FERNANDO DOS ANJOS DIAS ...UMA DAS FIGURAS DA MINHA VIDA (PARTE1)
DO SEMINÁRIO EM PORTUGAL A UMA AVENTURA AFRICANA…ou de como um jovem de 17 anos arrisca um futuro nas Ilhas do Meio do Mundo, no centro do Golfo da Guiné – hoje conhecidas como as Ilhas do Chocolate.
Fernando dos Anjos Dias partiu de Águeda a 3 de Agosto de 1959, e embarcou no dia seguinte em Lisboa no navio Império (CCN-Companhia Colonial de Navegação) com destino a S. Tomé. Não foi clandestino mas quase, pois não teve tempo para se vacinar e receber o «visto» da Pide. Mas não podia era perder essa oportunidade de buscar uma vida digna – salário correspondente a um trabalho – embora longe da terra e dos seus. Portugal só lhe oferecia nessa altura a situação de «desempregado» e, portanto, o Fernando teve a coragem de enfrentar dúvidas e incertezas, bem longe deste promontório da Ibéria.
"MANDE VIR O RAPAZ QUE ALGUMA COISA SE HÁ DE
ARRANJAR".
Como
tudo se passou…conta-me o Fernando Dias que «Depois de sair do Seminário, como
não tinha emprego, o meu pai escreveu a um amigo que era feitor numa
dependência da Roça Rio do Ouro, a pedir se me conseguia emprego. Este, por sua
vez foi pedir ao Sr. Menezes, pai do antigo presidente de S. Tomé e Príncipe
[Fradique de Menezes], que era então o guarda -livros na Rio do Ouro, para
interceder por mim junto do Sr. Fonseca. Segundo o Sr. Menezes me disse mais
tarde, a resposta foi: "mande vir o rapaz que alguma coisa se há de
arranjar". E fui. Fiquei na Rio do Ouro "aboletado", como diria
o meu amigo António Pinheiro; ou seja, tinha cama e mesa apenas. E assim foi
durante cerca de um mês, em que ia para o mato com um grupo de serviçais, mesmo
sem equipamento próprio, isto é, botas e capacete. Quando chovia, os
trabalhadores, mesmo sem lhes pedir, faziam-me uma cabana com folhas de
bananeira, para me acoitar da chuva».
E
segue o relato: «Passados quatro meses estava colocado na dependência Fernão
Dias com contrato de empregado de mato e vencimento de 1200$00, a exercer
funções nos armazéns de recolha dos produtos da Roça para exportação».
Fernão Dias, nome de algumas memórias do mundo português (nem todas boas), havia ficado na «história» de S. Tomé e Príncipe uns anos antes – 1953 – como colónia penal da Ilha Grande, na sequência da «revolta de Batepá», transformada posteriormente em «massacre» pela administração colonial. Fernão Dias foi também um nome grande da expansão portuguesa do séc. XVII na América do Sul, um célebre bandeirante paulista conhecido como "O Caçador de Esmeraldas". Por outro lado, Fernão Dias casou-se com Maria Garcia Betim, descendente do índio Tibiriçá pelo lado materno e de um irmão de Pedro Alvares Cabral pelo lado paterno. Acresce, por natural dedução minha, que o cruzamento das línguas portuguesa e castelhana por ocasião do «renascimento», Fernão tenha dado origem a Fernando. Nada estranho, pois o próprio autor da «Grammatica da Lingoagem Portuguesa» (1553), Fernão de Oliveira, ficou igualmente conhecido por Fernando de Oliveira ou simplesmente Fernando Oliveira.
Fernão Dias ainda, a tal dependência da
Roço Rio do Ouro, foi palco de um ensinamento traumático para o Fernando Dias.
Conta que, certo dia, ali fez a sua estreia como
"cavaleiro", precisamente no dia de Ano Novo de 1960. O cavalo terá «reconhecido
as habilidades do cavaleiro» e, ao montar, deu dois pinotes que o fizeram «voar»
para aí uns dez ou quinze metros. Resultado: 10 dias no belo hospital da roça Rio
do Ouro, onde foi tratado pelo Dr. Botica, sempre seu muito amigo, e pelo enf.
Sr. Marques.
Em Dezembro do ano passado, Fernando Dias
publicou um outro ensinamento nas redes sociais. Um belo naco de prosa – uma
história interessante e que vale a pena conhecer. Deu-lhe o título de
VIVÊNCIAS DE S.
TOMÉ, OU UM APRENDIZ DE "ROCEIRO"...
Estranho, saudades, emoções diversas, tudo era novo ou quase. Muito calor, muita humidade e, finalmente, a época fresca da gravana e do cacimbo. Um dia, o Fernando foi ao rio que desagua em Fernão Dias.
«O curso de água que nasce no distrito
de Lobata, cuja sede é a airosa vila de Guadalupe, no seu percurso passa
precisamente pelas traseiras da Sede da Roça cujo nome herdou do rio, isto é,
chamava-se, na altura, Roça Rio do Ouro, situada a uns 13 km de distância da
cidade capital, S. Tomé.
O
administrador de então era o Sr. Fonseca que acumulava com este cargo o de
administrador geral da "Sociedade Agrícola Valle Flôr", formada pela
Roças Rio do Ouro, Bela Vista e Diogo Vaz, cujos donos eram os herdeiros do
"Marquês de Valle Flôr", com residência em Portugal»:
Então ali, no meio do rio, a carpir saudades da "santa terrinha" e dos familiares e amigos que deixara, o Fernando não ficou indiferente à natureza que o cercava e, sem o saber ainda, descobriu o famoso e delicioso camarão do rio/água doce. Para seu espanto, diz, «os bichinhos» movimentavam-se lentamente como que entorpecidos. A explicação também chegaria algum tempo mais tarde, ou seja, «os cacaueiros abundantes em S. Tomé e Príncipe, eram e são susceptíveis às doenças fúngicas do míldio e do oídio, necessitando de "curas" periódicas com fungicidas adequados. Dada a grande quantidade do produto aplicado, escorria sempre algum para os cursos de água, afetando os pequenos crustáceos...».
DIOGO VAZ – «OUTRO ESTATUTO» ANTES DO SALTO PARA O SERVIÇO MILITAR E PARA O BNU!
Depois do
tirocínio em Fernão Dias, o Fernando foi transferido para a Roça Diogo Vaz onde
assumiu a chefia do «escritório». E foi também em Diogo Vaz que acabou por ser
«alvo» da Pide. Não pela circunstância da tal «viagem inicial», relacionada com
a falta do visto, mas por outro motivo:- «Fui chamado à PIDE, que tinha intercetado uma conversa que tive
com o chefe do escritório de Santa Catarina (As principais Roças tinham linhas
telefónicas diretas mas também controladas pela PIDE, fiquei a saber), para
falarmos sobre um barco estranho, que logo de manhã, com um helicóptero
navegava junto à costa. Estive lá um dia a prestar declarações, mas cheguei a
pensar que a chamada estava relacionada com a minha «clandestinidade».
Sem ser uma grande preocupação, o Fernando
nunca esqueceu o assunto, até que um dia, quando foi à inspeção
militar à então Vila das Neves, tomou uma decisão: - Já que ia para o
serviço militar, não deveria ter problemas com as autoridades. Só faltava a
vacina… «Nessa mesma semana, fui à cidade e, no Centro de Saúde, pedi ao Enf.
Sr. Neves para me vacinar.
Acabou-se o pesadelo…»
=========== À espera de um sonho lindo...a prosa fica por aqui, hoje.
ANTÓNIO BONDOSO
Agosto de 2026.






