2015-05-21

ONDE FICA A ÁFRICA?



Numa altura em que há como que um “toque a finados” nesta União Europeia cada vez mais em deriva, também não é sem apreensão que vemos ouvimos e lemos sobre ÁFRICA. As televisões encarregam-se de nos mostrar diariamente. E um dia destes, a 25, celebra-se aquele que pretende chamar a atenção para os inúmeros problemas – claro – mas igualmente colocar em destaque as potencialidades desse terceiro mais extenso continente e segundo mais populoso do mundo…e do qual fazem parte cinco países que têm como oficial a língua portuguesa:- Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique e S. Tomé e Príncipe.
Há, como dizia um antigo diplomata brasileiro, muitas Áfricas. Qualquer enciclopédia nos aponta as diferenças. Não pretendendo cavalgar essa verdade absoluta e deixando ao critério de cada um a “busca do tesouro”, sempre chamo a atenção para o que escreve o jornalista Leonel Cosme no seu livro MUITAS SÃO AS ÁFRICAS (Novo Imbondeiro,2006): «não são apenas muitas as Áfricas-nações que procuram a sua unidade, em cada território e no continente, mediante um esforço de “reafricanização”, para retomar o fio da história cortado pelo colonialismo; são também as muitas áfricas-sociológicas que existem em cada uma delas, como boas ou más heranças, conforme o olhar de quem faz a leitura dos resultados. E porque muitas são essas “áfricas”, muitos foram e ainda são os olhares, uns que vêm do passado, outros, do tempo que ainda decorre».
Como escreve o Professor e historiador Elikia M’Bokolo, não temos razão para desesperar de África, apesar de todas as notícias que nos chegam: o continente é uma máquina pesada que precisa muito tempo para caminhar. (...) É preciso uma integração por fases progressivas, à imagem da construção duma casa. E não retomar a ideia de N’Krumah, no seu tempo, que a unidade imediata do continente é possível.
Já será suficiente para debate, sobretudo se lhe juntarmos as ideias de Aimé Cesaire e de Leopold Sedar Senghor.
Contudo, e embora retendo esta ideia, o que pretendo aqui escrever é o meu olhar. E apenas isso. Sobretudo um olhar para alguns pormenores das minhas áfricas. E sem precisar de recorrer ao prefácio de Hemingway em AS VERDES COLINAS DE ÁFRICA, basta-me apreciar, particularmente, O LIVRO DE COSTA ALEGRE, de Lopes Rodrigues (1969), para quem o primeiro grande Poeta São-tomense «foi bom, foi estudioso, foi inteligente, foi poeta». E o amor pela sua terra, o amor aos pais…até à sua morte. E quero deixar essa nota de não menos importância, pois a ideia que tem passado em muitos círculos é a de que Caetano da Costa Alegre não tinha “amigos” e foi um dos “esquecidos”. Eu lembro sempre que posso. Tal como recordo Almada, Tenreiro, Alda Espírito Santo, Olinda Beja e Conceição Lima.
E porque não eu?…que hoje vos deixo este FILHO DA TERRA, publicado na página 81 de AROMAS DE LIBERDADES (2015):
FILHO DA TERRA

De S. Tomé sinto cheiros
Da terra
Depois da chuva,
O aroma de um café
E o riso das crianças
A dimensão do seu povo
A brotar do vulcão da ilha grande…
Ideia de um paraíso
A navegar pelo Golfo.

É do cacau que se fala
Ainda e sempre
É do chocolate um desejo
Pois do petróleo se espera
Ainda e só.

Mas o turismo é uma certeza
Do Príncipe que se transforma
Uma viagem de sonho
Salgada de azul-turquesa
Condimentada ao minuto
Quase perfeita aos olhos de quem sente.

S.Tomé e Príncipe dêdê[1]
Pintenxa de alma minha seduzida
Coração de mina-tela amargurado
Paixão mu nantan pagadu.




[1] - Dêdê = Querido; Pintenxa = Penitência; Mina-tela = Filho da Terra; Mu = Minha; Nantan = Jamais; Pagadu = Paga.



ANTÓNIO BONDOSO
JORNALISTA

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