal ainda não havia ratificado o Tratado da Antártida – o que só viria a acontecer em 9 de Novembro de 2009. O instrumento de ratificação foi depositado em 29 de Janeiro de 2010.
Como se verá, o Tratado foi assinado em 1 de Dezembro de 1959 e entrou em vigor em 23 de Junho de 1961. 
                                                                          ÍNDICE
INTRODUÇÃO ………………………………………………………………..  

CAPÍTULO I – Breve História e Reconhecida Importância Política e Científica.

CAPÍTULO II – Breve Enquadramento Geopolítico ………………………….. 

CAPÍTULO III – Portugal, a Antártida e a Ecopolítica ………………………  

CONCLUSÃO  ………………………………………………………………... 

BIBLIOGRAFIA ……………………………………………………………… 
INTRODUÇÃO

                   Tendo em conta que o “aquecimento global” é um tema que vem ganhando enorme relevância de há uns anos a esta parte – sobretudo pelas ligações colaterais que influenciam a política e a economia mundiais (não será um acaso da História a recente atribuição do Nobel da Paz a Instituições e a Figuras das áreas da Ecopolítica e da Investigação ambiental) – o Continente Gelado tem sido apresentado como a “última fronteira” da exploração de recursos decisivos para a sobrevivência do nosso planeta, mesmo sabendo que as “reservas” são diminutas.
                   Quer seja pelas difíceis condições de vida, quer seja pelo ótimo campo de investigação científica – a Antártida tem conseguido ser protegida das ambições e agressões humanas, graças a um entendimento internacional consubstanciado num Tratado (datado de 1959) que define o Continente como uma zona a ser utilizada unicamente para fins pacíficos. No Atlas de Relações Internacionais, dirigido por Pascal Boniface, diz-se que a Antártida “fornece, portanto, o modelo perfeito das relações internacionais pacíficas”. Contudo, recentemente, a Grã-Bretanha reclamou, na ONU, direitos de soberania para extração de reservas de gás, minerais e petróleo – atitude de imediato contestada pelo Chile e Argentina.
                   Independentemente do desenvolvimento deste problema, o trabalho vai tentar responder a uma simples questão de partida: - será a Antártida, para além da já referenciada “última fronteira”, também o “último refúgio” da humanidade?
                   Com esse objetivo, estabelecemos três capítulos, para analisar a história do continente e a sua importância política e científica- consubstanciada no Tratado de Washington de 1959; fazer o enquadramento geopolítico da região numa perspetiva da Ecopolítica – uma das fases da arquitetura da nova geopolítica que salienta a globalidade dos direitos humanos e, por último, uma breve referência ao pensamento português sobre a Antártida – destacando as ideias de Soromenho Marques, para quem a ecopolítica ultrapassa uma simples política de ambiente.
                   Um tema complexo que obrigou a um aturado trabalho de pesquisa e que exigiu muita disponibilidade.
CAPÍTULO I

BREVE HISTÓRIA E RECONHECIDA IMPORTÂNCIA
POLÍTICA E CIENTÍFICA

A poluição do ar e da água tende a espalhar-se indiferente a fronteiras políticas. Por exemplo, o ar contaminado pela explosão nuclear de Chernobyl deslocou-se para ocidente na direção da Suécia, França, Itália e Suíça. Uma camada de ozono cada vez mais esgotada sobre o Antártico, torna todas as pessoas vulneráveis à radiação ultravioleta que provoca o cancro.   
                              Louis Pojman – Filósofo político.

A Antártida – o último continente a ser descoberto – tem uma área de 14 milhões de Km2 e representa 10% da superfície dos continentes emersos. Outrora submetido a um clima tropical, o continente está hoje praticamente coberto por uma enorme calote glaciária, cuja espessura pode atingir 4700m, e possui 90% das reservas de água doce do nosso planeta. E tendo em consideração os jazigos de ferro, cobre, carvão, níquel, crómio, cobalto, titânio, urânio, zinco, ouro, prata, platina e petróleo – é apontado como muito promissor o potencial mineiro da Antártida.
                    Um ambiente de temperaturas negativas que podem atingir os 90º não é propício a formas de vida superior, mas existem grandes quantidades de baleias, cachalotes, orcas, focas, pinguins e aves marinhas – graças a uma rica ictiofauna e grande abundância de plâncton. Contudo, a “presença” humana na Antártida fez-se notar a partir de meados do séc. XVIII, com as expedições de Lozier Bouvet e de James Cook, sendo que, hoje, as mais de 40 bases “científicas” empregam cerca de quatro mil pessoas no Verão e apenas mil no longo e escuro Inverno. Além disso, considera-se haver também já um turismo polar – representado por cerca de 40 mil visitantes – o que não deixa de ser uma preocupação ambiental, a par da “Rodovia do Gelo” (1632 Km para ligar duas estações americanas), o aeroporto de gelo australiano com 4 Km e uma base inglesa com habitações permanentes. A Inglaterra foi, de facto, o primeiro país a reivindicar o “gelo” antártico (após a IIª GM), seguindo-se a Nova Zelândia, França, Austrália e Noruega. Chile e Argentina, pela proximidade, dão como adquiridos e indiscutíveis os seus direitos, enquanto os EUA nunca reclamaram – nem reconheceram – qualquer parcela do continente, eventualmente querendo sugerir que não existe propriedade nacional na Antártida. Curiosamente, o nome da ex-URSS só aparece por ocasião do Tratado de 1959 (Washington), sendo um dos 12 primeiros assinantes. A partir da entrada em vigor do Tratado – 1961 – foi proibida toda a atividade militar e ficaram congeladas todas as reivindicações territoriais por 30 anos. Reconhecida a importância da situação, o Tratado foi renovado em 1991, pelo Protocolo de Madrid, por mais 50 anos. Considerado como exemplo de uma vontade de cooperação pacífica entre as nações do mundo, ao designar o continente como reserva natural consagrada à paz e à ciência – o Tratado desde cedo começou a ser violado: em 1962 registou-se um acidente com um reator nuclear dos EUA; em 1983, a construção de uma pista de aterragem francesa destruiu uma grande colónia de pinguins e, em 1989, aconteceu um grande derramamento de crude, provocado pelo choque de um petroleiro argentino e outro peruano. E agora, a GB reclama a possibilidade de extração de reservas de gás, minerais e petróleo, num raio de 350 milhas náuticas em frente ao território antártico chileno. Uma clara violação do Tratado, que o deputado chileno Jorge Tarud classificou de grave, apelando à sua Presidente no sentido de convocar os membros do Tratado Antártico.
                    Pelo Tratado, o interesse científico da região sobrepõe-se aos económicos, territoriais ou militares. O Antártico é um observatório privilegiado para o estudo do ambiente, medicina, biologia, zoologia e sismologia. E, apesar dos elevados custos com a investigação científica, a Rússia dispõe de 7 bases (750 pessoas), os EUA três (embora a figura do “Atlas” refira 6 para cada) - qual competição da “velha” guerra fria! – a Argentina seis, mas em ligação com a GB, Austrália e Chile; o Japão duas e, depois, vários países com uma: França, África do Sul, Índia, Alemanha, Polónia, Nova Zelândia e Ucrânia. Brasil, Peru, Uruguai e China organizam regularmente campanhas oceanográficas, tal como outros países europeus.
                    Compreender o sistema atmosférico e climático mundial tem sido uma das tarefas mais ativas, mas – desde o Ano Geofísico Internacional em 1957 – já se elaborou uma nova teoria sobre os fenómenos magnéticos e foram identificados mais de 200 minerais. Já no início deste ano, o navio oceanográfico Polarstern identificou mil espécies nas águas da Antártida. Os 52 cientistas (de 14 países) a bordo, pretendem ainda conhecer os efeitos das alterações climáticas na biodiversidade. São as “viagens do censo” no terceiro Ano Polar Internacional.
CAPÍTULO II

BREVE ENQUADRAMENTO GEOPOLÍTICO

                    Considerando uma situação limite de esgotamento de recursos naturais nas zonas já exploradas; tendo em conta o aumento das áreas desérticas na África, Médio Oriente, Ásia, Oceânia e América do Sul; sendo previsível o agravamento dos atentados ecológicos na Amazónia – poder-se-ia situar a questão da Antártida no âmbito da teoria “determinista” do espaço vital de Ratzel e da Escola de Munique. Porém, na perspetiva das novas abordagens que a disciplina determina – a Nova Geopolítica – a preservação e a salvaguarda do continente “gelado”, como vimos, constitui hoje uma das grandes preocupações da humanidade: a poluição, a par da fome e do crescimento demográfico, todas elas interligadas e relacionadas com os Direitos Humanos, a Democracia e o Estado de Direito. É a ECOPOLÍTICA, com raízes em Lacoste, Vilmar Faria e na “corrente biocêntrica” do movimento de “preservação” de François Duban – oposto ao de “conservação”.
                    As teses de Duban, que conduziram à “corrente biocêntrica”, estão impregnadas de um radicalismo profundo que elimina as reformas pontuais. Pelo contrário, se se pretende salvar o planeta, impõe-se uma verdadeira revolução ecológica, baseada em princípios como “o bem-estar e o desenvolvimento da vida na Terra; riqueza e diversidade das formas de vida; diminuição da população humana; diminuição das intervenções do homem na natureza e – ideologicamente – saber apreciar a qualidade de vida”.
                    Mas a virtualidade global destes princípios tem vindo a ser posta em causa desde os atentados de 11 de Setembro de 2001 em NY, particularmente devido a um antagonismo conjuntural entre o Ocidente cristão e alguns sectores fundamentalistas do Islão, que tomaram como inimigo a única superpotência económica e militar (EUA), após a falência do Comunismo Soviético. Por outro lado, a “Globalização” não tem conseguido diminuir o fosso entre países ricos e países pobres, não tem ajudado a construir a democracia e a evitar a corrupção, não tem evitado a conflitualidade e não tem assegurado a sustentabilidade ambiental a médio e longo prazos. Neste século, diz o Professor universitário Filipe Duarte Santos, é preciso encontrar respostas prioritárias para aquelas questões. E o que interessa – acrescenta – é saber qual vai ser a intervenção da ciência e da tecnologia nas decisões a nível individual e colectivo que irá determinar o cenário futuro para a humanidade. Neste cenário, enquadra-se por exemplo a procura de novos paradigmas para a integração global da economia com as práticas agrícolas dos países em desenvolvimento e também o combate ao aquecimento global antropogénico – cuja dimensão é incomparável com os curtos ciclos políticos dos países democráticos. Apesar da incerteza, a ciência pode ajudar neste combate, mas a questão – para Filipe Duarte Santos – está em saber se cada um de nós, em especial os decisores políticos e os governos, aproveitará as oportunidades para escolher as melhores opções, indo de encontro às teses “possibilistas” de La Blache.
                     Neste ponto, será também interessante reter a ideia de Fábio Feldmann, do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas Globais e de Biodiversidade, segundo a qual é necessário alertar para o que considera “a ignorância da ciência acerca do clima no planeta”. E sobre as “consequências dramáticas” do aquecimento global, Feldmann diz que “o mais importante é que as medidas a serem tomadas, devem ser resultado de um pacto da Humanidade”, sendo necessário encontrar uma “nova arquitetura geopolítica” que vença a resistência dos Republicanos nos EUA, dos lobbies da indústria do petróleo e dos países produtores.
                  
CAPÍTULO III

PORTUGAL, A ANTÁRCTIDA E A ECOPOLÍTICA

                  Apesar de Portugal não ter ainda aprovado o Tratado da Antártida, o nosso país – através do Comité Português para o Ano Polar Internacional – é, desde 2006, membro associado do Comité Científico para a Pesquisa na Antártida. A participação nesse organismo, facilitou a Portugal o desenvolvimento de programas de investigação e a cooperação internacional. Gonçalo Vieira, Professor universitário e investigador do Centro de Estudos Geográficos, é membro do comité e coordenou uma expedição internacional recente sobre as alterações climáticas na Antártida marítima, denominada “Permamodel” – um programa financiado quase exclusivamente por Espanha.
                  Para além do envolvimento de instituições portuguesas nesta questão da Antártida, interessa identificar o pensamento dos nossos investigadores sobre a Ecopolítica. Por intermédio da documentação que nos chegou, facultada pela Professora Drª Teresa Cierco, ressalta o nome de Soromenho Marques – para quem a ecopolítica integra uma política de ambiente, mas não se confunde com ela, porque a ultrapassa. É assim que, no conceito de ecopolítica, Soromenho Marques destaca no seu livro “Regressar à Terra” quatro pontos síntese: - o sujeito político é marcadamente plural (todos os indivíduos e todas as forças sociais); as tarefas políticas devem conter objetivos mensuráveis e métodos identificáveis que permitam conduzir à sua realização; ponderar a noção de limite na decisão política, pois o mundo é finito e o tempo é escasso; radicalizar o conceito de solidariedade, na perspetiva de que a política deve ser dirigida para todos os homens, os atuais e os vindouros. O autor, considerando a política do ambiente como “um elemento-chave de uma Nova Ordem Mundial”, inclui no seu livro “O futuro frágil” um verdadeiro paradigma da ecopolítica, encarada como dimensão da nova geopolítica: - enquanto a humanidade continuar a crescer contra a Terra, enquanto a atual prosperidade for conseguida à custa da degradação ecológica, enquanto o fosso entre ricos e pobres continuar a aumentar, não haverá uma paz duradoura e sustentável sobre o planeta.                                

CONCLUSÃO

                  Considerando que o Antártico fornece, portanto, o modelo perfeito das relações internacionais pacíficas – tendo por base o Tratado da Antártida de 1959 – está longe de ser atingida a perfeição no relacionamento entre as potências com bases territoriais naquele continente. Basta lembrar as violações (conhecidas) ao Tratado e, agora, a polémica que se instalou com as reivindicações da GB para a extração de gás e petróleo. Reagiram diplomaticamente a Argentina e o Chile; a RPChina enviou para a região o seu quebra-gelo Dragão da Neve; a Rússia enviou também o seu navio de pesquisa e quebra-gelo Akademic Fjodorow – enquanto os australianos terminaram a sua pista de aviação. Nesta questão, também não se pode esquecer a já antiga postura alemã durante a IIª GM. São as novas fronteiras da geopolítica – a ecopolítica – é a Antártida de novo cobiçada. E talvez mais do que o petróleo, do gás e dos minérios, o ouro tem o nome de “água”. Um outro e recente ponto de discórdia está relacionado com a caça às baleias de bossa (com o seu santuário nos mares da região), reivindicado pelo Japão. Para já este país, por força da comunidade internacional, decidiu suspender o projeto, mas não desiste de capturar quase mil baleias-anãs e 50 baleias comuns. Por outro lado, a Antártida tem servido de base de estudo para ajudar à conquista do espaço por parte da NASA. E essa região polar oferece condições únicas para o estudo dos mecanismos fisiológicos e comportamentais de adaptação a ambientes extremos. O aumento do efeito de estufa no continente pode provocar danos irreparáveis a longo prazo, mesmo tendo em conta a divisão da comunidade científica a esse respeito: - apesar de não estarem ainda confirmadas as suas conclusões, um recente estudo da Universidade da Califórnia diz que a Antártida parou de encolher, mas a NASA afirma ter encontrado provas claras do degelo do continente – consequência do aumento das temperaturas.
                  Mesmo não sendo previsível, a curto/médio prazos, o impacto de “último refúgio” para a Humanidade que possamos atribuir à Antártida – não deixa de ser evidente o seu papel importante na chamada “nova geopolítica”. E também é importante o seu papel estratégico, pois permite controlar os estreitos. No Atlas de Relações Internacionais, pode ler-se que uma das apostas da guerra das Malvinas, em 1982, foi a de manter o controlo do estreito de Drake, que permite o trânsito das esquadras do Pacífico para o Atlântico.       
                                   
BIBLIOGRAFIA

MONOGRAFIAS:
---BONIFACE, Pascal (Dir.) – Atlas das Relações Internacionais. Plátano Editora, 3ªedição, 2005.
---DUARTE SANTOS, Filipe – Que Futuro? Gradiva, Lisboa, 2007 .
---PEZARAT CORREIA, Pedro de. Manual de Geopolítica e Geoestratégia, Vol.1. Quarteto Editora, Coimbra, 2004 (1ªreimpressão).
---POJMAN, Louis – Terrorismo, Direitos Humanos e a Apologia do Governo Mundial. Bizâncio, Lisboa, 2007.
---Descubra o Mundo, Volume sobre Oceânia e Antártida. Direção Geral de Lourenzo Sisniega. S.A.P.E. – Clube Internacional del Libro, Madrid, 1997. Exclusivo Ediclube para Portugal.    

PUBLICAÇÕES PERIÓDICAS E EM SÉRIE:
Considerações Gerais sobre Geopolítica e Geoestratégia. Apontamentos fornecidos pela Profª Doutora Teresa Cierco, 2007.
---FELDMANN, Fábio. Rumo à Nova Arquitetura Geopolítica. Artigo de Opinião sobre Aquecimento Global, publicado em Maio de 2007 no Portal Terra, Brasil.
---Censo da Vida Marinha identifica mil espécies na Antártida. Notícia do Jornal Público, 27/02/07.
---Governo Japonês anuncia recuo na campanha de caça à baleia. Notícia do DN, de 22/12/07.
---Portugal no Comité Científico para a Investigação na Antártida. Publicado em 18/07/06, em http://caminhosdoconhecimento.wordpress.com/ e consultado em 06/12/2007.
---Português lidera estudo sobre variações climáticas na Antártida. Publicado em Fev. de 2007, em http://ciberia.aeiou.pt  e consultado em 6/12/07.
---SAMSAM BAKHTIARI, A.M. – A Última Fronteira. Artigo de opinião publicado em Junho de 2006, em http://resistir.info/  e consultado em 6/12/07.     
ANEXO:
Resumo do Tratado da Antártida. Publicado em http://fimdomundo.com/ e consultado em 6/12/07.  
António Bondoso   
PORTO
2008