quinta-feira, 15 de setembro de 2016


MOIMENTA DA BEIRA E O MERCADO GLOBAL NA EXPODEMO 2016...
...ou a economia e a auto estima à volta da maçã.  


MOIMENTA DA BEIRA E O MERCADO GLOBAL

A aposta na internacionalização da Expodemo – Espanha é o país convidado para a edição deste fim de semana – é justificada pelo mercado global em que nos inserimos. Ideia de José Eduardo Ferreira, Presidente da Câmara Municipal de Moimenta da Beira, expressa a este blogue “Palavras em Viagem”.
A Expodemo 2016 é a quinta edição e o certame tem vindo sempre a crescer. Dizem os organizadores que vai haver mais expositores, mais área coberta e mais espetáculos de rua, dezasseis ao todo. Mais produtores de maçã e de vinho e mais gastronomia regional. Igualmente mais cultura e a Espanha, para além de representada por várias empresas de renome traz música e dança flamenca ao vivo e arte circense de rua.
Nesta perspetiva de crescimento, foi já anunciado que o certame vai ser o maior de sempre. José Eduardo Ferreira, o que é que isto pode significar para o município? 
JEF - O crescimento da Expodemo significa a maior adesão a este certame que tem vindo a afirmar-se como um momento importante na vida empresarial e cultural de Moimenta da Beira e da região. Estamos ainda num processo de crescimento, o que torna as nossas expetativas também maiores. Os nossos agentes económicos aproveitam a Expodemo para provarem a si próprios e aos outros que é possível progredir todos os anos, investindo em contraciclo, apesar de todos os constrangimentos externos, daqui resultando, para todos, um importante reforço da nossa autoestima como povo que caminha com confiança no seu próprio futuro.
É, portanto, a consolidação/afirmação do município como centralidade desta região entre o Dão e o Douro Sul? 
JEF - Essa afirmação, que vem de longe, é um processo que nunca terá fim e que faz do esforço de cada um o elemento essencial da melhoria das condições de vida de todos.
O que pretendemos é que Moimenta da Beira contribua diariamente para a afirmação de todos, nesta região. É aliás assim que concebemos o contributo de Moimenta: um parceiro determinado em não desistir da sua própria afirmação em conjunto com todos.
Creio mesmo que estamos, aqui, todos muito convictos desta realidade. É pena que nem sempre outros decisores partilhem esta visão.
A Expodemo serve também para provar que é possível fazer bem nesta parcela do território, e que até se pode aqui fazer melhor, em muitas áreas de atuação, no nosso desenvolvimento coletivo.
A internacionalização - desta vez com Espanha - é um dado adquirido e para manter?
JEF - O mercado global em que nos inserimos justifica essa aposta. Os nossos melhores produtos e as nossas organizações justificam cada vez mais o caminho que estamos a percorrer, seguindo o seu próprio exemplo.
O mercado espanhol, pela sua dimensão e proximidade geográfica deve constituir uma aposta forte das nossas empresas, e por isso mesmo da Expodemo. Estamos certos que temos condições para obter vantagens mútuas, que não devemos continuar a desperdiçar.
Estamos bem cientes que o esforço de internacionalização que prosseguimos, tal como a aposta cultural que fazemos, são investimentos de longo prazo, que até por isso têm que ter na base decisões firmes e duradouras.
Segundo o programa divulgado, Vitorino é a estrela do primeiro dia do certame, 16 de setembro. O concerto é às 22 horas. O cantor de Abril, e a sua banda, não atuarão sozinhos, pois terão no palco a companhia do Grupo Coral “Os Camponeses de Pias”, intérprete-maior do Cante Alentejano, género musical distinguido há menos de dois anos como património imaterial da humanidade.
Moimenta da Beira lidera mais uma vez a promoção da cultura e das atividades económicas da região, tendo a maçã como cabeça de cartaz. Há uns anos escrevi que
Se a maçã fosse
A origem do pecado…
…a Humanidade seria
A mais pura ficção!

Não admira, portanto, que – para lá da duração do certame – esteja patente no átrio do edifício dos Paços do Concelho uma exposição de pintura de Arnaldo Macedo, artista plástico com forte presença no norte do país e na Galiza. A mostra tem o título genérico de “Interior inconstante da maçã”.
António Bondoso
Jornalista



segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A PROPÓSITO DE MAIS UM CONVÍVIO DE SÃO-TOMENSES NO BUÇACO. 

NÃO HÁ SAUDADES QUE CAIBAM EM 40 ANOS…
…mas a catarse está praticamente concluída!



Tudo começou na Cruz Alta, na Mata do Buçaco, em 1976. A comunidade de ex-residentes e/ou de naturais de S. Tomé e Príncipe começou ali a reunir-se em Setembro de cada ano para manter o contacto, para matar saudades, para desabafar, para confraternizar. E creio até que, apesar da turbulência da época, sempre se conseguiu resistir à tentação de falar de e em política, fosse qual fosse a dimensão da palavra. E convenhamos que não era nada fácil.
Na sequência do processo de Descolonização havia já um rótulo – retornados – embora o sentido não pudesse aplicar-se a todos por igual. Retornados, regressados, repatriados, desalojados, espoliados – palavras que, isoladas, não conseguiam determinar exatamente as emoções e as reações de cada um, perante o desenrolar da história.

Os traumas estavam muito vivos ainda…e muitos teriam até receio ou mesmo vergonha em assumir a saudade da história das suas vidas e de conviver sem tabus. Mas, honra seja feita à comunidade “são-tomense”, esse sentimento de tentar perceber os caminhos novos ganhou corpo e foi-se consolidando, sempre com a ideia de que os convívios são a expressão de nos revermos nos cabelos mais brancos de cada um ou no abraço do parceiro que, algumas vezes e pela corrida do tempo, já nem recordamos o nome. Sem saudosismos, mas para matar saudades, quem não teve oportunidade de regressar ao paraíso, vai repetidamente enchendo o coração com memórias de outros tempos. Todos continuam escravos do milongo, escravos do feitiço das ilhas do meio do mundo – agora do chocolate - onde o cantar dos pássaros desperta os sentidos. No fundo, a História não acabou nem começou em 1975. Passou a ser diferente. Há hoje dois países independentes, embora irmanados num espírito mais vasto do mundo que se expressa em língua portuguesa. Isso mesmo foi este domingo salientado no local pelo Cônsul de STP para a região centro de Portugal – José Diogo – por ocasião da celebração do 40º aniversário do convívio, simbolizado num bolo com as bandeiras dos dois países. José Diogo, ele também um dos participantes habituais nos encontros, consumidor igualmente das memórias que alimentou nas ilhas. E a sua presença, hoje como em outras ocasiões, foi marcada pela sua capacidade de saber distinguir a sua vida privada das funções que desempenha em representação de STP.

 Por motivos diversos e por maioria – nestas questões é raro conseguir a unanimidade – este foi também o último encontro nos moldes que vinham sendo definidos, praticamente desde o início, quando o senhor Leal teve a ideia e a foi concretizando com a ajuda do Domingos, do Victor Cruz, do Eduardo Duarte, do Oliveira e do Américo.
Por isso eu digo que a catarse está praticamente concluída, embora as saudades de quem “viveu” as ilhas de S. Tomé e do Príncipe não caibam em 40 anos. Por isso nos vamos continuar a encontrar, provavelmente mais do que uma vez por ano, quer seja no Luso, no Buçaco, em Montachique, no Porto, em Lisboa ou na Figueira da Foz. Certamente por aí…num lugar onde nos sintamos bem.
Até sempre gente boa. Até sempre portugueses, até sempre são-tomenses!

António Bondoso

Um dos implicados.

domingo, 11 de setembro de 2016

UM MESTRE…SIMPLESMENTE ZÉ!

Olá Zé.
É um dia como qualquer outro para viajar. Sei que não se trata de uma viagem vulgar – é a tua última neste nosso tempo comum – mas o dia é de luz, como tu gostavas. E vai atapetando as estrelas até que nos encontremos de novo. 


A última vez que falei em ti, em público, foi durante a apresentação do livro ANGOLA NOUTROS TEMPOS – POR TERRAS DO GOLUNGO E DE AMBAQUISTAS, terras que tu conheceste na tua infância e adolescência, bem como os teus irmãos Irene e António, por motivos de ligações familiares. O livro é da autoria de Jerónimo Pamplona, que em Luanda conheceu e casou com uma jovem de Golungo Alto.
A última vez que estivemos juntos foi aí no teu espaço da Fábrica Social, no Porto, quando um grupo de jovens alunos do Instituto Multimédia se propôs tornar-te personagem de capa de um trabalho sobre a eventual união das cidades do Porto e de Gaia, que tu sempre defendeste.
Mas quando recebi a notícia da tua partida, foi fácil rebobinar o filme de um conjunto de situações que nos foram aproximando ao longo dos anos. Primeiro foi a Árvore, uma instituição cultural de referência da cidade do Porto e do país; depois foi a arte em Vila Nova de Cerveira, que começou com o artesanato e se transformou na grande Bienal que perdura; ainda em Cerveira o teu esforço na recuperação do Convento de San Payo praticamente em ruínas e hoje uma obra de referência no panorama cultural do país; ainda na minha memória, a tua passagem por Macau e a Pérola belíssima que lá deixaste; e agora este espaço fabuloso de ateliers diversos e de teatro – foste, de facto, um dos grandes pensadores e executores de fabulosos cenários teatrais – em que transformaste a Fábrica Social e onde passaste os últimos tempos. E pelo meio de todo este filme não pude esquecer as nossas conversas semanais nos estúdios do Porto da Antena 1, também com o Júlio Montenegro e nas quais fazias parceria com outros comentadores “residentes” como António Vilar e Jorge Bento. 





Para além de tudo isto, uma das situações que mais me marcou, pela tua simplicidade generosa, foi decidires elaborar duas pinturas deliciosamente fabulosas para o meu livro TONS DISPERSOS, publicado pela VEGA em 2003. Uma atitude que revela o teu jovial estado de espírito, a tua disponibilidade para ajudar, sempre a troco de nada. Amizade e solidariedade. Ser-te-ei eternamente grato, sabendo que nunca te poderei pagar o gesto. És, na memória de muita gente, um homem bom. Confesso mesmo nunca ter ouvido uma referência pouco abonatória a teu respeito. E não tem a ver seja o que for com a habitual ideia que se transmite de passamento em passamento…ai, ele era tão bom homem. Não. Tu foste um grande homem!
Como estudante, foste um dos QUATRO VINTES da Arquitetura do Porto. E depois a tua participação na luta para construir a ÁRVORE, enfrentando perigos diversos. Marido, Pai e Avô – outros estádios a merecer um destaque particular.
Não vou poder estar hoje contigo, pois havia já assumido compromissos que me levam para longe do Porto. Mas terei sempre a tua companhia aqui em casa. E continuarei a acompanhar as tuas obras. Até um dia destes Zé. Até já Mestre Zé Rodrigues. Não te era caro este tratamento, mas todos sabemos que era merecido. Sempre grato pela tua Amizade, desejo apenas boa viagem!



António Bondoso
Jornalista
Setembro de 2016.



sábado, 3 de setembro de 2016


40 ANOS...APENAS UMA VÍRGULA NAS MEMÓRIAS DE S. TOMÉ E PRÍNCIPE QUE VAMOS CARREGANDO. O CONVÍVIO NA MATA DO BUÇACO.



É assim que começa a página 73 do meu livro ESCRAVOS DO PARAÍSO, publicado em 2005 para assinalar o 30º aniversário da independência de S. Tomé e Príncipe. Até àquela data – excetuando talvez a excelente tese de doutoramento do investigador Gerhard Seibert, publicada em 2001 – penso não ter havido um escrito com uma abordagem tão profunda e tão diversificada sobre o pensamento, quer de portugueses que sempre se consideraram são-tomenses, quer de são-tomenses que até à data da independência não deixaram de ser portugueses. Um pensamento sobretudo virado para as memórias de séculos, boas e más, para além de uma análise e/ou de um balanço – em certos casos até com desassombro – do trajeto político do novo país africano de língua oficial portuguesa.  
Fazendo jus ao título da página com que iniciava o 3º capítulo do livro, escrevia eu que “Apesar do percurso turbulento, não conheço outra comunidade com «raízes» africanas que se reúna tantas vezes ao ano em Portugal”. E salientava o almoço-volante das terças-feiras num restaurante da baixa de Lisboa; o calulu anual de Junho em Alfaião, com Bragança à vista; os habituais convívios, de forma rotativa, daqueles que trabalharam na Rádio – fosse no antigo Rádio Clube de STP, fosse no posterior Emissor Regional da ex-EN, a partir de 1969; no infalível almoço lisboeta em Dezembro para assinalar o dia do Santo; e particularmente no consagrado convívio da Mata do Buçaco, sempre no segundo domingo de cada Setembro desde 1976. Completam-se agora 40 anos!
Por desconhecimento, seguramente, não me referi então aos mais recentes encontros da malta menos idosa em Montachique e ao dos atletas e dirigentes do Andorinha Sport Clube em Pedralva. E mais recentemente ainda, tentou dar-se corpo a um outro promovido também pelos que passaram pelo Liceu D. João II. Friamente, poderá dizer-se que é um exagero. Sobretudo tendo em conta o facto das presenças mais ou menos recorrentes e, de certa forma, os mais recentes anos de crise que a todos tem afetado.
Mas para além disso, acrescem razões que foram motivando comportamentos diferenciados e que levaram ao declínio de alguns dos encontros/convívios em favor de outros. À dispersão dos interessados – embora o país não seja assim tão grande – e ao cansaço da repetição, ter-se-á juntado igualmente, porventura, a emigração.
Bom. O que realmente importa agora é lembrar o convívio da mata do Buçaco, iniciado em 1976, algum tempo depois do regresso ou do retorno originado pelo inevitável processo de descolonização. Provavelmente, a maioria dos “são-tomenses” já estaria instalada, passada uma natural fase de confusão provocada pelas mudanças. Significativas para muitos. Era ainda um tempo em que alguns tinham “receio” de assumir a saudade da história e das suas vidas e de conviver sem tabus…mas era igualmente um tempo de afirmação de outros, graças ao esforço de mobilização de uns quantos. Como sempre, aliás.
A ideia partiu do senhor Leal, que trabalhou nos Serviços de Fazenda, que terá escolhido a Cruz Alta, no Buçaco, sem dúvida pelo significado do local, mas também provavelmente por ser relativamente perto de Viseu, cidade para onde foi residir após o regresso de S. Tomé. Ao Leal juntaram-se depois o Domingos, do Baía, o Victor Cruz, o Eduardo Duarte, o Oliveira que trabalhou no Auspício & Menezes e mais tarde o Américo Gradíssimo. Cada família levava a sua merenda…mas todos partilhavam tudo. Havia calulus para todos os gostos. Num dos primeiros encontros, recorda o Domingos, apareceram lá elementos dos Serviços Florestais e perguntaram quem era o responsável. De imediato lhe responderam: cada um é responsável pelo que faz. Contudo, entendeu-se depois ser mais correto comunicar a realização do evento aos ditos serviços – até pela simples razão de que era necessária autorização para a abertura dos sanitários e balneários. Durante muitos anos essa tarefa foi desempenhada pelo Victor Cruz. 


E como eu digo no livro ESCRAVOS DO PARAÍSO já referido, não se discutia política: “…os convívios são a expressão de nos revermos nos cabelos mais brancos de cada um ou no abraço do parceiro que, algumas vezes e pela corrida do tempo, já nem recordamos o nome. Sem saudosismos, mas para matar saudades, quem não teve oportunidade de regressar ao paraíso, vai repetidamente enchendo o coração com memórias de outro tempo. Todos continuam escravos do milongo, escravos do feitiço das ilhas do obó, onde o cantar dos pássaros desperta os sentidos. No fundo, a História não acabou nem começou em 1975, apenas mudou de rumo acrescentando outras cambiantes”.
E tal como então, também agora – 40 anos depois – o encontro vai ser marcado por esse espírito. Oficialmente, será o último a ser “organizado” ali. Independentemente de poder haver sempre quem, não esquecendo as raízes, ali continuará a aportar, levando a merenda de uma vida. E por ser o último – é só perceber as razões – este vai ter uma celebração particular. O lanche terá um bolo alusivo, com velas e tudo. Nada se apagará. Mas o objetivo é agregar este encontro do Buçaco ao convívio do Andorinha, no Luso, futuramente talvez no derradeiro domingo de Junho de cada ano.
Assim seja. 


António Bondoso
Setembro de 2016.  

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

1 de AGOSTO DE 1935
A EMISSORA NACIONAL
Foi uma “escola” do regime…mas também do rigor.

Foto da Web

A EMISSORA NACIONAL
Foi uma “escola” do regime…mas também do rigor.

         1 de Agosto de 1935. Data oficial da inauguração da EN. Já havia o Rádio Clube Português mas ainda não havia o transístor. Onde eu hoje ainda ouço atentamente os noticiários, o 5 minutos de Jazz e sigo com reverência as peripécias da Volta a Portugal em Bicicleta. Por exemplo.
         Mas a história da EN, de acordo com várias fontes, começa verdadeiramente em 1930, com a criação dos Serviços Rádio Eléctricos na dependência dos CTT. Tudo avança em 1932 – quando o engº Duarte Pacheco manda iniciar experiências com um emissor de Onda Média, seguindo-se novos estudos em 1934 com um emissor de Ondas Curtas. Os primeiros estúdios situavam-se em Barcarena, mas ainda em 1934 foram transferidos para o nº2 da Rua do Quelhas, em Lisboa – onde a sede da estação haveria de permanecer até 1996.
         Nesse dia 1 de Agosto de 1935, o capitão Henrique Galvão – esse mesmo que mais tarde se rebelou e desviou o Santa Maria – disse exatamente para o que vinha a EN: a Emissora Nacional, realização do Estado Novo é hoje, como mais um soldado que se alista, uma força ao serviço do Estado Novo.
         E foi, de facto. Mas durante muito tempo não esteve só nesse papel. O RCP de Botelho Moniz – esse mesmo que viria a estar ligado a uma das tentativas de golpe contra Salazar – foi um exemplo de colaboração com as forças de Franco durante a Guerra Civil Espanhola. Lendo com interesse a obra O QUE PARECE É, de Alberto Pena (Tinta da China, 2009), ficamos com a ideia segura de que “A rádio portuguesa desempenhou um papel extraordinariamente importante no decurso do confronto bélico. A sua intervenção propagandística a favor dos rebeldes, como veremos, alcançou um curioso e reconhecido protagonismo que, no final do conflito, seria recompensado com inúmeros actos de homenagem organizados pelos vencedores.
A estatal Emissora Nacional e o então arquifamoso Rádio Club Português, fundado e dirigido pelo dinâmico e controverso capitão Jorge Botelho Moniz, foram autênticas trincheiras de combate na luta propagandística com as emissoras leais de Madrid e Barcelona. Com emissões em espanhol e um contacto permanente com as autoridades rebeldes, colocaram-se ao serviço da causa golpista, porque esta representava «os princípios e as doutrinas que tornaram grandes as nações da Península», segundo o próprio Botelho Moniz”.
O conflito no Estado Espanhol viria a ficar conhecido, aliás, como a Guerra do Éter: “Alguns ideólogos do Estado Novo, como o correspondente
de O Século, Leopoldo Nunes, baptizá-la-iam como a «guerra do éter», destacando a «importância decisiva» da rádio portuguesa na «Revolução Nacionalista» espanhola. De facto, o RCP seria um baluarte indestrutível a partir da sua sede na Parede, frente às emissoras de Madrid e Barcelona, que o jornalista luso Oldemiro César via como verdadeiros «balões de oxigénio» para os leais.”
         Depois disso a história seguiu o seu curso e vieram outros acontecimentos que balizaram e balancearam o comportamento radiofónico em Portugal. A II Guerra Mundial, a subsequente “Guerra Fria”…e mais tarde as questões do Estado Português da Índia e as colónias em África e na Ásia. Lembro aqui apenas a importância opinativa das célebres NOTAS DO DIA, na EN, ou as CRÓNICAS DE ANGOLA, de Ferreira da Costa. Sem esquecer, evidentemente, o impacto dos “serões para trabalhadores” da FNAT – transmitidos pela EN.
         Contudo, o serviço ao “regime” implicava um perfeito rigor técnico e uma excelente qualidade literária. Antes do 25 de Abril de 1974, muito aprendi diretamente com Fernando Conde, Hernâni Santos, Maria da Paz, Sebastião Fernandes, Helder Sobral, Manuela Borralho ou Maria Emília Michel. De ouvido e de sentido, tinha exemplos como Igrejas Caeiro, Maria Leonor, Artur Agostinho, Fernando Correia, Romeu Correia ou Nuno Brás. De alguns deles viria ainda a receber ensinamentos fundamentais, recordando-me igualmente de Vasco Fernandes ou João Dias, de Palma Fialho ou de Alfacinha da Silva.
         Não se esgotam neste texto as minhas memórias. Há de vir o livro, por agora em maturação.
         Para quem estiver interessado, ficam alguns links imprescindíveis:
         E não posso terminar sem lembrar com alguma mágoa, a tristeza de saber como viriam a ficar as instalações da sede da EN – e depois da RDP – na mítica Rua do Quelhas: “As instalações desativadas da ex-Rádio Difusão Portuguesa serviram para que a produção da série da RTP recriasse uma sala dos Alcoólicos Anónimos.
As paredes esgaçadas, o cheiro a mofo, os corredores escuros e a perder de vista, as salas de som que servem de armazém a todo o tipo de objetos, as câmaras espalhadas, os cabos entrelaçados uns nos outros. Foi aí, naquelas que já foram as instalações da antiga Rádio Difusão Portuguesa (RDP), que Ivo Canelas, João Tempera e Isabel Abreu estiveram a gravar mais uma cena da série da RTP1 Os Filhos do Rock. "Estamos a reavivar os fantasmas que aqui estão. É um sítio tão sombrio e nostálgico...", disse a atrizà NotíciasTV.”(http://www.jn.pt/revistas/ntv/interior.aspx?content_id=3612665)
António Bondoso
Jornalista
1 de Agosto de 2016.



quinta-feira, 21 de julho de 2016

HÁ BODAS DE FLORES E FRUTAS... 
Ou a memória feliz de um momento único. 

Foto Luminosidades

Há quatro anos dissemos-lhes com simplicidade e com frontalidade que “o vosso bem-estar, a vossa felicidade, as dúvidas, as angústias, as alegrias e as preocupações do dia-a-dia serão também nossas – podem estar certos! Não de uma forma identificada geralmente como de pais corujas (e aborrecidos...ou melgas…) mas numa atitude de abertura para conversar como AMIGOS E COMPANHEIROS de jornada.”
         Hoje acrescentamos a estima pela caminhada e a alegria de assinalar as chamadas Bodas de Flores e Frutas: flores, pelo significado da beleza e pelos cuidados de uma relação – bodas delicadas como é costume dizer-se; e frutas, pelo significado de vitalidade.
         Como então, volto hoje a dedicar-lhes estas palavras de sonho, de esperança e de afetos:
                                          A ELES DOIS                                            
Todas as vidas alcançam um sentido consistente.
A paz...quando se fixa o horizonte
O amor...quando se salta a montanha
A felicidade...quando se acorda de um sonho
E a música se mistura com imagens
Afectos doces de uma realidade serena.
Uma vida...e outra vida
De muito vento mar imenso
E o azul infinito do céu.

Pormenor do original
António Bondoso
Jornalista
Julho 2016

domingo, 17 de julho de 2016

S. TOMÉ E PRÍNCIPE EM DIA DE ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS

É meu uso e costume acompanhar – ou pelo menos prestar alguma atenção – ao que se passa em S. Tomé e Príncipe. Desde sempre e por motivos diversos…e os amigos mais chegados sabem bem do que eu estou a falar. Apesar da distância, embora esse fator possa condicionar alguns pontos de vista. 


Não me movem questões partidárias, como é evidente. Mas a Política, enquanto parte essencial das movimentações sociais, económicas e culturais, é um tema a que não posso fugir.
Apesar de falar com amigos afetos aos mais diversos quadrantes, apesar de ler e tentar perceber o que vai passando nas redes sociais, tenho por feitio abordar qualquer temática por um prisma que envolva as pessoas e a cultura.
A São Lima, que eu conheci como jovem e perspicaz jornalista e que rápida mas seguramente caminhou para o patamar de uma grande senhora das letras, distinguindo-se como Poetisa, desafiou em tempos os conterrâneos a ousar despedir o estigma do medo e dos preconceitos que ameaçam tolher-nos as asas e a repensar no nosso modo de olhar e de nos olharmos, sem jamais nos renegarmos, porque somos. Quanto mais cedo os são-tomenses forem por aí, melhor. Mas o caso é que tudo vai caminhando devagar, devagarinho. Há muita impaciência, claro, e isso nota-se no dia a dia.
Outro companheiro de profissão e homem da cultura igualmente é o Frederico Gustavo dos Anjos. Muitas vezes tem sido ele a esclarecer-me sobre os olhares que vão condicionando a perceção sobre o que se passa no país. E agora, mais uma vez, não foi exceção. Coloquei-lhe algumas breves questões e ele, apesar da desilusão que o consome, não se furtou a responder:
***** Na tua opinião, o que se poderá considerar verdadeiramente como NOVIDADE nestas eleições Presidenciais (para além do facto de haver uma mulher candidata e da recandidatura de Pinto da Costa)? 
FGA ==== Opinião muito íntima:
1- A campanha começou há muito tempo; com órgãos de comunicação social "intimidados" ao serviço da propaganda do Governo e do partido que o sustenta; com a administração pública "amedrontada" por ameaças de despedimento.
2- Sobre os acontecimentos dos últimos 15 dias: tudo em torno da necessidade de estabilidade. Mas para o ADI só haverá estabilidade com o seu candidato porque os outros seriam ameaça à continuação do actual Governo. (Se entendes isso seria a "novidade").

***** Uma Campanha pode ser ESCLARECEDORA com ausência de debates?
Nenhuma Instituição "independente" (como a Universidade Lusíada, por 
ex), foi capaz de promover um debate?
A ausência da Rádio e da TV (Públicas) ter-se-á devido apenas à falta de 
meios operacionais? Ou não houve vontade e capacidade?
FGA ====
3- De resto fomos assistindo na comunicação social ao cortejo de realizações (?) do Governo que supostamente precisam ter continuidade. (Nesse quadro não lhes interessava que houvesse qualquer debate).
***** Houve sondagens regulares? Ou apenas se pôde ver a mobilização de rua nos comícios? E houve "ELEVAÇÃO" no discurso político?
FGA ====
4-O candidato do ADI ficou ofuscado ao longo de toda a campanha pela presença do Chefe do Governo que se comportou como se fosse ele o candidato. (Pessoalmente não esperava outro espectáculo!).

*****O que pode esperar o país destas eleições? Mais INSTABILIDADE? 
FGA ====
5-Os que querem o poder a qualquer preço andam a investir muito dinheiro (segundo consta!) e a fazer muitas promessas
.6-Pessoalmente não votaria neles sob nenhuma condição!
7-Esperemos para ver o que acontece no domingo.

***** Vamos esperar para ver. Sem medos, sem preconceitos, sem estigmas. E que a escolha seja livre! E possa fazer sentido no que respeita ao futuro. Já não faltam muitas horas para sabermos. Um bom domingo para todos os são-tomenses, em democracia!
António Bondoso
Jornalista
17 de Julho de 2016.  

Safú
E enquanto não sabemos o resultado da votação, é muito natural que haja um certo impasse. Por isso vos revelo hoje um poema inédito:

IMPASSE SUBTIL….

Se adormeço
Não estou vivo
Se apareço
Não consigo
Decidir se vale a pena
Permanecer neste impasse.

E com tanta indecisão
Voltamos sempre ao começo:
Eu sou, estou mas não quero
Sonhar sonhos impossíveis
E nem sequer reconheço
Que tudo seria simples
Por muito que me custasse.

Pareço estar entorpecido
Subtilmente adormecido.
==== António Bondoso
Maio 2015. 


Fruta-pão 
António Bondoso
Jornalista

terça-feira, 12 de julho de 2016

A TODOS OS “ÉDERS” “PEPES” E “PATRÍCIOS” DESTE MUNDO…

Foto da Web...para Interpretar como Quiserem.

A TODOS OS “ÉDERS” “PEPES” E “PATRÍCIOS” DESTE MUNDO…
…Ou de como tantos disparates lidos e ouvidos durante este campeonato europeu de futebol mostram que o “preconceito” continua a ser filho do egocentrismo e da ignorância e afilhado da pobreza: física e mental.

Vivi em S. Tomé e Príncipe 21 anos da minha existência, lá cresci e me fiz homem, brinquei, estudei e trabalhei com amigos de todas as etnias e origens. Tenho bem presente que nunca me referi a qualquer deles tratando-os ou distinguindo-os pela cor da pele. Sempre tratei cada um pelo seu nome próprio…apenas constituindo exceção, pela maior convivência diária, o tratamento por alguma “alcunha” de marca. Não me surpreende que esta questão continue a estar na ordem do dia das sociedades, sabendo sobretudo como este mundo é cada vez mais desigual, fruto de circunstâncias que os comuns mortais são incapazes de contornar – designadamente de uma “globalização” desumanizada que gera pobreza, alienação e analfabetismo.  
Entristece-me. Muito. Independentemente das causas e das motivações, pois há mais “emoção” do que “razão” nestes debates, particularmente os das redes sociais. Cultura e Instrução precisam-se.
Em Abril deste ano escrevi um texto que agora não prescindo de partilhar. E diz assim:
“RACISMO”

«Falta de instrução valoriza o preconceito.
Falta de educação potencia o preconceito.
Falta de cultura justificará sempre o preconceito.
Falta de tolerância agravará eternamente a evidência do preconceito.
Falta de caráter aumenta o risco de preconceito.
Falta de princípios alimenta o preconceito.
A pobreza marginaliza e o preconceito estará sempre para além da raça.
O estrangeiro, o que é diferente, não pode ser entendido como ameaça.
Eu e o outro podemos sempre beber da mesma taça.»

Entretanto, não resisto igualmente a convidar-vos a ler um excelente artigo sobre esta temática. A reflexão séria indica sempre caminhos.
         Obrigado por me terem dado um pouco de atenção e pela paciência e disponibilidade para a leitura.
Julho de 2016
António Bondoso
Jornalista


domingo, 10 de julho de 2016


MAIS DO QUE UM JOGO DE FUTEBOL...OU DE COMO O FUTEBOL É UMA ARTE!
Vai ser o Europeu do bate, bate...bate e foge como na tática de guerrilha. 

Fotos da Web

O FUTEBOL É UMA ARTE

O futebol é uma arte da qual
Nem todas as ciências fazem parte.

Das exatas bem se vê
Pois de muitas outras há sinais
Como a tática e a física
Também a espiritual
E outras tantas bem empíricas
Sejam formais ou naturais
Dizem que até sociais.

Da geografia à política
Da história à astronomia
Tem a estratégia um lugar
Definido a bom preceito.
Mas é da mente e da sorte
Que salta a alma do peito
Quando o golo acontece e a razão
Cede o lugar à paixão!

O futebol é mesmo uma arte…
E todo o resto é à parte!
===António Bondoso.



Foto C95
António Bondoso
Jornalista
Julho de 2016.

sábado, 9 de julho de 2016


ANTES QUE SEJA TARDE...OU COMO VALORIZAR O QUE JÁ GANHÁMOS NESTE EUROPEU DE FUTEBOL

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ANTES QUE SEJA TARDE.

Aconteça seja o que for no jogo da final do Euro, em Paris, Portugal e os portugueses já ganharam muito neste verão de 2016. Para além do orgulho de participar num momento decisivo – neste caso a ver com o futebol – os selecionados, pelo seu comportamento vitorioso [mesmo reconhecendo que o futebol praticado não foi espetacular], deram a conhecer ao país uma diáspora ímpar. Particularmente a de França…mas não só. Permitiram, por outro lado, ficarmos a conhecer manifestações de carinho e de apoio um pouco por todo o espaço lusófono, não podendo esquecer as imagens que nos chegaram de Timor-Leste. É caso para ter a autoestima em alta. E a Fé. E a Esperança. E a Crença. Um ganho acrescido, tendo particularmente em atenção as angústias, as frustrações, o desespero, o desânimo, as humilhações a que temos vindo a ser sujeitos nos últimos anos.
Por isso, devemos assistir ao jogo com a máxima tranquilidade – independentemente de não abdicarmos da nossa tradicional energia latina – aceitando o resultado, qualquer que ele seja, e sem pretender ter a tentação de responder às provocações de alguns atávicos, incultos e chauvinistas de outros países, pois esses ataques não têm tido origem apenas na França. Deve prevalecer a nossa matriz multicultural que, sobretudo hoje, nos coloca numa elevada consideração em todo o mundo. E depois, há que ter sempre presente que o futebol não é uma ciência exata, existindo uma série de imponderáveis que conduzem a um de três resultados possíveis. Portanto, sabendo e aceitando as condicionantes do fenómeno, devemos manifestar serenidade, cordialidade e respeito, independentemente de não dispensarmos os gritos de apoio aos jogadores portugueses ou o nosso protesto sobre uma decisão do árbitro. E creio mesmo que devemos até festejar o simples facto de termos participado na final do torneio.
Escrevo isto, antes que seja tarde.
Sem pretender calar a euforia e a alegria que envolvem uma final [confesso não ter qualquer bandeira pendurada na janela, pois o meu apoio vai muito para além disso], quero apenas significar que, a esse estado de alma, não poderá seguir-se a desilusão, não poderemos entrar em depressão se o resultado for negativo. Tem acontecido inúmeras vezes, é certo. A verificar-se de novo, não será a última seguramente. Por isso, e antes que seja tarde, mantenhamos a autoestima em alta. Independentemente do resultado do jogo, independentemente da saída do Reino Unido da UE, independentemente de haver sanções dessa mesma UE ao nosso país. A construção da UE tem sido referida como um exemplo no concerto das nações, mas seguramente não é esse o sentimento que hoje prevalece no relacionamento entre os dirigentes tecnocratas de Bruxelas e os povos dos Estados-Membros.
Antes que seja tarde – força Portugal!
Antes que seja tarde – viva Portugal!
Já ganhámos muito. Ainda temos muito para ganhar!
António Bondoso

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António Bondoso
Jornalista
Julho de 2016.