2013-10-24

A PROPÓSITO DA MINHA CRÓNICA DE 6ªFEIRA NO JORNAL BEIRÃO:
ANGOLA...ou a Diplomacia por um "Pasquim".



A TÁTICA DO QUADRADO…
…ou de como um jornal pode traçar e veicular as linhas mestras da política externa de um país soberano como Angola.

Não deixa de ser interessante acompanhar a agitação em que vive um “gigante com pés de barro”. Chamando nomes às coisas, o que a “cúpula” hiper-democrática angolana está a tentar – depois do falhanço da “Missang” na Guiné-Bissau e sob fogo cerrado do Congo – é aproveitar-se soezmente da fraqueza financeira e económica de um parceiro na CPLP, atingido pela mais dura crise no pós II Guerra Mundial, para desviar as atenções do povo angolano no que respeita à miséria e à pobreza, apesar dos fartos proventos dos diamantes [ainda de sangue] e do petróleo.
         Interessante, sobretudo, pela razão de que – num super governo como é o angolano – parece não existir o Ministro das Relações Exteriores. A “diplomacia”, pelos vistos, é feita – trabalhada e burilada – e veiculada pelo Jornal de Angola.  
         Por outro lado, essa “cúpula” angolana está ainda a aproveitar-se, de uma forma mesquinha, das debilidades – mas aí não é culpa sua – dos políticos (maus, por impreparados) que governam Portugal. O silêncio e a diplomacia pura teriam sido de bom conselho perante a catadupa de editoriais do que, em gíria, se pode apelidar de “pasquim”. Também aqui em Portugal circulam pasquins e alguns até vendem bem. O caso é que talvez não representem apenas a voz do dono.
Tinha prometido não voltar a escrever sobre esta hipercinesia do JA, mas o mais recente editorial [à hora e no dia em que escrevo] – recheado de algumas confusões, não apenas semânticas – obriga a que saia a terreiro. Não para defender o meu país ou para atacar o outro…apenas para repor alguma dignidade de argumentação. Os parceiros que Angola escolhe para negociar, seja em obras públicas seja em petróleo ou em diamantes, são da sua inteira responsabilidade. Mesmo que, desse negócio, resulte uma parceria de exploração e não de uma verdadeira cooperação. Preferir a China e o Brasil cabe exclusivamente ao governo angolano. A Portugal, pelos vistos, resta a dignidade de não pactuar com “negócios obscuros”. A PGR, em Portugal, tem independência para – mal ou bem, é verdade – mandar investigar o que lhe parecer pouco transparente. As célebres “fugas de informação” são outro problema. E se os “envolvidos” nessas investigações têm razões de queixa, devem processar o Estado português.
Chantagem? O que tem feito até agora o JA com os seus editoriais? Provocar o pânico nos portugueses ali residentes, de modo a que regressem a Portugal? Será mais um “desafio” para vencer, como tantos outros que já se colocaram a este país. A CPLP é prejudicada? Angola é parte integrante. Dizer adeus à Lusofonia? Confundindo uma e outra, o JA entra em contradição. A CPLP pode acabar no imediato? Claro que pode. Já dizia José Aparecido de Oliveira que não há um tempo determinado para isso. As partes decidirão. E a “lusofonia” – palavra atravessada nas penas do JA [não apenas, mas neste caso específico] – poderá também ela acabar? Claro. Mas, seguindo o caso “único” de Malaca, deverá demorar muitos séculos. A semântica não agrada? Complexo do descolonizado, que eu pensei estar já banido. Mas basta que o JA encontre um outro termo, em língua portuguesa, em Kimbundo ou em Tetum, que sirva à sua medida para aglutinar os milhões de cidadãos que se expressam em língua portuguesa por esse mundo fora. Aplaudirei em qualquer caso.
Mas é no último parágrafo do texto que o jornal Público nos oferece [21 de Outubro] que eu encontro a ideia mais cínica do editorial do Jornal de Angola: “A CPLP é, no entanto, considerada  pelo jornal muito importante, porque “permitiu congregar afectos, boas vontades e políticas capazes de cimentar os laços entre todos os que falam a língua de Agostinho Neto, José Craveirinha, Eugénio Tavares, Alda do Espírito Santo ou Camões”. * 
Não foi a CPLP que permitiu congregar afetos. Foi a língua, considerada oficial nos oito países. E ao contrário do JA, curvo-me perante as figuras que se expressam na “língua de Agostinho Neto, José Craveirinha, Eugénio Tavares, Alda do Espírito Santo e de Camões”. *Posso mesmo citar outros nomes que, eventualmente por falta de espaço ou de memória, aquele conjunto de folhas ignorou, como os de Viriato da Cruz, António Jacinto, Amílcar Cabral, Marcelo da Veiga e Manuel Alegre.
(*Os negritos, nesta parte do texto, são da minha exclusiva interpretação).
António Bondoso
Jornalista – C.P. 359

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