De
súbito…veio-me à ideia de que havia lido, algures, um «Poema» datado de 7 de
Novembro. Não há muito, claro, pois a memória está ainda fresca. E o livro à
mão, sem esforço. É que o dito tem sido um dos mais recentes na mesinha de
cabeceira. O poema tem por título “O Velho calhambeque” e faz parte de «Chuva de
Prata», que a poetisa santomense Alda Barros fez publicar na Chiado Editora em
2019.
Alda Barros
Depois de conferida a ideia, lembrei-me
igualmente de que estamos quase a assinalar a data da independência de Angola. É
com poesia, portanto, por ela e através dela, que desta vez abordo o tema. Pelo
menos uma aproximação. De Angola e do «espaço lusófono», como veremos. E justifico
de forma simples por dois ou três motivos: embora Alda Barros tenha nascido em
S. Tomé e Príncipe, também viveu e estudou em Luanda – Jornalismo e Relações Internacionais.
Uma compatibilidade interessante do ponto de vista profissional e académico.
Alda Barros, recordo, fez parte de um grupo de jovens jornalistas que fundou em
STP o jornal “Revolução” – o primeiro do novo país independente. Depois, Luanda
de novo, onde iniciou a sua carreira profissional no PNUD das Nações Unidas. Ainda
outros «postos» da ONU, quer em Timor-Leste, quer na Guiné-Bissau, com uma
breve passagem pelo Burundi. Uma outra razão – e já com o livro como objeto –
tem a ver com o «prefácio», da autoria do angolano Lopito Feijó, e que ele
intitulou como segue: “ALDA BARROS: PARA UMA OUTRA DISTENDIDA PROPOSTA POÉTICA
LUSÓFONA”. Pela sua leitura da obra, Lopito Feijó destaca “Alguma
guineensidade. Patente angolanidade e até algo de moçambicanidade mas, acima de
tudo a visível santomensidade (…). A autora condensa aqui vários motivos de
identidade comum a todas as culturas e povos dos países cultores da língua
portuguesa”. De facto, o livro viaja por tudo isto e, embora os poemas não
precisem de ser explicados – Almada Negreiros diz mesmo que a Poesia não aceita
intermediários, é direta – a autora achou por bem colocar algumas notas nas
páginas iniciais. Não tanto para falar dos poemas, mas sobretudo para
evidenciar a felicidade que se tem quando beneficiamos de um tempinho para
amar, escrever, inventar ou até reinventar um espaço temporal que nos dê
prazer. Por isso as palavras que, “vindas do coração e ditas com alma nunca nos
causam arrependimentos”, e por isso as histórias contadas. Neste caso, em forma
de poemas.

E é assim que “O Velho calhambeque” nos
traz à memória os musseques de Luanda, onde a sobrevivência é difícil, mesmo
com uma caneca de «nguem-nguenha»; ou “Um pesadelo bom” nos fala do sonho de
uma refeição quente, de muito amor e do cheiro forte da «kissângua de milho».
Este meu texto, que não pretende ser
uma recensão – longe disso – significa apenas felicitar Alda Barros pela sua
obra em crescimento e agradecer a frescura do seu sentir em Chuva de Prata. Obrigado
Alda Barros pelo seu «Grito» em Santa Catarina; grato Alda Barros por nos
trazer a memória da Trindade e do baú onde moram segredos; obrigado pelos «descaminhos»
onde nos diz que o poema é penumbra, encanto, mas também suor e pudor; grato
por nos oferecer ainda «Beijos trocados no carnaval» em Quifindá.
Apresentação do livro na sede da UCCLA
Quem quiser perceber tudo isto, nada
como adquirir “Chuva de Prata”. Chiado, 2019.
António
Bondoso
Jornalista
e Mestre em Relações Internacionais. Poeta nos «intervalos».
Moimenta
da Beira, 7 de Novembro de 2022.