2017-09-30


REFLETIR

Refletir, refletir – é a palavra d’ordem neste sábado que é o derradeiro dia de Setembro do ano da graça de 2017. 


REFLETIR
Refletir, refletir – é a palavra d’ordem neste sábado que é o derradeiro dia de Setembro do ano da graça de 2017. Que bom que é refletir! Acordar, espreguiçar na cama antes dos alongamentos das pernas e do espírito, que faz bem à coluna, abrir os olhos e o pensamento ao mundo, que não vai bem – como se sabe: do Afeganistão ao Iraque, da Turquia ao Curdistão que avança, da Coreia do Norte aos EUA, da Venezuela ao Brasil, do Congo à República Centro Africana e ao Mali, da Polónia e Hungria ao Estado Espanhol (ai Catalunha! Que a manipulação da informação e contrainformação não atinja o ponto de sem retorno), da Rússia à Ucrânia, das Caraíbas ao México, do Nepal à China, do Paquistão à Índia, de Angola a Moçambique, da Grécia a Portugal. Refletir aqui, neste promontório da Europa onde procuramos levantar-nos do chão depois dos ataques soezes dos mercados e da alta finança sem rosto. É o tempo de uma geringonça cujo esforço político merece reflexão e aplauso, é um tempo em que o futebol clama ainda as nossas emoções, apesar da tecnologia manipulada pelo homem. Porque hoje é sábado…aproveitemos para refletir sobre as atitudes de domingo, com alegria e tolerância. Muito para além da mesquinhez e ambição dos homens.



A.Bondoso
Jornalista
Setembro 2017. 


2017-09-21


EXPODEMO 2017 EM MOIMENTA DA BEIRA - A MAÇÃ NO TOPO DO MUNDO.


A maçã não deve ser vista como um fruto proibido – antes deve ser apreciada como um carismático fruto do jardim deste universo…ou de como a Cultura pode constituir um sólido incentivo às atividades económicas, quer através de parcerias, quer intervindo diretamente com a imagem da chamada economia criativa. É assim que se tem pensado em grandes metrópoles mundiais [no Rio de Janeiro, por exemplo]…é assim que se tem procurado trabalhar em Moimenta da Beira – particularmente por ocasião da EXPODEMO. 
         E de um certame que pretende mostrar o que de melhor se produz na região – a maçã e o vinho à cabeça – rapidamente se conseguiu a envolvência da música, do teatro de rua, da pintura mural, das artes plásticas.
         E tudo se renova nesta edição de 2017 onde, a par das tradicionais Jornadas Agro Frutícolas, se desenrolam um mega treino de Karaté, em frente aos Paços do Concelho; o teatro de rua FAUNO – uma produção da Artefício; a atuação do Coro Mozart; o concerto inaugural de Cock Robin e a atuação da Orquestra CEM NOTAS e do Grupo de Cantares de funcionários da Câmara Municipal de Moimenta da Beira. Ainda no programa se consideram atividades acrobáticas, circo, estátuas vivas e cozinha ao vivo.
         A EXPODEMO 2017 abre na sexta-feira com um encontro de empresários com representações da AICEP e da Embaixada de Espanha e, logo após a inauguração – presidida pela Ministra da Presidência – pode ser apreciada a exposição de Adriana Henriques LUZ, COR E MAÇÃ.
         No dizer de José Carlos Peixoto, veterano docente na Universidade do Minho, neste trabalho – que fala da maçã como fruto da terra, das raízes e da luz – as imagens nascem e alimentam-se da terra, uma «sedução» que cresce à medida que absorvemos o sumo e a textura da maçã. Adriana revela-se neste «desejo de ser», nesta «compulsiva vontade de partilhar», nesta viagem «pelo interior», nesta vulnerabilidade de «olhar» e do que é «olhado». A «tentação da maçã» revela-se na paixão pela estética, no «amor pela arte», na «confidência dos enredos», sem acreditar na maçã como fruto proibido, como pecado original, mas como um carismático fruto do jardim deste universo”.
Enquanto a sua exposição/instalação estará patente no átrio da Câmara Municipal de Moimenta da Beira até 15 de Outubro, Adriana Henriques prepara-se para desenvolver no hospital de Braga um laboratório sobre a cor, sobre a luz e sobre a saúde, agregando médicos, enfermeiros e doentes de cardiologia, com a particularidade de ser aberto à população.

Adriana Henriques
António Bondoso
Jornalista

2017-08-30


A MODA DAS ALDEIAS…ou a subjetividade das mais bonitas.
Eu, por exemplo, gosto muito de Paçô ou de Baldos, no concelho de Moimenta da Beira.
É comum dizer-se hoje que vivemos numa aldeia global, mas a verdade é que – para além de todas as autoestradas da informação e da onda incessante de novas tecnologias que nos oferecem o planeta ao simples gesto de um clique – há sempre comunidades a descobrir. Algumas que se mantiveram esquecidas por motivos diversos, outras que foram sendo abandonadas pelos efeitos migratórios. Mais umas quantas, felizmente, descobertas em tempos recentes, despertaram o interesse de gente empenhada e motivada. Preservar um modo de vida com a qualidade impossível nas grandes metrópoles…
         Já referi comunidades mas há quem lhes chame povoados, pequenos povoados, aldeolas, povoações rurais ou pequenas povoações de organização simples e sem autonomia administrativa.
         Pois é destas localidades que muito se tem falado nas últimas semanas, particularmente a propósito da “eleição” das 7 mais, a sair de um lote de 49 selecionadas, e que serão anunciadas a 3 de Setembro. Não questiono métodos nem princípios…mas, como disse, gosto particularmente de Paçô e de Baldos, em Moimenta da Beira. Não é que essas tenham uma particularidade específica, mas simplesmente por uma questão de proximidade. E também pela história que as rodeia se tivermos em conta por exemplo Lamego e S. João de Tarouca. Baldos, porque os meus olhos a fixam sempre que paro por estas Terras do Demo de Aquilino Ribeiro; Paçô, porque por ali passo para aqui chegar…e até pela lembrança que me traz o habitual cumprimento dos habitantes da Ilha do Príncipe – lá longe no Golfo da Guiné, no meio do mundo, talvez com uma explicação idêntica à que se atribui ao Passô/Paçô daqui da Beira Alta. Passou por aqui o Bispo? Passou. E de Passô ou a Paçô foi apenas um passar. Também na ilha do Príncipe as pessoas se cumprimentam quando passam. 

Excerto de OS OITO CONCELHOS DE MOIMENTA DA BEIRA
A. Bento da Guia

Quanto a Baldos, como disse, é lá que se fixa o meu olhar quando – sentado na varanda – aprecio a paisagem imensa do espaço a que chamei a Terra das três montanhas, as quais não me deixam ver o Távora a correr para o Douro. E foi durante a construção da barragem no Távora nos anos de 1960 [Vilar de seu nome foi inaugurada em 1965] que Baldos também serviu de base logística – nomeadamente colocando a sua Escola ao serviço dos filhos dos trabalhadores no empreendimento. E depois há aquela nota de Monsenhor Bento da Guia, em Os Oito Concelhos de Moimenta da Beira [3ªedição, Agosto de 2001], sobre os tempos da reconquista de terras aos mouros onde se empenharam os chamados “presores godos”. Citando o Elucidário de Santa Rosa Viterbo, Bento da Guia recorda que esses presores “criaram vilas rurais, vilares e casais que deles receberam os nomes, como Leomil, Baldos, Alvite, Toitam, Mileu, Segões, Sever e Ariz”. 

Ant. Bondoso

Não é que estas aldeias tenham mais ou menos encanto do que outras agora mais nomeadas. Mas têm certamente uma história que eu não pretendo deixar passar em claro, destacando referências bibliográficas de muita valia. E, por outro lado, há até palavras a que emprestei alguma poesia não faz muito tempo:
FONTES DE LUZ…
                                                              
Baldos tem vinte luzes
Em perfeita noite de verão.

Conversam com as estrelas
Para confessar a paixão:
De brilhar olhando o vale
De luzir aquém dos montes
De queimar todas as fontes
Que incendeiam o coração!

As vinte luzes de Baldos
Projetam no meu olhar constelações
De tantos astros suspensos
Que o meu espírito inquieto
Viaja como se fora intruso
Nas asas cintilantes de um minúsculo avião.
==== Ant. Bondoso
Agosto de 2016.



António Bondoso
Jornalista
Agosto de 2017.

2017-08-22

MOIMENTA DA BEIRA DEVE ASSUMIR A LIDERANÇA DA REGIÃO.



MOIMENTA DA BEIRA DEVE ASSUMIR A LIDERANÇA DA REGIÃO.
Com esta ideia genérica, José Eduardo Ferreira parte para a sua última campanha autárquica sem promessas mas com dois compromissos: uma aproximação ainda maior ao tecido empresarial, de modo a inverter o ciclo da desertificação do interior e evitar o que chama de ponto de não retorno e, por outro lado, uma forte determinação pessoal em continuar a afirmar Moimenta em todos os Fora nacionais e internacionais, com capacidade e competência.  
José Eduardo Ferreira, que já leva 8 anos como Presidente do Município e que teve uma larga e longa experiência como vereador da oposição, é visto pelos órgãos dirigentes do partido socialista como um dos melhores presidentes de câmara a nível nacional. Foi isso que vieram dizer a Moimenta o líder do PS/Viseu, António Borges e, em representação do secretário-geral do partido, o Professor Caldeira Cabral, atual ministro da economia.
Sendo a sua última campanha autárquica, José Eduardo Ferreira apelou ao voto de todos a 1 de Outubro, de forma a que as listas do PS consigam a maior vitória de sempre. Porque é merecida, na sua opinião. E justificou com obras, mas sobretudo com o esforço para deixar uma situação financeira consistente. Realçando a confortável capacidade de endividamento na ordem dos 58%, o autarca frisou que não é possível almejar desenvolvimento sem ter contas saudáveis. E lembrou que, mais do que as obras, o que conta verdadeiramente é a capacidade de inclusão – da sociedade em geral e das empresas em particular – para fazer do interior um espaço vivo!
Na sessão de apresentação da candidatura, vários oradores lembraram a ação de José Eduardo Ferreira, quer pelo facto de devolver prestígio a Moimenta da Beira, quer pelo pormenor de ter colocado Moimenta no mapa, ultrapassando as muralhas da interioridade e criando uma nova centralidade. O candidato à presidência da Assembleia Municipal, Alcides Sarmento, lembrou por exemplo que o desenvolvimento reflete particularmente a forma como a sociedade se organiza, sendo fator determinante a inclusão. E a propósito do protagonismo que fez de Moimenta da Beira a nova centralidade da região, Alcides Sarmento recuou a 1857 e ao Juiz da Comarca José Freire de Serpa Pimentel – 2º Visconde de Gouveia – para valorizar a ideia de “um concelho populoso e extenso, uma vila que pela sua posição geográfica, pelo seu comércio e pela sua indústria podia ser chamada a rainha das povoações dum círculo não pequeno…”(1).
Ainda uma outra ideia de José Eduardo Ferreira, para fechar este apontamento: não há renovação de mandatos. Cada um é um projeto novo que exige construir uma solução nova. E o lema da campanha “Uma Força Nova para…seguirmos juntos” está aí plasmado. O importante é o respeito por todos, mesmo por aqueles que não querem estar na campanha do PS. Proximidade, legitimidade, lealdade, humildade…para a liderança da região que Moimenta da Beira deve assumir. Como realçou, ou a região se desenvolve em conjunto…ou poderá vir a desaparecer igualmente em conjunto.
(1)- em OS OITO CONCELHOS DE MOIMENTA DA BEIRA. 3ª edição, Agosto de 2001. A. BENTO DA GUIA. Pg.186.
António Bondoso
Jornalista

Agosto de 2017

2017-07-12


UMA CERTA INDEPENDÊNCIA QUE CHEGOU A S. TOMÉ E PRÍNCIPE HÁ 42 ANOS. 

Composição fotográfica de Miguel Bondoso


UMA CERTA INDEPENDÊNCIA QUE CHEGOU A S.TOMÉ E PRÍNCIPE HÁ 42 ANOS.
“Independência é uma coisa bela
E santa, mas é preciso compreendê-la!”
(Marcelo da Veiga, Amadora – 20/07/63)
                                                                         
É um facto para celebrar, sem qualquer ponta de dúvida, independentemente das ilusões e das pedras no caminho, muito acima de qualquer reação menos positiva sobre a evolução do processo da construção do novo país. Nunca há apenas uma rota segura, há bifurcações que conduzem a determinadas políticas, sempre tendo em conta a conjuntura de amigos e de parceiros, sempre tendo em conta o momento político específico de cada região e/ou da chamada comunidade internacional. Determinadas opções são válidas para cada um dos momentos. Realismo, diz-se. Mas há ideias e atitudes que não podem ser maculadas num país moderno, como por exemplo os direitos fundamentais dos cidadãos e o sentido de responsabilidade – individual e coletiva.
         Por muito que perceba as desilusões, e compreendo-as porque as sinto igualmente na democracia portuguesa, não me revejo em qualquer tipo de atitude balizada pela ideia de luto. O desânimo posso aceitar, mas é fundamental nunca desistir da luta pelos valores essenciais como a liberdade e a democracia participativa. Cidadãos ativos precisam-se, embora não seja fácil. Nunca é fácil. Permito-me citar a propósito um excerto de um texto de Solange Salvaterra Pinto no facebook:  
É o nosso país.
Porque raio vamos enterrá lo.
As pessoas que enterro, tenho umas saudades que doem....
Não quero estar dorida por causa do meu país.
Meu São Tomé e Príncipe que amo.
Que amas.
Que amamos, apesar dos pesares.
No dia 12 vou festejar com toda a garra os 42 anos ........
Façamos nos próximos 42 , algo que nos possamos orgulhar.
O nosso legado será esse.
Tornar STP um lugar melhor para os nossos filhos.
Esse é o nosso compromisso.
A nossa obrigação.
A nossa tarefa maior.
         Parabéns ao país por mais um aniversário soberano, um abraço fraterno a todos os cidadãos de S. Tomé e do Príncipe – particularmente aos amigos que me acompanharam em cada um dos anos que vivi no paraíso, mesmo aqueles que já partiram deste mundo.
         Escrevi no meu livro ESCRAVOS DO PARAÍSO, de 2005, que “De S. Tomé, a ilha que divide o mundo, diz Francisco Tenreiro que é a ilha «…dos cafezais floridos e dos cacaueiros balançando como mamas de uma mulher virgem». Do Príncipe de Maria Correia e da Praia do Precipício, escreve Marcelo da Veiga que é ali «…onde florescem palmas e cacaueiros e têm murmúrios doces os ribeiros”. Apesar da distância e da circunstância, estas são imagens que nunca perderão a essência. O país vale por si. Só é preciso seriedade e competência para fomentar o desenvolvimento.
         Voltando a Marcelo da Veiga e ao seu poema “Independência”, de 1963, deve reter-se a ideia de que
Independência não é
Vadiar, viver sem respeito;
Por tudo bater com o pé
E inchar, qual balão, o peito.
Independência não é cada um
Fazer só o que quer: comer, dormir,
Não sentir por ninguém respeito algum
E beber marufo até cair.
Atualizando e contextualizando, podemos sempre recorrer ao Hino de S. Tomé e Príncipe – um belo poema de Alda Espírito Santo – no qual se repetem palavras como combate, dinamismo, trabalhando, lutando, vencendo. E trabalhar e lutar é Cultura. Como Cultura é esforço e é respeito, a arte de pensar e de fazer. Como Cultura é imaginar e ousar, é o estudo e o saber, é beleza e simpatia. Como Cultura é sentimento e emoção, é amor e amizade, alegria e sofrimento. Como Cultura é o turismo, a arte de saber receber como sabe o povo de S. Tomé e do Príncipe. Como Cultura é a pesca e a agricultura. Como Cultura é não perder o cacau e é renovar o aroma do café. Como Cultura é ser livre e ter liberdade de expressão. Como Cultura é enfrentar o presente mas não idolatrar o petróleo. Cultura é ter orgulho de ser de STP…em qualquer ponto do mundo.
         S. Tomé e Príncipe é hoje um PEID – Pequeno Estado Insular Em Desenvolvimento – e que sobrevive em grande medida da ajuda externa e há muito ligado à panaceia do petróleo. Como já disse a jornalista e poetisa Conceição Lima, “Com ou sem petróleo, é minha opinião que se deve apostar em sectores como o turismo e o mar, cujas potencialidades são consensualmente reconhecidas hoje”.
         É exatamente esse mar que eu ainda hoje imagino, quando «olho o horizonte, sentado nesse espaço infinito entre a areia e o mar»; ou quando Albertino Bragança diz «pressentir que existe algo de espantoso e de belo nesse mar», lembrando lugares míticos como as sete pedras e a praia das sete ondas»; ou de como Inocência Mata descobriu há uns anos que «a sua memória de STP está ligada aos lugares que se metaforizam no Atlântico – esse mar que gera do sol o calor humano que a recebe no país».
         Parabéns S. Tomé e Príncipe. Que o presente seja digno e que o futuro seja feliz e risonho.

Imagem da Web

António Bondoso
Jornalista
Julho de 2017. 

2017-05-25



NESTE DIA DE ÁFRICA...É BOM SABER QUE “ÁFRICA NÃO É APENAS UM LUGAR, É UM SENTIMENTO… 
Figura da Web


 “ÁFRICA NÃO É APENAS UM LUGAR, É UM SENTIMENTO
…E só alguns de nós fomos tocados por ele!”
                                                                                      Ashley Gerrand

Certamente todos ou quase todos sabem onde fica a ÁFRICA! No coração do mundo…se tivermos bem presente a cartografia.
O que talvez nunca tenhamos interiorizado…é que há MUITAS ÁFRICAS! E muitas Línguas: É impressionante!
Com 54 países, a África possui 2092 línguas faladas, número correspondente a nada menos que 30% dos idiomas em todo o planeta. Além das duas mil línguas, estão presentes mais oito mil dialetos
A quantidade de línguas faladas na África supera provavelmente a de qualquer outro continente. O árabe é predominante entre as nações da costa do Mediterrâneo. Línguas derivadas do banto são faladas por grande parte das populações subsaarianas. Nos grandes centros urbanos de alguns países é comum adotar-se a língua dos antigos colonizadores europeus, como o inglês, o francês, o espanhol e o português.
Esse sentimento, que felizmente me tocou, tem vindo a obrigar-me, sobretudo nos últimos anos, a uma reflexão sobre o dilema ESQUECER E LEMBRAR!
Haverá contradição? Embora possa parecer…veremos que não existe! E a verdade é que, pela história, seremos eternamente confrontados – quer dicotomicamente, quer pela dialética – com esta questão!
Esquecer…não é matar a memória. Pelo contrário…é preciso dar vida à memória, para que não sejamos assaltados pela melancolia pesarosa ou por uma nostalgia perniciosa. É preciso perceber e aceitar os outros, aceitar a verdade dos outros e os avatares da história. 
E OUTRA COISA:- de África não nos chegam apenas “refugiados”!
Portanto…o desafio é este: por um lado, esqueçamos os filmes idílicos sobre África. Lawrence da Arábia, África Minha, Fiel Jardineiro, Amor sem Fronteiras, por exemplo. Esqueçamos livros como As Verdes Colinas de África, de Hemingway…Um Lugar Dentro de Nós, Adeus África, ou Uma Fazenda em África. E é sempre bom lembrar, por exemplo – reconhecendo o sabor a sangue e a ambição desmedida – outros filmes como O Senhor das Armas, Hotel Ruanda, Diamante de Sangue ou Crianças Invisíveis.
Em qualquer caso…Esqueçamos África, vista pelos olhos eurocêntricos. Mas, por outro lado, seja-nos permitido lembrar a busca do conhecimento propiciada pela era dos descobrimentos – recordando que se assinalaram recentemente os 600 anos do início da expansão. Podemos até lembrar Camões ou as missões científicas de Silva Porto, Hermenegildo Capelo ou Roberto Ivans uns séculos depois…mas esqueçamos, definitivamente, os Impérios de países europeus em África! Ou melhor, não deixemos de lembrar as atitudes menos próprias, as condutas erradas, indignas e violentas desses impérios – como o desenvolvimento da escravatura humilhante, por exemplo.
E não devemos deixar de lembrar, igualmente, os genocídios mais recentes do Biafra, do Ruanda ou do Darfur…
Numa outra perspetiva, e apesar de tudo, tenhamos sempre presente figuras como Santo Agostinho, Senghor, Wangari Maathai, Lumumba, Nyerere, Eduardo Mondlane, Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Aristides Vieira, Kaunda, Kenyatta, Selassiè, Samora Machel, Desmond Tutu, Nelson Mandela…De outro modo, não deixemos de lembrar – pelos piores motivos – nomes como Bokassa, Francisco Macias Nguema, Idi Amin Dada, Habib Bourguiba, Sékou Touré, Mobutu, Robert Mugabe…
Fundamental é que – sabendo que esquecer não significa o mesmo que varrer para debaixo do tapete – ainda assim é bom esquecer a África da Conferência de Berlim, em 1884/1885 – na qual 14 países redesenharam o Continente onde tudo terá começado, sem ter em consideração as fronteiras linguísticas e culturais estabelecidas. Antes dessa data, 80% do continente africano era dominado por chefes tribais. Basta recordar que, em finais do séc.XVIII, a “estrutura política” variava entre reinos, impérios, cidades-Estado, e outras linhagens de clãs e aldeias, resultado de inúmeros movimentos migratórios associados à sobrevivência, à religião, à cultura, ao poder e ao comércio. Mas bastou um século para se assistir a uma notável transformação do continente, fruto de uma expansão de modernidade com base em fatores exógenos – particularmente as armas de fogo, que alteraram significativamente os conceitos de estratégia militar e de ocupação dos espaços.
E nesse período houve até um reino/império…por onde passou o navegador e explorador Sancho de Tovar (que alguns identificam mesmo como espião!)…império que floresceu entre os séculos 15 e 18 – numa região banhada pelo rio Zambeze e cujo território hoje se pode situar entre o Zimbabwe e Moçambique – o Império de Monomotapa. De tão curioso – e talvez até pelas ligações que mais tarde se verificariam a propósito do Mapa Cor-de-Rosa – seria objeto de uma obra de Ana Maria Magalhães e de Isabel Alçada “ NO CORAÇÃO DA ÁFRICA MISTERIOSA”. Ouro e marfim foram as riquezas que elevaram e derrubaram esse império. Como outros casos inumeráveis.
E ainda hoje se encontram no topo das Relações Internacionais os problemas diretamente ligados à exploração das riquezas africanas – matérias-primas de caráter vital para muitas potências. Isto, apesar de – entre os 10 países mais pobres do mundo – 9 serem africanos. E de, entre estes, se encontrarem a Guiné-Equatorial e S. Tomé e Príncipe, países inseridos na área da lusofonia/CPLP e ambos com a palavra “PETRÓLEO” gravada na agenda mediática.
O caso é que, nos dias de hoje (pese embora o eterno acordo entre a CEE/União Europeia com os países designados como ACP), o pêndulo do relacionamento está nitidamente a desviar-se para a Ásia: - primeiro foi a China [que até criou há pouco mais de uma dezena de anos o Fórum de Macau para desenvolver as relações com os países «lusófonos»]…e agora, com muitos anos de atraso, está a ser a Índia a promover essa aproximação. Dois dos países BRICS a recentrar o eixo da política internacional.
A União Europeia, apesar da sua atenção/preocupação mais centrada em questões internas, no leste europeu e no próximo e médio oriente, vai tentando arrepiar caminho no que foi o seu afastamento dos problemas da África. E não só no que diz respeito aos “refugiados” ou Migrantes, apesar da recente tentativa de perceber, para resolver, esse complexo problema. Só dinheiro para os Estados Africanos não resolverá certamente. Por isso é que Federica Mogherini, [Alta Representante da UE para a política externa] diz que “o objetivo é criar oportunidades para as pessoas, proteger a vida das pessoas, lutar contra as redes de tráfico que exploram o desespero das pessoas e fazer tudo isto em conjunto”. Daí, o avanço das parcerias estratégicas.
Quero dizer eu…não impor, mas aceitar e adaptar regimes com a maior transparência possível e à medida de uma justiça universal, sem pretender ser donos da justiça ou de um conceito único de democracia. A isto chamo COOPERAÇÃO – uma atitude para a qual é fundamental rever os atuais paradigmas. Por isso, Podemos sempre incluir aqui inúmeras ideias.
Há sempre qualquer coisa de novo em África e uma aptidão constante para surpreender – diz o historiador Elikya M’Bokolo – ciente de que há muitas Áfricas.
         Apesar de tudo, apesar das imagens que nos chegam, esperemos poder continuar a ser surpreendidos. E no que diz respeito ao chamado espaço da África Lusófona – o que nos toca – continuemos a acreditar na Guiné-Bissau; reforcemos o pragmatismo de Cabo Verde; tenhamos esperança no “rio dos bons sinais” em Moçambique; não regateemos esforços relativamente a S. Tomé e Príncipe; olhemos convictamente para Angola…com Kizola (Amor) e com Kidielela (Esperança).
Segundo o Artigo 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.” Traduzido para Ovimbundu, é mais ou menos assim: - Omanu vosi vacitiwa valipwa kwenda valisoka kovina vyosikwenda komoko. Ovo vakwete esunga kwenda, kwenda olondunge kwenje ovo vatêla okuliteywila kuvamwe kwenda vakwavo vesokolwilo lyocisola.
E no princípio…o Senhor alimentou África, dando vida aos rios no continente: senegal, gâmbia, níger, congo, cuanza, kwando, cubango, zambeze, limpopo, orange, nilo…e plantou no mar as ilhas de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe, com muito sol. Lembrando a língua Xhosa de Nelson Mandela – NKOSI SIKELELE iÁFRICA (o que significa = Senhor, abençoai a África!). 
António Bondoso
Jornalista
Maio de 2017

2017-05-22

OBRIGADO NUNO...


NEM ABERTO NEM FECHADO…
…mas de espírito livre!
O meu lamento de ser pensante tanto serve para criticar a SAD azul e branca como para homenagear Nuno Espírito Santo – o homem educado e bem formado que se dispôs a transformar um plantel moribundo – e desequilibrado – numa equipa de futebol. E quase o conseguiu…embora sabendo que não havia dinheiro para jogadores de topo.  Na hora da partida, a SAD e o Clube deviam mostrar-se gratos. Mais que não seja, pelo sacrifício da tua carreira nas condições em que assumiste o cargo de treinador do FCP. Cometeste erros? Claro que sim. Mas a maior responsabilidade está a montante do teu trabalho. Que não deixou de ser excelente para uma época conturbadíssima. Obrigado Nuno. E sorte para o futuro.

Por outro lado, o meu tom amargurado [pois ainda não é o tempo de agonia], que agora manifesto, não tem exclusivamente a ver com eventuais danos colaterais próprios de uma vida marcada pela intensidade das circunstâncias de uma cidade apaixonada. E apaixonante. Não é só o meu clube que me intriga, não são os golos desperdiçados, não é a Câmara fechada, não é o azul e branco trémulo por uma vez. A mais azeda amargura relaciona-se diretamente – e sobretudo – com o cinzento da vida, com o retrocesso da esperança que nasceu há 43 anos. Porque foi bonito mudar, porque foi legítimo mudar, porque foi importante transformar, porque foi fundamental avançar! As pontes passaram a fazer sentido e daqui voltou a irradiar um forte sinal de vontade, de querer, de sentir a liberdade, de conquista. E sim…também o futebol foi nessa onda.
Mas os lugares do poder ficaram inquietos. E como sempre, bem cedo se dedicaram a estudar e a aplicar uma estratégia de regresso a um centralismo atávico, que tudo arrasta, tudo arrasa e tudo mata. Mesmo com a conivência de alguns lugares e de certos poderes locais, iluminados por uma fosca claridade de jogos egoístas, ambições mesquinhas, interesses desmedidos e concertados ou escorados em pessoas e organismos pouco recomendáveis. E tudo foi permitido, calando ou esbanjando. De um tempo bonito de abertura e de felicidade, pouco a pouco o país foi sendo coagido, chantageado, esmifrado dos valores da redenção de um Abril esplendoroso. E quase tudo se foi! Aos poucos fomos morrendo, amputados já de um frágil poder de decisão, mutilados nas convicções. E não foi o vento que quase tudo levou. Foi a fraqueza e a maldade dos homens vestidos de políticos, de juízes, de líderes de um qualquer organismo centralizado na capital. Qualquer que tenha sido a roupagem, do desporto à cultura. Depois da esforçada façanha para colocar um ponto final aos célebres “roubos de igreja”, voltou-se a um tempo em que a dignidade se pendura por uma perna e em que o caráter se enrola numa folha branqueada de princípios. Começa no Clube e na Cidade…e prolonga-se por 300 quilómetros. Voltamos a estar quase como a 24 de Abril de 1974, o Terreiro do Paço agoniza de pasmo, há um túnel da Alexandre Herculano até ao Jamor, os árbitros treinam inclinados e só se adaptam a certos campos, os ministros enviam telegramas de felicitações aos reformados que vivem abaixo do limiar da pobreza, A AR endeusa uma canção de um festival – embora internacional – a comunicação social está nas mãos e no pensamento de um pequeno grupo de iluminados e endinheirados. Não deixam que a televisão se veja, a não ser o que lhes possa parecer matematicamente favorável, não deixam que a rádio se ouça e se espalhe, a não ser a horas mortas ou de audiência moribunda.
GENTE SEM PORTE

Temos um país suspenso
Em agonia de morte,
É já a Lei que se rejeita
Por certa gente sem porte.
E sofre mais quem não suspeita
Que essa gente percebe
E até promove
Traição infame, desonra e dor.
===Pag.19 em O PODER E O POEMA.2012. Ant.Bondoso e Edições Esgotadas.
António Bondoso
Jornalista

Maio de 2017. 

2017-05-05


É preciso sentir e ter esperança. É preciso também conhecer as línguas dos outros que connosco se cruzaram. Uma vontade intemporal. 


E é pela língua que vamos…seguindo o rasto e os efeitos desse documento com mais de 800 anos – aceitando que a sua identidade plena se afirma e consolida a partir do século XV, com o desenvolvimento da expansão marítima. E vale a pena lembrar Fernando Pessoa e a presença do mar em D. Dinis: = Do poema ao rei Plantador – talvez o primeiro a projetar a aventura dos descobrimentos – diz o poeta da MENSAGEM: "É o som presente desse mar futuro, / É a voz da terra ansiando pelo mar".
Até chegarmos ao presente – vai havendo notícias de que a Língua Portuguesa é a 4ª mais falada no mundo, representa 17% do PIB em Portugal, está instalada em quase 8% da superfície continental da Terra, e o espaço dos países lusófonos significa já 4% do comércio mundial.
Pelo meio, como saberão, a Língua foi FRANCA – utilizada nos negócios, no comércio, não apenas na Europa, mas também e sobretudo no Oriente. Ombreou nos Sec. XVI e XVII com a língua inglesa …e chegou mesmo a ser falada na Corte do Reino do Sião – a atual Tailândia. Em sinal de respeito pelos 500 anos de relações diplomáticas, a Princesa Real Maha Chakri Sirindhorn, filha do rei da Tailândia visitou Portugal em 2012. Historiadora, educadora e música, foi embaixadora de boa-vontade da ONU para o desenvolvimento do Sudoeste Asiático.
Hoje, o português é a 6ª língua mais utilizada nos negócios a nível mundial e, no ano passado, estava em 5º lugar nos utilizadores da internet, com tendência para subir.
Mas a língua portuguesa foi também importante na China, servindo os portugueses como diplomatas nas relações entre os povos do sul (Cantão) e o norte (Pequim). Para além da Administração de Macau, por mais de 400 anos…a língua portuguesa é uma das línguas oficiais naquele território até 2049 (pelo menos no papel), e é hoje ensinada em mais de 30 Universidades Chinesas. É um sinal do interesse do colosso asiático na sua aproximação e expansão na África lusófona, no Brasil e na Europa – tendo mesmo criado há mais de uma década o FÓRUM DE MACAU para a CPLP.
Por outro lado, o português é LÍNGUA OFICIAL na União Europeia, na OEA – Organização dos Estados Americanos, na UNESCO – a agência para a educação e cultura da ONU, na União Africana…e o antigo 1ºMinistro da Guiné Bissau (Domingos Simões Pereira) chegou a dizer que já era altura de a língua portuguesa ser oficializada na UEMOA – a União Económica e Monetária da África Ocidental (um organismo quase exclusivamente francófono).
Lembro também que o português é a 2ª língua mais falada em Joanesburgo, na África do Sul; na cidade de Newark, em Nova Jérsia (EUA); no Luxemburgo e em Caracas, na Venezuela.
Podemos ainda dizer que a língua portuguesa é já utilizada em organismos desportivos internacionais, nomeadamente ligados às questões do controlo antidoping. O objetivo, agora, é que o idioma luso seja igualmente oficial nas Nações Unidas…mas há também outros dados importantes que por estes dias nos chegaram dos EUA e do VATICANO:
***** Nos EUA… os políticos luso-descendentes estão empenhados em criar uma rede que os una, formando um grupo de pressão. Será mais fácil defender Portugal em Washington – dizem. A FLAD (Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento) percebeu isso e criou pontes para que os políticos se unam, naquilo a que chama de "plataforma de diálogo". Ou…num inglês puro: o que designamos por lobby. Ainda não se conhecem consequências desta iniciativa, não sendo provável que o venham a ser nos próximos tempos, tendo em conta a eleição de Donald Trump. 
«Por outro lado, o Cardeal D. Manuel Clemente disse em Roma que seria "importante" uma maior valorização da língua portuguesa nos trabalhos das grandes reuniões de cardeais e da Santa Sé, "porque o português tem uma expressão grande na vida da Igreja".
D. Manuel Clemente sublinhou que a língua permite uma aproximação entre os vários cardeais lusófonos, que são agora 13, sete dos quais com direito a voto num eventual conclave.
O novo Cardeal português confessa que a nossa língua materna "ajuda muito" nos encontros entre prelados de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique e Cabo Verde, os países de língua oficial portuguesa com representação no novo Colégio Cardinalício da Igreja Católica.
"Quando falamos em português há muitas coisas que vêm ao de cima e que têm a ver com o nosso património comum".»
 “Parte do património comum da humanidade” – no dizer do Prof. Adriano Moreira; ou...como lhe chama o Prof. Moisés de Lemos Martins -  “o continente imaterial dos Oito”; ou ainda…como disse Amílcar Cabral – o idioma português foi a melhor coisa que os tugas nos deixaram!
Este espaço – este mundo da língua portuguesa – não é ficção política. Existe mesmo. É concreto e palpável. E incomoda, claro, a Francofonia e a Anglofonia.
E a sua construção é o desafio mais aliciante deste século no âmbito das Relações Internacionais …costumo eu dizer!

A língua é o cimento deste “espaço”…mas não basta saber falar ou escrever português. É preciso sentir e ter esperança. É preciso também conhecer as línguas dos outros que connosco se cruzaram. Partilhar uma vontade intemporal. 
António Bondoso
Jornalista


2017-05-01


É O TRABALHO EM LIBERDADE, É O TRABALHO EM DIGNIDADE!


É o trabalho.
Das nove às cinco ou de sol a sol – é o trabalho. Que dignifica, que sustenta, que faz mover o mundo em cada espaço que vive. E o trabalho é sempre trabalho, mesmo que seja temporário, mesmo que o vínculo entre as partes seja apenas parcial. O trabalho é um direito. O trabalho é uma responsabilidade das sociedades organizadas. Um Estado que não valoriza o trabalho…é, de certa forma, um Estado falhado. Tal como um Estado que se alimenta dos rendimentos de quem trabalha. Direta ou indiretamente. Suga, esmifra quem trabalha e o produto do feito. Foi desta circunstância que nasceu a expressão aquiliniana “Terras do Demo”. Os do fisco, de Lisboa ou a mando de Lisboa, só visitavam a “província” – nesse caso o interior beirão – vestidos com alma dos homens de fraque.
É o trabalho.
E que não se coloque o trabalho como oposição ao capital. Não é essa a questão como sabemos. O caso é a exploração desabrida do capital desumano, o problema está nesta globalização selvagem. Neste neoliberalismo que mata, mental e fisicamente. Explora, oprime e coloca o garrote na oportunidade mais certeira.
É o trabalho.
E que não se coloque o trabalho como oposição aos avanços tecnológicos. Essa é apenas uma parte da questão. Qualquer Estado de bem deve promover, ou ajudar a por em prática, a qualificação precisa para o equilíbrio sustentável. É o trabalho e a justa retribuição. É o trabalho em liberdade, é o trabalho em felicidade, é o trabalho…simplesmente. Tão importante como o ar que respiramos. E que seja um ar mais puro, o que vamos respirar neste 1º de Maio de 2017.
António Bondoso
Jornalista

2017-04-24

Foto de António Bondoso

ABRIL PODERIA TER SIDO EM MARÇO…ou de como os militares, em 1974, tiveram dificuldades em comunicar e se viram envolvidos num fogo cruzado de informação e de contrainformação, envolvendo oficiais oriundos da Academia e sendo outros milicianos. Mas o 16 de Março, garante Manuel Monge, não foi um engodo de ninguém e muito menos do PCP. A operação desencadeada pelo RI5, das Caldas da Rainha, tinha como objetivo primeiro reagir às anunciadas demissões de Spínola e de Costa Gomes pelo regime de Marcelo Caetano.
 Manuel Monge diz sentir mágoa pela situação fortuita que levou ao falhanço do 16 de Março, nomeadamente as hesitações dos Paraquedistas que – segundo ele – eram incapazes de desobedecer à cadeia de comando e que, por isso, não deveriam ter sido contactados. Foi um erro, diz o general Monge, apesar de as Ordens de Operações apenas incluírem os Paraquedistas numa situação de “reserva”. Mas garante que estava tudo preparado pelo Movimento dos Capitães, incluindo o empenhamento de Otelo e de Jaime Neves, por exemplo e de outros elementos do RI5 como Casanova Ferreira.
Para além do episódio com os Paraquedistas, Manuel Monge refere igualmente problemas de última hora com alguns dos militares do CIOE de Lamego que não puderam tomar parte na operação. No fim, acrescenta, acabou por assumir a responsabilidade juntamente com Casanova Ferreira, tendo sido presos na Trafaria. Foram libertados na tarde do dia 25 de Abril por uma unidade de Vendas Novas. Era para ter sido uma força do Batalhão de Estremoz, mas foi preciso desviar esses militares para ajudar Salgueiro Maia no Largo do Carmo.
Apesar de tudo, Manuel Monge não sente desilusão com a sequência do golpe de 25 de Abril, excetuando talvez o problema da descolonização, cujo obreiro foi Melo Antunes, num período difícil da Guerra Fria. Pior não era possível – diz o gen. Monge – que não se esquiva igualmente a criticar o que chama de infiltrações esquerdistas, nomeadamente da Marinha, cujo rosto mais visível era o de Rosa Coutinho e que “nunca fez nada para o Movimento”. Por outro lado, o já Movimento das Forças Armadas, apesar das tentativas de Spínola, não conseguiu arregimentar o poder interventivo da ONU, ao contrário do que viria a passar-se anos mais tarde com a sensibilização para a resolução do problema de Timor-Leste.
E sobre a União Europeia, o gen. Monge diz que a Organização sucumbiu atualmente aos interesses do grande capital e da Alemanha, notando igualmente que há uma gritante falta de líderes e de liderança.
A propósito do 25 de Abril de 1974, quero ainda deixar um excerto de uma entrevista que o Coronel Castro Carneiro deu em 2014 aos alunos do Instituto Multimédia do Porto Tomás Cazaux e João Farpa. Castro Carneiro, que aderiu ao Movimento dos Capitães em Angola, em 1973, foi o oficial encarregado de distribuir as Ordens de Operações do golpe pelas unidades da Região Militar do Norte (Lamego, Vila Real, Chaves e Bragança), a partir do CICA, no Porto. Nessa entrevista, aquele oficial confessa que o sigilo era fundamental. Nem a sua mulher sabia dos movimentos para que foi destacado.  

https://youtu.be/3GZPiKgRBqQ


António Bondoso
Jornalista
Abril de 2017.  







2017-04-20




DE UM TÍTULO VERGONHOSO…À VERGONHA DE UM QUASE LEVANTAMENTO DE RANCHO

Olá.
A propósito da escravatura e de uma intervenção do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, durante uma visita ao Senegal, houve por aí mosquitos por cordas no seio da corporação dos Historiadores – a quem um deles chamou um dia manipuladores do tempo – acusando o presidente de alinhar com a chamada excecionalidade portuguesa. Utilizaram mesmo o termo vergonha ou vergonhoso. Mais uma vez em causa o que os ditos classificam como mito do benigno colonialismo português, consolidado durante o Estado Novo e varrido para debaixo do tapete depois de Abril de 1974. Um dos subscritores da carta hoje publicada no DN diz até que, na escola, nunca ouviu falar de escravatura. Mas eu estudei história e sabia, independentemente de fazer ou não parte da cartilha. Além disso, não foi fundamental licenciar-me em História ou em Antropologia para perceber os contornos do processo esclavagista no qual Portugal participou ativamente.
         Olá a quem estiver a ler este pequeno texto. Nunca ouviram falar de escravatura? Egito, Roma, Grécia…diz-lhes alguma coisa? Nunca leram ou nunca ouviram falar dos escravos africanos que os colonizadores europeus traficaram para a Europa, para a América do Norte e para o Brasil? Nunca ouviram falar de Lisboa cidade negra no séc. XVI? E já foram visitar o Museu da escravatura em Lagos, no Algarve? Quem nunca ouviu falar do tráfico de escravos e da participação portuguesa nesse processo ou quem nunca ouviu falar do trabalho forçado nas ex-colónias portuguesas…levante o dedo!
         Não sei ao certo se as palavras do presidente Marcelo em Gorée, no Senegal, terão sido retiradas do contexto do discurso e em que medida! Por isso, compreendo que alguns intelectuais – em Portugal ou noutros países – se tenham sentido tocados pelo choque de uma eventual imprecisão. O que disse Marcelo? "Recordei que Portugal aboliu, pela mão do Marquês de Pombal, pela primeira vez, a escravatura, numa parte do seu território em 1761 - embora só alargasse essa abolição definitivamente no século XIX -, e que nesse momento, ao abolir, aderiu a um ideal humanista que estava virado para o futuro".
            Não é um facto que, em 1761, houve um decreto publicado? É. A lei não foi cumprida? Pelo que sempre se soube…Não! E quantas leis não são ainda hoje objeto de incumprimento em Portugal? Pouca gente liga ao que os académicos investigam e publicam? Na presente conjuntura é aceitável. Temos 500 mil analfabetos e provavelmente 3 milhões que não percebem o que leem. Somando os efeitos das crises económica e financeira, é natural que os portugueses tenham outras preocupações. Por exemplo não passarem dificuldades, morrendo de fome ou por falta de medicamentos.
         Nada tenho de pessoal contra qualquer dos intelectuais que assinaram a carta publicada no DN. Não os conhecendo pessoalmente, valorizo o seu trabalho, claro, sabendo embora quão subjetiva pode ser a análise e a interpretação dos documentos em arquivo. As verdades são de acordo com os olhos de cada um. E depois, há essa ideia de Eduardo Galeano sobre os intelectuais, que eu partilho de certa forma. Ele não se considerava um guru, nem um sábio, nem tão pouco um intelectual pois – dizia – “os intelectuais são os que divorciam a cabeça do corpo”. E a razão cria monstros, acrescentava. Por isso, enfatizava, “há que raciocinar e sentir, há que pensar e sentir, pois quando a razão se separa do coração, tudo começa a tremer”.  
Vem tudo isto a propósito de um texto da jornalista Fernanda Câncio, no Público, com um título que eu percebo mas não aceito. É verdade que tem impacto – por isso “vende” – mas o texto não retira toda a verdade às palavras de Marcelo. Por isso, a palavra vergonha…é, de facto, vergonhosa. Marcelo fez a sua interpretação de um tempo histórico. Como fazem, legitimamente, os subscritores da carta publicada no DN. Mesmo se um deles, num texto à parte, confunde tráfico…com tráfego!
Já não bastava o futebol…agora o nervosismo passou também para o campo dos investigadores/historiadores. Apesar de tudo, diz um dos subscritores da carta que Marcelo acabou por reabrir o debate sobre a matéria, o qual saiu do âmbito académico para passar às redes sociais. Por mim não reabriu coisa alguma. Aqui vos deixo excertos do que tive oportunidade de escrever já em 2005 em ESCRAVOS DO PARAÍSO. Obrigado pela paciência.
António Bondoso 






António Bondoso
Jornalista.
20 de Abril de 2017.