segunda-feira, 3 de agosto de 2015

80 ANOS DE RÁDIO EM PORTUGAL.

QUANDO SE ASSINALA A EFEMÉRIDE...AQUI VOS DEIXO UM EXCERTO DE UM DOS CAPÍTULOS DO MEU LIVRO (A PUBLICAR EM BREVE) HOMENAGEANDO A "ONDA CURTA" HUMILHADA E DESPREZADA POR ALGUNS DOS DONOS DISTO TUDO:

Foto de António Bondoso
“O aspecto que primeiro chama a atenção na especificidade da situação comunicativa criada pela rádio é a portatibilidade da sua recepção.”
                                      Michael Schiffer - 1991
                                                                                                    

 O TRANSISTOR DE ONDAS CURTAS


        Entrou no quarto, passo lento e seguro, a enfermeira ao lado como se fora o anjo da guarda. Augusto, com os olhos doridos de solidão, acompanhou o cortejo, ansioso, do seu reclinado ângulo de visão – a cama articulada do Instituto Português de Oncologia. De barbas, rosto tisnado e cansado pela longa madrugada de vigília, o médico fora chamado para “curar” a ansiedade de Augusto – desperto, preocupado e lamurioso como qualquer paciente em período pós-operatório. Mas a situação comportava um simples pormenor não despiciendo: Augusto, na véspera da alta médica, havia sido sujeito a uma evisceração – o que lhe prolongou doentiamente a sua passagem pelo hospital. Sobretudo ao nível do “quarto andar”, se considerarmos os pés como o rés-do-chão, os joelhos o primeiro andar, depois a anca e, a cabeça, o último piso. É aí, onde os sentidos se controlam, que – muitas vezes – tudo se complica. O desconforto, o incómodo e o isolamento da noite nem sempre sobreviviam à agitação verificada durante o dia, com visitas permanentes da família e de bons amigos que sempre lhe dispensaram muito carinho. O que lhe valia, aliviava as dores dos pensamentos repetidos, era uma espécie de santos – os médicos que seguiam os hóspedes forçados com atenção e competência – e os anjos permanentes de bata branca e sorriso fresco, as enfermeiras e os enfermeiros que aplicavam as receitas prescritas para ajudar a equilibrar o funcionamento do corpo e da alma. Os nomes pouco importam, Paulo, Veloso, Licínio, Luísa, Maria ou a angelical Elisabete – cuja visão bastava para curar o mais frágil acamado e a voz doce e suave fazia subir às nuvens, acompanhado de uma melodia harmoniosa executada ao piano, harpa, flauta ou violino. E na falta da Elisabete, o melómano Augusto socorria-se do seu pequeno aparelho de rádio – um sony com Onda Média, FM e sete bandas de Onda Curta que havia comprado no início da década de 1990 nos Estados Unidos da América, por ocasião de um trabalho de reportagem sobre as comemorações do Dia 10 de Junho, na comunidade portuguesa de Newark. Para além de melómano, era jornalista. De rádio precisamente! Na altura em que o médico entrou no quarto, o 21 do Edifício C, o pequeno aparelho de rádio estava pousado na mesinha de cabeceira, em off, depois de Augusto ter escutado o curto noticiário das 02h00 – um intercalar onde sobressaiu o resultado do jogo inaugural do Estádio do Dragão, no qual o F.C. do Porto bateu o Barcelona por 2-0. Portista de corpo inteiro, Augusto – internado – não pode participar na festa, apesar de ter adquirido o respectivo bilhete que lhe permitiu o estatuto de “sócio fundador” do novo estádio da Invicta, com direito a nome inscrito na parede de azulejos para o efeito idealizada pelo mestre Júlio Resende. Seria sempre um bom motivo de conversa mas, pelas circunstâncias, não foi o tema eleito.
        O médico aproximou-se da cama e indagou das razões que preocupavam Augusto: - então, o que se passa? Que forte razão para me chamar? A resposta surgiu numa voz fraca, parecendo ecoar na cabeça de Augusto, como se estivesse a sonhar ou a pairar no espaço sidério: - ansiedade, dificuldade em dormir …
--- isso não chega, dê-me uma razão mais forte.
--- a verdade é que estou ansiosamente bloqueado, não me deixam tomar o ansiolítico que há já muitos anos me acompanha, estou triste, longe da mulher e do filho, estou cansado – quero ir para casa…
--- e há-de ir, sr Augusto, mas não agora, a estas horas da noite. O dr Paulo, logo de manhã, virá vê-lo e… decidirá. Por agora, vai tomar o ansiolítico e dormirá certamente descansado.
        Enquanto falava, o olhar do médico pousou interessadamente no pequeno aparelho de rádio e atirou: - qual é a sua profissão? É militar?
--- Não, não sou militar, mas cumpri a minha quota-parte do Serviço. Há trinta anos que sou jornalista, desde sempre um homem da rádio.
--- Só podia ser, constatou o médico – Silva Louro, como estava escrito na placa pendurada na bata. Jornalista ou militar… E se fosse em África ou na América Latina, talvez guerrilheiro. Só eles usam rádios com bandas de onda curta.
--- Este é o rádio que me tem acompanhado sempre nas deslocações pelo país ou ao estrangeiro… e agora aqui no hospital! É uma companhia excelente. E é um bom hábito para um repórter, manter-se informado, ouvir, perceber o mundo e enquadrar o objecto da reportagem.  
         Silva Louro aprovou com um ligeiro aceno de cabeça e, depois, como que rebobinou o filme da sua vida em dois ou três curtíssimos segundos, para voltar à questão militar: - em que ano e onde esteve?
--- Assentei praça em Nova Lisboa, na Escola de Aplicação Militar, em Fevereiro de 1971. Sete meses na EAMA, no curso de sargentos milicianos.
--- Nova Lisboa? Também eu, mais tarde… mas passei para o outro lado, para o MPLA. Fui colega de escola de Agualusa, no Huambo e também daquele que viria a ser o médico pessoal de Savimbi. Depois da independência deu-se a guerra civil e seguimos caminhos diferentes.
--- Foi uma guerra muito dura!... E longa…
--- Sim, até demais. Um longo cansaço, que me fez desistir. Ainda se tentou fazer qualquer coisa e recordo-me até de construirmos um hospital de campanha nas traseiras da EAMA. O Quartel tinha sido arrasado. Mas depois foi terrível a indiferença dos dirigentes angolanos – nomeadamente do Presidente Eduardo dos Santos – para com a reivindicação de melhores condições de trabalho para os médicos. E isso fez-me perder a fé na luta, pelo que resolvi vir para Portugal.  
         Despediu-se, Augusto tomou o comprimido e em breve adormeceu. Não só pelo efeito do ansiolítico, mas por que a conversa com o médico o havia transportado a uma juventude longínqua, à África da sua criação, à África de longos horizontes, à África das matérias-primas cobiçadas, à África de todos os sonhos.      

Foto da Web
António Bondoso
Jornalista
Agosto 2015.

domingo, 2 de agosto de 2015

O MAR QUE TEMOS VIAJADO JUNTOS…

Foto de Miguel Bondoso

O MAR QUE VIAJAMOS JUNTOS…(A Publicar)
                                        
E de repente aconteceu
Um clarão
Como se os dedos da tua mão
Fossem capazes
De incendiar
Todos os pensamentos
Feitos à dimensão de todo o mar!
====
António Bondoso ( A Publicar)
1974-2015
3 de Agosto.

António Bondoso
Jornalista


sábado, 1 de agosto de 2015

À NAVE...O MEU SENTIR!


                        NAVE (A Publicar)
Há pedras...
Por cima de grutas cavernosas
Albergues frios e duros de quem chamou sua
A Liberdade.
Uma Nave de pedras
O mais alto relevo de uma serra com três nomes
Antigos e eternos a perder da idade.
======= Ant.Bondoso (A Publicar).

FOTOS DE ANTÓNIO BONDOSO



sexta-feira, 31 de julho de 2015


SOBRE O DIA DA MULHER...AFRICANA.

MULHER AFRICANA…APENAS MULHER! (A Publicar)
Percebendo todos os condicionalismos, quantos constrangimentos e um sem número de particularidades, uma Mulher é sempre Mulher!

Africana por direito e condição
Mulher d’África
A preceito e de conceito
Ela transporta no peito um coração
Que bate sincopado
Normalizado
Como o de todas as mulheres
Neste mundo perturbado.
Mulher africana, do mundo mulher
Um colo perfeito
E um ventre do mundo
Mulher africana
Um ser de querer
Mulher africana
Apenas mulher!
==== António Bondoso (A Publicar)
António Bondoso
Jornalista
Julho de 2015


segunda-feira, 27 de julho de 2015

A PROPÓSITO DOS 8O ANOS DA RÁDIO...(e do hino comemorativo)

Foto de António Bondoso
(Texto de 2010)
A RÁDIO EM PORTUGAL ESTÁ QUASE A COMPLETAR 80 ANOS...
...MAS AINDA NÃO TEM  MARCADA  A DATA DA SUA MORTE !

=================
Anunciada ciclicamente – a televisão, a internet, a era digital – a morte da “rádio” tem vindo a ser adiada, não por milagre, antes pelo combate e pelo empenho na capacidade de adaptação aos novos tempos. Mas não bastam as novas tecnologias, não é suficiente “arrumar” tudo ou quase tudo no disco rígido de um moderno computador. É preciso que a rádio volte a estar com as pessoas e que tenha gente dentro! Que seja capaz de pensar e de reflectir e que saiba provocar no auditório a capacidade de dialogar, discutir serenamente e reagir aos desafios.  
Cinco anos e alguns meses depois de ter sido praticamente “empurrado” para uma aposentação precoce (hobby desde 1967- profissional desde 1973) com 55 anos de idade, continuo a pensar que o “segredo” da rádio está nas pessoas. Em profissionais competentes, imaginativos e criativos – para além de cultos, naturalmente – e em ouvintes interessados, pensantes e motivados. E nos sons! Na música que acalma e apaixona, no discurso simples e claro das vozes que animam, mas sobretudo no plano superior das entrevistas e das reportagens que falam de coisas sérias, no plano superior da imaginação e da criatividade com ética.
Algumas vezes a rádio é um silêncio feliz, mas muitas outras pode ser um ruído profundo, provocador, inquieto e perturbador.
Tudo isto é real nos capítulos do meu livro que vai estando cada vez mais perto, apesar da lentidão com que vou passando para o tal disco rígido as ideias – minhas e dos meus amigos – sobre como foi a rádio e como deveria ser hoje.
A Rádio, para mim, prossegue sendo uma guitarra freneticamente manipulada por Jimmy Hendrix ou docemente acariciada por BB King, das quais podem sair notas de um afro-americano rock de Harlem ou de um afro-americano blues a caminho de Memphis – onde já destruíram a magia da Rua Beale. A rádio e a música de sentimento, a rádio e a voz de protesto, a rádio da memória escrava, a rádio da sensação libertadora.
A Rádio, para mim, vai sendo a memória da magia do microfone, a magia dos sons, a magia do que fica para além do alcance da imaginação, a magia que permanece no estúdio, no “pick-up” que roda em 45 rotações a voz de Franck Sinatra ou um LP/33 de Maria Bethânia, a magia da “fita” onde se gravaram as impressões de uma conversa amena entre Igrejas Caeiro e Aquilino Ribeiro ou entre Fernando Pessa e Almada Negreiros, a magia do “cartucho” onde se alinhavam spots publicitários anunciando as virtudes da brancura do skip ou apelando à presença na Grande Noite do Fado no Coliseu dos Recreios.
E a magia da distância que a onda curta e o transistor resolvem, como estar às portas do deserto entre a Tunísia e a Argélia e poder ouvir as notícias de “casa” ou o relato de um Sporting-Porto em Alvalade...praticamente em cima de um camelo. Ou estar na Ilha de Moçambique, de noite e sem energia eléctrica – à luz de uma vela apenas – e receber as sensações de um outro jogo de futebol no desaparecido Estádio das Antas.

Como dizia o publicitário Bob Schulberg em 1989 – o ano da queda de mitos e muros – “ a televisão não é ruim, mas a Rádio é mágica. Se a televisão tivesse sido inventada antes, a chegada da radiodifusão teria feito as pessoas pensarem:- que maravilhoso que é a Rádio! É como a televisão, só que nem é preciso olhar!”. 
=== António Bondoso
Jornalista
PS: O hino agora gravado, para corresponder à grandeza da data, deveria ser mais VIBRANTE!

domingo, 26 de julho de 2015

A PROPÓSITO DO DIA DOS AVÓS...eu que já não tenho qualquer deles perto de mim.

Luiza Veiga e Zeferino Bondoso

PRIMEIROS BISAVÓS


Aparece

Por cima dos meus olhos

De repente

Visão escrita… ou o refrão da minha prece

E diz simplesmente

Que os primeiros bisavós dos avós dos meus avós

Eles que depois voltaram a ser avós

Nasceram lá onde tudo acontece.



Provavelmente no sul

Numa África de rios e de mares

Grandes lagos onde o Nilo se alimenta

Níger… Congo… Zaire… Zambeze…

O Atlântico e o Índico em tormenta

Para lá do Cabo onde as fontes são palmares

Agora já secos de uma vida tão azul.


Séculos e milénios de passos e caminhos

O tempo viajou depressa e deixou

Gerações atrás de gerações que se perderam

E hoje não me lembro já de quem amou

Os primeiros bisavós dos avós dos meus avós

Que depois deles voltaram a ser avós

Se espalharam possuíram e viveram.




Caminharam…lutaram  

Pisaram e passaram as curvas dos escolhos

E seguiram a estrela dos pais que viram luz

Errando para além da morte

Nos seus olhos

Até chegar à terra que é do norte

Repousando os pés … nas pedras que calaram  

A voz da música e o silêncio que produz

O pensamento quente dos tambores

Anúncio encomendado dos amores

Dos bisavós dos avós dos meus avós

Que depois deles voltaram a ser avós !

  


E assim se cumpriu o meu destino

E de outros que paridos tão a norte

Navegaram conheceram amaram sem favores

Outros mundos novas terras tanto hino

À liberdade, e descobriram antes da morte

Que os primeiros bisavós dos avós dos meus avós

Mereceram, gente comum, elogios e louvores

De sábios senhores mais velhos e de gente como nós !    
=====================================      
António Bondoso ( Em "...DA BEIRA! Alguns Poemas e Uma Carta para Aquilino, 2008)

quarta-feira, 22 de julho de 2015

30 ANOS...OU UM QUARTO DE UMA VIDA!


UM CAMINHO COM NORTE!

         Poderia resumir o texto a uma simples frase, como é habitual na forma de assinalar os aniversários de quem gostamos. Mas avanço, mais uma vez por ele.
         Poderia ter sido a 25, mas foi decidido para 23. De Julho, do ano da Graça de 1985.
         E nasceu, para gáudio dos pais naturalmente e também dos avós que ainda eram. E dos tios, perfilados, como se da espera de um messias se tratasse.
         E num rasgo puro de visão, num ato de raro alcance psico-sociológico, entendeu-se que o recém-nascido deveria chamar-se António, como o pai, e Miguel porque estava na moda, sem esquecer os apelidos.
         Não por acaso foi nascer à Sé, afirmando-se como tripeiro – de jure no início – igualmente “de gema” com o andar da carruagem.
         Foi há 30 anos – praticamente um quarto de vida preenchida com avanços e recuos, venturas e desventuras de quem é, por inteiro e com “coluna”.
         Que permaneça inteligente para manter o caráter, é o que desejo e espero. Que permaneça sensível e meigo e busque sempre a humanidade! Forte abraço do pai.


António Bondoso
Julho de 2015

terça-feira, 21 de julho de 2015


DIZEM QUE FOI O DIA DO AMIGO...
ONTEM, 20 JULHO.


QUANDO REVEJO OS AMIGOS.

Quando revejo os amigos
Companheiros de saudade,
O tempo que foi marcante não morreu
Ficou suspenso
De palavras nunca ditas
Ideias e emoções a ferver dentro de mim.
Memória viva saída
Arrancada aos corações
Em abraços e sorrisos que nascem
De cada olhar
Parido num frente a frente
Ou na lente de uma câmara.
Nessas alturas eu digo buscando
Dos Santos Ary
Revejo tudo e redigo meu camarada e amigo
Estou aqui...estou de pé como cresci.
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AB.2011. ( Em O PODER E O POEMA -2012; e em O RECOMEÇO - 2014 ). 


António Bondoso
Jornalista

segunda-feira, 20 de julho de 2015

JULHO…E O MEU CONTENTAMENTO!

Foto de João Oliveira

         Ele há o 4 de Julho nos EUA; ele há o 14 de Julho em França – datas de um enorme simbolismo de “liberdade” – mas eu reservo para mim o contentamento do dia 21 de Julho, quando a liberdade de amar e de partilhar me colocaram perante uma nova etapa do meu caminho e da caminhada daqueles que, comigo, partilham os laços familiares diretos.
         Ele saiu, ela saiu…e juntos iniciaram a venturosa aventura de viver e de crescer unidos, a partir de 21 de Julho de 2012. Um pequeno passo para a humanidade, é certo, mas uma decisão de grande alcance para a Célia e para o Miguel na construção do seu futuro comum.
         O país não tem facilitado a tarefa, mas eles são fortes e determinados. E por isso renovo o compromisso de ideias e de ideais, para além dos votos e bençãos de felicidades.
         Por todos os outros pais (Amparo, Virgínia e Fernando)…assino apenas Tó. E, assim, vou dando corpo ao Julho do meu contentamento. Antes do "Agosto Azul"...ainda aparece o 23 de Julho. 
António Bondoso
Julho de 2015


quinta-feira, 16 de julho de 2015


UM PONTO DE VISTA...


UM TEMPO DE PRINCÍPIOS
(Ou o espelho de uma vida…)

40 anos nos separam…
E permaneço fiel aos meus princípios!
40 anos nos separam…
Mas continuo um desalinhado!
40 anos nos separam…
E quanta água e quanto céu já preencheram a viagem!
40 anos nos separam…
Mas o mundo continua a girar enlouquecido!
40 anos nos separam…
E o coração humilde bate certo!
40 anos nos separam…
Mas o chão que piso é diferente!
40 anos nos separam…
E a alma voa livre em campo aberto!
40 anos nos separam…
Mas os pés caminham serenos na verdade!
40 anos nos separam…
E as mãos prosseguem escrevendo o tempo!
40 anos nos separam…
Mas ainda há utopias que alimento!
40 anos nos separam…
E eu persigo uma miragem mesmo longe do deserto!
40 anos nos separam…
Mas não renego em rigor o meu passado!
40 anos nos separam…
E o meu futuro é ausente!
40 anos nos separam…
Mas mantem-se a cadência de um dia após a noite!
40 anos nos separam…
E um grito intenso de revolta acorda o meu presente!



Julho de 2015
António Bondoso

domingo, 12 de julho de 2015

O MOTE DA DEDICATÓRIA...NO LIVRO DE CARLOS MELO SERENO.


A capa é importante, mas às vezes uma dedicatória faz um livro!
E no caso deste Retrato de Rimas Soltas que o Carlos Melo Sereno nos oferece, por meio da Chiado Editora, descortino ou penso perceber a situação curiosa de – embora não o declare abertamente como tal – ser a figura maternal a merecer as honras da “dedicatória”, pelo menos do texto de abertura enquadrado de forma magnífica por uma excelente foto da “coautora” Helena Lagartinho. E nesse texto está a razão de ser do livro: “Acreditei que a vida era um soneto eterno, onde todos cantariam o amor, a amizade, a solidariedade e assumiam a partilha de emoções”. Na continuação desta ideia, o reforço da escrita pessoal quando elogia quem adquiriu o exemplar. No autógrafo, lá aparecem as palavras “postura social e cultural”. É disto que trata a minha relação de amizade com Carlos Melo Sereno: solidariedade, preocupações sociais e culturais, partilha de emoções. São palavras transversais à sua poesia, expressas não apenas neste seu primeiro livro…mas já de há muito no seu blogue Saudades de S. Tomé. É assim que nos aparece o «verbo amar/ao alcance de toda a gente!», «que se calem os lobos» (em Revolta Contida), o menino «sem lugar na terra,/sem direito à vida,/sem qualquer futuro,/nem sequer presente,/nascido para morrer/e ser vítima inocente,/da maldita guerra!». Ou ainda «a revolta, que é mais dor,/de um trabalho quase escravo» para além dos poemas Terra de Ninguém, Os Miseráveis ou O Banco do Reformado.
Mas “Não vou deixar/que a vida me fuja” – diz ainda o autor, prometendo “gritar a todo o mundo,/que serei puto toda vida”.  É um capítulo de afirmação mais intimista e filosófica, onde aparecem Platão e Alunagem por exemplo ou igualmente Alternativa, no qual refere que «O amor abre falência/ e a morte é alternativa,/a vida não faz sentido!!!».
Por outro lado, Carlos Melo Sereno descobre Uma Jangada e um Barco de Papel no Lago Azul da Tua Vida, navegando de Mãos Dadas e com Desejos até à Ilha Onde Deus Viveu – uma Ilha de Coral em paisagens tropicais, onde se ouve o Batuque e o marulhar da Praia das Sete Ondas.
São saudades que partilho com este médico-poeta, também fotógrafo, nascido em Aveiro e criado em Águeda, e que passou por Moçambique no serviço militar.
Depois dou notícias!!! – afirma a terminar. Esperando que as notícias sejam um novo livro…aguardo e abraço.


António Bondoso
Jornalista.
UM NASCER DO SOL...QUE MARCA UMA VIDA!


NASCER DO SOL EM S. TOMÉ (A Publicar)

Ali vi um dia o sol nascer
Manhã desperta
Fixando o horizonte a transformar-se.

Ansiosa contagem a passar cada segundo
Eram cinco e trinta e dois
De um agosto já perdido
O astro poderoso a crescer no Equador
E o olhar a acompanhar
A luz mais forte deste mundo
A aquecer e a queimar
O tempo de um novo dia
Que o coração…sem querer
Já esquecer não podia.

E em frente estava o mar
Que refletia o poder
Desse sol que depois
Alimentava a flora
Aspirava as gotas húmidas
E sem molhar a história
Trovejava  mil pecados
Em tantos verdes pintados
Que a alma…sem eu querer
Perdão pedia por ser.

O mar e o sol a acompanhar
O transpirar das ideias
Tórrido calor de vida
De gente de muitas cores
Que partiu e que chegou
E quase sempre voltou
Mas valendo o pensamento
Quase nunca me acompanhou.
Porque são coisas diferentes
Estar e ser…mais ainda pertencer!
=== António Bondoso (A Publicar)


António Bondoso
Jornalista

sexta-feira, 10 de julho de 2015

CÉU ETERNO...



CÉU ETERNO…

De São Tomé tenho o céu
E as nuvens carregadas de mensagens.

Chovem letras e palavras
De saudade
Que o calor liberta
Evaporando
E depois se concentram bem fechadas
No andar superior da nossa idade.

Não cuido de saber o que me dizem
Nem preciso confirmar quem as escreve
São palavras de ternura e de amizade
São ideias que germinam
Cristalinas
Derrubam mitos e lendas que não sabem
Andalas despidas de palmeiras
Ressequidas.

De São Tomé tenho o sol
E toda a sede fresca de um desejo
De São Tomé tenho o Príncipe
E o azul claro das águas que revejo

De São Tomé tenho o tempo
Em horas e dias pendulares

De São Tomé tenho a alma
Dissimétrica e pura nos olhares

De São Tomé tenho a gente
E o sorriso generoso das crianças

De São Tomé tenho o aroma das flores
E a força épica das raízes do ocá

De São Tomé tenho a música
A mais bela melodia já tocada
Por um eterno ossóbó e por uma camussela delicada.

======== António Bondoso
Julho de 2015.
40 anos independência STP



António Bondoso

quinta-feira, 9 de julho de 2015

PONTO FINAL...


PONTO FINAL

Chegou-me via mensagem “feicebuquiana”. E foi um choque. Que me deixou meio abananado toda a tarde. Até agora, quando decidi colocar um ponto final no entorpecimento. À dimensão do ponto final na vida deste camarada que me foi acompanhando desde muito cedo e a partir de S. Tomé. O Carlos Barros extrovertido, amigo sorridente, bem disposto, desabrido, fosse na carteira da Escola Vaz Monteiro, fosse nas salas e no recreio do Liceu de D. João II, fosse nos convívios dos “forros” neste país à beira-mar plantado ao qual retornámos depois das portas que Abril abriu. Até pareces um branco – costumava ele dizer!
Deixo-vos com a imagem de um forte abraço que demos há uns anos. E deixo-lhe a ele, fuzileiro que foi na Guerra Colonial, o grito dos fuzos. Aqui apenas por escrito, claro, mas gritado com muita força e do fundo da minha alma : “Fuzos…Prontos! Do mar = prá terra! Desembarcar = ao assalto! Desembarcar = ao assalto!”.
Até sempre Carlos.  Ponto final!
9 Julho 2015.


António Bondoso

segunda-feira, 6 de julho de 2015


LIDERANÇA E POLÍTICA


LIDERANÇA E POLÍTICA

Moisés, segundo a Bíblia, retirou o seu povo do Egito para o conduzir à Terra da Promissão, fugindo à escravatura. Moisés – conhecido como líder religioso e como legislador – anunciou-se com uma liderança forte, capaz, inteligente, corajosa, independentemente das suas origens. E comandou o “êxodo”, apesar de no caminho se apresentarem novas perspetivas a cada instante. Por isso é que a “travessia do deserto” foi feita no meio de muitos conflitos e de sofrimentos, vitórias e alegrias. Mas cumpriu a sua missão. 
Séculos depois, na Europa, homens políticos de visão entenderam que os caminhos da Paz deviam passar pela união de povos e de Estados, na base da igualdade e da solidariedade, para evitar novas “guerras” como as que marcaram as primeiras décadas do século XX. Contudo, os governantes mais recentes – incapazes de ser líderes – não souberam ler sinais, muitos deles evidentes, prenunciando um tempo de “espírito” novo a merecer novas abordagens e novas soluções. A esta luz, a união política não é desejável e a união monetária é impraticável. Só lá está quem quer, é um facto [independentemente de os povos se terem pronunciado ou não], mas há “União” com todos ou…o projeto é uma falácia. Por que razão está o Reino Unido de fora da “Zona Euro”?
E foram estes governantes – e não líderes – que conduziram muitos povos para um novo regime de escravatura. Uma escravatura monetária e financeira, na qual a “política” já não é primordial nem governa. Os governantes são apenas meros executores da ganância financeira.
Recordo agora, não sem uma ponta de mágoa e de tristeza, o que me disse há tempos D. Manuel Martins, Bispo emérito de Setúbal, sobre o Poder Político – o mais nobre dos poderes – que, apesar de tudo, pode, infelizmente, “dar em portas abertas para corrupção, injustiças de toda a ordem, boyismo, vaidades pessoais e familiares”. Porém, acrescentou, “é uma função nobre. É uma das funções mais nobres. Exerce-se com autoridade confiada (eleições) em vistas a realizar um serviço inteiro, competente, feliz, a toda a Comunidade. «Eu sou tu». Político versus Sociedade”.
Seguramente, não é isto que se passa hoje em Portugal e nesta União Europeia, cujos “pilares” fundamentais vão sendo derrubados por tecnocratas ao serviço da alta finança.
Miguel Torga sempre desconfiou deste nosso abraço à CEE, primeiro, e à EU, depois, insurgindo-se contra a ideia «da subserviência às ordens de uma Europa sem valores, incapaz de entender um povo que nela sempre os teve... É o repúdio de um poeta português pela irresponsabilidade com que meia dúzia de contabilistas lhe alienaram a soberania (...) e Maastricht há-de ser uma nódoa indelével na memória da Europa.»
==== António Bondoso



Grego não, que não sou, mas que saudades
Duma Grécia de artistas e de crentes
Em paisagens e formas permanentes
Onde se apaga a marca das idades (Torga, 1999: 547-548).

==== António Bondoso
Jornalista.
Julho de 2015