2017-01-11





MEMÓRIAS DE MIM – 1.

2017 não é um ano qualquer. Significa muito para mim.
E começa praticamente com mais um aniversário meu. O 67º! Que, não sendo embora um número redondamente perfeito, reporta a factos de boa memória.  
Há 50 anos…fazia eu mais um cruzeiro de sonho em oito dias no Atlântico…para tomar conhecimento mais profundo sobre este promontório onde habito hoje…
Há 50 anos…os meus pais ainda eram vivos. E depois dessa viagem de barco, com eles me encontrei em Moimenta da Beira, recebendo de presente da mãe um fio de ouro que ainda uso.
Por essa altura foi-me dada autorização paterna para fumar…
E o meu pai, se fosse vivo, completaria em Junho 100 anos! No dia seguinte ao “milagre de Fátima”.
Quando me lembro dele o que me vem à ideia?
No imediato a viola…e quando me levava pela mão ao Dramático para os ensaios de algum espetáculo (acompanhava no fado o guitarrista Pinto Falcão), e o futebol inevitavelmente (não só o FCPorto mas também o CDR de Moimenta da Beira, o Sindicato e o Andorinha em S. Tomé), o sentido de humor, o sorriso maroto…algum “temperamento” à mistura, claro. O árbitro era o principal adversário. Não deixa de ser uma herança que eu prezo.
Lembro-me de ter vivido ao seu lado, na praia de Diogo Nunes, a alegria – igualmente o sofrimento do que viria a ser conhecido como o caso Calabote – da vitória portista no campeonato de 58/59. E depois…toda a travessia do deserto que durou 19 anos. Mas felizmente ainda viveu para celebrar novos títulos e – o mais importante – ver o clube como Campeão Europeu.
E vem-me igualmente à memória a sua habilidade intacta de alfaiate, atividade que havia exercido na adolescência e em jovem adulto em Moimenta da Beira, antes de iniciar funções na Conservatória do Registo local – as quais viria a desempenhar na Conservatória do Registo Predial em S. Tomé, de 1952 até à data do seu regresso a Portugal em finais de 1974. Pois exatamente no arquipélago do Golfo da Guiné, quer na minha infância, quer nos primeiros anos da adolescência, o meu pai ainda era exímio naquela arte, nomeadamente na confeção de calças ou calções para mim. Por essa época usava-se muito o caqui.
Mas a “indumentária” não era, nesse tempo de adolescência, uma questão essencial. Uma simples t-shirt bastava, facilitando um reparador banho de mar em qualquer altura ou a permanente disponibilidade para um jogo de bola.
Há 50 anos…iniciava igualmente a minha atividade radiofónica em S. Tomé. E como ainda tenho presente os meus sprints na bicicleta do meu pai, quando saía das aulas no Liceu de D. João II para chegar à tabela ao Rádio Clube a fim de encerrar a emissão do espaço do almoço, exatamente às 14 horas. Gratificante essa experiência – sendo certo que acabaria por abraçar a carreira na então Emissora Nacional, em 1969, depois da transformação do Rádio Clube em Emissor Regional. Nem sempre com um sorriso feliz, pois logo no início houve uma crise de relacionamento com um elemento da “equipa de transição”, resolvida algum tempo depois. Tudo havia começado, contudo, ainda no tempo da Voz da Mocidade – através de um programa semanal. Uma equipa que recordo com saudade igualmente.
E agora – 50 anos depois – empurrado para uma aposentação antes do tempo, aqui estou neste Porto de abrigo, felizmente acompanhado pelo amor e pelo carinho indefetíveis da minha mulher, do meu filho e mais recentemente também da nora, escrevendo, escrevendo sempre, registando memórias que possam servir no futuro. E algumas amizades, claro, que fui cultivando ao longo dos anos. E que espero manter, na certeza de que o caminho se faz caminhando, nunca isoladamente. Há igualmente outros familiares a quem dedico amizade, uns mais perto alguns mais longe pelas circunstâncias da vida de cada um.
Tenho memórias, tenho esperança. Que o significado de 2017 se estenda e se aprofunde, permitindo atapetar uma estrada de vida ainda incompleta!
António Bondoso

Janeiro de 2017

2017-01-09


SEJA-ME PERMITIDO CHORAR…
…ou a dignidade de ser livre! 

A sensibilidade pode ser inata mas o carácter definidor de um ser digno e livre é percebido e alimentado, formado e enformado, baseado na instrução, na educação, na cultura e na tolerância, numa ideia consistente de justiça moral e social – valores conquistados ao longo da vivência de cada um. E tudo vale bem melhor quando se nos apresentam exemplos vivos que marcam profundamente.
         Mário Soares foi um dessas imagens inspiradoras. Que aprendi a perceber e a respeitar, sobretudo depois de compreender os diversos tempos da sua luta, numa análise desapaixonada da conjuntura – interna e externa –de cada época.
         Não tenho chorado muitas vezes ao longo da minha vida. Para além dos momentos particulares de tristeza quando perdemos a mãe ou o pai, ou até de alegria quando nasce um filho – comuns a qualquer ser humano – tenho vivido algumas situações propiciadoras de uma lágrima. Porém, chorar de indignação, de raiva ou de impotência não tem sido frequente. Aconteceu nos últimos cinco anos com a política dos cortes cegos nas pensões, que motivaram manifestações gigantescas de protesto no país – como eu supunha já não ser necessário – e verifica-se agora com o desaparecimento físico de Mário Soares. É sobretudo um choro de preocupação. Vai-se esgotando o reservatório de referências, não só em Portugal e no resto da Europa mas também no mundo.
         Mário Soares esteve sempre um ou dois passos à frente da realidade, antecipava o futuro. Como foi o caso destes mais recentes tempos de crise internacional que, inevitavelmente, se atravessaram no caminho do país. E depois, essa UE sem rasgo, sem liderança sem visão, amarrada a clichés de uma ortodoxia neoliberal altamente nociva. Mário Soares avisou, teceu críticas, sempre dois passos à frente. Foi um combatente excepcional pelas liberdades, correndo riscos por ideais em que acreditava. E um lutador até ao fim pelos valores fundamentais da humanidade. Ao contrário do que outros disseram, sou de opinião que não há momentos “infelizes” ou “absurdos” num combatente político. As convicções de cada momento podem causar dissabores, mas tudo se ergue no minuto seguinte…Foi assim com Mário Soares. Por isso é que eu digo e repito – preocupa-me o futuro. Obrigado Mário Soares pela liberdade de poder escrever este texto.
António Bondoso
Jornalista
Janeiro de 2017
        

         


2017-01-07

SOBRE MÁRIO SOARES…
…haverá sempre uma efeméride para celebrar, lembrando as lutas pela LIBERDADE!



         Sabe-se que Mário Soares não foi uma figura de relacionamento fácil e que preferiu sempre a frontalidade. Não deixou de alinhar em consensos – quando o país lhe pediu – mas foi sempre um homem de ruturas. Inclusive no interior do seu próprio partido e certamente na sequência das muitas dificuldades que atapetaram o seu percurso de vida, uma luta permanente pela liberdade – contra a ditadura! Por isso esteve preso, foi torturado, deportado e exilado. O que venho aqui dizer não é novo, talvez mesmo insignificante, mas fica registado mais uma vez.
         Dele ouvi falar em 1968, em S. Tomé, para onde foi deportado em Março desse ano sem culpa formada, depois de ter sido preso várias vezes. Ali, foi até impedido de dar explicações aos filhos do Secretário da Câmara, Aprígio António Malveiro, acontecendo que Maria Barroso foi igualmente impedida de exercer a atividade docente – como eu recordo no meu livro ESCRAVOS DO PARAÍSO (2005)


“Ninguém podia falar com ele porque a polícia não deixava, eu até tinha medo mesmo de ver a varanda de casa dele”, disse à LUSA (2014) Ângelo Carneiro, 76 anos, um dos poucos são-tomenses que conheceram de facto o então advogado oposicionista de Salazar. (…) Eu passava lá, era ainda no tempo da PIDE. Eu era jardineiro na casa de um branco que morava na marginal, perto do museu”, recordou Ângelo Carneiro. Com o passar dos anos ninguém ou muito pouca gente ainda se recorda de que Mário Soares viveu neste apartamento”, acrescentou.
O degredo, recordo ainda em Escravos do Paraíso, não mereceu a total concordância do então governador Silva Sebastião [que se avistava quase todos os sábados com Mário Soares], o qual achou a situação muito pouco própria – tendo em conta o elevado número de jornalistas estrangeiros presentes na Ilha, em consequência da trágica Guerra do Biafra.
         Um dos poucos brancos que mantiveram contacto com o ex-presidente foi Fernando Santos Mendes – mais conhecido por Fernandinho dos Angolares – um português de Viseu que foi para S. Tomé em 1952 e lá faleceu em 2013. A sua bisavó era natural de S. Tomé – Josefa Quaresma de Ceita – e os pais chegaram à Ilha nos primeiros anos do século XX. Fernando Mendes convidou Mário Soares para almoçar uma ou duas vezes e confessou-me não ter sido incomodado pela Pide.


Apesar de tudo, Soares teve a oportunidade de defender (pro bono) um funcionário da Alfândega acusado de desvio de bens. Um caso vulgar mas que, por toda a envolvência, acabou por ter grande repercussão na ilha. Julgamento de sala cheia, dizia-me o meu pai, que assistiu. E quando Mário Soares e toda a gente pensava na absolvição do réu, eis que a sentença produzida foi a condenação a 13 anos de prisão. Mário Soares, como eu escrevo em Escravos do Paraíso, nunca se havia sentido tão vexado na sua vida profissional, servindo-lhe apenas de consolação o facto de a sentença ter sido depois anulada pelo Tribunal da Relação de Luanda. Ficou, assim, patente aos olhos de todos, que a sentença tinha sido “dirigida politicamente” a Mário Soares.    


Foi com ele que a política se afirmou nos meus ouvidos e na minha consciência, sobretudo pela sua atitude e foi particularmente a sua combatividade que me motivou (ainda antes da Ala Liberal de Sá Carneiro e de Pinto Balsemão). Muitos anos depois tive o privilégio de o acompanhar na Presidência Aberta em Viana do Castelo (vindo-me à ideia o seu contacto com os pescadores e a simplicidade de um almoço informal de arroz de cabidela do qual não esqueço alguns pormenores curiosos); com ele me cruzei de novo em Macau, na inauguração do Aeroporto, e acompanhei a sua viagem a Tóquio, já no âmbito da sua presidência da Comissão Mundial Independente Sobre os Oceanos (1995-1998) que Mário Ruivo dinamizou por indicação da ONU. Mais recentemente, tive a oportunidade de lhe oferecer em Moimenta da Beira dois dos meus livros: "DA BEIRA! Alguns Poemas e Uma Carta Para Aquilino", o Mestre que ele admirou, como se sabe, e SEIOS ILHÉUS - como que uma recordação simbólica do tempo que passou em S. Tomé.



Mário Soares – um combatente pelas liberdades. E por isso foi escolhido para presidir à Comissão de Liberdade Religiosa no tempo de José Sócrates no cargo de 1º Ministro: "A vida pessoal e política de Mário Soares habilita-o a qualquer tarefa que tenha a ver com a liberdade e muito mais com a liberdade religiosa, que é um dos pilares das sociedades democráticas modernas”. MÁRIO SOARES respondeu: " Sou neutro em matéria de religião, mas reconheço a importância da religião e das Instituições Religiosas, particularmente no mundo conturbado de hoje, com o exacerbamento dos fanatismos religiosos. SOU AMIGO DE TODAS AS LIBERDADES"!
Um Homem a quem a Democracia Portuguesa e os portugueses ficam a "dever" uma importante quota-parte. Manuel Alegre, com quem se incompatibilizou nas presidenciais de 2006, acaba de classificar Mário Soares como “o construtor principal da democracia”.Como disse, nem sempre foi de relacionamento fácil. Apesar disso, outras figuras como o ex-presidente Ramalho Eanes dizem ter “uma grande consideração por Mário Soares enquanto batalhador pela democracia”, embora não tenha estima pessoal. Simultaneamente, embora possa parecer um paradoxo, foi um homem de afetos e cultor de amizades. E um homem de Cultura, muito à semelhança dos oito presidentes da Iª República. Que pensou o mundo e sobre ele escreveu muito, como se pode verificar pela extensa bibliografia. E que amou a Poesia e grandes Poetas – como é exemplo a seleção que José da Cruz Santos editou para o jornal Público. E esse poema para a mulher, Maria Barroso – trave mestra da sua estrutura familiar e cuja perda lhe terá acelerado o caminho para o final desta sua passagem. Poema escrito na prisão do Aljube em 22 de Fevereiro de 1962:
PARA TI, MEU AMOR
Para ti,
Meu amor,
Levanto a voz,
No silêncio
Desta solidão em que me encontro.
Sei que gostas de ouvir,
A minha voz,
Feita de palavras ternas e doces
Que invento para ti
Nos momentos calmos
Em que estamos sós.
Sei que me ouves
Agora
- Uma vez mais –
Apesar da distância
E do silêncio.
O amor,
Querida,
Opera esse milagre,
Simples,
Como tudo o que é natural:
Ouvir,
Bem no fundo do coração
As palavras não ditas
Mas sentidas;
Adivinhar,
Bem ao nosso lado,
A presença,
Insubstituível e certa
Do ausente
- Presença inconvertível
Em ausência,
Por maiores que sejam a distância
E o silêncio!
  
E depois há todo esse caminho que levou ao 25 de Abril de 1974 e à consequente descolonização – tardia e, sobretudo por isso, atabalhoada e traumática para os atingidos. É um tema complexo ao qual voltarei a dar especial atenção, tendo em conta particularmente o que vem sido dito e escrito – quantas vezes de forma mais emotiva do que racional, quantas vezes disparando em várias direções – com desconhecimento e com disparates, sem preparação de análise das conjunturas nacionais e internacionais nas várias épocas em perspetiva. Acusações infundadas e demagógicas a Mário Soares há de sobra. Só valem as que se reportarem à sua luta pela liberdade no seu país, contra a ditadura. Há muitas outras figuras de maior responsabilidade – como são Salazar e Caetano, que não perceberam o espírito do tempo; depois Spínola e Costa Gomes a juntar à Coordenadora do MFA. Como disse Melo Antunes – ideólogo maior do Movimento – “o processo de descolonização foi das coisas mais difíceis, mais dramáticas e mais trágicas que aconteceu em Portugal. Sei que se cometeram erros e assumo as minhas responsabilidades”.
António Bondoso
Jornalista
7 de Janeiro de 2017.














2017-01-01

NESTE PROMONTÓRIO...NADA DE NOVO!

Foto de Ant. Bondoso.

Acordo, estou vivo. Apalpo a moleirinha, belisco o pulso e dou comigo a ouvir um centenário comunicado do porta-voz da unidade hospitalar em que se transformou este imenso Portugal, este promontório mais ocidental da Europa.
         Ele é o vírus H3N1 – a ou b tanto faz – ele é a corrida às urgências, mas sem vítimas do terrorismo, para desespero dos pés de microfone, ele é os aumentos do gás e da água, do bilhete do elétrico ou do metro, dos combustíveis que fazem mexer a geringonça de cada um, ele é o IMI de um qualquer casebre virado ao sol e à praia, virado aos montes ou aos baldios que são do povo.
         Acordo e estou vivo. Não é preciso ser o médico a dizer-me, constato eu no alto da minha sabedoria. Mas há qualquer coisa que me escapa…apesar do latido faminto e sedento de um cão da vizinhança que aguarda a chegada dos donos que foram passar o ano fora. É que neste promontório mais ocidental da Europa nada mexe. Nem o vento nem a imaginação, nem as águas do rio nem o mar que sempre nos levou longe, nem os salários que fazem mover a economia. Ninguém se lembra dos anos de sacrifício, ninguém se recorda dos lamentos e das vidas destruídas. Nada de nada. Nada se mexe. Nem o futebol – agora que o tempo dos bons rapazes voltou ao Porto – nem a política em ano de eleições autárquicas, todos se vão acomodando ao saldo zero das contas de tantos bancos da nossa infelicidade.
         Acordo…e já não sei se estou mesmo vivo ou se apenas sobrevivo, acordo e não me sai da cabeça o som do porta-voz a repetir a estabilidade do coma profundo. É de facto este o estado deste promontório mais ocidental da Europa. Em coma e de corações gelados, apesar do fogo de artifício que foi estourando um pouco por todas as terras. Toneladas de estrelas que não minimizam a sobretaxa do IRS que muitos vão continuar a pagar, talvez até à venda definitiva do Novo Banco, sabe-se lá! E é o ano do centenário de Fátima, e é o primeiro ano de António Guterres como Secretário Geral da ONU apelando à Paz no mundo, neste planeta esventrado por guerras sucessivas e chorado por migrantes perseguidos e torturados.
         Acordo…e para meu espanto ainda cá estou. Felizmente rodeado por familiares e alguns amigos fiéis que entendem a força que têm a amizade e a solidariedade. Ainda cá estamos, apesar de não haver nada de novo. É preciso ser, é fundamental acontecer, cada um deve cumprir a sua parte.
Um abraço virtual e tudo de bom em cada um dos próximos dias.  
António Bondoso
Jornalista
1 de Janeiro do ano da graça de 2017.

         

2016-12-31

UM 2017 MAIS SERENO E MAIS SOLIDÁRIO.

Foto de Ant. Bondoso

Se a viragem do ano transportasse em si mesma o valor absoluto do bem-estar e da justiça, seria como que um momento perfeito da humanidade. 
Como tudo é complicado neste mundo habitado por humanos! Desde o início dos tempos sempre a pesar a vida e a morte, matar ou morrer, viver e sobreviver, a pobreza e a riqueza, a alegria e a tristeza, o belo e o feio, o mal e o bem, a felicidade e a miséria, o poder e a submissão, o pecado e a graça, a mentira e a verdade, a dúvida e a certeza, a traição e a lealdade, o amor e ódio, o perto e o longe.
Um 2017 mais sereno e mais solidário. 
António Bondoso

Foto de Ant. Bondoso

António Bondoso
Jornalista
31 Dez. de 2016

2016-12-22

NATAL - UMA QUADRA DE SIGNIFICADOS MAL PERCEBIDOS. A CRISE NÃO ACABOU...APESAR DAS MARATONAS AOS CENTROS COMERCIAIS.


QUANDO DECIDIRMOS FALAR DE NATAL…
FALEMOS DE JUSTIÇA E DE AMOR.

         De amor, seja o que for que entendamos pelo conceito: solidário, disponível, amigo, atento, presente, carinhoso, paciente, compreensivo, alegre, sorridente, ouvinte, confidente, partilhado, arejado.
Não me venham falar de Natal, quando a miséria, a pobreza, a desigualdade entre os indivíduos dos diferentes troncos da raça humana se acentua; não me falem de Natal quando os “donos disto tudo”, banqueiros e mercados sem rosto, somam cada vez mais às suas fortunas roubando o produto de quem trabalha e de quem já trabalhou; não me falem de Natal quando os jovens não têm futuro na terra onde nasceram; não me venham falar de Natal quando as migrações são cada vez mais forçadas por situações de conflito social, de guerra e de perseguições políticas – da Síria ao Sudão, da Líbia ao Iraque, da Sérvia ao Kosovo, da Albânia à Turquia, do Líbano a Israel, da Rússia à Palestina, do Paquistão à Índia, da Indonésia às Filipinas, da China ao Tibete, do México aos Estados Unidos, da Alemanha à Hungria, do Congo ao Chade, do Mali ao Iémen, da Tunísia ao Burquina Faso, de Angola ao Zimbabwe, do Brasil à Venezuela. Não me falem de Natal quando as crianças em todo o mundo são violentadas pela fome e pela escravidão.
Não me falem de Natal sem referir Justiça, sem lembrar o sacrifício de Jesus Cristo – esse mesmo cujo nascimento celebramos há séculos por esta altura, o que nada tem a ver com a figura do Pai Natal fabricada pela Coca-Cola – e do Papa Francisco que, com muita coragem e com muita persistência, nos tem devolvido alguma esperança e muita Fé.  
Não me falem de Natal, quando ver morrer jovens à porta dos hospitais começa a tornar-se moda, tendo por base cortes orçamentais absurdos. E dos mais velhos nem vale a pena falar, aumentando as situações críticas já mesmo à porta das farmácias – quando não, até da porta de suas casas. Não me venham falar de Natal quando os avós e os pais já não conseguem – em cada dia – fazer face ao desespero dos filhos. Não me falem de Natal, quando há situações diárias de pais e filhos desavindos. Não me venham falar de Natal, quando há escolas que não funcionam por falta de verbas. Não me falem de Natal quando a violência doméstica é cada vez mais comum; não me falem de Natal quando os vizinhos se agridem por uma flor de jardim ou por um arbusto saído; não me venham falar de Natal quando as alterações climáticas – resultado sobretudo das ambições desmedidas do “homem” – conduzem à morte do nosso planeta a um ritmo assustador.
         Não me venham falar de Natal apenas em Dezembro. 
         Falem-me de Justiça, de Cristo e de Consciências Iluminadas.
Enviei, aceitei e retribuí mensagens de Boas Festas. Sobretudo para os amigos que muito considero. Mas não me falem de Natal, quando percebo nesses gestos apenas uma circunstância de moda. Não me venham falar de Natal quando se consomem fortunas em decorações de rua e nas casas de cada um, apenas para umas horas de mesa e de companhia desfeita; não me falem de Natal quando o consumismo se concentra em figuras como a Popota ou como a Leopoldina. Não me venham falar de Natal, quando as compras e as trocas de presentes são a razão única de estabelecer um convívio de amigos e de famílias.
         Não me venham falar de Natal…por tudo isto!
         Falem-me de Amizade presente e desinteressada, falem-me de Justiça, dos verdadeiros valores do humanismo. O Natal é isto: Paz em todos os habitantes do planeta e amor – seja o que for que entendamos pelo conceito: solidário, disponível, amigo, atento, presente, carinhoso, paciente, compreensivo, alegre, sorridente, ouvinte, confidente, partilhado, arejado.

Dezembro de 2016
António Bondoso
Jornalista    


2016-12-20


OLINDA BEJA trouxe S. Tomé e Príncipe ao PORTO AFRICANO, ainda a decorrer no Espaço Quadras Soltas, na Rua de Miguel Bombarda. Ali foi apresentado o seu livro Á SOMBRA DO OKÁ, cabendo essa responsabilidade a António Bondoso. 

Foto de "Porto Africano"

Mais uma vez para falar de S. Tomé e Príncipe – como eu gosto de conversar sobre o país! – e, neste caso, de uma Mulher que merece todo o respeito e admiração pelo esforço que sempre dedicou ao seu país natal…mesmo quando as condições não eram favoráveis. 
                                          OLINDA BEJA!     
         Hoje, felizmente, pode dizer-se que (de alguma forma) o seu trabalho tem vindo a ser reconhecido. No seu país e internacionalmente. E até premiado!
Tem já publicadas 17 obras, para além de outros trabalhos na Alemanha e na Argentina. Basta percorrer a sua já longa e profícua bibliografia para saber. A AUTORA tem igualmente poemas e contos traduzidos para espanhol, francês, inglês, mandarim, árabe e esperanto.
Olinda Beja – e jogando aqui um pouco com as palavras, função que ela desempenha com m(a)estria – Olinda Beja é SOBEJAMENTE conhecida no mundo da escrita em língua portuguesa. Olinda Beja é a expressão acabada da Rosa dos Ventos de Almada Negreiros: não por acaso os sangues cruzados a sul e a norte, a ocidente e a oriente – Não foi por acaso nada de quem sou agora!
Acrescentarei apenas que OLINDA BEJA faz parte de um considerável “escol” de figuras de relevo na cultura do mundo lusófono…com nascimento nas Ilhas do Meio do Mundo – mais propriamente na Ilha de Nome Santo no seu caso – “escol” que vem de longe…se nos lembrarmos de Costa Alegre, Mário Domingues, Francisco Stockler, Francisco José Tenreiro, Manuela Margarido, Tomás Medeiros, Almada Negreiros, Viana de Almeida, Marcelo da Veiga, Vianna da Mota, Sum Marky, Sacramento Neto e Alda do Espírito Santo.
Segue-se uma longa lista de valores mais ou menos recentes, onde despontam Albertino Bragança, Armindo Vaz D’Almeida (recentemente falecido, tal como Armindo Aguiar, há dias desaparecido e encontrado morto em Lisboa em circunstâncias muito estranhas), Conceição Lima, Frederico Gustavo dos Anjos, Carlos Espírito Santo, Jerónimo Salvaterra, Aíto Bonfim, Rufino Espírito Santo, Inocência Mata, Lúcio Amado, Hélio Bandeira, Ludger Carvalho, Orlando Piedade, Goreti Pina, Osvaldo da Gama Afonso e Francisco Costa Alegre. 

Foto de Porto Africano

É neste “escol” que se destaca a produção de Olinda Beja. Particularmente na Poesia. Tudo o que escreve…tem um sentido, um toque poético. É uma Poesia contada, cantada e representada. E como Olinda Beja tem percorrido Portugal e o Mundo…cantando e representando o seu país natal! Como aconteceu e tem acontecido com este delicioso
                                       À SOMBRA DO OKÁ.
(já distinguido em STP com o Prémio literário Francisco José Tenreiro)
E não faço aqui esta referência apenas por acaso.
Vamos já perceber porquê…
Quem já tem um exemplar, certamente perceberá (ou vai perceber) – por entendidas e eruditas palavras/ideias dos vários prefaciadores – a qualidade literária de Olinda Beja.
A minha teoria, a minha leitura é outra:
Este livro é um sonho. Traduz um sonho….
Olinda sentou-se ali na cadeira (aquela mesma na capa do livro) à sombra do OKá…e sonhou! 

Foto de Porto Africano

E o livro é o resultado do sonho. 
No qual há prelúdios, certezas e dúvidas…e depois fragilidades.
Também angústias, claro, pois o futuro não é só esperança…
E dedicatórias igualmente, em cada uma agradecendo.
Permito-me referir a de Milé Veiga: - minha vizinha de infância e de jovem adulto…Ainda hoje nos tratamos por Família!
À Milé Veiga
lavraste searas de ausência em teu outro húmus
teu pranto vago e terno em começo de recordação
tempo afeiçoado ao gesto
à simetria de teu corpo cambuto e gracioso
deserto de sons e horas
e diásporas de sofrimento

teceste fios de púrpura na estrada de Água Arroz
altivos mamoeiros no quintal de tua espera
e de ti nasceram risos
e abraços
e mãos de acenos fugazes
e palavras esculpidas em folhas de andala
teu ilustre papiro.


Foto de Porto Africano
Por fim as intimidades….Que se prolongam!
E Quando se pensa que vai ser o final do livro…. Eis que as palavras brotam de novo num perfeito “encore”… com um bis citando Manuela Margarido.
E então, tudo – o Oká e as Ilhas – se funde na figura tutelar da MÃE. A mãe é o mundo. Muito mais do que em Almada (mãe passa as tuas mãos pela minha cabeça…ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado); mais do que em Tenreiro (Mai! Entre nós: milhas! Entre nós: uma raça! Contudo este livro é para ti…); e aqui em Olinda – (não mais te perderei nas margens do rio; havemos de recuperar mãe…podemos abrigar nossos sonhos à sombra do velho ocá/ onde sei que ficarão felizes os meus e os teus ossos…/o amor maior é o calor das tuas mãos nas minhas).
         Para Olinda Beja…Imensa é a ternura de nossos corações mestiços. Tal como mestiço é o coração de Tenreiro – ele mesmo o patrono do prémio agora atribuído a Olinda. O trajeto de ambos – desfasado no tempo, embora – tem algumas semelhanças, por exemplo a vinda muito precoce para Portugal. E depois, o longo afastamento da terra natal – mais o de Olinda Beja. Tenreiro não teve tempo – faleceu demasiado cedo. Pelo contrário…Olinda tem vindo a consolidar uma relação mais profunda com a terra, com as ilhas, com a mátria. 
         Talvez por isso a autora tenha conseguido assimilar melhor o sabor, o gosto pela cajamanga e pelo untué – podem crer que não é assim tão fácil – enquanto Tenreiro prefere colocar em poema a fruta  pão e a banana pão. 




Por outro lado, a maior longevidade de Olinda – felizmente – apresenta-nos, não direi um dilema, mas seguramente uma visão diferente da existência, com base numa famosa ave – o Ossóbô: - enquanto Tenreiro apresenta o Ossóbô como um cântico de vida (deslumbramento próprio de quem está de passagem, de quem não vive lá, embora sendo – ou então um sentido mais positivo da vida, um momento de felicidade!):
O OSSOBÓ CANTOU

A cavalo do vento
A chuva chegou.
A chuva chegou
E o ossobó cantou.

Cantou o ossobó
Seu canto molhado.
«Tchuva já vêo?
Já vêo si siô».

Já veio a chuva, Deçu mum
E é um estoirar de amor pelas grotas.
Té o ribeirão seco como mulher vazia
Se abriu gostosamente ao ribeirinho entumescente.

As águas lavam carícias de mãos.

Sob a folhagem amodorra a cobra preta
Enquanto o potro e o menino do engenho
Brincam e correm no terreiro os corpos molhados
Do canto bonito do ossobó.

Já vêo a chuva?
Já vêo si siô.
Não vêo não siô.
Ah! Já vêo que ossobó cantou!

A preta do meu amor pariu,
Pariu, meu Deus!, porque o ossobó cantou!

Olinda prefere dizer que o Ossóbô chora, cumprindo o que ela chama de ritual de pranto em nossas vidas. (TALVEZ uma certa amargura pelo tempo perdido – melhor dizendo tardio – no regresso à terra e ao convívio com a mãe e com os outros familiares de lá): - ou então, um toque de revolta pelos crimes ambientais – igualmente um tema central da sua luta:
chora o ossobô. Chove na floresta
molhadas ficam suas penas, suas asas
o canto repetido é memória de jaqueira
folhas escondidas em recônditos troncos

não mais prantearás o deslizamento do Contador
breve passagem na floresta da existência
relento de incertezas na música efémera do teu canto

chora o ossobô. Ritual de pranto em nossas vidas
enquanto se orvalha o corpo ereto das jaqueiras

Tenho acompanhado um pouco o percurso de Olinda Beja…
          Bô Tendê?, 15 dias de Regresso, No País do Tchiloli, A Ilha de Izunari, Água Crioula, Pé-de-Perfume, Aromas de Cajamanga, Histórias da Gravana…Mas este À SOMBRA DO OKÁ, com ilustração de capa de Teresa Bondoso, – e eu não sou muito adepto de comparações numa análise exclusivamente literária / cada obra é uma obra, tem os seus momentos, a sua ideia -  este À Sombra do Oká, dizia…é provavelmente o melhor livro de Olinda.
          Pelo menos aquele em que a autora assume definitivamente a sua profunda ligação com a terra. Plasmou-se aqui ontologicamente. De corpo e alma construiu como que um romance onde a narradora apresenta as personagens principais num quadro digno de Pascoal Vilhete.
          Assume toda a sua Sãotomensidão – como ela gosta de dizer:
“E agora não haverá mais sombras nos meus sonhos / ali ninguém mais se atreverá a negar-me o chão, a negar-me a mátria”.
          Finalizando…que a função já vai longa, direi só mais isto:
Conhecendo um pouco de Olinda Beja…estou mesmo a imaginar os seus gestos, dizendo ao Oká que já está pronta, pode vir buscá-la.
E remata:
Atravessa o livro
atravessa o livro e desata o meu olhar
e o meu grito e a minha errância e a minha dor
estende-me teu tronco, teus ramos, tua sombra(…)
(…) longo é o rio, longo e pedregoso,
maior, muito maior… o mar…

***** E é nele – Olinda Beja – no mar… que o som da ilha ficará ecoando, como diria Tenreiro.
Dezembro de 2016
António Bondoso

Jornalista

2016-11-24


POESIA, POETAS E PODERES, em Portimão - a convite do Instituto de Cultura de Portimão/Universidade Sénior. 
Foi há dias ...e hoje deixo aqui o texto do que escrevi e disse. Grato pela qualidade e quantidade da assistência. Uma conversa/convívio de simplicidade sénior.  



POESIA – POETAS – PODERES
A relação desigual…ou uma estranha forma de analisar a Sociedade

         Foi este o título que preferi para a minha intervenção mas confesso que poderia ter escolhido por exemplo estes outros  – DE MEMÓRIA EM MEMÓRIA, ATÉ AO TEMPO EM QUE VIVEMOS… ou ATÉ AO ESTADO A QUE CHEGÁMOS – como disse há mais de 42 anos o Capitão Salgueiro Maia. E que se tem repetido, infelizmente, ao longo dos tempos:
- descontando os conflitos que envolveram o nascimento da nação e do Estado…temos logo a guerra civil de 1211-1216, seguida da revolução de 1245-1247. E nova guerra civil entre 1320-1324, culminando com o drama de Inês de Castro. Nova revolução entre 1383-1385. Depois aparece o empreendimento das descobertas que motivou disputas com os vizinhos e despertou invejas de aliados e de inimigos. E foi D. Sebastião em Alcácer que, não percebendo Camões ou ao serviço de outros interesses, levou à crise de 1578-1580. E aconteceu o domínio Filipino até 1640 com reflexos irreparáveis nos territórios de além-mar. A Guerra da Restauração e a difícil consolidação do novo poder. É verdade que veio ouro do Brasil mas também não deixa de ser verdade que nem todo foi bem aplicado. E a tragédia do terramoto, a expulsão dos Jesuítas e a Guerra dos Sete Anos. Mais intrigas, a Campanha do Rossilhão e o Bloqueio Continental até às Invasões Francesas. Verdadeiro golpe d’asa estratégico foi a saída da Corte para o Brasil…mas, a prazo, impôs-se a grandeza do território.
***** juro que não pretendo elaborar uma qualquer sinopse histórica…***** Mas continuando…
…Veio a Revolução Liberal de 1820, seguida de revoltas e contra revoltas, da perda do Brasil e de mais uma guerra civil. Depois da sangria das descobertas veio a sangria da emigração na segunda metade do século 19. Acresce a luta pela manutenção das colónias em África, salientando-se episódios como o Congresso de Berlim, o mapa cor-de-rosa e o Ultimato inglês. Estávamos às portas da República mas foi preciso a tragédia do Regicídio para lá chegar mais depressa. Para desgraça da Iª República vieram a Guerra de 14-18 e o Golpe militar de 28 de Maio de 1926 que conduziu à ditadura do Estado Novo. Realce ainda para o apoio encapotado aos franquistas na guerra civil espanhola…e depois a chamada neutralidade colaborante na IIª G.M. E finalmente aconteceram a Índia e a Guerra Colonial – em tempo de Guerra Fria – antes do golpe de 25 de Abril de 1974 e a subsequente revolução democrática. Perdidas as colónias virámo-nos bem para a CEE…mas depois sucedeu a ilusão da UE – sobretudo do Euro – e não nos demos conta das perdas de soberania. E vieram as crises financeiras e os resgates dos donos do dinheiro. E é por aqui que temos caminhado, não nos dando conta de que o desafio mais aliciante deste século está na consolidação da Lusofonia. Apesar de tudo o que sabemos e apesar de tudo o que se diz. Vão já muito longe os tempos do “espírito de Bissau” – uma abertura de mentalidades e uma boa dose de realismo do então presidente Ramalho Eanes.   
         Voltando ao rumo da conversa…lembro que na Monarquia, entre 35 Reis e Regentes, contam-se pelos dedos das mãos aqueles que dedicaram tempo e pensamento à Cultura – como foram os casos dos últimos, Carlos e Manuel…e antes deles Dinis, Duarte, João V, Maria II e Fernando II.
         Já na Iª República, 8 presidentes foram 8 homens de cultura – seguramente mais de cultura do que políticos. Os tempos não eram fáceis…e daí ao 28 de Maio de 1926 foi um sobressalto permanente.
         Desses oito…dois eram algarvios – José Mendes Cabeçadas e Manuel Teixeira Gomes – sendo este último natural de Portimão. Chegou a presidente depois de passar por Coimbra e pelo Porto, acabando por se auto exilar na Argélia. Manuel Teixeira Gomes – homem mais de cultura do que político…Foi ele que disse:
A política longe de me oferecer encantos ou compensações converteu-se para mim, talvez por exagerada sensibilidade minha, num sacrifício inglório. Dia a dia, vejo desfolhar, de uma imaginária jarra de cristal, as minhas ilusões políticas. Sinto uma necessidade, porventura fisiológica, de voltar às minhas preferências, às minhas cadeiras e aos meus livros.
Contudo, dizia Pio XII, a Política é das formas mais nobres de exercer a caridade. E D. Manuel Martins, Bispo Emérito de Setúbal – a propósito do meu livro O PODER E O POEMA – acrescentou a ideia de que o Poder Político é o mais nobre dos poderes, apesar de infelizmente, poder “dar em portas abertas para corrupção, injustiças de toda a ordem, boyismo, vaidades pessoais e familiares. Porém é uma função nobre – insiste! É uma das funções mais nobres. Exerce-se com autoridade confiada (em eleições) em vistas a realizar um serviço inteiro, competente, feliz, a toda a Comunidade. «Eu sou tu». Político versus Sociedade”.
         Igualmente neste sentido se pode considerar a ideia do grande filósofo político Norberto Bobbio: - o homem tem a capacidade de determinar o comportamento do homem, sendo não só o sujeito mas também o objeto do Poder Social.
Um poder entendido, claro está, na sua dimensão mais vasta, do simbólico ao económico e financeiro, ficando de fora – por motivos óbvios – o militar e o ciberespaço. 
O homem, esse homem – enquanto ser individual e em liberdade – recordando Miguel Torga como resistente à ditadura e à censura, tem nas suas mãos o terrível poder de recusar!
         Voltando a alinhar o desencanto de Manuel Teixeira Gomes – homem de cultura – com as suas ilusões políticas, sigo lembrando que já na IIª República, foram os militares e os economistas a dar cartas, continuando a fazê-lo no início da IIIª República, até aparecerem Mário Soares e Jorge Sampaio…e agora, neste tempo novo, Marcelo Rebelo de Sousa.   
         Tudo isto para vos dizer que as perspetivas são diversas, as opiniões mais do que muitas, as análises divergentes – todas eventualmente com alguma ponta de bom senso…OU NÃO!
         Por outro lado, sabe-se que a MEMÓRIA é fundamental para qualquer das situações. E alguns disseram – e bem! – que um povo sem memória é um povo sem história. Nós portugueses, felizmente, temos uma história – uma longa, interessante, decisiva história, como vimos! De atos e de palavras.
         Por isso digo e repito que a palavra é que me move, as ideias nascem nelas e os poetas são cultivadores da palavra por excelência. E do sonho! O lado positivo da utopia é a manutenção do sonho, conferindo sentido à etimologia das palavras poema, poeta ou poesia = fazer, ato de criar. Volto a D. Manuel Martins para lembrar que “na base dos feitos que levam ao Poder, normalmente está o Poema, isto é, o desejo de ser capaz de, com sacrifício de todo o género e feitio, conseguir cantar o Poema. Deus é o Poeta: criou tudo do nada. Criados à sua imagem somos poetas, sem que disso tomemos consciência. O Poeta vê o mundo de maneira diferente: O Poeta ouve uma flor que fala, um rio que canta, um oceano que espanta, uma montanha que esmaga. O poeta ouve o silêncio, canta como ninguém a beleza da natureza e da vida, chora a tristeza de tantos humanos. O poeta escuta o murmúrio das correntes, as mensagens das flores, o chilreio dos passarinhos. O poeta descobre luz onde os outros veem treva, espalha esperança quando tantos desesperam, abre infinito enquanto tantos se fecham. O poeta é um homem livre que anda por onde quer. Até por isso, se exprime sem regras, as regras que impedem a simplicidade e, quantas vezes, a verdade do pensamento. É corrente dizer-se que o poeta está fora do mundo. Não é verdade. Acontece, sim, que ele mergulha na alma do mundo. Podemos avançar e dizer que o poeta tem entrada certa nos segredos de Deus, o grande Poeta do universo. Então, conclui o Bispo Emérito de Setúbal, uma das grandes condições para entender a vida é ser poeta”.
         É neste “entender a vida/mergulhar na alma do mundo” que eu tenho procurado centrar a minha intervenção, independentemente dos poderes que possamos enunciar.
         E aceitando – apesar de tudo – a ideia de que já ninguém ouve os poetas (como diz o meu amigo e Prof. Jubilado Jorge Olímpio Bento) …é, no entanto, quase impossível descartar os sonhos. É por aí que vou…foi por aí que fomos grandes…é por aí que o país deve alimentar a esperança! Apesar de ser uma relação difícil esta, entre quem escreve e quem representa os poderes, como vimos no pensamento de Manuel Teixeira Gomes.
A relação entre quem tem a liberdade de pensar e de dizer e quem tem o poder da censura. O tempo atual, há uns bons anos a esta parte e embora possa não parecer – é até paradigmático. Por motivos diversos…e os mais importantes até nem serão demasiado óbvios.
         Luís Veiga Leitão, um dos grandes poetas do século XX português – beirão de gema que amava o Douro e o mundo – e que memorizava os poemas nas masmorras da PIDE ou nas celas do Aljube e de Caxias, porque não lhe davam papel e lápis…escreveu em 1984:- “Dizem que os poetas são o sal da terra. Hoje, como nunca, necessários são para que o mundo não apodreça mais ainda”.
         Nessa perspetiva…vir e estar no Algarve sem falar em e de ANTÓNIO ALEIXO, é provavelmente como ir a uma casa de fados e não sentir a melodia.
Peço às altas competências
Perdão, porque mal sei ler,
P’ra aquelas deficiências
Que os meus versos possam ter.
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Descreio dos que me apontem
Uma sociedade sã:
Isto é hoje o que foi ontem
E o que há-de ser amanhã.
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Se o hábito faz o monge
E o mundo quer-se iludido,
Que dirá quem vê de longe
Um gatuno bem vestido?
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Eu já não sei o que faça
P’ra juntar algum dinheiro;
Se se vendesse a desgraça
Já hoje eu era banqueiro.
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Tu, que tanto prometeste
Enquanto nada podias,
Hoje que podes – esqueceste
Tudo quanto prometias…
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Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.
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Elucidativas estas palavras de António Aleixo. E atuais, claro: - isto é hoje o que foi ontem/ e o que há de ser amanhã.
E as promessas…e os discursos, daqueles que detêm os poderes – bem percetíveis nas duas últimas quadras. A herança vem de longe. E pelos vistos, os que mais sofrem e mais humilhados têm sido…continuam a não ser capazes de reagir.
E poderíamos ir mais além nas quadras a selecionar.
Mas é preciso notar que não há apenas quadras na produção literária de António Aleixo. Há também interessantes incursões pelo teatro – como por exemplo no Auto do Curandeiro, no qual podemos apreciar uma cerrada crítica social, particularmente quando se dirige ao irmão mais novo: a culpa é minha e é tua, porque nós somos o povo:
(…)E o povo, a crer na mentira,
Dorme num sono profundo,
Sofre um pesadelo eterno,
Que faz com que ele prefira
O inferno deste mundo
Por medo desse outro inferno.

Fingem-se ao bem dedicados,
Muitos como os curandeiros,
P’ra não os vermos estranhos;
Porque os lobos disfarçados
Com as peles de cordeiros
Melhor destroem os rebanhos.

Quando a verdade os aterra,
Querem a moral pregar,
Prometendo no céu dar
O que nos roubam na terra.

O mundo está na infância,
E adulto só pode ser
Quando desaparecer,
Do povo, a ignorância.
Viajámos, assim, pela alma deste grande António Aleixo…que, por esta época (embora não pareça e talvez não se tenha feito assim tanto por isso), já ultrapassou a barreira algarvia. Quem o tem lido, quem o tem percebido = rapidamente abarcou e se deixou envolver pela universalidade da sua palavra e das suas ideias. Como há uns anos JOÃO VENTURA, da Fundação que leva o nome do poeta: 
António Aleixo é, sem dúvida, um poeta que extravasa em muito a restrição que o cataloga como poeta popular. É talvez um dos grandes poetas deste século pela jactância, pela sua capacidade de improviso e pela sua visão do mundo que, nesta curva do milénio, continua a ser o mesmo. Neste sentido, está ao mesmo nível de dois outros grandes poetas que com uma cultura mais erudita, também se distinguem nesse aspecto: o Fernando Pessoa e o Vitorino Nemésio.
Hoje, o nome de António Aleixo está consagrado na toponímia de diversos lugares do país – de Coimbra a Paço de Arcos, de Setúbal a Albufeira, passando pelo Liceu Católico de São Paulo, no Brasil – tal como o Liceu de Portimão ganhou a designação de Escola Secundária Poeta António Aleixo.
Igualmente algarvio, natural de Portimão, é o poeta NUNO JÚDICE. Distinto académico, poeta erudito, consagrado e reconhecido, Nuno Júdice diz que escrever um poema é um trabalho que faz parte da sua vida. Mas não atribui grande sentido político à literatura – apesar de reconhecer que ela tem sido diminuída e atacada. Júdice afirma que “a grande literatura é uma resistência, não no sentido político mas no sentido de lutar para manter os grandes valores estéticos que vêm do passado”.
Nesta linha de pensamento – e para quem leu o ensaio sobre a definição de poesia de Nuno Júdice (AS MÁSCARAS DO POEMA, de 1998) – diria que ao poeta talvez não fosse fácil enquadrar ou classificar António Aleixo. Clássico, barroco, romântico? Popular?
Se nos lembrarmos da ideia de João Ventura – que ousa colocar António Aleixo ao nível de Pessoa e de Nemésio, pela sua jactância, capacidade de improviso e visão do mundo…o que poderia dizer Nuno Júdice?
É certo que ele não apresenta uma orientação fechada da criação poética, dizendo mesmo que o poema se define a partir de algo que tem uma realidade não exclusivamente linguística. E que o sentido do poema decorre de algo que não se encontra exclusivamente na esfera da linguagem – incluindo um universo de sensações, emoções, ideias e imagens, o qual implica toda a vivência humana.
É ainda nesta ligação à vida que Cristina Carvalho coloca a poesia. Acrescenta-lhe a arte: - a poesia pode dizer tudo o que quiser. É uma arte. E como toda a arte tem uma linguagem que permite tudo, sempre. Talvez na senda de seu pai, António Gedeão – e o mundo a avançar nos pulos dos sonhos como bola colorida…..
E assim…o que importa perguntar é se todas essas particularidades da vivência humana não poderão determinar, em certas circunstâncias, uma ligação – conflituosa ou não – do poeta e do poema às mais diversas formas de poder?
         Quando D. Manuel Martins refere que “o Poder, normalmente, aparece frio, insensível, mas, ao mesmo tempo insaciável // e que o Poema, pelo contrário, nos aparece quente, sonhador, aventureiro, solto”…igualmente se pode colocar a questão de saber se – perante essas variáveis de frio, insensível e insaciável, atribuídas ao poder – os poetas e a poesia devem privilegiar apenas a estética ou assumir um papel de comprometimento e de intervenção. Talvez entender a vida/mergulhar na alma do mundo. E cito de novo: “uma das grandes condições para entender a vida é ser poeta”.
E em situações de conflito social permanente – e o nosso espelho é universal – podemos ver como a poesia é avessa ou inimiga de qualquer poder, simbólico ou não, no dizer de Luís Veiga Leitão;
…Que a honra da poesia foi ter saído à rua e que ela é uma insurreição, como afirma Pablo Neruda. Não se ofende o poeta porque o chamam subversivo;
…Os verdadeiros versos não são para embalar mas para abalar – comenta Mário Quintana, o brasileiro que um dia disse: “Se alguém te perguntar o que quiseste dizer com um poema, pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo...
…ou então, ouvir José Carlos Ary dos Santos dizer a força que tem um verso. Para ele, a poesia é, ou devia ser, um pouco como uma flor que nasce, uma árvore que irrompe, uma pedra que se levanta. Poeta castrado…não!
         Como Fernando Pessoa, que nunca deixou de glosar O Estado Novo e Salazar. E Joaquim Namorado, militantemente do contra, dizia que os poemas não se servem frios. Ou Jorge de Sena…que já em 1956 dizia que não havia de morrer sem saber qual a cor da liberdade! E soube, embora longe.
…há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não! – corrobora Manuel Alegre; E Reinaldo Ferreira dava até uma receita para fazer um herói.
…O poder teme a poesia. Um poder que esteja de consciência tranquila, nunca poderá temer um poeta – salienta Pedro Barroso;
E Natália Correia: Poetizar as mais fundas aspirações humanas arrancando-as do peito dos homens distraídos é o que se deve entender por mensagem do poeta.
Curioso é notar que, no meio de tantos contras, e sobretudo com o cenário da guerra colonial, aparecem muito poucos poetas engajados com o regime do Estado Novo. Contudo – e como já veremos – os que existiram parecem desmentir de alguma forma a ideia de Eugénio de Andrade, que não vê qualquer relação entre a poesia e o poder. Talvez com o contrapoder! E assim…e sem esquecer Fernando Farinha e o seu Fado das Trincheiras; Marcha do Soldado Português, na voz de João Maria Tudela ou Na Hora da Despedida, na voz de Ada de Castro – houve um, Santos Braga, que produziu talvez o mais marcante desse período: Angola é Nossa! Era a joia do Império…e Santos Braga dizia –
Angola é nossa gritarei
É carne, é sangue da nossa grei
Sem hesitar, p'ra defender
É pelejar até vencer

Mas a grande força do poema estava no clamor do refrão, com a música de Duarte Pestana. Compassadamente em crescendo…repetia-se Angola…é nossa!...Angola…é nossa! 46 SEGUNDOS em crescendo…repetindo sempre.
         Aliás, neste período, o engajamento era nota principal no outro lado da guerra, com a grande poesia de Agostinho Neto, António Jacinto, Viriato da Cruz, Alda do Espírito Santo ou Marcelo da Veiga.
         Tal como na América da Guerra Fria, da guerra do Vietnam, da luta pelos direitos cívicos da população negra – tudo temas poetizados e cantados por Bob Dylan, um longo caminho até ao reconhecimento do Nobel da Literatura que ele viria a desvalorizar, depois da estéril e corporativista polémica no seio dos literatos e eruditos, que nunca devem ter percebido o alcance das lutas de Bob Dylan. Há ou não…um poder dos poetas?
         E onde estão eles…sobre a Síria? Sobre o Iraque, todo o médio oriente? E o que dizem hoje os poetas africanos sobre o Mali, as Guinés, a Nigéria, Congo ou Angola? Quem os ouve?
…e no meio de tudo isto, claro, a poesia e a loucura, que nos é apresentada por José Eduardo Agualusa: Se é para ser poeta, não há que temer a loucura. Se é para ser louco, que seja com poesia. Sim, eu acredito que se não for a poesia a salvar o mundo, o mundo está perdido.
…É assim, também, que a alma do poeta tem uma porta de entrada escancarada e não deve ter uma porta de saída vigiada. – Isto digo eu, modestamente como calculam, neste livro/ensaio O PODER E O POEMA, que fiz publicar em 2012, e sobre o qual levei o Prof. Doutor JOEL MATA a retirar uma última ideia: “o poeta também é um construtor de pátrias, apelando ao inconformismo, da mesma forma que Almada Negreiros o fizera, com o Ultimatum Futurista às Gerações do Século XX: «O Povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem, portugueses, só vos faltam as qualidades»”.


Tudo começa no princípio. O nascimento e a morte. O Poema vem no fim – como diz Luís Veiga Leitão: 
Por ti
Mão de céu
E mão de mar,
Por ti…mão de ser
E mão de amar!
Por ti
Mão de rio
E mão de faina,
Por ti
Que és mão de dar…e receber
Por ti
Mão de mim que nada espera
Por ti
Mão perdida e mão achada
Por ti
Que és mão amiga
E não fechada.

Por ti
Mão segura…e mão de abrigo
Por ti
Mão que acena ao ver partir
E ao ver chegar,
Por ti
Mão ilustre que eu aperto
Sensível, serena, solidária.
Por ti…
Mão.
ASSIM SE CHAMA O POEMA…


António Bondoso
Jornalista
Nov 2016