2015-07-06


LIDERANÇA E POLÍTICA


LIDERANÇA E POLÍTICA

Moisés, segundo a Bíblia, retirou o seu povo do Egito para o conduzir à Terra da Promissão, fugindo à escravatura. Moisés – conhecido como líder religioso e como legislador – anunciou-se com uma liderança forte, capaz, inteligente, corajosa, independentemente das suas origens. E comandou o “êxodo”, apesar de no caminho se apresentarem novas perspetivas a cada instante. Por isso é que a “travessia do deserto” foi feita no meio de muitos conflitos e de sofrimentos, vitórias e alegrias. Mas cumpriu a sua missão. 
Séculos depois, na Europa, homens políticos de visão entenderam que os caminhos da Paz deviam passar pela união de povos e de Estados, na base da igualdade e da solidariedade, para evitar novas “guerras” como as que marcaram as primeiras décadas do século XX. Contudo, os governantes mais recentes – incapazes de ser líderes – não souberam ler sinais, muitos deles evidentes, prenunciando um tempo de “espírito” novo a merecer novas abordagens e novas soluções. A esta luz, a união política não é desejável e a união monetária é impraticável. Só lá está quem quer, é um facto [independentemente de os povos se terem pronunciado ou não], mas há “União” com todos ou…o projeto é uma falácia. Por que razão está o Reino Unido de fora da “Zona Euro”?
E foram estes governantes – e não líderes – que conduziram muitos povos para um novo regime de escravatura. Uma escravatura monetária e financeira, na qual a “política” já não é primordial nem governa. Os governantes são apenas meros executores da ganância financeira.
Recordo agora, não sem uma ponta de mágoa e de tristeza, o que me disse há tempos D. Manuel Martins, Bispo emérito de Setúbal, sobre o Poder Político – o mais nobre dos poderes – que, apesar de tudo, pode, infelizmente, “dar em portas abertas para corrupção, injustiças de toda a ordem, boyismo, vaidades pessoais e familiares”. Porém, acrescentou, “é uma função nobre. É uma das funções mais nobres. Exerce-se com autoridade confiada (eleições) em vistas a realizar um serviço inteiro, competente, feliz, a toda a Comunidade. «Eu sou tu». Político versus Sociedade”.
Seguramente, não é isto que se passa hoje em Portugal e nesta União Europeia, cujos “pilares” fundamentais vão sendo derrubados por tecnocratas ao serviço da alta finança.
Miguel Torga sempre desconfiou deste nosso abraço à CEE, primeiro, e à EU, depois, insurgindo-se contra a ideia «da subserviência às ordens de uma Europa sem valores, incapaz de entender um povo que nela sempre os teve... É o repúdio de um poeta português pela irresponsabilidade com que meia dúzia de contabilistas lhe alienaram a soberania (...) e Maastricht há-de ser uma nódoa indelével na memória da Europa.»
==== António Bondoso



Grego não, que não sou, mas que saudades
Duma Grécia de artistas e de crentes
Em paisagens e formas permanentes
Onde se apaga a marca das idades (Torga, 1999: 547-548).

==== António Bondoso
Jornalista.
Julho de 2015

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