2022-01-10


ALGUMAS FIGURAS DA MINHA VIDA - JOSÉ CUNHA SALGUEIRO


Foto A.B. 

 Em Moimenta da Beira, não há quem não conheça e respeite o Zé Cunha Salgueiro, nem que seja pela «alcunha» de que não gosta mesmo nada.

Sendo ainda adolescente, sei que me «acompanhou» desde que nasci em 1950. Ali no Largo das Cinco Ruas, amigo da família, particularmente de meus pais, sendo a minha mãe – por via do casamento da irmã Clementina com António Salgueiro – portadora dessa proximidade. E depois a vizinhança e esse convívio saudável de um dos pólos da Vila. Das Cinco Ruas ao Terreiro e ao Convento eram apenas umas dezenas de metros. Mas era o centro de uma animação permanente, vivida com imaginação – a grande fortuna de então. O «Tio Zé» recorda com satisfação os bailes de então, não esquecendo a brincadeira que era a preparação dos bonecos tradicionais de compadres e comadres, elaborados em segredo, e que, depois, rapazes e raparigas procuravam defender a todo o custo, face à investida dos «grupos» rivais. 


Foto A.B.

E depois…outras memórias que me levam a recuar aos tempos do «Nubal», “prédio” que confinava com o Arrabalde e era cuidado pelo “tio António e pela tia Clementina”, e sobretudo à «sapataria do Manel» (da Canoa) onde ele me aturava com muita paciência. Digo eu, claro. Mas, só por isto, o «Tio Zé» merece ser uma das “Figuras da minha Vida”.

Prestes a completar 87 anos de existência, José Cunha Salgueiro nasceu na Rua da (Casa da) Moimenta, sendo um de 7 irmãos – 6 rapazes e uma rapariga – dos quais tive uma relação mais próxima com os saudosos António, que já referi, e com o Eduardo, que marcou uma época no «Grémio» e, mais recentemente, foi uma figura central da “Feirinha da Terra”, tendo sempre a seu lado a «tia Alcinda».

Com o Eduardo trabalhou no Grémio, tendo colaborado com a Junta Nacional dos Vinhos numa altura em que se exportava para a Rússia e para o Brasil, sem esquecer a Casa do Povo – ali ao lado da Biblioteca – onde se jogava ping pong e dominó e onde havia uma escola de música e se podia ver cinema por iniciativa de João Gonçalves, tudo isso antes de terminar na Segurança Social até à idade de aposentação em 2005, os anos de uma grande satisfação. Depois da reforma sobrou o cultivo dos campos, uma atividade que hoje começa a «pesar» na idade mas que ele se «recusa» a deixar de lado. 


Foto A.B. 

Mas a minha «memória» tem mais a ver com o tempo em que José Cunha Salgueiro trabalhava na sapataria do «Manel», no Terreiro, onde eu – com 6 e 7 anos – me divertia a «martelar» taxas e pregos no soalho e a utilizar um poderoso «íman» para arrebanhar os que sobravam. Era um «mestre» nessa arte de «rapina», manobrando com entusiasmo o íman, numa espécie de ondulação à direita e à esquerda. O tempo que ali passava, extremamente rápido apesar de ser extenso, era feliz. Não só graças à compreensão do Sr. Manuel mas sobretudo à atenção dedicada do «tio Zé». Apesar do trabalho de «moldar» o couro, de fazer da farinha um tipo cola tudo, de implantar as «meias solas» ou os «tacões» com zelo e precisão, o tio Zé tinha a paciência para me explicar o «processo». E pelo meio, ia mostrando exemplares do jornal O PORTO, de que era assinante. Ainda hoje mantém no sótão muitos dos jornais desse tempo. Devo recordar que ele não estava sozinho na sapataria: tinha a companhia do Toninho do Pote e do Zé Raposo.

Mas uma legítima busca de melhores condições salariais levaram o tio Zé para outras tarefas, de que já falei, seguindo-se o casamento com a «tia Isaura», descendente da família dos Correia Alves e Requeijos. Tinha 24 anos e a boda, preparada pela mãe da D. Virgínia – mulher do Beto Varandas – coincidiu com o Domingo de Ramos de 1959. A festa rija teve ainda o condimento de acontecer no dia em que se decidiu o campeonato de futebol nacional, uma jornada marcada pelo «caso» Calabote. O tio Zé acrescentou à festa o relato do futebol, ideia que não caiu nada bem em alguns «representantes» da Igreja – uns padres de Braga que se encontravam em Moimenta e que resolveram criticar o «excesso» da festa em tempo de “Quaresma”. O tio Zé e a tia Isaura são pais de duas filhas, a Ana Maria e a Luísa Salgueiro, avós de 3 netos e já bisavós. É esta figura que eu hoje homenageio simbólica e singelamente. 



De José Cunha Salgueiro, que faz o favor de ser muito meu Amigo, se pode dizer ainda que o respeito e a consideração que foi granjeando, se têm vindo a refletir até nos convites para uma envolvência política, ora se apresentando como candidato à Assembleia Municipal, ora como candidato à Câmara – como foi o caso das recentes eleições autárquicas de 2021, nas listas do Partido Socialista. 


Aqui lhe deixo um forte abraço e votos de muita saúde para poder continuar a fazer o que gosta, trabalhar no campo e conviver, esperando eu poder manter a sua amizade e continuar a receber ensinamentos sobre a poda das árvores de frutos. Obrigado Tio Zé. 



António Bondoso

10 de Janeiro de 2022. 









2022-01-07

SOBRE MÁRIO SOARES…
…haverá sempre uma efeméride para celebrar, lembrando as lutas pela LIBERDADE!



         Sabe-se que Mário Soares não foi uma figura de relacionamento fácil e que preferiu sempre a frontalidade. Não deixou de alinhar em consensos – quando o país lhe pediu – mas foi sempre um homem de ruturas. Inclusive no interior do seu próprio partido e certamente na sequência das muitas dificuldades que atapetaram o seu percurso de vida, uma luta permanente pela liberdade – contra a ditadura! Por isso esteve preso, foi torturado, deportado e exilado. O que venho aqui dizer não é novo, talvez mesmo insignificante, mas fica registado mais uma vez.
         Dele ouvi falar em 1968, em S. Tomé, para onde foi deportado em Março desse ano sem culpa formada, depois de ter sido preso várias vezes. Ali, foi até impedido de dar explicações aos filhos do Secretário da Câmara, Aprígio António Malveiro, acontecendo que Maria Barroso foi igualmente impedida de exercer a atividade docente – como eu recordo no meu livro ESCRAVOS DO PARAÍSO (2005)


“Ninguém podia falar com ele porque a polícia não deixava, eu até tinha medo mesmo de ver a varanda de casa dele”, disse à LUSA (2014) Ângelo Carneiro, 76 anos, um dos poucos são-tomenses que conheceram de facto o então advogado oposicionista de Salazar. (…) Eu passava lá, era ainda no tempo da PIDE. Eu era jardineiro na casa de um branco que morava na marginal, perto do museu”, recordou Ângelo Carneiro. Com o passar dos anos ninguém ou muito pouca gente ainda se recorda de que Mário Soares viveu neste apartamento”, acrescentou.
O degredo, recordo ainda em Escravos do Paraíso, não mereceu a total concordância do então governador Silva Sebastião [que se avistava quase todos os sábados com Mário Soares], o qual achou a situação muito pouco própria – tendo em conta o elevado número de jornalistas estrangeiros presentes na Ilha, em consequência da trágica Guerra do Biafra.
         Um dos poucos brancos que mantiveram contacto com o ex-presidente foi Fernando Santos Mendes – mais conhecido por Fernandinho dos Angolares – um português de Viseu que foi para S. Tomé em 1952 e lá faleceu em 2013. A sua bisavó era natural de S. Tomé – Josefa Quaresma de Ceita – e os pais chegaram à Ilha nos primeiros anos do século XX. Fernando Mendes convidou Mário Soares para almoçar uma ou duas vezes e confessou-me não ter sido incomodado pela Pide.


Apesar de tudo, Soares teve a oportunidade de defender (pro bono) um funcionário da Alfândega acusado de desvio de bens. Um caso vulgar mas que, por toda a envolvência, acabou por ter grande repercussão na ilha. Julgamento de sala cheia, dizia-me o meu pai, que assistiu. E quando Mário Soares e toda a gente pensava na absolvição do réu, eis que a sentença produzida foi a condenação a 13 anos de prisão. Mário Soares, como eu escrevo em Escravos do Paraíso, nunca se havia sentido tão vexado na sua vida profissional, servindo-lhe apenas de consolação o facto de a sentença ter sido depois anulada pelo Tribunal da Relação de Luanda. Ficou, assim, patente aos olhos de todos, que a sentença tinha sido “dirigida politicamente” a Mário Soares.    


Foi com ele que a política se afirmou nos meus ouvidos e na minha consciência, sobretudo pela sua atitude e foi particularmente a sua combatividade que me motivou (ainda antes da Ala Liberal de Sá Carneiro e de Pinto Balsemão). Muitos anos depois tive o privilégio de o acompanhar na Presidência Aberta em Viana do Castelo (vindo-me à ideia o seu contacto com os pescadores e a simplicidade de um almoço informal de arroz de cabidela do qual não esqueço alguns pormenores curiosos); com ele me cruzei de novo em Macau, na inauguração do Aeroporto, e acompanhei a sua viagem a Tóquio, já no âmbito da sua presidência da Comissão Mundial Independente Sobre os Oceanos (1995-1998) que Mário Ruivo dinamizou por indicação da ONU. Mais recentemente, tive a oportunidade de lhe oferecer em Moimenta da Beira dois dos meus livros: "DA BEIRA! Alguns Poemas e Uma Carta Para Aquilino", o Mestre que ele admirou, como se sabe, e SEIOS ILHÉUS - como que uma recordação simbólica do tempo que passou em S. Tomé.



Mário Soares – um combatente pelas liberdades. E por isso foi escolhido para presidir à Comissão de Liberdade Religiosa no tempo de José Sócrates no cargo de 1º Ministro: "A vida pessoal e política de Mário Soares habilita-o a qualquer tarefa que tenha a ver com a liberdade e muito mais com a liberdade religiosa, que é um dos pilares das sociedades democráticas modernas”. MÁRIO SOARES respondeu: " Sou neutro em matéria de religião, mas reconheço a importância da religião e das Instituições Religiosas, particularmente no mundo conturbado de hoje, com o exacerbamento dos fanatismos religiosos. SOU AMIGO DE TODAS AS LIBERDADES"!
Um Homem a quem a Democracia Portuguesa e os portugueses ficam a "dever" uma importante quota-parte. Manuel Alegre, com quem se incompatibilizou nas presidenciais de 2006, acaba de classificar Mário Soares como “o construtor principal da democracia”.Como disse, nem sempre foi de relacionamento fácil. Apesar disso, outras figuras como o ex-presidente Ramalho Eanes dizem ter “uma grande consideração por Mário Soares enquanto batalhador pela democracia”, embora não tenha estima pessoal. Simultaneamente, embora possa parecer um paradoxo, foi um homem de afetos e cultor de amizades. E um homem de Cultura, muito à semelhança dos oito presidentes da Iª República. Que pensou o mundo e sobre ele escreveu muito, como se pode verificar pela extensa bibliografia. E que amou a Poesia e grandes Poetas – como é exemplo a seleção que José da Cruz Santos editou para o jornal Público. E esse poema para a mulher, Maria Barroso – trave mestra da sua estrutura familiar e cuja perda lhe terá acelerado o caminho para o final desta sua passagem. Poema escrito na prisão do Aljube em 22 de Fevereiro de 1962:
PARA TI, MEU AMOR
Para ti,
Meu amor,
Levanto a voz,
No silêncio
Desta solidão em que me encontro.
Sei que gostas de ouvir,
A minha voz,
Feita de palavras ternas e doces
Que invento para ti
Nos momentos calmos
Em que estamos sós.
Sei que me ouves
Agora
- Uma vez mais –
Apesar da distância
E do silêncio.
O amor,
Querida,
Opera esse milagre,
Simples,
Como tudo o que é natural:
Ouvir,
Bem no fundo do coração
As palavras não ditas
Mas sentidas;
Adivinhar,
Bem ao nosso lado,
A presença,
Insubstituível e certa
Do ausente
- Presença inconvertível
Em ausência,
Por maiores que sejam a distância
E o silêncio!
  
E depois há todo esse caminho que levou ao 25 de Abril de 1974 e à consequente descolonização – tardia e, sobretudo por isso, atabalhoada e traumática para os atingidos. É um tema complexo ao qual voltarei a dar especial atenção, tendo em conta particularmente o que vem sido dito e escrito – quantas vezes de forma mais emotiva do que racional, quantas vezes disparando em várias direções – com desconhecimento e com disparates, sem preparação de análise das conjunturas nacionais e internacionais nas várias épocas em perspetiva. Acusações infundadas e demagógicas a Mário Soares há de sobra. Só valem as que se reportarem à sua luta pela liberdade no seu país, contra a ditadura. Há muitas outras figuras de maior responsabilidade – como são Salazar e Caetano, que não perceberam o espírito do tempo; depois Spínola e Costa Gomes a juntar à Coordenadora do MFA. Como disse Melo Antunes – ideólogo maior do Movimento – “o processo de descolonização foi das coisas mais difíceis, mais dramáticas e mais trágicas que aconteceu em Portugal. Sei que se cometeram erros e assumo as minhas responsabilidades”.
António Bondoso
Jornalista
7 de Janeiro de 2017.














2022-01-06

UM TEMPO IMUTÁVEL...de promessas imutáveis.

Foto de António Bondoso
 

De um final de ano na modesta simplicidade de desejar pouco para mais um ano complexo, seguiu-se uma viagem às «origens» com a mesma estrada, mas um tempo diferente, apesar da imutável paisagem interior que nos modifica os silêncios.

E nem os gritos da vontade conseguem furar a barreira do isolamento, mesmo que se alarguem as promessas em tempo de eleições.

É que, segundo sei…

«O corpo só por si

Não regenera.

É dependente

Da mente

Enquanto espera».



Foto de António Bondoso

António Bondoso

Janeiro de 2022. 


 

2022-01-04


PROSSIGA O ESPETÁCULO.

ENTRE OS DEBATES E A PROPAGANDA…temos ainda a demagogia e a inclinação de interesses «ideológicos» dos moderadores e comentadores. E depois, uma questão essencial:

OS DEBATES – SOBRETUDO TELEVISIVOS – AINDA INFLUENCIAM DECISIVAMENTE O ELEITORADO?


Da Web

Não estou seguro de que isso aconteça a uma escala significativa, ao contrário do que ouvi dizer, embora admita que esse tipo de «eventos», particularmente «a dois», possa moldar as ideias de alguns eleitores. E os «comícios» também já não mobilizam como antigamente. Já lá vai o tempo em que despontavam figuras como a do «Carlitos», que o antigo Presidente da AR – Fernando Amaral – recorda de forma sublime nas suas “Recordações Menores”. Em nome da juventude, o «Carlitos» havia preparado uma intervenção para abrir o comício. Mas…lidas as frases, Fernando Amaral constatou que a sua leitura duraria apenas 30 segundos. Carlitos – eu pedi pelo menos 5 minutos! E veio a surpresa: - “e as palmas! E as palmas”! Fernando Amaral foi apanhado por muito mais de cinco minutos, tantas haviam sido as palmas para a intervenção mais aplaudida do comício. De facto, não havia contado com as palmas.

Com a penetração diversificada do que chamamos de «redes sociais», quase me atrevo a dizer que a TV – apesar de todo o seu poderio com a imagem – está hoje para as redes sociais como a Rádio, há já muitas décadas, tem estado para a TV. Isto…sou eu a pensar, claro!

É preciso encontrar novas formas de chegar aos eleitores? Claro que sim. Mas, insisto, não me parece que o caminho seja apenas através da TV. Os debates, por muito que digam alguns «especialistas», estão carregados de demagogia. E, sinceramente, creio que os eleitores sabem distinguir a demagogia da razão. E depois…as palmas! Faltam as palmas! Só se tivermos em consideração que elas virão dos analistas e dos comentadores. Pode acontecer. Mas ainda é válida a ideia de que não se pode enganar toda a gente o tempo todo.

Aqui chegados, há essa perspetiva que mereceu alguma atenção nos últimos dias: - primeiro o documento dos 31 e as “esquerdas”. Hoje, a Carta por uma “esquerda plural”, subscrita por 100 personalidades sem filiação partidária. Depois da farsa que foi o voto contra o OE, como se pode vir agora apelar à «coragem da esquerda para um compromisso», se alguns dos protagonistas – sedentos de “contar espingardas” ou “receosos de perder a força das ruas” – torpedearam a legislatura devido a «leituras» enviesadas a respeito de um OE de elaboração cuidadosamente responsável? Não faz sentido. E, sinceramente, o que me parece enformar a ideia é ir «torpedeando» o eleitorado no sentido de penalizar o PS, retirando «peso» a uma eventual – mas provável – vitória nas eleições de 30 de Janeiro. Tentando evitar, embora agitando, o «fantasma» de uma maioria absoluta – muito pouco provável – o BE e o PCP, em mais uma «maioria inquinada» com o PSD, CDS, IL, PAN, PEV, etc…parece apostarem mais numa maioria de direita no próximo parlamento.

Isto…sou eu a pensar, claro!

Bons debates e que prossiga o espetáculo. Viva o «Infotainment”! 


Foto de António Bondoso

 

António Bondoso

Janeiro de 2022

2021-12-30


SE O NOVO ANO VIESSE DO CÉU


Foto de António Bondoso

 

Se a viragem do ano transportasse em si mesma o valor absoluto do bem-estar e da justiça, seria como que um momento perfeito da humanidade.

Contudo, é muito complicado este mundo habitado por humanos!

Desde o início dos tempos sempre a pesar a vida e a morte, matar ou morrer, viver e sobreviver, a pobreza e a riqueza, a alegria e a tristeza, o belo e o feio, o mal e o bem, a felicidade e a miséria, o poder e a submissão, o pecado e a graça, a mentira e a verdade, a dúvida e a certeza, a traição e a lealdade, o amor e ódio, o perto e o longe.

Por isso me tenho interrogado inúmeras vezes se haverá um tempo justo.

Não sei se o tempo existe nem sei se haverá tempo para isso. Uma dúvida existencial como tantas outras, uma questão filosófica talvez – ontológica certamente e quase a confundir-se com a metafísica. O tempo não é velho nem é novo – recordando o que há dias escrevi a propósito de uma ideia “abadesca” situando o paradoxo do Natal (como tempo de nascer) e da morte (igualmente tempo de nascer numa ou para outra dimensão). Neste ponto…é a Fé a sobrepor-se. Como que uma retórica de conforto em tempo de dor. Mas nestes tempos de crise – o que é realmente importante é o conforto de viver em dignidade! E essa...só será conseguida com um tempo novo.

Voltamos, portanto, à existência do tempo. E quem não se lembra daquela “ladainha” em que o tempo pergunta ao tempo quanto tempo o tempo tem…e o tempo responde ao tempo que o tempo que o tempo tem é tanto tempo…quanto tempo o tempo tem! A ser assim, penso não deixar de ser fundamental que esta asserção englobe toda e qualquer circunstância, toda e qualquer medida.  

Por isso, seja-me permitido esperar legitimamente que venha aí um tempo novo, um tempo de justiça e de felicidade. E desejar a todos que assim seja, com muita saúde para viver esse tempo – um intervalo entre a vida preenchida de altos e baixos…e essa ideia real que podemos situar entre o negro tétrico e o cinzento mais ou menos enigmático.


Postal antigo de STP - Igreja da Conceição

Pensando positivo, lá vamos a caminho do Novo Ano/Ano Novo...levados pelos ventos de uma liberdade conquistada e defendida com sacrifícios de vária ordem. E que agora clamam por mais felicidade e mais justiça.

E se…

Se o novo ano viesse do céu

Por certo seria azul

E diferente, pois então!

Para melhor

Sempre a caminho do sul

Guiado pelas estrelas

De um enorme coração.

 

Se o novo ano viesse do céu

Por certo seria azul

Tal como as águas tranquilas do rio

Ou do mar alto que sei.

Diferente e para melhor

Sempre em busca do calor

De um imaginário que é meu

Do qual gostei e que amei.

 

Se o novo ano viesse do céu

Talvez o mundo tivesse a cor dos meus olhos!

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António Bondoso

(Dez de 2017)

António Bondoso

Dezembro de 2021 – 2º Ano da Pandemia. 




 

2021-12-28

O BONÉ AMBIVALENTE...tanto pode ser o Boné do Zé, como espelhar o Zé do Boné. 

Chove...

O BONÉ AMBIVALENTE…

 

Protege do sol, aconchega no frio.

O boné ambivalente

Tanto empresta estatuto

Se feito de caxemira

Como atribui indigência

Se feito com indecência.

 

O boné ambivalente

Segue a moda dos criadores.

Usado por pensadores

Por simples trabalhadores

O boné ambivalente

Não deixa ninguém indiferente.

 

Usado por tradição

Ou até superstição

O boné ambivalente

Define com precisão

Tanto o mestre da escultura

Como a falsa assinatura.

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António Bondoso

Dezembro de 2021. 



Costa de VN de Gaia

 António Bondoso

28 de Dezembro de 2021

2021-12-27


FIGURAS E ACONTECIMENTOS DE 2021 – APENAS UMA VISÃO…ou de como cada olhar tem uma alma diferente, manipulando números e situações a seu bel-prazer. 


António Guterres com Papa Francisco

Pandemia e tudo à volta.

Nova fase de alta pressão no SNS.

Inevitável dissolução da AR, depois do chumbo do OE, vítima de mais uma «coligação negativa» PSD, CDS/PP, BE, PCP.

O triste e intemporal «sebastianismo» português, que muitos tentaram colar ao Almirante Gouveia e Melo e mais uns quantos – com a sua falta de visão – insistem em oferecer de bandeja à «extrema-direita».

Perda de Desmond Tutu – o lutador sorridente na África do Sul.

Afirmação do Papa Francisco – com intervenções de longo alcance social e político.

Fenómenos sul-americanos:

Da eleição peruana de Pedro Castillo – um modesto professor primário que enfrenta as armadilhas dos tubarões da política – à nova vitória da esquerda chilena. Será que assistiremos a um novo 11 de Setembro?


Desmond Tutu

António Guterres:

Enfrentou a estupidez de Trump (ONU, OMS, Clima, erros Afeganistão, Síria, Iraque, Curdos) e depois dos dramas dos Refugiados e dos migrantes, o cenário da Pandemia do SARS-Cov2 agravou a economia, a miséria e a fome. Mas Guterres não saiu de cena e tem levado a sua luta ao extremo.

Vacinação em Portugal e suas consequências:

Ser «Grande» é ter conseguido uma taxa de vacinação fora do comum para um país com a nossa dimensão. E ainda ser solidário – nomeadamente com os povos de língua portuguesa; Ser «Grande» é ter posto o país a crescer de novo, sem o deixar “bater no fundo”, sem cortar nas reformas e subir o salário mínimo; ser «grande» é conseguir, depois da pior crise sanitária e financeira da história moderna do país, voltar a diminuir o défice e voltar a ter um excedente no terceiro trimestre de 2021; ser «Grande» é proteger a TAP quando já (quase) nada nos pertence – nem a água, nem a energia – uma parte essencial da soberania perdida.

Os média e o mau serviço que têm prestado ao país:

E vou apenas falar da manipulação vergonhosa dos números relativos à vacinação (uma leitura enviesada das percentagens da dose de “reforço”), que ainda há dias estiveram em destaque na RTP1 – o canal público que todos continuamos a sustentar e que, por isso, merecia mais seriedade e mais competência. Registo a maléfica aproximação à CMtv. Não é sério pretender comparar os valores da Áustria e de Portugal, dizendo que o país está em 11º lugar enquanto a Áustria ocupa o 1º, sem referir que – enquanto Portugal tem uma taxa de vacinação total de 88%, a Áustria apenas atinge os 71,4%. Será difícil entender a forçosa necessidade do «reforço» por parte dos austríacos? Não é de espantar, por isso, que eles tenham acelerado o reforço para os 38%, enquanto Portugal se situa nos 23,5%. É este tipo de informação enviesada que é preciso desmascarar. 


Central Termoelétrica do Pego

Agressões Climáticas:

Por mais «cimeiras» que se realizem, o drama já não vai ter solução a tempo do anúncio do chamado «ponto de não retorno». A sobrepopulação «pisou» a economia e as necessidades crescentes nas últimas décadas arrasaram com os recursos do nosso planeta. E sabe-se que «este» planeta não é infinito. Registe-se, contudo, o encerramento das centrais a carvão em Portugal.

Conflitos Armados:

As “Guerras por Procuração”, que proliferaram durante a 1ª Guerra Fria, estão de novo a ganhar potencial um pouco por toda a parte, mas com especial incidência na África, na Ásia e América do Sul. Por outro lado, o Leste europeu vai estendendo a passadeira vermelha a novas oportunidades, com destaque para a Ucrânia, que – ao fazer a sua opção pró União Europeia – pretende ser muito mais do que um simples Estado-tampão entre a expansão da NATO e a contenção da Rússia. Destaque ainda para a triste realidade da Birmânia/Myanmar, que a China e a Índia não querem ver – embora por motivos diferentes – e que os EUA, em nítida fase de reagrupamento de forças pós Afeganistão e numa fase crítica de alocação de recursos para enfrentar a pandemia e a crise económica, pretendem manter em banho-maria até a um momento mais «oportuno».

O novo «centro» do mundo:

Indo-Pacífico e a posição geoestratégica da «plataforma» Australiana. Alta expetativa para observar o «cerco» ao poderio da RP da China.  


                                                                O novo «centro» do mundo

António Bondoso

Dezembro de 2021. 




 

2021-12-13

 

ALGUMAS FIGURAS DA MINHA VIDA (4)

De um episódio com Onésimo da Silveira em S. Tomé e Príncipe ao 25 de Abril em Bissau, CARLOS ALBERTO FERREIRA DIAS é já um passageiro de longo curso e é um homem apaixonado por STP – sua terra natal. Por isso se dedica há mais de 10 anos a publicar semanalmente na «Web» um pequeno mas interessante “jornal”, a que deu o título de NOTÍCIAS À TERÇA e que esta edição nos apresenta o nº600. 

Carlos Dias

Para além de um número redondo e marcante, como já tenho dito, o NT é o resultado de uma paixão profunda pelas circunstâncias da terra. Merece o meu aplauso e o meu reconhecimento, independentemente do que possa vir a acontecer no futuro. E é também nisso, disse-me, que tem pensado muito. Gostava, claro, que o jornal continuasse, diz que há pessoas competentes para dar sequência, mas…assumir essa responsabilidade exige paixão. Sem isso nada feito – acrescenta.  

         Não só por isto, mas também, CARLOS DIAS é uma das «figuras da minha vida».

         Desde que começou a trabalhar em S. Tomé aos 18 anos de idade, foi quase sempre um homem de duas ocupações, responde-me, primeiro na Administração Pública do território e depois na Rádio – como Presidente da Comissão Administrativa do Rádio Clube que, em Dezembro de 1969 [20 anos após a sua fundação], passou a fazer parte da ex- EN, o primeiro Emissor Regional do então “Ultramar”.

         E eu aparecia por lá, pelo Rádio Clube, nomeadamente uma vez por semana, quando era o tempo de gravar o programa “A Voz da Mocidade”, no qual se destacava o espaço de teatro radiofónico – iniciativa que obrigava a puxar pela imaginação. Num dado domingo do «verão» de 1967, fui à Rádio mas por outros motivos. Tinha uma conversa aprazada como Manuel Sá que, por essa altura, produzia e apresentava o “Música na Praia” aos domingos de manhã. E enquanto aguardava um pequeno «intervalo» para falarmos…surgiu a figura do Diretor Carlos Dias. Depois do cumprimento cordial e de revelar o que ali me levava…veio a «dica», meio convite, meio proposta, para aparecer “um dia destes”. E lá fui, não muito depois, para aceitar começar a trabalhar à experiência.

         Carlos Dias, passados mais de 50 anos sobre o episódio, ainda se lembra de me ver por ali, de ter falado com o Sá e, eventualmente, com o Nobre, e diz que «tinha um dedo para encontrar as pessoas certas», o que também funcionou comigo. Tinha «pinta», diz. Felizmente. Mas o mesmo aconteceria na Guiné uns anos depois, já na função de Intendente do Emissor Regional, quando foi convidado para lá ir passar uns meses. Foi e gostou, acrescenta, recordando a figura do Fernando de Sousa, que viria mais tarde a ser correspondente da SIC em Bruxelas, tal como da Rádio Macau – durante algum tempo em que eu ali chefiei a Informação.  

         E foi na Guiné, onde se cruzou com o governador Gen. Bettencourt Rodrigues e mais tarde com o Cor. Carlos Fabião, que Carlos Dias soube e viveu o 25 de Abril de 1974. A informação do golpe militar chegou-lhe ouvindo a BBC nas instalações do Emissor Regional, onde uma RGT – Reunião Geral de Trabalhadores – confirmou a sua continuação como Intendente do ER. Foi sempre bem tratado por todos, diz-me, e «não tive qualquer problema nem com as novas “autoridades” portuguesas nem com as personalidades do PAIGC que se foram instalando. A entrega do ER ao PAIGC foi pacífica [tal como havia sido já a sua tomada por parte dos militares afetos ao MFA] e continuei, até vir embora, a dirigir os serviços». Antes do seu regresso a S. Tomé, acrescenta Carlos Dias, propôs – mais uma vez confiando no seu «dedo» – alguns militares para ficarem a “coordenar” o Emissor, em ligação com o representante do PAIGC, entre os quais o Fernando de Sousa. Essa missão na Guiné em «tempos complexos», onde também manteve excelentes relações com a comunidade Santomense ali residente, valeu-lhe um louvor, mérito que ele atribui mais uma vez aos seus colaboradores. 

Com «Mina Malé» na Rádio.

         Voltou a S. Tomé e reassumiu a «Intendência» do ER até à sua entrega ao MLSTP no dia da independência. Carlos Dias, natural de STP, não desejava sair de lá, mas acabou por haver uma conjugação de questões burocráticas, políticas e familiares que praticamente o obrigaram a ficar em Portugal, quando cá veio em serviço para «acordar com a EN o financiamento de uma parte do orçamento e, a pedido do novo Governo, mandar fazer na Imprensa Nacional os passaportes, os selos brancos e os carimbos para os serviços públicos de STP». Isso foi feito mas Carlos Dias ficou, depois de saber que não iria conseguir a “dupla cidadania” – condição que lhe permitiria permanecer no novo país sem perder o direito à «reforma» por parte do Estado português. “Julgo que não ficaram sequelas”, diz Carlos Dias, que acabaria por voltar a STP – a convite do governo do MLSTP (via embaixada) – para o funeral do seu amigo Nuno Xavier Dias: “essa sim, foi uma grande perda para S. Tomé e Príncipe”. 

Convívio da Rádio

Esta «figura da minha vida» hoje em destaque, como já ficou claro, teve sempre mais do que uma ocupação na vida pública de STP. Aos 18 anos de idade, depois dos estudos na «metrópole», foi trabalhar interinamente na Estatística. Por pouco tempo, pois havia concorrido aos quadros da Administração Civil e foi nomeado aspirante do «quadro administrativo», sendo colocado na Curadoria. Mas pertenceu igualmente à Comissão da Caixa de Previdência e foi escriturário na Junta Provincial de Emigração.

         E voltando ao «dedo da sorte» para escolher os colaboradores, Carlos Dias recorda outras situações felizes, como por exemplo a «equipa» quando foi administrador do Concelho do Príncipe, na qual estiveram o José Almeida, o Pedro Umbelina, o Pina e o Nobre de Carvalho: - “Passados 3 anos e 3 meses terminei a comissão e, nessa altura, foi-me atribuído um prémio pelo bom desempenho. O prémio chamava-se «João de Santarém e Pêro Escobar». Pensei e constatei que o mérito não foi só meu, pois muitas pessoas ajudaram e apoiaram”. 




A receber o então governador Cecílio Gonçalves nas instalações do ER da ex EN.


         E quando esteve na Curadoria [Curadoria Geral dos Serviçais e Indígenas, mais tarde Repartição Provincial do Trabalho, Previdência e Segurança Social], uma das suas funções era «encaminhar para as roças inscritas os trabalhadores acabados de chegar de Cabo Verde». E entre os 600 ou 700 chegados naquele dia, recorda Carlos Dias, “vinha um jovem com uma deficiência motora, coxeava muito, o que me levou a falar com ele para ver que tipo de trabalho poderia fazer. O jovem era brilhante. Como poderia estar ali entre aqueles tantos trabalhadores rurais? Já não foi para a Roça – embora fosse obrigatório ser-lhe atribuída uma – e ficou a trabalhar no Sindicato. Era nem mais nem menos o Onésimo da Silveira que, depois da independência de Cabo Verde, foi autarca, deputado e diplomata, para além de escritor/Poeta”.

António Bondoso

Dezembro de 2021.