segunda-feira, 1 de agosto de 2016

1 de AGOSTO DE 1935
A EMISSORA NACIONAL
Foi uma “escola” do regime…mas também do rigor.

Foto da Web

A EMISSORA NACIONAL
Foi uma “escola” do regime…mas também do rigor.

         1 de Agosto de 1935. Data oficial da inauguração da EN. Já havia o Rádio Clube Português mas ainda não havia o transístor. Onde eu hoje ainda ouço atentamente os noticiários, o 5 minutos de Jazz e sigo com reverência as peripécias da Volta a Portugal em Bicicleta. Por exemplo.
         Mas a história da EN, de acordo com várias fontes, começa verdadeiramente em 1930, com a criação dos Serviços Rádio Eléctricos na dependência dos CTT. Tudo avança em 1932 – quando o engº Duarte Pacheco manda iniciar experiências com um emissor de Onda Média, seguindo-se novos estudos em 1934 com um emissor de Ondas Curtas. Os primeiros estúdios situavam-se em Barcarena, mas ainda em 1934 foram transferidos para o nº2 da Rua do Quelhas, em Lisboa – onde a sede da estação haveria de permanecer até 1996.
         Nesse dia 1 de Agosto de 1935, o capitão Henrique Galvão – esse mesmo que mais tarde se rebelou e desviou o Santa Maria – disse exatamente para o que vinha a EN: a Emissora Nacional, realização do Estado Novo é hoje, como mais um soldado que se alista, uma força ao serviço do Estado Novo.
         E foi, de facto. Mas durante muito tempo não esteve só nesse papel. O RCP de Botelho Moniz – esse mesmo que viria a estar ligado a uma das tentativas de golpe contra Salazar – foi um exemplo de colaboração com as forças de Franco durante a Guerra Civil Espanhola. Lendo com interesse a obra O QUE PARECE É, de Alberto Pena (Tinta da China, 2009), ficamos com a ideia segura de que “A rádio portuguesa desempenhou um papel extraordinariamente importante no decurso do confronto bélico. A sua intervenção propagandística a favor dos rebeldes, como veremos, alcançou um curioso e reconhecido protagonismo que, no final do conflito, seria recompensado com inúmeros actos de homenagem organizados pelos vencedores.
A estatal Emissora Nacional e o então arquifamoso Rádio Club Português, fundado e dirigido pelo dinâmico e controverso capitão Jorge Botelho Moniz, foram autênticas trincheiras de combate na luta propagandística com as emissoras leais de Madrid e Barcelona. Com emissões em espanhol e um contacto permanente com as autoridades rebeldes, colocaram-se ao serviço da causa golpista, porque esta representava «os princípios e as doutrinas que tornaram grandes as nações da Península», segundo o próprio Botelho Moniz”.
O conflito no Estado Espanhol viria a ficar conhecido, aliás, como a Guerra do Éter: “Alguns ideólogos do Estado Novo, como o correspondente
de O Século, Leopoldo Nunes, baptizá-la-iam como a «guerra do éter», destacando a «importância decisiva» da rádio portuguesa na «Revolução Nacionalista» espanhola. De facto, o RCP seria um baluarte indestrutível a partir da sua sede na Parede, frente às emissoras de Madrid e Barcelona, que o jornalista luso Oldemiro César via como verdadeiros «balões de oxigénio» para os leais.”
         Depois disso a história seguiu o seu curso e vieram outros acontecimentos que balizaram e balancearam o comportamento radiofónico em Portugal. A II Guerra Mundial, a subsequente “Guerra Fria”…e mais tarde as questões do Estado Português da Índia e as colónias em África e na Ásia. Lembro aqui apenas a importância opinativa das célebres NOTAS DO DIA, na EN, ou as CRÓNICAS DE ANGOLA, de Ferreira da Costa. Sem esquecer, evidentemente, o impacto dos “serões para trabalhadores” da FNAT – transmitidos pela EN.
         Contudo, o serviço ao “regime” implicava um perfeito rigor técnico e uma excelente qualidade literária. Antes do 25 de Abril de 1974, muito aprendi diretamente com Fernando Conde, Hernâni Santos, Maria da Paz, Sebastião Fernandes, Helder Sobral, Manuela Borralho ou Maria Emília Michel. De ouvido e de sentido, tinha exemplos como Igrejas Caeiro, Maria Leonor, Artur Agostinho, Fernando Correia, Romeu Correia ou Nuno Brás. De alguns deles viria ainda a receber ensinamentos fundamentais, recordando-me igualmente de Vasco Fernandes ou João Dias, de Palma Fialho ou de Alfacinha da Silva.
         Não se esgotam neste texto as minhas memórias. Há de vir o livro, por agora em maturação.
         Para quem estiver interessado, ficam alguns links imprescindíveis:
         E não posso terminar sem lembrar com alguma mágoa, a tristeza de saber como viriam a ficar as instalações da sede da EN – e depois da RDP – na mítica Rua do Quelhas: “As instalações desativadas da ex-Rádio Difusão Portuguesa serviram para que a produção da série da RTP recriasse uma sala dos Alcoólicos Anónimos.
As paredes esgaçadas, o cheiro a mofo, os corredores escuros e a perder de vista, as salas de som que servem de armazém a todo o tipo de objetos, as câmaras espalhadas, os cabos entrelaçados uns nos outros. Foi aí, naquelas que já foram as instalações da antiga Rádio Difusão Portuguesa (RDP), que Ivo Canelas, João Tempera e Isabel Abreu estiveram a gravar mais uma cena da série da RTP1 Os Filhos do Rock. "Estamos a reavivar os fantasmas que aqui estão. É um sítio tão sombrio e nostálgico...", disse a atrizà NotíciasTV.”(http://www.jn.pt/revistas/ntv/interior.aspx?content_id=3612665)
António Bondoso
Jornalista
1 de Agosto de 2016.



quinta-feira, 21 de julho de 2016

HÁ BODAS DE FLORES E FRUTAS... 
Ou a memória feliz de um momento único. 

Foto Luminosidades

Há quatro anos dissemos-lhes com simplicidade e com frontalidade que “o vosso bem-estar, a vossa felicidade, as dúvidas, as angústias, as alegrias e as preocupações do dia-a-dia serão também nossas – podem estar certos! Não de uma forma identificada geralmente como de pais corujas (e aborrecidos...ou melgas…) mas numa atitude de abertura para conversar como AMIGOS E COMPANHEIROS de jornada.”
         Hoje acrescentamos a estima pela caminhada e a alegria de assinalar as chamadas Bodas de Flores e Frutas: flores, pelo significado da beleza e pelos cuidados de uma relação – bodas delicadas como é costume dizer-se; e frutas, pelo significado de vitalidade.
         Como então, volto hoje a dedicar-lhes estas palavras de sonho, de esperança e de afetos:
                                          A ELES DOIS                                            
Todas as vidas alcançam um sentido consistente.
A paz...quando se fixa o horizonte
O amor...quando se salta a montanha
A felicidade...quando se acorda de um sonho
E a música se mistura com imagens
Afectos doces de uma realidade serena.
Uma vida...e outra vida
De muito vento mar imenso
E o azul infinito do céu.

Pormenor do original
António Bondoso
Jornalista
Julho 2016

domingo, 17 de julho de 2016

S. TOMÉ E PRÍNCIPE EM DIA DE ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS

É meu uso e costume acompanhar – ou pelo menos prestar alguma atenção – ao que se passa em S. Tomé e Príncipe. Desde sempre e por motivos diversos…e os amigos mais chegados sabem bem do que eu estou a falar. Apesar da distância, embora esse fator possa condicionar alguns pontos de vista. 


Não me movem questões partidárias, como é evidente. Mas a Política, enquanto parte essencial das movimentações sociais, económicas e culturais, é um tema a que não posso fugir.
Apesar de falar com amigos afetos aos mais diversos quadrantes, apesar de ler e tentar perceber o que vai passando nas redes sociais, tenho por feitio abordar qualquer temática por um prisma que envolva as pessoas e a cultura.
A São Lima, que eu conheci como jovem e perspicaz jornalista e que rápida mas seguramente caminhou para o patamar de uma grande senhora das letras, distinguindo-se como Poetisa, desafiou em tempos os conterrâneos a ousar despedir o estigma do medo e dos preconceitos que ameaçam tolher-nos as asas e a repensar no nosso modo de olhar e de nos olharmos, sem jamais nos renegarmos, porque somos. Quanto mais cedo os são-tomenses forem por aí, melhor. Mas o caso é que tudo vai caminhando devagar, devagarinho. Há muita impaciência, claro, e isso nota-se no dia a dia.
Outro companheiro de profissão e homem da cultura igualmente é o Frederico Gustavo dos Anjos. Muitas vezes tem sido ele a esclarecer-me sobre os olhares que vão condicionando a perceção sobre o que se passa no país. E agora, mais uma vez, não foi exceção. Coloquei-lhe algumas breves questões e ele, apesar da desilusão que o consome, não se furtou a responder:
***** Na tua opinião, o que se poderá considerar verdadeiramente como NOVIDADE nestas eleições Presidenciais (para além do facto de haver uma mulher candidata e da recandidatura de Pinto da Costa)? 
FGA ==== Opinião muito íntima:
1- A campanha começou há muito tempo; com órgãos de comunicação social "intimidados" ao serviço da propaganda do Governo e do partido que o sustenta; com a administração pública "amedrontada" por ameaças de despedimento.
2- Sobre os acontecimentos dos últimos 15 dias: tudo em torno da necessidade de estabilidade. Mas para o ADI só haverá estabilidade com o seu candidato porque os outros seriam ameaça à continuação do actual Governo. (Se entendes isso seria a "novidade").

***** Uma Campanha pode ser ESCLARECEDORA com ausência de debates?
Nenhuma Instituição "independente" (como a Universidade Lusíada, por 
ex), foi capaz de promover um debate?
A ausência da Rádio e da TV (Públicas) ter-se-á devido apenas à falta de 
meios operacionais? Ou não houve vontade e capacidade?
FGA ====
3- De resto fomos assistindo na comunicação social ao cortejo de realizações (?) do Governo que supostamente precisam ter continuidade. (Nesse quadro não lhes interessava que houvesse qualquer debate).
***** Houve sondagens regulares? Ou apenas se pôde ver a mobilização de rua nos comícios? E houve "ELEVAÇÃO" no discurso político?
FGA ====
4-O candidato do ADI ficou ofuscado ao longo de toda a campanha pela presença do Chefe do Governo que se comportou como se fosse ele o candidato. (Pessoalmente não esperava outro espectáculo!).

*****O que pode esperar o país destas eleições? Mais INSTABILIDADE? 
FGA ====
5-Os que querem o poder a qualquer preço andam a investir muito dinheiro (segundo consta!) e a fazer muitas promessas
.6-Pessoalmente não votaria neles sob nenhuma condição!
7-Esperemos para ver o que acontece no domingo.

***** Vamos esperar para ver. Sem medos, sem preconceitos, sem estigmas. E que a escolha seja livre! E possa fazer sentido no que respeita ao futuro. Já não faltam muitas horas para sabermos. Um bom domingo para todos os são-tomenses, em democracia!
António Bondoso
Jornalista
17 de Julho de 2016.  

Safú
E enquanto não sabemos o resultado da votação, é muito natural que haja um certo impasse. Por isso vos revelo hoje um poema inédito:

IMPASSE SUBTIL….

Se adormeço
Não estou vivo
Se apareço
Não consigo
Decidir se vale a pena
Permanecer neste impasse.

E com tanta indecisão
Voltamos sempre ao começo:
Eu sou, estou mas não quero
Sonhar sonhos impossíveis
E nem sequer reconheço
Que tudo seria simples
Por muito que me custasse.

Pareço estar entorpecido
Subtilmente adormecido.
==== António Bondoso
Maio 2015. 


Fruta-pão 
António Bondoso
Jornalista

terça-feira, 12 de julho de 2016

A TODOS OS “ÉDERS” “PEPES” E “PATRÍCIOS” DESTE MUNDO…

Foto da Web...para Interpretar como Quiserem.

A TODOS OS “ÉDERS” “PEPES” E “PATRÍCIOS” DESTE MUNDO…
…Ou de como tantos disparates lidos e ouvidos durante este campeonato europeu de futebol mostram que o “preconceito” continua a ser filho do egocentrismo e da ignorância e afilhado da pobreza: física e mental.

Vivi em S. Tomé e Príncipe 21 anos da minha existência, lá cresci e me fiz homem, brinquei, estudei e trabalhei com amigos de todas as etnias e origens. Tenho bem presente que nunca me referi a qualquer deles tratando-os ou distinguindo-os pela cor da pele. Sempre tratei cada um pelo seu nome próprio…apenas constituindo exceção, pela maior convivência diária, o tratamento por alguma “alcunha” de marca. Não me surpreende que esta questão continue a estar na ordem do dia das sociedades, sabendo sobretudo como este mundo é cada vez mais desigual, fruto de circunstâncias que os comuns mortais são incapazes de contornar – designadamente de uma “globalização” desumanizada que gera pobreza, alienação e analfabetismo.  
Entristece-me. Muito. Independentemente das causas e das motivações, pois há mais “emoção” do que “razão” nestes debates, particularmente os das redes sociais. Cultura e Instrução precisam-se.
Em Abril deste ano escrevi um texto que agora não prescindo de partilhar. E diz assim:
“RACISMO”

«Falta de instrução valoriza o preconceito.
Falta de educação potencia o preconceito.
Falta de cultura justificará sempre o preconceito.
Falta de tolerância agravará eternamente a evidência do preconceito.
Falta de caráter aumenta o risco de preconceito.
Falta de princípios alimenta o preconceito.
A pobreza marginaliza e o preconceito estará sempre para além da raça.
O estrangeiro, o que é diferente, não pode ser entendido como ameaça.
Eu e o outro podemos sempre beber da mesma taça.»

Entretanto, não resisto igualmente a convidar-vos a ler um excelente artigo sobre esta temática. A reflexão séria indica sempre caminhos.
         Obrigado por me terem dado um pouco de atenção e pela paciência e disponibilidade para a leitura.
Julho de 2016
António Bondoso
Jornalista


domingo, 10 de julho de 2016


MAIS DO QUE UM JOGO DE FUTEBOL...OU DE COMO O FUTEBOL É UMA ARTE!
Vai ser o Europeu do bate, bate...bate e foge como na tática de guerrilha. 

Fotos da Web

O FUTEBOL É UMA ARTE

O futebol é uma arte da qual
Nem todas as ciências fazem parte.

Das exatas bem se vê
Pois de muitas outras há sinais
Como a tática e a física
Também a espiritual
E outras tantas bem empíricas
Sejam formais ou naturais
Dizem que até sociais.

Da geografia à política
Da história à astronomia
Tem a estratégia um lugar
Definido a bom preceito.
Mas é da mente e da sorte
Que salta a alma do peito
Quando o golo acontece e a razão
Cede o lugar à paixão!

O futebol é mesmo uma arte…
E todo o resto é à parte!
===António Bondoso.



Foto C95
António Bondoso
Jornalista
Julho de 2016.

sábado, 9 de julho de 2016


ANTES QUE SEJA TARDE...OU COMO VALORIZAR O QUE JÁ GANHÁMOS NESTE EUROPEU DE FUTEBOL

Foto da Web


ANTES QUE SEJA TARDE.

Aconteça seja o que for no jogo da final do Euro, em Paris, Portugal e os portugueses já ganharam muito neste verão de 2016. Para além do orgulho de participar num momento decisivo – neste caso a ver com o futebol – os selecionados, pelo seu comportamento vitorioso [mesmo reconhecendo que o futebol praticado não foi espetacular], deram a conhecer ao país uma diáspora ímpar. Particularmente a de França…mas não só. Permitiram, por outro lado, ficarmos a conhecer manifestações de carinho e de apoio um pouco por todo o espaço lusófono, não podendo esquecer as imagens que nos chegaram de Timor-Leste. É caso para ter a autoestima em alta. E a Fé. E a Esperança. E a Crença. Um ganho acrescido, tendo particularmente em atenção as angústias, as frustrações, o desespero, o desânimo, as humilhações a que temos vindo a ser sujeitos nos últimos anos.
Por isso, devemos assistir ao jogo com a máxima tranquilidade – independentemente de não abdicarmos da nossa tradicional energia latina – aceitando o resultado, qualquer que ele seja, e sem pretender ter a tentação de responder às provocações de alguns atávicos, incultos e chauvinistas de outros países, pois esses ataques não têm tido origem apenas na França. Deve prevalecer a nossa matriz multicultural que, sobretudo hoje, nos coloca numa elevada consideração em todo o mundo. E depois, há que ter sempre presente que o futebol não é uma ciência exata, existindo uma série de imponderáveis que conduzem a um de três resultados possíveis. Portanto, sabendo e aceitando as condicionantes do fenómeno, devemos manifestar serenidade, cordialidade e respeito, independentemente de não dispensarmos os gritos de apoio aos jogadores portugueses ou o nosso protesto sobre uma decisão do árbitro. E creio mesmo que devemos até festejar o simples facto de termos participado na final do torneio.
Escrevo isto, antes que seja tarde.
Sem pretender calar a euforia e a alegria que envolvem uma final [confesso não ter qualquer bandeira pendurada na janela, pois o meu apoio vai muito para além disso], quero apenas significar que, a esse estado de alma, não poderá seguir-se a desilusão, não poderemos entrar em depressão se o resultado for negativo. Tem acontecido inúmeras vezes, é certo. A verificar-se de novo, não será a última seguramente. Por isso, e antes que seja tarde, mantenhamos a autoestima em alta. Independentemente do resultado do jogo, independentemente da saída do Reino Unido da UE, independentemente de haver sanções dessa mesma UE ao nosso país. A construção da UE tem sido referida como um exemplo no concerto das nações, mas seguramente não é esse o sentimento que hoje prevalece no relacionamento entre os dirigentes tecnocratas de Bruxelas e os povos dos Estados-Membros.
Antes que seja tarde – força Portugal!
Antes que seja tarde – viva Portugal!
Já ganhámos muito. Ainda temos muito para ganhar!
António Bondoso

Foto de António Bondoso
António Bondoso
Jornalista
Julho de 2016.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

NUNCA DEIXEI DE O TRATAR POR "PRESIDENTE".

Foto de A. Bondoso

RAMALHO EANES – 40 ANOS DA ELEIÇÃO.

Sei que o “Presidente” não gosta de elogios, sobretudo quando são fáceis e de forma exagerada. Como parece ser o caso destes dias.
Mas este meu “escrito” não trata apenas de mencionar elogios. E seria tão simples. Por motivos diversos. Até pelo seu humor.
Porque me demonstrou amizade em alturas de adversidade. Porque me convidou a integrar a sua comitiva quando visitou S. Tomé e Príncipe em 1984 – país que nunca deixará de ser a terra onde cresci desde os 3 anos de idade e me fiz homem; porque desde sempre percebeu a importância da independência da comunicação social e, por consequência, dos jornalistas – respondendo sem hesitações a um convite meu para conhecer as instalações da RDP no Porto (por alturas de mais uma comemoração do 10 de Junho) quando a afirmação do nosso trabalho não era fácil. Também porque sempre esteve disponível para me ouvir e para conversarmos sobre a evolução da vida política, social ou económica do país. Ramalho Eanes foi sempre, não só para mim, uma voz autorizada.   
Por outro lado, com estas breves palavras, pretendo igualmente destacar as capacidades de António Ramalho Eanes nos chamados tempos das “impossibilidades”. Primeiro, a quase impossibilidade de fazer vingar este país à beira-mar plantado depois do traumático – por tardio e atabalhoado – mas inevitável processo de descolonização. E depois, pela sua visão atempada de reconhecer os benefícios da normalização do relacionamento com os novos países de língua portuguesa saídos desse mesmo processo. Foi o caso do chamado “espírito de Bissau”, quando em 1978 conseguiu, com Agostinho Neto, relançar o convívio das nações. Não só com Angola, país com o qual foi então assinado um importante Acordo Geral de Cooperação, exatamente uma semana depois de Angola ter aberto a sua Embaixada em Lisboa. O ano seguinte seria de consolidação do relacionamento, mas depois assistimos a uma nova, embora mais “suave”, travessia do deserto. Que ainda não terminou, apesar de ambos os países integrarem a CPLP desde 1996.
Portanto e por tudo isto, o meu elogio seria fácil. Mas ele sabe que escrevo o que me dita o coração. Não precisamos de intermediários. Assim, aqui lhe deixo mais um grande abraço, extensivo a toda a sua Família e, em particular, à sua mulher Manuela por quem nutro grande estima e simpatia.
António Bondoso
27 de Junho de 2016.

Foto de A. Bondoso

António Bondoso
Jornalista

O que a Utopia tem de extraordinário é nunca deixar de ser sonho. É deles que se alimenta a esperança.

Foto de A. Bondoso

FLORES DO SONHO…

Os frutos do meu espaço
Vêm da flor do sonho.
Crescem de um carinhoso suor
E de um fino toque de amor.

São frutos antigos no tempo
Em memória que perdura
Filhos de um quintal maior
Que em jovem chamei quinté
Ou frutos de uma chitaca
Que passou por mim a correr.

Os frutos do meu espaço
Neste puto utopia
São do frio e do calor
Transportam sonhos de amor
A voar além do tempo.

Os frutos do meu espaço
Vêm da flor do sonho.

Foto de A. Bondoso




sexta-feira, 10 de junho de 2016

PORTUGAL - ENTRE CAMÕES E A ATUAL IDEIA DA HISTÓRIA 

Foto incluída no Livro de Helder Pacheco PORTO - MEMÓRIA E ESQUECIMENTO 
Afrontamento - 1994

Há uns anos - 2009 - elaborei um pequeno estudo/ensaio sobre este tema. Hoje, porque é 10 de Junho, permito-me deixar-vos um excerto desse trabalho: 

    A IDEIA DE PORTUGAL NO MUNDO
    EM CAMÕES, NOS CICLOS IMPERIAIS E NA ACTUALIDADE


                                 Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
                                 Muda-se o ser, muda-se a confiança;
                                 Todo o mundo é composto de mudança,
                                 Tomando sempre novas qualidades.
                                 Luís de Camões - Sonetos[1]

            É este o mote para nos abalançarmos a uma breve reflexão sobre a “ideia de Portugal no mundo” ao longo de séculos. Partindo de Camões e da epopeia gloriosa dos Descobrimentos até aos nossos dias, passando pelas tragédias do império na África, na América e na Ásia – até à sua perda definitiva em 1974.
            A aventura gloriosa dos descobrimentos colocou Portugal em lugar cimeiro no concerto das Nações. Pelo Tratado de Tordesilhas, celebrado com Castela, os portugueses permitiram-se dividir o mundo – já descoberto e a descobrir – em duas metades. Uma visão política de largo alcance que, no entanto, viria a perder-se ao longo dos tempos. Não só devido à circunstância de sucessivas alterações políticas, sociais e económicas mas, sobretudo, por falta de recursos humanos para efectivar uma ocupação consistente. Não será de estranhar, portanto, uma opção mais virada para a actividade comercial – particularmente com o Oriente.
            Assim, nos idos de quinhentos e de seiscentos, Portugal [a par da Espanha] assume e difunde a ideia de uma “potência” marítima – uma talassocracia com um projecto e um objectivo definidos: mostrar a Europa ao Mundo e trazer o Mundo à Europa. África, Índia, Brasil, Malaca, China e Japão – uma volta ao mundo em 500 anos !
            Mas o “projecto” viria a ter custos elevados. Em recursos humanos e materiais e ainda na reacção de outros Estados Europeus bem mais poderosos, como a Inglaterra, a França e a Holanda.  
            É nesta perspectiva que se pode enquadrar hoje uma leitura política da obra de Camões, particularmente n’Os Lusíadas. O Velho do Restelo, no Canto IV, as estrofes e as mensagens dos perigos que a Nação corria:- a denúncia dos perigos de quem ia, as dificuldades de quem ficava, as promessas por cumprir, o despovoamento do reino e o sorvedouro das guerras. Feliz ou infelizmente, ninguém com responsabilidade política no reino se apercebeu dessa “leitura” camoniana e, assim, o curso da História tomou os rumos que hoje se conhecem.
            Quando se perdeu D.Sebastião, perdeu-se mais do que o reino e do que o império. Perdeu-se a identidade política de Portugal que, apesar de recuperada em 1640, não voltaria a restaurar o prestígio do país no Hemisfério Sul – onde a Inglaterra, a França e a Holanda passaram a ser os senhores do mapa.
            Um novo golpe, profundo, viria acoplado à revolução liberal de 1820 – no rasto das revoluções americana e francesa – e que, triunfante, levaria à perda da maior parcela do império, o Brasil. Jamais Portugal voltou a ser considerado como fazendo parte da família das grandes potências europeias e mundiais.
 Contudo, durante esse longo período de quase quatrocentos anos, Portugal teve um papel importante na projecção da Europa sobre o resto do mundo. E contribuiu decisivamente para o alargamento da comunidade internacional e para o desenvolvimento das relações internacionais, pondo em contacto povos de diversas raças, etnias, credos, religiões e culturas.
Não suscitavam admiração, por isso, os relatos de figuras ilustres que nos visitavam, sobre o desenvolvimento do país. Hans Christian Anderson, em 1865, após prolongada estadia, escrevia por exemplo :- Mas que transição veio de Espanha para Portugal. Era como se tivéssemos voado da Idade Média para a idade moderna [2]. Portugal tornara-se a sociedade mais avançada do Sul da Europa, nela despontando por ex Alexandre Herculano, Almeida Garrett e depois Antero, Camilo e Eça. Como escreve ainda Martin Page – sobretudo no domínio dos direitos civis, Portugal tinha-se tornado um exemplo para o resto do mundo.
A indústria, finalmente, acertava o passo; o país era o maior produtor mundial de cortiça e Eiffel projectava e construía em Portugal.
Mas esse “contributo” não mereceu o reconhecimento dos seus pares europeus, particularmente pela manipulação conduzida por Cecil Rhodes a propósito das possessões portuguesas em África. E foi o tempo da humilhação do Ultimato que, depois, conduziu ao Regicídio, ao fim da Monarquia e à implantação da República. Curiosa e tragicamente, foi a I Guerra Mundial que “salvou” o resto do Império, depois de – pouco tempo antes do conflito – a Alemanha e a Inglaterra terem “negociado” a partilha de quase todas as colónias portuguesas.
O novo regime, no entanto,  não se mostrou capaz de devolver a estabilidade ao país. Nos primeiros quinze anos, a República ofereceu-nos sete eleições gerais, oito presidentes e 45 governos – um dos quais durou menos de um dia. Os cofres do Estado não resistiram e foram mesmo “arrombados” com o golpe de Alves dos Reis. A dívida pública, de uns modestos 400 milhões de escudos, multiplicou-se como por milagre e chegou aos 8 mil milhões.
Internamente, foi com naturalidade que o povo aceitou o golpe militar de 1926, numa altura em que a credibilidade externa do país, da segunda metade do séc. XIX, se havia esgotado. A Sociedade das Nações perdera a confiança e Churchill perdoou quase três quartos da dívida de guerra que ainda estava por saldar. Também naturalmente, o povo aceitou Salazar e a sua ditadura do Estado Novo – ancorada na família como pedra basilar de uma sociedade organizada.
A ditadura trouxe a repressão policial, nasceu a PIDE e instituiu-se a censura. As liberdades foram acorrentadas em África, no Campo do Tarrafal, em Cabo Verde.
Veio a II Guerra Mundial e o regime preferiu uma “neutralidade colaborante” ao envolvimento directo no conflito, como havia acontecido na Grande Guerra. Mantendo a aliança com a Inglaterra, o objectivo prioritário era a salvaguarda da integridade territorial no Atlântico Norte e das colónias de Angola e de Moçambique. E em 1949, mais por pressão dos aliados [reconhecimento da importância estratégica dos Açores] do que por vontade da liderança portuguesa, o país é membro fundador da NATO/OTAN. No entanto, o grande objectivo de Salazar era o Forum das Nações Unidas – para o qual Portugal não foi convidado pelas grandes potências, quer pelo clima de “guerra fria” já instalado entre os EUA e a URSS, quer pelo facto de o regime não ser democrático. O veto da URSS prolongou a marginalização de Portugal até 1955, embora o país fizesse parte do chamado “bloco ocidental”.
Em 1960, quando Portugal adere à Associação Europeia de Comércio Livre – EFTA – já a imagem do país se havia deteriorado na cena internacional, particularmente na ONU onde predominava uma corrente anti-colonialista, a qual – no ano anterior – havia aprovado uma resolução condenando o colonialismo português.
1961 foi o “annus horribilis” para a imagem externa de Portugal, com a perda de Goa, Damão e Diu – pela força – para a União Indiana, e particularmente com o início da chamada Guerra Colonial em Angola, em Fevereiro. Mais tarde, com a abertura das frentes na Guiné e em Moçambique, a imagem negativa do país agravou-se e nem mesmo as “boas” relações com a Santa Sé conseguiram evitar o “golpe de misericórdia” em 1970 :- o Papa Paulo VI recebe em audiência privada os dirigentes dos Movimentos de Libertação das colónias portuguesas.
O “isolamento” internacional de Portugal só viria a ser quebrado com o golpe militar de 25 de Abril de 1974, que conduziria o país à democratização, à descolonização e ao desenvolvimento. Foi a queda do império, o corte com o passado – a queima das caravelas na metáfora de Adriano Moreira. Mas nem tudo foi perfeito. 1974 e 1975 foram anos difíceis, de forte luta interna pela escolha de um modelo para o novo regime, ainda com a guerra fria em pano de fundo. E o “perigo” da instauração de um modelo comunista no extremo ocidental da Europa e numa pequena ilha do extremo oriente, levou mesmo os EUA a “caucionarem” a invasão de Timor-Leste pelo exército indonésio – uma questão só resolvida internacionalmente em finais do séc.XX.



[1] - Selecção sobre “A experiência humana e a reacção perante a vida”. Em Textos Literários do Séc.XVI, de M.Ema Tarracha Ferreira e Beatriz M. Paula. Aster, Lisboa, 1960. 3ª edição, corrigida e aumentada.
[2] - Citado por Martin Page em A Primeira Aldeia Global. Casa das Letras, Lisboa, 2008 – 3ª edição. 

domingo, 5 de junho de 2016


UM LIVRO DE POEMAS PARA DEGUSTAR…E PINTAR!

MARIA MAMEDE E VICTOR HUGO FREITAS

A ideia nasceu do ilustrador Victor Hugo Freitas – também retratista e caricaturista – e a Poetisa Maria Mamede deu-lhe consistência e substância. QUANTAS CORES TEM O AMOR? – editado por “Seda Publicações” – é um livro de vinte e oito poemas e de outras tantas ilustrações, sobre o qual a autora se diz imensamente feliz com o resultado da resposta ao desafio que lhe foi colocado: “Achas que poderias escrever um livro de poemas dirigidos aos teus amores, onde a cada poema fosse dada uma cor?” E Maria Mamede, que pela sua doçura e postura foi colecionando amores e amizades ao longo de muitas décadas, desenhou e pintou palavras de todas as cores, do branco ao negro ou do amarelo ao azul, e sobre o qual o meu camarada jornalista António M. Oliveira escreve poeticamente: “Ali, no coração, nos corações, o azul é diverso, mas também é mar e naus, as de partir e as de voltar, com peitos de espera, ouro, brilhos, luar e estrelas”.
A sessão de apresentação foi ontem na Biblioteca do Fórum da Maia, com livros rodeados por muita gente amiga dos autores. E eu, adotado como amigo por Maria Mamede, registei o momento também com estas palavras que aqui lhe deixo:
O amor…
Ou não tem cor
Ou é da cor das estrelas!
E como elas são belas – as estrelas!
Brilham porque não são da cor
Da noite
Brilham porque são fruto
Do amor!
António Bondoso
4 de Junho de 2016


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