2020-06-14


SÉCULO XXI – PERSEGUIR A CURA.



SÉCULO XXI – PERSEGUIR A CURA.
Já passámos tempos de revoluções e contrarrevoluções, cumprimos regras e contrarregras, assistimos a golpes e contragolpes, soubemos de espionagem e de contraespionagem, ouvimos e vimos propaganda e contrapropaganda, participámos em manifestações e contramanifestações, lemos sobre ofensivas e contraofensivas, estudámos guerrilha e contra guerrilha, dissemos senhas e contrassenhas, percebemos a ordem e contraordem, falámos de peso e contrapeso, sabemos de terrorismo e contra terrorismo.  
A história da humanidade está recheada de exemplos.
E agora, infelizmente, no adianto de um século dedicado à luz e ao conhecimento, parece estarmos a voltar a um tempo de loucura e de contra loucura. Para o qual…parece não haver cura! Ou, pelo menos, alguns “iluminados” recentes procuram dificultar.
Mas a resignação não será certamente a solução. É fundamental e urgente reagir. Pela instrução, pela educação, cada vez mais pela instrução, sempre pela educação!



António Bondoso
Junho de 2020.

2020-06-05

DESCONFINAMENTO PROGRESSIVO…ou de como a alma tenta afugentar o medo instalado. 


Há dias em Angeiras, com o filho, depois em Lisboa com uma amiga de infância e novos amigos, e também na Régua com os pés de molho no Douro. O Aneto, já desconfinado e nos carris da estação por enquanto sem turistas estrangeiros, apresentou-se a este humilde cidadão com uma simplicidade rigorosa de acolhimento, uma simpatia contagiante e com uma arte gastronómica tipo «Michelin». Nem me dei conta dos condicionalismos impostos – e cumpridos – pelas regras sanitárias. 



         Tudo começou com os tradicionais acepipes e logo de seguida uma «salada de espinafres frescos, queijo chevre, nozes, mel e tomate seco». E não tardou muito apareceram um delicioso «folhado agridoce», c/queijo de cabra, fumeiros, compota e vegetais e um espetacular «rebuçado de alheira de caça», c/espinafre, ovo escalfado, creme balsâmico e sésamo. Tudo regado com vinho Aneto, claro. O repasto terminou com o café, está bem de ver, mas antes houve ainda tempo para saborear um recomendado «Pudim de Late Harvest c/Granizado de Citrinos».


          E felizmente – digo eu – tivemos a lucidez de tirar a máscara para poder desfrutar desta fabulosa refeição.
         Não vou atribuir notas, está bem de ver, pois não sou «chef». O molho para a salada consigo fazer…mas não passo disso. Nem me atrevo a estrelar um ovo. Mas apreciar…isso consigo!
         Parabéns a toda a equipa do Aneto. Na Régua. 




António Bondoso
Junho de 2020.

2020-06-01


Mais uma vez, neste dia, deixai-me ser criança. Melhor dizendo, deixai-me ter os sonhos de criança. 


É com eles que valorizo a minha velhice, é com eles que me revejo nos filhos que tenho, é com eles que prossigo esperando no futuro. Só fará sentido, esse futuro, se houver crianças…e se cada criança puder sonhar para além da sua condição de ser criança.
Estou cansado, como o cavalo de uma história interminável. Então – disseram – se o cavalo está cansado deve ir para a cavalariça. E é lá que estou, nos sonhos da criança que ainda sou. Deitado na palha acolhedora, à espera do final do sonho e do conto.
É que, quando eu era criança, não sabia a liberdade para além da Serra da Nave. Mas ainda criança…pude sonhar e viver a liberdade para além do horizonte da Ilha Grande.
E quando tu eras criança, pudeste receber a alegria de uma herança universal. Que ela possa perdurar.



António Bondoso.
1 de Junho de 2020.

2020-05-31


ESCREVER É LUTAR…ou de como, quem pensa e escreve, nunca poderá deixar de escrever. 


Escrever é fácil – diz Pablo Neruda. «Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio coloca as ideias». Não me atrevo a comentar, claro, mas dá-se o caso de haver exemplos de exceção. Como o de José Saramago…o escritor que brinca com a pontuação. Pensa ele que "Não há formação para se ser escritor. Passe por onde passe, o escritor é sempre um autodidacta. Quando se senta pela primeira vez e escreve as primeiras palavras, não lhe serve de muito ter andado na universidade, ou na outra, a que chamamos universidade da vida. Serve, mas não é por isso que escreve. Saramago dirá noutra ocasião que “escrever é lutar”!
E é sobretudo com este espírito que hoje vos deixo, farto do que chamam a treta da verdade desportiva, imensamente incomodado com a iliteracia, arrasado com a ideia feita de que o racismo se move apenas numa direção e com um único propósito. Cansado de desculpas esfarrapadas, arrasado com as «tiradas» demagógicas, esmagado com os roubos da alta finança, aparvalhado com os carreiristas à solta, zangado com a incompetência dos média e com a irresponsabilidade de muitos profissionais…apesar de tudo isso continuo a pensar e a escrever o que penso.
Que haja uma luz para alumiar as consciências.
Por hoje, ponto final parágrafo.



António Bondoso
31 de Maio de 2020. 

2020-05-29


De maio a maio corre o tempo.


Andam dias e semanas, voam meses voam anos, viajam minutos nas horas em ritmo de foguetão, passam figuras de proa bem junto do meu portão e não dizem que é perdido todo o tempo deste mundo.
Ganha-se e perde-se na corrida desta vida, borboletas elegantes em maratonas de flores transpiradas, esforço permanente das abelhas construtoras, cadenciado, de coração e sentimento estendido. Mas numa nave espacial o tempo parece suspenso. Talvez seja o tempo certo do tempo. Ou o tempo de uma criança pleno de imaginação, criativo quanto baste em tantas viagens no tempo.
O tempo salta como uma lebre, mais alto e mais longe, assim como no triplo salto do tempo no atletismo. O tempo ajusta-se aos capazes e impõe-se aos idiotas.
Que tempo este que vai passando por nós!



António Bondoso                                                                                     
Maio de 2020.   

2020-05-25


Salve 25 de Maio. Que venham dias bons para África! 




África. É o terceiro maior continente e o segundo mais populoso. Tem 55 países – sem contarmos com a República Árabe Saarauí Democrática, reconhecida por apenas 46 dos 193 países da ONU – e dizem ser o berço da humanidade. As suas imensas riquezas despertam, e despertaram ao longo de séculos, o interesse das grandes potências. Primeiro as europeias mas hoje sobretudo a China, a Índia e a Rússia e o Japão.
Entre o seu próprio e nada pacífico processo de arranjo interno, a expansão, o trágico e violento colonialismo, a trágica descolonização e as independências – muitas delas apressadas…vai um rio de séculos que desagua na constituição da OUA em Adis Abeba, em 1963, e na UA em 2002, com a Declaração de Sirte – na Líbia. O Dia de África, reconhecido pela ONU em 1972, celebra-se a 25 de Maio, dia em que foi criada a OUA no meio de um cenário de «guerra-fria» que dividia os países entre moderados (o grupo de Brazaville liderado por Senghor) e neutralistas ou de rutura com as antigas metrópoles (o grupo de Casablanca fortemente marcado por Nkrumah). À divisão entre os «Blocos» Ocidental e de Leste, depois da II Guerra Mundial, viria a ser acrescentado o Movimento dos Não Alinhados, nascido em Bandung, em 1955.
No meio deste turbilhão do relacionamento Internacional, a criação da OUA viu-se confrontada com a premência de resolver, no imediato, os problemas da «crise» no Congo e a «guerra» na Argélia. Convenhamos que o panorama não era propriamente animador. Mas…o caminho faz-se caminhando! E caminhou-se bastante. Já lá vão quase seis décadas desde o aparecimento da OUA, cinco delas praticamente em período de pós independências.
De tudo isto se falou um pouco numa aula aberta da Universidade Sénior Rotários de Matosinhos, ao início da tarde deste Dia de África. E cumprimentámo-nos em Kimbundo – uma das 2.092 línguas faladas no continente acrescidas de 8 mil dialetos: - MWANYO NGANA, um sonoro «boa tarde» a ecoar online e a dispor bem os intervenientes que saúdo de novo com muito respeito.
E falámos ainda das preocupações que nos apresenta este tempo e de um futuro desafiante. Por exemplo, dessa chamada de atenção de uma carta aberta de 27 líderes mundiais, patrocinada pela Fundação Kofi Anan, na qual se alerta para os perigos que rondam muitos dos países democráticos africanos a coberto da pandemia Covid-19. O título da «carta» é exatamente esse: “Democracy must not become the silent victim of the coronavírus pandemic”.
Um outro desafio que se coloca é a pobreza maior que se anuncia, sabendo-se que as perdas da economia africana, calculadas pela ONU, devem situar-se nos 100 mil milhões de dólares. Uma das saídas apontadas é o aumento da autossuficiência, sendo fundamental recorrer-se ao incremento do comércio interno – pois não é expectável colocar em equação apenas as ajudas externas em tempo de crise global. Por outro lado, é certo que as três maiores economias do continente – Nigéria, Egito e África do Sul – não poderão ser a única tábua de salvação.
NKOSI SIKELELE iÁFRICA – Senhor abençoai a África – na língua Xshosa de Nelson Mandela.
Que venham dias bons para África!
António Bondoso
25 de Maio de 2020.

2020-05-22


Autor. Como diz o «dicionário»: 1- escritor; 2 – criador de algo; 3 – responsável por um ato. Autor, portanto, não se refere exclusivamente a escritores. O «criador», sim, será sempre um (o) autor. Comum aos três exemplos…a responsabilidade. E como eu gostaria que a responsabilidade fosse, de facto, intrinsecamente comum. Infelizmente sabemos que não é. Contudo…e aproveitando a onda das consequências deste tempo conturbado e perturbador, faz sempre bem uma reflexão. E assim, dou valor ao inquérito que hoje se inicia a propósito do jornalismo. 


Cartaz da Editora "Edições Esgotadas"

Segundo um e-mail que me foi enviado pela CCPJ…«Há perguntas que, por vezes, nos esquecemos de fazer quando todos os dias procuramos notícias sobre o Coronavírus e os efeitos económicos e sociais do estado de emergência. Quais os efeitos da crise sobre os profissionais que todos os dias têm por função recolher e tratar a informação? E que efeitos isso poderá ter na qualidade das notícias que recebemos?
Para ajudar a responder a estas questões, a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ), o Sindicato dos Jornalistas (SJ)  e a Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação (Sopcom), juntamente com os centros de investigação das Universidades de Coimbra, de Lisboa e do Minho estão a lançar um inquérito dirigido a todos os detentores de título profissional de jornalista, a decorrer a partir de hoje e até 8 de junho.
A resposta a este inquérito deverá permitir obter um retrato socioprofissional dos jornalistas, analisar os efeitos da Declaração do Estado de Emergência na sua situação laboral e perceber que questões ético-deontológicas os profissionais do jornalismo identificaram como problemáticas no contexto da cobertura crise sanitária.
Este estudo é importante para fazer o retrato da situação atual dos jornalistas. Pretende-se reunir informação útil e rigorosa para instruir eventuais políticas e estratégias públicas de intervenção no setor, tanto em matérias de natureza laboral como de promoção da qualidade da informação».



É interessante, mas parece-me que as entidades referidas poderiam ir um pouco mais longe no sentido de saber qual, onde e como os ditos «profissionais» absorveram a sua formação. O debate subsequente seria certamente mais enriquecedor.
         Por outro lado, voltando ao autor e à sua obra, recordo um excerto de um pequeno texto que escrevi em 2014 – estávamos em tempo de outra crise, era um espaço de atuação da «Troika»:
«Escrever faz bem à saúde é melhor do que a dieta contorna a depressão e não engorda nem sequer conduz à beira do abismo como infelizmente vamos sendo confrontados particularmente em tempos de crise quando há pais que não se alimentam e muito menos podem cuidar dos filhos a não ser que estes ainda tenham acesso às sobreviventes cantinas escolares uma das situações agravadas com a política de cortes cegos desenvolvida por um desgoverno incapaz e patrocinada por uma troika que apenas responde aos donos do dinheiro senhores da alta finança relegando o primado da política para segundo plano e por tudo isto é que eu escrevo pois denunciar os males da sociedade em que vivemos – quando acontece termos vontade de viver – é fundamental é um direito de cidadania é um dever de participar na vida coletiva é um ato de coragem perante a adversidade que nos atinge todos os dias e faço agora um ponto final para poder respirar…».
António Bondoso 
Maio de 2020.    

2020-05-09


Esta UE – União Europeia – chega sempre atrasada às grandes decisões. Ainda não morreu mas parece ir na direção do precipício. Doente, quase prostrada, não consegue arranjar a vacina para debelar o mal, preferindo antes o egoísmo de alguns em prejuízo do todo. 

Das ideias de Schuman e mais tarde de Jacques Delors, desapareceu o essencial – o esforço solidário para consolidar a paz. Não foi dignificante o que se permitiu na última crise financeira relativamente à Grécia, à Itália e a Portugal. Os agiotas do Norte contra os pobres do Sul. E agora, em tempo de pandemia, o vírus vai consumindo ideais. Até o símbolo do cartaz para assinalar os 70 anos da Declaração Schuman se pode prestar a sorrisos amarelos: a posição das mãos, em vez de apertadas em sinal de regozijo, mais deveriam parecer as de Pilatos, a lavá-las de acordo com as diretrizes da OMS.

Como se pode assinalar o «Dia da Europa» com tanta incerteza, com hesitações permanentes, com divisões perniciosas, com falta de liderança, sem visão estratégica? Quando nasceu, a seis, a ideia fundamental e urgente era a paz, como lembrei. Depois o desenvolvimento. Mais tarde a liberdade, a tolerância, a solidariedade e o Estado de direito. Agora, a 27 e com o Ato Único ferido nas asas, alguns destes pressupostos desapareceram ou estão em vias de. Melhor fora eliminarem as estrelas da bandeira da União e passar a utilizar apenas uma outra com o símbolo do Euro. Talvez e apesar de tudo – como diz Maria João Rodrigues – a Europa ainda seja possível. Mesmo que seja seguindo a pista dos cafés de Steiner, como recordei há uns anos:
        «A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. […] Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da ‘ideia de Europa’»
GEORGE STEINER, 2005.
Se esta ideia de Steiner fosse a única – e determinante – não haveria dúvidas de que Portugal se encontraria na primeira linha da construção europeia. Temos, de facto, uma cultura de “cafés”, quer seja numa grande cidade, quer seja na mais recôndita aldeia do interior. Mas só isso não basta. Todo o processo foi e é muito mais complexo e para o qual o povo não foi consultado. O que, em boa verdade, agora já não importa. Decisivo, seria ter, apresentar, defender e liderar uma visão estratégica de futuro. Que também passa por uma cidadania percebida e assumida…e sobretudo ouvida! Valha-nos o Parlamento Europeu, onde reside a legitimidade. E o cartaz é elucidativo.
António Bondoso                                                                     
9 Maio 2020. 



2020-05-05


LÍNGUA PORTUGUESA É MESTIÇA E TRANSPORTA VALORES...ou de como, velha de séculos, conseguiu impor-se no concerto das nações, sendo hoje reconhecida pela UNESCO que, em Novembro de 2019, ratificou em Paris o dia 5 de Maio como o seu Dia Mundial. Celebramo-lo este ano pela primeira vez, facto que merece uma nota particular para lembrar – como diz Adriano Moreira – que «a língua não é nossa. Também é nossa»! Exatamente porque ela se expandiu, chegou a ser «franca» no Oriente, mas também pela razão de ter recebido muito de línguas de outros povos com que nos fomos cruzando.
Por isso, a língua portuguesa é hoje ensinada em cada vez mais países, é falada oficialmente em nove e em quatro continentes e é talvez a quarta mais utilizada no espaço da Internet. É, ainda, a língua oficial de 260 milhões de pessoas e a mais falada no hemisfério Sul. 


No meu livro LUSOFONIA E CPLP – DESAFIOS NA GLOBALIZAÇÃO[1], Adriano Moreira diz que «a língua nunca é neutra, nunca é um instrumento neutro, seja ela qual for. A língua transporta valores. Simplesmente acontece que a língua portuguesa, a meu ver, tem mistura de etnias. Também é mestiça”!
Neste aspeto da irradiação global, quero também destacar o Professor Joel Mata, nas suas “Lições de História da Cultura Portuguesa”, quando escreve que «…nos podemos orgulhar de ver, por exemplo, Camões traduzido nas diversas línguas europeias mas também em chinês e em japonês». E Joel Mata destaca ainda o «desafio» de Jorge Borges de Macedo, sobre a cultura portuguesa, dizendo ser imperativo refletir sobre a situação da Lusofonia «oficial», mas também ser “preciso chegar às pequenas comunidades dispersas e perdidas nos confins de outras culturas, mas que, até agora, ainda não sufocaram definitivamente a influência portuguesa nos seus costumes e no seu vocabulário”. É o caso de Malaca, tenho repetido incessantemente.



[1] - Edições Esgotadas, 2013. 


Voltando ao meu livro sobre a Lusofonia e à mestiçagem considerada por Adriano Moreira, lembro esta língua tão mestiça e tão rica como a que José Craveirinha utilizou poeticamente na sua «Fraternidade das Palavras», em 1974:
O céu     
É uma m’benga
Onde todos os braços das mamanas
Repisam os bagos de estrelas.
Amigos:
As palavras mesmo estranhas
Se têm música verdadeira
Só precisam de quem as toque
Ao mesmo ritmo para serem
Todas irmãs.
E eis que num espasmo
De harmonia como todas as coisas
Palavras rongas e algarvias ganguissam
Neste satanhoco papel
E recombinam o poema.[1]



[1] - m’benga = pote de barro; mamanas = mulheres; ronga = dialeto mais meridional do grupo linguístico banto tsonga. É falado numa pequena área que inclui a cidade de Maputo; ganguissam = namoram; satanhoco = uma coisa que não presta.

        Por outro lado, será bom lembrar que – já em 2009 – um estudo do ISCTE, também citado nesse meu livro, dizia que o valor da língua portuguesa representava aproximadamente 17% do PIB. 

António Bondoso
5 de Maio de 2020


2020-05-02

A QUINTA VAGA…ou a urgência de uma Nova Ordem Internacional, solidária e justa, que responda ao apelo de Aldous Huxley à consciência dos homens – nesse “Admirável Mundo Novo” – num tempo em que se multiplicam as ameaças à humanidade.


E também podemos aprender com essa “Quinta Vaga” de Rick Yancey, de 2013, mesmo que não tenha muito a ver com a situação pandémica que o mundo hoje vive. Entre a ficção científica alienígena do livro – e posteriormente do filme – e este real vírus SARS COV 2, ainda não totalmente estudado, serão sempre exagerados os pontos de contacto que queiramos encontrar. Contudo, não podemos colocar à margem concretamente a «terceira vaga», que trata precisamente do tema da contaminação – aqui talvez se possa enquadrar esta pandemia da Covid-19 – e por fim a «quinta vaga» que tem a ver com a resistência dos humanos à invasão dos alienígenas. Numa comparação simplista, diremos que é a fase em que vamos entrar agora – quando a vida começar a ser retomada, aos poucos, depois de um longo e forçado confinamento que destruiu um dos mais fortes sinais da nossa sociabilidade, o convívio entre os seres humanos. Só que essa resistência se apresenta com armas diferentes das do livro e do filme. Em vez de armas lutamos com a ciência e pela ciência. Em busca de uma vacina tranquilizadora, à procura de um tratamento eficaz para a doença.
         Em qualquer caso, nada será como dantes e, ao contrário dos slogans propalados, não vai ficar tudo bem! Teremos que nos adaptar a novas atitudes na vida social, a novos tipos de comportamento no trabalho, e a um novo olhar para e sobre o «outro», sobre os outros. Sob pena de um enorme retrocesso no que respeita aos «direitos humanos». Há um terreno mais fértil para os avanços do racismo e da xenofobia, quando sabemos de problemas com Africanos na China e com muçulmanos na Índia, ao mesmo tempo que conhecemos casos de revolta social e laboral na Rússia, para além de uma atroz violência contra os presos nas cadeias do Equador. Em Portugal temos assistido a atos violentos em supermercados e em transportes públicos, e não será novidade por esse mundo fora o relato de casos de violência doméstica. Portanto, podemos dizer que – ou se cura a «doença» provocando uma rutura nas instituições da governança mundial, ou a «doença» acabará por arrastar a humanidade.
         Preenchendo este cenário, quase poderemos falar da urgência de uma Nova Ordem Internacional focada na justiça e na solidariedade…ou então assistiremos provavelmente ao início do «Fim da História». Não semelhante àquele que foi previsto e anunciado por Fukuyama há uns anos, mas ao fim das relações humanas tal como as conhecemos até há poucos meses.
         O capitalismo selvagem, encimado pelas grandes multinacionais e a coberto de instituições que deveriam ser justas e credíveis como o FMI e BM, não pode ter lugar nessa NOI, não pode continuar a ser gerador de pobreza e miséria, conduzindo – inevitavelmente – a novas pandemias. Esta, do SARS-COV-2, é apenas mais uma. Com um impacto rápido e violento. Mas continuamos a assistir a muitas outras que vão matando de forma brutal, embora lentamente. 


E essa Nova Ordem Internacional (que mencionei há dias numa atividade da Universidade Sénior Rotários de Matosinhos) deve conter uma urgente reforma da ONU, quer valorizando agências como a OMS, o PNUD e os Refugiados, quer reestruturando o Conselho de Segurança: eliminando o poder de veto e do duplo veto dos atuais «cinco», tal como admitindo novos membros – nomeadamente a África do Sul, a Alemanha, a Austrália, o Canadá e a Índia. Gostaria muito de incluir o Brasil, mas a atual deriva do país não o permite.
         Sabemos que as relações entre os Estados são movidas sobretudo por interesses, mas também sabemos que ninguém vive sozinho. O multilateralismo e o «Poder inteligente» são cada vez mais necessários. Como referiu há dias a antiga Secretária de Estado americana Madeleine Albright, é preciso mais cooperação e menos nacionalismo exacerbado. Uma globalização cooperante e humanizada.
         Esta deve ser a «Cruzada» dos nossos tempos, contra os agiotas dos mercados e dos donos do dinheiro. A favor das Pessoas!


António Bondoso
Maio de 2020. 


2020-04-27

A pandemia da covid-19 é um desafio em busca da criatividade para ser uma editora diferente, uma editora do mundo. «Edições Esgotadas» tem sede em Viseu e, segundo a diretora Teresa Adão, estar no interior é hoje a menor das preocupações. 


A editora, que celebra neste abril dez anos de vida, com mais de 500 títulos publicados, mereceu já a atenção da TVI com um convite para participar na gravação de uma novela, a qual viu as gravações interrompidas por força da crise sanitária.
         Este problema interrompeu igualmente, mas de forma temporária, as encomendas de Itália – uma ligação que vai sendo retomada aos poucos, para além da cooperação com a França, Espanha e com o Brasil.
         Respondendo a algumas questões deste blogue «Palavras Em Viagem», Teresa Adão afirma que «Ninguém fica financeiramente rico a editar livros, o que interessa mesmo é o prazer da equipa e semear cultura, para além de se darem ao luxo de editar os livros em que acreditam»:
AB - Continua a ser uma aventura de risco manter uma Editora em Viseu - região de uma interioridade acentuada!?  
TA - «Neste momento, não pode dizer-se que os problemas tenham muito a ver com a interioridade. Creio que as editoras estão todas no mesmo "barco". Necessitamos de empreendedorismo, estratégias e criatividade. Não podemos parar, nem deixar-nos abater pelas dificuldades. Tem de haver um caminho, basta sermos pró-ativos e marcarmos pela diferença. Consideramo-nos uma editora do mundo. Aliás, as redes sociais são uma boa ajuda para combater a interioridade. Os nossos autores do distrito não chegam a 40% do total de pessoas que escrevem connosco. No ano passado, fizemos uma apresentação em Paris e temos os nossos livros distribuídos em Espanha, no Brasil e em Itália. Temos autores nossos traduzidos noutros países e já editámos autores moçambicanos, brasileiros e norte-americanos. Só não temos mais expressividade na lusofonia, porque há problemas de vária ordem que impedem que os autores sejam mais divulgados.  No início de 2020, fomos convidados pela TVI para participarmos com os nossos livros, numa novela em que entra uma editora. As gravações encontram-se interrompidas pela situação de confinamento a que temos estado sujeitos. 
AB - As temáticas editadas são de uma enorme variedade. Essa abertura é para manter...Ou seria preferível, nestes tempos conturbados, limitar as «coleções»? 
TA - Em princípio, as coleções são para manter. Não há necessidade de reduzir a oferta. Temos áreas bem balizadas e categorizadas, bem como projetos e parcerias com algumas universidades. Hoje, mesmo, lançámos o primeiro livro de uma coleção de Serviço Social, coordenada por um professor do ISCTE. O livro técnico/científico engloba áreas pragmáticas, ajudando alunos, investigadores e curiosos com obras de pertinência e atualidade irrefragáveis. A poesia, por exemplo, é uma área pela qual os nossos livros são conhecidos além-fronteiras. No campo do livro infantil, estamos também na linha da frente, com as histórias personalizadas, em que as pessoas escolhem as características, os nomes e outros pormenores das personagens e da narrativa, podendo fazer agradáveis surpresas às crianças, ou ainda, com os livros em Pop up e para construir e montar, destinados aos mais pequenos.
AB - nem sempre um «bom livro» é recorde de vendas! Para vós, edições esgotadas, quais são os aspetos mais determinantes para prever o sucesso? Claro que tudo isto é do domínio da subjetividade! Além de que não se fazem sondagens para captar o gosto do público leitor. 
TA - Sendo nós uma editora independente, podemos dar-nos ao luxo de editar os livros em que acreditamos, mas não nego que, nem sempre, aqueles que têm mais qualidade são os mais vendidos. Já temos tido algumas surpresas. Atualmente, vamos percebendo os gostos do público com tiragens mais pequenas e reeditamos sempre que se justifica. Dessa forma, fazemos jus ao nosso nome Edições Esgotadas e não corremos o risco de ficar com os livros parados no armazém. Na medida do possível, tentamos conciliar os livros mais vendáveis com aqueles cuja qualidade a nossa comissão científica atesta, embora saibamos, de antemão, que não vão encontrar eco imediato em todos os tipos de público. Ninguém fica monetariamente rico a editar livros, mas é uma atividade que dá muito prazer à nossa equipa, porque percebemos que estamos a semear cultura, a despertar leitores e a contribuir para disponibilizar às pessoas uma forma de partilharem mensagens com as quais intervêm na comunidade, perpetuando saberes e patrimónios». 



Edições Esgotadas, uma editora de Viseu que acaba de celebrar 10 anos de vida (11 de Abril) e da qual eu sou um dos autores, estando a ela ligado já por quatro títulos publicados: O PODER E O POEMA (2012); LUSOFONIA E CPLP (2013); O RECOMEÇO (2014) e TERRA DE NINGUÉM (2019).
António Bondoso
27 de Abril de 2020




2020-04-22

DE DOR EM DOR, e continuando a «cozer o seu arroz na sua panela» …a Guiné-Bissau «caminha com e como todos, para o futuro». Mas, «Imaginemos que o país se encontrava sem Chefe de Estado neste quadro de pandemia…». É também assim, com esta frase, que Ernesto Dabo entende justificar a complexidade da situação política na Guiné-Bissau, revelando que, «Manter a situação de vazio de poder na presidência, isso sim, poderia levar a consequências de imprevisível gravidade». 



Ernesto Dabo, que é um veterano da luta de libertação da Guiné-Bissau e Cabo Verde e foi um alto quadro político guineense, quer no PAIGC, quer ao serviço do Estado, disse a este Blogue «Palavras Em Viagem» que, na sequência das recentes eleições para a Presidência da República, não houve “golpe de Estado. E justificou: “O empossamento do candidato reconhecido vencedor, aconteceu nos moldes em que aconteceu, porque a postura do candidato derrotado tinha por objetivo agir de forma dilatória, na esperança de conseguir uma saída favorável aos seus interesses”. E para reafirmar a sua convicção, Ernesto Dabo esclarece: “Admito que esta questão possa parecer um golpe de Estado, mas mesmo que alguém o consiga provar, direi que o apoiaria como apoiei o 25 de Abril”.  
O meu contacto com esta multifacetada figura guineense – poeta, escritor, cronista, dramaturgo, fotógrafo, ativista cultural, músico e Mestre em Direito Internacional – data de há já alguns anos, quando me foi oferecido por uma amiga de infância o seu livro/ensaio político “PAIGC : da maioria qualificada à crise qualificada”, de 2013. Também por essa altura publicava eu a dissertação de mestrado em Lusofonia e CPLP, a qual incluía como que um «estudo de caso» sobre a GB, acabadinha de viver mais um conflito politica e socialmente dramático em 2012. Dúvidas persistentes e um futuro carregado de incertezas – incluindo atos eleitorais normais – levavam-me a perguntar «E se o resultado eleitoral não corresponder às expectativas dos atuais militares no poder»? Pois essa minha dúvida tem vindo a repetir-se ciclicamente, tendo acontecido o mais recente episódio já no início de 2020, depois de o PAIGC ter perdido e contestado as eleições de Dezembro do ano passado. De novo o fantasma da crise com a derrota do candidato do partido «histórico», o que me levou a perguntar a Ernesto Dabo, sete anos depois do seu “ensaio”, se o partido voltaria a ter capacidade de liderança, numa sociedade dividida a vários níveis, ou se mais este episódio determinaria o fim da importância do PAIGC? Eis as respostas:
ED = Como se costuma dizer, “ uma crise também é oportunidade para se mudar, melhorar”. Assim sendo, acredito que o PAIGC poderá voltar à liderança do país. Aliás, quando perdeu Amílcar Cabral, prosseguiu a luta e proclamou, unilateralmente, o Estado da Guiné-Bissau, concluindo o processo com a proclamação do Estado de Cabo verde; com o golpe de 14 de Novembro de 1980, ficou sem a componente cabo-verdiana, mas seguiu liderando a Guiné-Bissau; com o advento da democracia, ganhou e perdeu eleições; após o conflito político militar de 7 de Junho de 1998, esteve à beira da extinção, conseguiu restaurar-se e ganhar eleições. Se tivermos em conta estes factos, julgo que se deve admitir que o PAIGC pode recuperar a liderança, se souber renovar e adaptar-se devidamente às exigências da luta política e democrática do presente.
AB = A «erosão» de que fala, está ainda hoje associada ao problema da corrupção?
     ED = A “erosão” me parece indissociável da corrupção. As situações em que a meritocracia seja dominante, os progressos atenuam o recurso à corrupção, porque a fiscalização da acção dos governantes e agentes da administração pública é mais competente, sofisticada, presente e prudente. Se a isso juntarmos o maior potencial de cultura ética, que se supõe residente num grupo de boa preparação técnica, culturalmente identificado e patriótico, os efeitos negativos da “erosão” de que falamos, serão reduzidos ao mínimo.
        AB = Houve «Golpe de Estado» agora…ou tudo é fruto da incapacidade das Instituições?
 ED = A meu ver não houve golpe de estado. A instituição com competência para pronunciar os resultados eleitorais (CNE) fê-lo reiteradamente; a CEDEAO reconheceu os resultados; unanimemente, os observadores internacionais, nacionais, órgãos fiscalizadores, reconheceram os resultados. O recurso apresentado ao STJ, não obedeceu aos preceitos legais para o efeito; até ao presente o STJ não consegue se pronunciar de forma clara e definitiva.
          AB = A «tomada do poder» tem também ou sobretudo a ver com a «luta» entre Lusofonia e Francofonia?
    ED = Interesses geopolíticos fazem parte integrante da acção externa dos Estados, dai que, nada a estranhar, que sejam factores a ter em conta na análise de factos políticos ocorridos nas zonas de interesses de actores diferentes.
         AB = A chamada «Comunidade Internacional» (incluindo a CPLP) não tem força para «normalizar» o país!? Para onde caminha a Guiné-Bissau?    
 ED = A esta questão, responderia com um pensamento de Amílcar Cabral: “ Por mais importantes que sejam os factores externos, em última instância, são os endógenos que determinam as soluções. “O arroz coze-se na panela”. A Guiné-Bissau caminha com e como todos, para o futuro.
Um futuro eventualmente adiado, de novo, agora pelos efeitos da pandemia da COVID-19. Não pelo número de casos registados – há dois ou três dias situava-se em 50 – mas sobretudo pelas consequências económicas e sociais. Segundo a diretora nacional do Banco Central dos Estados da África Ocidental para a GB, Helena Nasolini Embaló, as debilidades do país poderão conduzir a um choque económico mais profundo do que em outros países da sub-região. Mesmo tendo em conta o alívio da dívida por parte do FMI. 



Poliglota, fala sete línguas, Ernesto Dabo já publicou também “Mar Misto” e “Olonko” (Bilingue em Kiriol/Português) de poesia, e editou o CD “Lembrança”, considerado como uma referência para a música guineense e africana.


António Bondoso
22 de Abril de 2020

2020-04-18


TUDO O QUE TENHO ESCRITO É POUCO…mas é o que sinto e sei! 48 anos depois da sua partida precoce, a sua figura doce alimenta memórias que o tempo não consegue esbater.


         A propósito, documento algumas das palavras mais recentes:
Quando a mãe não está...há muitos espaços vazios entre o coração e a saudade. E a minha já não está há 47 anos.

Foi sempre uma âncora firme. Mas "levantou ferro" há 46 anos...e eu cheguei a navegar sem rumo. Na doçura da tua voz e do teu gesto fixo hoje a memória do carinho que me guia em cada dia, até nos voltarmos a encontrar... Bom dia MÃE!

À MINHA MÃE VIRGÍNIA
Há 45 anos – dava eu os primeiros passos de um jovem adulto e servindo no exército – veio sobre mim o clarão triste da morte. Foi atingida a mãe deste filho, provavelmente a meio do seu percurso de vida! Ainda jovem, portanto. E foi uma dor que fez mossa. Sentida ainda hoje. Não foi nada fácil adaptar-me à circunstância de ser órfão. E os caminhos multiplicaram-se na visão dos horizontes de uma ilha a meio do mundo, ora fechando ora abrindo as águas do mar imenso. E como não pude estar com ela nesse momento de passagem…é importante que agradeça a quem esteve comigo nas horas da cor do luto, é importante que estenda o gesto de carinho a quem esteve com ela nos momentos dolorosos dos suspiros – antes de uma nova viagem. Não sendo dono do tempo e não desistindo da memória, grato estou igualmente a quem me acompanha ainda hoje neste espaço de certeza, elevando o coração à altura das lembranças da mãe que tive e que foi. Bjs do filho e até um dia destes. Porque o Céu existe.

***** Bom dia Mãe!

EM MEMÓRIA…
Há dias em que a felicidade também devia ser medida pela quantidade de condensação que o vale das três montanhas oferece.
Há dias…ainda foi ontem mas parece ter sido há uma eternidade, sobretudo pela falta que me tens feito nestes 42 anos. Pelo carinho, pela paciência, pela paz e pela doçura que transpiravas. Pudera a minha juventude regressar ao ativo e eu sentir os passos da tua presença.
Hoje, digo apenas que continua a ser válido o que escrevi há dois anos:
FOI  HÁ QUARENTA ANOS!

Com a tua partida
Fiquei órfão de um sorriso lindo e doce,
Carente do desvelo com que mimaste minha infância
E me viste crescer,
Mesmo quando a tua serena fúria
Pretendia ser amarga e dizer não.
Não foste perfeita à imagem de uma santa

Mas amaste quem pariste
E sofreste quem amaste.

Foi há quarenta anos...
E eu
Na minha Ilha de Sonho,
Ainda procurava descobrir o caráter do mundo!

E hoje, em 2020
Mãe 48anos de Saudade
E de repente chegamos ao mundo e temos um aconchego pleno de carinho protetor que nos dá alento e nos ensina a respirar a vida. Chama-se Amor de Mãe! E só é interrompido quando se parte o elo físico da relação. Para preencher o «vazio», oferecem-nos então esse imenso estado d’alma a que se dá o nome de saudade. Renova-se a cada ano que passa. E não termina nunca!
         Como diz Almada, em «La Lettre», a mãe deixou-o sem querer e ele não quis que ela partisse. E confessa não lhe ter escrito, pois o céu onde a mãe está…é imenso!
“(…) Il est minuit…
Je vois le ciel
Où tu es, Maman…
Tu m’as quitté
Sans le vouloir!
Moi non plus,
Je ne l’ai pas voulu!(…)”


António Bondoso
Abril de 2020