terça-feira, 13 de janeiro de 2015

SEGURANÇA NA EUROPA - MITO COM PÉS DE BARRO? ( PARTE II) 

Foto de A.Bondoso

Do meu trabalho/reflexão de 2008, deixo-vos hoje a segunda parte do trabalho. 
APENAS CHAMO A ATENÇÃO PARA O QUE VEIO DEPOIS DE 2008 - A CRISE ECONÓMICA E FINANCEIRA...QUE VIROU TUDO DO AVESSO. E, assim, tudo ficou ainda mais difícil.

==== Mas o texto, mesmo desatualizado, pode ajudar à compreensão do problema: 

CAPÍTULO II         

DA TEORIA À PRÁTICA, UM PASSO DECISIVO.

“O que faria sentido seria a União preparar-se abertamente para assumir a responsabilidade pela defesa do seu próprio território e deixar para a NATO o papel global que esta, sob liderança americana, quer ter, e para o qual a UE lhe disponibilizaria um elemento de intervenção europeu”.
                                                                                                                Alexandre Reis Rodrigues, 2007[1]

Este tipo de discussão parece ter sido bloqueado no âmbito do desenvolvimento da NOI e também no quadro da Nova Arquitectura de Segurança Europeia (NASE), igualmente ainda não completamente definido e constituindo um dos problemas actuais das R.I. Nomeadamente, como refere o Dr. Paulo Amorim[2], sobre a hierarquia da NASE que – teoricamente – corresponde a uma pirâmide cujo topo é a ONU, devendo seguir-se a OSCE (que passou a Organização em 1994), a NATO e o que hoje poderá ter correspondência com a extinta UEO (uma eterna promessa em termos defensivos europeus) – a PESC/PESDC da União Europeia.
Contudo, com a nova atitude unilateral dos EUA, esta “estrutura” perdeu credibilidade e passou a haver uma certa desarticulação entre as várias organizações, as quais passaram a actuar individualmente – regra geral de acordo com os interesses dos EUA e não sob delegação do patamar superior da pirâmide, a ONU.
Particularmente a partir de 1996, os EUA minimizaram a utilidade da OSCE – na qual estão representados desde Helsínquia tanto os Estados da Europa Ocidental como os do Leste – e a organização perdeu prestígio e importância.
Mas a UE, quer através do extinto Tratado Constitucional, quer no texto do Tratado Reformador de Lisboa – ainda suspenso – insiste numa política comum para a segurança e defesa, tendo chegado mesmo a equacionar-se uma “diplomacia europeia”. Não obstante, persiste a interrogação sobre “que meios políticos?” e sobre “que força armada para impor a decisão política?”.
E apesar de todos os esforços no sentido de potenciar a nova estrutura, o impasse mantém-se, sobretudo por falta de vontade e de coragem política em financiar uma Política de Segurança e Defesa Comum. A engrenagem parece bloquear perante a eventual existência de fortes lóbis militares em vários países europeus – empenhados em evitar que a União possa funcionar como um Estado, detentor exclusivo de uma PE e do poder de declaração de guerra. Neste quadro, não se compreenderia facilmente a existência de umas Forças Armadas fortes nos vários países da União. No fundo, pode dizer-se que vai fazendo vencimento a tese de um quadro westfaliano.
É curioso notar – por contraponto – uma ideia do gen. Loureiro dos Santos[3] anterior à citação que se faz de uma expressão do vice-almirante Alexandre Reis Rodrigues e que encima este capítulo: “ Para já, não parece aconselhável subordinar as Constituições nacionais (que consubstanciam o destino que cada país deseja para si) ao direito comunitário, nem incluir no domínio da União os assuntos de política externa, segurança e defesa, embora devam ser contemplados mecanismos para a sua coordenação”. Loureiro dos Santos enquadra a ideia na necessidade de se adequar o ritmo do aprofundamento institucional, entre o passo de corrida das elites e o andamento normal dos cidadãos europeus. Por outro lado, o General insiste em classificar de rídiculos os meios militares (forças no terreno) da União Europeia e, a propósito da “fraqueza” psicológica e política demonstrada na chamada crise dos cartoons, defende a complementaridade transatlântica: enquanto os países europeus não tomarem consciência das suas debilidades e não as resolverem, em estreita articulação com os EUA, será difícil que o comportamento da Europa em situações deste tipo seja muito diferente.
Ao que parece, é nesta questão política que está centrado o nó górdio do problema.




CONCLUSÃO

“Tememos, pois, que o divórcio entre os povos europeus e a construção europeia irá agravar-se ainda mais, não podendo nós arredar a hipótese de que até às eleições europeias de Junho de 2009, os dirigentes políticos venham a ser confrontados com algum ou alguns sobressaltos”.
                                                                                                                    Augusto Rogério Leitão, 2007[4]


            E confirmou-se o sobressalto! Bastou um pequeno não da Irlanda para abanar os alicerces políticos da União Europeia. Pelo menos obrigou a mais um impasse, para o qual não se vislumbrou ainda uma solução.  
            A Chanceler alemã Ângela Merkel, no “intervalo” dos Tratados, havia já chamado a atenção para o problema, quase premonitoriamente: é do interesse da Europa, dos seus Estados-membros e dos seus cidadãos, que este processo esteja terminado até às próximas eleições para o PE (…) uma Europa fraca, burocrática e dividida não conseguirá resolver os problemas que enfrenta, seja em termos de política externa e de segurança, mudanças climáticas, energia, investigação científica, desregulamentação, ou na gestão do alargamento e das relações com os nossos vizinhos.
            Depois (mas ainda antes do não irlandês), também o Presidente francês Sarkozy havia lançado farpas no PE[5]: o novo tratado simplificado, não resolve a crise moral e política da Europa. E interrogava: como poderá a Europa ser independente, ter influência política no mundo, ser um factor de paz e de equilíbrio se não é capaz de assegurar a sua própria defesa?
            A França, recorda-se, era uma das potências europeias com benefícios directos da aplicação do defunto Tratado Constitucional que – paradoxalmente – foi rejeitado em referendo pelos franceses, numa acesa luta política interna.
            E depois, há quem considere o novo Tratado Reformador/de Lisboa como um “Filho de um Deus Menor”[6], repetindo apenas as duas grandes novidades do anterior, sendo que o funcionamento da Agência Europeia de Defesa (já em prática) não necessita de um tratado. A outra “novidade” – alguns Estados-membros poderem estabelecer entre si cooperações reforçadas/estruturadas – referida num texto do Ten. Coronel Pereira da Silva e publicado na Revista Militar, parece ser potenciadora de naturais divergências entre responsáveis políticos e militares de cada um dos países da União. Particularmente no que diz respeito ao desenvolvimento de determinadas capacidades em conjunto (os Battle Groups) ou de novos projectos. Uma capacidade militar – recorda Pereira da Silva – compreende elementos como o pessoal, o equipamento, a sustentação, a doutrina, a prontidão, a interoperabilidade, o treino e a projecção. Alguns destes elementos não deixam de entreabrir uma porta – tanto para o estabelecimento de lóbis como para a permanência do espírito de Westfalia.
            Alexandre Reis Rodrigues coloca a necessidade de uma “política centralizada” como fundamental para a ambicionada Política de Segurança e Defesa da UE – mais do que os recursos financeiros. E acrescenta que continua a faltar um órgão que assuma a concretização militar das decisões políticas, coordenando e acompanhando todo o subsequente processo ao nível de cada Estado-membro, conforme os compromissos assumidos.
            Contudo, esta ideia quase que anula o chamado “critério da não duplicação de meios e estruturas” debatido e acordado no seio da NATO no mandato do presidente Bill Clinton.
            No meio de hesitações, impasses e interesses divergentes, Augusto Rogério Leitão projecta para o futuro a afirmação gradual de um directório informal constituído pelo Reino Unido, França e Alemanha – em especial no âmbito da PESC/PESD – apresentando um binómio/dilema: “ou a União opta por ser fundamentalmente uma zona de livre comércio, adaptando-se à globalização com algumas políticas comuns centradas na ajuda aos Estados-membros mais débeis, e as suas fronteiras poderão alargar-se de modo extensivo; ou opta por uma união política, com uma governação da globalização no quadro de uma Europa social que exige uma maior partilha das soberanias e uma configuração como potência regional ou mesmo mundial, e as suas fronteiras terão de ser necessariamente menos extensas”.
            É nesta encruzilhada de um tempo complexo e de muitas incertezas – e para o qual o futuro não tem um prazo muito dilatado – que muitos políticos jogam os seus dados e o seu prestígio, nem sempre com resultados muito positivos.
            E particularmente no que respeita à “segurança colectiva” – por oposição à intolerância e ao terrorismo fundamentalista – merece algum destaque a ideia do embaixador Seixas da Costa[7] quando fala da responsabilidade da comunidade internacional democrática e defensora da tolerância e das liberdades, na qual a União Europeia deve ter um papel central: a segurança colectiva continuará a estar em sério risco, enquanto essa comunidade não adoptar uma ‘diplomacia de princípios’ assente na denúncia dos jogos cínicos da realpolitik e resistindo ao ‘politicamente correcto’ de certos lóbis.
            Este papel só será possível com uma União Europeia sólida e solidária em termos políticos, suficientemente realista a propósito da complexa conjuntura internacional. Com divisões ‘internas’ e assumindo-se como um foco de tensão no espaço euro atlântico, talvez seja preferível ponderar a extinção da NATO. 



[1] - Vice-almirante e Secretário-geral da Comissão Portuguesa do Atlântico. Em Revista Estratégia, do IEEI nº24-25.
[2] - Departamento de R.I. da Universidade Lusíada do Porto.
[3] - O Império debaixo de Fogo, Europa América, Lisboa,  2006.
[4] - Professor da Licenciatura/Mestrado em Relações Internacionais da Univ de Coimbra, na Revista Estratégia, do IEEI, nº 24-25, 2007: “A Crise Existencial da União Europeia entre revisões, alargamentos, fronteiras e o futuro”.
[5] - Discurso no PE em Novembro de 2007.
[6] - Ten. Coronel Nuno Miguel Pascoal Dias Pereira da Silva, sócio efectivo da Revista Militar e comandante da Unidade de Apoio da BrigInt. Publicado em 21 de Setembro de 2008. 
[7] - Embaixador de Portugal no Brasil e representante de Portugal na OSCE (2002-2005). Palestra em Vila Real, em Outubro de 2004.

MESMO COM A PARTIDA DO LUÍS OCHOA…continuo a dizer que “até os mortos falam na Rádio”!

Foto da Web

Luís Ochoa começou na ANOP mas lembro-me de o ver ainda como estagiário na RDP numa altura de grande ampliação do quadro de jornalistas no início dos anos 80 do século passado. Mas depressa o Luís se impôs, tendo chegado a editor e a Chefe de Redação. Lutador e repentista – mas de um trato de camaradagem sem sofismas – sempre mantive com ele uma relação cordata. Após o meu regresso de Macau, já o Luís era Diretor de Informação, a relação acentuou-se com encontros e conversas mais regulares em Lisboa. E recordo-me mesmo de um dia me ter proposto – numa altura de indefinição do meu percurso na RDP, no Porto – um projeto de informação virado para a economia, sabendo-se da importância da região Norte para os negócios, criação de empresas e exportações, com destaque para a ação da (então) AEP. Mas o caminho foi outro. E foi sem surpresa que o vi assumir a delegação da Antena 1 em Bruxelas, um cargo longe das “tricas” diárias de uma casa grande como era a RDP. E continuámos a falar…até à minha saída “apressada” para uma aposentação antes do tempo, em 2005. Recebe um abraço de até sempre, continua a ter o prazer de dizer as notícias…e fica ciente de um gesto de carinho para a tua mulher e tuas filhas.
António Bondoso
Jornalista



domingo, 11 de janeiro de 2015

ISTO…SOU EU A PENSAR!
A PROPÓSITO DE TERRORISMO…



Mesmo correndo o risco de haver situações menos atualizadas, não quero deixar de partilhar este pequeno texto meu – parte de um outro mais vasto pensado e escrito já em 2007:
*****No mundo islâmico, o Ocidente é visto como uma civilização decadente, quer em termos morais e políticos, quer culturalmente.
Os ataques de 11 de Setembro de 2001 visaram abalar o neoliberalismo e a globalização económica, tal como o poderio militar dos EUA.
O mundo passou a ser dominado pelo terror, pela imprevisibilidade e ultraterritorialidade.

O TERRORISMO É…

VIOLÊNCIA ! TERROR ! MEDO ! MORTE ! DESTRUIÇÃO ! ANSIEDADE ! PÂNICO ! CHANTAGEM ! QUALQUER MEIO PARA ATINGIR UM FIM ! INTERESSA MAIS O FACTOR PSICOLÓGICO DO QUE PROPRIAMENTE O NÚMERO DE VÍTIMAS!
“Uma ação violenta é denominada de terrorismo, quando os seus efeitos psicológicos ultrapassam em muito os seus resultados puramente físicos”(Raymond Aron).

E O RESSENTIMENTO…

“Os ataques de 2001, em N.Y. e Washington, demonstraram que existe uma ameaça, com contornos ideológicos e políticos bem definidos, aos valores seculares e liberais dominantes nas sociedades ocidentais” (João Marques de Almeida, “O Choque das Civilizações e o 11 de Setembro”, IPRI-Instituto Português de Relações Internacionais).
Considerando que, na perspetiva dos fundamentalistas islâmicos, as sociedades muçulmanas são “vítimas” da ordem liberal, João Marques de Almeida argumenta que “…o regresso à religião, o chamado Ressurgimento Islâmico, foi a resposta ideológica e política ao ressentimento contra o domínio ocidental” !
Tal como na economia, diz Huntington, os países asiáticos e islâmicos estão a procurar contrabalançar rapidamente o poderio militar do Ocidente.
Enquanto a Nato, por ex, reduziu em 10% as despesas com a defesa, nos países da Ásia elas aumentaram 50% na década de 1990.
Por outro lado, há a considerar ainda a explosão demográfica nos países islâmicos, em contraste com o chamado Ocidente.

Estado-Núcleo, o que falta ao Islão. === Será o Califado/ISI?
Contudo, afirma Huntington, o Ocidente vai ter a supremacia ainda por algumas décadas, apesar de ter vindo a perder “força” como vimos.
E o que vai faltando ao mundo islâmico é um “Estado-Núcleo” civilizacional, ao contrário das potências ocidentais, da China, Índia, Japão e Rússia.
Dentro do Islão (Huntington) “há muitas culturas ou subcivilizações distintas, da Arábica à Turca, da Persa à Malaia”. Nestas circunstâncias não é fácil e pacífico encontrar um Estado-Núcleo. Para além do Iraque (onde, apesar de tudo, Sadam é ainda lembrado) e dos destroços da Primavera Árabe, temos os confrontos “ Irão-Arábia Saudita” e “Indonésia-Paquistão”.
E é nesta “dispersão” e procura de liderança, que o mundo islâmico se apresenta permissivo à radicalização e ao fundamentalismo.

O resto…vem por acréscimo. Como a pobreza e os guetos. Inclusive o chamado “terrorismo de Estado”.
=== António Bondoso

Jornalista.
SEGURANÇA E DEFESA NA EUROPA! MITO COM PÉS DE BARRO?

***** O que eu refletia já em 2008 ( Por agora...deixo-vos só uma parte): 



“Segurança e Defesa são conceitos tradicionalmente inseparáveis porque, se o primeiro significa ‘the guarantee of safety’ também o mesmo conceito, quando qualificado de segurança nacional, faz evidenciar todos os objectivos da defesa…”
                                                                                                                                Adriano Moreira, 1988 
            Esta ideia do Professor Adriano Moreira não significa unanimidade ou qualquer consenso forçado a propósito do quadro conceptual e narrativo das matérias de Segurança e de Defesa.
            Vale para a França, por ex, mas é diferente na Alemanha, no Reino Unido e nos Estados Unidos da América. Também em Portugal, o quadro constitucional esquece a perspectiva abrangente dos termos Segurança e Defesa Nacional – situação   corrigida pelo Conceito Estratégico de Defesa Nacional de 2003 (agora questionado pelo tenente-general Garcia Leandro[1]), no sentido de adequar as respostas do país às novas ameaças e aos novos desafios a partir do 11 de Setembro de 2001.
            A diversidade conceptual aqui referida não foi “apagada” com estes acontecimentos, apesar de se reconhecer que os novos problemas ultrapassam a capacidade de resposta individualizada de cada um dos Estados.
            E também não foi “apagada”, mesmo com as reformas verificadas no âmbito da União Europeia e da NATO – desde o fim da UEO, a revitalização da OSCE, a PESC, a PESDC, a Força de Reacção Rápida (FRR) e os conflitos de competências entre a UE e a NATO, sabendo-se que esta Organização reformulou o seu objectivo estratégico ao passar a definir-se como “de Segurança” e não apenas de Defesa, o que lhe permite actuar fora da sua área de influência. Mas, sem o Tratado Reformador, sem União Política – que futuro para a PESC/PESDC e para a FRR, pilares importantes da construção da Nova Europa? Complementaridade ou concorrência entre as estruturas puramente europeias e a NATO transatlântica?


CAPÍTULO I

BALANÇO POSITIVO DA ‘PESDC’ NÃO AFASTA DÚVIDAS E CLIMA DE TENSÃO.

“Embora com uma ideia de auto-contenção, os princípios teóricos das políticas externa e de segurança e defesa comum estabelecidos na ‘Estratégia Europeia em Matéria de Segurança’ são lógicos e coerentes. O problema é o levantamento dos meios (estruturas e forças) para materializar os objectivos decididos”.
                                                                                                                 Gen. Loureiro dos Santos, 2006[2]


            O documento a que se refere o gen. Loureiro dos Santos, também conhecido simplesmente por ‘documento Solana’, foi aprovado em Bruxelas em 2003 – como resultado do aprofundamento, adaptação e renovação da chamada Nova Arquitectura de Segurança na Europa (NASE), saída de Helsínquia em 1975.
            Recorda-se que a OSCE, por uma questão de custos (Burden Sharing) havia já prescindido da União da Europa Ocidental, optando pelo ‘guarda-chuva’ americano da NATO – podendo a UE, assim, ultrapassar dificuldades para efectuar avultados investimentos na área da Defesa. O que, diz Loureiro dos Santos, “dá um conteúdo patético aos que pretendem ser um poder militar alternativo aos americanos”.
            Contudo, no XI Encontro Internacional Eurodefense, Etienne de Poncins – Chefe de Gabinete da Ministra delegada da França para os Negócios Europeus, Catherine Colonna – fez um balanço positivo da PESDC, salientando progressos nos Balcãs, na Ásia e na África. Apesar disso, não foi possível evitar a tragédia humanitária do Darfur e, pelo que se passa actualmente na RD do Congo, os efeitos da cooperação da UE não terão sido efectivamente consolidados.
            Em 2007, numa intervenção em Washington, o Ministro da Defesa de Portugal, Severiano Teixeira[3], elogiou o esforço da Aliança Atlântica na defesa da Paz e da democracia na Europa – mas chamou a atenção para o facto de a institucionalização da União Europeia e da Politica Externa e de Segurança Comum (PESC) terem sido “um factor de tensão, tal como a crescente preponderância internacional dos Estados Unidos”. E deu os exemplos da intervenção tardia no Kosovo e das divergências acerca da invasão do Iraque.
            Severiano Teixeira referiu a complementaridade entre a PESC e a NATO, mas notou que “nem por isso deixa de ser notória a resistência ao desenvolvimento de uma capacidade efectiva de defesa no quadro da UE” pois existe a percepção de que essa dimensão pode criar uma rivalidade estratégica entre os Estados Unidos e a Europa, quando voltar a existir uma defesa europeia autónoma. E este é o caminho – assegurou o ministro português, para quem a prioridade dos Estados Europeus é a construção da Europa. Este objectivo – acrescentou – não pode provocar um aumento das tensões dentro da Aliança Atlântica, num momento em que é mais necessária a unidade na luta contra o terrorismo transnacional.
            Sobre esta dúvida de uma política complementar ou concorrencial entre as duas estruturas, se havia também pronunciado, já em 2004, o conselheiro de investigação no Colégio de Defesa da NATO em Roma – Lionel Ponsard[4] – considerando a diferença de culturas em matéria de segurança existente nos dois lados do Atlântico. Por vezes, disse, esse facto “parece dificultar o desenvolvimento de uma parceria complementar entre a União Europeia e a OTAN”.
            Tudo parece ter mudado e agravado depois dos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001.
            O Professor Milan Rados[5] diz que os problemas de Segurança já passaram além dos Estados, colocando-se hoje numa perspectiva transnacional. É preciso preservar as relações estáveis entre os Estados e o desenvolvimento humano sustentado – sem recurso à guerra, através da cooperação. Por outro lado, o conceito de Defesa passou a incluir “um conjunto de instrumentos destinados a assegurar a estabilidade do Sistema Político Internacional”.
            As novas ameaças passaram a ser multidireccionais, desmilitarizadas e desterritorializadas – o que pressupõe novo tipo de respostas no âmbito de uma Nova Ordem Internacional (NOI) ainda em construção.




[1] Expresso – 1º caderno, 15/11/2008.
[2] - O Império debaixo de fogo – Reflexões sobre Estratégia. Europa América, Lisboa, 2006.
[3] - Portal do Governo na Internet. MDN.
[4] - Notícias da NATO/OTAN, Outubro de 2004.
[5] - Departamento de R.I. da Universidade Lusíada do Porto.

======= António Bondoso
Jornalista
Mais logo coloco o resto da reflexão de 2008. 

sábado, 10 de janeiro de 2015

NAVEGAR DOURO ACIMA...

Foto de A. Bondoso

NAVEGAR…( A Publicar)
Douro acima
Pela estrada de um comboio
De mãos dadas com a escarpa
E os pés a tocar o rio
Entre as Caldas em Aregos
E o sol beijando a Ermida.

Carícias de inverno frio
Vento gelado batido
Em seco canavial,
Apetece dizer adeus à gente
Que anda lá fora
Acenar e perceber que há mundo
Todos os dias:
Mesmo o comboio parando
Ou correndo devagarinho
À espera que o outro passe.

E uma paisagem em socalcos
Testemunha secular
Vê o comboio passar
E as águas do rio indo
Como que a mudar…sorrindo.

======António Bondoso (A Publicar)

Foto de A. Bondoso

António Bondoso
Jornalista


sábado, 3 de janeiro de 2015

A FORÇA DO “MENSAGEIRO”…

Foto de A.Bondoso


 A FORÇA DO “MENSAGEIRO”…
…ou a energia do “morto”!

         Ontem, ou mesmo antes, havia decidido escrever sobre a monotonia e a falta de energia da (não) mensagem do PR. Para além dos defeitos apontados, acresce que a narrativa do inquilino de Belém foi incapaz de transmitir uma réstia de esperança, incapaz de mostrar inconformismo, incapaz de motivar.
         Completamente rendido.
         Pelo menos dizer-nos com garra e com algum sentido de liderança, como repete Kevin Costner – exatamente o protagonista do filme que passou mais uma vez numa das nossas TVs – a célebre frase “Shakspeariana” - «pelo menos morreremos sem os arreios nas costas». Poderemos estar em pobreza extrema, quase na miséria; o desemprego a níveis nunca vistos; a emigração forçada como nunca…mas, convenhamos, ninguém se sente motivado a “reagir” ouvindo a cassete riscada do “compromisso”.
         O inquilino de Belém foi um fraco mensageiro…e eu sei que, apesar de tudo, não se deve matar o mensageiro. Mas, sinceramente, é preciso outro tipo de discurso. Mesmo eivado de utopia perante um cenário apocalítico.
         Curiosamente, saltou-me à vista hoje no JN – não sei se em forma de editorial, embora esteja assinado pelo Diretor – um artigo de opinião em que o autor vai buscar o drama “A birra do morto”, de Vicente Sanches, para enfatizar a sua tese de que o atual inquilino de Belém não está morto:
“O segredo, guardado para o fim, está em saber qual é a maior birra: se a do morto que não quer ser enterrado, se a de quantos à volta já lhe atiram pazadas em cima”.
         E que, acrescenta, para além de não estar morto – o atual PR vai mesmo “condicionar a constituição de qualquer novo governo. Eis o poder de um Presidente”.
         Nada nesta vida política (à) portuguesa é impossível…e pode mesmo acontecer que o tal inquilino, num último esforço de prova de vida, vá por esse caminho. Contudo, para quem teve – até agora – uma leitura absolutamente restritiva dos poderes presidenciais, não me parece que o “morto” possa ir muito mais além, sob pena de bloquear o funcionamento das instituições, iniciativa que ele sempre tem recusado.
         De acordo com o artigo 133º da CRP, uma das suas competências (alínea f) é nomear o Primeiro Ministro nos termos do nº1 do artigo 187º que preceitua exatamente isto: - 1. O Primeiro-Ministro é nomeado pelo Presidente da República, ouvidos os partidos representados na Assembleia da República e tendo em conta os resultados eleitorais.
         Tudo o que se possa especular para além disto é, a esta distância do próximo ato eleitoral, um exercício de leituras e de desejos. Só mesmo depois das eleições é que se pode encontrar um caminho. E ele será encontrado, independentemente de saber se o «mensageiro» está mais morto que vivo!
António Bondoso
Jornalista

Jan.2015

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

ATÉ OS MORTOS FALAM NA RÁDIO...


Costumo eu escrever e faz parte do meu projeto de um livro sobre a Rádio dos meus Amigos, que “até os mortos falam na Rádio”!
Hoje, fala-se de António da Luz Varela.
Um pouco mais avançado do que eu, na idade. Mas tivemos um percurso ainda largamente comum na vida da Rádio. Da ex-EN à RTP (Rádio e Televisão de Portugal) passando pela RDP – António da Luz Varela foi granjeando amigos e camaradas. Um deles disse-me há pouco que o António fez parte da grande revolução do jornalismo na Rua do Quelhas. Ativo e lutador, não deixou por mãos alheias a sua quota-parte de responsabilidade na Comissão de Trabalhadores. Foi ali, certamente, que nos cruzámos – na Rua do Quelhas – entre Outubro de 1974 e Março de 1975. Com alguns como Pedro Cid, Mateus do Ó Boaventura, Manuel Magro, Maria José Mauperrin, Alfacinha da Silva e outros que, a seu tempo, virão à memória. Creio que também o Paulo Pinto, mais jovem do que eu. Ainda a “Redação” era no “sótão” e os redatores – talvez a maioria – escreviam à mão o que, depois, era “decifrado” pelas datilógrafas. A “revolução” veio depois, já eu tinha passado a escrever à máquina nas instalações da EN na Rua Cândido dos Reis, no Porto. E depois, passou a ser de vez em quando. Até hoje, nos seus 72 anos de idade. As informações sobre a sua saúde debilitada iam e vinham nos últimos dias…e ele ausentou-se, apesar das nossas preces. Até sempre António! E leva o meu abraço, que a Dulce certamente se encarregará de te dar. Ficam as memórias e um gesto de carinho muito grande para a tua companheira.
António Bondoso 


António Bondoso
Jornalista

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

PARTIR SEM ESQUECER...



Luísa Teixeira, que eu conheci em S. Tomé e Príncipe, partiu ontem em busca do seu espaço de tranquilidade na sideral dimensão. Mãe da Mena, da Nanda e da Graça, Luísa foi Professora nas Ilhas do Meio do Mundo e partilhou com Fernando Teixeira mais de 70 anos de vida, resistindo pouco mais de três anos à ausência das alegrias e das emoções em comum, pese embora a companhia permanente das filhas.
Como eu escrevi em tempos, a partida não significa obrigatoriamente mágoa. A dor é forte, muito, segue-se um luto inquieto mas a vida encarrega-se de normalizar o circuito. É a vida e é a morte nesta relação constante em que uma não se queixa e a outra deixa correr, violinos a tocar e um piano de cauda, melodia harmoniosa de um mundo sempre agitado, um vai e vem sem recurso, uma agenda sem os dias a contar coisa nenhuma, um marco de nenhures como sinal inventado, nunca a terra nunca o sol e nunca a lua souberam, é a vida e é a morte…
De e sobre Luísa Teixeira está fresca a minha memória. Pela simples razão de – a propósito da sua relação com outra Professora, D. Maria de Jesus – me terem lembrado a sua ação em favor do ensino e da instrução junto da comunidade piscatória da zona do Pantufo. Que perdure a memória, num forte abraço e no carinho que aqui deixo à Mena, à Nanda e à Graça.
António Bondoso.   


António Bondoso
Dez. de 2014

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

E PRONTO! MAIS UM NATAL...


E pronto!
É um Natal a correr…não atrás das renas, que até são animais simpáticos e simbolizam a entrega/oferta de “presentes”, com o objetivo de nos transmitir alguma alegria – pelo menos nesta altura do ano, mas sobretudo um Natal que se sente num correr desenfreado em busca de tranquilidade que nos foi sendo retirada/roubada nos últimos anos da vida desta “colónia” de uma Europa alemã amplamente anunciada.
Não aceito nem me resigno perante a situação que nos criaram, sem nos consultar – no que diz respeito à UE ultraliberal [na onda dos mercados da alta finança] – mas também estou ciente das dificuldades que o combate nos apresenta. Mais ainda com a resignação que sinto ser maioritária neste povo materialista. Como é possível que os “ricos” gastem, num tempo como este, cerca de 9 mil euros em prendas – quando uma grande parte nem sequer tem dinheiro para comer uma sopa quente. Felizmente ainda há instituições de voluntariado solidário.
A tranquilidade que busco, portanto, passa particularmente por ter a sorte de poder partilhar as ideias do Papa Francisco – primeiro em relação à “Igreja”, depois no que respeita à sociedade. Uma sociedade complexa e muito dividida, mas que é preciso entender e fazer entender. Pelo exemplo! Tudo isto exige certamente um ritmo menos acelerado…mas o correr do meu Natal tem a ver igualmente com a urgência de fazer chegar aos meus amigos – e aos amigos dos meus amigos – a certeza de uma atitude baseada na honestidade, na sinceridade, na simplicidade e na solidariedade. A “verdade” – de que muitos falam e não praticam – é outro conceito. Múltiplo de significados…e, por vezes – quantas! – escrito e falado ao sabor das conveniências. Há verdades convenientes e outras inconvenientes, claro! E de ambas talvez esteja o “inferno” cheio – tal como os arrependidos! Mas eu continuo a correr, um Natal atrás de outro Natal, sem esquecer o objetivo essencial que é correr pela minha tranquilidade. Na alma, no coração, no cérebro, nos membros que dão vida a esses passos de corrida nesta maratona que é a vida. Com valores, com princípios, com uma postura de coluna vertebral – mesmo que a dita sofra já de algumas hérnias discais.
Um abraço do tamanho do Mundo
António Bondoso   

Foto de A.Bondoso
António Bondoso
Jornalista.
Dez. 2014 

terça-feira, 23 de dezembro de 2014


NESTAS OCASIÕES...O QUE NOS VEM À IDEIA!

***** Quando a crítica fácil se espraia pela malha volátil destas "redes sociais"...lembrei-me hoje de - ao homenagear um antigo camarada de profissão - salientar a trabalhada capacidade de contornar as dificuldades imensas no exercício da atividade jornalística há já muitos anos. Num tempo em que os enganos e as ciladas podiam ter um outro significado.
***** A simplicidade do que vão visionar, foi motivada pela apresentação do meu recente livro EM AGOSTO...A LUZ DO TEU ROSTO!, no qual a figura do Eduardo Valente da Fonseca vem em destaque, exatamente pela sua capacidade de contornar a "Censura" da ditadura, deixando-nos O HORÓSCOPO DE DELFOS.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014


ATÉ OS MORTOS FALAM NA RÁDIO.
(Versão atualizada em 10 de Dezembro de 2014)

Foto do Arquivo de A. Bondoso
Iracema Torres e o filho Ricardo

As más notícias não escolhem hora nem dia. Nem sequer a circunstância. E esta foi marcante, sobretudo pela proximidade e pela cumplicidade de muitos anos.
Mais ou menos contemporâneos na ex-EN, só nos viríamos a cruzar já em finais da década de 70 do século passado, quando a Iracema Torres pediu a sua transferência para a delegação da RDP no Porto. Natural de Paredes de Coura, a Iracema havia concorrido aos quadros da ex-Emissora Nacional em Lisboa. Como Secretária, função que sempre desempenhou com profissionalismo, competência e sentido de responsabilidade.
No Porto, exerceu a sua atividade na Redação – chegando a ter uma ação decisiva nos objetivos do Secretariado e do Arquivo, em colaboração muito próxima com a chefia da Redação. Era ela talvez a única que percebia a minha escrita manual, quase “adivinhando” uma palavra em falta.
Quando fui “compulsivamente transferido” para a Secção Desportiva, num dos meus “saneamentos”, a Iracema acompanhou-me, tal como quando me “obrigaram” a assumir a responsabilidade pelo “Secretariado”, antes de – no início de 1994 – ter partido para Macau.
Atravessou um período difícil durante a minha ausência em Macau, mas passou a secretariar o Chefe dos Serviços de Informação, aquando do meu regresso da missão de serviço na TDM. Discreta e leal, Iracema Torres faleceu hoje no IPO do Porto com 65 anos de idade, vítima de um cancro muito invasivo.
Foi uma de nove irmãos – cinco ainda vivos – e deixa um filho, Ricardo, que vimos crescer ali nas instalações da Cândido dos Reis e que hoje desempenha as funções de técnico de som na Casa da Música, no Porto, sendo igualmente um dos membros do coro da instituição. Para toda a família, mas particularmente para o Ricardo, fica o meu gesto de carinho e de consideração por ter tido o privilégio de trabalhar com a Iracema. Até um dia destes. 

Foto do Arquivo de A. Bondoso
Numa Festa de Natal da RDP, no Porto, com Ruth Soares, minha mulher Maria do Amparo e meu filho António Miguel 

António Bondoso
Jornalista

domingo, 7 de dezembro de 2014

PARABÉNS DR. MÁRIO SOARES


***** 90 ANOS DE UMA VIDA CHEIA.

Um abraço de parabéns ao Dr. Mário Soares, ex-Presidente da República mas ainda grande e corajoso combatente político - pois é isso que faz dele um grande homem.
Foi com ele que a política se afirmou nos meus ouvidos e na minha consciência por via do seu exílio/degredo em S.Tomé - onde defendeu (pro bono) dois funcionários acusados e cujo julgamento, pela sua atitude, foi influenciado politicamente; foi sobretudo a sua combatividade que me motivou (ainda antes da Ala Liberal de Sá Carneiro e de Pinto Balsemão), mas tive o privilégio de o acompanhar na Presidência Aberta de Viana do Castelo (vindo-me à ideia o seu contacto com os pescadores e um almoço informal de arroz de cabidela do qual não esqueço alguns pormenores curiosos); com ele me cruzei de novo em Macau, na inauguração do Aeroporto, e acompanhei a sua viagem a Tóquio, já no âmbito da Comissão Internacional dos Oceanos que Mário Ruivo dinamizou por indicação da ONU. Mais recentemente, tive a oportunidade de lhe oferecer em Moimenta da Beira dois dos meus livros: "DA BEIRA! Alguns Poemas e Uma Carta Para Aquilino" - o MESTRE que ele admirou, como se sabe; e SEIOS ILHÉUS - como que uma recordação simbólica do tempo que passou em S. Tomé.
Deixo para mais tarde outras "recordações" de um Homem a quem a Democracia Portuguesa e os portugueses ficam a "dever" uma importante quota-parte.

António Bondoso
Jornalista

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

NATUREZA EMPEDERNIDA...TEIMOSAMENTE VIVIDA!

Foto de A. Bondoso

CABO VERDE (A Publicar)
(Apesar do Vulcão…)

Voando de ilha em ilha
Há gente brava que espalha
O fogo de uma paixão.

Começa no sal da praia…
E da boa vista tão perto
Cai um maio e outros meses
E pede-se aos santos todos
De mares imensos
Amigos
Que o verde de Santo Antão
Se estenda de pronto a Vicente
Pois é mesmo ali em frente.

Muito se reza e se pede
A santos talvez distraídos
Que há outra gente aguerrida
Muita vida a batalhar
Tanta terra e tanto mar
Que tentam prender amarras
Nos cais de tantos navios
Entre Nicolau ao meio
E Santiago mais pra sul.

Vivendo de ilha em ilha
Mesmo falando diferente
É certo ficar sabendo
Que há luta de muita gente
Plantando dia a dia
Teimosamente criando
Certa ideia de um futuro
Tão solidariamente justo
Como um hoje sorridente.

===== A. Bondoso (A Publicar)
António Bondoso
Jornalista

domingo, 23 de novembro de 2014

O sangue assassino



O sangue assassino corre
Nas veias das palavras
Ditas e escritas
Expostas às balas
Oportunas
E de um sentido oportunista
Finamente elaborado.

Tudo se move além do vidro
Onde a fome das ideias
Mata a sede de uma ambição que
Não alcanço.
Tudo se move e se confunde
Numa justiça andarilha
Apressada quanto baste
Tão lenta se necessário
Ora acorda ao som do tempo
Ora dorme em bom descanso.

Prescrevem notas dobradas
Agita-se a turba que vende
Só os eleitos entendem
O que o povo não percebe.
Investigada justiça
À sombra do marmeleiro
Servem-se palavras de sangue
E leva-se a honra primeiro.

É o sangue assassino
A correr desenfreado
Nas veias das palavras ditas

Escritas em sarjetas de mercado.
========= 
António Bondoso
Jornalista