2022-01-10


ALGUMAS FIGURAS DA MINHA VIDA - JOSÉ CUNHA SALGUEIRO


Foto A.B. 

 Em Moimenta da Beira, não há quem não conheça e respeite o Zé Cunha Salgueiro, nem que seja pela «alcunha» de que não gosta mesmo nada.

Sendo ainda adolescente, sei que me «acompanhou» desde que nasci em 1950. Ali no Largo das Cinco Ruas, amigo da família, particularmente de meus pais, sendo a minha mãe – por via do casamento da irmã Clementina com António Salgueiro – portadora dessa proximidade. E depois a vizinhança e esse convívio saudável de um dos pólos da Vila. Das Cinco Ruas ao Terreiro e ao Convento eram apenas umas dezenas de metros. Mas era o centro de uma animação permanente, vivida com imaginação – a grande fortuna de então. O «Tio Zé» recorda com satisfação os bailes de então, não esquecendo a brincadeira que era a preparação dos bonecos tradicionais de compadres e comadres, elaborados em segredo, e que, depois, rapazes e raparigas procuravam defender a todo o custo, face à investida dos «grupos» rivais. 


Foto A.B.

E depois…outras memórias que me levam a recuar aos tempos do «Nubal», “prédio” que confinava com o Arrabalde e era cuidado pelo “tio António e pela tia Clementina”, e sobretudo à «sapataria do Manel» (da Canoa) onde ele me aturava com muita paciência. Digo eu, claro. Mas, só por isto, o «Tio Zé» merece ser uma das “Figuras da minha Vida”.

Prestes a completar 87 anos de existência, José Cunha Salgueiro nasceu na Rua da (Casa da) Moimenta, sendo um de 7 irmãos – 6 rapazes e uma rapariga – dos quais tive uma relação mais próxima com os saudosos António, que já referi, e com o Eduardo, que marcou uma época no «Grémio» e, mais recentemente, foi uma figura central da “Feirinha da Terra”, tendo sempre a seu lado a «tia Alcinda».

Com o Eduardo trabalhou no Grémio, tendo colaborado com a Junta Nacional dos Vinhos numa altura em que se exportava para a Rússia e para o Brasil, sem esquecer a Casa do Povo – ali ao lado da Biblioteca – onde se jogava ping pong e dominó e onde havia uma escola de música e se podia ver cinema por iniciativa de João Gonçalves, tudo isso antes de terminar na Segurança Social até à idade de aposentação em 2005, os anos de uma grande satisfação. Depois da reforma sobrou o cultivo dos campos, uma atividade que hoje começa a «pesar» na idade mas que ele se «recusa» a deixar de lado. 


Foto A.B. 

Mas a minha «memória» tem mais a ver com o tempo em que José Cunha Salgueiro trabalhava na sapataria do «Manel», no Terreiro, onde eu – com 6 e 7 anos – me divertia a «martelar» taxas e pregos no soalho e a utilizar um poderoso «íman» para arrebanhar os que sobravam. Era um «mestre» nessa arte de «rapina», manobrando com entusiasmo o íman, numa espécie de ondulação à direita e à esquerda. O tempo que ali passava, extremamente rápido apesar de ser extenso, era feliz. Não só graças à compreensão do Sr. Manuel mas sobretudo à atenção dedicada do «tio Zé». Apesar do trabalho de «moldar» o couro, de fazer da farinha um tipo cola tudo, de implantar as «meias solas» ou os «tacões» com zelo e precisão, o tio Zé tinha a paciência para me explicar o «processo». E pelo meio, ia mostrando exemplares do jornal O PORTO, de que era assinante. Ainda hoje mantém no sótão muitos dos jornais desse tempo. Devo recordar que ele não estava sozinho na sapataria: tinha a companhia do Toninho do Pote e do Zé Raposo.

Mas uma legítima busca de melhores condições salariais levaram o tio Zé para outras tarefas, de que já falei, seguindo-se o casamento com a «tia Isaura», descendente da família dos Correia Alves e Requeijos. Tinha 24 anos e a boda, preparada pela mãe da D. Virgínia – mulher do Beto Varandas – coincidiu com o Domingo de Ramos de 1959. A festa rija teve ainda o condimento de acontecer no dia em que se decidiu o campeonato de futebol nacional, uma jornada marcada pelo «caso» Calabote. O tio Zé acrescentou à festa o relato do futebol, ideia que não caiu nada bem em alguns «representantes» da Igreja – uns padres de Braga que se encontravam em Moimenta e que resolveram criticar o «excesso» da festa em tempo de “Quaresma”. O tio Zé e a tia Isaura são pais de duas filhas, a Ana Maria e a Luísa Salgueiro, avós de 3 netos e já bisavós. É esta figura que eu hoje homenageio simbólica e singelamente. 



De José Cunha Salgueiro, que faz o favor de ser muito meu Amigo, se pode dizer ainda que o respeito e a consideração que foi granjeando, se têm vindo a refletir até nos convites para uma envolvência política, ora se apresentando como candidato à Assembleia Municipal, ora como candidato à Câmara – como foi o caso das recentes eleições autárquicas de 2021, nas listas do Partido Socialista. 


Aqui lhe deixo um forte abraço e votos de muita saúde para poder continuar a fazer o que gosta, trabalhar no campo e conviver, esperando eu poder manter a sua amizade e continuar a receber ensinamentos sobre a poda das árvores de frutos. Obrigado Tio Zé. 



António Bondoso

10 de Janeiro de 2022. 









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