2018-08-07


UM LIVRO DE VEZ EM QUANDO… NESTE ANO DE 2018 [3].
A ALMA DE UM POVO…ou de como as memórias publicadas/partilhadas podem ajudar «um povo de fé e um povo de trabalho», a encontrar ajuda e motivação para, valorizando o passado, trilhar caminhos de futuro sustentado. 


Pe José Salvador, Lurdes Jóia e Teresa Adão

A ALMA DE UM POVO…ou de como as memórias publicadas/partilhadas podem ajudar «um povo de fé e um povo de trabalho, um povo de paz e de respeito, um povo de saudade e de gratidão, um povo que ama o seu passado histórico, um povo de partilha e solidariedade, um povo de migração» a encontrar ajuda e motivação para, valorizando o passado, trilhar caminhos de futuro sustentado. O povo a que se refere o Pe. José Salvador, que prefaciou o livro de Lurdes Jóia – editado pelas Edições Esgotadas – é o povo da freguesia de Castelo, concelho de Moimenta da Beira.
         Ao apresentar a obra da «castelense» Lurdes Jóia, o Padre José Salvador identificou há dias o problema da desertificação – e dos principais apêndices – como uma das grandes causas do esquecimento. Do fecho da «escola primária», com duas salas cheias de crianças, à diminuição – para mais de metade – dos que têm vindo a frequentar a catequese em Castelo, José Salvador autorizou-se a pedir aos castelenses, não só de nascimento, para que regressem sempre e passem aos seus filhos a «cultura» da terra: toda a história, com as suas tradições, os seus costumes, os valores humanos e patrimoniais. 

Lurdes Jóia, também em dia de Aniversário

Lurdes Jóia – ela própria um antigo produto da emigração – praticamente responde ao apelo do Padre Salvador expondo boa parte da sua vida privada neste «estudo» [pois de um “estudo” se trata, embora não referenciado como tal] sobre Castelo. E depois, inclui o que de mais significativo existe sobre lendas, contos e história dos monumentos da freguesia. No fundo, a autora escreve sobre as vivências e sobre a herança de um povo cuja alma tem raízes «nas vozes do tempo». Apesar de todas as transformações, as que melhoraram e as que subtraíram, Lurdes Jóia diz que a essência da «aldeia» é a mesma, a alma permanece intacta. E a sua riqueza provém dos corações das pessoas, que são de uma simplicidade única.
         Numa região da Península (Ibérica) que os Mouros dominavam até ao Douro, diz a autora que apareceu na segunda metade do séc. IX uma povoação que recebeu o nome de Santa Maria de Lobazim, mais tarde dividida em duas aldeias – Castelo e Nagosa – ambas incorporando hoje o concelho de Moimenta da Beira. Embora não referenciando as suas fontes, Lurdes Jóia acrescenta que, no séc. XIII, o nome de Lobazim «começou a ser substituído por Castelo, de onde os frades de Salzedas recebiam muitos foros de pão, vinho, cera, cabritos e dinheiro», situação que se verificaria ainda em 1598. E refere que ainda existe a casa onde moravam estes frades em Castelo.
         A autora, que fez publicar em 2015 o seu primeiro romance O universo do amor o poder da paixão e que hoje reside e trabalha em Braga, fez notar na sua dedicatória ao meu exemplar do seu livro agora em apreço «CASTELO - A ALMA DE UM POVO»…que o sonho seja uma constante da vida! É esta ideia que Lurdes Jóia destaca igualmente já na parte final da obra quando escreve que a natureza «tem pensamento, tem o seu mistério, é o mistério da vida, (…) é uma constante da vida, a vida de uma aldeia, a alma de uma terra. Da minha terra…». Feliz da terra que encontra alento no esforço dos seus filhos. E que a alma se eleve Lurdes Jóia. Um abraço do                    
António Bondoso


Parte da assistência no Salão Nobre do Centro de Dia de Castelo

António Bondoso
Jornalista
Agosto de 2018. 


2018-08-02

UM LIVRO DE VEZ EM QUANDO…NESTE ANO DE 2018. [2]
Ou de como um Professor que eu conheci em S. Tomé – José Casinha Nova – se vai transformando num verdadeiro contador de histórias e num perspicaz «gravador» de memórias, do Algarve a Timor…e talvez S. Tomé e Príncipe. 


Falar de ou escrever sobre UMA VIDA INTEIRA será sempre, e sob qualquer ponto de vista, transmitir uma visão redutora da riqueza humana e patrimonial da aldeia algarvia de Burgau – o último posto avançado do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, já muito perto da cidade de Lagos onde nasceu Tibúrcio, o principal personagem desta obra em apreço, da autoria de José Casinha Nova.
         Casinha Nova, ele próprio natural de Burgau, freguesia de Budens e concelho de Vila do Bispo, foi meu professor de Literatura no então Liceu de D. João II, em S. Tomé, na segunda metade da década de 60 do século passado. Foi igualmente docente em Portimão e em Faro, depois de haver cumprido o serviço militar em Timor. Esta ex-colónia portuguesa, aliás, mereceu já uma reflexão do autor não há muitos anos. Memórias de Timor – assim está referenciado – é um excelente livro de consulta sobre o passado deste novo país de língua oficial portuguesa e destaca a paixão que o território lhe ofereceu titulando RAN MÉAN ÔTU, que significa O SANGUE É TODO VERMELHO.
         Agora, neste seu Uma Vida Inteira (vertida na experiência dos seus preenchidos 84 anos), José Casinha Nova regressa às origens ficcionando a vida de uma típica família algarvia do início do século XX, no seu espaço social, económico e cultural que é Burgau, na sua história e nas suas «estórias», nas suas lendas e nas suas memórias. Não lhe poderei chamar uma «autobiografia», pois o autor não assume a obra como tal, mas a “ficção” é tão real, tão pormenorizada, que – confesso – essa ideia continua a perpassar a minha reflexão.
         Para além de historiador, Casinha Nova assume o excelente trabalho de um retratista e paisagista ímpar, não deixando igualmente – nunca – a sua eterna condição de professor. Não só pela qualidade da escrita, claro, na qual não esquece o tradicional falar algarvio, mas também pelo facto de «valorizar a Escola». Como? Por meio de uma cerrada crítica ao funcionamento da época. De pedagogia, nem falar! O professor «debitava» e os alunos – aqueles afortunados por poderem frequentar – tinham por missão decorar. E quando não decoravam…os tradicionais castigos corporais. Havia uma sala com alunos da 1ª à 4ª classe, uma só professora e nada de aquecimento no Inverno. E depois, o corolário dos retratos de Carmona e de Salazar com o cartaz de Deus, Pátria e Família. Os livros tinham todos grande carga política – escreve Casinha Nova. Para além das alusões a Salazar, havia igualmente «uma abundante prosa de religião católica». Não admira, portanto, que os alunos faltassem às aulas «para ir para um canto da praia jogar às cartas com outros rapazes analfabetos, pois os pescadores de Burgau não punham os filhos na escola». 


Sem pretender desvendar a narrativa, não parece curial esquecer a localização geográfica de Burgau. Podem sempre acompanhá-la na figura anexa, mas o autor encarrega-se de lembrar: «A aldeia de Burgau fica situada exactamente na extremidade sul da famosa Costa Vicentina a oeste do Cabo de S. Vicente que dá nome à dita Costa e tem a particularidade de, embora pequena, estar dividida entre duas freguesias, a da Praia da Senhora da Luz, concelho de Lagos, e a de Budens, concelho de Vila do Bispo». Vista do mar, ao longe – prossegue Casinha Nova - «Burgau lembra uma gaivota pousada em dois estaleiros, o da Teimosa e o do Burgau Velho. As patas da gaivota são duas ruas quase paralelas que vão terminar nos tais dois estaleiros».
José Casinha Nova, exímio retratista das muitas histórias e memórias, acaba por convidar o leitor a viajar no tempo, conhecendo uma povoação pesqueira algarvia antes do advento do turismo de massas. E consegue-o, não só pela palavra, mas também pelas imagens que ilustram profusamente a obra. Pela parte que me toca mais, o destaque da grafonola – pois nesse tempo nem a Rádio existia. E fazer funcionar a grafonola só por meio de uma manivela para dar corda, uma vez que nem eletricidade havia. E depois há o mar, a pesca, a poesia e os tempos difíceis da II Guerra Mundial.
         Uma Vida Inteira é, portanto, um desfiar de estórias e de memórias a partir de Tibúrcio e da sua mulher amada Aldegundes, ele um homem de visão empreendedora, ela uma mulher resoluta, dedicada e empenhada na manutenção do espírito familiar.
         Quem ler, por certo perceberá como o autor foi capaz de me injetar o gosto pela leitura passando primeiro, claro, pela «obrigação» de o fazer. Já lho manifestei, e volto a repetir, a Casinha Nova devo muito do meu gosto pela escrita. E embora não fosse um aluno muito aplicado, recordo hoje como foi decisiva a fórmula por ele «inventada» para nos «obrigar» a ler e a perceber. Simplesmente criou uma «ficha de leitura», na qual deveríamos resumir a obra indicada e autorizada pelo sistema. É só ver a figura.
         E não perca a oportunidade de, lendo o livro, ficar a saber o destino de Tibúrcio e da sua família, não apenas em Burgau. É UMA VIDA INTEIRA, dada à estampa pela Arandis Editora. Boa leitura e um abraço muito particular ao Professor José da Conceição Casinha Nova, ficando à espera do próximo relato sobre S. Tomé e Príncipe. 


António Bondoso
Jornalista
Agosto de 2018. 


2018-08-01

A MINHA RÁDIO HÁ 51 ANOS.
Alguns dos que passaram…ainda me falam de Rádio.
“A Rádio é um instrumento de Liberdade porquanto é um apelo permanente à Criatividade”.


 O texto que segue foi escrito o ano passado. E como eu não gostaria de ver, este ano, o comunicado da CT da RDP - hoje integrada no grupo RTP - que anexo. Apesar de tudo, a RDP ainda é uma das Rádios com Gente Dentro.

«Houve um tempo em que, também em Portugal, se podia citar com orgulho o pensamento do publicitário Bob Schulberg: “Se a televisão tivesse sido inventada antes, a chegada da radiodifusão teria feito as pessoas pensarem: - Que maravilhoso que é a Rádio! É como a televisão, só que nem é preciso olhar!”
Encarar o futuro não pode deixar no esquecimento a importância do passado e, porque as incertezas são imensas, é preciso encarar o presente com muito realismo. Anunciada ciclicamente – televisão, internet, era digital – a morte da “rádio” tem vindo a ser adiada, não por milagre, antes pelo combate e pelo empenho na capacidade de adaptação aos novos tempos. E de muitos que ainda lá trabalham com empenho e com profissionalismo. Mas não bastam as novas tecnologias, não é suficiente “arrumar” tudo ou quase tudo no disco rígido de um moderno computador. É preciso que a rádio volte a estar com as pessoas e que tenha gente dentro! Que seja capaz de pensar e de refletir e que saiba provocar no auditório a capacidade de dialogar, discutir serenamente e reagir aos desafios.
Não basta que a evolução tecnológica aconteça e seja bem aproveitada. É fundamental dar-lhe conteúdo. E sonho!
Quando sinto e penso em todas as montanhas que ainda não subi; em todos os rios que ainda não naveguei; nas matas densas onde ainda não me aventurei; nos desertos secos de vida qua ainda não dessedentei; em todas as viagens que ainda preenchem os meus sonhos... e quando sei todos os sonos que ainda não dormi e em todas as madrugadas a que cheguei atrasado e não vi nascer o Sol para além do infinito que imagino – mesmo sem ouvir a Onda Curta a que me habituei no transístor Sony de nove bandas, companheiro de viagem sempre que saía do país em reportagem ou em férias.
         E neste ano…como recordo com emoção o início da minha atividade no Rádio Clube de S.Tomé e Príncipe em finais de 1967. À experiência, primeiro…com retribuição de 250 escudos depois, sempre subindo etapas, aprendendo diariamente com os mais velhos: Carlos Dias, José Maria Rocha, Victor Dias, Carlos Cardoso, Victor Nobre, Raúl Cardoso, Daniel Pinho, Manuel Sá, Firmino Bernardo, Mina Malé. Dois anos depois – e após algumas peripécias – chegava a Emissora Nacional. E novos camaradas que me foram passando conhecimentos, como Fernando Conde, Sebastião Fernandes, Guilherme Santos, Manuela Borralho e Maria Emília Michel. Alguns destes já passaram…mas, para mim, ainda continuam a falar-me de Rádio. Com serenidade, sem pressas – quantas vezes a pressa é má conselheira – com entusiasmo, com responsabilidade. E ouço, continuo a escutar. E muitas vezes não aprecio o que me transmitem. Melhor dizendo – a forma como me transmitem. Mas há momentos de consolo e de prazer. Felizmente ainda há alguns, que me chegam sobretudo pelo meu transístor. Ou no automóvel quando viajo.
Sem memória não há História! E depois, como dizia o jornalista “Sam Ridley” – investigador criminal na londrina City Radio[1] - “A rádio não depende de imagens, e essa é uma das razões porque gosto dela. O olho pode ser um órgão muito enganador”.
13 de Fev. de 2017
António Bondoso



[1] - NILES, Chris. OS MORTOS NÃO FALAM NA RÁDIO. Bertrand, 2003.



António Bondoso
Jornalista
1 de Agosto de 2018.
Não menosprezem a Teodora. Este é um aviso sério…logo agora que eu atingi as setecentas publicações no meu blogue. Não é que eu faça disto uma festa e deite foguetes. O blogue chama-se «Palavrasemviagem» e, como tal, a pressa não é um atributo. A escrita tem o seu tempo.



A propósito do BE vomitou-se ética por aí. Depois discorreu-se sobre o co1mbate aos incêndios com mangueiras obstruídas da GNR. Bastaram poucos dias para tudo se (re) compor com a cátedra do Passos e com o futebol de novo – agora proeza dos Sub-19. E, de repente, à «inteligência» dos nossos média escapou o terrível aviso da Teodora a propósito da depressão, ou recessão, que não vai demorar cinco anos.
A TEODORA É MESSIÂNICA? NÃO…diz apenas o que os «Donos Disto Tudo» pretendem. O FMI disse uma, duas, três vezes…mas isso não chega. A “proximidade” é muito mais intensa. E quando soam as campainhas do Conselho das Finanças Públicas…é música para os nossos ouvidos.
Os donos disto tudo – a alta finança – ligam tudo no mesmo circuito e sabem gerir o dinheiro. Ora tiram aqui para emprestar (?) ali…como e quando lhes convém. O défice, ou melhor…o (des) controlo do défice (e por mais que digam que não) está intimamente ligado à recessão. E desta à chamada bancarrota é um passinho. Depois aparece uma «Troika», os chamados agiotas, e dizem que vieram para salvar a situação. Selecionam a dedo os países e as regiões. E os seus «homens de mão», normalmente os políticos da direita empedernida, fazem eco desse medo anunciado. Pelo meio, acontecem as chamadas oscilações climáticas – que eles negam – provocando amiúde catástrofes de um sentido trágico incomensurável.
E a Grécia, acabadinha de sair do pomposo Procedimento Por Défice Excessivo, tal como Portugal em 2017, viu-se agora confrontada com uma tragédia terrível. Semelhante à que atingiu Portugal o ano passado. Mesmo que as pessoas já tenham esquecido…«eles», os Donos Disto Tudo, a Troika, a Alta Finança, encarregam-se de lembrar a «populaça».
E depois, para distrair, acrescentam – ou fazem acrescentar – uns pozinhos para emprestar alguma graça. Por exemplo…a água em Marte. Mas há mais:
Ex-assessor de Trump cria grupo para enfraquecer União Europeia
Steve Bannon, ex-estrategista político do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o ativista anti-UE Raheem Kassa criaram uma organização política com sede em Bruxelas com o objetivo de enfraquecer e, por fim, paralisar a União Europeia, disseram os dois à Reuters.

Perseguições, torturas e assassinatos: a direita avança na Colômbia

O presidente recém eleito da Colômbia, Iván Duque, fez sua campanha com base no discurso de ódio contra a esquerda e os movimentos sociais. Mais de uma vez afirmou que faria ‘trizas’ [deixaria em farrapos] do Acordo de paz com as Farc. Ele nem chegou ao Palácio de Nariño e a direita já avança sobre os movimentos sociais com perseguições, torturas e assassinatos.
E a Venezuela? Por favor, não deixem cair em saco roto as premonições da D. Teodora Cardoso. Não se queixem.
António Bondoso
Jornalista
Julho de 2018

2018-07-24

UM LIVRO DE VEZ EM QUANDO…NESTE ANO DE 2018.
Da beleza natural do cair da noite…à poderosa lindeza das palavras entrançadas do santomense Albertino Bragança – um «paisagista» nato.  


Ponderado na escrita e na seleção das ideias, pode dizer-se que este «Homem», que já era «doutor» antes da literatura, adotou um «leve-leve Q.B.» na sua produção literária, procurando antes a certeza do impacto e a previsão do sucesso em cada título dado à estampa.
O cair da noite, nos trópicos, é um fenómeno de rara beleza. E cheio de vida, ao contrário do que se possa imaginar. A melodia dos mais diversos sons (o fascínio do regresso a casa dos papagaios, na Ilha do Príncipe, por exemplo), as cores do sol poente, a tonalidade das águas do mar, um cenário idílico. S. Tomé e o Príncipe não fogem à regra. Mesmo que depois a “noite fique cerrada e chuvosa”, como o autor escreve na primeira frase do primeiro capítulo desta sua obra de 2017 – AO CAIR DA NOITE!
Paisagista nato, como disse, verdadeiro conhecedor da Natureza das Ilhas e da natureza dos seres humanos que as habitam…Albertino Bragança começa por não esquecer o secular «boato», mais recentemente também designado por “rádio boca a boca”, um mal enraizado desde sempre e que, não raras vezes, terá estado na origem de alguns conflitos célebres – como por exemplo a chamada “crise do censo”, quer na época colonial, quer já no período pós independência. O boato está precisamente no cerne do enredo da obra em apreço.
Político experiente e conhecedor dos meandros sensíveis da vida dos gabinetes ministeriais – o autor desempenhou nomeadamente o cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros – a temática alimenta todo o romance, destacando-se a conciliação entre o ministro Virgílio Carvalho e o diretor de serviços João Sabino, cujas famílias andavam desavindas há décadas, precisamente na sequência da crise do censo. Em contraste com essa atitude, a intransigência de um Primeiro-Ministro que havia exigido a distribuição de lugares apenas para funcionários das suas cores, independentemente da sua competência.
Trata-se de um romance, é ficção, e desta história não poderá retirar-se qualquer «semelhança com a realidade», pese embora a liberdade de os leitores conduzir as suas ideias para um determinado alvo.
Contudo, não deixa de ser verdade que a reflexão de Albertino Bragança aponta para o desejo de pacificar a sociedade santomense, inclusivamente no que respeita às «famílias partidárias». Mas o respeito pela nobreza do exercício da atividade política não pode pressupor o aniquilamento da capacidade das oposições para o «combate», embora se admita um enfraquecimento temporário.
Confesso não estar na minha ideia inicial transformar a essência desta apreciação literária num eventual «debate» político, muito menos partidário. Retomo, por isso, outros pontos de vista que despertaram o meu interesse neste «Ao Cair da Noite» e, dada a minha proximidade com as Ilhas, notar desde logo a minha identificação com algumas expressões superiormente utilizadas pelo autor. Há quanto tempo eu não lia/ouvia a palavra “estacar”! E Albertino usa a expressão por mais do que uma vez neste livro. Tal como utiliza expressões do português corrente falado à «moda terra», enriquecendo a narrativa: “Gente só precisa saber se você ainda quer sua mulher ou não. Só assim gente pode saber qué que gente faz”. Ou esta perspetiva de uma festa de arromba no aniversário do avô Júdice: “Ambiente vai ficar ele próprio! É feriado, ninguém não pode faltar. Você Já!...”. E fá-lo tão naturalmente como nos brinda, em simultâneo, com a beleza e leveza do mais puro léxico na língua de Camões, dando corpo à sua veia de paisagista nato: “Olhou de relance pela baixa janela o tempo magnífico que fazia lá fora, o vento balouçando delicadamente os ramos das árvores e tornando mais amenos os efeitos dos raios de sol, num lírico início de tarde como apenas a gravana pode proporcionar”. E se não valorizam esta, posso oferecer-vos outra, convicto de que não quebro qualquer regra deontológica. Pelo contrário, pretendo despertar o interesse na leitura da obra: “Sumia a tarde, mas redobrava de vigor o rumorejar do vento nos terrenos anexos ao grande quintal. A noite aproximava-se sem demasiada pressa, como se pretendesse contemporizar-se com a réstia mortiça do sol despedindo-se lá longe, na fímbria estreita do horizonte”.
Ao Cair da Noite, de Albertino Bragança, para se deliciarem. 


António Bondoso
Jornalista
Julho de 2018. 


2018-07-18

100 ANOS (OU QUASE)...FOI POUCO TEMPO!
UM PEQUENO TRIBUTO A UM GRANDE HOMEM, A UM GRANDE LÍDER.


Há 5 anos escrevi:
NELSON MANDELA – O POEMA DO HOMEM COMEÇA AGORA!

“Tudo principia no princípio/o nascimento e a morte/…/ - O poema principia no fim!”
São letras e palavras de um poema de Luís Veiga Leitão que, tal como Madiba, conheceu os horrores da prisão e da tortura. E como disse Mandela, “tudo é considerado impossível até acontecer”! Por isso, o seu “poema” começa agora. Para que a memória não se apague e possa iluminar os que tomaram as rédeas do destino. Nelson não mudou apenas um país. Conseguiu (re) construí-lo sobre os escombros de um regime controverso, polémico, desumano. E fê-lo com um grande coração e com uma mente aberta e visionária. Mandela soube perdoar sem perder a firmeza dos grandes líderes. E não conseguiu apenas um Estado democrático e de direito – ganhou também uma Nação.
Partilhou a dor e o sofrimento mas igualmente a alegria de não levar consigo qualquer segredo. Todos puderam aprender as suas lições de vida, seguindo pensamentos metodicamente elaborados e que – nesta hora do seu passamento – quase atingem o limite da vulgaridade.
Socorro-me então, de novo, de Luís Veiga Leitão – para recordar que, ao prisioneiro (como um navio), pode cair-lhe a pintura e até o próprio nome, “Mas o mar está dentro dele/ e não há força que o dome”. E o Poeta e Mandela foram homens que vieram “dos cárceres da noite” e “vestidos de pedra”.
Perante tais gigantes, escuso-me a dizer mais seja o que for. Prefiro partilhar o silêncio dos humildes. E sei que o “poema” de Nelson Mandela começa agora…no fim!
António Bondoso
5 Dezembro de 2013.
Depois, em 2014, fiz publicar um «Pequeno Tributo» no livro EM AGOSTO...A LUZ DO TEU ROSTO, como segue: 


PEQUENO TRIBUTO…

(“A bondade do homem pode ser escondida, mas nunca extinta” – Nelson Mandela).

Confessas?
*Justiça!
Negas?
*Justiça!
Que pretendes?
*Justiça e Liberdade!
A prisão há de vergar-te.
*Nunca! “Sou o dono do meu destino”.
Vais sofrer encarcerado
*Serei livre…sofrendo! “Sou o capitão da minha alma”.
Na ilha definharás
*O meu horizonte é o Povo.
Mas é um povo amordaçado, espezinhado, oprimido, subjugado…
*Levantar-se-á no martírio e beberá as lágrimas da Dignidade!

“Ergueu-se, derramou sangue e suor
Moveu montanhas solidárias
O mundo percebeu toda a urgência
E fez com que mudasse tal tragédia.

 Então o Homem
“Tata” Madiba,
De punho erguido e coração radioso
Provou do Poder toda a justiça
Caminhou humilde em busca de um tempo novo
E mostrou ao país uma nação.
Depois…
“Khulu” Madiba,
Serenou com júbilo o seu espírito
Alimentou de alegria outros amores
Atingiu a dimensão da eternidade
No perdão.
Hamba kahle Madiba
Nkosi Sikelele iAfrica”.
======== António Bondoso
Dezembro de 2013.
*** Com dois versos do poema INVICTUS, de William Ernest Henley(1875).
No livro: EM AGOSTO…A LUZ DO TEU ROSTO, 2014.
&&&&&&&&&&&&&&&&&&
*** Madiba = Nome do clã a que Mandela pertencia e derivado do nome de um chefe que governou a região do Transkei no séc. XVIII.
*** Tata = Pai (Língua Xhosa)
*** Khulu = Avô ( “    “ )
*** Hamba kahle = Adeus ( “  “ )
*** Nkosi Sikelele iAfrica = Senhor, abençoai a África ( “  “) 

António Bondoso
Jornalista
Julho de 2018       

2018-07-17


***** Impróprio para cardíacos...palavras eventualmente chocantes na interpretação da «História».

Foto de Ant. Bondoso

Se não fossem esses tarados dos "portugueses" (descendentes de tantos outros povos que lutaram contra invasões e escravidão) terem tido a tentação de sair deste promontório e enfrentar a aventura do desconhecido...como teríamos hoje um mundo perfeito e maravilhoso.
Mas não. Os tugas (todos sem exceção) foram por aí fora...e mataram, destruíram, queimaram, degolaram, retalharam, roubaram, escravizaram, enganaram, aterrorizaram, atentaram, fornicaram, prenderam, traficaram, mentiram, exploraram, abusaram, humilharam - mesmo onde tudo era deserto.
Porra para os tugas, que chatice, meteram-se aonde não deviam, coisa estranha, devem ter enlouquecido. Com que direito construíram naus e caravelas e se puseram a explorar o mar profundo e outras terras a saber? Descobriram? Acharam? Conquistaram? Colonizaram? Inventaram? Cobiçaram? Esconderam? Apagaram? Aldrabaram? Aculturaram?
Porra! Como é que um mísero e ralo povo fez tudo isso? E ninguém deu conta? E ninguém investigou? E ninguém protestou? E ninguém se revoltou? Foi assim...tudo de mão beijada? Claro que não! E todos sabemos que não. Na esfera do relacionamento internacional...as "amizades" (só) não contam. Apenas (e sobretudo) os interesses!
De outra forma...como entender a eternização do mal?                    
Foram os tugas, sozinhos, com a cruz na esquerda e a espada na direita que alteraram a relação entre os povos. Sem ninguém lhes encomendar o sermão! Ou melhor…certamente que a «Santa Sé» e o «poder de Roma» terão dado uma mãozinha decisiva. Esses malandros da «Cúria Romana» não perderiam a oportunidade de “empurrar” os ignorantes, ingénuos e petulantes tugas para tal empresa suicida.
         E é assim que, decorridos quase sete séculos, os agora impolutos historiadores do politicamente correto – baseados nas fontes que existem desde sempre – entendem e pretendem que, afinal, foram os tugas que deixaram o mundo neste estado caótico. E não assumem a «culpa» e nem sequer pedem «desculpa». Só mesmo dos tugas! E fazem-no…com o mesmo descaramento – quiçá a mesma estultícia – com que decidiram tomar o caminho do mar para descobrir! E isso, os impolutos historiadores do politicamente correto – a que João Pedro Marques chama de «marxismo cultural», e que tem invadido o debate científico por um certo argumentário ideológico – não perdoam.
         Não façam museus. Nem das descobertas, nem dos descobrimentos. Pelo menos, não sem antes – séria e honestamente – debaterem e ensinarem nas escolas tudo o que sabemos. Sem omitir ou relativizar seja o que for. Se é para interpretar…que tudo seja interpretado!
Foto de Ant. Bondoso

António Bondoso
Jornalista e Mestre em Relações Internacionais
Julho de 2018.

2018-07-14

AINDA SOBRE O 43º ANIVERSÁRIO DA INDEPENDÊNCIA DE S. TOMÉ E PRÍNCIPE QUE SE VAI CELEBRANDO POR ESTES DIAS.
Uma perspectiva com ângulo diferente, tendo por base a (in) validade do velho conceito de ser e como ser «INDEPENDENTE».
O texto foi ontem apresentado numa sessão em Cruz de Pau, Seixal, comemorativa da efeméride e organizada pela Associação POTO BETU - de apoio aos imigrantes - em colaboração com a ANALP.

Foto disponível na Web
SER INDEPENDENTE.
O que é e como é…no mundo globalizado de hoje?
O velho conceito que pode ser lido nos dicionários e/ou no «estado da arte» das Relações Internacionais já não corresponde verdadeiramente nos dias de hoje. Devido às interdependências, claro, mas sobretudo aos «blocos regionais» que funcionam na base de OIG (Organizações Intergovernamentais) e até mesmo com objetivos federalistas – como é o caso da União Europeia.
Como pode STP manifestar a sua independência – um PEI (Pequeno Estado Insular) no Golfo da Guiné – tendo em conta a ideia do «exercício exclusivo da autoridade de um Estado sobre uma determinada área territorial»? Partindo do princípio de que essa autoridade é reconhecida pelos outros atores do sistema internacional – inquestionável há 43 anos – há uma série de fatores que determinam o grau de maior ou menor dependência internacional. Para além da economia, que é fundamental, há os critérios de integração regional e os chamados espaços culturais. São fundamentais as ligações mantidas com as mais diversas «Agências» das Nações Unidas – como o PNUD, por exemplo – e da União Africana, nomeadamente o BAD, a CEEAC (Comunidade Económica dos Estados da África Central); o COREP (Comité Regional de Pesca para o Golfo da Guiné). Há igualmente a CPLP e ainda as ligações à UE, concretamente através do NEPAD (Nova Parceria para o Desenvolvimento da África). Com todo este sistema de ligações e de ajudas, pode perguntar-se o porquê do falhanço das sucessivas políticas da governação, apesar de alguns avanços em setores como a Educação/Ensino e no combate à malária.
Ser-se um país «independente», hoje, é ter um Estado que zele pelo abastecimento de água e de energia elétrica eficiente às populações; que seja capaz de levar alimentação a quem precisa; que propicie o encontro das pessoas com a Cultura, preservando as tradições; um Estado que promova atividades lúdicas e desportivas; que trate do saneamento e da Saúde dos doentes; um Estado que incentive a Pesca e a diversificação da agricultura; que regulamente a atividade turística e que não mantenha as populações na ilusão do petróleo; um Estado que cumpra e faça cumprir as leis, zelando pela separação de Poderes e respeitando todos os cidadãos. Isto…é ser «independente». E se perguntarmos: o Estado tem que fazer tudo? Claro que não. Mas deve fazer o essencial e promover o investimento privado interno e externo – direto ou em parcerias vantajosas.  
O Estado de S. Tomé e Príncipe, nascido em plena «Guerra Fria», teve que receber inicialmente a ajuda natural dos países que apoiaram a luta de libertação. 15 anos de regime monopartidário criaram um Estado praticamente dependente da ajuda externa e que se impunha pela força internamente. Depois, já numa fase terminal do chamado Bloco de Leste ou «comunista», apareceu a transição política e económica para o designado Bloco Ocidental de tipo «capitalista». Apesar das adaptações que o novo sistema político exigiu, o país não conseguiu dar o «salto» qualitativo em termos de estabilidade económica e financeira. Pelo meio, o processo foi agravado com algumas situações de instabilidade político-militar e na Justiça.
Hoje, na viragem do 43º aniversário da «independência», o país permanece débil e com um Estado enfraquecido, eternamente à espera de reformas estruturais – particularmente «solicitadas» pelos representantes da alta finança dominadora: o Banco Africano para o Desenvolvimento, o Banco Europeu de Investimento, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. O que preocupa, de facto, é a incapacidade para responder a este «sistema», tendo como objetivo central o bem-estar das pessoas.
Apesar de tudo, há que celebrar a «independência». Parafraseando o meu camarada e amigo Manuel de Sousa (Dende)…independentemente das opiniões de cada um sobre a data, «subscrevo na íntegra a opinião daqueles compatriotas que afirmaram e continuam a afirmar que VALEU A PENA»! Particularmente pela «libertação de todas as formas de opressão e pela assunção dos nossos próprios destinos».
Viva o 12 de Julho, viva todo o Povo de S. Tomé e Príncipe. As Ilhas continuam no meio do mundo, independentemente da capacidade dos políticos que as têm governado.
António Bondoso
Jornalista e Mestre em Relações Internacionais                        
Julho de 2018.

Composição de Ant. Bondoso

2018-07-12

STP – INDEPENDÊNCIA…OU SOBERANIA PARTILHADA?
Ou de como, neste mundo globalizado e «governado» pela alta finança mundial, se poderá ler o título de forma relativamente amena, tendo em conta um país que depende da «ajuda externa» em elevada percentagem: S. Tomé e Príncipe à espera de um «futuro risonho».

Foto do mural de Conceição Lima

STP – INDEPENDÊNCIA…OU SOBERANIA PARTILHADA?
Ou de como, neste mundo globalizado e «governado» pela alta finança mundial, se poderá ler o título de forma relativamente amena, tendo em conta um país que depende da «ajuda externa» em elevada percentagem: S. Tomé e Príncipe.
Um relatório do FMI, de Abril deste ano, revela que "Em 2017 o crescimento económico desacelerou ligeiramente, situando-se em 3,9 por cento, dado que o impulso da despesa pública foi limitado pela menor entrada de recursos externos".
Preocupa, mas não é decisivo, que o segundo mais pequeno país de África – nesta passagem do 43º aniversário da sua independência – apresente uma enorme fragilidade nos índices de desenvolvimento. Já escrevi, e volto a dizer, que 30 ou 40 anos não são decisivos para avaliar o percurso independentista de um jovem país. E STP nasceu num período crítico da Guerra-Fria, na sequência de um golpe militar que derrubou o regime do país colonizador. Os críticos sempre poderão atribuir culpas a Portugal por não ter feito mais para o desenvolvimento das Ilhas, o que não deixa de ser verdade – por exemplo no turismo e num cais acostável – mas também sendo certo que havia alguns sectores, como a saúde, os quais registavam índices apreciáveis de desenvolvimento, comparativamente com outros países do Continente Africano.
Numa outra perspetiva, poderá contrapor-se a pressa da liderança do movimento de libertação no caminho da independência, quando havia exemplos de sucesso (não muitos, é verdade!) em ex-colónias de potências europeias que haviam ascendido à independência em finais dos anos de 1950, após um período de «transição» de 6 anos e depois de uma experiência conflituosa – mesmo violenta – com os ingleses. Isso não impediu Nkrumah de liderar o processo, desenvolver o Gana e ganhar o respeito de muitos outros líderes africanos.
Percebendo embora o contexto das colónias portuguesas em África no início dos anos de 1970 – a guerra prolongada em três frentes e o arrastar da colonização, com todos os aspetos negativos que isso implicava no relacionamento internacional – não posso igualmente deixar de referir a decisão, emocionalmente apressada, da exigência de uma imediata independência. E a forma como ela foi conquistada levou à saída forçada de muitos quadros, particularmente de nível intermédio, de alguma maneira essenciais para o bom funcionamento do Estado nascente. De novo as críticas ao país colonizador pelo facto de, ao longo dos anos, não ter promovido a formação de quadros locais. Igualmente de novo o contraponto, e percebendo quer o tempo e quer a forma do relacionamento entre Portugal e a China, da ideia dos 12 anos de transição para o território de Macau: 1987-1999.
O que verdadeiramente me preocupa em S. Tomé e Príncipe, por esta altura, é ouvir o líder do governo expressar o reconhecimento do fracasso da sua governação – não retirando quaisquer consequências políticas – e, logo de seguida, saber que a OMS vai reduzir a sua «ajuda» ao país. É sobretudo isto que merece a minha atenção, particularmente em ano eleitoral por excelência. Um relatório recente, elaborado para o Banco Africano de Desenvolvimento, toca exatamente nesta tecla: Riscos cruciais também estão ligados às eleições legislativas agendadas para 2018, particularmente, o risco elevado de gastos extra-orçamentais e instabilidade política, juntamente com o aumento dos empréstimos em incumprimento no setor financeiro. A dependência da exportação de bens primários e importação de produtos alimentares e combustíveis deixa o país extremamente vulnerável a choques externos. O relatório, contudo, não deixa de assinalar alguma esperança no futuro, sobretudo tendo em conta o sucesso verificado na erradicação da malária, «esperando que a produção e o acesso à energia melhorem nos próximos anos, com investimentos prometidos pelo Banco Africano de Desenvolvimento, pelo Banco Europeu de Investimento e pelo Banco Mundial.» Cá está grande parte da “alta finança mundial” que referi no início do texto, sem esquecer o FMI.
Lembrando uma intervenção recente do economista Alcídio Montoya Pereira, esta notícia da redução da ajuda por parte da Organização Mundial de Saúde não é propriamente nova, «pois já se sabia que a elevação do país à categoria de desenvolvimento médio é um expediente que a comunidade internacional utiliza para "desmamar" países viciados em "ajudas ao desenvolvimento".» Preocupante…é perceber quão importante é o sector da Saúde para o desenvolvimento. Temos o exemplo de Portugal onde – após largos anos de desinvestimento no SNS, nomeadamente no período da “Troika” – o sector atravessa talvez a maior crise de que há memória. E como é importante um sistema de Saúde forte para um turismo sustentável num país insular como S. Tomé e Príncipe. Não sei se a ideia existe...e nem sei até que ponto poderia ser recomendada aos investidores turísticos pelo governo: - as unidades de maior relevo terem médicos ao seu serviço, como eu vi na Malásia, por exemplo. 
E preocupa-me igualmente o facto de, em Fevereiro deste ano, a Embaixadora dos EUA (USA) para o Gabão e STP, ter ido ao país chamar a atenção para a necessidade de o «Poder» garantir a “Liberdade de Imprensa” e o fortalecimento das instituições democráticas.
Duas notas finais para recordar, primeiro, um pormenor sobre a data da independência de STP. Um amigo de longa data e camarada de profissão – Costa Carvalho – lembrou-me agora do facto de ter sido ele o primeiro a divulgar a data, estando em serviço para a cobertura jornalística do Acordo de Argel: «Numa das miniconferências de Imprensa, tratei o representante de STP por DR. TROVOADA (o nosso era o DR. ALMEIDA SANTOS). Trovoada recusou o título académico e eu disse: " O senhor diz que não é licenciado, mas eu sei que só não o é, porque o regime salazarista não consentiu. Estou aqui, precisamente para reparar tal “injustiça". Sabes, António, o que me valeu esse meu politicamente correcto desaforo? Fui o único a noticiar o dia da independência de STP!».
O outro pormenor…para dar conta da «esperança num futuro risonho» que me foi transmitida pela jovem estudante de STP no Porto, Jéssica Conceição. Escreveu assim: «Ser independente é ser uma nação governada de acordo com o que foi definido pelo povo a partir de suas tradições ou convicções, sem que o governo de qualquer outro país possa interferir. Ser independente é ser capaz de decidir sobre o regime político que lhe convém, sobre a maneira de organizar a administração, a economia, a política e as demais instituições sociais. São Tomé e Príncipe é um país independente? Sei que é difícil manter a esperança em um futuro melhor para São Tomé e Príncipe quando se atravessam dificuldades. Mas deve-se tentar. Creio num futuro risonho».
        Fiquemos com a esperança e com a crença numa vivência em democracia e em liberdade. Viva S. Tomé e Príncipe e um abraço do tamanho do mundo para o seu Povo.


António Bondoso
Jornalista
12 de Julho de 2018. 

2018-07-07


SAUDADE...OU ONDAS DE MEMÓRIAS?



Há quem tenha memória curta ou de grilo. Outros terão excelente memória visual mas há também muitos a quem tudo se varre. E eu, embora creia não ter o que se chama de memória de elefante…sempre direi que conservo uma excelente lembrança de experiências anteriores. Sobretudo tenho assumido sempre uma tomada de consciência do passado, o que me permitiu há muito ultrapassar as consequências dos avatares da história. O «outro» nunca foi para mim um tabu. Por isso, posso sempre rebobinar o filme que conta a história de muitas Ondas de Memórias: 


ONDAS DE MEMÓRIAS 

Quando não alcanço as ondas do mar
É certo que os sentidos estão doentes.
Não ouço o coração a comandar
São meus olhos que choram de tão quentes.

O meu mar já tão longe não me leva
E a vida de tão curta não espera.
Por isso alma própria bem se eleva
Mas o corpo descansa e desespera.

É sempre nesse mar que me revejo
Navego destemido e busco a sorte
E outra felicidade não almejo.

E sigo corajoso deste norte
Para o sul de riquezas que prevejo
Sem medo que me chegue a triste morte.

«É neste mar que me cultivo».
==== A.B. Out.2017 




António Bondoso

Julho 2018. 

2018-06-30


Bom dia.
Sempre que penso em ir à praia…o maior desafio é o mar!


O MEU MAR COMEÇA AQUI

O meu mar começa aqui…
Mas as ondas somam-se à calema
De outras ondas
Que viajam enroladas até ao Golfo.
É esse mar que é mais meu
Pois dele sei
Desde o dia em que cheguei!

E sei que há grandes barcos que navegam
E buscam por ali o seu negócio
Como outrora houve naus e caravelas.
E sei como flutuam as canoas
De pescadores com orações no pensamento
Buscando no mar alto o seu sustento
Feito de sonhos e de perigos no momento.

Sonhos aos saltos como o peixe voador
Perigos apertados na visão de um gandu esfomeado
Anseios e angústias de uma ambição de calor
Tantos riscos assumidos nesse mar tão agitado.
E há esse mar que beija todas as praias da ilha
Debaixo de um sol abrasador
Deixando sempre um certo sabor salgado.

É esse o doce mar que me escolhe e me recolhe
Em tempos tormentosos de saudade
De uma alma em permanente tempestade.
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António Bondoso
Junho de 2018.


António Bondoso.