CABO
VERDE – 30 ANOS DE «MUDANÇA»…ou de como um jovem quadro ajudou a erguer o MPD (Movimento Para a
Democracia) e a levar o “jovem” Estado africano a «um momento sublime e de
grande exaltação». Hoje, Carlos Veiga diz candidatar-se pela terceira vez ao
cargo de Presidente da República, acreditando no futuro, na juventude mais
preparada e com a certeza de que «pode contribuir para o desenvolvimento humano
e inclusivo da nossa Nação. E, se posso…devo! A tarefa é de todos!» sublinha
este político de Cabo Verde ao Blogue “Palavras em Viagem”, de António Bondoso:
Carlos Veiga (foto da Web)
A.B. – Dr. Carlos Veiga, a «Mudança» de há 30
anos não foi apenas um momento histórico.
1.
A “Mudança”
foi, de facto, um momento decisivo. A pressão externa foi importante e o regime
de partido único percebeu-o. Cabo Verde era dos países que mais APD recebia dos
“doadores” e sabia que tinha de “abrir”. Mas a Mudança que ocorreu ultrapassou
de longe a “abertura” prevista pelo regime. A sociedade cabo-verdiana mostrava
então abertamente o seu descontentamento com o status-quo e, através de um grupo crescente de jovens
quadros e activistas, mostrou que queria
mesmo uma mudança de regime e não a tímida abertura “oferecida”. Queria uma
democracia verdadeira e mostrou-o
através de propostas claras e consistentes, contrárias às do regime,
manifestando-se pacificamente nas ruas, com crescente apoio popular, ao mesmo
tempo que se disponibilizava para discutir as suas propostas com o Poder,
pacificamente. O momento era sublime e de grande exaltação. Ninguém do grupo pensava
no “medo” ou na sua segurança pessoal. O momento era aquele! O apoio
popular era crescente. A palavra de ordem “medo dja caba” (o medo acabou)
espalhou-se amplamente e com entusiamo
em todas as ilhas, mesmo naquelas em que a repressão foi mais intensa. Por
isso, nunca tememos pela nossa segurança pessoal. Tínhamos a clara consciência
de que, naquele contexto internacional e interno, o regime estava fragilizado e
tinha pés de barro.
A A.B. - Mas acredito não ter sido apenas um
momento histórico. Ele foi mesmo fundamental para o desenvolvimento de Cabo verde?
2.
A
Mudança foi fundamental para o objectivo do Desenvolvimento que é o desafio
actual da Nação cabo-verdiana. Não há desenvolvimento sem democracia. Em Cabo
Verde isso é, hoje, uma evidência. O desenvolvimento humano trazido pela
democracia não tem comparação com a situação vivida sob o partido único. Foi
também a democracia que trouxe efectivo crescimento económico. Em 1991 o
crescimento era zero; em 2001 atingiu cerca de 8% em média quinquenal; de 2016
a 2019 a economia cresceu de zero para 6%.A COVID19 deitou tudo abaixo, mas as
perspetivas de crescimento estão aí, com Cabo Verde no ranking da frente em
África.

Carlos Veiga e o seu Governo - o 1º da II República
A.B. - Trinta anos depois da «onda da
mudança», não será estranho ouvir ainda dizer-se que as pessoas têm medo de
falar, de criticar, de escrutinar?
1. Basta
entrar nas redes sociais, ler os jornais, ver as televisões, estar no meio de
pessoas, e, ainda ver os rankings internacionais sobre liberdade de expressão
para concluir que os cabo-verdianos hoje não têm medo de se exprimir. Fazem-no
abertamente. Que alguns afirmem o contrário é normal mas não representativo. Normalmente
têm motivações outras, sobretudo “politiqueiras” ou do foro laboral, que não o
medo de falar na generalidade das situações de vida. Claro que ainda existe deficit de cultura democrática, mas nada
de muito diferente do que ocorre em outras nações mais desenvolvidas.
A A.B. – Em qualquer caso, Dr. Carlos Veiga, a
sua popularidade – ou pelo menos o seu carisma – não diminuiu, embora tivesse
perdido duas eleições presidenciais para o mesmo adversário, Pedro Pires.
2. Quanto
às presidenciais 2001 e 2006, acredito que, na realidade, não as perdi. Ganhei em ambos os casos nas ilhas e perdi nas comunidades. Por culpa
própria, sobretudo no plano da organização do aparelho de campanha. Em 2001
oficialmente perdi por 12 votos. Seis meses depois, pessoas foram condenadas e
cumpriram prisão por fraude nessas eleições, relativamente a dezenas de votos
falsos introduzidos nas urnas. Mas isso é passado e agora estou a olhar para o
presente e para o futuro. Creio estar hoje
melhor preparado para contribuir, como supremo magistrado da Nação, para que ela
sinta o desenvolvimento como coisa sua, de que tem o direito a ambicionar e
para que tem o dever de comparticipar.
A A.B. – 30 anos depois desse combate pela
democracia, com o MPD…parece não estar cansado da política. E é agora de novo
candidato. O que o faz pensar que à «terceira» será de vez? Uma avaliação mais
ponderada de eventuais opositores, ou sente que o PAICV está em declínio, com a
liderança «esgotada»?
3. A minha candidatura não está ligada ao estado
actual dos partidos políticos. Como democrata considero que os partidos
políticos são essenciais para o funcionamento das democracias. Mas não dependo
deles para a minha candidatura. Claro que qualquer candidato presidencial, por definição apartidário,
deseja o apoio dos partidos e de outras organizações da sociedade. Não sou
exceção: desejo ter apoios partidários e de organizações da sociedade civil que
se revejam na minha candidatura, que é ´verdadeiramente apartidária. Candidato-me,
independentemente das posições dos partidos sobre a minha candidatura, porque
me julgo capaz de desempenhar bem o cargo presidencial no contexto actual, acredito no presente e no futuro do meu
país, sobretudo numa juventude bem preparada para enfrentar o mundo global e
digitalizado do século XXI, tenho orgulho na minha nação e julgo ter a simpatia
e o apoio de milhares de cabo-verdianos nas ilhas e nas comunidades, pelo que
fiz, pelo que sou hoje e pelo que posso contribuir para o desenvolvimento
humano e inclusivo da nossa Nação. E, se posso, …devo! A tarefa é de todos!
A A.B. – E o MPD? É apenas um «filho» que deixa
para trás ou sente que o Partido já não o apoia?
4. O MpD está bem servido com o seu líder atual, o seu programa politico
mantem-se o mesmo e está perfeitamente adequado aos desafios do presente e do
próximo futuro. Tenho muito orgulho em ter participado na sua criação e
desenvolvimento. Considero que é
indispensável e fundamental para Cabo Verde. Mas o meu tempo no ativo
dentro do partido já passou, normalmente. A
grande maioria dos militantes e dirigentes desse partido continua a rever-se na
minha pessoa e acredito que estará a apoiar-me nas próximas presidenciais.
O PAICV é um partido histórico em Cabo Verde, representa uma parte
significativa do povo cabo-verdiano. O mesmo com a UCID. Os partidos mais novos
representam novas tendências que emergem na sociedade cabo-verdiana, uma sociedade
viva, vibrante, dinâmica e intensamente plural, como ´desejável. Como
Presidente trabalharei com todos os partidos e procurarei promover o
indispensável consenso entre eles, sempre que o bem comum o exigir.
A A.B. – Nos «limites» da Constituição do país,
em que aspectos é que o PR pode fazer a diferença? Os anteriores Presidentes
cumpriram…ou pensa que poderiam ter ido «mais além»?
5. O
Presidente não é o executivo, mas o moderador do sistema democrático, com um
papel muito relevante de influenciador desse mesmo sistema e da sociedade no
seu conjunto. A Constituição é a grande
arma do Presidente, pelos poderes que ela lhe dá, mas também e quiçá mais
importante, pelas orientações estratégicas precisas que ela estabelece para a
generalidade dos aspectos da vida dos cabo-verdianos. A medida em que tais
orientações forem efectivamente usadas pelo Presidente da República para
influenciar no sentido do bem comum, nas suas relações com as demais
instituições da governação e na sua relação com a sociedade, e se transformarem
em realidade sentida pelas pessoas na sua vida corrente, por efeito da acção
presidencial no quadro constitucional, marcará a diferença feita por cada Presidente.
Penso que os Presidentes anteriores
cumpriram, no geral. Mas é sempre possível fazer mais! É assim que o progresso
acontece!

Carlos Veiga (foto da Web)
No geral, a minha opinião é que o sistema
implantado há 30 anos vai relativamente bem. Claro que, como todas as
democracias, precisará sempre de aperfeiçoamentos. Existe também um real deficit de cultura democrática, sobretudo
em muitos atores políticos, mas o povo, na sua generalidade, revela uma
crescente apropriação dessa cultura, sobretudo votando de forma muito madura.
A.B. – Muito grato, Dr. Carlos Veiga. Foi bom
ter testemunhado esse momento de «mudança» de há 30 anos, sobre o qual disse
ter sido “Sublime”! Felicidades.