2014-05-31

AMARGURA…
…ou o regresso a 15 de Março de 1974.


AMARGURA…
…ou o regresso a 15 de Março de 1974.

Reli há dias o interessante e importante O Horóscopo de Delfos[1], do meu antigo camarada Eduardo Valente da Fonseca – um livro que relata a habilidade de contornar a “censura” alguns meses antes do 25 de Abril de 1974. E relendo o que ele “previa” então para o meu signo Capricórnio, duas coisas retive e que hoje me levam a escrever este texto. A primeira diz isto:- “O teu país tem os quilómetros quadrados que tu lhe deres e será tanto maior quanto melhor for…”. À distância de mais de 40 anos, tem graça que o meu país já foi maior – por ser melhor – e que, pouco a pouco, tem vindo a encolher – por estar a ser pior!
A outra charada do horóscopo que me atingiu, e bem, significa bem mais do que uma simples frase. É o toque para o que se vai seguir:-“Qualquer coisa pode matar. Mas o que não te deixa viver o dia-a-dia é que é a grande agonia”.
O meu tom amargurado [pois ainda não é o tempo de agonia], que agora manifesto, muito pouco ou quase nada tem a ver com eventuais danos colaterais próprios de uma vida marcada pela intensidade das circunstâncias de uma cidade apaixonada. E apaixonante. Não é o meu clube que me intriga, não são os golos desperdiçados, não é a Câmara fechada, não é o azul e branco trémulo por uma vez. A mais azeda amargura relaciona-se diretamente – e sobretudo – com o cinzento da vida, com o retrocesso da esperança que nasceu há 40 anos. Porque foi bonito mudar, porque foi legítimo mudar, porque foi importante transformar, porque foi fundamental avançar! As pontes passaram a fazer sentido e daqui voltou a irradiar um forte sinal de vontade, de querer, de sentir a liberdade, de conquista. E sim…também o futebol foi nessa onda. Mas os lugares do poder ficaram inquietos. E como sempre, bem cedo se dedicaram a estudar e a aplicar uma estratégia de regresso a um centralismo atávico, que tudo arrasta, tudo arrasa e tudo mata. Mesmo com a conivência de alguns lugares e de certos poderes locais, iluminados por uma fosca claridade de jogos egoístas, ambições mesquinhas, interesses desmedidos e concertados ou escorados em pessoas e organismos pouco recomendáveis. De um tempo bonito de abertura e de felicidade, pouco a pouco o país foi sendo coagido, chantageado, esmifrado dos valores da redenção de um Abril esplendoroso. E quase tudo se foi! Aos poucos fomos morrendo, amputados já de um frágil poder de decisão, mutilados nas convicções. E não foi o vento que quase tudo levou. Foi a fraqueza e a maldade dos homens vestidos de políticos. Qualquer que tenha sido a roupagem. Depois da esforçada façanha para colocar um ponto final aos célebres “roubos de igreja”, voltou-se a um tempo em que a dignidade se pendura por uma perna e em que o caráter se enrola numa folha branqueada de princípios. Voltamos a estar quase como a 15 de Março de 1974. Praticamente regressámos às cerimónias do tipo da “brigada do reumático”, o primeiro ministro voltou a ser o presidente do governo, o inquilino de Belém (apesar de sorrir para Bill Clinton) adormece nos bancos do jardim de um palácio que não representa já a res pública, o Terreiro do Paço agoniza de pasmo, há um túnel da Alexandre Herculano até ao Jamor, os árbitros treinam inclinados e só se adaptam a certos campos, os ministros enviam telegramas de felicitações aos reformados que vivem abaixo do limiar da pobreza, a comunicação social está nas mãos e no pensamento de um pequeno grupo de iluminados e endinheirados. Não deixam que a televisão se veja, a não ser o que lhes possa parecer matematicamente favorável, não deixam que a rádio se ouça e se espalhe, a não ser a horas mortas ou de audiência moribunda.

GENTE SEM PORTE

Temos um país suspenso
Em agonia de morte,
É já a Lei que se rejeita
Por certa gente sem porte.
E sofre mais quem não suspeita
Que essa gente percebe
E até promove
Traição infame, desonra e dor.
===Pag.19 em O PODER E O POEMA.2012. Ant.Bondoso e Edições Esgotadas.

[1] - Campo das Letras, 1998.


António Bondoso
Maio de 2014

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