2018-06-18


AO PAI LUÍS…
A MEMÓRIA NÃO É DIVINA...MAS TEM GRANDEZA.


Em vida, celebrarias hoje o 101º aniversário. Mas partiste há 24 em silêncio, pois – como diz a Tita – raramente falavas com palavras.
Sem pretender repetir-me, lembro que foste um pai perfeitamente comum, à imagem de um tempo outro, no qual os valores da existência encomendavam, porventura, uma atitude mais patriarcal.
Também não cabe aqui julgar-te à distância de uma vida. Seria como julgar a história à luz do presente. Prefiro a memória do gesto de me dares a mão a caminho dos ensaios para um dos espetáculos de variedades, ali junto do jardim da Curadoria e da Câmara Municipal de S. Tomé. Ou ainda esses “safaris” às praias da Boa Entrada e das Conchas, tal como as idas inesquecíveis à Roça Molembú.
De Moimenta da Beira sobram já as memórias de adulto, sentados à braseira na sala da Casa do Terreiro ou dois dedos de conversa à porta do Café Jardim, mas só em fotos me chega o passado da viola no Dramático do Arcozelo ou do avançado na equipa de futebol.
Em qualquer caso, não esqueço a saudade da alegria da tua presença, a saudade do sentido de humor e do riso maroto…a saudade de quem, por obra do destino, se viu desenraizado nas “raízes” e encostado a uma solidão – embora não permanente – mais espiritual do que física.
E procurando evitar grandes tiradas filosóficas...direi simplesmente que os filhos não devem servir como montra dos pais, mais ou menos perfeita ou de alguma forma defeituosa, um espelho de elogios permanentes ou de críticas mais intensas. Os filhos não devem ser um prolongamento obrigatório dos pais. Como eu não fui, seguramente, embora reconheça traços fundamentais de carácter. Por convicção…os valores da retidão.
Os pais não são eternos e, por isso, partem mais cedo ou mais tarde. E tu partiste relativamente cedo…mesmo antes de eu partir de novo em busca do meu Oriente imaginário centrado em Macau, em Março de 1994. Ao Pai que foste, avô do filho que tenho, recordo de novo alguns versos de há uns anos:
Ser pai
                                                  Ser filho                                                 
Ser filho do pai e pai do filho
É ter um sorriso de vida
A emoção de um olhar
A certeza de que estamos e que somos.(…)

Apesar de raramente falares com palavras, como diz a Tita, «eram repletos os teus silêncios. E todos nós sabíamos o significado de cada um deles». Voltaremos a “olhar-nos” um dia destes, Pai. Sempre como ontem…

António Bondoso
Filho
18 de Junho de 2018. 


2018-06-14


ANTÁRCTIDA –  JÁ LHE CHAMEI «O ÚLTIMO REFÚGIO»
Agora, que se volta a falar do Continente Gelado e do Futuro do Planeta, recordo que HÁ 10 ANOS, elaborei um pequeno trabalho académico sobre aquela região do mundo, sobretudo tendo em conta o que agora se designa por Nova Geopolítica. E escrevi, na introdução, o texto que segue, recordando o que salientou  o filósofo político LOUIS POJMAN : «A poluição do ar e da água tende a espalhar-se indiferente a fronteiras políticas. Por exemplo, o ar contaminado pela explosão nuclear de Chernobyl deslocou-se para ocidente na direcção da Suécia, França, Itália e Suiça. Uma camada de ozono cada vez mais esgotada sobre o Antárctico, torna todas as pessoas vulneráveis à radiação ultravioleta que provoca o cancro».   
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«A Antárctida – o último continente a ser descoberto – tem uma área de 14 milhões de Km2 e representa 10% da superfície dos continentes emersos. Outrora submetido a um clima tropical, o continente está hoje praticamente coberto por uma enorme calote glaciária, cuja espessura pode atingir 4700m, e possui 90% das reservas de água doce do nosso planeta. E tendo em consideração os jazigos de ferro, cobre, carvão, níquel, crómio, cobalto, titânio, urânio, zinco, ouro, prata, platina e petróleo – é apontado como muito promissor o potencial mineiro da Antárctida.





                   Tendo em conta que o “aquecimento global” é um tema que vem ganhando enorme relevância de há uns anos a esta parte – sobretudo pelas ligações colaterais que influenciam a política e a economia mundiais (não será um acaso da História a recente atribuição do Nobel da Paz a Instituições e a Figuras das áreas da Ecopolítica e da Investigação ambiental) – o Continente Gelado tem sido apresentado como a “última fronteira” da exploração de recursos decisivos para a sobrevivência do nosso planeta, mesmo sabendo que as “reservas” são diminutas.
                   Quer seja pelas difíceis condições de vida, quer seja pelo óptimo campo de investigação científica – a Antárctida tem conseguido ser protegida das ambições e agressões humanas, graças a um entendimento internacional consubstanciado num Tratado (datado de 1959) que define o Continente como uma zona a ser utilizada unicamente para fins pacíficos. No Atlas de Relações Internacionais, dirigido por Pascal Boniface, diz-se que a Antárctida “fornece, portanto, o modelo perfeito das relações internacionais pacíficas”. Contudo, recentemente, a Grã-Bretanha reclamou, na ONU, direitos de soberania para extracção de reservas de gás, minerais e petróleo – atitude de imediato contestada pelo Chile e Argentina.
                   Independentemente do desenvolvimento deste problema, o trabalho vai tentar responder a uma simples questão de partida: - será a Antárctida, para além da já referenciada “última fronteira”, também o “último refúgio” da humanidade?
                   Com esse objectivo, estabelecemos três capítulos, para analisar a história do continente e a sua importância política e científica- consubstanciada no Tratado de Washington de 1959; fazer o enquadramento geopolítico da região numa perspectiva da Eco política – uma das fases da arquitectura da nova geopolítica que salienta a globalidade dos direitos humanos e, por último, uma breve referência ao pensamento português sobre a Antárctida – destacando as ideias de Soromenho Marques, para quem a eco política ultrapassa uma simples política de ambiente.
                   Um tema complexo que obrigou a um aturado trabalho de pesquisa e que exigiu muita disponibilidade.»
António Bondoso
Jornalista
Junho 2018. 
NOTA: - Se pretender ler o TRABALHO COMPLETO, de 2008, 23 de Março, pode consultar:
https://palavrasemviagem.blogspot.com/2017/03/agua-um-direito-fundamental-proposito.html



2018-06-13

A PROPÓSITO DOS 130 ANOS DO NASCIMENTO DE FERNANDO PESSOA - O MAIOR E O MAIS COMPLEXO DOS POETAS MODERNISTAS PORTUGUESES.

Não sendo eu um estudioso de Pessoa, a verdade é que - tentando escrever Poesia e falando amiúde da função - não posso deixar de refletir sobre algumas notas daquele que foi um dos "mentores" do que viria a ser conhecido como o "V Império". E aqui deixo um excerto do que partilhei há tempos na Universidade Sénior Aprender a Viver/CES, em Pedras Rubras, na Maia. 

       Escreveu Fernando Pessoa, pela sua própria mão, aos 46 anos: "Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exacta a de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação."
         A ideia de “vocação”, contudo, não me parece consensual. A vocação, por si só, não será explicação suficiente para o que viria a produzir. Pode ter sido determinante, mas as circunstâncias da sua vivência conferiram-lhe certamente uma estrutura muito particular de pensamento.
Ao contrário dos pseudónimos, os heterónimos constituem uma personalidade fictícia, sobretudo de autores. Por isso, Fernando Pessoa não só criou outros nomes para assinar os seus textos, mas com eles criou também as respectivas biografias e personalidades. Segundo José Paulo Cavalcanti Filho, em Fernando Pessoa: uma quase autobiografia (Rio de Janeiro: Record, 2011), foram 127 heterónimos gerados pelo escritor português.
        Foi a partir de 1914 que Fernando Pessoa começou a dar corpo a Alberto Caeiro, Ricardo Reis, António Mora (abandonado), Álvaro de Campos e Bernardo Soares (prosas poéticas).
E na Carta de Fernando Pessoa sobre a génese dos heterónimos, com Introdução e selecção de Casais Monteiro – II Vol., destaca como que o carácter dos seus heterónimos, escrevendo: «pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática, pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da música que lhe é própria, pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida».      
    A propósito da sua célebre estrofe, referindo que «o poeta é um fingidor»...é importante lembrar que a metáfora não significa que o poeta seja um mentiroso ou alguém dissimulado, mas apenas que ele é capaz de se transformar nos próprios sentimentos que estão dentro dele e, por essa razão, consegue expressar-se de maneira única.

       E foi, de facto, único. Apesar de ter falecido muito novo, com 47 anos de idade, no Hospital de S. Luís dos Franceses, em Lisboa, curiosamente no mesmo quarto onde viria a falecer Almada Negreiros – um dos seus companheiros iniciais do Modernismo – 35 anos mais tarde.



     

António Bondoso

Junho de 2018  



2018-06-11



A EUROPA E OS CAFÉS...DO PORTO!
Há uns anos, não muitos, elaborei um pequeno ensaio sobre a "Ideia de Europa", partindo da «definição» de George Steiner sobre o culto dos Cafés.
Hoje, baseado num destaque do JN sobre o GUARANY, criado em 1933, regresso à ideia. Para lembrar que o Guarany era conhecido como o Café dos Músicos, mas era igualmente ponto de encontro de conhecimento e de debate de ideias. Hoje não tem "orquestra"...mas ainda tem um piano.



«A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. […] Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da ‘ideia de Europa’»
                                                                                     GEORGE STEINER, 2005

            Se esta ideia de Steiner fosse a única – e determinante – não haveria dúvidas de que Portugal se encontraria na primeira linha da construção europeia. Temos, de facto, uma cultura de “cafés”, quer seja numa grande cidade, quer seja na mais recôndita aldeia do interior. Mas só isso não basta. Todo o processo foi e é muito mais complexo e para o qual o povo não foi consultado. O que, em boa verdade, agora já não importa. Decisivo, seria ter, apresentar, defender e liderar uma visão estratégica de futuro. Que passa por uma cidadania percebida e assumida…mas também ouvida!
                                      


              Veja aqui, parte da História do Guarany...contada no JN: 


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António Bondoso
Jornalista
Junho 2018



2018-06-10

10 DE JUNHO: TODOS OS DIAS…OU SÓ DE VEZ EM QUANDO?
Ou de como um livro de 1953 nos transporta a uma aventura arrojada em 1924…com a ligação aérea Portugal-Macau.***


Neste dia... o que celebramos é a ousadia, a vontade, o empenho, o conhecimento – uma forma de ser e de estar! E a tudo isso juntamos, porque é intrínseco, as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo e Camões – o simbolismo da «Língua» que facilmente poderíamos estender a Bocage, Gil Vicente, Rodrigues Lobo, António Vieira, Garrett, Herculano, Camilo, Eça, Ramalho, Junqueiro, Pessanha, Florbela, Aquilino, Torga, Nemésio, Sophia ou Saramago, para além de tantos outros que souberam louvar e elevar este traço comum que uniu e une povos diversos. 



E da ousadia que foi construir um país independente e, mais tarde, restaurar essa independência para, depois, mostrar uma visão do mundo e tentar ir acompanhando os avatares da História – quero eu hoje lembrar a universalidade dessa forma de ser e de estar, indo de Portugal a Macau com a tenacidade dos aviadores Sarmento de Beires e Brito Paes em 1924. 


. No monomotor «Pátria» foram de Vila Nova de Milfontes a Bagdad, voando ainda até Bhudana – local do acidente que os obrigou a recorrer a um novo aparelho a que chamaram «Pátria II». A nova rota foi, assim, de Lahore a Shum-Chum e Macau, num total final de 17.570 quilómetros e de 117 horas de voo. 


*** O livro, de Sarmento de Beires, em 2ª edição, DE PORTUGAL A MACAU, foi-me gentilmente oferecido pelo Sr. José Faria, aluno da Universidade Sénior Aprender a Viver/CES Pedras Rubras, na Maia.

António Bondoso
Jornalista
Junho de 2018.  

2018-05-25


E EM ÁFRICA…O QUE HÁ DE NOVO?
A esta questão mera e simbolicamente retórica, poderíamos responder com aquela ideia de Mia Couto – “Em África tudo é outra coisa. Em África tudo é sempre outra coisa”. 


Ou, revisitando o otimismo do historiador e sociólogo de origem congolesa ELIKIA M’BOKOLO, poderíamos afirmar que, apesar das trágicas imagens que nos chegam diariamente (fome, Hiv, Ébola, paludismo, golpes militares, corrupção, conflitos étnicos, refugiados) imagens contraditórias vistas do exterior - «não temos razão para desesperar de África. As análises devem ser feitas com tempo e através dos tempos». Em São Tomé e Príncipe, onde hoje se vive uma complexa situação política e jurídico-constitucional, dir-se-ia molimoli, leveleve
Ou ainda, sabendo embora que as Áfricas são muitas, aos olhos dos brancos [sobretudo eurocêntricos] – como diz Leonel Cosme quando escreve sobre Agostinho Neto e o seu tempo - «sempre a África Negra teve as imagens que dela fizeram os colonizadores».
         Mas a “leitura” de e sobre África que nos é apresentada a cada instante pela «caixinha manipuladora» não pode nem deve ser uma fatalidade. No fundo, todo o mundo é composto de mudança e os avatares complexos exigem uma rigorosa e ponderada análise. A paixão, ou as paixões, não podem normalizar e banalizar o pensamento, mesmo tendo em conta aquela ideia de que «África é mais do que um lugar, é um sentimento que apenas tocou alguns de nós». 



Voltando a Leonel Cosme – meu camarada de rádio durante alguns anos e que viveu três décadas em Angola, embora em duas etapas – quero deixar a ideia de um Agostinho Neto que ele foi acompanhando e depois estudou em profundidade. Por exemplo, a atitude pedagógica do Presidente-poeta numa Angola recém-independente, cuja história de cinco séculos de presença portuguesa muitos desejavam rasurar ou repaginar, como se a História angolana tivesse começado em Novembro de 1975. A esses, disse Agostinho Neto: «De certo modo nós somos europeus, de certo modo os europeus são africanos. Não podemos esquecer os latino-americanos, que de certo modo são africanos e nós também somos de certo modo latino-americanos. (…) Nós somos uma encruzilhada de civilizações, ambientes culturais, e não podemos fugir a isso de maneira nenhuma, mas da mesma maneira que nós pretendemos manter a nossa personalidade política, também é preciso que nós mantenhamos a nossa personalidade cultural (…)».

Leonel Cosme


         É exatamente esta personalidade, rica e diversa, que os nossos olhos europeus devem tentar perceber e reter. Não pretendendo alongar-me demasiado, vou com Agostinho Neto “Para Além da Poesia”, a sua poesia africana, sobretudo quando ele diz porque sabe:
(…)
Na estrada
A fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira
No quarto
a mulatinha de olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó-de-arroz
A mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas
Na cama o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa  (…)
Hoje é o Dia de África. E de lá…não nos chegam apenas refugiados. É bom lembrar! Ou não esquecer! Tenhamos sempre presentes figuras como Santo Agostinho, Senghor, Wangari Maathai, Lumumba, Nyerere, Eduardo Mondlane, Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Aristides Vieira, Kaunda, Kenyatta, Selassiè, Samora Machel, Desmond Tutu, Nelson Mandela…
De outro modo, não deixemos de lembrar – pelos piores motivos – nomes como Bokassa, Francisco Macias Nguema, Idi Amin Dada,   Habib Bourguiba, Sékou Touré, Mobutu, Robert Mugabe…
Fundamental é que – sabendo que esquecer não significa o mesmo que varrer para debaixo do tapete – ainda assim é bom esquecer a África da Conferência de Berlim, em 1884/1885 – na qual 14 países redesenharam o Continente onde tudo terá começado, sem ter em consideração as fronteiras linguísticas e culturais estabelecidas.
Bom dia África. Saudações a quem vive…e a quem viveu!
Um abraço do
António Bondoso
Jornalista.
Maio de 2018. 






2018-05-18

JOSÉ MARIA PEDROTO
O futebol era um vício…mas o Homem tinha vida para além da Paixão!


JOSÉ MARIA PEDROTO
O futebol era um vício…mas o Homem tinha vida para além da Paixão!
E quando se diz que Pedroto, treinador, era um homem à frente do seu tempo…tudo se estendia para lá da metodologia do treino, da visão do fenómeno e da leitura do jogo no “banco”. O “Zé” era um homem preocupado com os seus jogadores enquanto pessoas comuns. E tinha um forte espírito de solidariedade, não só no âmbito da “família portista” (Miguel Arcanjo chamava-lhe o Divino Mestre), mas até com ex-jogadores de outros clubes a quem ajudava não só financeiramente. 


José Carlos Silva

José Maria Pedroto foi mais uma vez homenageado, agora pela «Tertúlia do Dragão”, cujo espaço passou a contar com uma sala VIP que leva o seu nome. A mulher, Cecília, e os filhos Isabel e Rui acompanharam o Prof. José Neto e o Presidente do FCP Pinto da Costa, numa sessão para lembrar o homem e o treinador de eleição. José Neto ilustrou a importância de Pedroto na sua passagem pelo clube e na sua formação como homem do futebol – não apenas no pormenor das estatísticas; Isabel e Rui acentuaram a faceta do pai, embora com uma natural rigidez, preocupado com o saudável crescimento dos filhos à luz do tempo que foi – uma ideia igualmente partilhada por Pinto da Costa, que destacou o facto de ele lhe manifestar a sua preocupação, não com o futuro financeiro dos filhos, antes com a importância de lhes proporcionar ferramentas para melhor enfrentar eventuais dificuldades da vida; e Cecília Pedroto preferiu salientar que o marido, embora respirando e transpirando futebol, sempre procurou nunca misturar a família e a profissão. Visivelmente emocionada, revelou que o marido nem sabia que ela ia ver os jogos ao estádio das Antas no seu lugar cativo. E feliz pela continuidade de Sérgio Conceição como técnico do clube, Cecília Pedroto – embora recusando comparações com outros grandes treinadores portugueses, antigos e actuais, e não esquecendo a enorme evolução do futebol – sempre foi dizendo com orgulho que nenhum o igualou no que respeita a capacidades técnicas. Jorge Nuno Pinto da Costa lembrou com naturalidade a sua relação de amizade com Pedroto não só no F.C. do Porto. E foi em sua casa, com amigos comuns, que partilhou responsabilidades com a ida do técnico, quer para Setúbal, quer para o Boavista. A doença que viria a minar a vida de Pedroto, demasiado cedo, foi igualmente objecto da memória do presidente do clube azul e branco. 


Foi pena, embora se perceba a exígua disponibilidade de tempo, que a «tertúlia» não tivesse sido estendida à numerosa assistência. Pedroto era um homem de tertúlias, lembrou o filho Rui. E eu, que tive a felicidade de poder acompanhar pelo menos duas na Petúlia, madrugada dentro, graças sobretudo à camaradagem de Nuno Brás, Sérgio Teixeira e de Manuel Fernandes, da RDP, não esqueço a simplicidade com que o «Mestre» explicava como os defesas laterais deviam evitar os cruzamentos dos extremos adversários. Ou de como, ainda não havia marcas no relvado como hoje, e já ele colocava um jogador à frente do adversário na marcação dos cantos e um outro junto ao poste da baliza – quantas vezes até nos dois! Questionado um dia por um jornalista, depois de uma série de 5 empates do FCP, no tempo em que as vitórias ainda valiam 2 pontos…Pedroto disse: meu rapaz…vale mais 5 empates do que 3 derrotas! Há muitas outras situações conhecidas, como aquela do penálti que o Oliveira falhou contra o Sporting, nas Antas (a perder por 1-0) e que, por indicação de Pedroto, Romeu acabou por ter êxito na recarga, empatando o jogo…ou uma outra passada com Jairo – um brasileiro que chegou ao clube em finais dos anos 70 do séc. XX: num dos treinos, o avançado insistia em cruzar muito antes da linha de fundo para a área, o que retirava eficácia ao ataque. Então Pedroto mostrava-lhe aquele espaço mais próximo do ângulo entre as linhas lateral e de fundo, imaginando um “quarto de círculo” em grande plano. Estás a ver? É mais ou menos por aqui que deves cruzar. Mas Jairo insistia no “erro”. Até que, num desses cruzamentos, o ataque lá acabou por marcar um golo. Então Pedroto terá desabafado: pronto, também serve! 


         Era assim José Maria Pedroto – um homem à frente do seu tempo e que o tempo levou muito antes do tempo merecido! De Lamego ao Porto, da Invicta ao Mundo…a doença fatal viria a impedir-me de apresentar a história do «Mestre», ou parte dela, na primeira pessoa, mas ficaram testemunhos vários de diferentes quadrantes clubísticos, salientando as capacidades como homem e como treinador. Transmitido ainda antes do seu passamento…talvez ainda esteja em “arquivo” na RDP-Antena1. 



António Bondoso
Jornalista
18 de Maio de 2018. 


2018-05-01

"Sem trabalho, o homem nega-se e compromete-se seriamente a sociedade. Então, que neste dia comece uma vida nova para Portugal”!
D. Manuel Martins - 1 de Maio de 2013 - Ainda não tinha deixado o mundo dos vivos e era Bispo Emérito de Setúbal. Na apresentação, em Lavra, do meu livro O PODER E O POEMA:



«D.Manuel Martins frisou que “O homem é trabalho. Não pode viver sem ele (Deus é trabalho)”. E aparece assim na nossa vida como “dever natural” e, por isso, como “direito natural (Constitucional)”. Por ambição dos homens – disse o Bispo Emérito de Setúbal – “em Portugal ronda o milhão os cidadãos sem trabalho. Já imaginamos o que é isto? Já experimentamos o que é isso? Malditas políticas que se constroem sem este alicerce social que garante o pão na mesa e o progresso de um povo. O trabalho é realização pessoal; é colaboração com o Criador, é gesto, é caminho de solidariedade familiar e social. Sem trabalho, o homem nega-se e compromete-se seriamente a sociedade. Então, que neste dia comece uma vida nova para Portugal”!
A beleza da Primavera foi o passo seguinte: “Na Primavera tudo começa de novo. É o tempo que apela à esperança. É um Sacramento: manifesta – é sinal de – vida nova e faz apelo a vida nova”. Por isso, D.Manuel considera que, apesar do Acordo Ortográfico, Primavera merece ser escrita com letra maiúscula.
Lembrou depois que “Maio é o mês de Maria, mês da Mãe, Mãe que é carinho, respeito, preocupação, presença, sorriso...Mãe que é vida permanente e rica junto de nós, Mãe que nos quer felizes a todos”.




25 DE ABRIL 2018. CRONOLOGIA
De um país clandestino…a outro inconstitucional!


Ao rever há pouco o filme «O Tarzan do 5º Esquerdo», de 1958, com argumento de Costa Ferreira e realização de Augusto Fraga, e interpretado por Raul Solnado, Artur Agostinho e Carmen Mendes, uma das últimas “mensagens” do guião conduziram-me à mentira que foi em tempos este país quase clandestino. As conversas eram clandestinas, os isqueiros sem licença eram clandestinos, os rádios sem licença eram clandestinos e a emigração para o estrangeiro era clandestina. Só essa…pois cá dentro chamavam-se as pessoas para as grandes cidades – sobretudo para a capital – deixando o resto do país ao abandono. Tal como hoje, infelizmente, mudando apenas a semântica: de um país interior e já de si periférico, passou-se ao discurso dos territórios de baixa densidade. Mas a emigração permanece, embora de contornos diferentes. E o país, de clandestino…passou a «inconstitucional» pois ainda não se cumpriu a regionalização. E não adianta tapar o sol com a peneira de uma arrevesada desconcentração ou descentralização. A regionalização foi consagrada na lei fundamental…falta cumprir-se Portugal! O espírito de Abril merece esse passo, pois Abril será sempre e Maio logo a seguir:
ABRIL SERÁ SEMPRE!

Abril prolonga-se em Maio
Em tempo justo de luta.
Estende-se por todo o Verão
E chega lesto ao Outono
Antes do gelo de Inverno
Atrasar a Primavera
Pela qual tanto se espera.

É Abril a viajar numa conduta
De esperança feliz em liberdade
É um tempo que queremos de verdade
Na amizade que do nada se constrói.
Solidária, forte, justa e com sentido
Só nela se pode confiar
Pois Abril será sempre.

Sempre que os homens quiserem
Sempre que a alma puder
Sempre que o coração mandar
Que haja justiça sempre:
Em Maio, Junho ou Setembro
Em Março, Agosto ou Dezembro.
Em Abril…será sempre!



António Bondoso
Jornalista
30 de Abril de 2018.

2018-04-30


25 DE ABRIL 2018 – CRONOLOGIA
Apareceu-me no “face”, na página dedicada a Almada Negreiros, uma nota sobre «100 anos de poesia» a assinalar na Academia das Ciências de Lisboa, de 7 de Maio a 6 de Junho. 


Interessante, talvez por isso e nos tempos que vão correndo, sob o signo dos ventos de liberdade, lembrar esta «LIBERDADE» de Almada Negreiros, nos 125 anos do seu nascimento, na Roça Saudade, em S. Tomé:
“LIBERDADE
Quando entrei na cidade fiquei sozinho no meio da multidão.
Em redor as portas estavam abertas. A multidão entrava naturalmente pelas portas abertas. Por cima das portas havia tabuletas onde estava colada aquela palavra que sobe – Liberdade!
Entrei por uma porta. Entrei como uma farpa!
Era uma ratoeira, Mãe! era uma ratoeira! Se eu tivesse entrado como uma agulha podia ter saído como uma agulha, mas entrei como uma farpa, fiz sangue verdadeiro, já não me esquece. Aconteceu exactamente. Dei um mau jeito nos rins por causa da ratoeira! Ainda me lembro da palavra – Liberdade!” (…)
         A liberdade, a responsabilidade e a ponderação – tudo isso na ideia do génio de Almada. E a mãe, sempre a Mãe com letra maiúscula, que ele perdeu tão cedo, ainda não tinha chegado o conhecimento. 



Fotografia: Filipe Amorim/Global Imagens 

E depois, como ontem havia chamado a atenção, a ponderação dos vários fatores que podem influenciar um simples jogo de futebol. Ainda faltam pontos para se ganhar o campeonato…mas já está instalada nos adeptos do FCP como que uma desmedida loucura. É a liberdade de uma falta de ponderação de quem tem estado afastado de títulos nos últimos anos. A reconquista da liberdade de festejar tal como em Abril, mesmo sem haver a certeza de que o golpe triunfara, seguindo-se a revolução.
Abril há de ser sempre…e eu aqui voltarei para escrever sobre valores.

António Bondoso
Jornalista
29 de Abril de 2018






2018-04-29

25 DE ABRIL 2018 – CRONOLOGIA
Já não bastavam as imagens do interrogatório a José Sócrates…apareceu agora em Macedo de Cavaleiros uma lista com nomes de devedores pelo consumo de água da rede pública. 



25 DE ABRIL 2018 – CRONOLOGIA
Já não bastavam as imagens do interrogatório a José Sócrates…apareceu agora em Macedo de Cavaleiros uma lista com nomes de devedores pelo consumo de água da rede pública. Penso não ser caso único ou pelo menos novidade esta história contada pelo JN. O golpe e a revolução de 1974 acabaram com a censura, mas 44 anos depois não deixa de ser censurável o abuso – ainda que rotulado desse vago e por vezes indecifrável “interesse público” – com que alguns avençados nos média exercem o que era suposto ser «jornalismo de investigação». O interesse deste desiderato está precisamente no facto de serem os jornalistas a conseguir «descobrir» os casos e não esperar que, por um milagroso expediente de tráfico de influências, lhes caia no computador um DVD com gravações que só à Justiça deviam dizer respeito. A investigação judiciária fez o seu trabalho, bem ou mal, acusou e agora seria altura de esperar pelo julgamento. Estará a «acusação do MP», por deficiência, necessitada de aproveitar a mais que certa condenação na praça pública?
Deontologicamente, e apesar de o respetivo Código ter sido ligeiramente alterado há pouco, é certo que «o jornalista deve combater a censura e o sensacionalismo»… sendo igualmente verdade que «o jornalista deve salvaguardar a presunção de inocência dos arguidos até a sentença transitar em julgado», tal como «deve utilizar meios legais para obter informações, imagens ou documentos, e proibir-se de abusar da boa-fé de quem que seja».  
Contudo, para além de tudo isto, há a verdade da sobrevivência, da subserviência, do protagonismo ou simplesmente a tentação vaidosa de dar corpo à ideia de um quarto ou quinto poderes que – manifestamente – o jornalismo não deve ser. O essencial da função é, pelo contrário, ser um contrapoder. É aí que reside a força do jornalismo. 


Quanto ao caso da lista dos devedores de consumo de água em Macedo de Cavaleiros, sendo condenável a «fuga de informação», sabe-se lá a troco de quê, não deixa de ser verdade que a Câmara parece não ter força para aplicar a lei. Quem deve é obrigado a pagar. Não cumprindo o requisito, fica sem água. Independentemente de podermos neste caso não duvidar do interesse público, até pela equidade/igualdade de tratamento dos cidadãos, não deixa de ser questionável o benefício da “fuga de informação”.  



Por outro lado, foi interessante saber que o futebol também foi na revolução, sendo normal que a tristeza de uns possa proporcionar a alegria de outros. Se as tecnologias (leia-se a má/deficiente aplicação das mesmas, como é o caso do VAR) não matarem o futebol, é muito bom saber que as surpresas podem acontecer. Sempre ouvi dizer que a bola é redonda e são 11 de cada lado – a não ser que os árbitros desequilibrem a «balança» ou «inclinem o campo» como acontece amiúde – tal como se deve atender ao fator sorte nada despiciendo. O futebol é mágico, já dizia Desmond Morris.


António Bondoso
Jornalista
28 de Abril 2018



2018-04-27


25 DE ABRIL 2018  – CRONOLOGIA
A 27 ainda se respira Abril, embora por motivos diferentes!


O texto na placa do Jardim do Campo Grande, a placa com a inscrição "Jardim Mário Soares — fundador da democracia portuguesa, Presidente da República e Primeiro-ministro, 1924-2017" que ficou instalada no extremo sul do Jardim, em Entrecampos, de facto não está bem. Mário Soares não foi «o fundador» da democracia…mas é inegável que foi um dos grandes lutadores pela sua conquista, depois de tantos anos da ditadura do Estado Novo. Por isso compreendo as críticas ao texto da placa, esperando que as mesmas não se direcionem para o significado da placa em si própria. Mário Soares merece, sem dúvida, ser perpetuado na toponímia da cidade. E quem se lembrou do jardim não esteve nada mal. Ali, na quietude do lago e das árvores, vai certamente respirar-se a memória de um dos nossos grandes lutadores pelas liberdades. E a liberdade de expressão, de que ele nunca desistiu, estará presente, quando o púlpito – que se encontra no centro de um pequeno anfiteatro circular, na zona sul deste espaço verde, em frente à casa onde morou – for devida e livremente utilizado. 



Um outro foi seguramente Álvaro Cunhal, que o Jornal 2 da RTP, pela batuta do João Fernando Ramos – em dia de aniversário – levou aos telespectadores diretamente do Forte de Peniche, que vai ser o Museu Nacional da Resistência e da Liberdade. Dali fugiram Cunhal e mais 9 presos, em 1960, para desespero da PIDE e do regime de Salazar, pois o Forte de Peniche era considerado de segurança máxima e até inexpugnável. Depois de pronto, espera-se que o Museu saiba cativar público para um conhecimento mais aprofundado da história mais ou menos recente do país.



António Bondoso 
Jornalista
27 de Abril 2018.