2024-12-18

MACAU – O MEU ORIENTE DA HISTÓRIA…25 anos depois da «passagem» para a R.P. da China – 19 de Dezembro de 1999.

   “Não tenho ilusões no que diz respeito à

   metamorfose de Macau, possivelmente numa geração”.

 

             António Conceição Júnior, Dez 2024


Esta citação de António Conceição Júnior, retirada de uma resposta a questões que lhe coloquei há dias, a propósito da efeméride acima referida, revela uma lucidez profunda sobre todos os tempos de Macau. Particularmente sobre o que há de vir…embora saiba que nem todos são profetas na sua terra – como se pode ler num trabalho da Docente Júlia Serra, em Outubro deste ano:

«Escrevo o que a minha consciência me dita,

e se sou ouvido ou não será uma ilação

que se poderá tirar no médio prazo.

Direi, contudo, que alguns não são

profetas na sua terra».  

Como não foram em Goa – onde, apesar de tudo, ainda hoje se luta para manter os costumes, as tradições – ou como aconteceu em Malaca, onde quase tudo se perdeu para além do «Portuguese Settlement».

         Jorge Morbey, Historiador e «Diplomata da Cultura», que passou nomeadamente por S. Tomé e Príncipe, Macau e Bangkok, escreveu em Abril de 2019 sobre a «identidade dos Macaenses e de outros Portugueses do Oriente», falando da incapacidade secular de Portugal para ser solidário com as “Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente”. Disse concretamente que essa incapacidade é “filha da ignorância e do preconceito”.  


                                                                              Macau
 

Voltando à figura cimeira deste meu texto sobre Macau, António Conceição Júnior destaca acreditar “…que a sobrevivência dos macaenses, enquanto grupo étnico, está fortemente ameaçada pela diluição da origem. Está já em marcha uma integração de Macau num plano bem maior, o da Grande Baía”.

         Este escritor culto e jornalista igualmente, descrito por grandes figuras ligadas a Macau também como pintor, gravador, fotógrafo, criador de moda, um poderoso e sensível apreciador de arte, enquadra ainda os acontecimentos do «1,2,3 de 1966» e, com frontalidade, afirma igualmente que Macau «foi sendo governado, em comissões de serviço, por pessoas que, na sua maioria, pouco ou nada sabiam do Território».

             A.C. Júnior 

          (da sua página do facebook)

Deixo o texto completo, como segue:

Macau e os portugueses podem encontrar uma razão para celebrar/assinalar esta data?

Há sempre uma razão para assinalar esta data, sobretudo para aqueles que nasceram ou viveram em Macau. Para a generalidade dos portugueses, direi que Macau não faz parte do seu universo de interesses. Macau é, infelizmente, desconhecido. Por isso, relembrar esta data será uma formalidade oficial.

As nossas relações com a R.P. da China, pós-Transição, têm-se pautado pelo politicamente correcto e institucional. Antes disso, o Território foi governado em comissões de serviço por pessoas que, na sua maioria, pouco ou nada sabiam do Território.

Quem verdadeiramente garantiu a sobrevivência da língua e cultura portuguesas, foram os Macaenses, nação de indivíduos, singulares na sua mestiçagem. Estes, por séculos, foram os portadores, usufrutuários, transmissores e embaixadores da portugalidade e, assim, da legitimação da cultura lusa naturalizada na China.   

Como tem acompanhado este processo. Haverá semelhanças com o que se tem passado em HK ?

Não me parece que existam quaisquer semelhanças.

Hong Kong foi uma colónia da coroa britânica, governada com pulso diplomático, sem muitas cedências. Macau foi uma presença historicamente tolerada.

Hong Kong é a segunda praça financeira da Ásia, enquanto Macau se tornou no maior casino do mundo, ultrapassando Las Vegas.

Se chegarmos a 2049...o que restará desses 500 anos da presença portuguesa?.

Importa, a meu ver, distinguir entre presença e ausência portuguesas. Torna-se relevante compreender que, depois da expulsão dos jesuítas e dos kirissitan (cristãos) do Japão, e consequente fim do comércio da prata, Portugal deixou Macau, então governada pelo Leal Senado. Ao longo do tempo, após o “abandono” de Macau, foram sobretudo os “homens bons”, a elite macaense, quem garantiu a governança, tantas vezes em conflito com os capitães-gerais,  que pouco ou nada sabiam desse lugar, e em equilíbrio precário nas relações com a grande China.

Eis-nos chegados aos desacatos do chamado “um, dois, três” de Dezembro de 1966. É aí que cai o pano da ilusão de que Portugal governava Macau. O jogo de sombras chinesas emerge, mostrando quem mandava. Uma muito significativa parte da elite macaense abandona Macau, enquanto as classes mais desfavorecidas encontram, num processo mimético materializado em casamentos com a comunidade maioritária, uma forma de sobrevivência, que passou desapercebida ao poder.

Data dessa altura o começo da diluição da chamada identidade Macaense. Hoje, o verdadeiro patois ouve-se nas repartições públicas, numa mistura de chinês, inglês, e algumas palavras em português. A gastronomia vai-se mantendo como curiosidade, integrada na designada Cidade Criativa da UNESCO em Gastronomia. Quanto à religião, em função dos casamentos mistos, o catolicismo e as crenças chinesas andam de mãos dadas.

Assim, creio que a sobrevivência dos macaenses, enquanto grupo étnico, está fortemente ameaçada pela diluição da origem. Está já em marcha uma integração de Macau num plano bem maior, o da Grande Baía.

Não tenho ilusões no que diz respeito à metamorfose  de Macau, possivelmente numa geração.

Um abraço,

António Conceição Júnior

              A. C. Júnior e parte das suas memórias

              (da sua página do facebbok)

MACAU – O MEU ORIENTE DA HISTÓRIA…ou de como um pequeno território deixa marcas profundas, seja por nascimento, seja por vivências de alguns ou de muitos anos. Há 25, um marco decisivo para a História.

E sempre que Macau me vem à ideia, particularmente nesta data, não deixo de pensar na Grande China, enorme, poderosa, profunda, pesadamente cinzenta e que tem vindo há já umas décadas a assumir um espírito expansionista que não lhe era habitual, nomeadamente depois do chamado «período da humilhação». É o que tenho designado por «imperialismo silencioso». Atente-se no projeto das novas rotas da seda, o “Belt and Road” e, como lembrou A.C. Júnior…a “Grande Baía”.

Macau, além do mais e apesar de quatro séculos de «administração portuguesa», foi sempre muito «chinesa». O que, em boa verdade, nunca lhe retirou o encanto e o mistério. É assim que a recordo, apesar das grandes transformações deste século. E nessa memória cabem todos os que ali me receberam com afeto e carinho.


              A.C. Júnior e o Advogado e Poeta António Correia

18 de Dezembro de 2024

António Bondoso





2024-05-29

 

 HÁ UMA CERTA POESIA DE PONTOS FINAIS NESTE MEU ESPAÇO “UM LIVRO DE VEZ EM QUANDO”. E não é apenas mais um livro…este em que a Rosa Maria Ribeiro nos apresenta os “Filhos Duma Casa Vazia”, num tempo em que os «dias são tortos» e à autora «não apetece falar de amor». Rosa Maria subiu à montanha e chegou ao topo!


                                                                      Rosa Maria Ribeiro

Estamos perante Um livro de poesia particular, peculiar – a que a Rosa Maria já nos habituou – com um «discurso poético» que permite a vivência de dois estilos diferentes: por um lado uma prosa corrida poeticamente elaborada e, por outro, uma «tradicional» forma de poesia livre. António Vilhena, que prefacia a obra, diz que “Gostar da poesia de Rosa é acreditar que «não há chão bravio que não acolha a semente». E sugere a quem quiser ler estes Filhos Duma Casa Vazia que o faça, ou possa fazer, “como uma anamnese projectiva e sentir a casa vazia dos filhos ou o seu contrário”. É que, digo eu em certo sentido, os «filhos» também podem ser os Amigos, como são igualmente estes «Poemas» que a autora nos oferece numa bandeja de lamentos, de silêncios, de dúvidas…mas ainda com horizontes. Tudo isso, cada um descobrirá por si.


         O que eu posso dizer, na modestíssima opinião de quem vai conseguindo entrelaçar as palavras simples, é que a poesia de Rosa Maria Ribeiro tem como que uma dimensão linear, pontuada, soluçada – porque também sofrida, amargurada, por vezes mesmo zangada.

         São poemas de muitos pontos finais, querendo acentuar – porventura – a afirmação de cada palavra, de cada frase, de cada verso. E nada como no início para logo habituar o leitor: “há um sol onde se abrem as flores./ ainda que cinzentos os dias./ ainda que tristes as mãos./ e uma luz que se acende./ ainda que os olhos cansados se fechem./ esquecidos de amanhecer.”. Por consequência, quando se dizem os poemas em voz alta, tudo resulta numa dimensão de grande força interior, naturalmente projetada para quem sabe escutar os poetas.


Contudo, o que sei eu de Poesia e de Poetas?

         Mas Rosa Maria Ribeiro sabe. E diz «saber o nome da vontade»: “letra a letra. e soletrá-lo sem medo.”.

         Para além de muitos outros já publicados, os próximos livros estão aí. Sei por exemplo que já está em pré-venda O MISTERIOSO CASO DAS FLORES MÁGICAS, o avanço na experiência da literatura para crianças. A chancela é igualmente da «ArteLogy», com o apoio de “Poesia Fã Clube”.

Um abraço sentido do

António Bondoso

Maio de 2024.