2017-02-13





A MINHA RÁDIO HÁ 50 ANOS.
Alguns dos que passaram…ainda me falam de Rádio.
“A Rádio é um instrumento de Liberdade porquanto é um apelo permanente à Criatividade”. - Isto digo eu. 

Houve um tempo em que, também em Portugal, se podia citar com orgulho o pensamento do publicitário Bob Schulberg: “Se a televisão tivesse sido inventada antes, a chegada da radiodifusão teria feito as pessoas pensarem: - Que maravilhoso que é a Rádio! É como a televisão, só que nem é preciso olhar!”
Encarar o futuro não pode deixar no esquecimento a importância do passado e, porque as incertezas são imensas, é preciso encarar o presente com muito realismo. Anunciada ciclicamente – televisão, internet, era digital – a morte da “rádio” tem vindo a ser adiada, não por milagre, antes pelo combate e pelo empenho na capacidade de adaptação aos novos tempos. E de muitos que ainda lá trabalham com empenho e com profissionalismo. Mas não bastam as novas tecnologias, não é suficiente “arrumar” tudo ou quase tudo no disco rígido de um moderno computador. É preciso que a rádio volte a estar com as pessoas e que tenha gente dentro! Que seja capaz de pensar e de refletir e que saiba provocar no auditório a capacidade de dialogar, discutir serenamente e reagir aos desafios.
Não basta que a evolução tecnológica aconteça e seja bem aproveitada. É fundamental dar-lhe conteúdo. E sonho!
Quando sinto e penso em todas as montanhas que ainda não subi; em todos os rios que ainda não naveguei; nas matas densas onde ainda não me aventurei; nos desertos secos de vida qua ainda não dessedentei; em todas as viagens que ainda preenchem os meus sonhos... e quando sei todos os sonos que ainda não dormi e em todas as madrugadas a que cheguei atrasado e não vi nascer o Sol para além do infinito que imagino – mesmo sem ouvir a Onda Curta a que me habituei no transístor Sony de nove bandas, companheiro de viagem sempre que saía do país em reportagem ou em férias.
         E neste ano…como recordo com emoção o início da minha atividade no Rádio Clube de S.Tomé e Príncipe em finais de 1967. À experiência, primeiro…com retribuição de 250 escudos depois, sempre subindo etapas, aprendendo diariamente com os mais velhos: Carlos Dias, José Maria Rocha, Victor Dias, Carlos Cardoso, Victor Nobre, Raúl Cardoso, Daniel Pinho, Manuel Sá, Firmino Bernardo, Mina Malé. Dois anos depois – e após algumas peripécias – chegava a Emissora Nacional. E novos camaradas que me foram passando conhecimentos, como Fernando Conde, Sebastião Fernandes, Guilherme Santos, Manuela Borralho e Maria Emília Michel. Alguns destes já passaram…mas, para mim, ainda continuam a falar-me de Rádio. Com serenidade, sem pressas – quantas vezes a pressa é má conselheira – com entusiasmo, com responsabilidade. E ouço, continuo a escutar. E muitas vezes não aprecio o que me transmitem. Melhor dizendo – a forma como me transmitem. Mas há momentos de consolo e de prazer. Felizmente ainda há alguns, que me chegam sobretudo pelo meu transístor. Ou no automóvel quando viajo.
Sem memória não há História! E depois, como dizia o jornalista “Sam Ridley” – investigador criminal na londrina City Radio[1] - “A rádio não depende de imagens, e essa é uma das razões porque gosto dela. O olho pode ser um órgão muito enganador”.
13 de Fev. de 2017
António Bondoso




[1] - NILES, Chris. OS MORTOS NÃO FALAM NA RÁDIO. Bertrand, 2003.

2017-01-22

DA ROÇA…
…de uma péssima ideia colonial a uma desleixada atitude de um país independente.
Percebe-se o sistema e a época…condena-se a violência e os efeitos.
Percebe-se a revolta e a libertação…condena-se a destruição do património e da história.



         Cidade-Estado ou um Estado dentro do Estado, a Roça desempenhou um papel crucial e secular na economia das Ilhas do meio do mundo, mesmo sendo evidente o mau espírito reinante: a ideia, o sistema, a propriedade, os objetivos, a prática, a brutalidade do trabalho serviçal, eram amenizados a espaços por força de circunstâncias incontornáveis. Como dizia Luís Cajão a Michel Laban, por exemplo:- E qual o meu espanto quando chego ao Rio do Ouro e vejo uma enfiada de palmeiras imperiais, uma casa digna de um príncipe, um comboio de bitola normal, música nas sanzalas, jardim zoológico para as crianças, um hospital – tomáramos nós na Metrópole, sei lá, nas Caldas da Rainha, na Figueira da Foz ou em Aveiro…ter hospitais assim, daquela categoria!”.
         Mas os ecos da Roça foram de tal ordem…que ainda hoje o tema reclama emoções diversas, contraditórias. Basta lembrar a poesia de Conceição Lima: Perguntam os mortos:/Porque brotam raízes dos nossos pés?/Porque teimam em sangrar/Em nossas unhas/As pétalas dos cacaueiros?/Que reino foi esse que plantámos?
         Ou a roça…«espaço físico e psíquico de homens-máquina, ao serviço da ganância de alguns que, longe, ostentavam a riqueza suja de um degradante sistema humano». Alda do Espírito Santo recorda Henry Nevinson que, em 1906, denunciava “o ignóbil trabalho escravo nas roças de S. Tomé e Príncipe, onde o cacau e o café atingem cifras consideráveis. Os nossos irmãos de Angola e Moçambique e mais tarde de Cabo Verde sofreram anos de aviltamento no inferno das roças das grandes Companhias Coloniais, com sede nas suas metrópoles”.
         Voltando ao relato de Luís Cajão a Michel Laban… “De Moçambique apareceram-me alguns em cumprimento de pena: iam cumprir pena nas roças! Tratei-os sempre a todos da mesma forma. Todos. Com o mesmo amor, a mesma ternura. Meu Deus, eu tive quando me vim embora, no aeroporto da ilha do Príncipe, trezentos trabalhadores e as suas famílias a dizerem-me adeus (…). Foram bem tratados: nunca ninguém os terá tratado melhor”.
         Os moçambicanos, recordou-me em tempos Victor Cruz, «eram trabalhadores extraordinários. Havia um que fazia a tarefa dele e a da mulher, por exemplo trinta buracos vezes dois para plantar cacau. Esse tinha ido condenado para S. Tomé (Colónia Açoriana) com uma pena de 12 anos. Na sua terra era guia de caçadores! O que o terá levado ao degredo foi eventualmente uma simples escaramuça, mas conseguiu regressar a Moçambique!».
         Mas os ecos da Roça não se esgotaram. Depois do mais completo estudo de Francisco José Tenreiro (1961) – para quem a roça «era a base de povoamento de toda a ilha», outros se seguiram mais recentemente. Por exemplo As Roças de São Tomé e Príncipe, de Duarte Pape e Rodrigo Rebelo de Andrade, com fotografias de Francisco Nogueira. E depois de alguns romances – como os coloniais de Fernando Reis [Roça], Sum Marky [A Ilha do Santo], de Rafael Branco já no pós independência [Makuta – Antigamente Lá na Roça] e em 2008 O Feitiço das Ilhas do Cacau, de Hermínio Ferraz… eis que agora se apresenta No Tempo Das Roças, de Francisco Assis Brito – um clérigo natural de Rio do Ouro, Guadalupe, onde nasceu em 1966. Segundo a sinopse a temática é idêntica, vista por outros olhos, mas “Deplora, igualmente, a desvalorização, destruição e abandono das ricas infraestruturas das antigas roças, que podiam ter continuado a contribuir para a beleza e o desenvolvimento dessas ilhas maravilhosas do Equador”.
António Bondoso
Jornalista
Janeiro de 2017




2017-01-11





MEMÓRIAS DE MIM – 1.

2017 não é um ano qualquer. Significa muito para mim.
E começa praticamente com mais um aniversário meu. O 67º! Que, não sendo embora um número redondamente perfeito, reporta a factos de boa memória.  
Há 50 anos…fazia eu mais um cruzeiro de sonho em oito dias no Atlântico…para tomar conhecimento mais profundo sobre este promontório onde habito hoje…
Há 50 anos…os meus pais ainda eram vivos. E depois dessa viagem de barco, com eles me encontrei em Moimenta da Beira, recebendo de presente da mãe um fio de ouro que ainda uso.
Por essa altura foi-me dada autorização paterna para fumar…
E o meu pai, se fosse vivo, completaria em Junho 100 anos! No dia seguinte ao “milagre de Fátima”.
Quando me lembro dele o que me vem à ideia?
No imediato a viola…e quando me levava pela mão ao Dramático para os ensaios de algum espetáculo (acompanhava no fado o guitarrista Pinto Falcão), e o futebol inevitavelmente (não só o FCPorto mas também o CDR de Moimenta da Beira, o Sindicato e o Andorinha em S. Tomé), o sentido de humor, o sorriso maroto…algum “temperamento” à mistura, claro. O árbitro era o principal adversário. Não deixa de ser uma herança que eu prezo.
Lembro-me de ter vivido ao seu lado, na praia de Diogo Nunes, a alegria – igualmente o sofrimento do que viria a ser conhecido como o caso Calabote – da vitória portista no campeonato de 58/59. E depois…toda a travessia do deserto que durou 19 anos. Mas felizmente ainda viveu para celebrar novos títulos e – o mais importante – ver o clube como Campeão Europeu.
E vem-me igualmente à memória a sua habilidade intacta de alfaiate, atividade que havia exercido na adolescência e em jovem adulto em Moimenta da Beira, antes de iniciar funções na Conservatória do Registo local – as quais viria a desempenhar na Conservatória do Registo Predial em S. Tomé, de 1952 até à data do seu regresso a Portugal em finais de 1974. Pois exatamente no arquipélago do Golfo da Guiné, quer na minha infância, quer nos primeiros anos da adolescência, o meu pai ainda era exímio naquela arte, nomeadamente na confeção de calças ou calções para mim. Por essa época usava-se muito o caqui.
Mas a “indumentária” não era, nesse tempo de adolescência, uma questão essencial. Uma simples t-shirt bastava, facilitando um reparador banho de mar em qualquer altura ou a permanente disponibilidade para um jogo de bola.
Há 50 anos…iniciava igualmente a minha atividade radiofónica em S. Tomé. E como ainda tenho presente os meus sprints na bicicleta do meu pai, quando saía das aulas no Liceu de D. João II para chegar à tabela ao Rádio Clube a fim de encerrar a emissão do espaço do almoço, exatamente às 14 horas. Gratificante essa experiência – sendo certo que acabaria por abraçar a carreira na então Emissora Nacional, em 1969, depois da transformação do Rádio Clube em Emissor Regional. Nem sempre com um sorriso feliz, pois logo no início houve uma crise de relacionamento com um elemento da “equipa de transição”, resolvida algum tempo depois. Tudo havia começado, contudo, ainda no tempo da Voz da Mocidade – através de um programa semanal. Uma equipa que recordo com saudade igualmente.
E agora – 50 anos depois – empurrado para uma aposentação antes do tempo, aqui estou neste Porto de abrigo, felizmente acompanhado pelo amor e pelo carinho indefetíveis da minha mulher, do meu filho e mais recentemente também da nora, escrevendo, escrevendo sempre, registando memórias que possam servir no futuro. E algumas amizades, claro, que fui cultivando ao longo dos anos. E que espero manter, na certeza de que o caminho se faz caminhando, nunca isoladamente. Há igualmente outros familiares a quem dedico amizade, uns mais perto alguns mais longe pelas circunstâncias da vida de cada um.
Tenho memórias, tenho esperança. Que o significado de 2017 se estenda e se aprofunde, permitindo atapetar uma estrada de vida ainda incompleta!
António Bondoso

Janeiro de 2017

2017-01-09


SEJA-ME PERMITIDO CHORAR…
…ou a dignidade de ser livre! 

A sensibilidade pode ser inata mas o carácter definidor de um ser digno e livre é percebido e alimentado, formado e enformado, baseado na instrução, na educação, na cultura e na tolerância, numa ideia consistente de justiça moral e social – valores conquistados ao longo da vivência de cada um. E tudo vale bem melhor quando se nos apresentam exemplos vivos que marcam profundamente.
         Mário Soares foi um dessas imagens inspiradoras. Que aprendi a perceber e a respeitar, sobretudo depois de compreender os diversos tempos da sua luta, numa análise desapaixonada da conjuntura – interna e externa –de cada época.
         Não tenho chorado muitas vezes ao longo da minha vida. Para além dos momentos particulares de tristeza quando perdemos a mãe ou o pai, ou até de alegria quando nasce um filho – comuns a qualquer ser humano – tenho vivido algumas situações propiciadoras de uma lágrima. Porém, chorar de indignação, de raiva ou de impotência não tem sido frequente. Aconteceu nos últimos cinco anos com a política dos cortes cegos nas pensões, que motivaram manifestações gigantescas de protesto no país – como eu supunha já não ser necessário – e verifica-se agora com o desaparecimento físico de Mário Soares. É sobretudo um choro de preocupação. Vai-se esgotando o reservatório de referências, não só em Portugal e no resto da Europa mas também no mundo.
         Mário Soares esteve sempre um ou dois passos à frente da realidade, antecipava o futuro. Como foi o caso destes mais recentes tempos de crise internacional que, inevitavelmente, se atravessaram no caminho do país. E depois, essa UE sem rasgo, sem liderança sem visão, amarrada a clichés de uma ortodoxia neoliberal altamente nociva. Mário Soares avisou, teceu críticas, sempre dois passos à frente. Foi um combatente excepcional pelas liberdades, correndo riscos por ideais em que acreditava. E um lutador até ao fim pelos valores fundamentais da humanidade. Ao contrário do que outros disseram, sou de opinião que não há momentos “infelizes” ou “absurdos” num combatente político. As convicções de cada momento podem causar dissabores, mas tudo se ergue no minuto seguinte…Foi assim com Mário Soares. Por isso é que eu digo e repito – preocupa-me o futuro. Obrigado Mário Soares pela liberdade de poder escrever este texto.
António Bondoso
Jornalista
Janeiro de 2017
        

         


2017-01-07

SOBRE MÁRIO SOARES…
…haverá sempre uma efeméride para celebrar, lembrando as lutas pela LIBERDADE!



         Sabe-se que Mário Soares não foi uma figura de relacionamento fácil e que preferiu sempre a frontalidade. Não deixou de alinhar em consensos – quando o país lhe pediu – mas foi sempre um homem de ruturas. Inclusive no interior do seu próprio partido e certamente na sequência das muitas dificuldades que atapetaram o seu percurso de vida, uma luta permanente pela liberdade – contra a ditadura! Por isso esteve preso, foi torturado, deportado e exilado. O que venho aqui dizer não é novo, talvez mesmo insignificante, mas fica registado mais uma vez.
         Dele ouvi falar em 1968, em S. Tomé, para onde foi deportado em Março desse ano sem culpa formada, depois de ter sido preso várias vezes. Ali, foi até impedido de dar explicações aos filhos do Secretário da Câmara, Aprígio António Malveiro, acontecendo que Maria Barroso foi igualmente impedida de exercer a atividade docente – como eu recordo no meu livro ESCRAVOS DO PARAÍSO (2005)


“Ninguém podia falar com ele porque a polícia não deixava, eu até tinha medo mesmo de ver a varanda de casa dele”, disse à LUSA (2014) Ângelo Carneiro, 76 anos, um dos poucos são-tomenses que conheceram de facto o então advogado oposicionista de Salazar. (…) Eu passava lá, era ainda no tempo da PIDE. Eu era jardineiro na casa de um branco que morava na marginal, perto do museu”, recordou Ângelo Carneiro. Com o passar dos anos ninguém ou muito pouca gente ainda se recorda de que Mário Soares viveu neste apartamento”, acrescentou.
O degredo, recordo ainda em Escravos do Paraíso, não mereceu a total concordância do então governador Silva Sebastião [que se avistava quase todos os sábados com Mário Soares], o qual achou a situação muito pouco própria – tendo em conta o elevado número de jornalistas estrangeiros presentes na Ilha, em consequência da trágica Guerra do Biafra.
         Um dos poucos brancos que mantiveram contacto com o ex-presidente foi Fernando Santos Mendes – mais conhecido por Fernandinho dos Angolares – um português de Viseu que foi para S. Tomé em 1952 e lá faleceu em 2013. A sua bisavó era natural de S. Tomé – Josefa Quaresma de Ceita – e os pais chegaram à Ilha nos primeiros anos do século XX. Fernando Mendes convidou Mário Soares para almoçar uma ou duas vezes e confessou-me não ter sido incomodado pela Pide.


Apesar de tudo, Soares teve a oportunidade de defender (pro bono) um funcionário da Alfândega acusado de desvio de bens. Um caso vulgar mas que, por toda a envolvência, acabou por ter grande repercussão na ilha. Julgamento de sala cheia, dizia-me o meu pai, que assistiu. E quando Mário Soares e toda a gente pensava na absolvição do réu, eis que a sentença produzida foi a condenação a 13 anos de prisão. Mário Soares, como eu escrevo em Escravos do Paraíso, nunca se havia sentido tão vexado na sua vida profissional, servindo-lhe apenas de consolação o facto de a sentença ter sido depois anulada pelo Tribunal da Relação de Luanda. Ficou, assim, patente aos olhos de todos, que a sentença tinha sido “dirigida politicamente” a Mário Soares.    


Foi com ele que a política se afirmou nos meus ouvidos e na minha consciência, sobretudo pela sua atitude e foi particularmente a sua combatividade que me motivou (ainda antes da Ala Liberal de Sá Carneiro e de Pinto Balsemão). Muitos anos depois tive o privilégio de o acompanhar na Presidência Aberta em Viana do Castelo (vindo-me à ideia o seu contacto com os pescadores e a simplicidade de um almoço informal de arroz de cabidela do qual não esqueço alguns pormenores curiosos); com ele me cruzei de novo em Macau, na inauguração do Aeroporto, e acompanhei a sua viagem a Tóquio, já no âmbito da sua presidência da Comissão Mundial Independente Sobre os Oceanos (1995-1998) que Mário Ruivo dinamizou por indicação da ONU. Mais recentemente, tive a oportunidade de lhe oferecer em Moimenta da Beira dois dos meus livros: "DA BEIRA! Alguns Poemas e Uma Carta Para Aquilino", o Mestre que ele admirou, como se sabe, e SEIOS ILHÉUS - como que uma recordação simbólica do tempo que passou em S. Tomé.



Mário Soares – um combatente pelas liberdades. E por isso foi escolhido para presidir à Comissão de Liberdade Religiosa no tempo de José Sócrates no cargo de 1º Ministro: "A vida pessoal e política de Mário Soares habilita-o a qualquer tarefa que tenha a ver com a liberdade e muito mais com a liberdade religiosa, que é um dos pilares das sociedades democráticas modernas”. MÁRIO SOARES respondeu: " Sou neutro em matéria de religião, mas reconheço a importância da religião e das Instituições Religiosas, particularmente no mundo conturbado de hoje, com o exacerbamento dos fanatismos religiosos. SOU AMIGO DE TODAS AS LIBERDADES"!
Um Homem a quem a Democracia Portuguesa e os portugueses ficam a "dever" uma importante quota-parte. Manuel Alegre, com quem se incompatibilizou nas presidenciais de 2006, acaba de classificar Mário Soares como “o construtor principal da democracia”.Como disse, nem sempre foi de relacionamento fácil. Apesar disso, outras figuras como o ex-presidente Ramalho Eanes dizem ter “uma grande consideração por Mário Soares enquanto batalhador pela democracia”, embora não tenha estima pessoal. Simultaneamente, embora possa parecer um paradoxo, foi um homem de afetos e cultor de amizades. E um homem de Cultura, muito à semelhança dos oito presidentes da Iª República. Que pensou o mundo e sobre ele escreveu muito, como se pode verificar pela extensa bibliografia. E que amou a Poesia e grandes Poetas – como é exemplo a seleção que José da Cruz Santos editou para o jornal Público. E esse poema para a mulher, Maria Barroso – trave mestra da sua estrutura familiar e cuja perda lhe terá acelerado o caminho para o final desta sua passagem. Poema escrito na prisão do Aljube em 22 de Fevereiro de 1962:
PARA TI, MEU AMOR
Para ti,
Meu amor,
Levanto a voz,
No silêncio
Desta solidão em que me encontro.
Sei que gostas de ouvir,
A minha voz,
Feita de palavras ternas e doces
Que invento para ti
Nos momentos calmos
Em que estamos sós.
Sei que me ouves
Agora
- Uma vez mais –
Apesar da distância
E do silêncio.
O amor,
Querida,
Opera esse milagre,
Simples,
Como tudo o que é natural:
Ouvir,
Bem no fundo do coração
As palavras não ditas
Mas sentidas;
Adivinhar,
Bem ao nosso lado,
A presença,
Insubstituível e certa
Do ausente
- Presença inconvertível
Em ausência,
Por maiores que sejam a distância
E o silêncio!
  
E depois há todo esse caminho que levou ao 25 de Abril de 1974 e à consequente descolonização – tardia e, sobretudo por isso, atabalhoada e traumática para os atingidos. É um tema complexo ao qual voltarei a dar especial atenção, tendo em conta particularmente o que vem sido dito e escrito – quantas vezes de forma mais emotiva do que racional, quantas vezes disparando em várias direções – com desconhecimento e com disparates, sem preparação de análise das conjunturas nacionais e internacionais nas várias épocas em perspetiva. Acusações infundadas e demagógicas a Mário Soares há de sobra. Só valem as que se reportarem à sua luta pela liberdade no seu país, contra a ditadura. Há muitas outras figuras de maior responsabilidade – como são Salazar e Caetano, que não perceberam o espírito do tempo; depois Spínola e Costa Gomes a juntar à Coordenadora do MFA. Como disse Melo Antunes – ideólogo maior do Movimento – “o processo de descolonização foi das coisas mais difíceis, mais dramáticas e mais trágicas que aconteceu em Portugal. Sei que se cometeram erros e assumo as minhas responsabilidades”.
António Bondoso
Jornalista
7 de Janeiro de 2017.














2017-01-01

NESTE PROMONTÓRIO...NADA DE NOVO!

Foto de Ant. Bondoso.

Acordo, estou vivo. Apalpo a moleirinha, belisco o pulso e dou comigo a ouvir um centenário comunicado do porta-voz da unidade hospitalar em que se transformou este imenso Portugal, este promontório mais ocidental da Europa.
         Ele é o vírus H3N1 – a ou b tanto faz – ele é a corrida às urgências, mas sem vítimas do terrorismo, para desespero dos pés de microfone, ele é os aumentos do gás e da água, do bilhete do elétrico ou do metro, dos combustíveis que fazem mexer a geringonça de cada um, ele é o IMI de um qualquer casebre virado ao sol e à praia, virado aos montes ou aos baldios que são do povo.
         Acordo e estou vivo. Não é preciso ser o médico a dizer-me, constato eu no alto da minha sabedoria. Mas há qualquer coisa que me escapa…apesar do latido faminto e sedento de um cão da vizinhança que aguarda a chegada dos donos que foram passar o ano fora. É que neste promontório mais ocidental da Europa nada mexe. Nem o vento nem a imaginação, nem as águas do rio nem o mar que sempre nos levou longe, nem os salários que fazem mover a economia. Ninguém se lembra dos anos de sacrifício, ninguém se recorda dos lamentos e das vidas destruídas. Nada de nada. Nada se mexe. Nem o futebol – agora que o tempo dos bons rapazes voltou ao Porto – nem a política em ano de eleições autárquicas, todos se vão acomodando ao saldo zero das contas de tantos bancos da nossa infelicidade.
         Acordo…e já não sei se estou mesmo vivo ou se apenas sobrevivo, acordo e não me sai da cabeça o som do porta-voz a repetir a estabilidade do coma profundo. É de facto este o estado deste promontório mais ocidental da Europa. Em coma e de corações gelados, apesar do fogo de artifício que foi estourando um pouco por todas as terras. Toneladas de estrelas que não minimizam a sobretaxa do IRS que muitos vão continuar a pagar, talvez até à venda definitiva do Novo Banco, sabe-se lá! E é o ano do centenário de Fátima, e é o primeiro ano de António Guterres como Secretário Geral da ONU apelando à Paz no mundo, neste planeta esventrado por guerras sucessivas e chorado por migrantes perseguidos e torturados.
         Acordo…e para meu espanto ainda cá estou. Felizmente rodeado por familiares e alguns amigos fiéis que entendem a força que têm a amizade e a solidariedade. Ainda cá estamos, apesar de não haver nada de novo. É preciso ser, é fundamental acontecer, cada um deve cumprir a sua parte.
Um abraço virtual e tudo de bom em cada um dos próximos dias.  
António Bondoso
Jornalista
1 de Janeiro do ano da graça de 2017.

         

2016-12-31

UM 2017 MAIS SERENO E MAIS SOLIDÁRIO.

Foto de Ant. Bondoso

Se a viragem do ano transportasse em si mesma o valor absoluto do bem-estar e da justiça, seria como que um momento perfeito da humanidade. 
Como tudo é complicado neste mundo habitado por humanos! Desde o início dos tempos sempre a pesar a vida e a morte, matar ou morrer, viver e sobreviver, a pobreza e a riqueza, a alegria e a tristeza, o belo e o feio, o mal e o bem, a felicidade e a miséria, o poder e a submissão, o pecado e a graça, a mentira e a verdade, a dúvida e a certeza, a traição e a lealdade, o amor e ódio, o perto e o longe.
Um 2017 mais sereno e mais solidário. 
António Bondoso

Foto de Ant. Bondoso

António Bondoso
Jornalista
31 Dez. de 2016

2016-12-22

NATAL - UMA QUADRA DE SIGNIFICADOS MAL PERCEBIDOS. A CRISE NÃO ACABOU...APESAR DAS MARATONAS AOS CENTROS COMERCIAIS.


QUANDO DECIDIRMOS FALAR DE NATAL…
FALEMOS DE JUSTIÇA E DE AMOR.

         De amor, seja o que for que entendamos pelo conceito: solidário, disponível, amigo, atento, presente, carinhoso, paciente, compreensivo, alegre, sorridente, ouvinte, confidente, partilhado, arejado.
Não me venham falar de Natal, quando a miséria, a pobreza, a desigualdade entre os indivíduos dos diferentes troncos da raça humana se acentua; não me falem de Natal quando os “donos disto tudo”, banqueiros e mercados sem rosto, somam cada vez mais às suas fortunas roubando o produto de quem trabalha e de quem já trabalhou; não me falem de Natal quando os jovens não têm futuro na terra onde nasceram; não me venham falar de Natal quando as migrações são cada vez mais forçadas por situações de conflito social, de guerra e de perseguições políticas – da Síria ao Sudão, da Líbia ao Iraque, da Sérvia ao Kosovo, da Albânia à Turquia, do Líbano a Israel, da Rússia à Palestina, do Paquistão à Índia, da Indonésia às Filipinas, da China ao Tibete, do México aos Estados Unidos, da Alemanha à Hungria, do Congo ao Chade, do Mali ao Iémen, da Tunísia ao Burquina Faso, de Angola ao Zimbabwe, do Brasil à Venezuela. Não me falem de Natal quando as crianças em todo o mundo são violentadas pela fome e pela escravidão.
Não me falem de Natal sem referir Justiça, sem lembrar o sacrifício de Jesus Cristo – esse mesmo cujo nascimento celebramos há séculos por esta altura, o que nada tem a ver com a figura do Pai Natal fabricada pela Coca-Cola – e do Papa Francisco que, com muita coragem e com muita persistência, nos tem devolvido alguma esperança e muita Fé.  
Não me falem de Natal, quando ver morrer jovens à porta dos hospitais começa a tornar-se moda, tendo por base cortes orçamentais absurdos. E dos mais velhos nem vale a pena falar, aumentando as situações críticas já mesmo à porta das farmácias – quando não, até da porta de suas casas. Não me venham falar de Natal quando os avós e os pais já não conseguem – em cada dia – fazer face ao desespero dos filhos. Não me falem de Natal, quando há situações diárias de pais e filhos desavindos. Não me venham falar de Natal, quando há escolas que não funcionam por falta de verbas. Não me falem de Natal quando a violência doméstica é cada vez mais comum; não me falem de Natal quando os vizinhos se agridem por uma flor de jardim ou por um arbusto saído; não me venham falar de Natal quando as alterações climáticas – resultado sobretudo das ambições desmedidas do “homem” – conduzem à morte do nosso planeta a um ritmo assustador.
         Não me venham falar de Natal apenas em Dezembro. 
         Falem-me de Justiça, de Cristo e de Consciências Iluminadas.
Enviei, aceitei e retribuí mensagens de Boas Festas. Sobretudo para os amigos que muito considero. Mas não me falem de Natal, quando percebo nesses gestos apenas uma circunstância de moda. Não me venham falar de Natal quando se consomem fortunas em decorações de rua e nas casas de cada um, apenas para umas horas de mesa e de companhia desfeita; não me falem de Natal quando o consumismo se concentra em figuras como a Popota ou como a Leopoldina. Não me venham falar de Natal, quando as compras e as trocas de presentes são a razão única de estabelecer um convívio de amigos e de famílias.
         Não me venham falar de Natal…por tudo isto!
         Falem-me de Amizade presente e desinteressada, falem-me de Justiça, dos verdadeiros valores do humanismo. O Natal é isto: Paz em todos os habitantes do planeta e amor – seja o que for que entendamos pelo conceito: solidário, disponível, amigo, atento, presente, carinhoso, paciente, compreensivo, alegre, sorridente, ouvinte, confidente, partilhado, arejado.

Dezembro de 2016
António Bondoso
Jornalista    


2016-12-20


OLINDA BEJA trouxe S. Tomé e Príncipe ao PORTO AFRICANO, ainda a decorrer no Espaço Quadras Soltas, na Rua de Miguel Bombarda. Ali foi apresentado o seu livro Á SOMBRA DO OKÁ, cabendo essa responsabilidade a António Bondoso. 

Foto de "Porto Africano"

Mais uma vez para falar de S. Tomé e Príncipe – como eu gosto de conversar sobre o país! – e, neste caso, de uma Mulher que merece todo o respeito e admiração pelo esforço que sempre dedicou ao seu país natal…mesmo quando as condições não eram favoráveis. 
                                          OLINDA BEJA!     
         Hoje, felizmente, pode dizer-se que (de alguma forma) o seu trabalho tem vindo a ser reconhecido. No seu país e internacionalmente. E até premiado!
Tem já publicadas 17 obras, para além de outros trabalhos na Alemanha e na Argentina. Basta percorrer a sua já longa e profícua bibliografia para saber. A AUTORA tem igualmente poemas e contos traduzidos para espanhol, francês, inglês, mandarim, árabe e esperanto.
Olinda Beja – e jogando aqui um pouco com as palavras, função que ela desempenha com m(a)estria – Olinda Beja é SOBEJAMENTE conhecida no mundo da escrita em língua portuguesa. Olinda Beja é a expressão acabada da Rosa dos Ventos de Almada Negreiros: não por acaso os sangues cruzados a sul e a norte, a ocidente e a oriente – Não foi por acaso nada de quem sou agora!
Acrescentarei apenas que OLINDA BEJA faz parte de um considerável “escol” de figuras de relevo na cultura do mundo lusófono…com nascimento nas Ilhas do Meio do Mundo – mais propriamente na Ilha de Nome Santo no seu caso – “escol” que vem de longe…se nos lembrarmos de Costa Alegre, Mário Domingues, Francisco Stockler, Francisco José Tenreiro, Manuela Margarido, Tomás Medeiros, Almada Negreiros, Viana de Almeida, Marcelo da Veiga, Vianna da Mota, Sum Marky, Sacramento Neto e Alda do Espírito Santo.
Segue-se uma longa lista de valores mais ou menos recentes, onde despontam Albertino Bragança, Armindo Vaz D’Almeida (recentemente falecido, tal como Armindo Aguiar, há dias desaparecido e encontrado morto em Lisboa em circunstâncias muito estranhas), Conceição Lima, Frederico Gustavo dos Anjos, Carlos Espírito Santo, Jerónimo Salvaterra, Aíto Bonfim, Rufino Espírito Santo, Inocência Mata, Lúcio Amado, Hélio Bandeira, Ludger Carvalho, Orlando Piedade, Goreti Pina, Osvaldo da Gama Afonso e Francisco Costa Alegre. 

Foto de Porto Africano

É neste “escol” que se destaca a produção de Olinda Beja. Particularmente na Poesia. Tudo o que escreve…tem um sentido, um toque poético. É uma Poesia contada, cantada e representada. E como Olinda Beja tem percorrido Portugal e o Mundo…cantando e representando o seu país natal! Como aconteceu e tem acontecido com este delicioso
                                       À SOMBRA DO OKÁ.
(já distinguido em STP com o Prémio literário Francisco José Tenreiro)
E não faço aqui esta referência apenas por acaso.
Vamos já perceber porquê…
Quem já tem um exemplar, certamente perceberá (ou vai perceber) – por entendidas e eruditas palavras/ideias dos vários prefaciadores – a qualidade literária de Olinda Beja.
A minha teoria, a minha leitura é outra:
Este livro é um sonho. Traduz um sonho….
Olinda sentou-se ali na cadeira (aquela mesma na capa do livro) à sombra do OKá…e sonhou! 

Foto de Porto Africano

E o livro é o resultado do sonho. 
No qual há prelúdios, certezas e dúvidas…e depois fragilidades.
Também angústias, claro, pois o futuro não é só esperança…
E dedicatórias igualmente, em cada uma agradecendo.
Permito-me referir a de Milé Veiga: - minha vizinha de infância e de jovem adulto…Ainda hoje nos tratamos por Família!
À Milé Veiga
lavraste searas de ausência em teu outro húmus
teu pranto vago e terno em começo de recordação
tempo afeiçoado ao gesto
à simetria de teu corpo cambuto e gracioso
deserto de sons e horas
e diásporas de sofrimento

teceste fios de púrpura na estrada de Água Arroz
altivos mamoeiros no quintal de tua espera
e de ti nasceram risos
e abraços
e mãos de acenos fugazes
e palavras esculpidas em folhas de andala
teu ilustre papiro.


Foto de Porto Africano
Por fim as intimidades….Que se prolongam!
E Quando se pensa que vai ser o final do livro…. Eis que as palavras brotam de novo num perfeito “encore”… com um bis citando Manuela Margarido.
E então, tudo – o Oká e as Ilhas – se funde na figura tutelar da MÃE. A mãe é o mundo. Muito mais do que em Almada (mãe passa as tuas mãos pela minha cabeça…ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado); mais do que em Tenreiro (Mai! Entre nós: milhas! Entre nós: uma raça! Contudo este livro é para ti…); e aqui em Olinda – (não mais te perderei nas margens do rio; havemos de recuperar mãe…podemos abrigar nossos sonhos à sombra do velho ocá/ onde sei que ficarão felizes os meus e os teus ossos…/o amor maior é o calor das tuas mãos nas minhas).
         Para Olinda Beja…Imensa é a ternura de nossos corações mestiços. Tal como mestiço é o coração de Tenreiro – ele mesmo o patrono do prémio agora atribuído a Olinda. O trajeto de ambos – desfasado no tempo, embora – tem algumas semelhanças, por exemplo a vinda muito precoce para Portugal. E depois, o longo afastamento da terra natal – mais o de Olinda Beja. Tenreiro não teve tempo – faleceu demasiado cedo. Pelo contrário…Olinda tem vindo a consolidar uma relação mais profunda com a terra, com as ilhas, com a mátria. 
         Talvez por isso a autora tenha conseguido assimilar melhor o sabor, o gosto pela cajamanga e pelo untué – podem crer que não é assim tão fácil – enquanto Tenreiro prefere colocar em poema a fruta  pão e a banana pão. 




Por outro lado, a maior longevidade de Olinda – felizmente – apresenta-nos, não direi um dilema, mas seguramente uma visão diferente da existência, com base numa famosa ave – o Ossóbô: - enquanto Tenreiro apresenta o Ossóbô como um cântico de vida (deslumbramento próprio de quem está de passagem, de quem não vive lá, embora sendo – ou então um sentido mais positivo da vida, um momento de felicidade!):
O OSSOBÓ CANTOU

A cavalo do vento
A chuva chegou.
A chuva chegou
E o ossobó cantou.

Cantou o ossobó
Seu canto molhado.
«Tchuva já vêo?
Já vêo si siô».

Já veio a chuva, Deçu mum
E é um estoirar de amor pelas grotas.
Té o ribeirão seco como mulher vazia
Se abriu gostosamente ao ribeirinho entumescente.

As águas lavam carícias de mãos.

Sob a folhagem amodorra a cobra preta
Enquanto o potro e o menino do engenho
Brincam e correm no terreiro os corpos molhados
Do canto bonito do ossobó.

Já vêo a chuva?
Já vêo si siô.
Não vêo não siô.
Ah! Já vêo que ossobó cantou!

A preta do meu amor pariu,
Pariu, meu Deus!, porque o ossobó cantou!

Olinda prefere dizer que o Ossóbô chora, cumprindo o que ela chama de ritual de pranto em nossas vidas. (TALVEZ uma certa amargura pelo tempo perdido – melhor dizendo tardio – no regresso à terra e ao convívio com a mãe e com os outros familiares de lá): - ou então, um toque de revolta pelos crimes ambientais – igualmente um tema central da sua luta:
chora o ossobô. Chove na floresta
molhadas ficam suas penas, suas asas
o canto repetido é memória de jaqueira
folhas escondidas em recônditos troncos

não mais prantearás o deslizamento do Contador
breve passagem na floresta da existência
relento de incertezas na música efémera do teu canto

chora o ossobô. Ritual de pranto em nossas vidas
enquanto se orvalha o corpo ereto das jaqueiras

Tenho acompanhado um pouco o percurso de Olinda Beja…
          Bô Tendê?, 15 dias de Regresso, No País do Tchiloli, A Ilha de Izunari, Água Crioula, Pé-de-Perfume, Aromas de Cajamanga, Histórias da Gravana…Mas este À SOMBRA DO OKÁ, com ilustração de capa de Teresa Bondoso, – e eu não sou muito adepto de comparações numa análise exclusivamente literária / cada obra é uma obra, tem os seus momentos, a sua ideia -  este À Sombra do Oká, dizia…é provavelmente o melhor livro de Olinda.
          Pelo menos aquele em que a autora assume definitivamente a sua profunda ligação com a terra. Plasmou-se aqui ontologicamente. De corpo e alma construiu como que um romance onde a narradora apresenta as personagens principais num quadro digno de Pascoal Vilhete.
          Assume toda a sua Sãotomensidão – como ela gosta de dizer:
“E agora não haverá mais sombras nos meus sonhos / ali ninguém mais se atreverá a negar-me o chão, a negar-me a mátria”.
          Finalizando…que a função já vai longa, direi só mais isto:
Conhecendo um pouco de Olinda Beja…estou mesmo a imaginar os seus gestos, dizendo ao Oká que já está pronta, pode vir buscá-la.
E remata:
Atravessa o livro
atravessa o livro e desata o meu olhar
e o meu grito e a minha errância e a minha dor
estende-me teu tronco, teus ramos, tua sombra(…)
(…) longo é o rio, longo e pedregoso,
maior, muito maior… o mar…

***** E é nele – Olinda Beja – no mar… que o som da ilha ficará ecoando, como diria Tenreiro.
Dezembro de 2016
António Bondoso

Jornalista