2017-01-07

SOBRE MÁRIO SOARES…
…haverá sempre uma efeméride para celebrar, lembrando as lutas pela LIBERDADE!



         Sabe-se que Mário Soares não foi uma figura de relacionamento fácil e que preferiu sempre a frontalidade. Não deixou de alinhar em consensos – quando o país lhe pediu – mas foi sempre um homem de ruturas. Inclusive no interior do seu próprio partido e certamente na sequência das muitas dificuldades que atapetaram o seu percurso de vida, uma luta permanente pela liberdade – contra a ditadura! Por isso esteve preso, foi torturado, deportado e exilado. O que venho aqui dizer não é novo, talvez mesmo insignificante, mas fica registado mais uma vez.
         Dele ouvi falar em 1968, em S. Tomé, para onde foi deportado em Março desse ano sem culpa formada, depois de ter sido preso várias vezes. Ali, foi até impedido de dar explicações aos filhos do Secretário da Câmara, Aprígio António Malveiro, acontecendo que Maria Barroso foi igualmente impedida de exercer a atividade docente – como eu recordo no meu livro ESCRAVOS DO PARAÍSO (2005)


“Ninguém podia falar com ele porque a polícia não deixava, eu até tinha medo mesmo de ver a varanda de casa dele”, disse à LUSA (2014) Ângelo Carneiro, 76 anos, um dos poucos são-tomenses que conheceram de facto o então advogado oposicionista de Salazar. (…) Eu passava lá, era ainda no tempo da PIDE. Eu era jardineiro na casa de um branco que morava na marginal, perto do museu”, recordou Ângelo Carneiro. Com o passar dos anos ninguém ou muito pouca gente ainda se recorda de que Mário Soares viveu neste apartamento”, acrescentou.
O degredo, recordo ainda em Escravos do Paraíso, não mereceu a total concordância do então governador Silva Sebastião [que se avistava quase todos os sábados com Mário Soares], o qual achou a situação muito pouco própria – tendo em conta o elevado número de jornalistas estrangeiros presentes na Ilha, em consequência da trágica Guerra do Biafra.
         Um dos poucos brancos que mantiveram contacto com o ex-presidente foi Fernando Santos Mendes – mais conhecido por Fernandinho dos Angolares – um português de Viseu que foi para S. Tomé em 1952 e lá faleceu em 2013. A sua bisavó era natural de S. Tomé – Josefa Quaresma de Ceita – e os pais chegaram à Ilha nos primeiros anos do século XX. Fernando Mendes convidou Mário Soares para almoçar uma ou duas vezes e confessou-me não ter sido incomodado pela Pide.


Apesar de tudo, Soares teve a oportunidade de defender (pro bono) um funcionário da Alfândega acusado de desvio de bens. Um caso vulgar mas que, por toda a envolvência, acabou por ter grande repercussão na ilha. Julgamento de sala cheia, dizia-me o meu pai, que assistiu. E quando Mário Soares e toda a gente pensava na absolvição do réu, eis que a sentença produzida foi a condenação a 13 anos de prisão. Mário Soares, como eu escrevo em Escravos do Paraíso, nunca se havia sentido tão vexado na sua vida profissional, servindo-lhe apenas de consolação o facto de a sentença ter sido depois anulada pelo Tribunal da Relação de Luanda. Ficou, assim, patente aos olhos de todos, que a sentença tinha sido “dirigida politicamente” a Mário Soares.    


Foi com ele que a política se afirmou nos meus ouvidos e na minha consciência, sobretudo pela sua atitude e foi particularmente a sua combatividade que me motivou (ainda antes da Ala Liberal de Sá Carneiro e de Pinto Balsemão). Muitos anos depois tive o privilégio de o acompanhar na Presidência Aberta em Viana do Castelo (vindo-me à ideia o seu contacto com os pescadores e a simplicidade de um almoço informal de arroz de cabidela do qual não esqueço alguns pormenores curiosos); com ele me cruzei de novo em Macau, na inauguração do Aeroporto, e acompanhei a sua viagem a Tóquio, já no âmbito da sua presidência da Comissão Mundial Independente Sobre os Oceanos (1995-1998) que Mário Ruivo dinamizou por indicação da ONU. Mais recentemente, tive a oportunidade de lhe oferecer em Moimenta da Beira dois dos meus livros: "DA BEIRA! Alguns Poemas e Uma Carta Para Aquilino", o Mestre que ele admirou, como se sabe, e SEIOS ILHÉUS - como que uma recordação simbólica do tempo que passou em S. Tomé.



Mário Soares – um combatente pelas liberdades. E por isso foi escolhido para presidir à Comissão de Liberdade Religiosa no tempo de José Sócrates no cargo de 1º Ministro: "A vida pessoal e política de Mário Soares habilita-o a qualquer tarefa que tenha a ver com a liberdade e muito mais com a liberdade religiosa, que é um dos pilares das sociedades democráticas modernas”. MÁRIO SOARES respondeu: " Sou neutro em matéria de religião, mas reconheço a importância da religião e das Instituições Religiosas, particularmente no mundo conturbado de hoje, com o exacerbamento dos fanatismos religiosos. SOU AMIGO DE TODAS AS LIBERDADES"!
Um Homem a quem a Democracia Portuguesa e os portugueses ficam a "dever" uma importante quota-parte. Manuel Alegre, com quem se incompatibilizou nas presidenciais de 2006, acaba de classificar Mário Soares como “o construtor principal da democracia”.Como disse, nem sempre foi de relacionamento fácil. Apesar disso, outras figuras como o ex-presidente Ramalho Eanes dizem ter “uma grande consideração por Mário Soares enquanto batalhador pela democracia”, embora não tenha estima pessoal. Simultaneamente, embora possa parecer um paradoxo, foi um homem de afetos e cultor de amizades. E um homem de Cultura, muito à semelhança dos oito presidentes da Iª República. Que pensou o mundo e sobre ele escreveu muito, como se pode verificar pela extensa bibliografia. E que amou a Poesia e grandes Poetas – como é exemplo a seleção que José da Cruz Santos editou para o jornal Público. E esse poema para a mulher, Maria Barroso – trave mestra da sua estrutura familiar e cuja perda lhe terá acelerado o caminho para o final desta sua passagem. Poema escrito na prisão do Aljube em 22 de Fevereiro de 1962:
PARA TI, MEU AMOR
Para ti,
Meu amor,
Levanto a voz,
No silêncio
Desta solidão em que me encontro.
Sei que gostas de ouvir,
A minha voz,
Feita de palavras ternas e doces
Que invento para ti
Nos momentos calmos
Em que estamos sós.
Sei que me ouves
Agora
- Uma vez mais –
Apesar da distância
E do silêncio.
O amor,
Querida,
Opera esse milagre,
Simples,
Como tudo o que é natural:
Ouvir,
Bem no fundo do coração
As palavras não ditas
Mas sentidas;
Adivinhar,
Bem ao nosso lado,
A presença,
Insubstituível e certa
Do ausente
- Presença inconvertível
Em ausência,
Por maiores que sejam a distância
E o silêncio!
  
E depois há todo esse caminho que levou ao 25 de Abril de 1974 e à consequente descolonização – tardia e, sobretudo por isso, atabalhoada e traumática para os atingidos. É um tema complexo ao qual voltarei a dar especial atenção, tendo em conta particularmente o que vem sido dito e escrito – quantas vezes de forma mais emotiva do que racional, quantas vezes disparando em várias direções – com desconhecimento e com disparates, sem preparação de análise das conjunturas nacionais e internacionais nas várias épocas em perspetiva. Acusações infundadas e demagógicas a Mário Soares há de sobra. Só valem as que se reportarem à sua luta pela liberdade no seu país, contra a ditadura. Há muitas outras figuras de maior responsabilidade – como são Salazar e Caetano, que não perceberam o espírito do tempo; depois Spínola e Costa Gomes a juntar à Coordenadora do MFA. Como disse Melo Antunes – ideólogo maior do Movimento – “o processo de descolonização foi das coisas mais difíceis, mais dramáticas e mais trágicas que aconteceu em Portugal. Sei que se cometeram erros e assumo as minhas responsabilidades”.
António Bondoso
Jornalista
7 de Janeiro de 2017.














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