2018-05-18

JOSÉ MARIA PEDROTO
O futebol era um vício…mas o Homem tinha vida para além da Paixão!


JOSÉ MARIA PEDROTO
O futebol era um vício…mas o Homem tinha vida para além da Paixão!
E quando se diz que Pedroto, treinador, era um homem à frente do seu tempo…tudo se estendia para lá da metodologia do treino, da visão do fenómeno e da leitura do jogo no “banco”. O “Zé” era um homem preocupado com os seus jogadores enquanto pessoas comuns. E tinha um forte espírito de solidariedade, não só no âmbito da “família portista” (Miguel Arcanjo chamava-lhe o Divino Mestre), mas até com ex-jogadores de outros clubes a quem ajudava não só financeiramente. 


José Carlos Silva

José Maria Pedroto foi mais uma vez homenageado, agora pela «Tertúlia do Dragão”, cujo espaço passou a contar com uma sala VIP que leva o seu nome. A mulher, Cecília, e os filhos Isabel e Rui acompanharam o Prof. José Neto e o Presidente do FCP Pinto da Costa, numa sessão para lembrar o homem e o treinador de eleição. José Neto ilustrou a importância de Pedroto na sua passagem pelo clube e na sua formação como homem do futebol – não apenas no pormenor das estatísticas; Isabel e Rui acentuaram a faceta do pai, embora com uma natural rigidez, preocupado com o saudável crescimento dos filhos à luz do tempo que foi – uma ideia igualmente partilhada por Pinto da Costa, que destacou o facto de ele lhe manifestar a sua preocupação, não com o futuro financeiro dos filhos, antes com a importância de lhes proporcionar ferramentas para melhor enfrentar eventuais dificuldades da vida; e Cecília Pedroto preferiu salientar que o marido, embora respirando e transpirando futebol, sempre procurou nunca misturar a família e a profissão. Visivelmente emocionada, revelou que o marido nem sabia que ela ia ver os jogos ao estádio das Antas no seu lugar cativo. E feliz pela continuidade de Sérgio Conceição como técnico do clube, Cecília Pedroto – embora recusando comparações com outros grandes treinadores portugueses, antigos e actuais, e não esquecendo a enorme evolução do futebol – sempre foi dizendo com orgulho que nenhum o igualou no que respeita a capacidades técnicas. Jorge Nuno Pinto da Costa lembrou com naturalidade a sua relação de amizade com Pedroto não só no F.C. do Porto. E foi em sua casa, com amigos comuns, que partilhou responsabilidades com a ida do técnico, quer para Setúbal, quer para o Boavista. A doença que viria a minar a vida de Pedroto, demasiado cedo, foi igualmente objecto da memória do presidente do clube azul e branco. 


Foi pena, embora se perceba a exígua disponibilidade de tempo, que a «tertúlia» não tivesse sido estendida à numerosa assistência. Pedroto era um homem de tertúlias, lembrou o filho Rui. E eu, que tive a felicidade de poder acompanhar pelo menos duas na Petúlia, madrugada dentro, graças sobretudo à camaradagem de Nuno Brás, Sérgio Teixeira e de Manuel Fernandes, da RDP, não esqueço a simplicidade com que o «Mestre» explicava como os defesas laterais deviam evitar os cruzamentos dos extremos adversários. Ou de como, ainda não havia marcas no relvado como hoje, e já ele colocava um jogador à frente do adversário na marcação dos cantos e um outro junto ao poste da baliza – quantas vezes até nos dois! Questionado um dia por um jornalista, depois de uma série de 5 empates do FCP, no tempo em que as vitórias ainda valiam 2 pontos…Pedroto disse: meu rapaz…vale mais 5 empates do que 3 derrotas! Há muitas outras situações conhecidas, como aquela do penálti que o Oliveira falhou contra o Sporting, nas Antas (a perder por 1-0) e que, por indicação de Pedroto, Romeu acabou por ter êxito na recarga, empatando o jogo…ou uma outra passada com Jairo – um brasileiro que chegou ao clube em finais dos anos 70 do séc. XX: num dos treinos, o avançado insistia em cruzar muito antes da linha de fundo para a área, o que retirava eficácia ao ataque. Então Pedroto mostrava-lhe aquele espaço mais próximo do ângulo entre as linhas lateral e de fundo, imaginando um “quarto de círculo” em grande plano. Estás a ver? É mais ou menos por aqui que deves cruzar. Mas Jairo insistia no “erro”. Até que, num desses cruzamentos, o ataque lá acabou por marcar um golo. Então Pedroto terá desabafado: pronto, também serve! 


         Era assim José Maria Pedroto – um homem à frente do seu tempo e que o tempo levou muito antes do tempo merecido! De Lamego ao Porto, da Invicta ao Mundo…a doença fatal viria a impedir-me de apresentar a história do «Mestre», ou parte dela, na primeira pessoa, mas ficaram testemunhos vários de diferentes quadrantes clubísticos, salientando as capacidades como homem e como treinador. Transmitido ainda antes do seu passamento…talvez ainda esteja em “arquivo” na RDP-Antena1. 



António Bondoso
Jornalista
18 de Maio de 2018. 


2018-05-01

"Sem trabalho, o homem nega-se e compromete-se seriamente a sociedade. Então, que neste dia comece uma vida nova para Portugal”!
D. Manuel Martins - 1 de Maio de 2013 - Ainda não tinha deixado o mundo dos vivos e era Bispo Emérito de Setúbal. Na apresentação, em Lavra, do meu livro O PODER E O POEMA:



«D.Manuel Martins frisou que “O homem é trabalho. Não pode viver sem ele (Deus é trabalho)”. E aparece assim na nossa vida como “dever natural” e, por isso, como “direito natural (Constitucional)”. Por ambição dos homens – disse o Bispo Emérito de Setúbal – “em Portugal ronda o milhão os cidadãos sem trabalho. Já imaginamos o que é isto? Já experimentamos o que é isso? Malditas políticas que se constroem sem este alicerce social que garante o pão na mesa e o progresso de um povo. O trabalho é realização pessoal; é colaboração com o Criador, é gesto, é caminho de solidariedade familiar e social. Sem trabalho, o homem nega-se e compromete-se seriamente a sociedade. Então, que neste dia comece uma vida nova para Portugal”!
A beleza da Primavera foi o passo seguinte: “Na Primavera tudo começa de novo. É o tempo que apela à esperança. É um Sacramento: manifesta – é sinal de – vida nova e faz apelo a vida nova”. Por isso, D.Manuel considera que, apesar do Acordo Ortográfico, Primavera merece ser escrita com letra maiúscula.
Lembrou depois que “Maio é o mês de Maria, mês da Mãe, Mãe que é carinho, respeito, preocupação, presença, sorriso...Mãe que é vida permanente e rica junto de nós, Mãe que nos quer felizes a todos”.




25 DE ABRIL 2018. CRONOLOGIA
De um país clandestino…a outro inconstitucional!


Ao rever há pouco o filme «O Tarzan do 5º Esquerdo», de 1958, com argumento de Costa Ferreira e realização de Augusto Fraga, e interpretado por Raul Solnado, Artur Agostinho e Carmen Mendes, uma das últimas “mensagens” do guião conduziram-me à mentira que foi em tempos este país quase clandestino. As conversas eram clandestinas, os isqueiros sem licença eram clandestinos, os rádios sem licença eram clandestinos e a emigração para o estrangeiro era clandestina. Só essa…pois cá dentro chamavam-se as pessoas para as grandes cidades – sobretudo para a capital – deixando o resto do país ao abandono. Tal como hoje, infelizmente, mudando apenas a semântica: de um país interior e já de si periférico, passou-se ao discurso dos territórios de baixa densidade. Mas a emigração permanece, embora de contornos diferentes. E o país, de clandestino…passou a «inconstitucional» pois ainda não se cumpriu a regionalização. E não adianta tapar o sol com a peneira de uma arrevesada desconcentração ou descentralização. A regionalização foi consagrada na lei fundamental…falta cumprir-se Portugal! O espírito de Abril merece esse passo, pois Abril será sempre e Maio logo a seguir:
ABRIL SERÁ SEMPRE!

Abril prolonga-se em Maio
Em tempo justo de luta.
Estende-se por todo o Verão
E chega lesto ao Outono
Antes do gelo de Inverno
Atrasar a Primavera
Pela qual tanto se espera.

É Abril a viajar numa conduta
De esperança feliz em liberdade
É um tempo que queremos de verdade
Na amizade que do nada se constrói.
Solidária, forte, justa e com sentido
Só nela se pode confiar
Pois Abril será sempre.

Sempre que os homens quiserem
Sempre que a alma puder
Sempre que o coração mandar
Que haja justiça sempre:
Em Maio, Junho ou Setembro
Em Março, Agosto ou Dezembro.
Em Abril…será sempre!



António Bondoso
Jornalista
30 de Abril de 2018.

2018-04-30


25 DE ABRIL 2018 – CRONOLOGIA
Apareceu-me no “face”, na página dedicada a Almada Negreiros, uma nota sobre «100 anos de poesia» a assinalar na Academia das Ciências de Lisboa, de 7 de Maio a 6 de Junho. 


Interessante, talvez por isso e nos tempos que vão correndo, sob o signo dos ventos de liberdade, lembrar esta «LIBERDADE» de Almada Negreiros, nos 125 anos do seu nascimento, na Roça Saudade, em S. Tomé:
“LIBERDADE
Quando entrei na cidade fiquei sozinho no meio da multidão.
Em redor as portas estavam abertas. A multidão entrava naturalmente pelas portas abertas. Por cima das portas havia tabuletas onde estava colada aquela palavra que sobe – Liberdade!
Entrei por uma porta. Entrei como uma farpa!
Era uma ratoeira, Mãe! era uma ratoeira! Se eu tivesse entrado como uma agulha podia ter saído como uma agulha, mas entrei como uma farpa, fiz sangue verdadeiro, já não me esquece. Aconteceu exactamente. Dei um mau jeito nos rins por causa da ratoeira! Ainda me lembro da palavra – Liberdade!” (…)
         A liberdade, a responsabilidade e a ponderação – tudo isso na ideia do génio de Almada. E a mãe, sempre a Mãe com letra maiúscula, que ele perdeu tão cedo, ainda não tinha chegado o conhecimento. 



Fotografia: Filipe Amorim/Global Imagens 

E depois, como ontem havia chamado a atenção, a ponderação dos vários fatores que podem influenciar um simples jogo de futebol. Ainda faltam pontos para se ganhar o campeonato…mas já está instalada nos adeptos do FCP como que uma desmedida loucura. É a liberdade de uma falta de ponderação de quem tem estado afastado de títulos nos últimos anos. A reconquista da liberdade de festejar tal como em Abril, mesmo sem haver a certeza de que o golpe triunfara, seguindo-se a revolução.
Abril há de ser sempre…e eu aqui voltarei para escrever sobre valores.

António Bondoso
Jornalista
29 de Abril de 2018






2018-04-29

25 DE ABRIL 2018 – CRONOLOGIA
Já não bastavam as imagens do interrogatório a José Sócrates…apareceu agora em Macedo de Cavaleiros uma lista com nomes de devedores pelo consumo de água da rede pública. 



25 DE ABRIL 2018 – CRONOLOGIA
Já não bastavam as imagens do interrogatório a José Sócrates…apareceu agora em Macedo de Cavaleiros uma lista com nomes de devedores pelo consumo de água da rede pública. Penso não ser caso único ou pelo menos novidade esta história contada pelo JN. O golpe e a revolução de 1974 acabaram com a censura, mas 44 anos depois não deixa de ser censurável o abuso – ainda que rotulado desse vago e por vezes indecifrável “interesse público” – com que alguns avençados nos média exercem o que era suposto ser «jornalismo de investigação». O interesse deste desiderato está precisamente no facto de serem os jornalistas a conseguir «descobrir» os casos e não esperar que, por um milagroso expediente de tráfico de influências, lhes caia no computador um DVD com gravações que só à Justiça deviam dizer respeito. A investigação judiciária fez o seu trabalho, bem ou mal, acusou e agora seria altura de esperar pelo julgamento. Estará a «acusação do MP», por deficiência, necessitada de aproveitar a mais que certa condenação na praça pública?
Deontologicamente, e apesar de o respetivo Código ter sido ligeiramente alterado há pouco, é certo que «o jornalista deve combater a censura e o sensacionalismo»… sendo igualmente verdade que «o jornalista deve salvaguardar a presunção de inocência dos arguidos até a sentença transitar em julgado», tal como «deve utilizar meios legais para obter informações, imagens ou documentos, e proibir-se de abusar da boa-fé de quem que seja».  
Contudo, para além de tudo isto, há a verdade da sobrevivência, da subserviência, do protagonismo ou simplesmente a tentação vaidosa de dar corpo à ideia de um quarto ou quinto poderes que – manifestamente – o jornalismo não deve ser. O essencial da função é, pelo contrário, ser um contrapoder. É aí que reside a força do jornalismo. 


Quanto ao caso da lista dos devedores de consumo de água em Macedo de Cavaleiros, sendo condenável a «fuga de informação», sabe-se lá a troco de quê, não deixa de ser verdade que a Câmara parece não ter força para aplicar a lei. Quem deve é obrigado a pagar. Não cumprindo o requisito, fica sem água. Independentemente de podermos neste caso não duvidar do interesse público, até pela equidade/igualdade de tratamento dos cidadãos, não deixa de ser questionável o benefício da “fuga de informação”.  



Por outro lado, foi interessante saber que o futebol também foi na revolução, sendo normal que a tristeza de uns possa proporcionar a alegria de outros. Se as tecnologias (leia-se a má/deficiente aplicação das mesmas, como é o caso do VAR) não matarem o futebol, é muito bom saber que as surpresas podem acontecer. Sempre ouvi dizer que a bola é redonda e são 11 de cada lado – a não ser que os árbitros desequilibrem a «balança» ou «inclinem o campo» como acontece amiúde – tal como se deve atender ao fator sorte nada despiciendo. O futebol é mágico, já dizia Desmond Morris.


António Bondoso
Jornalista
28 de Abril 2018



2018-04-27


25 DE ABRIL 2018  – CRONOLOGIA
A 27 ainda se respira Abril, embora por motivos diferentes!


O texto na placa do Jardim do Campo Grande, a placa com a inscrição "Jardim Mário Soares — fundador da democracia portuguesa, Presidente da República e Primeiro-ministro, 1924-2017" que ficou instalada no extremo sul do Jardim, em Entrecampos, de facto não está bem. Mário Soares não foi «o fundador» da democracia…mas é inegável que foi um dos grandes lutadores pela sua conquista, depois de tantos anos da ditadura do Estado Novo. Por isso compreendo as críticas ao texto da placa, esperando que as mesmas não se direcionem para o significado da placa em si própria. Mário Soares merece, sem dúvida, ser perpetuado na toponímia da cidade. E quem se lembrou do jardim não esteve nada mal. Ali, na quietude do lago e das árvores, vai certamente respirar-se a memória de um dos nossos grandes lutadores pelas liberdades. E a liberdade de expressão, de que ele nunca desistiu, estará presente, quando o púlpito – que se encontra no centro de um pequeno anfiteatro circular, na zona sul deste espaço verde, em frente à casa onde morou – for devida e livremente utilizado. 



Um outro foi seguramente Álvaro Cunhal, que o Jornal 2 da RTP, pela batuta do João Fernando Ramos – em dia de aniversário – levou aos telespectadores diretamente do Forte de Peniche, que vai ser o Museu Nacional da Resistência e da Liberdade. Dali fugiram Cunhal e mais 9 presos, em 1960, para desespero da PIDE e do regime de Salazar, pois o Forte de Peniche era considerado de segurança máxima e até inexpugnável. Depois de pronto, espera-se que o Museu saiba cativar público para um conhecimento mais aprofundado da história mais ou menos recente do país.



António Bondoso 
Jornalista
27 de Abril 2018. 

25 DE ABRIL 2018 - CRONOLOGIA
O DIA SEGUINTE: 


Manhã emotiva e interessante na Biblioteca do Agrupamento Escolar D. Pedro I, em Canidelo – Vila Nova de Gaia – onde se falou do 25 de Abril de 1974, suas causas e consequências. Designei eu esse acontecimento como O GOLPE DOS 4 DÊS: Derrubar o Regime, Descolonizar, Democratizar e Desenvolver. Acrescentei apenas um “dê” aos 3 mencionados no programa do MFA que, porventura, terão ido buscar a ideia a uma tese de Medeiros Ferreira – apresentada no Congresso da Oposição Democrática de 1973 em Aveiro. E lembrei que o meu 25 de Abril aconteceu na fase final do meu “serviço militar” em S. Tomé e Príncipe, no Quartel do Aeroporto, quando ouvi pela emissão de Onda Curta da BBC a notícia de movimentações militares em Lisboa, pouco passava das quatro da madrugada. O passarinho cantou…depois da senha Grândola Vila Morena, na voz de Zeca Afonso.
         Foi lá que tive o prazer de conhecer o hoje Almirante Cavaleiro Ferreira e o agora Coronel José Maria Moreira de Azevedo – delegados da Junta de Salvação Nacional e do MFA. Sobre o primeiro, recordo particularmente as noites passadas na Rádio a tentar perceber o que se ia passando em Portugal. E depois, até um pouco de pedagogia política sobre os termos em voga: democracia, liberdade, autodeterminação, independência. Também não me esqueci de referir que, em 1968, foi para S. Tomé que Salazar deportou Mário Soares, depois de prisão pela PIDE, sem culpa formada. 



PARA QUE FOI FEITO O 25 DE ABRIL?
A desilusão deste «dia seguinte» veio já ao fim da tarde, quando tomei nota da decisão de devolver – embora de forma faseada – os cortes que os políticos haviam sofrido nos seus vencimentos durante o tempo da «Troika». E os cortes das reformas quando serão devolvidos? Foi para isto que se fez o 25 de Abril?


António Bondoso
Jornalista
26 de Abril de 2018


2018-04-17



Foto da Web



ABRIL PODERIA TER SIDO EM MARÇO…ou de como os militares, em 1974, tiveram dificuldades em comunicar e se viram envolvidos num fogo cruzado de informação e de contrainformação, envolvendo oficiais oriundos da Academia e sendo outros milicianos.
Mas o 16 de Março, garante Manuel Monge, não foi um engodo de ninguém e muito menos do PCP. A operação desencadeada pelo RI5, das Caldas da Rainha, tinha como objetivo primeiro reagir às anunciadas demissões de Spínola e de Costa Gomes pelo regime de Marcelo Caetano.
 Manuel Monge diz sentir mágoa pela situação fortuita que levou ao falhanço do 16 de Março, nomeadamente as hesitações dos Paraquedistas que – segundo ele – eram incapazes de desobedecer à cadeia de comando e que, por isso, não deveriam ter sido contactados. Foi um erro, diz o general Monge, apesar de as Ordens de Operações apenas incluírem os Paraquedistas numa situação de “reserva”. Mas garante que estava tudo preparado pelo Movimento dos Capitães, incluindo o empenhamento de Otelo e de Jaime Neves, por exemplo e de outros elementos do RI5 como Casanova Ferreira.
Contudo, Adelino de Matos Coelho – tenente de infantaria à altura do acontecimento, que integrou a coluna das Caldas e que viria a ser preso na sequência do fracasso – disse ao Centro de Documentação 25 de Abril, de Coimbra, que “…no dia 13, em Santarém e em Lisboa, os tenentes (oriundos de cadetes) Rocha Neves e Moreira dos Santos, do RI nº 5, participaram em reuniões destinadas à distribuição do “plano de operações” de um golpe militar previsto para 14, o qual foi anulado. Regressados de Lisboa, ao princípio da madrugada 14, os tenentes trouxeram esta informação porque os pára-quedistas necessitariam de dez dias para preparar a acção. Assim, ficámos a aguardar novas indicações.
Em ALVORADA EM ABRIL, Otelo Saraiva de Carvalho descreve aquele plano, “elaborado no dia 11, em casa do major Casanova Ferreira, com a participação de Monge, José Maria Azevedo, Geraldes, Luís Macedo e Garcia dos Santos, parecendo uma brincadeira de garotos, cada um atirava o seu objectivo para cima da mesa (…), tendo sido feito sobre o joelho, sem força nem estrutura de qualquer espécie (…).”
Mas José Maria de Azevedo, então major – recordo – apesar desta apreciação negativa de Otelo, havia estado na base do 1º documento do Movimento dos Capitães. Já o próprio mo havia confirmado, mas igualmente Vasco Lourenço o disse ao Centro de Documentação 25 de Abril a propósito da reunião em casa de Marcelino Marques em Janeiro de 1974, e na qual aparece Melo Antunes, que Vasco Lourenço não conhecia: “(…) o José Maria Moreira de Azevedo que era um major, hoje coronel de Administração Militar que ficou encarregado de elaborar um projecto e eu quero ir mais avançado, entrar já em questões de natureza política e sou eu que o convenço e que digo. Nem pensar nisso, tu tens que aparecer com um documento mais atrasado que aquilo que tu queres e vais aparecer com um documento quase só com questões corporativas. (…) E aí o José Maria Moreira de Azevedo levou uma tareia por causa do documento estar muito pró, que ele não queria. Bem, a certa altura irritou-se, atirou com os livros ao chão - “Eu não estou para vos aturar, eu não quero saber mais nada disto. Eu vou-me embora”. Eu puxei-o e disse: “Estás a ver que estamos a atingir o que queríamos. Se tivesses trazido um documento mais avançado estavas a levar tareia porque estavas longe de mais. Estás a levar tareia porque estás muito aquém daquilo que a malta quer e agora vai sair daqui uma posição, vai ser dado um salto qualitativo muito mais do que tu alguma vez imaginaste.” “Mas não estou para vos aturar”. “Não, mas atingimos os objectivos e agora vais ficar na comissão de redacção do próximo documento.” E ele. “Nem penses nisso!” Mas acabou por ficar.”

Para além do episódio com os Paraquedistas, Manuel Monge refere igualmente problemas de última hora com alguns dos militares do CIOE de Lamego que não puderam tomar parte na operação. No fim, acrescenta, acabou por assumir a responsabilidade juntamente com Casanova Ferreira, tendo sido presos na Trafaria. Foram libertados na tarde do dia 25 de Abril por uma unidade de Vendas Novas. Era para ter sido uma força do Batalhão de Estremoz, mas foi preciso desviar esses militares para ajudar Salgueiro Maia no Largo do Carmo.
Apesar de tudo, Manuel Monge não sente desilusão com a sequência do golpe de 25 de Abril, excetuando talvez o problema da descolonização, cujo obreiro foi Melo Antunes, num período difícil da Guerra Fria. Pior não era possível – diz o gen. Monge – que não se esquiva igualmente a criticar o que chama de infiltrações esquerdistas, nomeadamente da Marinha, cujo rosto mais visível era o de Rosa Coutinho e que “nunca fez nada para o Movimento”. Por outro lado, o já Movimento das Forças Armadas, apesar das tentativas de Spínola, não conseguiu arregimentar o poder interventivo da ONU, ao contrário do que viria a passar-se anos mais tarde com a sensibilização para a resolução do problema de Timor-Leste.
E sobre a União Europeia, o gen. Monge diz que a Organização sucumbiu atualmente aos interesses do grande capital e da Alemanha, notando igualmente que há uma gritante falta de líderes e de liderança.
A propósito do 25 de Abril de 1974, quero ainda deixar um excerto de uma entrevista que o Coronel Castro Carneiro deu em 2014 aos alunos do Instituto Multimédia do Porto Tomás Cazaux e João Farpa, sob minha orientação. Castro Carneiro, que aderiu ao Movimento dos Capitães em Angola, em 1973, foi o oficial encarregado de distribuir as Ordens de Operações do golpe pelas unidades da Região Militar do Norte (Lamego, Vila Real, Chaves e Bragança), a partir do CICA, no Porto. Nessa entrevista, aquele oficial confessa que o sigilo era fundamental. Nem a sua mulher sabia dos movimentos para que foi destacado. E destaca que o «golpe» foi, de facto, um ato de desobediência.   
António Bondoso
Jornalista
Abril de 2017. (Versão actualizada em 2018).   


2018-03-29


A BANCA (E OS SEUS DESVIOS) É COMPATÍVEL COM O ESPÍRITO DA PÁSCOA?

Foto de Ant. Bondoso


E A BANCA CONTINUA A “COMER” TUDO…

Não sou polícia, não pertenço às FA, não sou médico, não sou enfermeiro, não sou guarda-prisional, não sou funcionário do SEF, não sou taxista nem tachista, não sou guarda-florestal, não sou professor diplomado nem sindicalizado, não sou piloto de aviões nem tripulante de cabine, não pertenço a qualquer categoria de investigadores bolsistas ou bolseiros, não tenho capacidade reivindicativa. Sou apenas um aposentado! Jornalista mas aposentado…cujo valor da “reforma” não só foi congelado desde 2010, como foi drasticamente diminuído durante a troika PPC/PP/CS e que o atual governo não repôs, apesar dos anúncios de verdadeira engenharia financeira. Essa, no período a que me refiro, já deu aos “bancos” 17 mil milhões (E VAI AUMENTAR!), que todos temos vindo a pagar, com o sacrifício indesmentível dos pensionistas/reformados que, no máximo das suas capacidades, apenas se limitam a consultar os recibos.
Confesso não pensar atirar-me do alto de uma ponte ou sentar-me ou acampar à porta da residência do 1ºM ou na rampa do Palácio de Belém que tem uma acentuada inclinação. Mediático, sem dúvida, mas não deve ser prático.  
Então, prometo – como forma última de protesto – deixar de vir às redes sociais às segundas, quartas e sextas protestar contra os governantes e contra os deputados. Prefiro fazê-lo às terças, quintas e sábados – dias mais propícios a uma folga de pensamento e ao descanso mental.
António Bondoso
Jornalista
Março de 2018. 



2018-03-01


ÁGUAS DE MARÇO...

Águas de Março e dos meses passados
Vão trazer Abril e Maio
De cravos molhados
Fazer germinar uma árvore gigante
Com ramos e cores
De magia pendente.

E encher os rios de água corrente
Cristais nos caminhos de um mar distante
Diamantes perdidos
De um sol tardio
Esmeraldas, rubis
Em palavras cobertos
Com todas as letras e pontos nos is.
========A. Bondoso
Março 2013.  
Em O RECOMEÇO, 2014. Edç Esgotadas. Pg.54



António Bondoso
Jornalista

2018-02-28


Como é bom ser “reconhecido” em vida!
A propósito de ter sido o poeta convidado do Clube ASAS DE POESIA para a sessão de 24 de Fevereiro de 2018, na Biblioteca José Vieira de Carvalho, no Fórum da Maia. 




Como é bom ser “reconhecido” em vida!
Em “memória”, a homenagem não deixa de ter o seu sentido e o seu significado, sobretudo para orgulho dos familiares e amigos do peito, mas ver e sentir o seu trabalho ou a sua obra serem apreciados nesta presente caminhada terrena, é uma sensação que deixa perceber o quanto estamos de bem com a vida, mesmo tendo em conta todos os escolhos que aparecem diacronicamente “programados”.
Mas é mesmo bom ser reconhecido em vida!
Não por meio de uma comenda cada vez mais em voga; não através de um busto que faça corar o espelho; não correndo o risco de ver o nome pespegado numa laje de granito indicando o sentido de uma artéria citadina – mesmo que os dados sejam fornecidos por um GPS de última geração.
Em qualquer caso, é mesmo muito bom ser reconhecido em vida!
Sendo suspeito, talvez faça sentido dizer que – apesar de tudo – a dita “homenagem” terá sido um exagero, havendo seguramente pessoas de outro gabarito.
Direi até que é mesmo reconfortante ser reconhecido em vida!
Não pelo jornalista que fui – ainda sou, embora na «reserva» - mas pela poesia que tenho partilhado. Deixo, portanto, o meu apreço ao simpático e acolhedor, empenhado e dinâmico Clube ASAS DE POESIA, da Maia. Mensalmente há um convidado de «honra», completando-se a sessão com a evocação de um grande poeta de outros tempos. Eu tive a felicidade de poder “ser acompanhado” pela figura ilustre de uma poetisa de grande caráter e de uma dimensão intelectual ímpar: - a «desalinhada» Irene Lisboa. Deixo igualmente escrito um carinhoso agradecimento aos Amigos que puderam e quiseram estar presentes – eles sabem quem são! – particularmente aos que viajaram de longe e, sobretudo, aos que viajaram de muito longe, muito longe além dos mares, trazendo-me o assobio do «ossóbó» encantado das Ilhas do Meio do Mundo.

Não esquecendo os habituais declamadores do «Asas de Poesia» (a Manuela Carneiro, que sublimou OS PRIMEIROS BISAVÓS; a Cristina Pessoa, que tão bem soube navegar no MEU MAR…DONO DO MUNDO; a Ana Freitas, de Coruche, que entendeu de forma magnífica que A MINHA MÚSICA…É O MAR; a Dulce Morais, que adocicou UM BRASIL BRASILEIRO; o Dionísio Dinis, que disse de forma vigorosa ATROFIADO POETA…NÃO! POETA REPRIMIDO…NUNCA!; e o António Portela, que percebeu a necessidade de O RECOMEÇO), a minha gratidão estende-se ainda à Filomena Mesquita e à dinamizadora Teresa Gonçalves; e à música de Orlando Mesquita, Manuel Bastos e do Grupo de Violas e Cavaquinhos da Universidade Sénior Rotary de Matosinhos, na qual tenho a honra de colaborar. E depois declamou-se Irene Lisboa, faltando-me referir o Francisco, de Coruche, o Francisco Félix Machado, a Maria do Amparo Bondoso e o José Brites Marques Inácio. 




Todos juntos, ajudámos a integrar e a absorver o espírito poético da tarde de Sábado passado aos jovens estudantes Santomenses, no Porto, Jéssica Conceição, Vanda Almeida e Ekilson Fasbel, os quais assumiram a responsabilidade de cantar como o ossóbó dizendo o meu poema sobre S.Tomé EM TEMPOS CHAMEI-LHE MINHA: «Era ali que eu existia./E tinha pela frente o mar/ Imenso/ Com ondas de calema e tanta espuma./ Contava carneirinhos a perder de vista/ E sonhava com os mistérios do mundo:/ Que era ali, todo inteiro/ Até onde meus olhos alcançavam./ Tudaxi sá glávi…tudo kwá sá dôxi (…) Chamei-lhe minha no tempo/ Quando a hsitória me ensinou/ Era ali que eu existia/ E é ali que sempre estou./ Lá longe, desse lugar/ Onde o mundo se divide/ Chegam-me os novos sentidos/ Mas continuo a escutar/ O canto do ossóbó./ Também melodioso, um papagé repete: ainda lhe chamo minha, ainda lhe chamo minha, ainda lhe chamo minha…».
Fui parar à minha ilha de sonho através de uma janela «por onde espreito a intimidade do mundo/ Viajo supersónico/ Para além do Azul/ Quando pressiono o botão do meu rádio de pilhas».
E foi de lá que estiveram também comigo o Américo Gradíssimo e o Manuel Xavier – que me emociona sempre que falamos da ilha do Príncipe – e recebi igualmente, nesse espaço acolhedor que é a Biblioteca municipal que leva o nome de José Vieira de Carvalho, um abraço sentido do médico e grande poeta José Brites Marques Inácio.
Todos eles me ouviram dizer por exemplo que, «da inocência do pós guerra em Moimenta da Beira à infância, à adolescência, ao crescimento livre, à juventude adulta e ao casamento em STP…vai todo um mundo de contradições e de esperanças, conjugando emoções várias que, há mais ou menos 20 anos, tenho vindo a conseguir passar ao papel, sobretudo em linguagem poética. E é e foi este lastro, traduzido com simplicidade em quase 40 anos de uma profissão apaixonante na Rádio (também na TV) e na formação audiovisual – tem sido esse lastro a dar-me a oportunidade de partilhar com todos os que me vão lendo um “mar imenso de ideias, de ideais, de emoções – vividas e sentidas – de paisagens deslumbrantes”. E evitando uma difícil, objetiva e concreta definição de poesia (à qual reconheço, como Antero, a sua função social), cito apenas Mário Quintana: a poesia é para abalar, não é para embalar…e quem faz um poema abre uma janela».




António Bondoso
Jornalista
28 de Fevereiro de 2018. 





2017-12-21

OS AMIGOS BONS...DESPEDEM-SE ANTES DO NATAL!




ACHAS?
Há sempre uma hora, há sempre um dia. Que nós, como verdadeiros Amigos de quem somos, desejamos vá sendo adiado. Mas o momento é inevitável. E hoje, pela pena do filho Rui na página do pai, chegou a tristeza de uma nota em tom poético sobre o passamento do Tozé Cardoso Pinto. Conheci-o há muitos anos, trabalhava ele na RDP, em Lisboa, depois de ter emprestado a sua voz e a sua sensibilidade à Rádio em Angola. Cardoso Pinto nasceu em Malanje. E conhecemo-nos no Porto, por ocasião de uma visita de trabalho do então Diretor de Informação José Gabriel Viegas. Depois, fomos mantendo o contacto, embora o Tozé tenha preferido deslocar-se para a área dos programas, ali mesmo À Esquina da Um. Tinha mais a ver com a sua forma de estar, com a sua sensibilidade, com o seu ritmo. Um tom que ele deixava transparecer quando me respondia : «achas»?
Pois o Tozé foi seguramente uma das pessoas mais responsáveis pela minha ida para Macau trabalhar na TDM. E foi lá, também com ele, que eu me fui apaixonando pelo gosto de trabalhar as palavras. A minha poesia ganhou forma ali na Rádio, em Macau. Obrigado Tozé pela Amizade, grato pelo teu cuidado e teimosia em querer trabalhar comigo. O meu abraço em estereofonia – bem expresso neste prefácio da Inês Pedrosa ao teu livro A LUA DOS ASTRONAUTAS NÃO É A MINHA LUA:
" CORAÇÃO EM ESTEREOFONIA "
Cercar de fogo as margens brancas da rádio é um labor delicado,
porque aqui o fogo tem que arder no escuro, como diria Camões
se ouvisse telefonia.

Há que fazer com que a palavra pareça música, a música pareça segredo
e ambas abracem aquilo que do outro lado é solidão.
Como a poesia, ou com ela. Cardoso Pinto sabe disto e sabe a isto.
Trabalha-se com o coração à beira-boca no limiar da absoluta invisibilidade,
no palco do puro instantâneo.

... Com mais ou menos estereofonia, o desafio continua suspenso pelo mesmo precário fio de sintonias: a transparência da palavra, o grão da voz.
Cardoso Pinto disse, e agora escreve: "reflectindo, reflectimo-nos".

Disse e escreveu pequenas histórias de estrelas e sábios passeando pelo céu imenso de uma cidade irresistivelmente violenta.
O que ele disse escreve-se.

Há coisas assim que ditas já são outras verdades.
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António Bondoso
Jornalista.
21 Dez. 2017




UM NATAL COM JUSTIÇA!
Afinal...a Justiça deveria ser e estar Todos os Dias...


NÃO ME VENHAM FALAR DE NATAL!
FALEM-ME DE JUSTIÇA!
(Atualizando o que escrevi em 2015, percebendo a sem-vergonha de PPCoelho, Cristas e quejandos. Dou de barato o triste espetáculo da oposição na AR, mas não posso deixar passar em claro a barbaridade da afirmação do ainda líder do PSD sobre não ter memória de um ano tão trágico).
Não me venham falar de Natal, quando a miséria, a pobreza, a desigualdade entre os homens de todas as raças se acentua; não me falem de Natal quando os “donos disto tudo”, banqueiros e mercados sem rosto, somam cada vez mais às suas fortunas roubando o produto de quem trabalha e de quem já trabalhou; não me falem de Natal quando os jovens não têm futuro na terra onde nasceram; não me venham falar de Natal quando as migrações são cada vez mais forçadas por situações de guerra e perseguições políticas – da Síria ao Sudão, da Líbia ao Iraque, da Sérvia ao Kosovo, da Albânia à Turquia, do Líbano a Israel, da Rússia à Palestina, do Paquistão à Índia, da Indonésia às Filipinas, da China ao Tibete, do México aos Estados Unidos, da Alemanha à Hungria, do Congo ao Chade, da Tunísia ao Burquina Faso, de Angola ao Zimbabwe, do Brasil à Venezuela, de Myanmar ao Ruanda ou ao Quénia. Não me falem de Natal quando as crianças em todo o mundo são violentadas pela fome e pela escravidão.
Não me venham falar de Natal.
Falem-me de Justiça.
Não me falem de Natal, quando os doentes passam cada vez mais situações críticas já mesmo à porta das farmácias – quando não, até à porta de suas casas. Não me venham falar de Natal quando os avós e os pais já não conseguem – em cada dia – fazer face ao desespero dos filhos. Não me falem de Natal, quando há situações diárias de pais e filhos desavindos. Não me venham falar de Natal, quando há escolas e hospitais que não funcionam por falta de verbas. Não me falem de Natal quando a violência doméstica é cada vez mais comum; não me falem de Natal quando os vizinhos se agridem por uma flor de jardim ou por um arbusto saído; não me venham falar de Natal quando as alterações climáticas – resultado sobretudo das ambições desmedidas do “homem” – conduzem à morte do nosso planeta a um ritmo assustador.
         Não me venham falar de Natal apenas em Dezembro, exatamente numa altura que o ainda líder do PSD se lembrou de dizer que não tinha memória de um ano tão trágico em Portugal. Certamente se esqueceu – pois não tem memória – dos 1216 casos de suicídio registados em 2014. E nos anos do seu (des) governo, patrocinado pela Troika e por Cavaco Silva, também não se recorda das pessoas que perderam as suas casas para os bancos (que ele alimentou com milhões) ou daqueles que se viram obrigados a emigrar ou a desfazer-se de muitos dos seus bens para enfrentar os efeitos dos cortes cegos – sobretudo nas pensões de reforma. É trágico recuperar uns quantos euros, tendo em conta as centenas/milhares de que fomos esbulhados? Não me falem de Natal, quando esse fulano se permite dizer o que disse. Certamente não tem memória dos 10 mil milhões que o fisco deixou fugir para os paraísos fiscais entre 2011 e 2014, tal como não tem noção da gravidade em que deixou este país mais triste à beira-mar plantado, tal como referia em Novembro de 2016 o jornalista Nicolau Santos: “        É este o Estado que temos: sem poder para mandar naquilo que é verdadeiramente essencial para definir uma estratégia de desenvolvimento. E o que é espantoso é que quase tudo tenha acontecido em tão pouco tempo (entre 2011 e 2015, pouco mais de quatro anos) e que estivéssemos tão anestesiados que o não conseguíssemos evitar.”
Falem-me de Justiça e de Consciências Iluminadas.
Já enviei, aceitei e retribuí mensagens de Boas Festas. Sobretudo para os amigos que muito considero. Mas não me falem de Natal, quando percebo nesses gestos apenas uma circunstância de moda. Não me venham falar de Natal quando se consomem fortunas em decorações de rua e nas casas de cada um, apenas para umas horas de mesa e de companhia desfeita; não me falem de Natal quando o consumismo se concentra em figuras como a Popota ou como a Leopoldina. Não me venham falar de Natal, quando as compras e as trocas de presentes são a razão única de estabelecer um convívio de amigos e de famílias.
         Não me venham falar de Natal…por tudo isto!
    Falem-me de Amizade presente e desinteressada, falem-me de Justiça, dos verdadeiros valores do humanismo como a solidariedade e a humildade. O Natal é isto. Sobretudo isto! Mas também admito que, sendo eu um desalinhado, possa – no limite – estar a ver o mundo ao contrário!
António Bondoso
Jornalista  
 



2017-12-17

S. Tomé e Príncipe.
PRECISO E CONCISO…
…ou de como se vai matando a saudade!


PRECISO E CONCISO…
…ou de como se vai matando a saudade!

E foi preciso ter ido como foi importante ter nascido. E foi preciso crescer e foi importante viver; e foi preciso perceber e foi importante saber; e foi preciso sentir e importante partilhar. E foi preciso amar…muito mais do que a paixão. E foi preciso querer…muito mais do que parecer. E foi preciso perdoar…muito mais do que acusar. Foi preciso muito mais do que passar de raspão. Foi preciso não só ser, como importante saber estar; foi importante pescar as dores caídas no mar, como foi preciso remar contra marés que tardaram. E foi preciso entender como deveria ter sido. E foi preciso aceitar como tudo se passou. Só assim fará sentido todo um tempo de saudade. Importante é perceber que houve uma impossibilidade histórica, para podermos caminhar no sentido da memória. Se disso formos capazes, preenchendo as lacunas, só é preciso respeito de todos por cada um – como é fundamental uns e outros chegarem ao ponto comum. Daí ao ponto futuro, todo o trajeto é mais curto.
Foi preciso ter saído e fundamental ter voltado. Foi preciso ter partido e depois ter regressado. E foi preciso ter ido…tanto, como por lá ter nascido!


António Bondoso
Dezembro de 2017.